Os planetas exteriores e seus ciclos os astros e o amor



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Alison: É uveíte crônica, uma inflamação da úvea — a parede frontal do olho. Agora também tenho glaucoma nas duas vistas, mas até 1971 era só no olho es­querdo. E tenho catarata nas duas vistas. Há outras complicações menores, mas essas três são as mais importantes. O glaucoma no olho esquerdo eu tenho desde bebê. Esse olho foi sempre um pouquinho maior que o direito. Glaucoma é pressão interocular elevada.

Liz: Você nasceu mesmo com isso?



Alison: Eles não sabem. Pode ser. Quando eu era bem pequena era evidente nas fotos que um olho era ligeiramente maior que o outro. É bem provável que eu tenha nascido com isso; ninguém sabe. Também era muito míope, e foi isso que notaram primeiro. Fui a um oftalmologista porque não conseguia enxergar a lousa na escola, com cinco anos. Comecei a usar óculos nessa época, em 1946. Provavelmente eu já tinha uveíte, mas não foi diagnosticada. Só no início da adolescência começou a fazer diferença para mim, porque comecei a ver manchas borradas. Mas elas sempre desapareciam. Contei ao meu especialista. Ele só ficava mudando meus óculos. Quando estava com dezesseis anos, estava fazendo meus exames simulados e descobri que não conseguia ler as provas. Assim, voltei ao meu clínico geral e pedi uma segunda opinião. O clínico mandou-me outra vez para o especialista, que me fez testes e não descobriu nada.

Liz: Acho muito estranho ninguém ter percebido nada nem de glaucoma nem de uveíte.

Alison: Até hoje não sei como tudo isso pôde acontecer, como eles puderam dei­xar de ver o que estava se passando. Mas não viram. Davam-me tapinhas na cabeça



e diziam "É a idade, quando crescer passa." E mudavam minhas lentes de no­vo, de modo que àquela altura eram feias e grossas de verdade. Aí eu saí da escola, a conselho do meu especialista. Para mim estava ótimo, porque eu detestava a escola.
Liz: O que você preferia fazer?
Alison: Durante toda a minha infância eu pintava e desenhava. Era o que minha mãe fazia, e o que eu mesma queria fazer. Mas o destino também interveio me dando a mais detestável professora de arte que se pode imaginar. Eu gostava tanto de pintar e de desenhar. Mas essa professora era o tipo acabado da carrancuda, taciturna. ... Tudo tinha que ser desenhado realisticamente, e assim ela acabava me desconcertando. Assim, de uma maneira engraçada, ela estava certa. Em vez de ir para uma escola de arte, que sempre tinha sido minha ambição, quando fiz dezesseis anos e o especialista disse que era melhor sair da escola, eu disse "Vi­va!" e fui para Liberty's aprender a ser compradora de moda. A idéia parecia boa, eu poderia expressar um pouco meu lado criativo. Mas aí minha visão começou a piorar rapidamente. De manhã eu levantava às seis e meia, viajava para Londres e ficava exausta, e ai começou a aparecer mesmo. Minha visão ficou nublada e a nitidez não voltou. Voltei ao especialista. Mais uma vez seu diagnóstico foi errado. Ele não falou comigo, mas disse à minha mãe que eu tinha deslocamento da retina no olho esquerdo, que era o olho tão danificado pelo glaucoma. Ele me mandou para Moorfields para colocar lentes de contato.
Liz: Esses constantes erros de diagnósticos soam muito como um destino atuando.

Alison: Ele era o consultor de toda a região de Hertfordshire. Acho que foi uma espécie de destino. Foi assim que fui a primeira vez a Moorfields. Olha o destino outra vez! Na realidade, fiz minha primeira visita a Moorfields para cantar numa festa das enfermeiras. Isso foi mais ou menos um mês antes de eu ser mandada para lá como paciente. Eles me deram uma olhada e balançaram a cabeça. Deram-me remédios, que tomo até hoje. Isso foi em 1957. Comecei a tomar cortisona e vários outros medicamentos. A intenção não era curar, não existe cura. Mas mantêm a inflamação estável, há mais de 20 anos. Fiquei entrando e saindo do hospital, meu olho esquerdo foi operado várias vezes. Quando tinha dezessete anos, fiquei internada por quatro meses.

Liz: Você acha que essa foi a primeira vez em que você teve de encarar o fato de que seu estado era incurável?
Alison: É engraçado, mas não tenho uma noção nítida de quando percebi isso. Devo ter percebido em alguma ocasião, é claro. Mas acho que foi muito mais uma percepção gradual, porque me lembro de que no começo minha expectativa era de que dentro de seis meses eu poderia ler de novo. Nessa época tive que largar meu emprego no Liberty's. Pensei em estudar para professora e inscrevi-me em algumas escolas. Mas eles não me aceitaram, mesmo sem me conhecer, por

causa da visão deficiente. Hoje já não fazem isso; pelo menos me dariam uma oportunidade. E lá estava eu, entrando e saindo do hospital, fazendo uma ope­ração atrás da outra, imaginando qual seria meu futuro. Durante esse primeiro ano, acho que eu acreditava mesmo que, com o tempo e o tratamento, recuperaria um pouco da visão para poder fazer o curso de professora.


Liz: Como reagiu a tudo isso a sua família?
Alison: Felizmente, meus pais aceitaram muito bem e me apoiaram muito. Pas­sava o dia em casa, desenhando e ouvindo música. Mamãe estava em casa, meu avó também. Nadávamos muito, andávamos, passeávamos de bicicleta nos bosques durante o verão. Mamãe lia muito para mim. Fiz um pouco de trabalho voluntário para pessoas do hospital. De algum jeito eu sempre arranjava o que fa­zer. Mas me sentia muito insegura com relação às perspectivas futuras. Aos dezessete anos, eu achava que ia casar com meu namorado e isso resolveria tudo. Mas isso não durou muito. Aos poucos ia percebendo que provavelmente nunca mais poderia ler ou ter algum tipo comum de trabalho onde a visão fosse necessária.
Liz: Como você lidou com essa percepção gradual? Você passou por extremos emocionais? Ou foi capaz de aceitar melhor?
Alison: De vez em quando pensava — "Por que eu? " — mas muito raramente. Acho que, com a minha praticidade capricorniana com relação às realidades do mundo, a autopiedade para mim é uma coisa muito desgastante. Não faz nenhum bem a ninguém. Mesmo caindo nela periodicamente, a sensação de como é inútil se lamentar, se ressentir ou ficar amarga ou ter autopiedade, tira-me dela bem depressa. Detesto ficar nesse estado. Encontro recursos dentro de mim para sair dele. Tem gente que já me disse — "Você não tem raiva do seu especialista?" ou "Por que você não o processa?". Bom, não há dúvida de que ele trabalhou mal.
Liz: Como é que a sua atitude com relação à perda de visão se encaixa com as suas opiniões religiosas ou filosóficas? A perda de visão fez você chegar a pen­sar nesse lado das coisas?
Alison: Claro, mas passou por muitas fases diferentes. Quando tudo isso acon­teceu, na minha adolescência, eu era uma cristã freqüentadora de igreja, e uma cristã consciente desde os treze anos. Quando cheguei aos dezesseis anos, já estava interessada, de maneira muito informal, em Paul Tillich e estava caminhando para essa visão menos ortodoxa do cristianismo, mas continuei lecionando na escola dominical porque gostava das crianças. Durante uma época fre­qüentei a igreja metodista e fiquei muito amiga de uma mulher que tinha uma esclerose múltipla bem grave. Acho essa atitude que diz "obrigado, Deus, por essa enfermidade que faz com que eu me eleve" bastante repugnante. Mas minhas crenças, certamente, serviram de apoio para mim. Quando abandonei o cristianismo ortodoxo, Já tinha feito uma mistura dos meus recursos e outros dados filosóficos.

Liz: E o seu trabalho, lá que o curso para professora estava interditado para você?
Alison: Ouvi falar de um curso de serviço social, que só podia fazer depois dos vinte e um anos. Arranjei um emprego de recepcionista numa fábrica local. Durante alguns anos, esse emprego me deu um pouco de dinheiro e uma identidade de trabalhadora. Desenhava e escrevia; foi uma transição bem útil. Depois me inscrevi no curso de serviço social e mudei para Londres. Isso me deu uma resposta ao meu problema e também um trabalho onde podia usar minha experiência. Deu-me uma chance de fazer alguma coisa desafiadora. A experiência toda de ficar quatro meses no hospital, ficar entrando e saindo do hospital, es­tar com pessoas que tinham perdido a visão, tudo isso me impressionou muito. Costumava visitar uma mulher cega e surda, uma velha, até ela morrer. Passar muito tempo com uma pessoa completamente surda e completamente cega me fez começar a pensar em questões muito profundas. Comecei a fazer serviço social com pessoas cegas velhas. A vida delas em tão horrível, em North Paddington e Kensal Rim. .. moradias horripilantes, senhorios desumanos ... Lembro quando a pensão aumentou para quatro libras. Questionei meu papel em tudo isso, e também onde estava Deus em tudo isso. Passei por uma época de bastante depressão, mesmo nunca tendo sido dada a depressões do tipo clássico. Por temperamento, não é o meu estilo. Mas a realidade que encontrava no dia-a-dia era muito deprimente. Mas cantava o tempo todo.

Liz: Onde é que entrou o seu canto?
Alison: Já tinha começado a cantar com dezesseis anos, e usava esse canal muito conscientemente. Dá-me um prazer tremendo e adoro a reação positiva que desperto. A necessidade de cantar era, e é, um contrapeso ao confronto da questão da minha perda de visão, da perda de visão dos outros, da morte, todas essas questões deprimentes. Em 1965, aderi a uma espécie de marxismo não-ortodoxo. Mas nunca caiu muito bem em mim. Durou mais ou menos cinco anos. Foi um período muito estranho. Envolvi-me com um grupo de artistas, que tinha um lí­der genial no canto e no teatro. Também era marxista. Aprendi imensamente com isso. Fizemos projetos de gravação, projetos de rádio e projetos de teatro. Durante algum tempo, isso me absorveu criativa e filosoficamente. Quando sur­giu o Movimento das Mulheres, fez muito mais sentido para mim do que a visão marxista do mundo. Agora voltei à compreensão mais holística do mundo, que me ajudou a aceitar as coisas. Se você consegue fazer isso, de alguma forma você encontra recursos dentro de si, e pára de exigir respostas e justiça. Essas ques­tões tornam-se irrelevantes. Não há soluções. O taoísmo atrai-me. Quanto mais separados nos sentimos dos outros, dos animais, do que for, mais somos capazes de perseguir e destruir. Acho que a visão das coisas de Jung me atrai. A minha cegueira faz parte do fio que me levou a tudo isso.
Liz: Então você acha que ganhou alguma coisa, bem como perdeu alguma coisa?
Alison: Bom, sem esse problema certamente eu não teria que enfrentar certo tipo
de coisas. Esse problema levou-me a trabalhar não só com cegos, mas também com viciados em drogas. Nesse trabalho você tem de olhar a morte de frente. Fui a mais enterros nos quatro anos em que trabalhei com eles do que em qualquer outra época da minha vida. Acho que realmente não cheguei a uma autentica liberação ou aceitação da minha cegueira até mais ou menos dois anos atrás. Nes­sa época fui operada pela primeira vez do olho direito. Qualquer intervenção cirúrgica numa vista tão danificada quanto a minha cria um potencial de deterioração completa. É muito arriscado. Sempre soube que se continuasse como esta­va, sem cirurgia, a catarata acabaria ficando tão espessa que perderia completamente a visão. Então era possível operar e removê-la. Poderia recuperar parte considerável da visão — ninguém sabe quanto — ou então pioraria de vez. Esse era o dilema que eu sempre soube que teria de enfrentar. Na realidade, sonhei com ele. Sonhei que estava na mesa de operação falando com o cirurgião sobre o que aconteceria quando eu saísse da anestesia. Seria ou visão ou cegueira. Mas o sonho não teve desenlace. O olho resistiu à operação, embora mais tarde me dissessem que tinha sido muito precária. A pressão baixou consideravelmente. Mas depois subiu de novo. Depois do alívio, foi uma decepção horrível. Durante três dias me rodeou como uma nuvem. Durante todo o período antes da ope­ração, sempre havia a incerteza quanto ao resultado, o que me impedia de estar completamente presente. Mas quando passei pela operação, fiquei aliviada e depois decepcionada outra vez, libertei-me de alguma coisa. Deu-me uma es­pécie de liberdade. Claro que não quem perder a visão que me resta. Mas parei de me preocupar com isso. Também parei de procurar curas.
Liz: Você tentou a medicina alternativa?
Alison: Tentei, foi uma das minhas fases. Conheci uma mulher na Califórnia que estava nos primeiros estágios de glaucoma. O diagnóstico tinha acabado de ser feito, ainda quase sem perda de visão. Ela tinha começado a procurar vários cu­radores, que era o que eu também tinha feito, e perguntou-me sobre a minha ex­periência nessa área. Eu tinha tentado curadores espirituais, acupuntura, macrobiótica, métodos Bates, todo tipo de coisas. Disse a ela que tinha me tomado tanto tempo e energia que não me interessava mais. Como o meu diagnóstico era de uma condição congênita, reverter quarenta anos desse tipo de dano simplesmente tomava muito tempo e energia. Disse à mulher que eu tinha chegado ao ponto em que simplesmente queria continuar vivendo. Ela ficou imensamente aliviada. Estava com medo de transformar sua vida numa vingança contra a perda de visão. É difícil circular no grupo de medicina e terapia alternativa na Califórnia, aliás em Londres também, porque eles ficam muito absorvidos na sua cura. Conheci pessoas que tinham mais interesse em me curar do que eu mesma. Fez-me pensar — quem é o doente?
Liz: Na psicoterapia acontece uma coisa parecida — a determinação de curar o paciente. É difícil evitar.
Alison: Sim, mas foi interessante ficar do lado receptor. Eu mesma sou assistente social, conselheira e terapeuta, fora a minha terapia. Assim, foi bem interessante

encontrar aquela necessidade de me curar. Percebi que eu mesma já não ligava tanto. Quando me envolvi com a medicina alternativa passei por algumas de mi­nhas épocas mais difíceis com relação à minha visão. Mas chegou o ponto em que já não é tão importante. A perda da visão dá-me tanto quanto me tira.



Liz: Como você vê o seu futuro agora?
Alison: Recentemente fiz uma coisa nova, num seminário com Pat Watts, encenando mitos. Cantei um mito. Li a história um dia antes e improvisei uma canção. Foi uma experiência maravilhosa fazer parte da história de Homero, que também era cego. Foi uma maneira diferente de ver o mundo. Agora tenho uma noção disso. Principalmente através da voz, cantando e dizendo canções que têm qualidades míticas. A perda da visão deu-me uma percepção mais aguda do som e da voz. Agora faço seminários de voz. Acho que é uma combinação esquisita, uma pessoa que perdeu a visão, é terapeuta e canta sem acompanhamento. Mas esta sou eu.

A resistência e o realismo de Alison falam por si mesmos. Agora gostaria de examinar seu horóscopo, tanto o mapa natal como os planetas progredidos e os trânsitos atuantes entre as idades de dezesseis a dezoito anos. Alison não declarou ter experimentado nenhuma revelação transpessoal importantíssima, tampouco segue qualquer teoria religiosa para explicar ou justificar seu padrão de vida. É uma pessoa forte e otimista que lidou construtivamente com uma limitação difícil, integrando-a ao contexto geral de sua vida, de modo que o que domina nela não é a perda da visão, e sim sua própria personalidade. Muitas vezes isso não acontece quando o destino golpeia a vida de uma pessoa, pois em muitos ca­sos a condição e mais evidente que a pessoa. Não quero teorizar sobre o fato de Alison ser "individuada" ou ter "experimentado o Self". Embora eu tenha usado esses termos durante todo este capítulo, de certo modo não são oportunos agora. Mas ela é uma pessoa extraordinariamente íntegra, que conseguiu juntar extremos positivos e negativos. Sua vida faz sentido para ela, e portanto ela tem um impacto muito pronunciado sobre os outros. Deixou de procurar respostas, dessa forma tornando-se ela mesma uma resposta; assim, tudo que ela faz tem autoridade intrínseca. Como diz Aniela Jaffé:

Como acontece com todas as questões que raiam o transcendental, a única resposta que a psicologia pode dar é antinômica: o homem é livre e não é livre. Não é livre para escolher seu destino, mas sua consciência torna-o livre para aceitá-lo como tarefa imposta a ele pela natureza. Assumindo a responsabilidade pela individuação, ele se submete voluntariamente ao Self — em linguagem religiosa, ele se submete à vontade de Deus.156
O planeta Plutão domina o horóscopo natal de Alison, fazendo conjunção com o ascendente em Leão, com a Lua em Câncer na décima segunda casa, oposição com a conjunção Sol-Mercúrio em Capricórnio na sexta casa, quadratura com a conjunção Júpiter-Saturno em Touro na décima, trígono com Marte em Sagitário na quinta, e sextil com Netuno no fim de Virgem na terceira casa. Plutão, assim, aspecta com todos os planetas do mapa, exceto Urano e Vênus, e faz

também trígono com o Meio-do-Céu. Não preciso me alongar sobre a qualidade de fatalidade que acredito que esse Plutão poderoso transmite; já vimos um bocado de Moira na primeira parte deste livro. Basta dizer que o quinhão da natureza, nesse caso, tem limites muito fortes e claramente definidos, centralizados especialmente no corpo físico, como reflete a conjunção de Plutão com o ascenden­te. O nascimento da pessoa também é refletido pelo ascendente; quando está conjunto a Plutão, muitas vezes a experiência do nascimento é difícil, ou existe algum tipo de doença, ou alguma coisa muito errada no ambiente onde emerge a criança. Alguma coisa predestinada — física ou psicológica — preside o próprio nascimento, exercendo uma influência irrevogável sobre todo o resto da vida. Como o ascendente também se refere à capacidade de expressão da pessoa no mundo, essa expressão seria profundamente afetada, dificultada ou alterada pela posição de Plutão. É óbvio que nem todas as pessoas com Plutão ascendente têm uma limitação física como a de Alison, mas em geral existe algum tipo de limitação profunda e irrevogável — um trauma de nascimento, uma quase morte, unia mãe doente que não pode amamentar — que deixa uma marca na pessoa, bloqueando ou frustrando a expressão comum, de alguma forma voltando-a para dentro de si mesma, e forçando-a a transformar sua visão da vida. Assim, parece haver um destino hereditário ou biológico operando no mapa de Alison, o que também é sugerido pela conjunção de Plutão com a Lua na décima segunda casa. Pode ser que aqui esteja mostrado algum tipo de "karma familiar", embora sua natureza permaneça misteriosa para mim e para Alison. As oposições de Plutão com o par de planetas em Capricórnio na sexta casa também sugerem que o destino de Plutão vai operar através do corpo; essa casa refere-se, entre outras coisas, à relação da pessoa com seu veículo corporal e com sua vida diária. Minha reação inicial ao horóscopo de Alison, quando ela veio me ver pela primeira vez, foi considerar esse Plutão dominante, deixando-me com a impressão de que sua cegueira era uma espécie de destino; que provavelmente não seria muito passível de tratamento, ortodoxo ou não, e que era um trampolim para seu desenvolvimento interior. Pode-se encará-lo como Moira, ou sugerir que esse Plutão é um dos principais instrumentos de que dispõe o Self para ajudar Alison a desenvolver a "vo­cação" da "verdadeira personalidade".

Muita coisa do caráter de Alison, como denotam seus comentários, também se deve ao Plutão dominante. Sua natureza alegre, expressiva e direta, caracteristicamente refletida pelo ascendente em Leão (Apoio, o deus sol, era o deus da música), foi aprofundada e introvertida pela experiência da cegueira, e assim suas limitações tornaram-se uma forma de entrar na vida aprisionada dos outros. O tipo de trabalho que a atraiu — lidar com deficientes, lesionados e perturbados — é tipicamente plutoniano. Parece que ela aceitou de boa vontade a carga e a "tarefa" que esse planeta lhe impôs, em vez de fugir dele ou procurar "transcendê-lo". Talvez sua grande praticidade não a incline a riscar as implicações do sofrimento humano que o seu próprio sofrimento levou-a a enfrentar. Mas volto aqui à mesma pergunta que fiz anteriormente: o que é que permitiu a Alison lidar com um posicionamento tão poderoso de Plutão quase sempre de maneiras invariavelmente construtivas e criativas, e não negativas? Não posso responder a essa pergunta, pelo menos não de uma perspectiva astrológica, porque essa "coisa", no meu entender, não pode ser encontrada no horóscopo. A fortaleza

e a persistência tenaz demonstradas por ela são tipicamente capricornianas; mas na realidade a persistência tenaz não é o suficiente. Mesmo as experiências que ela teve com os médicos, que mostraram ser muito mais cegos do que ela, parecem se encaixar no padrão; como diz Jung, "todas as peças se encaixam". Presumivelmente, se o estado de Alison tivesse sido descoberto mais cedo, os dois olhos não teriam sido tão danificados. Mas parece, pela colocação de Plutão, que embora algumas pessoas sejam capazes — ou tenham "permissão" — de encontrar ajuda, ortodoxa ou não, Alison não estava destinada a ser uma delas. Algo mais era exigido dela, e ela se colocou à altura do desafio; mas o que, então, fez essa exigência?

Capricórnio, um signo de terra, Inclina-se mais pela solução dos problemas de formas práticas, e é menos propenso a "chocá-los" e fazer da vida uma tragédia interior. O lado fortemente saturnino da natureza de Alison parece falar bem alto quando ela se refere à autopiedade como "desgastante", tirando-lhe a paciência. Assim, qualquer escuridão ou sofrimento que pudessem estar à sua espera para esmagá-la, ligados ao Plutão ascendente e à conjunção Lua-Plutão, traduziram-se em serviço à escuridão e ao sofrimento que ela encontrou no mundo à sua volta. Isso também está de acordo com a ênfase na sexta casa. A dedicação de Alison a seu trabalho, sua determinação de tratar as coisas da maneira mais normal possível, refletem essa sua qualidade terrena, de longe o elemento mais dominante do horóscopo. A terra, diante das verdadeiras emergências, é sensa­ta; sua tendência é simplesmente ocupar-se o bastante para não pensar. A pro­funda preocupação pelos problemas sociais e a incursão pelo marxismo como so­lução potencial também ê uma abordagem da vida caracteristicamente terrena, pois a terra não tem muito tempo para grandes visões e teorias. Capricórnio, em particular, tem o maior respeito pelas pessoas que realizam alguma coisa, que ajudam de verdade de forma clara e que colaboram com a comunidade; muitas ve­zes é através desse tipo de trabalho que Capricórnio aprende a se respeitar. Que Alison não se detivesse na terra, mas investigasse muito mais profundamente além da superfície das coisas, talvez se reflita pela oposição entre Plutão e o Sol e Mercúrio. O seu ascendente em fogo, igualmente, acabaria conduzindo-a para um mundo mais mítico ou simbólico, que parece ser a direção em que sua vida está caminhando na casa dos quarenta. E o Sol num grande trígono com Netuno e Urano também sugere que sua visão ê consideravelmente maior que o mundo muitas vezes limitado da terra. Porém o seu cerne é inquestionavelmente capri­corniano, o que transparece muito nitidamente na conversa. Os mitos associados a Capricórnio, descritos anteriormente, referem-se ao simbolismo da crucificação e do aprisionamento, do desespero e da descoberta da fé inabalável, na terra arruinada na vida material. Alison não só viveu sua terra arruinada mas entrou voluntariamente nela, através do tipo de pessoas que decidiu ajudar, submetendo-se à depressão e ao desespero inevitavelmente acarretados por esses encontros. Inclino-me a desconfiar de muita gente que fala em "aceitação" de uma limitação como a cegueira, pois por baixo disso muitas vezes há uma fermentação que os leva a uma espécie de otimismo frenético e a um programa de dissociação concomitante. Mas me inclino a acreditar em Alison que, como uma boa filha de Saturno, pagou o seu preço. Ela tem poucas ilusões sobre a vida e parece não precisar das esgarçadas nuvens de esoterismo para ampará-la. Ela mesma descobriu

como se amparar, e a combinação de Saturno e Plutão produziu uma magnífica sobrevivente, que também possui o autêntico calor e senso de humor representados por Leão no ascendente.

Não questionei Alison sobre as condições de sua vida familiar, porque ela já tinha se questionado bastante na terapia, sentindo ver a família com razoável clareza. Acha que teve apoio na infância e não parece "culpar" ninguém por sua situação. Mas me chama a atenção a conjunção Júpiter-Saturno na décima casa, que se refere à mãe, e também a conjunção Lua-Plutão, que igualmente se refere à mãe. Tenho a impressão de que há alguma coisa difícil com relação à mãe, alguma coisa com que talvez a mãe de Alison não fosse capaz de lidar, mas que a própria Alison precisou enfrentar. É possível que isso se relacione às emoções muito primitivas ou passionais das quais o significador astrológico é Plutão, e das quais Alison tem seu quinhão. Isso, juntamente com a cegueira, também por ter sido responsável por sua opção de trabalhar com pessoas em estado de desespero íntimo. Acho extremamente interessante que a deficiência de Alison lhe tenha barrado a vida de artista, personificada pela mãe, de forma que o seu considerável talento criativo tivesse de se unir ao serviço prático da vida. A pintura, vocação da mãe, não era "permitida".

Assim, Alison reflete seu horóscopo natal, no caráter e no padrão de vida. Is­so não é estranho; do ponto de vista da astrologia, é o que deve acontecer. O que me impressiona, entretanto, é a qualidade de consciência que Alison trouxe para sua vida, de modo que tudo "se encaixa" e "faz sentido". A colocação do Sol dá uma pista de como pode ocorrer essa junção, pois ele é um símbolo do ego que é, de muitas formas, o veículo ou a expressão material do Self. Assim, a pessoa que trabalha para desenvolver o Sol também está se afastando do coletivo até se tornar ela mesma e experimentar a si mesma enquanto entidade separada e única. Colocado na sexta casa, o Sol no mapa de Alison sugere que o desdo­bramento de sua personalidade ocorreria na esfera do corpo físico e das condições a ele impostas; na vida do trabalho e nas tarefas do dia-a-dia; nas questões comuns que fazem parte da vida material. Em resumo, esse é o reino da deusa Astréia, que governa os padrões ordenados da natureza. A perda da visão de Alison foi um catalisador para uma maior consciência da esfera dessa sexta casa, porque a vida material se torna repleta de obstáculos, desafios e mistérios, em vez de ser uma coisa simples. A pessoa que enxerga não pensa no que seus olhos fazem por ela, mas sem a visão essa esfera aparentemente banal se torna um grande problema e pode ser a área onde ocorre uma profunda revelação. Assim, o self, considerado desse ponto de vista, dá-se a conhecer a Alison através do esforço de manter-se à altura das dificuldades do reino da sexta casa.

Aniela Jaffé escreve o seguinte sobre o processo de individuação:
A individuação não consiste unicamente em sucessões de imagens do inconsciente. Elas são apenas parte do processo, representando sua qualidade interior ou espiritual. Seu complemento necessário é a realidade exterior, o desenvolvimento da individualidade e seu concomitante destino. Os dois aspectos do processo são regulados pelo poderoso arquétipo do self. Em outras palavras, no decorrer da individuação o self emerge no mundo da consciência, ao mesmo tempo em que sua natureza originalmente psicóide se cinde, de modo

que se manifesta tanto através de imagens interiores como através de acontecimentos da vida real.157


Dessa forma, o Self manifesta-se, nesse caso, tanto como a cegueira, que forçou Alison a seguir um caminho específico de desenvolvimento, como a resposta interna a essa cegueira, que a levou a encontrar um significado e um potencial cria­tivo nessa condição.

Entre as progressões planetárias para 1957, o único aspecto em vigência durante o difícil período em que Alison foi pela primeira vez a Moorfields e sofreu uma série de operações é Vênus progredido aproximando-se de um trígono com Urano e em seguida fazendo uma conjunção com o Sol. Do ponto de vista ortodoxo, dificilmente esse é o tipo de quadro que descreveria as dificuldades por que ela passava. O fato de ela ter um namorado, e na época acreditar que ia se ca­sar com ele, está muito mais de acordo com esses aspectos. Porém, de um ponto de vista menos ortodoxo, a conjunção de Vênus com o Sol na sexta casa, que também é o regente do mapa, sugere um período em que a individualidade de Alison estava começando a florescer. Em resumo, assinala o limiar de seu verda­deiro desenvolvimento. O fato de esse limiar se fazer acompanhar de um considerável grau de desconforto e sofrimento não é revelado por esse único aspecto progredido. Mas estou convencida de que os aspectos progredidos não dizem necessariamente qual vai ser a sensação; ao contrário, dizem qual vai ser o significado.

O quadro mostrado pelos planetas em trânsito é mais informativo, do ponto de vista literal. Como estamos considerando um período de dois anos, são os planetas pesados que precisamos levar em conta, já que os outros se movem depressa demais para sugerir o tipo de mudança profunda indicada por esse período da vida de Alison. O trânsito mais impressionante é o de Urano, que tinha entrado em Leão no ano anterior e estava pairando sobre o ascendente de Alison. Em abri! de 1957, Urano estava estacionário exatamente sobre o ascendente, em conjunção com Plutão natal; ficou aí até junho. Urano, como constatamos em outros casos, tem uma propensão a puxar as coisas para a luz; sugere uma época de percepção e avanço. Durante esse período, a verdadeira natureza do estado de Alison foi descoberta — ou, dito de outra forma, foi a época em que ela veio a perceber a natureza de seu destino. Durante esse trânsito sua visão começou a falhar de verdade; não posso deixar de associar o estreitamento de fronteiras ao contato entre Urano e Plutão. É como se Moira, finalmente, se desse a conhecer. Urano continuou o trânsito pelo primeiro decanato de Leão durante a primeira metade de 1958, quando também fez quadratura com a conjunção natal Júpiter-Saturno, colocada na décima casa. Alison, assim, viu-se atormentada pela questão do que fazer de si mesma; sua primeira escolha, ser professora, era impossível. Juntamente com a percepção do estado físico, vieram conflitos de um tipo de décima casa, referentes vocação futura.

Netuno também estava ativo por trânsito nesse período. Tinha entrado em Escorpião no final de 1956 e, dessa forma, fazia quadratura com o Ascendente, Plutão natal e Urano em trânsito, durante a primeira metade de 1957. Permaneceu no primeiro decanato de Escorpião, também em oposição a Júpiter-Saturno natal de Alison, durante três anos. Juntamente com os tradicionais sentimentos de confusão e de desorientação tão freqüentemente trazidos pelos trânsitos de

Netuno, também existe a implicação de um sacrifício a ser feito em muitos ní­veis. Entre outras coisas, foi preciso sacrificar a esperança de um prognóstico sem problemas; também foi preciso enfrentar todas as profundas implicações envolvidas na perda da visão. Plutão em trânsito também estava envolvido, deixando os últimos graus de Leão no começo de 1957 e entrando em Virgem no verão, iniciando uma longa quadratura com o Marte natal de Alison em Sagitário, que iria durar vários anos. Os contatos Marte-Plutão, como já vimos, levantam a questão de frustração e de negação da vontade e da liberdade pessoal; suponho que, nesse período, Alison sentiu mais raiva e desespero do que consegue se lembrar. Plutão também transitou em trígono com a conjunção Júpiter-Saturno, de modo que, juntamente com a obstrução de Marte e sua feroz independência sagitariana, começou também a formar-se gradualmente um senso de propósito ou de vocação, começando com a decisão de Alison de estudar serviço social e seu envolvimento com outras pessoas cegas. Finalmente, Saturno em trânsito estava no primeiro decanato de Sagitário nos primeiros meses de 1957, dentro da órbita de conjunção com Marte natal, completando o quadro de limitação, redução e total recanalização de energia.

O envolvimento dos três planetas exteriores nessa época é bastante impressionante, mas não surpreendente, pois tenho constatado que os planetas exteriores tendem a se juntar em épocas particularmente "predestinadas" da vida. Não os associo a qualquer "espiritualidade" especial, nem acho que eles representam o Self, não mais que qualquer outro planeta; mas estou convencida de que eles "liberam" o destino, à medida que ativam o mapa natal num nível muito profundo e revelam seus mais profundos desígnios subjacentes. Durante os trânsitos dos planetas exteriores, os nossos mitos, o modelo de nossa Moira, nos são revelados; se alguma coisa foi evitada, ou não foi vista, ou foi disfarçada, os planetas exte­riores rasgam o véu e exibem os contornos nítidos do padrão que nos foi dado e dentro dos quais precisamos achar uma forma de viver.

A questão da resposta individual ao padrão de vida total é, na verdade, a questão de como a consciência responde aos ditames do Self, a totalidade psíquica. Sob muitos aspectos, esse é um problema moral; inevitavelmente, as soluções encontradas não serão achadas nas fórmulas coletivas. A qualidade que estou tentando transmitir, e que acho que Alison possui, é uma qualidade de resposta livre e individual ao destino. Ela poderia ter reagido de muitas maneiras, mas sua moralidade, em última análise, é dela mesma. No seu entender, isso abrange o "li­vre-arbítrio" de que escreve Jung, a "capacidade de fazer de bom grado o que se precisa fazer". Esse tipo de livre-arbítrio não vem de graça; não e um "dado". É preciso lutar por ele, e o processo dessa luta também é o processo da individuação. Ego e Self são partes de uma totalidade, mas não são a mesma coisa; os dois se avistam, ora como amantes, ora como inimigos, mas não podem ser separados. Jung assim descreve esse relacionamento:

A qualidade intrinsecamente voltada para objetivos do self, e o impulso de realizar esse objetivo, não dependem da participação da consciência. Não podem ser negados, tanto quanto não se pode negar a consciência do ego. Esta também faz suas reivindicações peremptoriamente, muitas vezes em oposição aberta ou encoberta às necessidades do self em evolução. Na realidade, isto

é, com poucas exceções, a enteléquia do self consiste numa sucessão de infindáveis compromissos, onde o ego e o self diligentemente mantêm em equilíbrio os pratos da balança para que tudo corra bem.158

A consciência pode se identificar com seu parceiro transcendental, e nesse caso há uma inflação, e até uma psicose, onde a pessoa acredita que é Deus, e não um indivíduo. A consciência pode negar completamente a realidade do Self, embora isso não altere de forma nenhuma o padrão da psique, e nesse caso experimenta-se falta de sentido e sensação de uma negra fatalidade, quando a vida não se mostra disposta a submeter-se à vontade do ego. Pode-se percorrer o espectro todo durante a vida. Não tenho, como não tinha no começo, uma resposta verdadeira à questão se somos predestinados ou livres, o que é o destino, ou se po­de ser transformado. Mas acho que o misterioso postulado de Jung sobre o Self descreve grande parte dos paradoxos do destino, além de abrangê-los de forma a não dividir-nos entre a passividade fatalista e o arrogante auto-engrandecimento. É difícil, para o astrólogo, refutar essa autoridade interna, que pode ser vivida de tantas formas diferentes, dispondo de um mapa de posições planetárias que mostram quais são suas intenções; mas a fuga fácil para a linguagem dos "potenciais" é igualmente negada, pois qualquer encontro com essa autoridade interna não tem o sabor de um potencial que é provado, mas muito mais de um choque com a vontade dos deuses ou de Deus.

Acho que fica bem terminar com um conto de fadas, como comecei. Esta é uma história bem conhecida que contém uma profunda Ironia. Deixo ao leitor a tarefa de decidir se ela realmente trata do destino ou do Self Mas certamente trata da natureza humana, que contém muito dos dois.
O PESCADOR E SUA ESPOSA159
Era uma vez um Pescador que vivia com sua mulher numa pocilga perto do mar. Todo dia, ele saía para pescar — e pescava e pescava. Uma vez ele estava sentado com sua vara, olhando a água límpida, e ficou assim durante muito tempo. En­tão de repente a linha foi para baixo, bem lá no fundo, e quando ele a recolheu de novo viu que tinha fisgado um grande linguado. Então o linguado lhe disse: "Ouve, Pescador, eu te imploro, deixe-me viver; na verdade eu não sou um linguado, sou um príncipe encantado. Que benefício vai te trazer me matar? Minha carne não é boa para comer; põe-me na água de novo, deixe-me ir." "Ora", disse o pescador, "não precisa explicar — certamente vou soltar um peixe que sabe falar." E com isso devolveu-o à água límpida, e o linguado foi para o fundo deixando atrás de si um longo rastro de sangue. O Pescador levantou-se e foi encontrar sua mulher na pocilga.

“Marido”, disse a mulher, "você não pegou nada hoje?" "Não", disse o homem, "peguei um linguado, que disse que era um príncipe encantado, e eu o soltei de novo." "Você não fez nenhum pedido antes?", disse a mulher. "Não", disse o homem; "o que deveria pedir?" "Ah", disse a mulher, "é duro viver sempre nessa pocilga, que cheira mal e é tio horrível; voei podia ter pedido uma casinha para nós. Volte lá e chame o peixe. Diga a ele que queremos uma casinha, certamente ele nos dará." "Ah", disse o homem, "por que eu deveria voltar?"

"Ora", disse a mulher, "você o pegou e o soltou de novo; sem dúvida ele vai fa­zê-lo. Vá imediatamente." O homem ainda não estava muito disposto a voltar, mas também não queria contestar a mulher, e então voltou ao mar.

Lá chegando, o mar agora estava todo verde e amarelo, e já não estava tão cal 

mo; então ele disse:

Flounder, flounder in the sea, Come, I pray thee, here to me.

For my wife, good Ilsabil,

Wills not as I'd have her will.
[ Linguado, linguado do mar, venha cá, quero falar; venha ouvir o que quer Isabel, minha mulher,]

O peixe veio nadando até ele e disse: "Bem, o que é que ela quer?" "Ah", disse o homem, "eu peguei você, e minha mulher diz que devia ter pedido alguma coisa. Ela não quer mais viver na pocilga; ela gostaria de ter uma casinha." "Vá, en­fio", disse o Peixe, "ela já a tem".

Quando o homem voltou para casa, a mulher não estava mais no chiqueiro; em seu lugar havia uma casinha, e ela estava sentada num banco diante da porta. Ela o tomou pela mão e lhe disse: "Venha ver lá dentro. Olhe, não está muito melhor?" Então eles entraram, e havia um pequeno alpendre, uma bonita salinha e um quarto de dormir, uma cozinha e uma despensa, com os melhores móveis, equipada com as mais belas coisas de estanho e cobre, tudo que era preciso. Atrás da casinha havia um pequeno pátio com galinhas, patos e um pequeno jardim com flores e frutos. "Veja", disse a mulher, "não é bonito?" "Sim", disse o marido, "e vai continuar assim — agora vamos viver muito felizes". "Vamos pen­sar nisso", disse a mulher. Com isso, eles comeram alguma coisa e foram dormir.

Tudo caminhou bem durante quinze dias, e então a mulher disse: "Ouça, marido, essa casinha é muito pequena para nós, e o jardim e o pátio são pequenos; o Peixe poderia muito bem dar-nos uma casa maior. Gostaria de viver num gran­de castelo de pedras; volte ao Peixe, e diga-lhe para dar-nos um castelo." "Ah, mulher", disse o homem, "a casinha é o suficiente; por que nós deveríamos morar num castelo?" "O quê!", disse a mulher, "simplesmente volte lá, o Peixe po­de fazer isso". "Não, mulher", disse o homem, "o Peixe acabou de dar-nos a casinha, eu não quero voltar tão cedo, ele pode ficar zangado". "Vá", disse a mulher, "isto é bem fácil para ele, e ele vai ficar contente; volte até ele."

O coração do homem ficou pesado; ele não queria ir. Disse a si mesmo: "Não está certo", mas foi. Quando chegou ao mar, a água estava bem cor de púrpura e azul-escuro, cinzenta e espessa, e já não estava tão verde e amarela, mas ainda estava calma. O Pescador disse:

Flounder, flounder in the sea, Come, I pray thee, here to me

For my wife, good Ilsabil,

Wills not as I'd have her will.
"Bem, o que ela quer agora?", perguntou o Peixe. "Ai de mim", disse o homem, meio amedrontado, "ela quer viver num grande castelo de pedras." "Volte para lá, então, ela está diante da porta", disse o Peixe.

Então o homem foi embora, tencionando ir para casa, mas, quando lá chegou, encontrou um grande palácio de pedras. Sua mulher estava diante dele, preparando-se para entrar; tomou-o pela mão e disse: "Entre". Assim, ele entrou com ela, e o castelo tinha uma grande entrada com chão de mármore, muitos empregados, que escancaravam as portas; as paredes eram claras, com lindas cortinas, e nas salas havia cadeiras e mesas de puro ouro, candelabros de cristal pen­diam do teto, todas as salas e quartos tinham tapetes, e havia comida e vinho do melhor sobre a mesa; diante disso eles quase sucumbiram. Atrás da casa também havia um grande pátio, com estábulos para cavalos e vacas, e as melho­res carruagens; também havia um magnífico jardim com as mais lindas flores e árvores frutíferas, e um parque de meia milha de comprimento, onde havia cer­vos, veados e lebres, e tudo que se podia desejar. "Olhe", disse a mulher, "não é bonito?" "Sim, de fato", disse o homem, "agora deixe estar; vamos morar nesse lindo castelo e ser felizes". "Vamos pensar a respeito", disse a mulher, "dormir sobre o caso". Assim eles foram para a cama.

Na manhã seguinte a mulher acordou primeiro, quando o dia estava amanhecendo, e da cama viu o belo campo à sua frente. O marido ainda estava se espre­guiçando, então ela o cutucou com o cotovelo e disse, "Levante-se, marido, e dê uma olhada pela janela. Olhe, nós não poderíamos ser os Reis dessa terra toda? Vá até o Peixe, nós seremos os Reis." "Ah, mulher", disse o homem, "por que deveríamos ser Reis? Eu não quero ser Rei". "Bem", disse a mulher, "se você não quer ser Rei, eu serei; vá até o Peixe, pois eu serei Rei". "Ah, mulher", disse o homem, "por que você quer ser Rei? Eu não quero dizer isso a ele." "Por que não?" disse a mulher. "Vá até ele agora mesmo; eu preciso ser Rei! " E assim o homem foi, muito infeliz, porque sua esposa queria ser Rei. "Não está certo; não está certo", pensava ele. Não queria ir, mas foi assim mesmo.

Chegando ao mar, viu que estava cinza bem escuro, com a água revolta, e cheiro pútrido. Ficou perto do mar e disse:



Flounder, flounder in the sea, Come, ! pray thee, here to me; For my wife, good Ilsabil,

Wills not as I'd have her will.

"Bem, o que ela quer agora?" disse o Peixe. "Ai de mim", disse o homem, "ela quer ser Rei". "Vá até ela; ela já é Rei."

Assim o homem foi, e quando chegou ao palácio, o castelo estava muito maior, tinha uma grande torre e magníficos ornamentos, uma sentinela postada à porta, e muitos soldados com tambores e trombetas. Quando entrou na casa, tudo era de mármore e ouro de verdade, com capas de veludo e grandes borlas douradas. Então se abriram as portas do saguão, e lá estava a corte em todo o seu esplendor. Sua esposa estava sentada num trono alto, de ouro e diamantes, e tinha uma grande coroa de ouro na cabeça e um cetro de puro ouro e jóias na mão, ladeada por duas fileiras de damas de honra, cada uma delas sempre uma cabeça mais baixa que a última.

Então ele ficou diante dela e disse: "Ah, mulher, agora você é Rei." "Sim", disse a mulher, "agora eu sou Rei". Ele ficou ali parado, olhando para ela por algum

tempo e depois disse: "Agora que você é Rei, deixe como está, não vamos pedir mais nada." "Não, marido", disse a mulher, muito impaciente, "acho que o tempo passa muito lentamente, já não suporto mais; volte ao Peixe — eu sou Rei, mas preciso ser Imperador também." "Ah, mulher, por que você quer ser Imperador?" "Marido", disse ela, "vá até o Peixe. Serei Imperador." "Ai de mim, mulher", disse o homem, "ele não pode torná-la Imperador: não posso dizer isso ao Peixe. Só existe um Imperador na terra. O Peixe não pode torná-la Imperador! Asseguro-lhe que ele não pode."

"O quê!" disse a mulher, "eu sou Rei, e você não passa de meu marido; você quer ir agora mesmo? Vá imediatamente! Se ele pode me fazer Rei, pode me fazer Imperador. Serei Imperador; vá nesse minuto." Assim o homem foi forçado a ir. No caminho, entretanto, sua mente estava aflita, e ele pensava: "Não vai terminar bem; não vai terminar bem! Imperador é muita falta de vergonha! O Pei­xe vai acabar se cansando."

Com isso ele chegou ao mar, que estava bem negro e espesso, começando a ferver lá no fundo, jogando bolhas na superfície; soprava um vento tão forte que gelava o sangue, e o homem estava com medo. Caminhou até a borda e disse:

Flounder, flounder in the sea, Come, I pray thee, here to me; For my wife, good Ilsabil,

Wills not as I'd have her will.

"Bem, o que ela deseja agora?", disse o Peixe. "Ai de mim, Peixe", disse ele, "minha mulher quer ser Imperador." "Volte para ela", disse o peixe, "ela já é Imperador".

Assim o homem foi, e quando chegou, o palácio era inteirinho de mármore polido, com figuras de alabastro e ornamentos de ouro; diante da entrada marchavam soldados soando trombetas e tocando címbalos e tambores; dentro da casa, os servos eram condes, barões e duques. Abriram as portas de puro ouro pa­ra ele. Entrando, viu sua mulher sentada no trono, feito de uma só peça de ouro, com duas milhas de altura; ela usava uma grande coroa de ouro com três jardas de altura, engastada de diamantes e pedras preciosas. Numa das mãos tinha o cetro, e na outra o globo imperial; de cada um dos lados ficava uma fila de ar­queiros, cada um melhor que o outro, desde o maior gigante, com a altura de duas milhas, até o menor anão, do tamanho do meu dedinho. Diante dela havia uma quantidade de príncipes e duques.

Então o homem entrou e ficou entre eles, dizendo: "Mulher, você agora é Imperador?" "Sim", disse ela, "agora eu sou Imperador". Então ele parou e olhou bem para ela, e depois de olhá-la por algum tempo, disse: "Ah, mulher, fique satisfeita, agora que você é Imperador". "Marido", disse ela "por que você está parado aí? Agora sou Imperador, mas também serei Papa; vá até o Peixe". "Oh, mulher", disse o homem, "o que é que você não vai pedir? Você não pode ser Papa; só existe um na cristandade; ele não pode fazer de você o Papa." "Mari­do", disse ela, "Sereis Papa, vá imediatamente, eu preciso ser Papa hoje mesmo". "Não, mulher", disse o homem, "não gosto de dizer isso a ele; isso não vai dar certo, ê demais; o Peixe não pode fazê-la Papa". "Marido", disse ela, "que absurdo!

Se ele pode fazer um Imperador, pode fazer um Papa. Vá logo até ele. Sou Imperador, e você não passa de meu marido; vá imediatamente."

O homem ficou com medo e foi; mas estava muito fraco, tiritando e tremendo, com as pernas e joelhos bambos. Soprava um vento forte pela terra, as nu. vens voavam, e no fim da tarde ficou tudo escuro; as folhas caíam das árvores, a água se levantava e rugia como se estivesse fervendo, rebentando na praia; lá longe ele viu navios disparando canhões em sua terrível emergência, sacudidos e agitados pelas ondas. Entretanto, no meio do céu, ainda havia uma pequena mancha azul, embora cercada do vermelho das grandes tempestades de todos os lados. Tomado de desespero, o homem chegou com muito medo até a borda, e disse:


Flounder, flounder in the sea, Come, I pray thee, here tome;

For my wife, good Ilsabil,

Wills not as I'd have her will.

"Bem, o que ela quer agora?", disse o Peixe. "Ai de mim", disse o homem, "ela quer ser Papa". "Volte para ela, então", disse o Peixe; "ela já é Papa."

Assim ele foi, e quando lá chegou viu o que parecia ser uma enorme igreja cercada de palácios. Abriu caminho entre a multidão. Lá dentro, entretanto, havia em todo lugar milhares e milhares de velas, e a esposa estava vestida de ouro, sentada num trono muito mais alto, com três enormes coroas de ouro na cabeça, rodeada de muito esplendor eclesiástico; de cada um dos lados havia uma fileira de velas, sendo que a maior era do tamanho da mais alta torre, e a menor era do tamanho de uma vela de cozinha; todos os imperadores e reis estavam de joelhos diante dela, beijando seus pés. "Mulher", disse o homem, olhando-a atentamente, "você agora é Papa?" "Sim", disse ela, "sou Papa". Ele ficou diante dela, olhando, e era exatamente como se estivesse contemplando o brilho do sol. Depois de olhar assim para ela por algum tempo, ele disse: "Ah, mulher, se você é Papa, deixe as coisas como estão! " Mas ela estava rígida como um poste, não se mexia nem dava sinal de vida. Então ele disse: "Mulher, agora que você é Papa, fique satisfeita, você não pode ser mais do que isso." "Vou pensar sobre isso", disse a mulher. Assim os dois foram para a cama; mas ela não estava satisfeita, e a cobiça não a deixava dormir, porque ela não parava de pensar no que mais havia para ser.

O homem teve um sono bom e profundo, porque tinha corrido muito durante o dia; mas a mulher absolutamente não conseguia conciliar o sono, virando a noite toda de um lado para o outro, sempre pensando no que mais havia para ser, sem que nada lhe viesse à cabeça. Finalmente o Sol começou a se levantar. Quando a mulher viu o vermelho da aurora, sentou-se na cama e ficou olhando. Quan­do viu o Sol se levantando, pela janela, disse: "Será que eu não posso, também, ordenar que o Sol e a Lua se levantem? Marido", disse ela, cutucando suas costelas com o cotovelo, "acorde! Vá até o Peixe, pois eu quero ser igual a Deus." O homem ainda estava meio dormindo, mas ficou tão horrorizado que caiu da cama. Pensou que tinha ouvido mal, e esfregou os olhos e disse: "Mulher, o que você está dizendo?" "Marido", disse ela, "se eu não puder ordenar que o Sol e a

Lua se levantem, e olhar e ver o Sol e a Lua se levantando, não vou agüentar. Nunca mais vou saber o que é um minuto de felicidade, se não puder fazê-los se levantarem." Então ela olhou para ele de maneira tão terrível que ele estremeceu todo e disse: "Vá imediatamente; eu quero ser igual a Deus." "Ai de mim, mulher", disse o homem, caindo de joelhos diante dela, "o Peixe não pode fazer isso; ele só pode fazer de você Imperador e Papa; suplico-lhe, continue como está, e seja Papa." Então ela ficou tomada de fúria, deu-lhe um pontapé e gritou: "Não posso suportar, não posso suportar mais! Vá agora mesmo." Então ele vestiu as calças e saiu correndo como um louco. Lá fora rugia a maior tempestade, com um vento tão forte que ele mal conseguia caminhar; casas e árvores eram derrubadas, montanhas tremiam, rochas rolavam para o mar; o céu estava escuro como breu, com raios e trovões; o mar fazia ondas negras do tamanho de torres de igreja e montanhas, todas elas com uma crista de espuma branca. Então ele gritou, sem conseguir ouvir o som da própria voz:

Flounder, flounder in the sea, Come, I pray thee, here to me; For my wife, good Ilsabil,

Wills not as I'd have her will.

"Bem, o que ela quer agora?" disse o Peixe. "Ai de mim", disse ele, "ela quer ser igual a Deus." "Volte até ela, e você vai encontrá-la novamente na pocilga." E é lá que eles vivem até hoje.

Notas

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