Os planetas exteriores e seus ciclos os astros e o amor



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a morte do rei, pelo Sol e Mercúrio em trânsito. A vida do rei Henri, mesmo sem contar sua triste morte, foi excepcionalmente infeliz. Passou a juventude numa masmorra espanhola como refém do imperador Charles V; o pai o detestava intensamente e o evitava tanto quanto podia; a mãe morreu quando ele era muito jovem; casou contra sua vontade com uma mulher que ele achava fisicamente repulsiva; e estava sempre, embora não surpreenden­temente, deprimido. O máximo que se pode dizer é que ele era um bom jogador. de tênis. Para Gauricus, o Sol e o regente do mapa em Áries aflitos pelos funes­tos Saturno e Marte significavam ferimentos na cabeça, parte do corpo tradicio­nalmente regida por Áries. Há duas explicações possíveis para a cegueira profeti­zada por Nostradamus. Uma é a localização do ascendente presumido do rei Hen­ri perto das estrelas das Plêiades, que segundo os árabes punham em perigo a vi-são. A outra é a localização do Marte do rei numa nebulosa chamada Olhos do Caranguejo, localizada no signo de Câncer, também com fama de pôr em risco a visão. Além dos ameaçadores trânsitos de Saturno, do Sol e de Mercúrio, o Sol em trânsito também atingia o IC calculado por Gauricus, o ponto do horóscopo que tradicionalmente representa o "fim da vida". E tinha havido anteriormente naquele ano um eclipse, por volta do aniversário do rei, caindo sobre a conjunção Sol-Lua-Vênus na cacodaimon, a terrível décima segunda casa. Juntando tudo is­so, podemos ter uma idéia da razão de os dois astrólogos julgarem inevitável a morte do rei.

Agora, apresentei esse resumo de um dia na vida do rei Henri por vários motivos. Primeiro, acho que é um excelente exemplo de uma grande corrente da ati­tude da astrologia com relação ao destino, atitude que agora provoca tanta ani­mosidade e divisão entre os astrólogos modernos. Mas, o que tem mais importância é que desejo chamar a atenção para o triste fato de que tanto Gauricus como Nostradamus

tinham razão a respeito do rei. Entretanto, embora não me lembre de jamais ter visto um horóscopo idêntico ao do rei Henri, já vi um número suficien­te de configurações que Firmicus e Cauricus considerariam sinistras. Hoje em dia elas não se traduzem tão literalmente. Mesmo que o Sol em quadratura com Sa­turno pudesse significar morte violenta na época de Firmicus e mesmo na de Gauricus, parece que ela não se manifesta dessa forma hoje em dia. As vezes sim, às vezes não. Essa mudança curiosa mas altamente significativa é, segundo creio, um reflexo de alguma modificação profunda, não só nas atitudes da astrologia — de mais literalmente preditiva para mais psicológica — como também na forma de manifestação do destino. Tenho observado grandes cruzes cardeais envolvendo o Sol, Marte e Saturno com um dos cantos na décima segunda casa, tenho prestado atenção em trânsitos "maléficos" sobre esses pontos, inclusive os nodos da Lua. Nessas ocasiões, meus clientes não morreram, nem de ferimentos na cabeça nem de outras coisas. Não há dúvida de que passavam por algumas experiên­cias um tanto dolorosas e difíceis, inclusive doenças, acidentes, depressões, rupturas conjugais e assim por diante; um tentou o suicídio. Mas a resposta à pressão planetária que poderia ser fatal na interpretação de Gauricus parece variar muito mais hoje do que no século XVI. Um bom exemplo é o mapa de Ruth, que tem uma grande cruz envolvendo a sexta e a décima segunda casas, assim co­mo o meridiano. O que aconteceu com ela foi, de certo modo, uma espécie de morte; mas foi uma morte interior, e produziu alguns resultados muito criativos. Não há dúvida de que as quadraturas Sol-Saturno e as quadraturas Marte-Satur­no, quando ativadas, tendem a entrar em batalhas, muitas vezes num "espaço fechado" em sentido simbólico. Mas as batalhas, assim como as mortes, podem ser internas.

Suponho que aqui estamos diante daquele mistério que a tradição esotérica chama de planos de consciência, daquilo a que também poderíamos nos referir como níveis de expressão da energia psíquica. Jung escreve sobre a "canalização da libido" no volume V de Collected Works, sugerindo que a tendência da ener­gia psíquica é transformar-se de compulsão instintiva em experiência interior significativa pela mediação do símbolo. Em outras palavras, a energia psíquica "introverte-se" quando a imagem correspondente à compulsão exterior emerge dentro da pessoa e quando ela é capaz de conter essa compulsão pelo poder mediador da imagem. No final, é possível que a compulsão continuo exigindo concretização; mas também pode ser que não. Esse processo muitas vezes é extremamente fecundo. Também é o caminho ensinado pelo budismo para que o homem possa desprender-se da ligação com as Mil Coisas. Vou dar um exemplo muito simples e grosseiro, mas bastante comum; um homem está experimentando o trânsito de Netuno por seu Vênus natal. Seus sonhos anunciam o trânsito apre­sentando imagens eróticas e misteriosas mulheres desconhecidas que tentam seduzi-lo ou conduzi-lo a algum outro lugar. Um dia, quando volta do trabalho pa­ra a casa, a esposa e a família, ele vê numa esquina uma garota de dezesseis anos espantosamente bonita. (O filme 10 descreve de maneira muito divertida esse dilema.) O nosso herói deve perseguir a anima, ou tentar o caminho doloroso, frustrante e irritante do esforço de interiorizá-la? Ou deve tentar as duas coi­sas? Sua resposta, em última análise, não tem relação com a moralidade convencional, porque respostas diferentes podem ser adequadas para pessoas diferentes.

Mas ela lida em parte com a questão da transmutação do instinto em imagem interior, que pode se transformar num aspecto novo e criativo da própria pessoa. Ás vezes isso só pode ocorrer através do encontro e da relação com a mulher real, concreta. Mas há muitas opções inerentes a esse tipo de situação, talvez muito mais do que havia há quinhentos anos atrás, porque permitimos a entrada, em nosso vocabulário e em nossa consciência, da realidade da "imagem in­terior". Evidentemente, não existe uma única resposta à pergunta do que deve fazer o nosso herói; depende do homem, da esposa, da garota de dezesseis anos. Algumas pessoas são horrivelmente previsíveis. Mas a previsibilidade não é tão previsível quanto já foi.

A profunda transição por que passamos, da época do rei Henri até a nossa, não foi meramente uma transição de tecnologia e maior conhecimento do universo físico. Também introjetamos muitos dos deuses e daimones que povoavam o mundo externo dos primitivos e que, durante a Renascença, ainda habitavam nas coisas "exteriores". Esse processo empobreceu nossos rituais religiosos, mas também enriqueceu nossa vida interior, e nos deu mais opções para contrabalançar Moira. Ficino acreditava ser possível transformar pelo menos alguns aspectos do destino pela magia, mas Ficino fazia parte de uma pequena minoria na sua época. Sua consciência estava muito mais próxima da nossa. O século XVI, em geral, não conhecia a palavra "interior" ou o conceito de "individualidade", quanto mais o de "individuação" ou realidade da "psique". O homem era, no sentido mais profundo, a sua persona; incorporava sua posição na sociedade, fosse um rei, um duque, um padre, um artesão ou um camponês. Seu ser inte­rior, tal como era, consistia apenas no que lhe tinham ensinado a sentir, a pensar e a acreditar. Os grandes escritores e artistas da época brilham como sóis na escu­ridão dessa inconsciência coletiva; entretanto, se um desses escritores fosse escrever os mesmos livros hoje, teria um pouco de dificuldade em encontrar um editor, porque seria considerado bastante "comum". Qualquer aberração na pessoa era, por via de regra, considerada obra do diabo, e a loucura era a posses. são pelos espíritos do mal. O rei Henri provavelmente não sabia que tinha uma psique ou um inconsciente, pessoal ou coletivo. A quadratura entre Saturno e o Sol não sugeriu a Gauricus, como sugere a mim, que o rei sofria de profunda in­segurança e do senso de um profundo fracasso, como rei e como homem, que temia o julgamento da sociedade e que tinha sido emocionalmente deformado pelo tratamento extremamente bárbaro recebido do rei François I, seu glamoroso e mui amado pai, e que sua natureza tinha um traço muito violento e destrutivo que, só podendo encontrar expressão exterior nas batalhas e justas convencionais, acabou se voltando contra si mesmo. Para Gauricus, o mapa só podia se ma­nifestar de uma forma: externamente, através de uma vida infeliz e um fim violento. Para o rei, só havia um nível em que os trânsitos ativando seu mapa po­diam manifestar-se: através do corpo físico, num duelo real com um oponente real, porque a realidade concreta era tudo que ele possuía. O rei Henri estava predestinado dessa forma literal porque ele mesmo era literal. Nunca tinha lido Ficino, e não tinha paciência com poesia ou introspecção. Nunca questionou seus sentimentos ou suas motivações, mas sempre se deixou levar pelos outros, e raras vezes tornou alguma iniciativa própria. Não havia analistas junguianos para ajudá-lo, nem seminários de Psicologia Transpessoal, nem grupos de meditação,

nem EST,* nem Treinamento de Assertividade. Embora o movimento hermético apoiado por Ficino conhecesse essas coisas por outros nomes, o rei Henri era um homem de sua época e não um homem dessa irmandade. Só podia encontrar um tipo de morte.

Parece que, embora o destino não se altere quanto ao seu padrão intrínseco ou seu timing, ele pode alterar-se em termos de sua vestimenta, seu nível de expressão. Isso é indicado pela história do rei Henri e pelas histórias de meus analisados. Quer adotemos o ponto de vista oriental do desligamento para alcançar a libertação da Roda, ou o ponto de vista psicológico da retirada das projeções para nos experimentarmos como pessoas com algum grau de opção na vida, em última análise, somos os herdeiros de Reino e dos alquimistas, que acreditavam que a transformação da própria substância da pessoa era a única resposta possível ao destino. Paradoxalmente, isso acarreta a aceitação do destino. A pessoa do século XX com aspectos semelhantes aos do rei Henri no horóscopo natal, que já tenha feito alguma humilde intromissão na natureza, em termos de percepção de si mesma, é, de acordo com a minha experiência, tanto mais como menos previsível que a pessoa que, como o rei Henri, se identifica completamente com sua per­sona e só é capaz de encontrar a realidade nas definições externas de seu papel na sociedade. Ela é menos previsível porque tem mais níveis diante de si; é mais previsível porque, pela minha experiência, torna-se mais parecida com seu mapa natal, principalmente com seu signo solar. Quero enfatizar que esse tipo de trabalho interior parece não alterar o padrão inato da pessoa. No máximo, dá-lhe con­tornos mais nítidos. Somos o que somos, e, felizmente ou infelizmente, não podemos escrever uma carta zangada ao Times pedindo um novo horóscopo. A épo­ca dos trânsitos e progressões também não muda. O ritmo de crescimento do organismo é inerente ao organismo, pois isso é Moira, e não constatei nenhuma "intromissão" através da introversão e do relacionamento com o inconsciente nem acelerar nem diminuir esse ritmo de crescimento. Em vez disso, pode torná-lo mais significativo. Não me impressiona muito essa escola de astrologia que acredita ser possível "transcender" o horóscopo através de técnicas psicológicas ou espirituais, ou "trabalhar" o karma com aquela rapidez tipicamente america­na, cantando um pouco em sânscrito, dando uma mudada no nome e usando um turbante. Mas talvez seja possível vivenciar o horóscopo "dentro" tanto quanto "fora", e parece que isso constitui a diferença em termos da qualidade subjetiva da vida. Como tentei mostrar através do exemplo de Ruth e seu homem violento, pode haver alguma sabedoria no vislumbre da imagem psíquica interior que reflete o acontecimento exterior. Essa imagem interior, às vezes, pode mudar, ou "pa­recer" diferente à medida que o ego muda de atitude com relação à imagem. É mais ou menos como uma dança: os parceiros aprendem gradualmente a mover-se em conjunto com mais harmonia, não pisando tanto nos pés do outro, conti­nuando separados embora em certo sentido unidos, e devagar — pelo tempo de uma vida — relaxando a ponto de ouvir a música com prazer.

O destino, que no caso do rei Henri se manifestou como uma concretização violenta de uma configuração natal violenta, poderia encontrar, na pessoa mo­derna, uma expressão um pouco alterada, ou pelo menos mais significativa. Os trânsitos que tanto alarmaram Cauricus e Nostradamus — como Saturno sobre o nodo ascendente, ou o Sol sobre a grande cruz — poderiam oferecer uma oportunidade
*Electroshok Therapy. (N.T.).

de enfrentar alguma coisa violenta dentro de si mesmo, assim como — ou talvez, no lugar de — enfrentar alguma coisa violenta no mundo exterior na forma da lança de um oponente. Mesmo que o mundo exterior produza a sua lança, ainda assim é possível achar a experiência internamente gratificante, mes­mo o processo da morte. Dando asas à minha imaginação, conceberia essas (rés formas femininas despojadas, que na realidade são uma só, oferecendo várias al­ternativas, desde que se aceite em essência o que está escrito. Uma vez trabalhei com um escritor muito talentoso, que expressava periodicamente sua ansiedade e ambivalência com relação à análise e a mim, indo ver, um após outro, toda uma coleção de psíquicos, quiromantes e clarividentes para descobrir "o que ia acon­tecer com ele". Isso inevitavelmente acontecia quando a pressão e o calor da confrontação analítica e as profundezas desconhecidas do inconsciente o empur­ravam na direção do intenso medo e da desconfiança que ele tinha pela vida. Ele tem o Sol em Virgem, e essa necessidade urgente de saber com precisão o curso futuro dos acontecimentos físicos é uma maneira característica de esse signo lidar com a ansiedade. Em certa ocasião, como não concordei em levantar na hora seu horóscopo e dar-lhe um resumo instantâneo do seu futuro, ele tentou "punir-me" indo ver um astrólogo indigno que lhe daria o que eu, a mãe má, tinha recusado: uma garantia de segurança. Ele voltou um pouco perplexo, com o horóscopo na mão. Parece que o astrólogo indiano tinha mencionado duas datas no passado que ele interpretou como a geração de dois filhos. Meu analisado disse-me que as datas, sem dúvida, estavam certas; mas como ele não era casado e, pelo que soubesse, não tinha filhos, estava um pouco confuso, pois as datas coinci­diam com a publicação de dois romances policiais de muito sucesso que tinham feito deslanchar sua carreira literária. Não examinei o horóscopo, porque na épo­ca achei que a questão da confiança, que estávamos trabalhando, precisava sur­gir do relacionamento e não do horóscopo. Portanto, não sei quais foram as configurações que provocaram essa interpretação por parte do outro astrólogo. Mas suponho que ele tenha visto alguma progressão ou algum trânsito envolvendo a quinta casa. Essa casa, entretanto, não determina em que nível nós criamos. Como é que esse astrólogo, literal como era, podia saber que um ato criativo, para o meu analisado tímido, introvertido e solteiro podia assumir uma forma diferente? Talvez seu destino fosse gerar filhos nesses dois momentos de sua vida. Mas a ambigüidade gira em torno do tipo de filhos que seriam.

O estranho e paradoxal relacionamento entre o ego, que precisa conservar seu senso de autonomia, e as exigências de Moira, não é fácil de definir. Talvez, em última análise, seja impossível de definir. A herança familiar, tal como vimos no caso de Renée R., a criança autista, e de Ruth, a mulher perseguida, é certamen­te o que eu entenderia por Moira. No primeiro caso, parece que nada pôde ser feito, embora uma abordagem terapêutica mais perceptiva possa ajudar muitas crianças autistas. No segundo caso, algo foi feito, mas é difícil descrever exatamente o quê, de uma forma literal. Nada também pôde ser feito por Ruth, à medida que ela é a pessoa que é, e portanto tem um determinado companheiro psíquico de cama. Mas esse companheiro de cama mostrou certa disposição em ten­tar outras posições, por assim dizer, além do estupro, desde que Ruth demons­trasse Idêntica disposição em fazer experiências com ele. De forma semelhante, os aspectos e a colocação de Plutão por signo e casa no horóscopo são dados que

não podem ser alterados. Mas a compreensão que a pessoa tem das exigências do planeta pode ser aprofundada, e sua expressão pode, conseqüentemente, tornar-se mais significativa e menos assustadora. Parece que a consciência, no sentido que lhe dá Jung, é o fulcro onde se equilibra o relacionamento entre destino e liberdade, pois essa qualidade da consciência permite que o destino se desdobre numa tapeçaria rica e mais complexa, que é, ao mesmo tempo, mais partidária do ego e, paradoxalmente, mais valorizadora do inconsciente. Nossas imagens de sonhos e os filhos de nossa imaginação podem encenar seus combates e pro­mover a morte do velho rei dentro da psique; esses processos podem exigir so­frimento e sacrifício, às vezes tanto no mundo exterior como no interior. Mas talvez possam ocorrer com o senso de significado e com uma disposição paradoxal — a capacidade de fazer de boa vontade o que é preciso fazer. Não seria fla­grantemente estúpida a ponto de sugerir que, no século XX, não somos mais predestinados. Mas vejo com interesse a mudança do espantoso nível de precisão das previsões de Gauricus — mesmo no horóscopo incorreto — para o nível mais confuso e incerto das previsões do astrólogo moderno. Isso me dá a sensação de que estamos no limiar da abertura de possibilidades de entendimento de Moira como uma figura arquetípica interior, assim como a grande lei da natureza que circunscreve nossa vida física.



6
A Criação do Mundo75

... Antigamente, a Terra, o Céu e o Mar estavam todos confundidos na mesma forma, até que uma atraente música soou de lugar nenhum e eles se separaram, permanecendo entretanto um só universo. Essa música misteriosa anunciou o nascimento da alma de Eurínome; pois este era o nome original da Grande Deusa Tripla, cujo símbolo é a Lua. Ela era a Deusa universal e eslava sozinha. Estando sozinha, um dia sentiu-se solitária, entre a Terra nua, a água vazia e as constelações girando com precisão no Céu. Esfregou suas frias mãos e quando as abriu novamente, daí escorregou a serpente Ofião, com quem, por curiosidade, ela fez amor. Das terríveis convulsões desse ato de amor surgiram os rios, as montanhas levantaram-se e os lagos formaram-se; fizeram com que toda espécie de coisas rastejantes, peixes e bestas nascessem e povoassem a Terra. Envergonhada na mesma hora do que tinha feito, Eurínome matou a serpente e enviou sua alma para o inferno; porém, como ato de justiça, fez uma sombra de si mesma com rosto púrpura e a baniu para o inferno para viver com o fantasma. Rebatizou a serpente de "Morte", e deu à sua sombra o nome de "Hécate". Dos dentes espalhados da serpente morta surgiu a raça dos homens Semeados, que eram pastores de Cabras, vacas e cavalos. Ninguém arava o solo nem fazia guerra. Seu alimento era leite, mel, nozes e frutas, e eles não conheciam a metalurgia. Assim terminou a primeira Era, que tinha sido a Idade da Pedra.

Eurínome continuou a viver na Terra, no Céu e no Mar. Sua figura terrena era Réia, de hálito da flor do tojo e olhos cor de âmbar. Um dia Réia foi visitar Creta (...) Em Creta, por causa do Sol e do brilho, sentindo-se novamente solitária, Réia inventou um homem-deus chamado Crono para ser seu amante. Para satisfazer seu desejo maternal, todo ano ela gerava sozinha um Filho do Sol na caverna de Dicte; mas Crono tinha ciúme dos Filhos do Sol e os matava, um a um. Réia disfarçava seu desgosto. Um dia ela disse sorrindo para Crono: "Querido, de-me o polegar e os dedos de sua mão esquerda. Uma só mão é suficiente para um deus preguiçoso como você. Com eles vou fazer cinco pequenos deuses

para obedecer suas ordens enquanto você se recosta comigo aqui no canteiro de flores. Eles vão poupar seus pés e suas pernas de fadiga desnecessária." Ele con­cordou e deu-lhe o polegar e os dedos da mão esquerda, com os quais ela fez cinco pequenos deuses chamados Dátilos, ou Deuses do Dedo, e os coroou com coroas de murta. Divertiam-se muito com as brincadeiras e danças deles. Porém Réia, em segredo, tinha dado instruções aos Dátilos para esconder de Crono o próximo Filho do Sol que ela gerasse. Eles lhe obedeceram e enganaram Crono, colocando uma pedra com formato de machado dentro de uma sacola e fingin­do que era o filho de Réia que, como sempre, iam jogar no mar para ele. Isso deu origem ao provérbio que diz que a mão direita sempre deveria saber o que a esquerda está fazendo. Réia não podia amamentar o filho, a quem deu o nome de Zagreus, sem levantar as suspeitas de Crono; assim, os Dátilos trouxeram uma porca gorda para ser sua ama de leite — circunstância que, mais tarde, Zagreus não gostava que recordassem. Tempos depois, como fosse incômodo abafar a voz do bebê com o barulho de tambores e flautas toda vez que ele cho­rava, os Dátilos desmamaram-no da porca e tiraram-no da caverna de Dicte. Deixaram-no aos cuidados de uns pastores que viviam bem a oeste, no monte Ida, onde ele comia queijo de cabra e mel. Assim, a segunda Era, que tinha sido a Idade de Ouro, chegou ao fim.

Réia ocupou-se, na nova Era, em promover a agricultura e em ensinar a seu servo, Prometeu, o Cretense, a fazer fogo artificialmente com o círculo ígneo da cruz gamada. Deu muita risada consigo mesma quando Zagreus castrou e matou seu pai Crono com uma foice de ouro forjada por Prometeu, e mais ainda quando ele tentou se disfarçar em um cuco enlameado e morto de fome, suplicando o alimento de seu seio. Ela fingiu que acreditava, e quando ele reas­sumiu sua forma verdadeira permitiu que ele a possuísse. "Sim, de fato, meu pequeno deus", disse ela, "você pode ser meu servo amoroso, se desejar."

Mas Zagreus respondeu com insolência: "Não, Réia., vou ser seu mestre e dar-lhe as ordens. Sou mais astuto que você, pois a enganei com meu disfarce de cuco. E também sou mais racional que você. Por um ato da razão acabo de inventar o Tempo. Agora que começou o Tempo, com o meu Advento, vamos ter datas, história e genealogia em vez do mito flutuante e atemporal. O Tempo registrado, com sua cadeia de causas e conseqüências enumeradas, será a base da Lógica."

Réia ficou estupefata, sem saber se devia fazê-lo em pedacinhos com um golpe de sua sandália, ou se devia se jogar para trás e gritar de alegria. No fim não fez nem uma coisa nem outra. Só disse isso: “O Zagreus, Zagreus, meu pe­queno Filho do Sol; que estranhos conhecimentos você absorveu nas tetas de sua ama, a porca de Dicte!”

Ele respondeu: “Meu nome é Zeus, não Zagreus; e eu sou um Filho do Trovão, não um Filho do Sol; e fui amamentado pela cabra Amaltéia de Ida, não pela porca de Dicte.”

"Você mentiu três vezes", disse Réia, sorrindo.



"Sei disso", respondeu ele. “Mas agora sou bastante grande e forte para mentir três vezes, ou até sete vezes, sem medo de contradição. Se meu temperamento é bilioso, é por causa dos pastores ignorantes de Ida que me alimentaram com mel dentais. Estou avisando, Mãe, respeite o meu mando porque de agora

em diante eu, e não você, sou o Único Soberano de Todas as Coisas.”

Réia suspirou e respondeu alegremente: “Querido Zagreus, ou Zeus, ou que nome você queira, será que você adivinhou como estou cansada de cuidar da ordem natural e do asseio desse universo manifesto, e do trabalho ingrato de supervisioná-lo? Governe-o, Filho, governe-o, é claro! Deixe que me deite e medi-te à vontade. Sim, serei sua esposa, filha e escrava; e se você introduzir conflitos e desordens no meu lindo universo por um ato de razão, como você diz, eu o perdoarei, porque você ainda é muito jovem e não se pode esperar que com­preenda as coisas tão bem quanto eu. Mas, por favor, seja cuidadoso com as Três Fúrias que nasceram dos pingos de sangue que caíram do órgão genital amputado do seu pai; faça muito por elas, senão um dia elas irão vingá-lo. Vamos registrar o Tempo, as datas, a genealogia e a história, é claro; embora eu preveja que eles vão lhe dar muito mais ansiedade e prazer do que vale a pena. E, é claro, use a Lógica como muleta para sua inteligência aleijada e como justificativa dos seus erros absurdos. Entretanto, primeiro preciso impor uma condição: haverá duas ilhas, uma no mar Oriental e uma no Ocidental, que serão mantidas para minha antiga adoração. Ali, nem você nem qualquer outra divindade em que você possa se transformar terá qualquer jurisdição, mas apenas eu e minha serpente Morte, quando eu decidir mandar buscá-la. A ilha ocidental será a ilha da inocência, e a oriental a da iluminação; em nenhuma delas haverá registro do tempo, mas cada dia será como mil anos e vice-versa.”

Imediatamente ela fez surgir das águas a ilha ocidental, como um jardim, a um dia de viagem da Espanha; e também moldou uma nuvem em tomo do membro amputado de Crono, que os Dátilos levaram em segurança para a ilha oriental, que já existia, e onde se tomou o companheiro deles, o alegre deus de cabeça de peixe. Priapo.

Então Zeus disse: “Aceito sua condição, Mulher, se você concordar que a sua outra face. Anfitrite. ceda o Mar a meu irmão da sombra, Posídon.”

Réia respondeu: “Concordo. Marido, reservando apenas para meu uso as águas que se estendem por cinco milhas à volta das minhas duas ilhas: você também pode governar o Céu no lugar de Eurínome, com poder sobre todas as estrelas e os planetas, e até do Sol; mas reservo a Lua para mim.”

E assim eles firmaram o acordo, e para demonstrar seu poder, Zeus deu-lhe uma sonora bofetada na orelha e dançou como ameaça uma dança de guerra, batendo o machado de pedra em seu escudo dourado, de modo que o trovão ecoou assustadoramente na abóbada celeste. Réia sorriu. Ela não tinha negociado seu controle sobre as três coisas mais importantes, que Zeus nunca mais conseguiu arrebatar dela: o vento, a morte e o destino. Foi por isso que ela sorriu.

SEGUNDA PARTE

Daimon

7
O Destino e o Mito

myth, mith, n. uma coisa inventada; crença geralmente aceita que não é verdadeira, ou não tem fundamento.
Chambers Twentieth Century Dictionary

Era uma vez um rei de Tebas chamado Laio. Esse Laio, quando jovem, tinha ofendido mortalmente um amigo e hóspede chamado Pélops. Hospedando-se no palácio desse amigo, tomou de assalto Crisipo, filho desse homem, e forçou o garoto ao ato sexual. Crisipo, envergonhado, matou-se; e Pélops, ultrajado, amaldiçoou Laio, rei de Tebas, para que nunca pudesse gerar um filho ou, se o fizesse, para que ele morresse pelas mãos desse filho.

Mais tarde Laio tomou por esposa Jocasta. princesa da casa de Equion. Três vezes o oráculo de Delfos advertiu-o para que não tivesse filhos, se quisesse evitar a catástrofe para si e para Tebas:
Rei das gloriosas carruagens

De Tebas, não desafia os deuses; não gera filhos.

Se a tua semente algum dia vir a luz, teu filho Tomará tua vida, e toda a tua casa se afogará no sangue dos parentes. 76

Mas Laio não estava disposto a dar ouvidos à advertência e uma noite, bêbado, consumou à força o seu casamento. O fruto da união, um menino, foi mandado pelo pai culposo para ficar exposto num morro, combinando assim a maldição de Pélops com a fúria de Hera, protetora das crianças, e de Apoio, protetor dos rapazes, de onde tinha vindo o oráculo ameaçador.

A criança foi exposta ao inverno, presa à terra por uma ponta de ferro enfiada nos pés. Por isso, mais tarde, ela foi chamada Édipo, que significa "pés inchados". Um pastor tebano apiedou-se da criança e poupou sua vida, passando-a para outro pastor da vizinha Corinto, que, por sua vez, deu o bebê Édipo de presente ao rei e à rainha de Corinto, que não tinham filhos, para que o criassem.

O menino tornou-se um adulto robusto, de corpo forte, de cabelo vermelho e de temperamento arrogante. Acreditava ser filho verdadeiro do rei Pólibo e da

rainha Periboia de Corinto. Uma noite, porém, foi insultado durante um banque-te por um convidado bêbado, que observou que não era parecido com os pais e o acusou de ser filho adotivo. Édipo, em segredo, foi consultar o oráculo de Delfos para saber a resposta à questão dos seus pais; mas o deus não respondeu à pergunta, e, em vez disso, ameaçou-o com o horrível destino de tornar-se marido de sua mãe e assassino de seu pai. Édipo não ousou retornar a Corinto; pelo contrário, tomou outra estrada, rumo ao Norte.

Enquanto isso, Laio, rei de Tebas, passava por grande desespero, pois a fúria de Hera com o rei fez com que ela mandasse contra Tebas um monstro da Etiópia, chamado Esfinge. Essa criatura podia ser facilmente reconhecida pela cabeça de mulher, corpo de leão, cauda de serpente e asas de águia. O sábio pro­feta Tirésias aconselhou Laio a fazer um sacrifício no altar de Hera, implorando seu perdão. Mas o rei não deu ouvidos ao vidente e, em vez disso, foi consultar mais uma vez o oráculo de Delfos, tomando o caminho do Sul.

Os caminhos do pai e do filho cruzaram-se numa passagem estreita, onde era impossível passar mais de um, "Viajante, dê passagem ao rei!", gritou o arauto de Laio ao estranho. Édipo ferveu de raiva; recusou-se a sair do caminho do rei. Um dos cavalos de Laio pisou em seu pé, e o velho rei golpeou-o na cabeça com o chicote bifurcado que usava para conduzir os cavalos. Furioso, sem saber quem estava atingindo, Édipo matou o pai e o arauto com seu cajado. Depois, tomado de raiva assassina, mordeu o cadáver de sua vítima e cuspiu o sangue.

Mais tarde, Édipo chegou a Tebas. Depois de descoberta a morte de talo, Creonte, irmão da rainha, era o regente. A Esfinge continuava a aterrorizar a cidade. Tinha se fixado no Monte Ficium, perto dos portões, e propunha a todo viajante tebano um enigma ensinado a ela pelas Três Musas:


Com dois pés, quatro, três, pisa no chão Sim, em três, criatura de um só nome. ,

De tudo que anda no chão, voa no ar ou nada no mar

É a única que muda de forma.

Mas apoiada em quatro pés

É quando anda mais devagar.77
Quando o infeliz viajante não conseguia decifrar o enigma, a Esfinge o estrangulava e jogava seu cadáver do alto do Monte Ficium. Entre os mortos estava o filho de Creonte. Assim, Creonte declarou que Jocasta e o reino seriam de quem derrotasse a Esfinge.

Quando a Esfinge propôs o enigma a Édipo, ele respondeu:


Falas do Homem. Quando ele se forma

bebê recém-nascido, engatinha de quatro;

Velho, um terceiro pé, o cajado, precisa ampará-lo. 78

Ouvindo isso, a Esfinge atirou-se do alto do monte, e Édipo casou-se com Jocasta e tornou-se rei de Tebas.

Dessa forma, Édipo tornou-se um sábio, e também o mais tolo de lodos os reis do mundo. Recebeu como prêmio pela vitória sua própria mãe, e teve com

ela quatro filhos. Porém, depois de algum tempo, uma violenta praga atingiu Tebas, tornando evidente que havia algum deus zangado. Quando o oráculo de Delfos foi consultado, Apoio respondeu: "Expulsem o assassino de Laio." Édipo, em sua cegueira, amaldiçoou o assassino de Lato, sentenciando-o ao exílio. O vidente Tirésias advertiu o rei de que o amaldiçoado que ele procurava em Tebas era ele mesmo. Com o tempo apareceram os pastores, que revelaram sua história. Quando Édipo finalmente percebeu que o oráculo tinha realmente previsto seu destino, e que ele tinha se tornado marido de sua mãe, assassino de seu pai e irmão de seus filhos, ele se cegou com um alfinete dourado. Jocasta, por sua vez, enforcou-se assim que sua vergonha foi descoberta.

Édipo, cego, desapareceu de Tebas. Perambulou durante muitos anos, conduzido por Antígona, a mais velha e mais forte de suas irmãs-filhas, e em seus sonhos era acossado pelas Erínias em sua perseguição. Seus filhos assassinaram um ao outro, e a casa de Laio afogou-se no sangue dos parentes, como o oráculo tinha profetizado. Quando soube da carnificina de sua família, Édipo chorou:
Ó Destino/ Você me criou, entre todos os homens,

Para uma vida toda de desgraça e dor. Antes de eu

Sair do ventre de minha mãe, Apolo profetizou a



Laio que seu filho não nascido deveria assassiná-lo... Não sou tão louco a ponto de cometer

Esse ultraje a meus olhos e à vida de meus filhos

Sem ter sido a isso forçado pela maldade divina.

Assim seja; que pode fazer agora um desgraçado como eu? 79
Antígona, depois de uma longa e desesperada perambulação, conduziu o pai à estrada de Colonos, o monte rochoso de Posídon e uma das entradas do infer­no. Ali, as Erínias, as deusas vingadoras da Mãe, tinham sua mata inviolável. Nesse lugar Édipo foi perdoado pelos deuses, e a terra finalmente se abriu para recebê-lo.
É claro que essa é uma invenção da imaginação grega, uma história falsa, sem fundamento. Nenhum arqueólogo jamais encontrou os ossos de Édipo. Entretanto, já vimos como esses temas míticos podem ser usados para aprofundar nossa compreensão dos símbolos astrológicos tais como Plutão, e para ajudar-nos a seguir por estradas imaginárias por experiências da vida interior, inacessíveis a uma abordagem mais racional ou empírica. O mito de Édipo acabou se tornando mais conhecido do que qualquer outro, pois constituiu a base sobre a qual Sigmund Freud construiu seu grande edifício da teoria psicanalítica. Jung, embrenhando-se após Freud nas camadas ocultas do mundo inconsciente arcaico do homem, descobriu que essas "histórias falsas" são imagens espontâneas e universais dos padrões típicos de desenvolvimento da vida do homem. Os mitos, em outras palavras, são um auto-retrato criativo e imaginativo da psique descrevendo sua própria evolução — seu próprio destino. Como diz Joseph Campbell:
Não seria exagerado dizer que o mito ê a abertura secreta através da qual

Jorram as energias inexauríveis do cosmo na forma de manifestações culturais humanas. As religiões, as filosofias, as artes, as formas sociais do homem primitivo e histórico, as descobertas fundamentais da ciência e da tecnologia, os próprios sonhos que perturbam o sono, emanam do anel básico e mágico do mito. 80

O significado da palavra grega mythos tem duas nuanças. Num sentido, mythos é uma história. Em um sentido mais profundo, implica um esquema ou plano. E esta última conotação que é mais relevante tanto para a psicologia como para a astrologia, pois a universalidade dos motivos míticos básicos revela um plano básico ou um padrão intencional de desenvolvimento inerente à psique humana e também ao corpo humano. Por conseguinte, a vida de seres humanos e de na­ções não é aleatória, nem moldada exclusivamente por fatores ambientais; há uma intenção ou teleologia. A esses fatores modeladores na psique Jung deu o nome de arquétipos, e já vimos como esses "desenhos" arquetípicos tocam muito de perto num dos possíveis significados do destino. O horóscopo natal também é uma história, assim como é um esquema ou plano, e os dois — o horóscopo e o mito — formam uma díade. O mito mapeia os padrões humanos universais, e a carta natal mapeia os individuais. Os dois também se cruzam, pois os signos e planetas do zodíaco estão recheados de imagens e temas míticos, e o desenvolvimento da vida representado pelo ciclo de Áries até Peixes conta uma história mítica. Essa é a história do destino, o padrão de crescimento de semente à planta madura e novamente à semente, escrita antes de a história concreta ter início. Mas é um destino de espécie diferente de Moira, de quem falamos nas páginas anteriores. Ainda não estou em condições de saber se Crisipo, o neoplatônico, tinha razão ao descrever um destino dualista, como energia e substância. Mas estou disposta a dar-lhe o benefício da dúvida e sugerir que Moira repre­senta o aspecto "substância" do destino (afinal, Madame Blavatsky igualava karma e substância), enquanto o destino inerente aos temas míticos é o aspecto "energia". Talvez os dois não sejam realmente distintos, mas "pareçam" diferentes porque são experimentados em níveis diferentes.

Sócrates e Platão também faziam uma distinção entre a deusa Necessidade e suas filhas, as Moiras, e outro tipo de força determinista nas questões humanas. A essa força davam o nome de daimon (ou daemon).


Assim, finalmente, chegamos à noção de ker, daemon e moira individual. O ker é um eidolon (imagem), ou espírito alado, cujo aspecto é sinistro — é um objeto de medo. Se está zangado e procura vingar-se, é uma Erínia. Considerado como o quinhão atribuído à pessoa no nascimento, é sua moira — o escopo ou limite de sua força vital, o aspecto negativo e repressivo de seu destino ... O daemon (genius) de uma pessoa, por outro lado, detém o elemento do poder benéfico, ou mana funcional. Por exemplo, quando Heráclito diz que o caráter de um homem é seu daemon, significa que é a força que modela sua vida a partir de dentro, fazendo ou desfazendo sua sorte, e não um "destino" que lhe é atribuído de fora. 81

Existe uma diferença considerável, embora sutil, entre essas duas maneiras de encarar o destino. A língua inglesa reflete essa distinção com as palavras "fate"

e "destiny". A origem de "destiny", em latim, significa "diferenciar-se", Implicando, por conseguinte, que embora "destiny" seja "fate" em certo sentido, diz mais respeito ao desenvolvimento da pessoa, o que a torna única, o que a faz "diferenciar-se" de seus semelhantes. Jung usa a palavra destino nos dois sentidos, às vezes mais em um, às vezes mais em outro. Entretanto, o daimon, apesar de suas conotações mais criativas ou "benéficas", não é menos determinista que as fronteiras de Moira. Ainda é "aquilo que preciso fazer". Tenho a curiosa sensação de que essa duplicidade do destino abrange algo com uma face feminina e uma masculina, ou, dito de outra forma, com uma face sombria e uma luminosa. Moira é indubitavelmente feminina. Seu reinado é o instinto, a herança e a mortalidade. O daimon, na obra de filósofos como Platão, tem uma qualidade mais ativa, mais ambiciosa. Tenta ir a algum lugar; contém o sentido do objetivo. Kerenyi também avalia o significado de daimon em sua obra Zeus and Hem:
Daimon significa "distribuidor", mas não um distribuidor humano. No plural, na linguagem de Homero, daimones é totalmente idêntico a theoi, "deuses". Daimon, no singular, também tem um sentido pessoal. Aparece nas ocorrências pessoais, no destino pessoal, poderíamos dizer, embora aqui seja preciso entender o "destino" como tendo existência própria. A "distribuição" só ocorre num caso pessoal; cada vez que acontece, é uma distribuição pessoal.82

Isso faz um nítido contraste com a impessoalidade coletiva de Moira e também com a impessoalidade coletiva do Plutão astrológico.

Quando tento apreender a essência desse misterioso daimon, fico com a sensação de algo que leva a pessoa, a partir de dentro, a cumprir um padrão único. É intencional, teleológico, como diria Jung; está tentando ir a algum lugar e, portanto, a pessoa na qual vive — ou, visto de outra forma, que é a sua personificação — também precisa ir a algum lugar. A expressão óbvia dessa força condutora no mundo externo é na área da vocação. Mesmo que nem todos tenham a experiência de um "chamado", trata-se de uma realidade sumamente inequívoca para aqueles que a têm, e a manifestação exterior do "caráter" dessas pessoas, na forma de um empreendimento criativo, harmoniza-se com a imagem interna do daimon que a impulsiona. Sócrates certamente tinha um daimon e tentou viver de acordo com o seu ímpeto. Jung poderia dizer que isso é viver em harmonia com o Self,, e não se submeter a ele. Uma pessoa convencionalmente religiosa poderia dizer que está vivendo de acordo com a vontade de Deus. Mas o deus é interior, e voltamos à equiparação que Novalis faz entre destino e alma.

Outras manifestações, menos óbvias, em termos concretos, do que a voca­ção, também parecem refletir o ímpeto do daimon. O amor, sem dúvida, ê um exemplo. Platão escreveu que Eros era um grande daimon e que os ditames do amor subjugam tantas outras considerações que seria adequado dizer que o amor pode ser uma das mais profundas experiências do destino que a pessoa pode ter. O amor também "vai a algum lugar", já que muda a pessoa e pode conduzi-la a uma fase diferente de seu desenvolvimento. Apesar de Plutão ter muito

peso nas questões de atração compulsiva, o aspecto daimônico do amor tem uma conotação muito diferente. Platão, em Fedro, dá esse enfoque:
E assim é com os seguidores dos outros deuses. Todo homem, nessa vida, honra e imita tão bem quanto pode o deus a cujo coro pertenceu, quando não era corrompido em sua primeira encarnação aqui; e ele se conduz, com seu amado e com os outros, da maneira como então aprendeu. Assim, cada um escolhe, entre os belos, um amor de acordo com sua espécie; e então, como se o escolhido fosse o seu deus, erigindo-o e vestindo-o como objeto de adoração... E esse empenho em descobrir a essência de seu legítimo deus dentro de si mesmo é recompensado, pois é obrigado a contemplar o deus sem hesitação, e quando o conserva na memória é animado por seu sopro e compartilha de seus atributos e de sua vida, tanto quanto um homem é capaz de partilhar a divindade. E, por essas bênçãos, agradece ao ser amado, amando-o ainda mais profundamente. . . Ele se vê no seu amado como num espelho, não sabendo quem está vendo. Quando estão juntos, ele também se libera da dor; quan­do estão separados, um anseia pelo outro; pois a imagem do amor, que é a resposta do amor, está refletida em seu coração. 83
Assim, o amor da pessoa é o seu destino, porque reflete o deus que está dentro dela. Com efeito, todo o padrão da vida da pessoa leva o selo de seu daimon; o padrão toma-se claro quando visto retrospectivamente ou à distância. É só enquanto o vivemos que ele é tão difícil — ou talvez impossível — de ser visto, exceto naqueles raras momentos de lucidez que podem sobrevir no meio de uma grande crise ou sofrimento, quando a intencionalidade da experiência deixa uma assustadora sensação de que há um propulsor que não é o ego e é diferente dos cegos limites instintivos de que tratamos na Primeira Parte deste livro.

Até aqui, mergulhamos o tempo todo no manancial sem fundo do mito para ilustrar algumas das manifestações de Moira na vida individual, porém, agora gostaria de enfocar o mito de uma maneira diferente. Minha intenção é viajar através dos signos do zodíaco, colhendo, com o perdão da metáfora florida, as flores míticas que vão enriquecer as definições comuns geralmente dadas aos signos. Os signos do zodíaco enfatizados no horóscopo individual são mais do que indicadores do seu comportamento. São a alma da pessoa, os deuses "a cujo coro ele pertenceu", e portanto são o seu destino, no sentido que lhe dá Novalis. Um signo zodiacal é muito mais profundo do que uma simples lista de qualidades de comportamento. É um mythos, um esquema ou plano retratado numa história — um padrão de desenvolvimento, um tema arquetípico. Vários personagens míticos diferentes habitam os domínios de cada signo astrológico, e encena-se um drama, às vezes trágico, às vezes cômico, mas sempre teleológico. Estou convencida de que essas histórias que constituem o arcabouço do padrão individual de desenvolvimento são uma parte do que vivenciarão como destino — destino na forma de dizimou — porque a história está contida em nós desde o nascimento, esperando apenas para ser contada através da incorporação das experiências, opções e percepções conscientes da vida individual. Porque, como Novalis, acredito que daimon e alma são dois nomes do mesmo princípio;

as histórias míticas sugeridas pelos padrões do horóscopo são igualmente externas e internas e impregnam não só a vida externa da pessoa, mas também os recessos secretos de seus sonhos. Assim, durante o sono aparecem imagens características do horóscopo e dos signos fortemente acentuados; por sua vez, essas imagens são imagens do mito. São diferentes e mais complexas do que os animais tradicionais do zodíaco. Mas são parte integrante do mesmo daimon. Já vimos algumas nos exemplos de sonhos que dei em capítulos anteriores. Por sua vez, esses personagens míticos que incorporam as diretrizes da alma e que desenredam o destino individual também são as pessoas comuns que povoam a vida exterior do indivíduo, as que encontramos como pais, filhos, parceiros, colegas, amigos, inimigos e na comunidade em geral.

Entre a multiplicidade de histórias míticas, desde as sublimes histórias da criação do universo até as escapadas ridículas e cômicas do embusteiro e do tolo, existe um tema mítico de especial relevância para a história do desenvolvimento humano — o conto do herói. A saga heróica é o que Joseph Campbell denomina o "monomito", pois é universal e ubíqua, antiga e moderna, e é a descrição mais básica do processo de crescimento humano, da escuridão das águas uterinas à escuridão do túmulo. A jornada do herói é um mapa do desenvolvimento da cultura e da viagem psíquica da pessoa pela vida. Aplica-se tanto a homens como a mulheres, ao homem primitivo das tribos e ao habitante sofisticado da cidade ocidental, ao adulto e à criança. Vai abrindo seu caminho através de nossos sonhos, nossas fantasias, esperanças, medos, desejos, amores e objetivos. Os palcos da jornada do herói podem ser encontrados em todas as culturas e em todas as épocas. Os detalhes superficiais podem variar, porém o esqueleto estrutural permanece o mesmo.


Os dois — o herói e seu deus supremo, o procurador e o procurado — são portanto, entendidos como o exterior e o interior de um só mistério auto-refleti­do, que é idêntico ao mistério do mundo manifesto. O grande feito do herói supremo é chegar ao conhecimento dessa unidade na multiplicidade e, depois, torná-la conhecida 84

Cada signo do zodíaco retrata uma jornada mítica. Contém um herói, e também envolve a natureza do seu chamado à aventura. Contém igualmente o ajudante que fornece a pista mágica, e o limiar da aventura; a batalha com o irmão, o dragão, a feiticeira; o esquartejamento, a crucificação, o rapto, a jor­nada pelo mar da noite e a barriga da baleia. O objeto da saga também está contido: o ser amado, o casamento sagrado, a jóia, a reunião com o pai, o elixir da vida. E também está contido a hubris ou o defeito do herói, a natureza do seu fim inevitável, tudo dentro da descrição aparentemente simples de um único signo zodiacal.

Os heróis (e quero dizer herói e heroína, pois não estamos tratando de uma questão sexológica, e sim do desenvolvimento da consciência individual) diferem muito entre ai. Héracles (ou Hércules), por exemplo, cujo maravilhoso feito dos Doze Trabalhos é uma das sagas heróicas mais conhecidas, não é particularmente inteligente. Tem mais músculos que miolos, é dotado de um imenso reservatório de força e coragem físicas, e tem a tendência a marretar até a morte qualquer

coisa que lhe faça oposição. Seu caráter tonto, robusto, vital, dinâmico e insaciável é lindamente retratado da novela Hércules, My Shipmate, de Robert Graves, sobre a saga do Tosão de Ouro. É uma figura universalmente humana, mas alguns de nós são mais parecidos com ele do que outros; ou, talvez, seria mais correto dizer que algumas partes de nós se comportam mais como ele, em certas ocasiões e em certas situações. Odisseu, por outro lado, é chamado "o astuto". O que o faz vencer é a sutileza e não a força bruta; e sua jornada também é diferente, pois ele é o viajante à procura do lar, e não o guerreiro à procura de novos desafios. Seu caminho move-se em círculo, e não para cima ou de maneira linear através de uma série de tarefas. Jasão é corajoso, porém desleal; no fim, fracassa porque trai a mulher que o amou e o ajudou. Orfeu, com sua compaixão e sua doçura, é capaz de arrancar lágrimas das pedras devido à beleza de sua música, e consegue até amolecer o coração do severo senhor do inferno; mas, no final, não consegue recuperar a esposa perdida no palácio de Hades porque duvida da palavra do Senhor da Grande Região Inferior, e olha para trás. Siegfried é um complexo herói teutônico, destemido porém corruptível, ingênuo e semelhante aos deuses, porém condenado. Parsifal é o Louco Sagrado, que se redime pela compaixão nascida de sua própria crueldade desajeitada. Prometeu é um ladrão humanitário, e Édipo — como já vimos — é um nobre e trágico jogue-te do destino, cuja raiva e provocação incontroláveis transformam a profecia em realidade.

As heroínas do mito também variam muito. Medéia é orgulhosa, ciumenta e apaixonada, e tem poderes ocultos; Fedra também ê ciumenta e apaixonada, mas menos honesta, enquanto Alkestis é mansa e auto-imoladora, e Andrômeda é simplesmente um lindo joguete desamparado aguardando o resgate. Existem tantos heróis e heroínas, dragões e feiticeiras, reis e deuses quanto facetas da natureza humana e variações sobre um único tema — a vida humana. Os diversos temas míticos têm destaque em diferentes épocas da vida, pois os mais importantes pontos de virada biológicos, como o nascimento, a puberdade, o nascimento de filhos, a menopausa, a velhice e a morte são acompanhados de mudanças psíquicas igualmente profundas que se refletem no panorama em constante mudança do mito. Em determinada altura de sua vida, um homem pode ser apanhado pelo drama de Perseu enfrentando a terrível Górgona, quando tenta se separar da mãe, na adolescência, e ingressar na vida; em outra altura pode ver-se na desrespeitosa comédia de Zeus lutando com a esposa queixosa e ciumenta; pode ser que encontre novamente a Górgona, quando tenta abandonar a rançosa estagnação de uma mãe-esposa para ir ao encalço de seu espírito interior; ou pode refletir Penteu, enlouquecido pelo deus Dioniso, ou o vitorioso Teseu voltando de Creta e da bem-sucedida batalha contra o Minotauro, unicamente para desco­brir que seu pai se matou no momento do feito do filho. A astrologia, com seus doze signos zodiacais e dez corpos celestes incrustados com os dramas de muitos mitos diferentes, sugere, como Jung, que todos os mitos se movimentam dentro de nós, alguns mais dominantes que outros, alguns aparecendo sob o disfarce de nosso "mundo exterior", todos eles tecendo a tapeçaria do esquema individual do próprio destino.

Há alguns comentários oportunos acerca do relacionamento entre o mito e o simbolismo astrológico. O mito não é um sistema estruturado e ordenado de símbolos,

como a astrologia, a cabala ou o tara. É um encadeamento fluido e dinâmico de imagens, cada uma delas com muitas variações diferentes, à medida que o mito surge espontaneamente em diferentes culturas e em diferentes estágios de uma determinada cultura. Assim, a estranha figura de Dioniso tem vários pais diferentes, vários tipos diferentes de morte e ressurreição, vários epítetos diferentes acrescidos a seu nome, e várias esferas diferentes de vida humana a que preside como daimon, correndo o espectro todo de deus da morte a deus do vinho e da embriaguez. Mas seu cerne continua sempre o mesmo, qualquer que seja o disfarce encontrado. Em sua obra The Greek Myths, Robert Graves apre­sentou, com impressionantes detalhes, a enorme variação de cada figura mítica. O mesmo fez C. Kerenyi, cujos escritos sobre vários membros do panteão grego ê sempre digno de exame. O que estou tentando não fazer é empacotar um sistema rigidamente dentro do outro, afirmando que só um determinado mito se aplica a um determinado signo. As figuras e as histórias míticas estão, indubitavelmente, impregnadas de diferentes sabores e cores, e tendem a uma afinidade com alguns signos e não com outros. Alguns mitos são tão universais que se aplicam a todos: um deles é a saga do herói. As grandes sagas míticas descrevem o desenvolvimento humano em geral, e podem ser relacionadas com todos os signos e todas as vidas, e a todo símbolo do círculo zodiacal. Quem quer que já tenha tentado estabelecer conexões rígidas entre as histórias e as figuras míticas acaba num be­co sem saída, onde todos os mitos se fundem, e o que resta no final é o que todas as grandes religiões acabam declarando como sua verdade única e inviolável: existe apenas Um. Portanto, sugiro que o mito seja lido como se lê um poema, com os sentimentos e a imaginação, e não com o intelecto, e com sensibilidade para o sabor e a cor do conto, e não com uma concreta determinação de descobrir se todos os sagitarianos que a pessoa conhece têm, como Quíron, uma ferida na coxa.

Acho que existe outra diferença importante entre o mito e o simbolismo astrológico. O horóscopo fixa a vida no tempo e no espaço, e descreve a pessoa encarnada no mundo "real", temporal e tridimensional. Congela o movimento circular eterno dos céus, e cristaliza-o num padrão que descreve o desenrolar de determinada vida. É o que foi escrito para uma pessoa, vivendo numa deter-minada época, no seu nascimento. É o destino alicerçado no tempo e no espaço, o daimon e o ker atribuídos à pessoa por um pequeno período. Por esse motivo, qualquer coisa pode ter um mapa natal: um ser humano, um cachorro, um livro, uma galinha, uma colméia de abelhas, uma companhia de ópera, um banco. No momento em que algo surge na vida, seu início e seu padrão de crescimento são mapeados, predestinados, refletidos, contidos e circunscritos por seu horóscopo natal. Moira, como já vimos, significa parte ou quinhão; daimon significa distribuição; o mapa natal é o quinhão e a distribuição do circulo celeste num momento no tempo.

O mito, por outro lado, é atemporal e não-localizado, assim como são os sig­nos e planetas em astrologia, antes de se congelarem na posição do horóscopo natal. O mito não existe como algo dentro do tempo e do espaço. A batalha entre Aquiles e Heitor diante das muralhas de Tróia pode ser remontada a um evento histórico acontecido na Grécia pré-clássica num determinado século pois, como Schliemann descobriu, realmente existiu uma Tróia e uma Guerra

de Tróia. Mas o herói-guerreiro, de quem Aquiles é uma das faces, não pode ser localizado, nem tampouco a batalha do herói com seu irmão-inimigo. Esse tema surge espontaneamente em todas as culturas e em todas as épocas; é uma imagem de uma situação humana arquetípica. Portanto, a sua encenação exterior também não é surpreendente, pois a história reflete, tanto quanto as pessoas, esses padrões arquetípicos. Também não é surpreendente que histórias como a de Aquiles sejam lembradas e recontadas século após século. Elas continuam a encontrar ressonância mesmo na vida aparentemente domesticada e tecnológica do homem e da mulher do Ocidente moderno. Os mitos são modeladores e denominadores da cultura, assim como são das pessoas. Não têm forma con­creta, nem realidade temporal ou espacial, mesmo que os nomes e lugares de versões específicas de determinado mito ostentem selos temporais e geográficos. São tendências, intenções, fatores de ordenação: imagens de padrões instintivos.

Gosto de imaginar deuses, heróis, protagonistas míticos, reunidos nas sombras na roda zodiacal, atrás dos planetas. Quando determinado mito encontra um lar agradável, com padrões de ressonância num horóscopo individual, esse mito entra na vida da pessoa, aderindo a ela como um daimon pela vida toda. incorpo­ra aquela configuração astrológica à sua própria história. Talvez diferentes deuses se sintam mais ou menos à vontade em diferentes horóscopos, e às vezes persona­gens radicalmente opostos tentam viver dentro de um mesmo mapa. Entram e saem em diferentes estágios da vida, como os atores com suas deixas, de acordo com as progressões e os trânsitos. Podemos encontrá-los na forma de "outras pessoas" ou de nossas próprias motivações e nosso caráter. Não consigo pensar em paralelo melhor do que o teatro grego, onde cada ator usava uma máscara — chamada de persona (foi daí que Jung tirou esse termo) — para comunicar o papel arquetípico que estava desempenhando. Mas o ator por trás da máscara ficava invisível e desconhecido, exceto para os colegas. Talvez seja assim que os deuses nos vejam, representando nossos papéis, acreditando ser "diferentes" ou "livres", quando estamos o tempo todo dançando a antiga dança coreografada desde o início dos tempos. Portanto, talvez seja bom perguntar, dentro do espírito da peça, que deus, ou que par ou grupo de protagonistas combina com o nos­so Vênus em Aquário oposto a Plutão em Leão, ou com o nosso ascendente em Sagitário, ou com nosso Marte conjunto a Júpiter em Gêmeos em quadratura com Saturno em Virgem na décima casa. Porque, até termos uma noção do drama mítico em curso, as afirmações da astrologia ficam fragmentadas e incompletas e parecem descrever meramente o comportamento estático. E não revelam sua história.

Nunca constatei ser produtivo brincar de “diga-me qual é o meu mito” com o horóscopo. Existem tantos mitos, e a pessoa transforma, ou combina, ou cozi­nha milhares de temas diferentes numa sopa individual impossível de ser esbo­çada em poucas frases pelo mais sábio dos astrólogos. Também imagino se é realmente possível perceber o desenrolar da peça enquanto ainda estamos no palco. Talvez do outro lado da vida se possa ler o roteiro completo, mas o máximo que vislumbramos num dado momento é a cena que estamos representando, sua conexão com cenas passadas e uma leve centelha intuitiva do que possa ser o próximo ato do drama.

A maioria dos mitos a que vou me referir nas páginas seguintes são gregos,

com eventuais pinceladas do folclore egípcio e teutônico. E isso não porque as outras mitologias sejam irrelevantes, mas porque não sou muito versada nelas. Cabe ao leitor descobrir as imagens míticas que têm mais ressonância dentro dele, ou funcionam melhor para ele, e ampliar mais a nossa linguagem astrológica de acordo com sua própria experiência. Pessoalmente, sinto-me atraída pela multiplicidade e sutileza do panteão grego que, à exceção do hindu, é também o mais irônico e mais cheio de humor. Entretanto, conheço pessoas que têm um profundo amor pela rígida dignidade e simplicidade do mito egípcio, ou pelo romance e pelo "sobrenatural" dos contos celtas, ou pela honestidade moral das histórias dos índios norte-americanos, ou pelo apaixonado misticismo dos contos populares russos, ou pela grandiosa vastidão cósmica dos deuses hindus. Creio que a pessoa muitas vezes também sente uma forte ligação com os deuses de sua herança — familiar, nacional ou racial. Encontramos esses deuses "hereditários" nos sonhos, mesmo que acreditemos que eles foram há muito deixados para trás por pais ou avós mais cínicos. A Bíblia, naturalmente, está cheia de alguns dos temas míticos mais ricos e mais profundos, e não há muitos aspectos da saga humana que deixe de fora; mas há os que podem se ofender com esse enfoque, preferindo vê-la, por um lado, como um conjunto de verdades concretas e literais, enquanto as histórias de outras religiões e culturas são "meramente" mitos. Por outro lado, é saudável lembrar que para os gregos Édipo e Orfeu, Aquiles e Zeus, as Eríneas, as Górgonas, Mãe Dia e Moira também eram "verdadeiros", tão factuais e "reais" para a cultura deles quanto a vida de Jesus é para a nossa.

Mesmo uma figura isolada, como Ártemis, a deusa lunar, ou Hermes, o deus embusteiro, não pode ser desvinculada da história à qual pertence. O mito contém movimento, não é estático. Descreve processos e movimentos, assim como qualidades. Um signo zodiacal, visto com olhos míticos, também é uma história dinâmica, e não um conjunto de traços de caráter ou um modo de comporta-mento. Cada signo contém seus próprios conflitos, ambivalências, dualidades, motivações, carências, anseios, choques e soluções entre personagens. Sei por experiência que quando essas figuras dinâmicas se movimentam numa personalidade — e seus movimentos podem ser vistos com mais clareza nos sonhos e nas progressões e trânsitos astrológicos — refletem o movimento de diferentes partes da psique. Se exteriorizamos nossos mitos, o que todos fazemos em diferentes épocas da vida, atraímos outras pessoas para nossa vida, para desempenharem um ou outro papel, e nos identificamos inconscientemente com uma ou outra figura da história. Dessa forma, as figuras do mito são um aspecto ativo e dinâmico de nosso destino, os daimones, e atraímos o mundo exterior para dentro de nossos mitos nos momentos em que os mitos do mundo exterior tocam os nossos. Assim, como veículos do mito, nós criamos nosso destino.

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O Mito e o Zodíaco

ÁRIES
Não temos todos um só pai? Não foi um só Deus que nos criou?

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