Os planetas exteriores e seus ciclos os astros e o amor



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Heráclito

Gostaria agora de olhar com mais cuidado para Plutão no horóscopo. Em alguma parte no interior do mapa astral, encontraremos a entrada para a Grande Região Inferior, "em um bosque de álamos pretos perto das correntes oceânicas". De uma forma ou de outra, cada um de nós já se deparou ou vai se deparar com a imagem feminina do destino punitivo que castiga a hubris e repara o pecado fa­miliar. Plutão move-se com muita lentidão pelo zodíaco, levando um período va­garoso de 248 anos para completar sua rotação. Visto que tantas pessoas nascem com Plutão em um determinado signo, ele marcará toda uma geração com uma compulsão particular, um tipo particular de obsessão e com uma forma particu­lar de compensação.

É difícil falar em gerações de algum outro modo que não seja através de gene­ralizações, porquanto algumas pessoas parecem encarnar o zeitgeist ou espírito de seu tempo, enquanto outras não parecem expressá-lo de maneira alguma. É ainda mais difícil para eu elaborar, a partir de exemplos vivos, sobre os temas da linhagem de Plutão, já que nunca encontrei alguém que viva com Plutão em Áries, Touro, Escorpião (pelo menos, ainda não), Sagitário, Capricórnio, Aquá­rio ou Peixes. Minha experiência direta de Plutão é limitada às pessoas que o te­nham colocado em Gêmeos, Leão, Câncer, Virgem e Libra e, na altura em que escrevo, aqueles com Plutão em Virgem e livra ainda não atingiram a maturida­de nem exibiram inteiramente a potencialidade da colocação planetária. Isso não representa sequer a metade do zodíaco. E só posso tentar apreender uma sensa­ção das maneiras pelas quais todo um grupo se reúne sob uma bandeira, respon­de de forma semelhante a desafios e pressões externas e internas, expressa as mesmas profundas necessidades e visões subterrâneas, pela observação de tendên­cias, modas e comportamentos culturais e, o que é mais importante, pelo destino coletivo que esse grupo deve cumprir. Não desejo tentar isso apenas teoricamente e, por conseguinte, vou limitar minha descrição aos grupos com que tenho
aior experiência. Não pode ser acidental, não mais do que qualquer coincidên­cia astrológica acidental, o fato de que a geração nascida com Plutão em Câncer, situando-se entre os anos de 1914 a 1939, tenha passado por duas guerras e pela completa destruição e transformação de tudo o que significa lar, nação, família e clã. Com esse grupo, a sacrossanta inviolabilidade da família e do país enquan­to uma justificativa para tudo o mais, chegou ao fim. Essas são as pessoas cujos filhos se tornaram desajustados sociais ou marginais e que sofreram a subversão da unidade familiar enquanto lei básica. Talvez seja uma obsessiva superestima ou idealização o que, em parte, constitui a hubris que suscita a ira dos habitantes da Grande Região Inferior. Oferecer algo como tão cega obediência, seja ela a família, a nação ou mesmo um relacionamento, "pelo bem dos filhos", é uma forma de excesso. Conforme John Cooper Powys escreveu certa vez, o Diabo é algum Deus que começa a exigir obediência.

É claro que tenho visto esse intenso e irracional comprometimento com a família e o país com grande freqüência entre os que possuem Plutão em Câncer, e, além disso, a perplexidade e decepção trágicas quando famílias e países eram separados à força durante suas existências. É como se esse grupo fosse marcado como o campo de batalha onde a ética e os velhos valores foram queimados no fogo purificador, liberando o coletivo de um pouco mais de cegueira e incons­ciência na esfera das raízes e da família. O que herança, parentesco e submissão à nação significavam para essas pessoas é algo que os que nasceram depois talvez jamais compreendam, porque esses valores pertencem a uma geração que so­freu muito e se transformou com essa destruição. Se existe algo como uma lição a ser aprendida, então talvez seja sobre os perigos de interpretar nossas obses­sões num nível objetivo. Todavia, estou mais inclinada a ver isso não como unia lição, mas como um destino necessário para que alguma coisa pudesse ser liberada ou aprofundada no seio do coletivo: uma ponte sobre a qual a geração vin­doura possa combinar. O que quer que "lar", "família" ou "nação" signifiquem, os que têm Plutão em Câncer foram coagidos pelos acontecimentos de seu tem­po a entender esses termos de uma maneira diferente e com mais profundidade, ou a viver com um cancro de amargura e de saudade por um passado que nunca mais voltará a existir.

Tampouco acho que seja acidental que a geração nascida com Plutão em Leão — a assim chamada geração do "eu", que se situa entre os anos de 1939 a 1958 — tenha feito um deus do individualismo e do direito ao destino e à expressão indi­vidual, embora tenha crescido num mundo onde ideologias políticas tendem crescentemente para o grupo, o coletivo, em detrimento do individual. Neste mundo, a tecnologia tornou-se tão sofisticada que os dons individuais estão fi­cando supérfluos porque um computador pode substituí-los melhor; ademais, uma economia mundial em retração e a extinção dos recursos naturais do planeta têm posto os instrumentos e meios para essa expressão individual fora do al­cance de muitas pessoas. Durante a existência dos que têm Plutão em Leão, me­tade dos países do mundo aderiu a uma forma de socialismo ou comunismo que frustra com total crueldade a convicção leonina da santidade das diferenças e valores individuais.

Gerações também têm destinos, do afligidas com a hubris e com apego excessivo,

violentadas pela necessidade, e punidas com a eterna frustração dos dese­jos; e servem de referenciais, para o restante de nós, sobre as leis do destino e da mortalidade. Acredito que Plutão representa uma força tanto na psique coletiva como individual: uma ordem impessoal, uma Parca que nos faz lembrar perpetuamente dos limites da natureza que transgredimos por nossa própria conta e risco. Urano e Netuno também são grandes daimones coletivos, "deuses" dinâmicos no corpo do coletivo, que geram fluxos de novas idéias e fluxos de novas visões reli­giosas. Plutão é, para mim, o símbolo da Parca dentro da alma humana, fazendo rufar os tambores dos ciclos históricos periódicos e anunciando o fim da expan­são na esfera de um signo particular: o encerramento de um capítulo começado 248 anos antes. Ele assinala o término determinado e o advento do destino.

Ainda que cada pessoa esteja ligada ao destino de sua geração, ela encontra Plutão basicamente através de uma determinada casa do horóscopo e através dos aspectos desse planeta com relação aos planetas mais pessoais. Assim, a rígida lei da natureza nos confronta ao longo de domínios muito pessoais da vida e apare­ce como sendo "meu destino". Uma casa astrológica é como um palco no qual os atores representam. O fundo do cenário é habilmente pintado para representar "dinheiro", "lar", "amizades", "companheiros", "saúde", "filhos". Já comentei em algum lugar deste livro a respeito dos múltiplos significados das diversas ca­sas, de modo que não vou descrevê-los aqui. Os cenários, dentro de um tema bá­sico, podem assumir diferentes colorações. Contudo, é um pintor subjetivo que desenha essas telas de fundo que constituem as casas; elas, como a geografia do Hades, são, na verdade, paisagens interiores que projetamos sobre objetos exte­riores. O modo subjetivo pelo qual percebemos o mundo exterior é colorido pe­los signos e planetas que ocupam uma determinada casa astrológica, e cada pes­soa possui uma visão distinta. Desse modo, com Plutão colocado numa dada ca­sa do horóscopo, alguma esfera da vida torna-se o lugar em que se depara com a justiça eqüitativa associada com o pecado ancestral, sendo as limitações da natu­reza punidas congenitamente na pessoa por meio do que parece ser o "meu pro­blema", "minha ferida incurável".

Encontrar Plutão na sétima casa, por exemplo, significa encontrar a Parca através de um parceiro, do "outro". As circunstâncias podem variar enormemente. O divórcio é comum, assim como os triângulos amorosos, as rejeições doloro­sas, experiências de domínio e submissão dentro do relacionamento, sacrifício total da relação devido a convicções ou circunstâncias, morte do parceiro, con­fronto com a loucura de outrem, casamento com alguém que traz uma grande ou concreta carga emocional, problemas sexuais e conflitos de poder. Todas essas sanções são típicas de Plutão na sétima casa. As variações são enormes, mas o tema é um só: relacionamentos são o lugar onde se está sujeito a algo muito mais forte e inevitável do que as escolhas e vontade próprias.

Às vezes, a pessoa pode escolher trabalhar com outros que estão enredados na teia de Plutão, o que é uma outra forma de encontrá-lo na esfera dos relacionamentos. Nesse caso, encontramos o médico, o psicanalista, o psicólogo e, inclu­sive, o político, que tem de lidar com um mundo não menos louco do que aque­le que o profissional médico seu correlato deverá enfrentar. Existe tanta compulsão na "escolha" dessas profissões quanto no mundo mais envolvente de uma

relação plutônica amorosa; no entanto, tem-se a ilusão de que se trata de um "trabalho".

O significado intrínseco a todas essas variações parece ser o mesmo: não há nada que se possa fazer, a não ser confiar no destino. É esse sentimento de impo­tência que parece impregnar cada encontro com Plutão, e aqui a impotência é ex­perimentada com relação a outrem. Ou o parceiro impõe um destino sobre o qual a pessoa nada pode fazer, ou a própria pessoa se acha estruturada de certa maneira e não consegue, por mais que tente, alterar suas necessidades ou esque­mas de relacionamento. Todos os encontros pessoais são turbulentos e, quanto mais profundo o encontro, menos controle sobre ele tem a pessoa. Assim sendo, as mudanças mais profundas ocorrem através desses encontros. Tenho constatado que muitas pessoas com Plutão na sétima casa desenvolvem o hábito de evitar um relacionamento profundo, a fim de que o destino não seja invocado e as emo­ções que pertencem ao domínio de Eresquigal não sejam liberadas. Tenho visto também muitas situações em que as emoções primordiais do inconsciente são projetadas no parceiro. No entanto, o destino não se deixará enganar, e parece surpreender a pessoa mais cedo ou mais tarde, por mais que ela lhe tente escapar. Essa é uma maneira bastante popular de vivenciar Plutão na sétima casa. É o par­ceiro quem é depravado, violento, traiçoeiro, dominador, castrador, voraz, inibidor, manipulador, cruel. Não precisa enfatizar a intensidade com que o próprio comportamento inconsciente da pessoa é capaz de atrair emoções tão primitivas, até mesmo do companheiro mais civilizado. Obviamente não é, na realidade, o outro quem é todas essas coisas, antes, porém, uma deidade, um poder primevo na vida que a gente percebe através do outro. É esse poder que nos força a acei­tar o rosto incivilizado da natureza como um ingrediente necessário da experiên­cia. E esse terrível outro alguém jamais entraria na vida da pessoa disfarçado de parceiro, amante, amigo ou "público" (pois essa é uma outra tela de fundo do palco que faz parte da sétima casa), se esse recôndito Outrem não habitasse em alguma parte do íntimo dela, não fosse o invisível feiticeiro e deflorador da sua alma. O parceiro pode ir embora, ser desleal, enganar, reprimir, morrer ou apre­sentar penosas e, muitas vezes, insuperáveis dificuldades. Mas é através desse par­ceiro que um poder arquetípico é encontrado. Estamos à vontade em todos os lugares, menos neste, onde nos deparamos com a Necessidade.

Não desejo aqui descrever as manifestações de Plutão no horóscopo casa por casa. Não é minha intenção fornecer um "receituário" para a interpretação des­se planeta, antes, porém, focalizar a atenção sobre a sensação e o significado de Plutão de um modo mais genérico. O leitor, sem dúvida, poderá descobrir o res­tante por si mesmo. Os confrontos com o poder e a impotência, a perda e o de­sejo frustrado, e a cura virtual que advém da aceitação da Necessidade são carac­terísticas de Plutão em todas as casas. Algumas, como a sétima e a décima, ten­dem a nos apresentar pessoas e objetos, enquanto outras, como a oitava e a décima segunda, tendem a nos apresentar objetos e estados emocionais subjetivos — os atores .incorpóreos na peça. Seja como for, o encontro é o mesmo. A deusa Necessidade, cujo nome grego é Arranque e que encontramos na visão cósmica de Plutão, é uma outra imagem que vale a pena examinar no sentido de ampliar o significado astrológico de Plutão. No mito grego clássico, a Necessidade é sempre citada e vivenciada no que James Hillman chama de "modos patologizados".

Experiências patologizadas estão, freqüentemente, associadas com Ananque (Necessidade). . . Em essência, necessidade significa um vínculo fisicamente opressivo de servidão a um poder inevitável. Os relacionamentos familiares e os laços que mantemos em nossos mundos pessoais são modos pelos quais vivenciamos a força da necessidade. Nossas tentativas para nos livrarmos de obrigações pessoais são tentativas de escapar do círculo fechado de Ananque. 40


Uma qualidade de crônico e repetitivo sofrimento ou restrição, que retorna em círculos inúmeras vezes, exatamente quando a pessoa se acha livre deles, é algo que associo ao efeito de Plutão nas esferas da vida representadas pelas casas astrológicas. Não existe nunca solução, mas, ao contrário, um movimento em es­piral que leva a pessoa cada vez mais para dentro de si mesma. Isso poderia também ser descrito como a sensação de estar acorrentado a alguma coisa, assim co­mo Ananque, na visão de Platão, "acorrenta" ou submete os céus ao círculo, de acordo com a sua lei. Conheço, por exemplo, muitas pessoas que têm Plutão na nona casa e que se sentem agrilhoadas dessa maneira ao que elas entendem por Deus, o "opressivo vínculo de servidão" a um anseio que não pode ser senão beatífico. A sétima casa a que já me referi, e a sensação de estar preso a um par­ceiro, são típicas dessa posição de Plutão. Já vi, inclusive, Plutão agir assim através da quarta casa, atando a pessoa a sua hereditariedade e aos seus mitos fami­liares de tal forma que estes não conseguem ser resolvidos psicologicamente ou esquecidos, mesmo que milhares de quilômetros separem a pessoa de sua famí­lia de origem.

A décima casa é também a casa do "mundo", que constitui ainda o corpo da mãe; e ela, além de acorrentar a pessoa a posições de responsabilidade dentro dela, pune ferozmente qualquer transgressão além dos limites estabelecidos. Estou pensando aqui no exemplo, dentre outros, de Richard Nixon, que tem Plutão na décima casa, em Gêmeos, e que, desconfio, não é mais corrupto do que a maioria dos políticos americanos. Era, porém, destino dele ser apanhado e tornar-se o bode expiatório público de um "mundo" ultrajado. Tampouco foi o caso Watergate o primeiro gosto de Ananque que Nixon provou; sua carreira política é entrecruzada de repetitivos rastros de fracasso precisamente no momento de realização, e de subseqüente ressurreição, seguida de novo fracasso. E como se quei­xa Prometeu, no drama de Esquilo:


Oh, ai de mim!

Sofro pelo mal presente,

Sofro pelo mal vindouro, sofro

sem saber quando virá um tempo

em que Ele fixará um limite para meus sofrimentos.

O que estou dizendo? Eu já sabia de tudo antes,

de tudo que será, e o sabia claramente; para mim, nada que fere surgirá com um rosto novo.

Portanto, tenho que suportar, tio levemente quanto possa,

o destino que a sorte me reservou;

pois bem sei que contra a Necessidade,

contra a sua força, ninguém pode lutar e vencer. 41

Nem mesmo um deus, diz Platão, pode competir com a Necessidade.

Quando discuto com meus clientes as várias posições de Plutão no horóscopo, fico impressionada com o fato de que o método psicológico, geralmente produti­vo, de trazer elementos inconscientes à consciência não faz, no final das contas, tanta diferença. Ele pode, entretanto, interiorizar o dilema de modo a que Plutão não seja encontrado tão cegamente nas pessoas e nos acontecimentos exteriores. Além do mais, analisar a fundo para desenterrar as experiências básicas que formam a teia de dependência com relação ao passado pode liberar uma sensação profunda de "correção" ou de significado. Apesar disso, o destino não desapare­ce, o que não quer dizer que a compreensão psicológica é irrelevante com Plutão. Parece ser totalmente o inverso, pois é apenas essa compulsão para encontrar as raízes de um problema que introduz a pessoa à realidade de Parca. Mas, uma vez que se tenha raspado o fundo do tacho e que os ultrajes, rancores, dores, vene­nos, separações e mágoas pessoais de infância tenham sido contatados, expressos e inclusive perdoados, existe ainda o próprio tacho, com a forma já inscrita da servidão individual. Se se já está preso a Deus, com Plutão na nona casa, então se continua preso a Deus. É que a cobertura da mãe e do pai de cada pessoa, o culto religioso da infância, os ensinamentos morais incutidos etc. já não mais conse­guem disfarçar a rígida e premeditada natureza da corrente.

O que dizer, então, ao cliente de astrologia ou a si mesmo? Atena abranda a cólera das Erínias concedendo-lhes um lugar de honra na hierarquia divina: um altar e um culto respeitoso. Ela subverte o ditado que diz que "o alimento é ofe­recido a um dos dois, mas não a ambos". As pequenas carpideiras de Enqui ate­nuam o horrendo sofrimento e a fúria de Eresquigal ouvindo, sendo receptivas, aguardando sem julgamentos. Se existe mais alguma coisa que possamos fazer, já é uma outra questão. Há uma história de esforços não só para evitar ou escapar ao destino na corrente da filosofia neoplatônica, como ainda para transformá-lo; ou talvez, para sermos mais exatos, para transformar a relação da pessoa com ele. Iremos examinar isso mais a fundo no devido tempo. Todavia, muito do trabalho de transformação, se é que é realmente isso, reside também no preceito mítico de prestar honra, escutar, aceitar e esperar. Não creio que haja qualquer outra forma de aprender a ter respeito pelas próprias leis íntimas. Qualquer método mais cerebral ou intencional, não dá mostras de penetrar nos vestíbulos da Gran­de Região Inferior, podendo, além disso, enfurecer uma divindade já furiosa por si. Pelo que tenho visto de Plutão, acharia engraçado se ele não fosse invariavel­mente tão penoso, quando se fala em "dominar" ou "transcender" esse planeta.

Desejo agora investigar com maiores detalhes alguns dos aspectos de Plutão. Preciso dizer mais uma vez que não estou tentando fornecer um "receituário" de interpretações, de modo que nem todos os aspectos de Plutão com este ou aque­le planeta são mencionados. Em vez disso, vou procurar lançar mais luz sobre as questões do destino individual que o planeta parece refletir. Um aspecto astroló­gico entre dois planetas — pouco importa se é uma conjunção, quadratura, oposição, sextil, trígono, sesquiquadratura ou quintil — os torna perpétuos compa­nheiros de leito. Ou, para expressar de outra maneira, os deuses ou motivações, que os planetas representam, não podem ser dissociados, senão combinados e ali­nhados tanto nos níveis externos como internos até que a morte os separe da pessoa. Assim sendo, devemos considerar que tipo de companheiro Plutão representa

e o que ele faz, no leito ou fora dele, para aqueles planetas com que demonstra certo aspecto. Hades e Eresquigal, é claro, nos fornecem um esquema conciso de imagens, pois já vimos com que disposição acolhem os visitantes em seus domínios. Estupro, morte, sofrimento, servidão e ressurreição são seus temas.

Os aspectos de Plutão com relação ao Sol, à Lua e ao ascendente, especialmente as conjunções, quadraturas e oposições, parecem surgir com grande regula­ridade nos mapas daquelas pessoas em cujas vidas o destino notavelmente se in­troduz. Quer esse destino seja algo externo — doença, defeito congênito, morte, confrontos com exércitos ou governos estrangeiros — ou algo interno — loucura, na própria pessoa ou num parente próximo, pesadelos, obsessões e compulsões—, não são essas as pessoas com quem se pode conversar por muito tempo no­bre "projetos". Embora as circunstâncias variem, existe geralmente um sen­so de confrontação com algo irrevogável, que precisa ser enfrentado e reco­nhecido. Talvez seja possível escolher o lugar onde esse encontro se realiza; te­nho trabalhado com muitas pessoas que têm o Sol em Plutão, por exemplo, e que escolheram enfrentar o seu lado doentio, insano ou primordial por intermédio das profissões médicas ou da política. Esta, porém, talvez seja uma decisão madura (se é que realmente é uma decisão), tomada na segunda metade da vida, para lidar com algo que a pessoa tem de aceitar como uma necessidade sua. Muitas vezes, são justamente essas pessoas que sofreram com Plutão bem cedo na vida e que lutam para abrir caminho até os aspectos saudáveis da destruição. No entanto, se o reino plutoniano for excluído por uma pessoa em que o planeta se manifesta com força, então parece que o problema advém como conseqüência. Tenho visto muitos contatos de Sol e de Lua com Plutão num bom número de casos de depressão psicótica, em que o inimigo não é algo físico, mas se acha en­terrado no turbulento íntimo da própria pessoa.

Por vezes, os aspectos Sol-Plutão e Lua-Plutão são vivenciados externamente por meio de um esposo ou esposa violentos e perturbados, uma mãe enferma, um filho problemático, um ventre estéril, uma doença hereditária. Quando está se manifestando numa dessas formas, Plutão não é nada engraçado. Acredito, porém, que essas diferentes faces de servidão seja intencionais, no sentido de que Moira é intencional. Algo é retirado, para que uma outra coisa possa se desenvolver em seu lugar. As sementes dessa servidão recuam a várias gerações atrás, de modo que os pecados dos pais recebam o verdadeiro castigo nos filhos, passando a ser tarefa destes tentar encontrar alguma forma de compreensão. Se não se aceitar esse desafio, então só haverá negro desespero e rancor contra a vida. Passei a perceber que quando Plutão se encontra fortemente marcado no ho­róscopo natal, a pessoa se defronta com a tarefa de resgatar ou transferir alguma coisa para o coletivo mais amplo, coisa que só ela é capaz ou está qualificada a fazer; ou, posto em outros termos, ela se defronta com a expiação do pecado an­cestral, devendo tornar-se uma ponte que algo antigo, indiferenciado e pros­crito possa atravessar para encontrar acolhida na consciência. O destino coletivo aqui se impõe sobre a vida da pessoa, podendo exigir grande esforço e sacrifício. Existe também redenção nesse tipo de confronto com o destino, já que a "capa-cidade de fazer com alegria o que tenho de fazer" relaciona o ego com um cosmo eterno e interligado. Esse efeito transformador de Plutão oferece, ao que pa­rece, urna renovação da vida mediante a capacidade de vê-la com olhos diferen­



tes. É em si mesmo uma experiência profundamente religiosa, apesar de ter pou­ca relação com algum espírito celestial e estar muito mais relacionada com a pro­teção dos instintos e com o pólo feminino da vida. Paracelso, médico e astrólogo do século XVI, expressou-a da seguinte forma:
O que é, então, felicidade senão concordância com a ordem natural através do conhecimento da natureza? E o que é infelicidade senão oposição à ordem na­tural? O que anda na luz não é infeliz, nem é infeliz o que anda nas trevas. Ambos estão certos. Ambos agem corretamente, cada qual em seu próprio ca­minho. O que não se deixa abater é o que obedece à ordem. Mas o que se dei­xa abater é o que a desobedeceu.42
Às vezes obediência à ordem da natureza pode estar além dos recursos de uma pessoa. Existem solidão, isolamento e desespero extremos — representados no confronto de Inanna com Eresquigal — que, caso a pessoa não possua um ego forte para contê-los, podem acabar se tornando insuportáveis. Num universo teó­rico e ideal, talvez fosse "preciso" lidar com Plutão de uma maneira esclarecida. Mas não vivemos num mundo assim, e não estou convencida de que isto seja "culpa" da "sociedade" na mesma proporção em que é um dos aspectos mais de­soladores do progresso irregular da evolução humana. Transcrevo abaixo o sonho de um homem que é uma dessas pessoas cuja história me leva a questionar o modo capcioso com que a astrologia se mostra por vezes inclinada a tratar dos as­pectos difíceis de Plutão no horóscopo de nascimento. Reproduzi também seu mapa astrológico, apesar de não dispor da hora do nascimento; temos, pois, que nos contentar com um mapa "plano" sem um ascendente ou ápices das casas. O sonho é o seguinte:
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