Os planetas exteriores e seus ciclos os astros e o amor



Baixar 1.42 Mb.
Página6/23
Encontro29.07.2016
Tamanho1.42 Mb.
1   2   3   4   5   6   7   8   9   ...   23
Rainer Maria Rilke

Havia uma vez um rei da Lídia chamado Tântalo, filho de Zeus. Devido à ori­gem divina e à ilimitada riqueza, Tântalo foi acometido de hubris, e acreditou-se mais inteligente que os deuses. Em sua loucura, decidiu zombar dos deuses, con­vidando-os para um banquete em sua cidade de Sipilos. Atreveu-se a servir à me­sa do banquete, diante dos olímpicos, o melhor que tinha a oferecer: a carne de seu próprio filho Pélops, que ele tinha cortado e cozinhado num caldeirão. Pre­tendia, assim, testar a onisciência dos imortais. Mas os deuses, com exceção de Deméter, sabiam do pecado, e abstiveram-se de comer. Réia, a Mãe Terra, espo­sa de Crono, reuniu novamente os pedaços e fez a criança levantar-se do caldei­rão. Hermes chamou-o de volta à vida, com a permissão de Cloto, uma das Moi­ras, que ainda não tinha determinado a hora da morte do menino.

O garoto ressuscitou mais bonito do que nunca. Mas tinha um ombro de már­more, porque a deusa Deméter, sem saber, tinha comido esse pedaço. Por essa razão, os descendentes da casa de Pélops distinguiam-se por uma marca de nas­cença, um ombro anormalmente branco ou uma estrela nesse local.

Como punição pelo pecado contra os deuses, Tântalo foi enclausurado por toda a eternidade no Tártaro, o mais profundo abismo do inferno. Ali ele ficava numa lagoa, com água até o queixo; morria de sede mas não podia beber, pois, quando se inclinava, a água desaparecia. Frutos deliciosos pendiam das árvores sobre sua cabeça, mas quando ele, faminto, tentava alcançá-los, o vento os levava. E a maldição das Erínias caiu sobre seus descendentes, pois o mal ainda não tinha sido pago.

Pélops reinou como um grande rei, favorecido pelos deuses, sem ser atingido pela maldição. Gerou três filhos. Os dois mais velhos chamavam Atreu e Tiestes, e estes filhos herdaram o mal de seu avó Tântalo. Assassinaram o irmão mais no­vo, Crisipo, o filho favorito de Pélops. Dessa forma, eles e seus descendentes re­ceberam a maldição do pai.

Atreu casou com uma mulher chamada Érope, mas ela o enganou com seu

irmão Tiestes. Antes que Atreu pudesse vingar-se, entretanto, acontecimentos externos entraram em jogo. O povo da cidade de Mikenai convocou os Irmãos, pois um oráculo tinha ordenado que um dos filhos de Pélops se tornasse rei da cidade. Os irmãos começaram a brigar pelo trono de Mikenai; Atreu expulsou Tiestes e tornou-se rei. Mas sua sede de vingança contra o irmão ainda não esta­va satisfeita, pois a lembrança de que Tiestes tinha partilhado o leito de Érope ainda o irritava. Atreu chamou o irmão de volta a Mikenai, dizendo que desejava uma reconciliação. Em segredo, porém, planejava uma terrível vingança. As­sassinou os filhos de Tiestes e convidou o irmão para comer, sem perceber, as vísceras assadas e a carne cozida. Quando Tiestes se deu conta do que tinha comido, caiu para trás, vomitou a refeição, quebrou a mesa com os pés e lançou uma maldição sobre a casa de Atreu.

Agora havia três maldições em suspenso sobre a linhagem de Atreu: a dos deuses contra os filhos de Tântalo, a de Pélops contra a prole de seu filho, e a de Tiestes contra a linhagem do irmão. Atreu teve dois filhos com Érope, cha­mados Agamenon e Menelau. Tiestes, depois do assassinato de seus filhos, ficou só com uma filha. Mas recebeu um recado do oráculo de Apoio em Eleitos, man­dando-o constituir um vingador da morte de seus filhos. Dessa forma, ele violen­tou a filha e criou o filho dessa união, Egisto, alimentando-o no exílio com sonhos de vingança contra a linhagem de Atreu.

Menelau sucedeu a Atreu como rei de Mikenai, e seu irmão Agamenon tor­nou-se rei de Argos. Casaram-se com duas irmãs, Helena e Clitemnestra, filhas do rei Tíndaro de Esparta. Helena traiu Menelau com um príncipe troiano, dan­do início à guerra de Tróia; Menelau e Agamenon tornaram-se líderes das tropas gregas que saquearam a cidade do inimigo.

Quando Agamenon viajou para a conferência de reis aliados para chefiar as forças gregas, deixou com sua esposa Clitemnestra duas filhas e um filho chamado Orestes. A mais velha e mais bonita das filhas chamava-se Ifigênia; a mais no­va, Electra. Enquanto preparava o embarque da frota grega em Aulis para Tróia, Agamenon ofendeu a deusa Ártemis, jactando-se orgulhosamente no bosque sa­grado dela. A deusa enraivecida, por causa disso, provocou mau tempo e os na­vios gregos não puderam zarpar. Um vidente informou Agamenon que Ártemis só se aplacaria com o sacrifício de sua filha Ifigênia no altar da deusa. Assim, Agamenon enganou a esposa dizendo-lhe que sua filha ia casar-se em Aulis, e assassinou a moça para obter as graças da deusa.

Quando descobriu que sua amada filha tinha sido assassinada por Agamenon, Clitemnestra jurou vingança. Tomou como amante aquele mesmo Egisto, filho de Tiestes com a própria filha. Primeiro mandou seu filho Orestes para o exílio, para que não pudesse defender o pai. Em seguida, quando Agamenon voltou triunfante da guerra de Tróia, ela e Egisto assassinaram-no no banho, e ela pro­clamou Egisto seu consorte e co-regente de Argos.

Orestes tinha sido banido para Phokis. Lá foi procurado pelo deus Apoio, que lhe ordenou que voltasse a Argos para vingar a morte do pai, ameaçando-o com terríveis punições se tentasse esquivar-se à tarefa. Assim, Orestes voltou, disfarça. do, conspirando secretamente com sua irmã Electra. Primeiro mataram Egisto, o amante de sua mãe, e depois Orestes apunhalou mortalmente a mãe.

Embora Orestes estivesse obedecendo ordens do deus Apoio, ele tinha violado

a lei das Erínias, defensoras do direito e vingadoras do assassinato de parentes. Assim, as Erínias perseguiram Orestes por toda a Grécia, levando-o a urna horrível loucura. Um dia ele pediu asilo no altar da deusa Atena em Atenas. Atena, penalizada mas também reconhecendo a justeza da aflição das Erínias, levou o caso à suprema corte em Atenas. Apoio e as Erínias expuseram suas causas aos juízes humanos. A votação foi igual para os dois lados; assim, Atena deu seu vo­to de desempate a favor de Orestes, e em troca ofereceu ás Erínias um altar e um culto de honra em seus domínios. Depois disso, as Erínias passaram a chamar-se Eumênides, "as damas gentis", e Orestes, livre, voltou para Argos e casou-se com Harmonia, filha de Menelau e Helena. Assim foi paga a maldição sobre a linhagem de Tântalo.


Imagine-se o que pensaria desse conto um terapeuta familiar, se Orestes fosse um "paciente identificado", apresentando sintomas de colapso psicótico. Porém, é exatamente esse o tipo de histórias contadas pelas famílias, embora geralmente não em termos tão rocambolescos como matricídio e brigas entre os deu­ses. Os equivalentes psicológicos, entretanto, muitas vezes são semelhantes. As famílias são organismos, e a vida psíquica de um emaranhado familiar é um cír­culo fechado, onde dramas emocionais antigos e muitas vezes violentos são ence­nados na escuridão secreta do inconsciente. Nada é visto até que se procure ajuda profissional para um filho "com distúrbios" e aí, de forma incrivelmente lenta e muitas vezes enfrentando uma árdua oposição, os fios que tecem o conto são de­sembaraçados e o que aparentava ser a "doença" individual vai-se revelando cada vez mais evidentemente como um complexo familiar não resolvido. Já vimos facetas desse problema nos dois exemplos que dei de Vênus-Plutão e Marte-Plu­tão, porque, tanto na vida de Carolina como na de Ruth, as dificuldades sexuais e emocionais dos pais e dos avós foram, de alguma forma, "passadas" para o filho, atuando como destino na vida do filho. Plutão é um significador específico de um tipo determinado de experiência: Moira como a Mãe Terrível, buscando vingança pela violação ou repressão de suas leis. Problemas de natureza sexual, ou de natureza instintiva genericamente, parecem ser representados como complexos familiares por Plutão. Mas há outras coisas além de conflitos instintivos que são transmitidas na família, podendo ostentar tanto uma face criativa quan­to destrutiva. O mito, novamente, é uma fonte de imenso valor para a compreen­são dos padrões arquetípicos que dominam famílias geração após geração. A ima­gem da maldição familiar, tão cara aos mitos gregos, é um retrato vívido do legado invisível da linhagem familiar e que personifica a experiência do destino fa­miliar.

A família é um sistema, como revelou o campo relativamente novo da terapia familiar. Diz Salvador Minuchin:

A pessoa que vive dentro de uma família é membro de um sistema social ao qual precisa se adaptar. Seus atos são regidos pelas características do sistema, e essas características incluem os efeitos de seus próprios atos passados. A pessoa responde às tensões em outras partes do sistema, às quais se adapta; e pode contribuir significativamente para pressionar outros membros do sis­tema. A pessoa pode ser um subsistema, ou parte do sistema, mas o todo pre­cisa ser levado em conta.52

Embora grande parte do trabalho da terapia familiar se refira à atual situa­ção familiar em que a pessoa se encontra — e também aos padrões e interações atuais em funcionamento — mesmo assim o "sistema" de que fala Minuchin é importante tanto para o astrólogo como para o analista. Esse sistema, em termos astrológicos, é representado pela ligação entre os horóscopos da família inteira, o que inclui, pais, avós, bisavós e assim por diante, até o distante passado a que os orientais se referem tão graciosamente como "os ancestrais". Embora a maioria dos terapeutas familiares provavelmente não vá lançar mão das revelações que os horóscopos da família podem fornecer, não há razão para que a astrologia não se utilize das revelações da terapia familiar. Da perspectiva da psicologia profun­da, as "características do sistema" que exercem tão poderosa influência na pes­soa, em termos comportamentais e intrapsíquicos, não são assim tão diferentes dos deuses em guerra no drama de Orestes. Em outras palavras, essas caracterís­ticas não são apenas os padrões de hábito da comunicação e da atribuição de papéis estabelecidos pelo tempo, que determinam se sua mãe sempre deve sofrer ou ser mediadora nas brigas, o pai sempre deve manifestar a raiva e a violência, ou se o filho ou a filha é asmático, anoréxico, obeso ou de alguma forma identi­ficável como "o doente". As características do sistema, em última análise, são arquétipos, o âmago dos padrões ou modos de percepção e expressão cujo me­lhor retrato é a imagem mítica. Passam de geração em geração da mesma forma que a maldição da Casa de Atreu. Não estou em condições de fazer comentários sobre a existência de um aspecto genético nessa herança psíquica. Porém, mesmo assim, ainda teríamos a questão de uma herança.

Uma das características mais notáveis do mito de Orestes é a constante e va­riável interferência dos deuses. Apoio, por exemplo, ora fica de um lado, ora de outro, ordenando que Tiestes crie um vingador contra Atreu, em seguida man­dando que Orestes vingue seu pai — cuja morte não teria ocorrido se o deus, para começar, não tivesse exigido que Egisto fosse criado para ser assassinado. Tam­bém é Apoio quem diz ao povo de Mikenai para colocar um dos filhos de Pélops no trono da cidade. Essa constante interferência por parte do deus implica uma direção arquetípica mutável e em desenvolvimento, operando dentro do organis­mo familiar. Em outras palavras, existe uma espécie de inteligência em operação que, embora às vezes provoque crises, problemas e sofrimento às pessoas do sistema, parece orientar-se para algum tipo de objetivo, ou para uma solução. Também é impressionante que, cada vez que ocorre essa interferência divina, muita coisa depende da maneira como os protagonistas humanos do drama rea­gem a ela. Parece que o destino da família é tanto um produto de fatores arquetípicos profundamente inconscientes, como da consciência e responsabilidade individuais. Todos os personagens do mito de Orestes, exceto ele mesmo, são bastante propensos a reagir espontânea e violentamente, sem reflexão, à instiga­ção dos deuses. Só o próprio Orestes realmente vive um conflito interior. Como Orestes, mais cedo ou mais tarde o "paciente identificado" apresenta-se para pe­dir ajuda para seus problemas, porque, depois de longa espera, aparece alguém com um potencial de consciência capaz de tentar reconciliar ou unir os opostos conflitantes dentro de si, tantas vezes atribuídos a outros membros da família. Esses opostos conflitantes, entretanto, são muito mais velhos que os membros individuais da família, e no mito grego são retratados como deuses.

Não é difícil, para a mente mais racional, entender a dinâmica da família em termos de padrões comportamentais firmados através de várias gerações e passíveis de alteração por meio da intervenção do terapeuta familiar. O pai, cujo caso secreto de amor perdurou como uma fantasia idílica da felicidade perdida, pode dar à filha o nome da amante perdida, colocando sobre os ombros dela, dessa forma, a responsabilidade de ser sua filha-amante e sua vida, dando-lhe a satisfação emocional que falta no seu casamento. A mãe que sofreu rejeição ou aban­dono por parte do marido pode transferir sua raiva para o filho, cuja própria masculinidade é uma afronta à sua dor, criando-o para ser seu devotado servo. amante, como compensação, e virando-o contra seu próprio sexo, como retalia­ção. Padrões desse tipo são encontrados na maioria dos métodos de psicoterapia, e o analista depara-se regularmente com a misteriosa passagem tácita de comple­xos não vividos e inconscientes de pai para filho. Como diz Frances Wickes:

Reconhecemos a dependência física e econômica do filho com relação ao pai e à mãe. Não atribuímos suficiente importância ao laço psíquico que, no co­meço da infância, muitas vezes chega ao ponto de identidade entre o incons­ciente do filho e o inconsciente do pai. Através dessa identificação, as forças perturbadoras que jazem abaixo do nível da vida adulta consciente são intuídas pelo inconsciente do filho e dão origem, na forma mais branda, a medos vagos, fantasias apreensivas e sonhos perturbadores. Nos casos mais trágicos, resultam a dissociação da realidade ou os atos anti-sociais.53

À medida que encaramos as interações familiares como causais, não há nada estranho ou místico sobre sua importância. Até o parágrafo acima, embora re­ferente à falta de limites do inconsciente, sugere um relacionamento causal en­tre conflitos parentais não resolvidos e o comportamento perturbado do filho. Talvez seja mais difícil conceber a substância psíquica da família como uma substância a partir da qual são moldadas as vidas dos membros individuais, a tal ponto que determinados aspectos planetários se repetem nos mapas de membros de uma família sem qualquer base causal perceptível ou compreensível. As famílias, tanto quanto as pessoas, são guiadas por padrões míticos. O conceito de substância psíquica herdada é curioso, porque, havendo ou não uma base genética ou um paralelo, ela é claramente exposta pelo conjun­to de horóscopos familiares, e suas manifestações assumem com mais freqüên­cia a forma de sonhos e fantasias do que características físicas ou padrões de comportamento. E só quando essas subcorrentes psíquicas começam a armaze­nar pressão devido à falta de integração na vida que elas parecem transformar-se nas compulsões que tanto perturbam as pessoas. e mesmo assim, muitas vezes, não há qualquer conexão prontamente identificável com questões familiares. Se as imagens arquetípicas são representações de instintos experimentados atra­vés da psique, segue-se que os padrões arquetípicos operando nas famílias são representações do próprio sangue e ossos da família, o paralelo psíquico da hereditariedade psicológica. Quando começamos a considerar esses padrões sob esse enfoque. estamos novamente no reino de Moira, a fiadeira dos tecidos do corpo. Nossas famílias são nosso destino porque somos feitos da substância

dessas famílias, e nossa hereditariedade — física e psíquica — é dada no nascimento.

Frances Wickes atribui a maior importância à unidade do inconsciente de mãe e filho. E só através de uma luta lenta e gradual que surge o ego individual do filho — uma coisa fraca, frágil, desprotegida, passível de ser facilmente demolida e marcada pelos conflitos não expressos e pelas energias frustradas que vivem na psique do genitor. Os pecados do pai e da mãe são, na verdade, infligidos aos filhos, não através da ação ostensiva, mas através do que jamais saiu da escuridão primitiva. Essa é a Moira do filho, o seu quinhão. Os conflitos inconscientes que permaneceram não resolvidos voltam para se aninhar no filho, na forma de herança psíquica. Mais tarde, o elo secreto entre o inconsciente do filho, agora adulto, e a herança inconsciente dos pais permanece tão poderosa como sempre. Pode ser que a astrologia tenha muito a oferecer ao analista em termos da recep­tividade seletiva de diferentes crianças com relação a essas configurações paren­tais, através dos contatos entre os horóscopos. Daqui a pouco vamos falar mais a esse respeito. Mas a experiência de muitos psicoterapeutas, inclusive a minha, mostra que o trabalho com essas questões familiares afeta, de forma estranha e inexplicável, os outros membros da família. E como se a verdadeira unidade da psique da família fosse revelada por uma pessoa que assume a responsabilidade de trabalhar com os complexos familiares. A unidade da substância da família também não morre com a morte física dos pais, pois eles não são só pessoas de verdade, mas imagens da psique do filho. Assim, "os ancestrais" permanecem como herança viva, da mesma forma que a herança genética permanece viva dentro do corpo e continua a ser transmitida às gerações futuras.

Existe uma questão mais ou menos problemática a respeito dessa "herança" de fatores psíquicos, entretanto, abrangendo um aparente par de opostos. Não estou certa até que ponto esses opostos são realmente opostos, mas eles colocam um problema não só do ponto de vista da "condução" do trabalho psicoterapêutico, mas também de um ponto de vista filosófico — ou, em outras palavras, do ponto de vista do destino. Se as experiências dolorosas ou vitalmente perturba­doras são "causadas" pelo genitor — ou através do comportamento manifesto ou, como sugere Wickes, de conflitos inconscientes que chegam até o filho através da identificação inconsciente com o genitor —, segue-se que ,a responsabilidade mais esmagadora cabe à pessoa que põe um filho no mundo. É de se duvidar que muitos de nós teríamos filhos se percebêssemos o impacto total dessa responsabilida­de. Também não se trata, efetivamente, "do que está escrito", porque presumi­velmente o genitor sempre tem a opção de buscar maior compreensão de si mes­mo para não oprimir sua prole com seus próprios dilemas não resolvidos. Grande parte do trabalho da psicoterapia, realizada em profundidade, envolve a separa­ção da pessoa de sua identificação inconsciente com o genitor, que pode perdu­rar por toda a vida e não é menos poderosa só porque o filho tornou-se adulto e, aparentemente, deixou os pais para trás. Se o genitor não se valeu da oportunidade de assumir responsabilidade por seus conflitos, o filho, como adulto, pode fazê-lo; através de um trabalho de "reconstrução" dentro da terapia, a identidade da pessoa pode gradualmente sair de sob o manto da visão paren­tal do mundo. Essa é uma abordagem razoavelmente clássica do assunto, e pro­vavelmente não desagradaria ao mais pragmático dos terapeutas. Jung, às vezes,

coloca a ênfase maior nessa abordagem "causal", embora, como Wickes, ele se preocupe principalmente com a atmosfera inconsciente e não com atos e pala­vras manifestos.


A criança faz parte da atmosfera psíquica dos pais a tal ponto que proble­mas secretos e não resolvidos entre eles podem influenciar profundamente a saúde do filho. A participation mystique, isto é, a identidade inconsciente primitiva do filho com os pais, faz com que o filho sinta os conflitos dos pais e que sofra como se os problemas fossem seus. Dificilmente é o conflito aber­to ou a dificuldade manifesta que tem o efeito venenoso; quase sempre é a desarmonia reprimida e negligenciada pelos pais. A primeira causa verdadeira desse distúrbio neurótico é, sem exceção, o inconsciente. São as coisas vagamente sentidas pelo filho, a opressiva atmosfera de apreensão e autoconsciên­cia que invadem vagarosamente a mente do filho como um vapor venenoso e destroem a segurança da adaptação consciente. 54
Entretanto, existe outra forma de encarar essa herança familiar, que primei­ra vista contradiz as atitudes e abordagens de muitas escolas psicoterapêuticas. Essa é a revelação oferecida pela astrologia, que pode ser colocada de maneira muito simples: as figuras dos pais, os dilemas não resolvidos e os conflitos in­conscientes que eles possuem e transmitem, e a natureza intrínseca do casamen­to dos pais já estão presentes como imagens no horóscopo natal. Em outras pa­lavras, são apriorísticos, inerentes desde o começo — o que está escrito. Devido a essa inata predisposição a vivenciar os pais através da perspectiva da própria psi­que da pessoa, a "herança" já não é apenas causal. Esse é um pensamento muito perturbador para quem se consola culpando a negligência, a opressão, a rejeição, a possessividade ou outros defeitos dos pais por sua própria incapacidade de lidar com a vida. O horóscopo nos diz, em outras palavras, que o que está nos pais também está em nós. Não pode haver dúvida de que o pai objetivo e a imagem interior estejam associados, e talvez mesmo se harmonizem. Mas é o padrão inte­rior que agora precisamos considerar, e é esse padrão que, acredito, constitui o destino familiar. Não há "razão" por que os signos devam se repetir nos mapas da família, ou aspectos isolados como Lua-Urano ou Marte-Saturno, ou posicio­namentos específicos por casa, como Saturnos de oitava casa ou Luas de terceira casa. Mas isso acontece, a despeito da falta de base causal. "Alguma coisa" assim dispõe, e essa observação é uma experiência assombrosa.

Se a mãe, por exemplo, é vivenciada como Saturno, e portanto é sentida co­mo uma mulher fria, repressiva, demasiado convencional ou crítica, então de certa forma a mãe efetivamente nunca pode ser outra coisa, não importa quan­to se empenhe no relacionamento mãe-filho. A rejeição existe tanto por parte do filho como por parte da mãe. Pelo menos durante algum tempo, em geral durante a primeira metade da vida, essa é a experiência subjetiva que o filho tem da mãe. Ela pode ser nem menos nem mais critica e fria que qualquer ou­tra mãe "melhor", mas ela e o filho comungam de um destino infeliz — um re­lacionamento onde o fator dominante é saturnino, registrado e lembrado pelo filho. Freqüentemente — tão freqüentemente que é um perfeito mistério — a mãe cujo filho a vã como Saturno muitas vezes é urna saturnina, ou pelo pre­

domínio de Capricórnio no horóscopo, por um Saturno angular, ou por uma conjunção Lua-Saturno ou Sol-Saturno. Portanto, é uma substância partilhada, exatamente como é uma rejeição partilhada. Pode-se até dizer, e o digo pela ex­periência de muitos casos, que a percepção da mãe pelo filho é colorida pela própria projeção dele, a tal ponto que ele é capaz de extrair dela exatamente as qua­lidades pelas quais a culpa. Assim, a mãe com Capricórnio ascendendo, Vênus em Peixes e o Sol em Câncer só é registrada como Saturno pelo filho, e começa a se comportar como Saturno, apesar de si mesma. O comportamento e a impressão do filho, conscientes ou inconscientes, podem empurrar a mãe para o lado mais crítico de sua natureza, de modo que por razões que desafiam sua compreensão, e podem gerar considerável culpa e dor nela e no filho, seu comportamento com relação ao filho é constantemente negativo. Jung também estava ciente desse componente da trama familiar, que complementa o componente causal:
Todas essas influências que a literatura descreve como sendo exercidas sobre os filhos não vêm da própria mãe, e sim do arquétipo projetado nela, dando-lhe um referencial mitológico e investindo-a de autoridade e numinosidade. Os efeitos etiológicos e traumáticos produzidos pela mãe devem ser divididos em dois grupos: (1) os que correspondem a traços de caráter ou atitudes realmente presentes na mãe, e (2) os referentes a traços que a mãe só aparenta possuir, sendo a realidade composta de projeções mais ou menos fantásticas (isto é, arquetípicas) por parte do filho.55
Sou de opinião, há muito tempo, que se pode obter uma revelação da verda­deira química de personalidades entre pais e filhos através do exame da compara­ção de horóscopos — filho e mãe, filho e pai, mãe e pai, e assim por diante. Po­de-se compreender a imagem arquetípica que o filho projeta no pai, e que tam­bém constitui grande parte de sua própria constituição psíquica, examinando o Sol e a Lua no horóscopo natal, assim como as casas décima e quarta e suas cús­pides. Como já disse, essas duas coisas se sobrepõem, pois o significador planetá­rio no mapa do filho muito freqüentemente faz eco no mapa do pai. O meridiano no mapa natal é uma representação do destino familiar, mas não descreve efe­tivamente o que os pais fizeram ao filho na infância. Em vez disso, é um retrato dos dois pais interiores, arquetípicos ou míticos por natureza, que dominam a psique do filho e permanecem como representações do relacionamento entre homem e mulher por toda a vida. Esses são os complexos herdados, os "pecados ancestrais".

Os pais verdadeiros, em geral, têm mais do que um relacionamento superfi­cial com essas figuras, e seu casamento casualmente contém, como um dos temas dominantes, a situação descrita no horóscopo do filho. Porém os pais tam­bém possuem outros atributos, alguns deles perceptíveis para todos, menos pa­ra o filho. Tudo o que o filho percebe é o que se refere a ele; se não quiser se tornar vítima do padrão familiar, precisa encontrar um meio de diferenciar os pais verdadeiros e as imagens míticas através das quais ele os vê. Essas imagens míticas são seu destino, e ele vai se deparar com a necessidade de trabalhar com elas em sua própria vida. Porém, pode descobrir uma forma de reunir-se a elas com seus próprios recursos Individuais, em vez de se sujeitar ao "destino" do

casamento parental. Assim, ele não corta a ligação com essas imagens, porém aceita-as como figuras que precisam ser criativamente incorporadas a seu desen­volvimento. Enquanto elas permanecerem como "pais" no sentido literal, entretanto, ele fica à sua mercê.

O eixo ascendente-descendente pode ser visto como uma representação do destino individual. Mas o meridiano é totalmente diferente. Os signos, os planetas e os aspectos encontrados nas duas casas parentais, a quarta e a décima, não são retratos objetivos dos pais. São imagens arquetípicas, deuses, ou "quinhões", e são esses deuses que determinam as "características do sistema" dentro da fa­mília, muito mais que as diferenças e afinidades de personalidade. Em última análise, não acredito que esses "quinhões" sejam negativos, embora sem dúvida se tornem negativos quando a pessoa tenta dissociar-se do que eles representam, na expectativa de poder libertar-se de sua família. Não se pode fugir aos planetas da décima e da quarta casas, assim como não se pode fugir ao Sol e à Lua. São realmente o destino — imagens herdadas que precisam ser vividas. Se fosse especular o horóscopo de Orestes, imaginaria que ele tivesse, talvez, Plutão no Meio-do-Céu em oposição ao Sol no IC , representando assim a batalha entre o poder matriarcal das Erínias e o poder solar de Apoio. Como não é atípico que as pessoas Sol-Plutão resolvam seus conflitos através de algum tipo de colapso, grande ou pequeno, esse não seria um aspecto descabido para o herói grego. Talvez ele também tivesse Saturno em conjunção com o Sol e envolvido na oposi­ção com Plutão, pois a sentença de Apoio é uma lei severa e inflexível; e pro­vavelmente teria Libra no ascendente, já que levou tanto tempo para decidir qual era o seu lado do muro. Mas posicionamentos como esses não indicam li­teralmente que uma mãe mítica devoradora fez um estrago na vida de um ra­paz. Infelizmente, não é simples assim. Nenhuma mãe é apenas Plutão. Até Clitemnestra, que é mítica, também tem uma história, e na tragédia de Esqui­lo é vista com um pouco de simpatia, vítima da brutalidade, infidelidade e aban­dono do marido, penando pela morte da filha, exterminada por causa do orgulho e da estupidez dele. Também nenhum pai pessoal é unicamente Sol-Saturno, ra­diante, sensato, sábio, doador da lei. Essas figuras não falam realmente dos pais. Orestes vivencia os deuses através de seus pais. Plutão e Sol-Saturno, nesse ca­so, falam dos próprios deuses; e eles são o destino de Orestes.

Depois dessa introdução um pouco árida, vou dar um salto para a história de uma moça cujo mapa apresento a seguir. O exemplo é a melhor forma de ilus­trar as questões do destino familiar.

Esse exemplo é realmente uma "paciente identificada", pois a moça — que vou chamar de Renée R. — sofre de um estado que a psiquiatria chama de autis­mo, a forma mais comum de "psicose infantil". Renée, é claro, não é mais crian­ça, como se nota pelos dados natais; agora ela é um adulto autista, cuidada numa instituição. O diagnóstico psiquiátrico para o autismo é mau. Não há trata-mento, e a psiquiatria acha que não há evidências favoráveis a uma abordagem psicoterapêutica, dirigida para a compreensão. Esse diagnóstico é contestado pe­lo trabalho de psicólogos analíticos tais como Michael Fordham, de quem vamos falar mais adiante. Porém essa é a fórmula aceita pelo establishment psiquiátri­co, que atende o maior número de crianças autistas. Embora haja possibilidade de alguma melhora no comportamento social mais tarde, a maioria dos adultos

autistas continua, como Renée, gravemente limitada, em asilos ou com a famí­lia. A importância dos fatores ambientais e emocionais é polêmica nos estudos psiquiátricos. Em outras palavras, para falar sem rodeios, no que diz respeito ao establishment médico o autismo é um estado cujas causas são obscuras, cujo tra­tamento é um mistério e cujo prognóstico é negativo.

Abaixo está uma classificação das anomalias de comportamento do autismo.




  1. Anomalias de linguagem: resposta anormal aos sons; muito pouca compreen­são dos gestos e da linguagem; ausência de brincadeiras de imaginação; ausência ou pequeno número de gestos; imitação social restrita; linguagem anormal.

  2. Anomalias sociais: distância e indiferença às pessoas; pouco contato visual; ausência de brincadeiras cooperativas (embora possam gostar de serem jo­gadas para cima); ausência de amizades duradouras, fraca ligação com os pais, falta de discriminação entre as pessoas; indiferença às convenções so­ciais, insensibilidade aos sentimentos dos outros.


  1. R ituais e rotinas: brincadeiras invariáveis (enfileirar brinquedos) ou preocu­pação com questões estéreis (caminhos de ônibus etc.); resistência à mudan­ça, com "preservação da igualdade" do ambiente (horários, disposição dos móveis etc.); apego a determinados objetos ou coleções, muitas vezes inu­sitados; acessos de fúria quando se sente frustrada com relação ao exposto acima.

  2. Outras anomalias possíveis: falta de curiosidade e falta de resposta às pessoas na infância (a surdez muitas vezes é questionada); medos, gritos ou risadas imprevisíveis; movimentos anormais (posições inflexíveis dos dedos, ficar rodando ou rodar objetos, andar na ponta dos pés etc.); dificuldade em aprender tarefas e instruções manipulativas; hipercinese; comportamento autodestrutivo; ficar se balançando; habilidades isoladas (quebra-cabeças, música, computação, memória rotineira).56

É claro que essa sucinta descrição clínica tirada de um manual psiquiátrico

não transmite a idéia do estranho e perturbador recolhimento ritualista da criança autista, que parece viver em alguma outra dimensão de tempo e de espa­ço e impede, às vezes violentamente, qualquer tentativa de se penetrar em sua fortaleza interior. Mas nos dá uma boa noção do espectro de particularidades ca­racterísticas de comportamento do autismo. Alguns casos de autismo são mais graves que outros, e alguns podem estar associados a causas orgânicas, como lesões cerebrais. Renée, entretanto, até onde se pode confiar nos testes, parece não sofrer de qualquer lesão orgânica. As raízes de seu autismo são desconhecidas. Quando criança, ela era assustadoramente voluntariosa e passava longos períodos sem dormir, ficando horas em pé numa postura imóvel. Até os quinze anos, era sujeita a violentos ataques de raiva e gritos. Também se infligia violência corporal "como uma possessa". Nunca demonstrou qualquer capacidade de linguagem normal, mas de vez em quando "repete" uma ou duas palavras de algo que foi dito — um traço tipicamente autista. Quando tinha cinco anos de idade, foi para uma instituição. À medida que foi crescendo, as raivas e ataques gradualmente




diminuíram. Agora ela perambula como um zumbi, às vezes se recusando a comer ou a dormir, simplesmente sentando-se e não fazendo nada. É difícil, diante de uma vida desse tipo, falar artificiosamente de "potenciais" não usados devido a uma escolha consciente, ou de libertar o "espírito" da "natureza infe­rior". Também não é muito construtivo discutir um "mau karma" de uma en­carnação anterior, exceto para consolar algum membro da família que acredite nisso.

Em momento algum dessa discussão vou pretender ter descoberto a "causa" do autismo de Renée. Continua sendo um mistério para mim, tanto quanto para os psiquiatras que a examinaram, ou para os confusos membros de sua família. Mas se existe algo como um destino de família, talvez algum entendimento possa advir do cuidadoso exame da história familiar e dos horóscopos da família, que apresentamos a seguir. Também será de alguma utilidade examinar o que Jung e Fordham têm a dizer sobre o autismo, em oposição à descrição psiquiátrica perturbadoramente formal que acabamos de ver.

A mãe de Renée, Sra. R., foi casada duas vezes. O primeiro casamento durou pouco; seu volúvel marido desapareceu logo após o nascimento de uma filha, Rose. Depois de conseguir divórcio por abandono, ela se casou novamente. dessa vez com um homem tranqüilo, de gênio agradável, modesto. Renée é filha desse segundo casamento. A Sra. R. ficou tão humilhada e magoada com a fuga do primeiro marido que nunca disse a Rose quem era seu pai verdadeiro, indu­zindo-a a acreditar que o segundo marido, Sr. R., era o pai das duas meninas. Rose só descobriu a verdade por acaso, quando estava na adolescência. Segredos de família desse tipo conseguem impregnar a atmosfera psíquica do lar de ma­neiras difíceis de prever.

Incapaz de enfrentar as implicações de uma criança obviamente perturbada como Renée, a Sra. R. insistia que devia haver algum defeito congênito, e até a internação de Renée, aos cinco anos, simplesmente era incapaz de tomar conta dela. Dessa forma, a responsabilidade de cuidar da criança difícil e às vezes vio­lenta caiu sobre Rose. então com cerca de onze anos. A Sra. R. até hoje se recusa,


teimosamente, a admitir a possibilidade de haver fatores emocionais envolvidos no autismo de Renée, e continua convencida da idéia do defeito congênito, não importa quantos testes médicos digam o contrário.

A própria Sra. R. foi uma criança não desejada, resultante de uma gravidez acidental. Tem um longa história de depressão e de doenças físicas, inclusive vários distúrbios dos órgãos reprodutores. Concebeu as duas filhas com muita dificuldade e ficou doente várias vezes durante a gravidez. Foi uma criança "boa", talvez para compensar a sensação de não ser desejada, e tornou-se uma adulta passiva e apagada. Sua conduta sempre foi apologética e auto-recriminativa, e essa persona manifestou-se muito antes do nascimento de Renée; as difi­culdades em criar uma criança autista só aumentaram o senso de martírio devido

1   2   3   4   5   6   7   8   9   ...   23


©principo.org 2016
enviar mensagem

    Página principal