Os Recursos Multimídia e a Preservação do Patrimônio Cultural Brasileiro



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Os Recursos Multimídia e a Preservação do Patrimônio Cultural Brasileiro -

O Caso do CD-ROM Fortalezas Multimídia



Arquiteto Roberto Tonera1 - Universidade Federal de Santa Catarina.

1. Resumo


O presente trabalho aborda as potencialidades da utilização da informação em formato digital como instrumento de suporte às ações de preservação do patrimônio cultural, enfocando o caso do CD-ROM Fortalezas Multimídia, desenvolvido pela Universidade Federal de Santa Catarina. Este CD-ROM contém um sistema de documentação multimídia (são mais de 3 mil páginas de textos, 2 mil imagens e 23 vídeos, em 146 seções temáticas) que realiza o registro, a sistematização e a difusão de informações compiladas sobre centenas de fortificações históricas no Brasil e no Mundo, bem como sobre o patrimônio cultural material e imaterial a elas associado. Estas informações podem ser acessadas de forma seletiva, integrada, interativa e abrangente, com enormes vantagens sobre outros suportes de informação mais convencionais, permitindo o aprofundamento dos temas abordados em diferentes níveis de complexidade, de forma gradual e não linear. Entre os muitos resultados já perceptíveis deste projeto, podem ser citados: a criação do maior banco de dados jamais construído sobre fortificações históricas no Brasil e no mundo; o resgate e registro das técnicas construtivas tradicionais, bem como da memória de anos de intervenções de restauro nas fortificações catarinenses; a possibilidade de visitação virtual de ambientes existentes ou já desaparecidos por intermédio de passeios interativos em realidade virtual; o desenvolvimento de uma interface de navegação que possibilita também a integração entre os conteúdos do Multimídia com a Internet, expandindo as informações contidas no CD-ROM, tornando-o uma obra viva e permanentemente atualizada.

A sistematização e difusão da informação em meio digital vêm permitindo democratizar o acesso ao conhecimento, favorecendo a difusão social da relevância dos bens culturais, permitindo ainda a otimização do potencial educacional, cultural e turístico deste patrimônio. Necessita agora se consolidar como instrumento de documentação fundamental no desenvolvimento de ações de preservação e de gestão do patrimônio cultural brasileiro.


2. Antecedentes

O Sistema Defensivo da Ilha de Santa Catarina durante o período do Brasil Colônia foi formado por inúmeras fortificações militares, sendo que as quatro primeiras e principais foram as fortalezas de Anhatomirim (1739), Ponta Grossa (1740), Ratones (1740) e Araçatuba (1742), idealizadas pelo brigadeiro português José da Silva Paes. Este Sistema Defensivo entrou progressivamente em declínio já a partir do final do século 18, chegando à década de 1970 com suas fortificações arruinadas, demolidas ou transformadas em favelas. A sua recuperação, iniciada pelo Instituto do patrimônio Histórico e Artístico Nacional - IPHAN, tomou impulso em 1979, quando a Universidade Federal de Santa Catarina – UFSC, assumiu a guarda e manutenção da Fortaleza de Santa Cruz de Anhatomirim. A restauração da maior parte de suas edificações permitiu a reabertura da fortaleza à visitação pública em 1984. O resgate deste valioso patrimônio recebeu um novo e decisivo impulso com o “Projeto Fortalezas”, coordenado pela UFSC, contando com a participação da Marinha e Exército Brasileiro, do IPHAN e financiamento da Fundação Banco do Brasil. As obras de restauração ocorreram entre 1989 e 1992, recuperando agora as fortalezas de Ratones e Ponta Grossa, que passaram também à guarda e manutenção da UFSC. Além das obras de restauração, o “Projeto Fortalezas" possibilitou a elaboração de vídeos, panfletos, álbuns fotográficos, maquetes, exposições diversas, apresentações musicais e folclóricas, produção de suvenires e a publicação de vários livros sobre o tema. Sob a gerência da UFSC, as fortalezas restauradas tornaram-se sinônimo de preservação cultural e ambiental, um dos maiores e mais bem conservados conjuntos de arquitetura militar do Brasil, campo de estudo para projetos de pesquisa e extensão, e uma das mais notáveis atrações turísticas de Santa Catarina, visitadas anualmente por mais de 270 mil pessoas de todo o mundo.

Atualmente, a Universidade vem coroando este pioneiro trabalho com a restauração da Fortaleza de Araçatuba, e com a valorização e resgate da história das fortificações catarinenses - e de centenas de outras fortificações no Brasil e no Mundo - por intermédio do “CD-ROM Fortalezas Multimídia”, obra de referência na área de patrimônio, história e preservação cultural, lançado em agosto de 2001, e que aborda todo o processo de criação, arruinamento, restauração e revitalização das fortificações catarinenses. Através da documentação, valorização e divulgação destas fortificações, a obra busca intensificar a revitalização e ampliar o conhecimento sobre estes monumentos, contribuindo para seu estudo e preservação, incrementando a visitação turística e promovendo a sua divulgação no Brasil e internacionalmente. As fortificações catarinenses vêm passando por um processo de recuperação e valorização gradual e crescente, fruto tanto de intervenções físicas de restauração, quanto de ações continuadas de revitalização - notadamente na área da difusão cultural - que são os instrumentos de preservação que podem garantir a perpetuação dos bons resultados obtidos até o presente momento. Podemos afirmar, com toda a segurança, que tão importante quanto a restauração e a re-funcionalização dos monumentos, está a ampla difusão das informações sobre estas construções e sobre os demais bens culturais a elas associados, bem como o aproveitamento dos conhecimentos gerados no processo de sua recuperação em ações de cunho educacional, cultural e turístico. Afinal, como diz o velho, mas sempre atual, bordão preservacionista: “só se preserva o que se ama, mas só se ama o que se conhece”.

3. O CD-ROM Fortalezas Multimídia

Após a conclusão das obras de restauração das fortalezas catarinenses empreendidas pela UFSC, tornou-se necessário sistematizar as informações sobre aqueles monumentos, disponibilizando estes conteúdos ao maior número possível de pessoas, e contribuindo, simultaneamente, para o estudo, a documentação, a valorização e a divulgação das fortificações. Objetivava-se com isso a otimização do potencial cultural, educacional e turístico destes monumentos históricos, buscando-se garantir, portanto, a sua preservação. Sabia-se da existência em torno das fortificações de um conjunto potencial de informações tão abrangente, e de áreas tão diversificadas, que somente por intermédio dos recursos computacionais multimídia estas informações poderiam ser reunidas e acessadas de forma seletiva, com enormes vantagens sobre outros suportes de informação mais convencionais. Um outro desafio que nos era imposto consistia em disponibilizar simultaneamente este conteúdo enciclopédico a públicos também tão diversos: leigos, turistas, estudantes de primeiro e segundo graus, estudantes universitários, professores de escolas e universidades, jornalistas, guias de turismo, arquitetos e engenheiros, pesquisadores, restauradores, historiadores, e profissionais em geral da área de patrimônio cultural e ambiental, entre outras especialidades, sem subestimar nenhuma destas categorias.

Neste contexto foi criado, em 1995, o Projeto Fortalezas Multimídia – um projeto de pesquisa e extensão – que após seis anos de trabalho lançou o CD-ROM Fortalezas Multimídia e o site de Internet: www.fortalezasmultimidia.com.br . Por intermédio do CD-ROM Fortalezas Multimídia, as fortificações da Ilha de Santa Catarina, e ainda outras centenas de fortificações no Brasil e no Mundo, são apresentadas através de mais de três mil páginas de textos, duas mil fotografias e ilustrações antigas, dezenas de mapas, plantas e animações, vinte e três vídeos, trilha sonora original, glossário técnico, bibliografia comentada, linha do tempo contextualizada, biografias, vistas panorâmicas em 360 graus, passeios interativos em 3D com o uso de realidade virtual, podendo-se acessar ainda reproduções digitais de documentos originais, textuais e iconográficos, entre outros conteúdos. São 630 Mb de informação, distribuídos por 146 seções temáticas. Conteúdo que pode ser impresso e editado, além de permanentemente atualizado via Internet. A pesquisa para compor os conteúdos do CD-ROM se deu em fontes primárias - relatórios de pesquisa arqueológica, documentos textuais e iconográficos de arquivos militares, institutos e bibliotecas – bem como em fontes secundárias, através de livros e publicações diversas, sites de Internet e pela própria experiência do autor, adquirida em função da atuação na área de preservação e no acompanhamento das obras de restauração das fortificações catarinenses.


4. Os resultados alcançados

O CD-ROM Fortalezas Multimídia potencializou a utilização da informação em formato digital como instrumento de suporte às ações de preservação do patrimônio cultural, em especial no que diz respeito à documentação do patrimônio material e imaterial. Por intermédio dos recursos multimídia, as informações sobre este patrimônio podem ser acessadas no CD-ROM de forma seletiva, gradual, integrada, não-linear, interativa e abrangente, com enormes vantagens sobre outras mídias convencionais. Entre os muitos resultados já perceptíveis deste trabalho, podem ser destacados:

1. Os avanços realizados nas pesquisas sobre os aspectos históricos, arqueológicos e arquitetônicos das fortificações militares no Brasil e no mundo, com a criação de um dos maiores bancos de dados jamais construído sobre estes monumentos;

2. O resgate da memória de anos de intervenções de restauro, buscando recuperar não só o registro das técnicas, metodologias e “filosofias” de restauração empregadas nas obras ao longo dos anos, mas documentando também as técnicas construtivas originais utilizadas nos monumentos;

3. A criação de um suporte único e seletivo de dados, permitindo que públicos bastante diferenciados, independente de idade, escolaridade, interesse ou profissão, tenham acesso a vários níveis de informação, com diferentes graus de complexidade. O uso da hipermídia permite que se avance nos conteúdos do CD-ROM de acordo com o interesse do usuário, possibilitando o aprofundamento dos temas abordados de forma seletiva, gradual e não linear;

4. A possibilidade de integração entre os conteúdos do Multimídia com a Internet, complementando e expandindo as informações contidas na obra, permitindo ainda agrupar conteúdos sobre patrimônio cultural que se encontram dispersos em vários sites na Internet. Além disto, é possível atualizar permanentemente os conteúdos do CD-ROM pela Internet, o que já vem ocorrendo efetivamente desde março de 2003, quando os usuários do multimídia puderam ampliar o conteúdo de seu CD-ROM original em mais de trezentas novas fortificações, de forma inteiramente gratuita;

5. A interatividade conseguida com a criação de uma janela de Internet inserida no interior da Interface do CD-ROM, solução que acreditamos inédita mesmo em multimídias produzidos fora do Brasil. Através deste recurso, uma página personalizada da Internet, acessada exclusivamente pelo CD-ROM, é trazida para dentro do Multimídia, permitindo um contato mais direto entre a UFSC e o usuário do CD-ROM, que pode assim receber, de forma on-line, informações sobre atualidades, agenda de eventos, assistir videoconferências, visualizar imagens ao vivo das fortificações, entre outros recursos, sem abandonar o contexto de navegação do Multimídia. Esta solução peculiar, aliada a já citada atualização por download via Internet, fazem do CD-ROM uma obra viva, dinâmica e permanentemente atualizada;

6. A utilização da realidade virtual e das vistas panorâmicas em 360 graus para a recriação de cenários não mais existentes nas fortificações, bem como para o estudo de ambientes ainda não construídos, com um grau de interatividade surpreendente. Além de se constituírem em recursos de grande apelo lúdico, como alternativa complementar de visitação virtual de monumentos e acervos museológicos, constituem-se em uma ferramenta de projeto para o arquiteto de grande importância na avaliação do impacto de futuras intervenções sobre o patrimônio edificado;

7. A democratização do acesso público aos acervos iconográficos e de documentos textuais, antes restritos a especialistas e pesquisadores. Mesmo estes profissionais foram favorecidos pela sistematização digital dos documentos contidos no CD-ROM, contribuindo também para a preservação daqueles acervos em função da redução do contato físico com os documentos originais;

8. A sistematização das informações sobre os bens culturais, antes dispersas ou mesmo indisponíveis, favorecendo ainda as ações de gestão e de preservação do patrimônio, instrumentalizando as instituições preservacionistas, bem como aquelas diretamente mantenedoras do bem cultural;

9. A ampliação da conscientização social da relevância cultural dos bens culturais, difundindo o turismo educativo, destacando a importância da preservação do patrimônio cultural e ambiental, ampliando o número de visitantes e contribuindo para a preservação das fortificações históricas. Fundamental também tem sido a utilização do CD-ROM como instrumento de educação patrimonial e de ensino da história catarinense e do Brasil, visto que a obra já foi adotada pelo órgão estadual de educação do Estado, estando disponível em todas as escolas da rede pública de ensino, integrando também a bibliografia oficial do vestibular da UFSC;

10. A edição de um CD-ROM que pode ser consultado de acordo com o interesse do usuário, possibilitando o aprofundamento dos temas abordados em diferentes níveis de complexidade, podendo a mesma obra ser amplamente utilizada tanto por leigos, quanto por estudantes e especialistas das áreas de educação, cultura e turismo, contribuindo para a democratização do acesso ao conhecimento. Esta democratização não se limita apenas à concepção técnica do Multimídia, mas se aplica também a sua política de distribuição e na utilização, em outros campos do patrimônio cultural, da experiência acumulada na sua elaboração. Além dos 5 mil exemplares distribuídos gratuitamente pela UFSC a várias instituições culturais e educacionais em todo o Brasil, o CD-ROM pode ser adquirido em todo o Brasil, a preços bastante inferiores àqueles de produtos similares no mercado. Os bons resultados deste trabalho estão sendo também agora ampliados através de trabalhos de cooperação que começam a ser desenvolvidos entre a UFSC e outras instituições, em vários estados brasileiros, e também fora do Brasil. O registro multimídia do Inventário do Patrimônio Arquitetônico dos Açores, parceria recentemente iniciada com Portugal, e o lançamento em fevereiro de 2003 do CD-ROM Museu Victor Meirelles - uma realização do IPHAN e que também foi desenvolvido pelo Projeto Fortalezas Multimídia da UFSC – são, por exemplo, testemunhos das potencialidades da utilização dos recursos multimídia na visitação virtual de museus, monumentos e centros históricos, e na divulgação e valorização de seus acervos museológicos e arquitetônicos.


5. Conclusão

Neste contexto, podemos concluir que a sistematização e difusão das informações em meio digital - CD-ROM, Internet e banco de dados, principalmente de forma integrada - vêm já possibilitando a democratização do acesso ao conhecimento, permitindo a otimização do potencial educacional, cultural e turístico das fortificações históricas, e dos demais bens culturais materiais e imateriais a elas associados, e necessitam agora, em última instância, se consolidar como instrumentos indispensáveis de documentação, divulgação, valorização e gestão das demais áreas deste imenso e diversificado patrimônio cultural brasileiro.


6. Bibliografia

IPHAN. Museu Victor Meirelles. Florianópolis: Projeto Fortalezas Multimídia/UFSC, 2003 (CD-ROM)

TONERA, Roberto. Fortalezas Multimídia. Florianópolis: Editora da UFSC, Projeto Fortalezas Multimídia, 2001 (CD-ROM).

UNIVERSIDADE FEDERAL DE SANTA CATARINA. http://www.fortalezasmultimidia.com.br, 2003.



UNIVERSIDADE FEDERAL DE SANTA CATARINA. http://www.fortalezas.com.br, 2003.
7. Imagens


  • Imagem01.jpg: Capa do CD-ROM Fortalezas Multimídia – Fortaleza de Anhatomirim. Autor: Alberto L. Barckert/Projeto Fortalezas Multimídia, 1999

  • Imagem02.jpg: Fortaleza de Araçatuba. Autor: Ademilde S. Sartori/Projeto Fortalezas Multimídia, 1999

  • Imagem03.jpg: Reprodução de uma das telas do Multimídia. Projeto Fortalezas Multimídia, 2001

  • Imagem04.jpg: Reprodução de uma das telas do Multimídia. Projeto Fortalezas Multimídia, 2001

  • Imagem05.jpg: CD-ROM em exposição. Autor: Andréa Fischer, 2001

  • Imagem06.jpg: Fortaleza de Anhatomirim. Autor: Ademilde S. Sartori/Projeto Fortalezas Multimídia, 1999

1 O autor é arquiteto da Universidade Federal de Santa Catarina, coordenador do Projeto Fortalezas Multimídia, responsável técnico pelas obras de restauração das fortalezas de Santa Catarina e autor do CD-ROM Fortalezas Multimídia.






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