Os planetas exteriores e seus ciclos os astros e o amor



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a um destino mau. Ela sofre de enxaqueca e úlcera estomacal, estados que, juntamente com a depressão crônica, serviam-lhe de desculpa para não assumir a res­ponsabilidade de cuidar de Renée, quando pequena. A Sra. R. tem uma irmã mais nova, cujo horóscopo apresentamos como o de "Tia R.", pois ela é tia de

Renée. Essa irmã mais nova aparentemente exteriorizou muito mais a agressivida­de e a raiva da família, vivendo uma dramática seqüência de rupturas amorosas e de abortos. Existe um enorme ciúme entre as duas irmãs. Tia R. sempre achou que a irmã era a filha predileta (apesar de a Sra. R. achar que não tinha sido dese­jada). Ambas disputavam o amor e a atenção do pai, que aparentemente possuía excelentes qualidades, sendo um homem digno e integro. A mãe (cujo horósco­po aparece como "Avó R.") aparentemente também era do tipo mártir, relutan­do em atender as necessidades e requisitos das filhas e mostrando aos outros uma imagem em geral patética. Também tinha várias doenças físicas.

Essa descrição bem sucinta de uma família problemática mostra muito cla­ramente o seguinte fato: as mulheres da família, principalmente a Sra. R., nunca lidaram com suas dificuldades, sob qualquer aspecto, de forma honesta; em vez disso, tornaram-se vítimas da vida. A personalidade passiva e apagada da Sra. R., característica de quem sofre de enxaqueca e úlcera, é quase unia cópia carbono da de sua mãe; e a Tia R., embora aparentemente mais ativa, é igualmente uma

triste vítima de romances infelizes c, em última análise, demonstra a mesma pas­sividade de tentar lidar construtivamente com seus problemas. O único membro da família que parece ter-se desviado desse padrão de martírio é Rose que, talvez em parte por ter sido forçada a encarar tão cedo o problema de Rende, de­cidiu assumir a responsabilidade pela própria vida. É a única que se firmou num casamento razoavelmente feliz e estável e tem filhos que ama. Também é a única que decidiu examinar psicologicamente os problemas de sua família, pois ela mesma tornou-se psicoterapeuta. Essas duas irmãs, Rose e Rende, receberam, de diferentes maneiras, a carga de um destino familiar. Uma manifestou esse destino como autismo, enquanto a outra tentou lidar com a ferida de forma criativa.

Agora podemos começar a examinar os horóscopos da família, primeiro do ponto de vista dos padrões ou temas gerais recorrentes — os "mitos" familiares ou "as características do sistema" — e depois do ponto de vista dos horóscopos individuais, principalmente o de Rende. É imediatamente visível, e um pouco surpreendente, o predomínio dos signos de Leão e Virgem na rede de mapas da família. A repetição desses dois signos é tão freqüente que é quase absurda. Re­née, a Sra. R., o Sr. R. e a Avó R. têm o Sol em Leão. A Tia R. tem Leão no as­cendente. Rende tem Virgem no ascendente, enquanto a Sra. R. tem um stellium em Virgem. O Sr. R. tem Marte e Mercúrio, e a Avó R. tem Vênus e Mer­cúrio em Virgem. Rose tem o Sol, Mercúrio e Saturno em Virgem. Essa combi­nação de Leio e Virgem atinge até os horóscopos dos filhos de Rose, pois sua filhinha tem o Sol, o ascendente, Mercúrio e Saturno em Virgem, e a Lua em Leio. O único que não tem colocações planetárias nesses dois signos é o Avô R.

Além de qualquer outro significado possível desse predomínio de Leão e Virgem, impressiona-me a justaposição de um signo de fogo, enérgico, volun­tarioso e auto-expressivo, e de uma coleção de personalidades tão passivas, deprimidas e tímidas. Esse fato apenas é o bastante para, disparar as campainhas de alarme no observador objetivo. O que aconteceu com todo aquele fogo? Po­deríamos imaginar uma família de gente talentosa e criativa como os Redgraves; ou uma dinastia turbulenta e competitiva como as que aparecem nas nove­las americanas tipo Dallas. De todos os signos, Leão é o que mais se preocupa com a individualidade e o direito de ser ele mesmo. De certa forma, esse é um daimon familiar, um impulso criativo tremendamente poderoso que, é eviden­te, foi simplesmente sufocado até morrer. Tenho a impressão de que esse pro­blema de desaparecimento de Leio é um ponto muito importante no exame dos possíveis antecedentes ao autismo de Rende.

Á primeira vista, pode parecer que Virgem é mais evidente nas características visíveis do retrato familiar, pelo menos nas suas manifestações menos atraentes: o predomínio de doenças psicossomáticas que parecem pesar sobre os membros da família. Virgem, porém, também não está sendo realmente ex­presso em qualquer sentido verdadeiro, pois esse signo de terra é um executor e um construtor. Somente Rose, com o Sol e Saturno conjuntos em Virgem, manifestou ambição e meticulosidade para realizar alguma coisa no sentido material, do ponto de vista acadêmico e profissional. A vivacidade intelectual de Virgem, como a auto-expressividade de Leão, parece ter sido bastante su­focada nessa família. No melhor dos casos, a combinação Leão-Vírgem pro­duz

o artista ou artesão criativo, ou a pessoa empreendedora, que tem lar­gueza de visão e dá atenção meticulosa aos detalhes da vida prática. No pior dos casos, o resultado é o hipocondríaco frenético, frustrado, eternamente preo­cupado com o que os outros pensam, e se tudo está a salvo nos lugares costu­meiros:- é o lado negativo de Virgem sobrepujando o fogo brilhante de Leão. O que sobra, depois que a massa azeda desse jeito é, em termos bem simples, rai­va suprimida. O daimon de fogo, sufocado, arrefecido e invertido de forma que cada pequena doença é mais um meio de chamar a atenção e obter domínio sub-reptício, torna-se venenoso. Embora seja uma especulação puramente intuitiva de minha parte, acho que não temos que procurar muito longe para calcular quem foi o receptor de todo esse veneno.

Agora, essa generalização tão grosseira é a minha própria imaginação astrológica lidando com um problema que a maioria dos psiquiatras trataria com muito mais cautela. Porém, a essa altura, vale a pena examinar alguns pontos de vista menos ortodoxos acerca do autismo, apresentados por pessoas não entrincheiradas no establishment psiquiátrico. Frances Wickes faz as seguintes observações sobre o autismo:
Uma criança que ultrapassou normalmente os atos auto-eróticos pode ser devolvida a esse estágio devido a um impulso anormal de retirada. Isso pode assumir qualquer uma das formas pertencentes a esse estágio anterior de desenvolvimento... As tendências regressivas resultantes do fracasso em adap­tar-se freqüentemente procuram uma compensação no poder. Ou o resultado pode ser um recolhimento das forças. Ordinariamente (do meu ponto de vista), esse comportamento regressivo pode ser trabalhado analiticamente, se for possível descobrir a tarefa ou situação à qual a criança não consegue se adap­tar. No autismo, evidentemente, a tarefa ou situação é a própria vida, e a criança simplesmente se recusa a sequer formar um ego."57
Assim, de acordo com Wickes, uma criança como Rende dá uma rápida olhada para fora (ou algo, que é pré-ego mas mesmo assim sensível, dá uma olhada) e diz para si mesma, "Não, obrigada." O que quer que esteja lá fora evidentemente é assustador demais, monstruoso demais, ameaçador demais, destruidor demais da vida para merecer o esforço. O corpo continua a desenvolver-se, e a criança vive tia penumbra do Self inconsciente. Seus rituais são reminiscências dos do animal, como o cachorro que dá voltas e voltas antes de se ajeitar no seu cesto. O ego, o complexo da adaptação consciente ao ambiente, nunca se separa do Self, embo­ra os traços da personalidade nascente, refletidos no horóscopo de nascimento, possam ser vislumbrados em forma rude e primitiva. É válido perguntar por que Rende teria achado a vida uma tarefa impossível. Talvez isso se relacione com toda aquela vida furiosamente reprimida de um família de Leões que não conse­guem viver. Imagino que tipo de carga psíquica se acumula na trama coletiva de um grupo de pessoas tão reprimidas. Talvez, se essas coisas puderem ser percebidas pela psique de uma criança recém-nascida, sejam razão suficiente para recu­sar o nascimento psicológico.

Jung sugere que há um complexo no cerne do recolhimento autista. Embora

mais adiante tenhamos mais coisas a dizer sobre complexos e destino, isso pode significar, em termos muito simplistas, que existe um complexo de associações, imagens e respostas que funciona como um ímã no inconsciente e puxa a libido, a energia vital, para longe do mundo externo, para baixo e para dentro de si mes­ma.

O recolhimento autista nas próprias fantasias é igual ao que descrevi em outro lugar como a pronunciada proliferação de fantasias relacionadas ao complexo.

O reforço do complexo é idêntico ao aumento da resistência ... A "ferida vital" é o complexo, que naturalmente está presente em todos os casos de es­quizofrenia e necessariamente acarreta sempre o fenômeno do autismo ou auto-erotismo, pois complexos e egocentrismo involuntário são inseparáveis e recíprocos ... Durante algum tempo empreguei o conceito de introversão para esse estado. 58
Visto dessa perspectiva, o autismo é a extrema introversão, o extremo recolhimento da energia vital para o inconsciente, em direção ao complexo. Mas o que, no caso de Renée, é o complexo, a "ferida vital", como diz Jung? Talvez me perdoem por me tornar mítica, mas sugeriria que o complexo tem algo a ver com


  • leão enfurecido, a divindade enraivecida cuja exteriorização foi negada durante várias gerações e que agora habita o inferno e devora por dentro. Ocorre-me vivamente a imagem grega da maldição familiar, personificada pelo poder enraivecido que, de alguma forma misteriosa, trabalha dentro da família e provoca ações que, por sua vez, conjuram a catástrofe. Encarando assim, o autismo de Renée não é "culpa" da Sra. R. Ao contrário, toda a família, incluindo a Sra. R., está à mercê de algo que destrói a partir de dentro, porque nem um só membro da família — exceto Rose — é suficientemente consciente para dar-lhe expressão na vida exterior.

Michael Fordham, em seu livro The Self and Autism, apresenta um estudo exaustivo e esclarecedor sobre o assunto. Começa a discussão do autismo citan­do Winicott e Bettelheim, dois analistas que estão convencidos de que o ambien­te, e principalmente a mãe, são decisivos em casos de autismo secundário (não-orgânico). Winicott acha que existe um defeito ambiental, enquanto Bettelheim chega a argumentar que as crianças autistas são autistas porque vieram ao mundo e encontraram mães que desejavam a sua morte. Nem é preciso dizer que esse é um ponto de vista extremista, e está em desacordo com as conclusões de Fordham; também está em desacordo com as conclusões da astrologia, embora Fordham provavelmente não ficaria contente em saber que o horóscopo confir­ma seu ponto de vista.

Se as crianças autistas vivem num mundo "interior", ele não é, de forma alguma, sentido como tal — em vez disso, elas vivem com um mundo de obje­tos (o que inclui partes dos seus corpos) cujo arranjo freqüentemente é muito meticuloso e organizado, embora não seja dividido em termos do que é inte­rior e do que é exterior. Com base em observações como essas, parece prová­vel que a hipótese de uma barreira protegendo um mundo interior seja simplesmente uma suposição feita pelos adultos para explicar a inacessibilidade da criança; esta, muitas vezes, é sentida pelos pais como barreira quando, em termos de experiência da criança, esse sentimento não existe, porque a barreira não é levantada contra eles, mas contra objetos-não-self. Ele pode sa­ber da barreira e senti-la, mas ela não é uma defesa para proteger um objeto interno.59

E prossegue:

Supõe-se que o cerne essencial do autismo represente em forma distorcida a integração primária da infância, e que o autismo idiopático seja um estado desordenado de integração, cuja persistência se deve ao fracasso do self em se desintegrar. 60

Essa afirmação de Fordham, no meu entender, não está muito longe da de Wickes: o Self precisa se desintegrar para que o ego se forme, o que ele não faz, preservando assim a "inteireza" original da criança recém-nascida antes de começar o relacionamento com o objeto externo (mãe, seio da mãe). A raiva


  • a fúria da criança autista, portanto, são dirigidas contra qualquer objeto exterior que não se harmonize com os requisitos internos objeto-self, ou, em outras palavras, contra tudo que é percebido como "não eu".

Como não tenho experiência no campo da terapia de crianças autistas. não estou em condições de concordar ou discordar desses autores, a não ser de forma teórica. Citei esse material para ajudar a formar um quadro desse estado, de sua complexidade e das conclusões das pessoas que trabalham na área. Para o astrólogo, porém, a questão básica é — ou talvez devesse ser — a possibilidade de um estado como o autismo ser visto de qualquer forma, incipiente ou efetiva, no horóscopo natal. Se não, isso nos leva inexoravelmente para a mãe, e para a rela­ção entre mãe e filho. Não sei se a Sra. R. abrigava desejos secretos inconscientes de destruir sua filha, o que sem dúvida é possível, considerando sua história de vida. As provas circunstanciais parecem, certamente, condená-la. Mas a própria Renée tem uma parte igualmente importante nesse diálogo — portanto, agora precisamos voltar-nos para o seu horóscopo natal.

Á primeira vista, este não parece ser um horóscopo particularmente "infeliz". Pelo menos não é infeliz em termos das desgraças tradicionais tais como a sexta



  • a décima segunda casas superenfatizadas e aflitas, aspectos terríveis de Sa­turno e outros horrores da literatura horoscópica medieval. O Sol está em dignidade em seu signo, Leão, e existe um grande trígono, embora fora de signo, nas casas de ar. Normalmente, isso deveria sugerir algum tipo de desembaraço mental, já que essas são as três casas relacionadas com a comunicação e a troca entre as pessoas. Tenho muito consciência dos problemas da interpretação de mapas em retrospecto. Sem dúvida vamos dissecar eternamente os mapas de Hitler e Oscar Wilde para ver se é possível detectar um homossexual ou um dita-dor mundial. Nunca vou me convencer de que o mapa de Rende "mostra" autis­mo, nem que o de Wilde "mostra" homossexualismo ou o de Hitler "mostra" o domínio sobre a maior parte da Europa. Entretanto, considerando que o autis­mo é tão misterioso mesmo para o campo terapêutico, talvez se justifique a montagem de um referencial que pode dar algumas explicações. Já comecei a fazer isso quando observei a onipresença de Leão nos horóscopos da família e

sugeri a idéia de um mito ou daimon familiar de auto-expressão e individualidade que foi invertido e se tornou destrutivo.

O exame mais minucioso do grande trígono de Renée revela uma vontade poderosa, talvez mesmo implacável. Isso, é claro, não está em contradição nem com a típica personalidade autista nem com a própria Renée, que passa horas recusando alimento e sono e é acometida por violenta raiva quando sofre intromissões. A vontade sem dúvida existe, porém não é usada para a atividade extrovertida. As assustadoras explosões de mau humor e os ataques contra quem perturba a integridade de seu mundo de fantasia são consumados com enorme rigidez e determinação. O ego talvez nunca tenha nascido, mas em seu estado nas­cente ainda parece um Leão, uma anticonsciência que se apega ao abraço urobórico com toda a tenacidade de Leão, unido ao Self inconsciente e resistindo vio­lentamente a qualquer espécie de intromissão ou invasão do exterior. Por razões que ela — ou seu Self — conhece melhor do que ninguém, Renée decidiu descar­regar a fixidez e a determinação do Sol em trígono com Saturno em trígono com Marte contra o mundo, e não no mundo. Dessa forma, ela mesma se torna onipotente, todo-poderosa, e qualquer coisa que ameace essa experiência precisa ser negada ou destruída.

Saturno na terceira casa também é revelador. Na melhor das hipóteses, esse posicionamento não é comunicativo. Na pior das hipóteses, é virtualmente mudo. Qualquer que seja o significado de "normal", Saturno encontrado na tercei­ra casa não é o tagarela festivo. Pode demonstrar muita desconfiança com relação ao ambiente e manifesta o faro da sombra habitual em Escorpião. Se existir um daimon zangado nas proximidades, ou, como sugere Bettelheim, uma mãe incons­cientemente assassina, Saturno em Escorpião vai descobri-lo, mesmo que nin­guém mais o faça. Mesmo as mães moderadamente assassinas — portadoras de certa ambivalência básica com relação ao filho, uma situação comum e provavel­mente "normal" — tornam-se Mães Terríveis para Escorpião. A terceira casa também é, tradicionalmente, a casa dos irmãos, e nesse caso sugere a dependên­cia de Rose e a hostilidade contra ela, que tinha onze anos na época do nascimento de Renée e foi obrigada a tomar conta da irmã. Saturno está em quadratura com Mercúrio, outro contato sugestivo de uma natureza recolhida, não-comunicativa. Essas qualidades são agradáveis e podem até ser atraentes numa pessoa cujo ego seja suficientemente forte para expressá-las de maneira condi­zente. Uma interpretação comum dessa associação terceira casa-Mercúrio-Saturno poderia abordar a expressão titubeante e alguma incerteza em termos de confiança intelectual. Mas poderíamos também ressaltar o tato, a profundidade


  • o rigor inerentes ao aspecto. Porém, no caso de Renée, o que temos é virtualmente uma caricatura da pessoa incapaz de falar, incapaz de aprender e incapaz de permitir qualquer intromissão do ambiente no seu mundo privado.

Por enquanto, não chegamos mais perto de discernir o autismo no mapa de Renée, embora algumas configurações, como o aspecto Saturno-Mercúrio, se "ajustem", de forma exagerada, ao estado dessa infeliz mulher. Talvez até mais importante que a quadratura Saturno-Mercúrio seja a quadratura de Satur­no e Plutão na décima segunda casa. Essa quadratura é muito próxima, e à luz de tudo que vimos de Plutão nos capítulos anteriores, poderia sugerir algo "predestinado" atuando em Rende. Já disse que a décima segunda casa está

associada à psique coletiva da família, aos "pecados" passados e aos complexos não vividos. Plutão colocado na décima segunda corrobora minha idéia de que uma tremenda raiva violenta ronda a atmosfera dessa família. É uma espécie de "captação" da sombra coletiva, uma sensibilidade peculiar à negra destrutivida­de que jaz por baixo do umbral da expressão individual consciente e que o passado ancestral transmitiu ao presente. O Saturno de Renée, em Escorpião na ter­ceira casa, sugere sensibilidade ao ambiente imediato, mas Plutão na décima segunda em quadratura com esse Saturno sugere uma sensibilidade mais profun­da, que até numa criança "normal" poderia sugerir terrores noturnos e um gran­de medo da destrutividade invisível presente nas psiques paternas. Embora esse aspecto não afirme "autismo", tanto quanto qualquer outra colocação no horóscopo, sem dúvida enfatiza qual poderia ter sido a "tarefa impossível" encon­trada por Renée.

Outra configuração de Inegável importância é a Quadrado T entre o Sol, a Lua, Urano, Mercúrio e Netuno. Através desse agrupamento muito tenso podemos vislumbrar algumas das qualidades que se expressam, em Renée, como violên­cia e destrutividade. Também faz parte, sem dúvida, da "tarefa de vida" que Rende não pode ou "não quer" assumir, pois conciliar sentimentos tão diferentes e tão poderosos como aqueles refletidos pelo choque entre dois planetas exterio­res com o Sol e a Lua é um problema que até num ego forte provavelmente geraria intolerância a qualquer tipo de restrições ou oposições. Dada essa predisposi­ção em Renée, presente desde o começo, só podemos especular sobre a reação ocorrida quando alguém com uma natureza voluntariosa e explosiva, como ela, se depara com alguma coisa igualmente voluntariosa e explosiva no ambiente. Embora a família, como vimos, exiba personalidades reprimidas e meio patéti­cas, todo o fogo enterrado de Leão ronda, em algum lugar, a atmosfera psíquica. Está tanto dentro de Renée como fora dela. Mesmo se levarmos em conta o ponto de vista mais extremista de Bettelheim, de que a criança autista recusa o desenvolvimento porque intuiu sentimentos assassinos na mãe, o que acontece quando tanto a mãe como o filho têm uma raiva assassina?

A Lua cheia do mapa de Renée repete o mapa da Avó R., que nasceu com a mesma Lua cheia Leão-Aquário. O Sr. R. tem o Sol em Leão em oposição a Urano em Aquário, o que aparentemente não foi expresso por ele, A Sra. R. tem a Lua em quadratura com Urano. Esses contatos parentais do Sol e da Lua com Urano são refletidos no mapa de Renée. Portanto, além de Leão, também é pre­ciso se haver com Urano. Por trás das aparências, a psique dessa família é como um campo minado. O Sol e a Lua em aspecto com Urano não são colocações muito propícias ao intercâmbio cooperativo e à adaptação aos outros. Se a pes­soa com esses aspectos é do tipo mais sociável ou gregário, muitas vezes as qualidades mais bruscas e iconoclastas de Urano são reprimidas e vividas através de um parceiro ou de amigos "diferentes".

A oposição Lua-Urano de Renée é particularmente relevante porque a Lua, no horóscopo da pessoa, tem uma influência especial sobre a imagem e a expe­riência da mãe. A Lua representa nossas raízes; é um símbolo do aspecto da psique que contém e sustenta a vida. Nesse sentido, também é uma imagem do corpo físico, o continente da psique, e também da mãe, que é nosso continente físico durante a gravidez e nosso continente psíquico durante a infância. A Lua

revela a sensação de segurança que a pessoa tem na vida, tanto do ponto de vista de como ela experimenta a infância, quanto de como ela experimenta seu próprio eu físico enquanto um local seguro para se viver. Torna-se prontamente óbvio que Urano é tudo, menos um continente seguro. A experiência da mãe não é alimentadora ou sustentadora. É sentida como imprevisível, alguém em quem não se pode confiar, às vezes gentil e reconfortante mas de repente, e sem razão, hostil ou perversa. Os aspectos difíceis entre Urano e a Lua colocam um grande dilema para a mulher, porque a Lua maternal e seu mundo instintivo são perturbados e ameaçados pela compulsão de conquistar a liberdade. A mulher com Lua-Urano pode experimentar falta de segurança através da mãe; e a sua maternidade, por sua vez, pode ser cheia de sentimentos ambivalentes. É como se ela não se sentisse absolutamente à vontade sendo mulher, porque Urano luta com violência contra a escravidão biológica da Lua. A ambivalência e mesmo a raiva com relação às funções comuns do corpo feminino são, freqüentemente, subprodutos de um dilema Lua-Urano não resolvido. Tenho observado, em algumas pessoas, muita tensão e muito medo de ruptura, expressos de forma simbólica como medo de andar de avião, medo de eletricidade, medo de fogo. O corpo antecipa morte ou ferimento súbitos, que é a reação da Lua à invasão de Urano, assim como Urano acha a Lua uma armadilha e um túmulo. Portan­to, não é de surpreender que a Sra. R. tivesse tanta dificuldade para conceber suas filhas e que sofresse de doenças recorrentes durante a gravidez. Ë como se ela conscientemente quisesse um filho, mas inconscientemente o rejeitasse, e o conflito foi vivido no corpo, não no consciente. Este é um fato que tenho visto com freqüência em mulheres Lua-Urano: em vez de agüentar o conflito e tomar as providências necessárias para valorizar os dois lados na vida, elas muitas vezes se identificam com o papel da "boa mãe", abrigando assim uma imensa raiva inconsciente contra o filho que as acorrentou a seus corpos femininos. Talvez seja isso o que Bettelheim queira dizer quando fala da mãe que deseja secretamente destruir o filho. Dividida entre a condição de mulher e a condição de um ser espiritual assexual, simbolizado por Urano, esse aspecto aparece com freqüên­cia nos mapas de mulheres que sofrem disfunções sexuais, problemas ginecológicos e dificuldades ou retardos na concepção.

A oposição Lua-Urano no mapa de Renée pode ser encarada como um indica. dor de sua experiência básica da mãe. Por seu lado, a Sra. R. também tem esse aspecto, na forma de quadratura. Ela também experimentou instabilidade no re­lacionamento com a mãe, a Avó R. Essa interpretação é confirmada pelo fato de a Avó R. ter concebido por acidente, não desejando a filha. Deparamo-nos aqui com uma herança familiar, passando de avó para mãe e para filha, provavelmente com raízes mais antigas. É como uma maldição familiar grega — quando perma­nece inconsciente, simplesmente leva a geração seguinte a sofrer o mesmo proble­ma. Até que ponto o material psíquico acumulado de várias gerações de mulhe­res enraivecidas se associa à incapacidade demonstrada por Renée de desenvol­ver um ego operante é uma questão aberta. Mas os problemas desse aspecto sem dúvida sugerem muita insegurança e uma sensação de "estar solto" na vida. Uma das facetas mais interessantes do contato Lua-Urano é que o "continente" não é apenas a mãe; é a própria pessoa, o corpo que contém o conflito de sentimentos, a personalidade que contém seus elementos ingovernáveis. Lua-Urano não descre­

ve somente a pessoa que tem dificuldade em sentir-se "segura". Também descre­ve a pessoa que teme não ser capaz de conter sua própria explosividade. Esse aspecto sempre teve fama de "mau gênio", mas vai além da irritabilidade comum. O medo de explosões, fogo, acidentes súbitos, desastres de avião e outras mani­festações "fóbicas" na verdade são uma projeção, em objetos externos, de ten­dências separativas dentro da própria pessoa. O continente defeituoso não é apenas a mãe; sentindo-se sem mãe, é a pessoa que freqüentemente tem pouca tolerância pela ansiedade e não consegue suportar emoções ambivalentes. Talvez seja relevante aqui lembrar as raivas súbitas de Renée, surgindo a partir de nada, exaurindo-se e desaparecendo em seguida, assim como a ritualização obsessiva de objetos e atos, tão misteriosamente semelhantes aos rituais primitivos, que mantêm à distância as forças escuras dos deuses inimigos.

Podemos agora examinar outro contato "herdado" no mapa de Renée, a qua­dratura entre o Sol e Netuno. No mapa da Sra. R., o Sol está em conjunção com Netuno na primeira casa. A Avó R. tem os dois planetas em semiquadratura. Essa é outra configuração que parece seguir a linha materna. O Sr. R. não tem nem o Sol nem a Lua em aspecto com Netuno. A Tia R. tem a Lua em Peixes, que é, (se me desculpam a brincadeira), uma versão aguada de Lua-Netuno, que tam­bém aparece no mapa do Avó R. Netuno é um planeta cujo significado é antité­tico a Urano, pois se relaciona com o reino do sentimento e não do pensamento, e personifica a imagem arquetípica da vítima e a questão da redenção pelo sofrimento. Em termos do mapa da Sra. R., Sol-Netuno expressa grande parte do seu comportamento ostensivo na vida, e parece tê-la virtualmente dominado. O que é visível não é o dinâmico Leão, nem a turbulência de Lua-Urano, mas a postura de anulação e de sacrifício de Netuno, para quem amor e sofrimento são inseparáveis, e para quem a vida é estéril se não for possível oferecer a alma a alguém. Essa tendência a abrir mão da própria identidade e viver através do sacrifício aos outros talvez seja uma das razões por que uma pessoa tão forte como a Sra. R. decidiu levar a vida que levou. Qualquer mágoa — como o fato do primeiro marido tê-la abandonado — não é vista como uma fonte de raiva ou de auto-exame, mas como uma comprovação de que a vida é um lugar de sofrimento e sacrifício. Renée também tem esse dilema no horóscopo. O conflito não resolvido entre a vontade própria de Urano e o auto-sacrifício de Netuno lançou âncora firme nela, induzindo-nos novamente a conjeturar que talvez essa seja una das tarefas de vida insuperáveis que ela, num nível profundo, preferiu evitar.

Como Apoio e as Erínias no mito de Orestes, aqui há duas poderosas divin­dades exigindo pagamento. Ambas são representadas por planetas exteriores, o que, para mim, indica que nenhuma das duas tem propensão a se integrar totalmente na consciência individual. Ambas têm a autonomia e a força de um deus, pois são personificações de grandes impulsos e mitos coletivos. Netuno é essen­cialmente um planeta feminino, associado à imagem arquetípica da mulher sofre­dora. É a "mediatrix", tal como se espelha na figura da Virgem Maria. Os sentimentos de Netuno são lindamente expressos na Paixão segundo São Mateus, de Bach:

É o meu pecado que agora Te acorrenta! Com profunda angústia Te rodeia

E Te prega na madeira.
A tortura que sofres,

Revelando Teu paciente amor,

Eu, apenas eu, é quem deveria sofrer.
Netuno abre as comportas da experiência do sofrimento do mundo e da ago­nia do espírito encarnado na matéria. Há um anseio de libertação da prisão do corpo e de união com a fonte divina, seja num sentido espiritual — como Deus — ou num sentido redutivo — como a unidade original do útero materno. Portanto, a pessoa netuniana é propensa a experimentar as paixões mortais como algo cheio de pecado e pesar, a si mesma como culpada, e à expiação como único meio possível de purificação e de reparação. Talvez a mãe de Renée "precisas-se" de uma criança com distúrbios, pois para ela o sentido da vida está inextricavelmente unido ao sofrimento. Esse também seria o caso de Renée, embora as influências fortemente leoninas e uranianas de seu horóscopo teriam combatido essa necessidade de sofrer. Esse fato já seria razão suficiente para que ela não se preocupasse; Urano é um planeta masculino, portador da inspiração e da des­prendida amplitude de visão dos deuses celestiais do mito. Renée, como Orestes, tem em seu horóscopo um conflito aparentemente irreconciliável. Jung achava que tais conflitos, embora tendam a gerar sofrimento, são imensamente criativos e conduzem ao desenvolvimento de uma autêntica individualidade. Mas Renée não estava em condições de aproveitar a sabedoria de Jung. É como se, perce­bendo a turbulência e a dificuldade da vida traçada para ela lá fora, Renée tives­se decidido — para usar uma linguagem mais esotérica — não se encarnar.

Estou, sem dúvida, propensa a especular com bastante profundidade sobre a ligação entre o sofrimento e o conflito interno da Sra. R., e o autismo de Renée. É como se Orestes, diante das divindades iradas e exigentes que perseguiam sua família, decidisse não voltar a Argos para cumprir a ordem de Apoio, mas sim­plesmente fechar-se numa redoma em Phokis, local de seu exílio, e nunca mais falar. Mas por que Renée carece da força de Orestes? Parece razoável fazer esta pergunta ao horóscopo, porque se o horóscopo indica as inclinações básicas do caráter, a capacidade de lidar com o conflito, com certeza, deve estar indicada no mapa. Força de vontade, como já vimos, é claramente visível. Mas não o autodomínio. Talvez a incapacidade de Renée de lutar contra a guerra em que nasceu esteja parcialmente associada a seu ascendente em Virgem, que não é o mais corajoso nem o mais rijo dos signos. Tenho visto muitas e muitas vezes que Virgem, como seu signo oposto, Peixes, pode ser extremamente mediúnico e sensível á atmosfera do ambiente. A diferença é que as subcorrentes ambientais são registradas emocionalmente por Peixes, enquanto Virgem tende a registrá-las sob a forma de sintomas físicos. Virgem tem poucas defesas contra o invasor, a não ser os hábitos e os rituais tão amados por esse signo, e o intelecto agudo que, uma vez iniciado seu desenvolvimento, age como um bastião contra o caos. O autismo, de uma maneira horrível, é uma caricatura desse ritualismo, com ações fixas repetitivas e cerimônias compulsivas. O ritual obsessivo é uma

expressão fascinante da antiga tendência primitiva de executar atos mágicos para a proteção da pessoa ou da comunidade contra a invasão do caos do mundo arquetípico. A esmagadora força inconsciente de tanto Leão, na família, seria suficiente para levar até um Virgem "normal" a rituais frenéticos, e provavel­mente também a eczema, asma e problemas estomacais. A primeira casa da Sra. R. é uma assustadora barragem de vitalidade não vivida, dominada pelo pathos de um Netuno negativo. Quando tento imaginar essa mulher formidá­vel desempenhando um papel tão passivo e condescendente, me preocupa o potencial de violência que deve estar por baixo da superfície e que impregnou o ambiente psíquico do bebê Renée, com seu vulnerável ascendente em Virgem. Talvez a criança autista faça uma afirmação desse tipo: "Sinto muito, mas não vou sair. O mundo é muito, muito assustador e destrutivo, eu mesma estou muito, muito assustada e cheia de destrutividade, e minhas defesas são muito fracas — portanto, agradeço muito, mas não, obrigada; vou continuar não-nascida."

Rose, a meia-irmã de Renée, de certa forma conseguiu escapar ao pesadelo que Renée, aparentemente, percebeu cedo demais e bem demais. Pode haver muitas razões para explicar esse fato. Do lado psicológico, quando Rose nasceu, a Sra. R. ainda não tinha sofrido a desilusão da perda do marido, e ainda não ti­nha cristalizado totalmente sua postura de mártir. Do lado astrológico, o mapa de Rose não evidencia os mesmos conflitos turbulentos do de Renée. Aqui, a Lua está em trígono com Urano, sugerindo que em Rose o conflito entre a materni­dade e a liberdade é uma questão que, embora difícil, tem muito mais chance de solução. Os trígonos implicam uma maior possibilidade de integração de dois impulsos psíquicos em luta. Aqui, também, o Sol está em sextil com Urano, um aspecto mais suave do que a conjunção que aparece no mapa de Renée. Isso torna a vontade de Urano mais governável e mais passível de integração e de expressão como um espírito independente, mesmo assim capaz de viver dentro dos limites sociais existentes. O mais importante, talvez, seja a ausência de Leão no horóscopo de Rose. Somente Plutão está colocado no signo, e Plutão não está forte nem por colocação de casa nem por aspectos aos outros planetas. Netuno, também, está relativamente tranqüilo, fazendo apenas uma conjunção com Vênus; assim, quaisquer tendências implícitas ao sacrifício terão mais probabilidade de vir à tona como idealismo romântico e sacrifício de fantasias românticas loucamente idealistas, em vez de sacrifício da própria identidade, como acontece tantas vezes com o Sol. A Quadrado T envolvendo a Lua, Júpiter e Marte sem dúvida é difícil, e não confere um gênio dos melhores. Mas esses são planetas interiores, muito mais fáceis de assimilar. Urano e Netuno ameaçando o Sol e a Lua de lados opostos é uma combinação muito mais impressionante, no mapa de Renée, do que Marte e Júpiter chocando-se com a Lua, no mapa de Rose. Existe uma semelhança, pois ambos sugerem o problema de sacrifício versus auto-afirmação. Mas a Quadrado T de Rose é brincadeira de criança perto do terrível choque dos outros planetas no mapa de Renée. Por último, a conjunção do Sol e Saturno em Virgem também é um importante indicador de um destino mais suave. Embora pareça refletir a perda do pai — fato de que Rose não sabia conscientemente, mas que é claramente mostrado no horóscopo natal — pro­porciona, em compensação, resistência e capacidade de sobrevivência e

auto-domínio que nenhuma outra das mulheres da família parece possuir. Rose tem o dom da autopreservação, e talvez seja em parte por isso que só ela con­seguiu construir sua vida em vez de se tornar uma bola jogada às cegas pelos poderes arquetípicos.

Evidentemente existem muitas outras ligações entre os horóscopos dessa família que poderiam ser mencionadas. Constituem um impressionante exemplo da repetição de padrões dentro de famílias, fato que tenho observado inúmeras vezes em meu trabalho como astróloga. Parece que efetivamente o destino familiar é retratado, em parte como uma sincronicidade de signos e aspectos repetidos que formam uma espécie de afirmação da hereditariedade psicológica. Quer se deseje adotar uma abordagem causal ou não causal com relação ao problema do "bode expiatório da família" ou "paciente identificado", é evidente no estudo de mapas familiares interligados que a pessoa não é tão separada quanto poderia supor. Por essa razão, Orestes é o grande símbolo mítico do destino da família. No cerne de seu dilema está a ambivalência, um choque de opostos retratado, no drama, como a batalha mortal entre o matriarcado e o patriarcado, entre o corpo e o espírito, entre a mãe e o pai. Esse conflito leva Orestes à loucura. Ele é apanhado entre duas dominantes arquetípicas, o deus solar Apoio, que governa o reino da luz e da consciência, e as Erínias ctônicas que servem aos poderes infernais e ao reino do instinto. Quando os conflitos de uma família proliferam sem solução geração após geração, pode ser que a pessoa acabe no lugar de Ores­tes: par, eles ganham; ímpar, você perde. Não há recurso, a não ser o caminho do sofrimento no intuito de encontrar a redenção ou a liberdade para as gera­ções seguintes, mas esse sofrimento precisa ser consciente, e não cego. Não posso imaginar nenhum dilema que tenha maior sabor de destino. Sejam quais forem os fatores que possam ter contribuído para uma vida não vivida de uma mulher como Renée, esse mito sem dúvida reflete o terror e a confusão que a vida pode encerrar para o herdeiro desses conflitos.

Orestes não pode resolver seu próprio dilema. Pode apelar aos deuses, confian­do em que eles, que inicialmente o colocaram na enrascada, possam tirá-lo dela, se tiverem qualquer senso de justiça. Vimos como Apoio usa de artimanhas e interfere no desenvolvimento da Casa de Atreu; Orestes, não obstante, como Jó, tem uma paciente fé nos poderes divinos, que é a pedra angular de sua salva­ção. Seu destino está nas mãos de Apoio, e ele aceita esse fato. Em nenhum momento é acometido de hubris; talvez por isso, no fim, ele ganhe o voto de Atena. Quando, com a espada desembainhada, se depara com a mãe, Clitemnestra diz: "Meu sangue o perseguirá." Orestes não finge ser mais corajoso ou mais virtuo­so do que 6. Simplesmente responde: "O sangue de meu pai já me persegue. Assim, o que posso fazer?" Não é fraco, mas tem humildade. Passa pelo exílio e pela perseguição acreditando sempre que, no fim, Apoio vai cumprir sua pro­messa e fornecer uma solução. Essa é uma iniciação do tipo mais profundo: a derrota da Mãe Terrível, cuja solução criativa demanda muito sofrimento. Aqui o destino familiar coincide com o destino individual, pois Orestes luta por sua liberdade individual, porém a jornada em direção a essa liberdade significa um mergulho total nos pecados da família. É preciso que ele se torne assassino como os outros, que viole o parentesco como os outros, e que fique tão corrompido quanto seu progenitor Tântalo. Alternativamente, ele poderia ter sido igual a

Renée, e nunca ter nascido.

O processo de desenvolvimento de complexos nas famílias tem um aspecto tanto de teleologia — o movimento em direção a um objetivo — quando de ine­vitabilidade, assim como a maldição sobre a Casa de Atreu tem uma inevitabilidade. Olhando-se para trás dos conflitos e compulsões de cada um, pode-se vis­lumbrar o mito familiar, serpenteando e torcendo-se através do pai e da mãe, dos avós e dos bisavós, desenrolando-se sem parar como a visão de Heimarmenê dos estóicos, até o inconsciente coletivo racial. O mito de Orestes e sua família parece sugerir que, sejam quais forem as pessoas, a herança é uma parte integran­te de sua identidade pessoal; e essa herança, que se abate sobre nós como desti­no, precisa ser encarada e atacada de forma individual. Não se pode repudiá-la, não se pode fugir dela; não é suficiente moldar a vida de acordo com "qualquer coisa, exceto a mãe e o pai", pois assim fazendo estamos certamente tão dominados por eles como se tentássemos ser exatamente como eles. Pode-se fazer o que se puder, ou o que se desejar, com uma herança; mas a própria herança não pode ser ignorada ou devolvida, pois nossas famílias são o nosso quinhão, a nossa Moira.

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O Destino e a Transformação



A força do destino não penetra a mente a não ser que a mente, por sua própria iniciativa, tenha antes submergido no corpo, que é sujeito

ao Destino... Toda alma deveria retirar-se do estorvo do corpo e centrar-se

na mente, pois então o Destino descarregará sua força no corpo, sem

tocar a alma.61
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