Os planetas exteriores e seus ciclos os astros e o amor



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Estou num sítio rochoso. Diante de mim há um lago sem fundo, de água escura, que alcança até o fundo das rochas. Alguma coisa sobe flutuando para a superfície, vindo bem lá debaixo. Estou firmemente agarrado às rochas, cheio de terror, e não consigo me mover. Acordo antes que a coisa chegue à superfície, mas consigo vê-la por entre a água. É uma múmia egípcia, envol­ta em ataduras.
Não sei de uma imagem mais plutoniana do que essa antiga múmia emergin­do à tona das incomensuráveis profundezas da água escura. O sonhador, entretanto, não dispunha de recursos para fazer frente à exigência do destino de que algo fosse defrontado. O sonho, e parte da formação pregressa do jovem, a quem chamo Timothy S., me foram transmitidos pelo psiquiatra com quem ele estava se tratando. Não muito depois de ter tido esse sonho, ele cometeu suicídio. Sua morte não foi uma dessas frustradas tentativas para chamar a atenção, mas uma auto-sentença cuidadosamente planejada e executada com perfeição. Não falou dos seus sentimentos suicidas com o psiquiatra; simplesmente saiu de sua última sessão com um comentário sobre a próxima entrevista, daí a um ou dois dias; depois, ligou o tubo de descarga do seu carro num bosque isolado até morrer as­fixiado.

Timothy tinha um longo histórico de distúrbio psiquiátrico e recebera um repetido

tratamento por prostração depressiva. Ele vivenciou um constante tor­mento íntimo de isolamento e de repulsa a si mesmo. Jamais estabelecera qualquer relacionamento íntimo com um outro homem ou mulher; travara um combate constante contra os incipientes sentimentos de necessidade e de simpatia para com seu psiquiatra. Sua estadia no inferno era insuportável para ele, mas o sofrimento de criar um relacionamento parecia ainda mais insuportável. Eviden­temente ele escolheu desprender-se, de uma vez por todas, de sua agonia. Deixou para trás um documento, uma biografia requerida por muitas instituições psi­quiátricas, que é um relato eloqüente de seu mundo plutoniano e ao qual expres­so minha gratidão por poder reproduzir um trecho.

Sinto-me neste momento desesperadamente só, apavorado, num beco sem saída e deprimido... Compreendo que se trata de uma crise; no entanto, o novo não consegue nascer e o velho não morrerá; assim, onde está a saída para essa situação? Passei outra noite insone e atormentado; não sei o que é que tem causado tanto estrago dentro de mim, mas seja lá o que for sempre existiu. Sempre me atormentou de uma maneira ou de outra, feito um verme corroen­do uma maçã. Isso já quase me consumiu inteiramente e não agüento mais. O que os médicos poderão fazer?

Os sentimentos de antipsiquiatria predominantes entre muitos astrólogos e consultores poderiam ser invocados aqui, mas não acho que se aplicariam a essa situação. O homem que trabalhou com Timothy tinha perfeito conhecimento da necessidade de lidar com seu jovem paciente num grau maior de profundidade e de humanidade do que aquele geralmente encontrado dentro dos estabelecimen­tos psiquiátricos, e estou certa, a partir de minhas próprias conclusões sobre a anamnese e o mapa astral, de que não existe qualquer culpa nesse caso. Talvez alguma forma mais profunda de psicoterapia feita mais cedo na vida do paciente poderia ter ajudado. Mas na época em que Timothy começou a se tratar com meu colega, ele já tinha passado anos fazendo terapia antidrogas e ECT,* e acho que alguma coisa dentro dele já perdera as esperanças diante dos repetidos fracas­sos dos médicos em ajudá-lo. Esses métodos, apesar de terem seu lugar, não são necessariamente o melhor meio de lidar com Plutão. De que modo Timothy her­dara um destino familiar ou coletivo eu ignoro. Com certeza, muitos profundos problemas relacionados aos pais e ao sexo emergiram durante as poucas sessões que precederam sua morte. Uma múmia, no entanto, é uma coisa antiga, que per­tence a um passado anterior às imperfeições dos pais.

Tenho constatado que um temperamento fortemente plutoniano com freqüên­cia inclina a pessoa a uma identificação com os "pecados ancestrais" que jazem na profundeza do inconsciente coletivo e, como resultado, essa pessoa pode pro­vocar, ou acreditar que merece a retaliação.

Embora nos falte o ascendente de Timothy, os aspectos planetários e os sig­nos desse horóscopo são bastante eloqüentes. O Sol está em Escorpião, em qua­dratura com uma conjunção Saturno-Plutão em Leão. Marte também participa dessa conjunção, e uma das implicações desse agrupamento é que toda a violência,
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* ECT: Electroconvulsive Therapy.

a agressão e a poderosa sexualidade sugeridas pela configuração se voltam contra o próprio Timothy. Entretanto, é claro que muitas pessoas nasceram com o Sol em Escorpião em quadratura com a conjunção Marte-Saturno-Plutão em Leão, e nem todas têm prostrações depressivas e se suicidam. Algumas até se tornam astrólogas ou psicoterapeutas. Mas mesmo o exame mais cuidadoso dos antecedentes familiares só explicaria por que Timothy não dispunha de recursos pessoais para enfrentar a escuridão dentro de si. Não explicaria a origem dessa es­curidão nem sua natureza intrínseca. Do ponto de vista da astrologia, essa escuri­dão é um dado; é um destino. Timothy nasceu com a necessidade de viver com uma força poderosa e primordial dentro de si, que nem os padrões coletivos de sua família ou de sua sociedade o prepararam para entender. Ficava horrorizado com as violentas fantasias sexuais que o atormentavam e com a descoberta da crueldade e da bestialidade dentro de si. Aqui, talvez, os pais possam ser levados em conta; não houve aceitação verdadeira desse lado mais primitivo de sua natu­reza. Mas não conheço muitos pais da geração de Timothy que seriam capazes de visão e de compreensão dessa ordem. Uma das mais importantes conclusões da astrologia nesse caso é que cada um recebe porções desiguais dos diferentes deu­ses. A raiva e a paixão invertidas de Marte-Saturno-Plutão em quadratura com um Sol em Escorpião não são "causadas" pela rejeição ou negligência dos pais. Sem dúvida, o retrato subjetivo do pai sugerido por esses aspectos não é muito edificante, mas essas paixões já estavam lá desde o começo, como o próprio Ti­mothy percebeu.

Devido à ligação muito forte entre Escorpião e Plutão e o que nossa cultura vê como escória, discórdia e emoção inaceitável, é fácil para a pessoa de Escorpião ver-se como a personificação de todo o lado sombrio da família, o portador do mal e da escuridão. Entretanto, culpar a cultura é absurdo, pois há padrões arquetípicos operando na cultura assim como na pessoa, e durante os últimos du­zentos anos os arquétipos dominantes no Ocidente têm-se deslocado em direção antitética a Plutão. Culpar a família é igualmente absurdo, pois seus membros so­frem o mesmo problema coletivo. Não só é possível que os membros da família projetem sobre a pessoa plutoniana toda a escória indesejável de sua própria na­tureza, mas a própria pessoa aceita prontamente a projeção, não encontrando aí nenhuma luz, apenas escuridão. Osíris mumificado, imagem mítica que enfatiza a importância do sonho de Timothy e da crise em que estava entrando, é unia imagem de depressão e de escuridão, pois o deus está morto depois da batalha perdida contra Set, o senhor do inferno, antes que a deusa Ísis ressuscite o cada. ver. O sonho poderia sugerir a possibilidade de ressurreição, já que a múmia flutua¬ na superfície da água. Mas para uma pessoa que passou a vida em isolamento e ódio por si mesma, a aceitação compassiva e o amor de outra pessoa podem ser uma dor difícil demais de suportar.

Na época do suicídio de Timothy, estava ocorrendo um trânsito iluminador — Urano, no último decanato de Escorpião, passava sobre o Sol e fazia quadratura com a conjunção Marte-Saturno-Plutão. Embora o aspecto não estivesse exato na data da morte, estava ativando a configuração natal há algum tempo, com a possibilidade implícita de algum tipo de saída ou solução. Tenho constatado que os trânsitos de Urano oferecem essa chance — pode-se trazer à consciência algo que esteve enterrado ou foi negado a vida inteira. Acredito que esse trânsito po­deria

ter dado uma oportunidade de mudança. Talvez tenha sido exatamente isso o que aterrorizava Timothy, porque o diabo conhecido às vezes é mais recon­fortante que a vida nova com todas as suas responsabilidades e exigências desco­nhecidas.

Não gostaria de arriscar uma opinião sobre a possibilidade de se "fazer" algu­ma coisa quando a própria pessoa decide ir ao encontro de seu destino de forma tão definitiva. Talvez, em certo sentido, Timothy tenha se oferecido como bode expiatório ou animal sacrificial. Tive oportunidade de observar o Sr. e a Sra. S. no inquérito policial no qual meu colega foi chamado a depor, pois o exa­me do horóscopo de Timothy tinha despertado minha curiosidade sobre seus pais, e solicitei uma autorização para assistir ao inquérito. Eram pessoas agradá­veis e despretensiosas, que simplesmente não conseguiam entender o que tinha acontecido e que, obviamente, nunca tinham visto a carranca do inferno. Seus pequenos pecados eram evidentes: conservantismo, farisaísmo, sombras não vividas, falta de real compreensão da criatura complexa que conheciam como seu filho. Eram gente simples, comum, do povo, não diferindo muito da maioria dos pais. Seria ridículo e inútil culpá-los, porque Plutão se estende até muito antes dos pais, e os pecados ancestrais coletivos são muitíssimo velhos. No fim, não se pode julgar o que essa vida sacrificada poderia ter redimido através do suicídio, embora nossos julgamentos conscientes sejam naturalmente contrários a essa idéia.

Outro aspecto de Plutão que tenho constatado ser particularmente turbulen­to — talvez porque seu significado se choque com as definições sociais popula­res de amor e de casamento — é Vênus-Plutão. Os problemas desse aspecto preci­sam ser ponderados, quer apareçam no mapa natal, numa progressão ou num trânsito. Aqui novamente, não acredito que haja diferença considerável de signi­ficado entre os "bons" e "maus" aspectos, exceto que a pessoa pode achar mais fácil aceitar e dar valor às exigências de Plutão quando o aspecto é harmônico. O mito, como sempre, é uma ampliação fecunda, principalmente o mito que já conhecemos: a descida de Inanna, a deusa do amor, ao reino de sua irmã Eres­quigal, Senhora da Grande Região Inferior.

Inanna é uma forma mais antiga e menos diferenciada de Vênus, deusa do amor sexual e da fertilidade. Ela é criativa e alegre, a Rainha do Céu, solteira e com muitos amantes, comprazendo-se na beleza de seu próprio corpo, e tam­bém uma sábia juíza e conselheira. É uma deusa extrovertida, e Vênus é um pla­neta extrovertido, tentando se satisfazer através do estímulo e da união com os objetos amados. Até a disputa e a fúria da batalha pela experiência apaixonada da vida, provocada pelo encontro com o outro, fazem parte do mundo de Vênus, voltado para o exterior. Até na batalha Inanna é "limpa", pois coloca todo o seu ser nos seus atos, sem motivos ocultos ou tortuosos. Para Inanna, ou para o que o planeta Vênus representa para a pessoa, o choque com o reino da escuri­dão é uma exposição ao lado do amor Que é visto com mais freqüência na sala do conselheiro conjugal: lutas pelo poder, manipulações, cobiça, vinganças e opressões de que em geral só se percebe o espectro. Nessa paisagem sombria encontramos a fúria da Górgona e o retraimento do insensível homem de gelo; a Mãe Terrível e o filho castrado; a aranha ou o escorpião que come o parceiro depois do ato do amor. A percepção desse lado do relacionamento talvez não

seja necessária para todos. Pelo número de assinaturas, até parece que algumas pessoas conseguem moldar seu casamento pelos padrões das revistas femininas e conseguem safar-se com essa bendita ignorância ou essa bendita simplicidade. Ou talvez seu destino simplesmente não seja ter Eresquigal como companheira de cama.

Não é assim com Vênus-Plutão; Plutão inicia Vênus no que jaz por baixo das flores e dos gestos elegantes do namoro romântico. O que está por baixo em ge­ral não é "bonito", e certamente não é "justo". Para a pessoa Vênus-Plutão que ainda não alcançou a metade da vida, o destino pode ainda não ter-se dado a co­nhecer. Mas torna-se visível mais tarde, razão por que esse aspecto adquiriu a fa­ma de desfazer casamentos. Vênus-Plutão também tem uma propensão aos triângu­los amorosos, que não são justos nem desejados, mas são um fato da vida, geralmen­te compulsivos e geradores de um sofrimento considerável para todos os partici­pantes. Vênus-Plutão não é frio ou "liberado" como Vênus-Urano, nem mártir e auto-imolador como Vênus-Netuno. Em termos de características de personali­dade, é orgulhoso, apaixonado, intenso e muitas vezes dolorosamente leal, exa­tamente como Eresquigal. Mas a própria intensidade de sua paixão geralmente anda lado a lado com despeito, vingança, traição, perda, manipulação e a revelação do próprio potencial de destruição do que mais se ama. O destino de Vênus. Plutão pode ser o traído e, com igual freqüência, o traidor. Mas parece que a experiência da traição impregna necessariamente o aspecto. Tenho constatado que a quadratura e a oposição entre Vênus e Plutão freqüentemente "rejeitam" o lado plutoniano. Ouve-se então a antiqüíssima justificativa: "Não sou eu que sou ciumento e possessivo/traiçoeiro e desleal, é minha mulher/meu marido". Não obstante, apesar desse esforço muito compreensível e muito humano de arren­dar para o outro as qualidades desagradáveis do aspecto, o choque como mundo de Plutão, das emoções ferventes e ambivalentes, ainda tem a probabilidade de acontecer no relacionamento, não importa de quem sela a "culpa". Deixar um relacionamento para buscar um romance menos problemático, simplesmente ten­de à repetição do mesmo padrão.

O amor, para Vênus-Plutão, pode ser transformador, profundo, numinoso, arrebatador, cheio de significado e riqueza; em geral tem um ar de fatalidade. Mas nunca é simples, e não lhe é permitido manter a ingenuidade. A beleza de Vênus, refletida na cortesia romântica de Libra e na meiga simplicidade de Touro, se opõe às sutilezas e aos propósitos ocultos do destruidor-estuprador. Alguma coi­sa, ou alguém, tenta dilacerar exatamente o que mais se valoriza ou se estima. Acredito que esse destruidor, inerente à psique da pessoa nascida com Vênus-Plutão, não visa realmente a destruição arbitrária. Talvez vise a auto-revelação, ou a descoberta do inferno das próprias emoções — a aceitação de um daimon mais poderoso que as boas intenções e os pensamentos amorosos. Só os habitan­tes do Olimpo podem reivindicar bondade e perfeição, e mesmo eles não podem reivindicá-las o tempo todo. O que está encarnado tem defeitos e compartilha a violência e a escuridão da natureza. Em vez de aceitar isso, Vênus-Plutão tenta, no mais das vezes, culpar o parceiro por essa intromissão predestinada no amor idealizado. Imagina-se ver no outro, homem ou mulher, a mulher sombria com "olhos que gelam a alma". Não é que Vênus-Plutão seja incapaz da face mais tema do amor. Porém há um preço a pagar. Aqui, o destino muitas vezes invade

o *mor, freqüentemente na fona de uma paixão sexual obsessiva, ou no colapso de um relacionamento sexual entre duas pessoas, forçando uma delas a começar a considerar o que "o inconsciente" pode estar querendo dizer. Acho que as car­pideiras de Enqui dão alguma ajuda nesse caso, pois essa atitude oferece o reco­nhecimento e a aceitação da besta interior que se está fadado a encontrar no leito conjugal, no abraço do amante, na iniciação sexual.

A morte também é uma maneira de ser iniciado em Vênus-Plutão, e às vezes esse aspecto manifesta-se concretamente pela morte do ser amado, de um filho querido ou de um pai de que se precisa quando seu apoio é mais necessário. Isso é fácil de escrever e muito mais difícil de suportar, principalmente quando Plutão nega ou destrói o relacionamento, tão agudamente desejado, pela traição ou pela morte, que não é "culpa" de ninguém, mas é simplesmente irremediável. Po­rém às vezes ajuda lembrar que a morte e a regeneração de Inanna, seu sofrimen­to no inferno e sua redenção, renovam a vida no mundo da superfície. A história de Inanna é o mais antigo mito conhecido de sacrifício e de transformação, antecedendo em muito a história de Jesus. Na sua forma mais primitiva, é concebida como uma jornada feminina em direção a um objetivo feminino, embora não se­ja um privilégio exclusivo das mulheres. Essa história é nosso mais antigo augúrio da necessidade de pesar e luto para renovar uma ligação viva com a própria reali­dade de cada um.

Gostaria de citar, com relação a esse aspecto, o sonho de uma de minhas anali­sadas, ocorrido durante um longo trânsito de Plutão sobre seu Vênus natal. Em seu mapa natal, o Sol faz conjunção com Plutão em Leão, os dois em semiqua­dratura com Vênus. Na época do começo do trânsito, ela não tinha permitido, de forma alguma, que as qualidades da conjunção Sol-Plutão, com seu intenso senso de "diferenciação" e sua intencionalidade apaixonadas, entrassem em sua vida.


Estou com meu marido, minha mãe e minha irmã num hotel no campo. Estamos tentando chegar à cidade, mas as providências para a condução estão ba­gunçadas. Meu pai foi na frente com meu filho, e eles já estão na cidade. Nós quatro estamos esperando um táxi numa encruzilhada. Começa a escurecer. Uma das estradas laterais é só uma pista de terra que termina em espessos arbustos e árvores. De repente minha imã vê alguma coisa na pista e fica ter­rivelmente assustada. Agarra minha mãe pelo braço e começa a correr de vol­ta para o hotel, gritando para eu e meu marido corrermos, se não "aquilo" vai nos pegar. Olho para a pista e vejo uma sombra preta indistinta, uma espécie de nuvem sinistra, deslocando-se em nossa direção. Tento arrastar meu marido pelo braço, mas ele é muito vagaroso e tropeça como se estivesse bêbado. Fi­nalmente ele corre para um arbusto. É tarde demais; não há escapatória.
A imagem central desse sonho, por trás do matiz moderno, é arquetípica, e pode ser encontrada em muitos contos de fadas: o encontro na floresta vazia ou na estrada vazia, com o que é escuro, mau ou do outro mundo. E o que expressa Coleridge nessas linhas de The Ancient Mariner
Como alguém que numa estrada solitária Caminha com medo e horror

E tendo uma vez se virado para trás, segue caminhando

E nunca mais olha para trás;

Porque sabe que um demônio assustador

Segue-o bem de perto.
Esse é o encontro com o inconsciente, que a princípio parece destrutivo e aterrorizador. A "sombra preta" que se aproxima da sonhadora vinda da estrada es­treita que leva à floresta impenetrável da psique acabou personificando, nos me­ses seguintes, no que já vimos de Eresquigal; pois esse sonho de minha analisada, que chamarei de Caroline, foi o anúncio de uma irrupção quase psicótica de vio­lenta raiva, destrutividade, horror da separação e medo obsessivo de câncer ute­rino, totalmente sem base médica, mas que aparentemente materializava no cor­po o invisível inimigo corrosivo. Tenho constatado que muitas pessoas que têm o elemento fogo forte no horóscopo tendem a experimentar essas irrupções in­conscientes primeiramente como uma fantasia de doença corporal. Caroline ti­nha sido uma "boa esposa", uma "mãe perfeita" e, entre a família e os amigos era conhecida pelo otimismo, generosidade e natureza alegre — o que seria de se esperar com o Sol em Leão. Não transparecia nada da profundidade maior da conjunção Sol-Plutão. Ainda não lhe havia ocorrido que ela tinha amputado cer­tos aspectos de si mesma para corresponder a essa fantasia coletiva. Com Vênus em Libra no mapa natal, ela acalentava ideais muito românticos a respeito de amor e casamento, e não tolerava "cenas" ou emoções negativas em seus relacio­namentos. Nunca ficava zangada e quase sempre cedia aos outros para não ser chamada de "egoísta". As qualidades mais sombrias de Plutão, como seria de se esperar pela conjunção com o Sol, eram carregadas pelo pai, que tinha fugido com outra mulher quando Caroline era bem jovem. Torna-se óbvio, sem neces­sidade de grandes explicações, que a conjuntura parental foi em parte responsá­vel por seus árduos esforços para ser perfeita.

Caroline descobriu que era útil representar suas sombrias emoções, impetuosamente crescentes, em desenhos, quase sempre pretos e vermelhos, retratando formas semelhantes a cobras ou répteis pré-históricos monstruosos: imagens do feminino primitivo, Tiamat o dragão, de cujo corpo foi feito o mundo, a Mãe Noite em sua fria vastidão não-humana, aprisionada no pântano do tempo. En­carada de forma mais redutiva, essa negra raiva desumana também era a raiva dela e de sua mãe, por causa da humilhação sexual representada pela perda do marido para outra mulher. Caroline, por trás do exterior brilhante e romântico, abrigava um ódio profundo e constante pelos homens e pela vida, o que a equiparava à mãe, superficialmente tranqüila porém em ebulição interior. A medida que trabalhávamos essas questões, foi ficando cada vez mais evidente para Caroline que as emoções repugnantes, assim como os quadros igualmente repugnan­tes que ela pintava, podiam ser reconhecidos como expressões válidas da vida. O transito de Plutão, retratado num nível mais íntimo pelo sonho, apresentou-lhe um mundo, dentro de si, que era em parte uma herança familiar — o veneno e a mágoa não expressos de sua mãe, da mãe de sua mãe e da mãe da mãe de sua mãe, dos quais todas as gerações anteriores tinham fugido, mas que ela estava, agora, fadada a encontrar. Essa fuga da família parece ser expressa no sonho pe­lo desaparecimento do pai, da mãe, do filho e da irmã em diferentes direções,

deixando-lhe a tarefa de lidar com a "sombra preta". O sonho é dela, a questão é dela, e os outros não podem ajudá-la.

No sonho, o marido de Caroline é ineficaz; de fato, é sua aparente embria­guez que, no fim, impede que ela fuja. Essa situação, de fato, manifestava-se na vida real. O marido, sob o peso das suas próprias dificuldades emocionais, não podia redimi-la, como ela inconscientemente esperava. Entretanto, o advento dessa experiência tornou-a mais profunda e mais madura. Ela se defrontou com sua própria necessidade, não havendo resgate possível. O senso de sua própria individualidade e de seu destino separado começou a emergir, bem de acordo com um Sol-Plutão em Leão, trazendo consigo tanto a tristeza e a solidão como um sentimento maior de seu valor como mulher erótica e viva, no lugar de ser a mãe e esposa bidimensional de alguém. Não é de surpreender que o que parece ser um renascimento para a vida criativa encontre tanta resistência e ambivalên­cia, porque o caminho — como sugere o mito de Inanna — quase sempre passa pela escuridão, quando Vênus e Plutão estão em aspecto. Mesmo a relativa liber­dade resultante é experimentada com ambivalência, pois exige que se aceite o fardo da própria diferenciação e solidão essenciais.

A jornada de Caroline não terminou com a destruição de seu casamento, co­mo às vezes acontece com os trânsitos Vênus-Plutão, e como ela própria temia. No sonho, ela e o marido estão unidos e precisam passar juntos pela experiên­cia. Isso sugere que Vênus-Plutão não diz respeito tanto à separação no nível concreto quanto à separação da fantasia do pai-marido ideal que protege a pes­soa da vida e a adora a ponto de permitir que ela fuja de si mesma. Essa separa­ção psíquica é, acredito, um dos significados do rapto de Perséfone por Hades, quando ela é arrancada do abraço amoroso e protetor da mãe, que ao mesmo tempo a abriga e lhe nega a possibilidade de sua própria feminilidade. Esse é um padrão arquetípico, uma necessidade psíquica. Quando se nega ou se repudia esse destino, ele pode ser imposto à pessoa, e então a natureza pode ostentar o ros­to das Erínias.

Os aspectos de Marte e Plutão também estão associados à sexualidade e, acre-dito, a uma sensação de fatalidade, embora a sexualidade de Marte não esteja realmente ligada ao relacionamento. Muitos manuais atribuem à união dos dois regentes de Escorpião todo tipo de coisas desagradáveis, como violência, dese­jo obsessivo, repressão, crueldade, sadismo e estupro. O que se diz de melhor sobre Marte-Plutão é que reflete uma vontade poderosa e um profundo senso de autodeterminação. Pode ser oportuno começar a investigar Marte-Plutão atra­vés de um pouco de ampliação mítica, porque Marte não é tão simples como apa­renta de início. Em geral é interpretado como um símbolo da masculinidade, da objetividade masculina, da auto-afirmação, da agressão e do instinto competitivo. Tudo isso sem dúvida é verdadeiro, e a personalidade ariana típica, masculina ou feminina, em geral possui em algum grau esses atributos diretos e vigorosos, quer seja no nível físico, emocional ou intelectual. Isso, porém, descreve o lado aria­no de Marte. Ele tem outra face, sua "casa da noite", como costumava dizer a as­trologia medieval, que é o lado escorpiano do planeta; e, sob muitos aspectos, tem parentesco com Plutão. Walter F. Otto, em The Homeric Gods, faz uma des­crição excelente, embora perturbadora, do deus guerreiro Ares, cujo nome roma­no é Marte.

Ares é descrito como um demônio enfurecido e sanguinário, cuja confiança na vitória não passa de gabolice comparada ao poder racional de uma Atena. Os deuses o chamam de "louco" e "furioso"; não sabe "o que é certo", não tem caráter e volta-se "ora para um, ora para outro". Para Zeus, "nenhum deus do Olimpo é tão odioso" quanto ele, porque "só pensa em lutas, guerras e bata-lhas" ... A figura de Ares se origina da antiga religião da terra, onde sua selvageria tem um lugar apropriado, entre outras forças impiedosas. Ele é o espíri­to da maldição, da vingança, da chacina. Como o daimon da matança sangren­ta, ainda representa uma figura temível para Homero. Seu elemento é a ma­tança de homens; é chamado de "o destruidor", o "assassino de homens" 43
Não é um alegre companheiro de cama — mas Plutão também não. De acordo com a cosmogonia dos deuses de Hesíodo, Ares é o filho partenogênico de Hera, a Grande Deusa. O nascimento de Ares acontece porque Hera fica furiosa com Zeus, que tinha tido a audácia de gerar a deusa Atena de sua cabeça, sem uma consorte feminina, e Hera precisa equiparar-se a ele. Transformando em jargão psicológico, Atena é a anima de Zeus, a sabedoria feminina do homem; e Ares é uma forma um pouco negativa do animus de Hera, o espírito de luta da mulher. O fato de Ares ser o filho de uma mãe liga-o imediatamente a Hades, que é o falo de uma mãe. Zeus, na Ilíada de Homero, acha que o lugar apropriado para Ares é entre os titãs banidos nas mais remotas profundezas do Tártaro. Esse deus da guerra não tinha nenhuma dignidade e nenhuma honra; seu tamanho é enorme (231 m de altura) e ele é totalmente pérfido. Em resumo, Ares é uma imagem do ultraje de Hera.

Ares-Marte é masculino da mesma forma que Hades-Plutão é masculino: os dois são servidores e expressões masculinas de uma antiga deusa-mãe que emer­ge de uma visão primitiva do mundo, onde o homem se subordinava ao poder fe­minino supremo da procriação. Marte e Plutão obedecem aos poderes da terra e do inferno, e não do céu. A repulsa sentida por Zeus com relação a esse deus sem pai é algo que tenho visto em muitos homens e mulheres "espirituais", jupiteria­nos partidários do reino da lógica e da intuição que acham esse poder daimônico bruto assustador e intrinsecamente feio. Não é de surpreender que Marte, sozi­nho, possa ser um problema num horóscopo "leve", cheio de ar. O movimento do crescimento interpreta isso como uma dificuldade básica em "pôr a raiva para fora", mas creio que a raiva seja o de menos. Não é estranho, lendo-se a descri­ção de Áries-Marte feita por Otto, que um tipo mais cerebral ou espiritual não se sinta à vontade com o planeta. Urano também parece não gostar de Marte; no mito, o deus do céu Ouranos revolta-se com seus filhos terrenos titãs, banindo-os para o Tártaro, por causa de sua feiúra. E o que Zeus gostaria de fazer com Ares, mas não ousa, devido ao poder de Hera.

É interessante notar que a lista de baixezas atribuída a Ares é anteriormente atribuída às deidades femininas, assim como o reino do inferno pertence origi­nalmente e Eresquigal e Hécate, antes de tornar-se propriedade de Hades. Inanna, a rainha sumeriana do céu, que já conhecemos, é uma deusa da batalha; Istar, sua contrapartida babilônica, também; Sekhmet, a deusa solar egípcia, é uma líder guerreira e senhora do massacre e da vingança; e até a meiga e sensual Afrodite, que mais tarde se torna a amada do deus Ares-Marte, era inicialmente adorada

em Esparta com um nume da batalha sangrenta. Existe algo muito primitivo em Marte, mesmo antes de começarmos a examinar seus aspectos com Plutão. Não estou sugerindo que ele tenha algo de feminino, no sentido comum. Porém, aparentemente, ele representa a masculinidade do corpo, e não a masculinidade do espírito; e o corpo pertence, em última análise, à Grande Deusa. Como Otto sugere, Ares-Marte surge da religião da terra e do mundo do instinto, com suas deidades primitivas presididas pelo feminino. Marte pertence ao velho reino ma­triarcal da carne, e não ao mundo solar e jupiteriano da mente e do espírito. Como diz Erich Neumann:


O Pai Terra, senhor de todas as forças ctônicas, pertence psicologicamente ao reino da Grande Mãe. Manifesta-se mais comumente como a agressividade es­magadora do instinto fálico, ou como um monstro destrutivo. Porém, sempre que o ego é esmagado pelos instintos sexuais, agressivos ou de poder do mas­culino, ou por qualquer outra forma de instinto, podemos ver o domínio da grande Mãe; pois ela é a senhora instintiva do inconsciente, senhora dos ani­mais, e o Pai Terrível fálico é apenas seu satélite, e não um princípio masculi­no de igual peso 44
Plutão e Marte em aspecto aparentemente enfatizam esse lado ctônico de Marte. A rudeza, que absolutamente não é uma característica má, em circunstancias adequadas, é uma qualidade que associo a Marte-Plutão, embora quando os dois planetas estejam em sextil ou trígono essa rudeza pareça assumir uma forma mais socialmente aceitável e seja chamada de "determinação". A sobrevivência é um dos objetivos básicos da natureza, e a pessoa Marte-Plutão se dedica a sua sobrevivência. Existe também, com freqüência, uma espécie de crueldade unida a amor pelo poder, principalmente poder sexual. O fato de existir um elo íntimo entre o erótico e o sanguinário, o sexualmente excitante e o brutal, nem sempre é fácil de admitir para a pessoa Marte-Plutão. O erotismo venusiano é agradável e adorável porque envolve a expressão conjunta, porém o erotismo marciano en­volve o poder 'sobre o outro, e indubitavelmente parece mais um estupro. É mais cruel, mais potente e, para algumas pessoas, mais estimulante. De acordo com Freud:
A história da civilização humana mostra, sem sombra de dúvida, a existência de uma ligação íntima entre a crueldade e o instinto sexual; porém nada foi feito para explicar essa ligação, além da ênfase atribuída ao fator agressivo na libido. De acordo com algumas autoridades, esse elemento agressivo do instinto sexual é, na verdade, um vestígio de desejas canibalescos — isto é, uma contribuição originária do aparato para obter domínio, relacionado com a satisfação das outras, e ontogeneticamente mais velhas, grandes necessidades instintivas.45

O próprio Freud, que tinha Marte e Plutão em quincúncio no mapa natal, devia conhecer muito bem esse problema. O tipo de "animus primitivo" sobre o qual Jung escreve e que é personificado pelo homem rude, calado, "natural", como Heathcliffe ou o homem-macaco Tarzan, tem parentesco com as qualidades

de Marte-Plutão. O mesmo acontece com Caliban, o bestial macho que é a contrapartida negra do mágico Próspero em The Tempest, de Shakespeare. Caliban também é um filho de uma mãe, uma criatura da terra. D. II. Lawren­ce, que tinha Marte e Plutão em sextil no horóscopo natal, instilou essas mes­mas qualidades no caráter de Mellors, o guarda-florestal de O amante de La­dy Chatterley. As características menos favoráveis de Marte-Plutão também po­dem se manifestar na figura do estuprador, e essa imagem não é incomum em so­nhos e fantasias — quando não na vida real — das pessoas que têm Marte-Plutão natais em quadratura, conjunção e oposição.

Compreensivelmente, existe com freqüência um profundo medo dos impul­sos mais primitivos representados pelos aspectos Marte-Plutão, embora essas imagens masculinas aparentemente feias possuam boa dose de sabedoria a res­peito de sobrevivência e de fertilidade, tanto biológica quanto psíquica, que tende a faltar nos deuses alados dos céus. A violência e a paixão de Ares são assustadoras para o ego civilizado, facilmente cortadas e "banidas para o Tárta­ro" — em outras palavras, reprimidas. Essa questão pode ser particularmente dolorosa para um homem com Marte-Plutão, pois Marte está ligado ao senso de confiança do homem em sua própria virilidade e autodeterminação. O repú­dio de Marte-Plutão devido à sua primitividade resulta freqüentemente num sen­so de impotência, de castração e de falta de domínio. Isso deixa o homem aber­to ao domínio das mulheres; como conseqüência, em geral culpa a mãe pelo pro­blema, se pensa psicologicamente; mas a dificuldade aqui não é tanto com a mãe, mas com a repulsa que Zeus sente por Ares, ou, dito mais simplesmente, que a pessoa de orientação intelectual e espiritual sente por suas raízes corporais e seus desejos carnais. Nesse contexto, o horóscopo de Timothy S. que mostrei anteriormente talvez seja esclarecedor, pois a depressão é, com freqüência, uma inversão da raiva violenta; Timothy era uma pessoa que não conseguiu descobrir nenhuma forma de enfrentar ou achar um canal de saída para o que o consumia.

Desejo primitivo não esgota o significado de Marte-Plutão. Existe outra faceta dessa combinação planetária que parece trazer consigo um sentimento muito maior de "fatalidade". Marte, por natureza, é um deus extrovertido, assim como Vênus é uma deusa extrovertida. Por um lado, ele procura satisfazer seus desejos e impulsos através de objetos exteriores. Mesmo que seja um servidor da Grande Mãe, seu campo de atividade é o mundo exterior: o instinto efetivando-se no am­biente através da satisfação do desejo. Plutão, por outro lado, puxa as coisas pa­ra dentro do seu reino oculto, e é, em certos aspectos, uma imagem da introver­são da libido ou energia psíquica. Ou, dito de outra forma, Plutão, como imagem das escuras raízes maternas da psique, está eternamente arrancando-nos da vida, de volta ao útero da Mãe, para o renascimento ou morte. O puxão regressivo da depressão, da apatia, da perda de energia (que as tribos da África chamam de "perda da alma"), do desespero e das fantasias de morte são os componentes emocionais dessa pressão constante para regressar e retornar à Mãe. Plutão exi­ge uma retração com relação às projeções e às ligações do mundo da superfície. E essa qualidade que é, em parte, responsável pela sensação de escravização e de prisão que acompanha os trânsitos e progressões do planeta. Não se pode mais encontrar gratificação do lado de fora, ou porque as circunstâncias exter­nas impedem, ou porque alguma compulsão ou ladrão oculto na psique rouba

energia, jogando-a para o inconsciente. Plutão não é apenas um estuprador, irrompendo violentamente na vida exterior, mas também um raptor, roubando Perséfone e arrastando-a consigo para baixo. O estuprador-raptor é uma imagem onírica comum que acompanha o início da depressão e perda de interesse pela vida. É uma imagem igualmente comum nos sonhos que se concentram por vol­ta do início de psicoterapias profundas. O estuprador-raptor anuncia o "arrebatamento" do ego no inferno. O mito também deixa claro para quem trabalha Plutão, o raptor masculino, pois quando Hades rouba sua noiva da mãe, Demé­ter, ele foge para a Grande Região Inferior através de um caminho que lhe abre Gaia, a Mãe Terra. Esse estranho envolvimento da Grande Mãe no estupro da própria filha (Gaia e Deméter são tão parecidas que são, inequivocamente, uma só deusa) sugere que a psique requer esse movimento para dentro e para baixo para seus próprios fins, a despeito do sofrimento acarretado.

A intensa frustração, portanto, é uma das experiências mais reconhecíveis de Marte-Plutão. A introversão é imposta às paixões, com a aparência freqüente de destino, porque é o objeto exterior do desejo que aparenta se recusar. Não se pode ter o que tanto se deseja no mundo exterior sem o pré-requisito da jornada para dentro; entretanto, a intensidade mesma da combinação Marte-Plutão garante que o desejo é muito, muito grande. Tenho visto pessoas Marte-Plutão baterem a cabeça repetidamente na parede da rejeição do outro, nunca se ar­rependendo, nunca desistindo, tornando-se mais zangadas e mais vingativas, nunca renunciando ao objeto cobiçado que alguma lei interna invisível decreta que não podem possuir. Esse fato soa tão freqüentemente como destino que só posso presumir que seja destino. Pode ser uma experiência profundamente aflitiva, porque quanto mais a pessoa Marte-Plutão tenta utilizar seu poder e determinação para coagir o mundo exterior à submissão, mais resistência esse mundo exterior oferece. Assim, a pessoa compactua e é o autor do próprio des­tino, quando uma resposta mais adequada poderia ser aceitar o que não pode ser mudado e seguir o caminho para o inferno para descobrir o que tem em mente a Senhora da Grande Região Inferior.

Esse círculo de intenso desejo e frustração igualmente intensa é, na minha opinião, uma das razões da repressão tão freqüente de Marte-Plutão. Sem dúvi­da seria difícil encontrar alguém que se sujeitasse voluntariamente a essa pres­são. Creio que é essa pressão que estimula a violência sufocada, interna ou ex­terna, do aspecto, ou desloca essa violência, dirigindo-a contra a própria pessoa. Se esta for incapaz de fazer o sacrifício necessário no altar de Moira, a pressão torna-se insuportável. Marte-Plutão pode, sem dúvida, ser traiçoeiro e manipu­lador; qualquer aspecto que tenha conexão com a Grande Deusa parece manifestar essa face mais sombria do feminino, cujo código moral é muito diferente da­quele do Sol e Júpiter. A moralidade do mundo ctônico não se baseia em prin­cípios racionais ou na ética, e sim na sobrevivência e na propagação da espécie. Do ponto de vista de Plutão, os argumentos da moralidade são irrelevantes. En­tretanto, as próprias qualidades que dão à pessoa Marte-Plutão essa imensa ca­pacidade de sobrevivência muitas vezes são sentidas como repulsivas, porque parecem violar códigos morais conscientes.

Existem muitos paralelos com Marte-Plutão na alquimia, onde o animal da cobiça, do desejo e da necessidade instintiva — freqüentemente um lobo, que

pertence à deusa e é retratado como um proscrito eternamente faminto — é aprisionado no alambique selado e assado lentamente no fogo, até se consumir e se transformar. Parece que Marte-Plutão muitas vezes é forçado a aceitar uma dupla obrigação: reconhecer e valorizar as qualidades primitivas da natureza, e ao mesmo tempo aceitar a frustração da expressão dessas qualidades até terem sido purificadas pelo fogo. É esse aspecto em particular que me faz asseverar a validade da crença de Jung de que o inconsciente deseja tornar-se consciente, mas também não deseja, e só o faz à custa de muito conflito e muito esforço.

Pela minha experiência, Marte-Plutão parece surgir no sonho de muitas pes­soas como um homem negro. Não há dúvida de que esse é um símbolo que só se aplica à nossa cultura ocidental, predominantemente branca. A figura do homem negro também era uma das prediletas dos alquimistas, que o chama­vam de Etiópio e acreditavam que ele fosse a prima materia, a matéria bruta da vida, na qual se executava o trabalho alquímico. James Hillman sugere que se pode considerar as pessoas negras, nos sonhos, em termos de sua semelhança com esse contexto infernal. Seus atributos de ocultação e de estupro perten­cem à fenomenologia "violentadora" de Hades... como sua perseguição igualmente se assemelha à caçada empreendida por demônios da morte. São fantasmas que voltam do mundo subterrâneo reprimido — não simplesmente do gueto reprimido . . . Levam a pessoa para baixo, roubam seus "bens" e ameaçam o ego por trás das portas trancadas.46

O homem negro e o lobo são símbolos tipicamente plutonianos. O mesmo se aplica ao lobisomem, essa estranha criatura do folclore da Europa Oriental que, na lenda, é um homem que, na Lua cheia, se transforma contra sua vontade em besta, condenado a devorar o que mais ama. Wagner usou a equação arquetípica preto/bestial/infernal em seu personagem Alberich, o Anão. No ciclo do Anel, es­sa figura se chama "o negro Alberich"; seu reino de Niebelheim é o inferno plu­toniano; ele faz total contraponto a Wotan, deus do céu, senhor da Valhalla ce­lestial. Figuras como Alberich personificam o homem natural bruto, primitivo, selvagem, voraz e implacável que contém potencialmente as sementes do ouro. Em Das Rheingold é Alberich, e não Wotan, que através da renúncia inexorável do amor adquire poder sobre o outro e forja com ele um anel de poder. Da mes­ma forma, em Lord of lhe Rings, de Tolkien, é o negro senhor Sauron que possui não apenas o mal, mas também a força para fazer e manejar o Anel. Na opinião de Jung, o homem preto e o lobo são imagens do próprio inconsciente — nature­za bruta, cheia de afeto e conflito, que dá à luz o ego e em seguida luta com ele no longo processo do desenvolvimento individual e coletivo. Tenho encontrado esses motivos e outros semelhantes com tanta freqüência nos sonhos de meus clientes de mapas e meus analisados — principalmente os que têm aspectos Mar­te-Plutão — que isso me leva a considerar os conflitos entre pretos e brancos no mundo exterior parcialmente como exteriorizações de um profundo dilema in­terno entre a consciência ocidental intelectualizada e suas raízes primitivas. O apartheid da África do Sul é um tema altamente emocional freqüente nos so­nhos de muitas pessoas que não têm com ele qualquer envolvimento direta e

muitas vezes são mal informadas; e a intensa comoção com relação a essas ques­tões sugere, sem dúvida, um grau de projeção ou identificação Inconsciente entre uma questão coletiva externa e outra, profundamente interna. Acho que esse tema lança alguma luz sobre Marte-Plutão e os conflitos que esse aspecto pode provocar.

Algumas vezes o destino de Marte-Plutão é o estupro físico. Ao fazer essa afirmativa não estou, de forma alguma, sugerindo que para quem tem um aspec­to Marte-Plutão no mapa natal, ser estuprado ou tornar-se um estuprador é um "resultado" inevitável. Mas aparentemente existe uma relação entre o aspecto e a experiência concreta do estupro. Esse assunto tem tanta carga emocional, principalmente na esteira do movimento feminista, que seria muito mais cã-modo evitá-lo. Mas o estupro pertence ao reino de Marte-Plutão e, portanto, precisa ser citado aqui. Já vimos o motivo simbólico do estuprador no próprio Plutão. Esse motivo tem maior tendência à exteriorização com a colaboração de Marte, talvez por causa da intensa pressão de raiva e de frustração que tantas vezes acompanha os aspectos mais difíceis. Como mulher, não posso ter a pre­tensão de ser totalmente objetiva a esse respeito. Mas embora sejam previsíveis sentimentos de profunda raiva e humilhação nas mulheres submetidas a um ato de tamanha violência e violação, esses sentimentos não ajudam a compreender por que o estupro atinge algumas mulheres e não outras. A voz do feminismo extremado sugere que o estupro é uma barbaridade exclusivamente masculina in­fligida a vítimas femininas desamparadas e inocentes, típico da brutalidade exer­cida pelos homens contra as mulheres através da história. A voz de nossa cultura judeu-cristã, dominada por sua deidade patriarcal, sugere que as mulheres é que devem ser culpadas, ou por causa da arraigada crença de que aquela mulher em particular provocou o fato, ou porque — o que é ainda mais irracional — uma parte da psique coletiva, tanto nos homens como das mulheres, ainda iguala o fe­minino ao sexual e, portanto, ao pecado. Talvez seja por isso que a culpa, e não a raiva assassina, constitua tantas vezes a resposta emocional imediata de mulhe­res estupradas, e porque a passagem de um caso de estupro pelo tribunal seja uma experiência profundamente humilhante para a vítima.

Esses dois pontos de vista extremos podem lançar considerável luz nos proble­mas arquetípicos entre homens e mulheres em termos de suas raivas mútuas, mas os dois extremos tornam-se bem inúteis quando considerados com relação à pes­soa. Também tenho consciência do fenômeno do conluio inconsciente e da enor­me dificuldade em estabelecer quaisquer conexões significativas entre a pessoa e um acontecimento "exterior" aparentemente aleatório e não provocado, para jo­gar a culpa, de forma muito arrogante, ou no homem ou na mulher, nessa ques­tão ambígua. Também é bem possível que o estupro seja uma questão social; os estupradores, de acordo com alguns levantamentos, tendem a vir de ambientes difíceis e não privilegiados ou emocionalmente estéreis. Mas também temos o testemunho da astrologia, dando a entender que esta também é uma questão in­dividual. Vale a pena tentar examinar o estupro de um ponto de vista mais obje­tivo, já que tenho visto contatos Marte-Plutão em tal número em mapas de mu­lheres estupradas — em um ou outro nível — que não se pode ignorar o fato de que pode haver alguma coisa na psique que atrai essas experiências. Pode-se até chamar esta "coisa" de destino.

O estuprador e a vítima estão ligados por uma experiência comum, e talvez te­nham algo mais em comum: um cenário psicológico refletido pela constelação Marte-Plutão. Bradley Te Paske, em seu livro extremamente revelador, Rape and Ritual: A Psychological Study, começa citando alguns recentes estudos america­nos sobre o estupro e ressalta que cerca de um terço dos estupradores investigados tinham sido sujeitos a algum trauma sexual na juventude. Muitas vezes esses delitos foram cometidos pela mãe, e aqui há uma conclusão clara. O estupro e os atos de agressão sexual semelhantes não são prerrogativa exclusiva do macho bárbaro, a menos que "macho" seja usado no sentido de também abranger o ani­mus; e o tema do agressor e da vítima podem relacionar-se a uma só pessoa.

Te Paske examina em seguida o mito Hades-Perséfone obviamente impressio­nado pelo estranho envolvimento da mãe-deusa no estupro da própria filha. Cita o trabalho de Jung sobre "Os aspectos psicológicos do Kore":
O desamparo da virgem sujeita-a a todo tipo de perigos, por exemplo ser de­vorada pelos répteis ou ser ritualmente assassinada como um animal sacrifi­cial. Muitas vezes há orgias sangrentas, cruéis, até obscenas, tendo como víti­ma a criança inocente. As vezes há um verdadeiro nekyia, uma descida ao Hades e uma procura do "tesouro difícil de obter", ocasionalmente ligados a ritos orgiásticos ou oferecimentos de sangue menstrual à lua. Estranhamente, as várias torturas e obscenidades são realizadas por uma "Mãe Terra".47
Há uma sugestão muito perturbadora nesse tema mítico. Parece que a própria Grande Mãe, em sua forma fálica como Hades, é o estuprador; e o objetivo do estupro é sua filha virgem e incipientemente erótica. Te Paske sugere que essa si­tuação reflete um conflito básico entre o feminino maternal instintivo e o femi­nino erótico individualizado, conflito que, se for muito grande, pode levar à cria­ção de imagens, e talvez mesmo à experiência do estupro.

A seguir apresento o sonho de uma mulher que fez análise comigo durante um curto período. A análise foi interrompida quando ela decidiu mudar para a Ale-manha com o marido, nascido naquele país. Essa mulher, que chamarei Ângela, tinha sido estuprada pelo padrasto quando tinha oito anos e foi estuprada mais duas vezes por estranhos na adolescência. Apesar dessas experiências, ela conse­guiu estabelecer um relacionamento sólido e gratificante com o marido, mas o lado sexual do casamento deixava muito a desejar, principalmente por causa do medo que Ângela tinha de perder o controle — medo bastante compreensível, mas extremamente angustiante. No seu mapa natal, a conjunção de Marte, Satur­no e Plutão, que já encontramos no horóscopo de Timothy S., aparece na sétima casa.


Estou num quarto com uma jovem muito bonita de mais ou menos dezesseis anos, com um vestido branco de noiva. Ela tem cabelos dourados, olhos azuis e é muito coquete, tipo "garota do papai". Há um rapaz escuro, muito ator­mentado, que está apaixonado por ela. Ele está tomado de terrível violência e quer enfiar uma faca no coração dela. Ele não consegue se controlar. Crava a faca no peito dela e o sangue espirra para todos os lados. A moça está morrendo e tomba em meus braços; cabe a mim ampará-la em sua agonia mortal.

De repente noto uma mulher mais velha sentada no quarto. Ela é grande e muito escura, e assiste a tudo sentada, com um olhar estranhamente satisfeito. Percebo horrorizada que é a mãe da moça e que ela ou fez o rapaz cometer o assassinato ou, no mínimo, o desculpa, porque não faz nada para ajudar.


Esse sonho, uma encenação levemente disfarçada do mito Hades-Perséfone, re­trata o falo como uma faca, executando o ato de morte-casamento sob o olhar da Grande Mãe. Parece revelar muita coisa sobre os padrões inconscientes ope­rando dentro da mulher exposta mais de uma vez a um estupro. Ângela não passava de uma criança por ocasião do primeiro estupro, e dificilmente poderia ser acusada de "provocação" em qualquer sentido literal, embora a maioria das crianças "teste" a sexualidade incipiente durante o seu desenvolvimento normal. Entretanto, aqui existe um destino em funcionamento. Ao falar dessa experiên­cia infantil muito dolorosa, Ângela verbalizava um sentimento que ouvi, em muitas outras ocasiões, de mulheres submetidas a estupro na infância: inconscientemente, há uma sensação de que a mãe, de alguma forma, é a responsável. Isso pode desafiar qualquer consideração racional das circunstâncias familiares objetivas, porém a sensação pode ser forte e pode persistir apesar do senso de culpa que provoca. Quando Ângela começou a expressar essa sensação como uma fantasia, vivenciou a mãe como promovendo secretamente o estupro, ou tendo o cuidado de fazer vista grossa ao fato, o que mantinha o marido tranqüilo. Essa fantasia pode não ter qualquer respaldo em termos de comportamento ou in­tenções reais, mas no caso de Ângela parece que ela percebeu alguma subcorrente inconsciente operando no contexto familiar. A sensação de não ter proteção contra a força assustadora do estuprador, e a convicção de que isso reflete uma omissão ou mesmo uma intenção por parte da mãe é uma das feridas mais profundas relacionadas com o estupro na infância, e sob certos aspectos é tão dolorosa quanto o próprio ato físico, devido ao profundo sentimento de traição. Seja um reflexo de um conluio familiar, intrincado e profundamente inconsciente, ou um "significado" arquetípico, ainda assim é um destino.

O sonho de Ângela não é apenas sobre o que aconteceu a seu corpo; tam­bém é um sonho de iniciação ocorrido na época em que ela estava prestes a aban­donar seu terror de ser penetrada pela vida. Aponta para a frente e para trás, não apenas levantando a questão do conluio da mãe, mas também ressaltando a ne­cessidade de um sacrifício da inocência "virginal" à qual ela se apegava como única defesa contra a terrível raiva interna. O fato de ela ter sido capaz de ampa­rar a .moça moribunda e conter sua agonia mortal, no sonho, é um augúrio de que Ângela tinha força para lidar com quaisquer emoções que pudessem eclo­dir. Na realidade, foi isso que aconteceu, e a irrupção da raiva contra a mãe aliviou boa parte da inibição sexual que a atormentava. Sua raiva do padrasto era consciente, mas expressá-la não tinha ajudado. Foi só quando ela enfren­tou a questão da mãe que se tornaram possíveis a mudança e a cura.

Te Paske, em seu livro, trata principalmente da psicologia do estuprador e do significado desse tema em sonhos e em fantasias de homens que não estão dispostos a vivê-lo, mas que o encontram como um acontecimento interior. A conclusão que ele tira é que o estupro é uma manifestação da libido masculina lutando contra as garras sufocantes e asfixiantes do inconsciente, representado

como a Grande Mãe. Assim, por um lado, sonhos de estupro não precisam necessariamente representar nada patológico, mas podem ocorrer como imagens de um processo do desenvolvimento da individualidade. O estuprador, por outro lado, de acordo com Te Paske, em geral é ligado à mãe, e busca tanto a vingança contra o feminino como a salvação através de sua vítima durante o ato do estu­pro. É por isso que, a despeito da violência e da grosseria do ato, tantos estupra-dores perguntam às suas vítimas se o desempenho sexual deles foi bom.


A pessoa pode ser um Charles Manson, um estuprador de menor instinto cri­minal ou apenas mais um macho conquistador, mas a influência do aspecto negativo da mãe desempenha um papel importante em sua psicologia ...en­carando-se o cenário psíquico do estupro em termos de um medo penetrante do aspecto negativo do feminino, e da simultânea capitulação ante seu poder, apenas um grande fator é enfatizado 48
Mais adiante, no livro, ele exprime essa conclusão ainda mais sucintamente:
Num sentido profundo, o estupro é uma tentativa de matricídio psicológico. Porém, quando a mãe é muito poderosamente interna e muito profundamente inconsciente para ser enfrentada como problema interior, é a mulher exte­rior que se toma vitima da afirmação concreta do poder masculino.49
Essa afirmação do poder e da virilidade masculinos em luta contra a face castradora e devoradora do inconsciente feminino é representada, em linguagem astrológica, pelo conflito entre Marte e Plutão. Isso é bastante compreensível em termos da psicologia masculina. Mas a mulher vítima de estupro freqüentemente tem a constelação Marte-Plutão. A implicação, aqui, é que o mesmo drama se desenrola em sua psique, exteriorizando-se na experiência concreta do estupro, embora seja mais provável (mas não invariável) que ela desempenhe o papel da vítima. O que significa isso para a mulher individual? Talvez seja uma forma de expressar o problema de sua própria iniciativa e potencial criativo (que Jung chama o animus), mantidos nas garras da mãe instintiva. Ou, dito de outra forma, de certo modo ela é a herdeira inocente de um problema da mãe e da família, e está "destinada" a ser o sacrifício inconscientemente oferecido pela mãe para solucionar seu próprio dilema entre maternidade e sexualidade, ou entre a vida cega instintiva e a auto-expressão individual.

Nessa circunstância, o estupro é a manifestação de algo que não foi internamente integrado, mas que gerou enorme pressão na psique familiar. Se a figura de Marte-Plutão for suficientemente poderosa na família ou na pessoa, e for re­primida com muito vigor, pode eclodir como um destino exterior. A psiquiatria forense está desagradavelmente familiarizada com o difícil problema de avaliar uma acusação de estupro, pois algumas são bem definidas mas um número maior é altamente ambíguo. Muitas vezes a mulher alega que foi violentada, o homem alega que foi convidado, o casal já se conhece, talvez tenham sido amantes no passado, e a panacéia reconfortante do ultraje moral e da culpa — corn relação a qualquer um dos dois — desaparece numa incômoda sensação de que existe um estranho conluio inconsciente entre estuprador e vítima. No caso de vitimas

crianças ou de agressores desconhecidos, essa insinuação parece incrível. Mas talvez o conluio exista em algum nível do inconsciente, com raízes muito anterio­res à pessoa. Tenho a impressão, vendo esse aspecto se repetir nos horóscopos de famílias, que Marte-Plutão pode implicar uma herança ancestral e não num pro­blema estritamente individual de "atrair" o estupro. Pode ser um daimon familiar: uma energia sexual vital e turbulenta que gerações sucessivas tentaram ani­quilar e eliminar por causa de sua dependência da respeitabilidade ou dos valores socialmente aceitáveis, ou porque a Grande Mãe domina a psicologia da família. Então, alguém é eleito, inconscientemente, como bode expiatório, e torna-se o estuprador ou o estuprado. Visto como uma questão entre mãe e filha, o estupro torna-se algo muito mais complexo do que uma questão social. A interpretação que Te Paske faz de Marte é esclarecedora:
Marte é particularmente adequado ao tema do estupro no sentido de que es­sa figura personifica a natureza bruta, guerreira e agressiva do homem, em oposição a Afrodite, porém apaixonado por ela. Jung afirma que Marte (Ares) pode ser considerado "o principio da individuação em sentido estrito". Esse "sentido estrito" indica que o princípio da individuação é quente, violento, virulento. Marte representa o poder e a raiva em forma rudimentar e concre­ta. 50

Em outras palavras, Marte numa mulher não é diferente de Marte num homem: é o impulso para efetivar a própria identidade individual no mundo. O estupro como manifestação do conluio inconsciente entre mãe e filha e estuprador suge­re, portanto, a vingança da mãe contra o impulso da filha para desenvolver-se co­mo pessoa separada, ou a mãe lutando contra seu próprio impulso para desenvol­ver-se, projetando-se na jovem filha. O estupro como manifestação do conluio in­consciente entre mulher e estuprador sugere algo semelhante: a retaliação do in­consciente contra o impulso da pessoa para desenvolver-se até muito longe de suas raízes maternas.

Ocorre-me aqui o sonho de outra analisada, uma mulher de vinte e poucos anos a quem chamarei Ruth. Ela teve muitos sonhos com a figura do estuprador durante o primeiro ano de análise. Não foi uma vítima de estupro na infância, pelo menos não concretamente, mas era sujeitada a isso no relacionamento com um atuante violento. Esse é um tipo terrivelmente comum de estupro, que nun­ca vai aos tribunais por razões óbvias. Aos poucos, durante a análise, tornou-se claro que esse animus violento, que muitas vezes assumia os disfarces mais bru­tais e sádicos nos sonhos de Ruth, estava ligada tanto à sua própria raiva e agressividade não expressas quanto ao amante externo. A raiva sufocada de Ruth tendia a voltar-se contra ela mesma, "estuprando" seu próprio valor atra­vés de pensamentos de desvalia e de maldade. Se ela tivesse uma personalidade mais agressiva ou mais firme, esse animus, sem dúvida, se voltaria para fora, con­tra os outros; mas ela era uma mulher meiga e sensível, profundamente introver­tida, e de valores extremamente idealistas. Assim, o estuprador interno voltou sua destruição contra o próprio senso de individualidade dela. Também tornou-se óbvio que esse estuprador pertencia tanto a seus pais e à sua dinâmica conjugal como a ela mesma. Num dos primeiros sonhos, ele apareceu especificamente

"a serviço" de sua mãe, que era uma filha ilegítima cuja infância foi terrivelmen­te pobre. Essa mãe trazia dentro de si uma raiva enorme e bastante violenta, que só vinha à superfície em cenas de choro e brigas conjugais corriqueiras, e em ex­plosões de crítica destrutiva contra a filha. Esse é verdadeiramente o ultraje de Hera, transmitido de mãe a filha como herança psíquica. O Marte de Ruth, re­presentando seu potencial individual e criativo, estava totalmente nas garras da mãe. O pai era um oficial do exército, aposentado; embora fosse descrito como "fraco" com relação à filha, expressava regularmente violência com os filhos e um tipo de violência emocional disfarçada com Ruth. Não é de surpreender que no horóscopo de Ruth, Marte esteja em quadratura com Plutão e em con­junção com o Meio-do-Céu — o ponto do mapa que pertence à herança recebida da mãe. O sonho é o seguinte:

Estou num quarto com um homem negro, zangado e perigoso. Reconheço-o imediatamente de outros sonhos. Estou terrivelmente assustada. Tento falar com ele, e pergunto por que ele me persegue. Ele diz: "Se você mostrar ódio contra mim, vou mostrar ódio contra você."
Este sonho, à luz do que viemos investigando, é tão transparente que não pre­cisa de interpretação. Não diz respeito tanto às raízes do problema como a uma forma potencial de lidar com ele. Aqui, o inconsciente, que por um lado se retra­ta como um perseguidor violento, por outro lado oferece ao ego uma forma de reconciliação. Esse "homem perigoso" não pode ser reduzido simplesmente a um aspecto agressivo do sonhador. E muito mais do que isso. E o "princípio da indi­viduação em sentido estrito", e está querendo ser posto em discussão; presumivelmente ele a está perseguindo porque ela ainda não se libertou da identifica­ção com a psique da mãe. É também uma imagem da poderosa raiva e do poten­cial criativo da família, arrochados por várias gerações e manifestando-se de forma assustadora na psique de Ruth — e em sua vida externa. É claro que ele tam­bém é a raiva dela, pois Ruth tinha uma raiva considerável dos homens, inverti. da e manifestada como um padrão autodestrutivo em seu relacionamento. Plu­tão, envolvido na quadratura com Marte, está colocado na décima segunda casa no mapa natal, que acho que diz respeito, entre outras coisas, ao passado ances­tral, às "causas" ou pressões "invisíveis" que se acumularam lentamente antes do nascimento da pessoa (representado pelo ascendente) e que jazem ocultas por trás da personalidade individual. As vezes, a décima segunda é chamada de a "casa do Karma", mas o que é o karma senão uma cadeia de causas invisíveis que passam de geração a geração e dão seus frutos na vida presente da pessoa? Não é preciso acreditar necessariamente na reencarnação para entender o karma, ou destino, nesse sentido; os dois conceitos também não se excluem mutuamen­te.

O violento homem preto do sonho parece personificar todo um complexo de família, um destino herdado. Coube a Ruth lidar com esse destino, o que ela pre­cisa fazer para não se transformar em vítima dele. Lidando com ele, ela destrava sua própria liberdade de desenvolvimento, pois ele é o aguilhão que a retira da teia parental e a conduz à vida criativa. Aparentemente ela não pode repudiar esse estuprador interno, como fizeram seus pais, passando-o à geração seguinte. Pa­rece

que o destino não apenas se abateu sobre ela de forma aparentemente cruel e difícil; também pede a ela que o liberte e o transforme. Ruth é o bode expiató­rio, o portador do que Hillman chama de "justiça retaliativa ligada a pecados an­cestrais". Ela não fez nada para "merecer" esse destino; é uma pessoa de grande honestidade e integridade, e não me sinto em condições de fazer a ligeira e, pa­rece-me, arrogante suposição de que ela deve ter cometido algum crime numa vida anterior. Não sei se ela teve uma vida anterior, e ela também não sabe; mes­mo que eu tivesse certeza, isso não a ajudaria a integrar esse daimon familiar à sua vida atual. Também não estou em condições de atribuir qualquer responsa­bilidade consciente. Isso é muito mais do que um "potencial" ou "tendência" implícitos num padrão planetário. Ela literalmente não teve escolha. Se há uma questão de responsabilidade pessoal associada a essas coisas, ela só pode residir na tarefa, voluntária ou não, de tentar trazer à consciência algo cuja criação não podemos, de forma alguma, imputar ao ego. Se Ruth fosse mais velha, poder-se-ia encarar o "desequilíbrio" de sua atitude consciente com alguma desconfiança. Mas ela ainda não tinha amadurecido o suficiente para ter uma consciente fir­me atitude. Enquanto essa Jovem estiver presa na teia familiar e tentar lançar no Tártaro o estuprador com sua sexualidade vital e exuberante, ele vai persegui-la nos sonhos e na vida, e ela está "condenada" a ter relacionamentos destrutivos.

O homem violento passou por muitas transformações desde o primeiro sonho mencionado acima; o mesmo aconteceu com Ruth. O que possibilitou esse fato é um grande mistério, que adiante vamos estudar mais detalhadamente. Embora os temas de abuso e estupro continuassem com intervalos em seus sonhos, o pa­drão todo começou vagarosamente a mudar, e Ruth não era mais um mero reci­piente passivo. O homem começou a aparecer sob disfarces mais úteis, guiando-a ou apoiando-a, à medida que ela começou a estabelecer uma relação com essa parte primitiva da vida psíquica. No final ela se livrou do relacionamento externo destrutivo, por meio do qual ela vivia a figura dissociada do estuprador. O térmi­no dessa ligação aconteceu depois de um sonho onde o homem preto apareceu e pediu a ela que o matasse e o comesse. Comer alguma coisa, num sonho ou conto de fadas, implica digeri-la, tornando-a consciente e incorporando-a ao referencial da vida. O tema do canibalismo existe em abundância no mito grego e é sempre punido severamente pelos deuses, que têm ciúme do seu poder e lutam para im­pedir que o ego heróico engorde muito com a carne roubada. Evidentemente, o inconsciente está querendo dizer, através desse sonho, que a batalha está quase no fim; é hora de assumir responsabilidade por essa figura, sacrificando o cami­nho doloroso, embora mais fácil, de recrutar outra pessoa para vivê-la. Aqui, não há ameaça de punição dos deuses, e sim um acordo entre consciente e incons­ciente. Esse sonho assinalou o começo da solução de alguns dos problemas mais agudos inerentes à quadratura natal Marte-Plutão.

Ruth procurou-me pela primeira vez quando essa quadratura estava sendo ati­vada por um longo trânsito de Urano em oposição a Marte e em quadratura com Plutão. Mais uma vez, Urano implica o potencial de avanço súbito ou compreen­são clara do que antes era inconsciente e compulsivo. O resultado desse trânsito de Urano foi muito mais construtivo do que no caso de Timothy S., mas é difícil entender a razão. Dei o exemplo de Ruth porque é um excelente paradigma de algumas das dificuldades de Marte-Plutão, para as quais não existem soluções fáceis.

Talvez absolutamente não haja soluções, apenas acordos, pois a pessoa Mar­te-Plutão não pode de forma alguma repudiar os elementos primitivos de sua psi­que. Com esses aspectos, o desenvolvimento individual parece exigir um choque com o que se opõe a esse desenvolvimento, e a harmonia só é possível quando a própria pessoa muda — "morre", num certo sentido, na hora do "casamento". Só posso supor que esses aspectos no mapa de nascimento constituem um desti­no e uma oportunidade para a pessoa restaurar a dignidade e o valor de algo pros­crito há muito tempo.

As poucas descrições que fiz de alguns dos aspectos de Plutão não têm o intuito, como adverti, de proporcionar interpretações fáceis para o astrólogo. Seu in­tuito é ilustrar um tema, e são exemplos isolados de uma história que ouvi o su­ficiente para me convencer de que é a história básica de Plutão. A Mãe Preta, da qual Plutão é nosso símbolo astrológico — o mundo do útero, o inferno, a tum­ba, o inconsciente, o instinto — é aquele antigo poder que os gregos chamavam de Moira, e ela está bem viva no século XX, sob formas que talvez só possam ser compreendidas pela linguagem da psicologia profunda. Moira é sem dúvida uma deusa vingativa quando a luz brilhante da consciência do ego a repudia e despre­za suas fronteiras. O que é mais difícil de aceitar é que ela vai infligir sua vingan­ça aos filhos dos pais que erraram. Mas talvez, de uma perspectiva mais profunda, isso não seja tão "injusto" quanto parece, já que a pessoa faz parte de uma base humana coletiva, racial e familiar e dela resulta; portanto, herda os problemas e os dons do todo. Isso não difere muito da idéia religiosa de que "herdamos" o pecado de Adio, e portanto somos culpados, embora possamos não ser individualmente culpados; ou de que, como na Paixão segundo São Mateus, de Bach, so­mos simultaneamente Judas, a massa vingativa, Pilatos e o Cristo crucificado. Os aspectos de planetas interiores a Plutão parecem refletir a necessidade de viver em paz com as fronteiras de Moira. Se os aspectos são harmônicos, a tarefa é mais fácil, pois a tendência é ser mais flexível com relação à conciliação com a lei natural e o lado mais primitivo de si mesmo e da vida. Se os aspectos são difíceis, o mesmo potencial inato está presente, mas não pode ser manifestado sem alguma luta e um choque com a psique inconsciente, que soa como estupro e morte. A natureza de Moira, conforme simbolizada por Plutão, inclui todas as exigências do instinto: o corpo e seus apetites, o impulso sexual, os impulsos agres­sivos e destrutivos. O significado dado por Freud ao id com seus impulsos ambi­valentes sexuais e destrutivos, que ele denominou Eros e Tânatos, não está muito longe de nossa antiga deusa. As necessidades do homem instintivo, quando Plutão é forte no horóscopo, não podem ser evitadas sem retaliação, e essa reta­liação muitas vezes toma a forma de possessão exatamente por aquilo que se está querendo evitar; mas, como aconteceu com Ruth, pode aparecer primeiro "no exterior". Entretanto, se esse poder primitivo não for admitido, por mais "ne­gativo" ou "inferior" que possa parecer a princípio, alguma coisa aparentemen­te acontece tanto ao ego como ao inconsciente. Uma das vantagens de Plutão, pelo que pude observar, é uma capacidade de sobrevivência e uma têmpera rija que pode não ser sempre "amável" ou "altruísta", mas é muito mais eficaz na vida e não se deixa amedrontar pela separação, o sofrimento ou a morte.

Associo o planeta Plutão ao aspecto específico do destino que os gregos ima­ginaram como uma deusa escura, velha e severa. Essa deusa também pode ser vista

sob outros ângulos, mais amplos, além do planeta específico que estamos investigando. Plutão indica o destino familiar passado; porém o destino familiar, no sentido mais amplo, só pode ser distinguido quando examinamos a dinâmica e os horóscopos da família. Este é o próximo ângulo que pode dar-nos maior compreensão da natureza do destino feminino. Primeiro, gostaria de terminar este capítulo com um conto de fadas. A antiga deusa Moira entra em cena aqui, embora sua majestade primitiva esteja obscurecida e possa ser preciso pensar um pouco para reconhecê-la. Talvez a história de Mamãe Hölle seja um resumo adequado de Plutão como Moira, em linguagem de contos de fadas. Quando des­cobri esse conto, coligido pelos irmãos Grimm, fiquei imaginando o que poderia significar Hölle. Investiguei em dicionários de alemão e junto a amigos que fala­vam alemão, sem resultado. Ninguém sabia o significado da palavra. Só muito mais tarde, por acaso, descobri que Hölle é uma palavra do alemão arcaico que significa Inferno.

MAMÃE HÖLLE51

Era uma vez urna viúva que tinha duas filhas — uma bonita e trabalhadeira, a outra feia e preguiçosa. Mas ela gostava muito mais da filha feia e preguiçosa, que era sua filha de verdade; a outra, sua enteada, era obrigada a fazer todo o serviço e ser a Cinderela da casa. Todo dia a pobre menina tinha que sentar perto de um poço, na estrada, e fiar até seus dedos sangrarem.

Um dia seu sangue manchou a lançadeira; a menina, então, mergulhou-a na água para lavá-la — mas ela escorregou de sua mio e foi para o fundo. A meni­na começou a chorar, correu até a madrasta e contou-lhe o infortúnio. A madrasta, porém, repreendeu-a duramente e lhe disse sem piedade: "Como você deixou a lançadeira cair, você é que precisa pegá-la."

Assim, a menina voltou ao poço, sem saber o que fazer; na sua dor, pulou dentro do poço para pegar a lançadeira. Perdeu os sentidos e quando acordou e voltou a si estava num adorável campo onde o sol brilhava e milhares de flores cresciam. Foi andando pelo campo e acabou chegando a um forno cheio de pães e os pães gritaram: "Tive-nos daqui! Tire-nos daqui, senão vamos quei­mar; já estamos assando há muito tempo!" Ela foi até lá e tirou os pies, um a um, com uma pá. Depois ela prosseguiu até chegar a uma árvore carregada de maçãs, que a chamaram: "Sacuda-nos! Sacuda-nos! Nós, as maçãs, estamos todas maduras! " Então ela sacudiu a árvore até as maçãs caírem como chuva, e continuou sacudindo até estarem todas no chão; fez uma pilha com as maçãs e seguiu seu caminho.

Finalmente, chegou a uma casinha; uma velha, do lado de fora, espiava; mas tinha dentes tão grandes que a menina se assustou, e estava prestes a fugir correndo. Mas a velha gritou: "Do que você tem medo, querida criança? Fique comigo; se você fizer direitinho todo o serviço da casa, vai receber uma recom­pensa. Só precisa tomar cuidado para arrumar bem a minha cama, sacudindo-a bastante até as penas voarem — porque então haverá neve na terra. Sou Mamãe Hölle:"

Como a velha falou tão amavelmente, a menina criou coragem e concordou em trabalhar para ela. Cuidava de tudo do jeito que a sua patroa queria, e sempre

sacudia a cama com tanta força que as penas voavam como flocos de neve. Assim, sua vida com a velha era agradável; não levava reprimendas; todo dia, nas refeições, comia carne cozida ou assada.

Ficou algum tempo com Mamãe Hölle até que um dia ficou triste. No come­ço, não sabia qual era o problema, mas acabou descobrindo que estava com sau­dades de casa; embora estivesse muitíssimo melhor ali do que em casa, mesmo assim sentia vontade de estar lá. Finalmente, disse à velha: "Tenho saudades de casa; por melhor que esteja aqui, já não posso ficar; preciso voltar à minha gen­te." Mamãe Hölle disse: "Fico contente que você tenha saudades de casa novamente, e como você me serviu lealmente, eu mesma vou levá-la de volta para ci­ma." Imediatamente tomou a menina pela mão e conduziu-a até uma grande porta. A porta abriu-se e, assim que a menina cruzou a soleira, caiu uma pesada chuva de ouro, e o ouro grudou nela, cobrindo-a completamente.

"Isto é o que você merece por ser tão trabalhadeira", disse Mamãe Hölle; ao mesmo tempo devolveu-lhe a lançadeira que tinha caído no poço. Imediatamente a porta se fechou, e a menina viu que estava novamente na superfície, não muito longe da casa da mãe.

Quando entrou no pátio, o galo que estava sentado no poço gritou:

"Có-có-ri-có!

Sua menina de ouro está de volta!"

Então ela entrou para ver a mãe, e como chegou assim coberta de ouro, a mãe e a irmã a receberam bem.

A menina contou tudo que lhe tinha acontecido; logo que a mãe soube co­mo ela tinha conseguido tanta riqueza, ficou com muita vontade de conseguir a mesma boa sorte para a filha feia e preguiçosa. Mandou-a sentar-se perto do poço e fiar; para que a lançadeira ficasse manchada de sangue outra vez, enfiou a mão num arbusto cheio de espinhos e picou o dedo. Jogou a lançadeira no po­ço e pulou em seguida.

Chegou a um belo campo e foi andando pelo caminho, como tinha acontecido com a outra menina. Quando chegou ao fogão, os pães gritaram outra vez:

"Tire-nos daqui! Tire-nos daqui, senão vamos queimar; já estamos assando há muito tempo!" Mas a preguiçosa respondeu: "Não tenho a menor vontade de me sujar", e seguiu em frente. Logo chegou à árvore de maçãs, que gritaram: "Sa­cuda-nos! Sacuda-nos! Nós, as maçãs, estamos todas maduras!" Mas ela res­pondeu: "Bem feito! Uma de vocês podia cair na minha cabeça!" e seguiu em frente. Quando chegou à casa de Mamãe Hölle, não teve medo, porque já sabia dos seus dentões, e imediatamente se colocou a seu serviço.

No primeiro dia ela se esforçou para trabalhar solicitamente, obedecendo Mamãe Hölle em tudo, porque estava pensando no ouro que iria ganhar. Mas no se­gundo dia começou a ficar preguiçosa, no terceiro dia mais ainda, e depois nem sequer se levantava de manhã. Também não arrumava a cama de Mamãe Hölle como devia e não a sacudia para fazer as penas voarem. Mamãe Hölle logo se can­sou e mandou-a partir. Era isso mesmo que a menina preguiçosa queria, achando que agora ia passar pela chuva de ouro. Mamãe Hölle também a conduziu até uma grande porta; mas quando a menina ficou ali de pé, em vez de ouro, o breu

de um enorme caldeirão derramou-se sobre ela. "Essa é a recompensa pelo seu trabalho", disse Mamãe Hölle, fechando a porta.

Assim, a menina preguiçosa foi para casa; mas estava toda coberta de breu e, quando o galo no poço a viu, gritou:

"Có-có-ri-có!

Sua menina suja está de volta! "

Mas o breu grudou nela e assim ficou pelo resto da vida.

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O Destino e a Família
Nunca acredite que o destino é mais do que a condensação da infância.

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