Os sertões: descrições sobre a população Valdir Gregory1



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Os sertões: descrições sobre a população
Valdir Gregory1
O presente trabalho faz um recorte a respeito de descrições sobre a população presente nos sertões do Paraná, no início do século XX. O texto contém dados, que apontam para preocupações a respeito do tipo de gente que teria vivido em obrages do território considerado brasileiro pelos marcos de limites estabelecidos e retoma algumas considerações e aspectos específicos relacionados a observações sobre homens e mulheres destes sertões.

É possível, a partir desses e outros indícios, apontar para uma complexa formação populacional nos sertões do Paraná. Pode-se considerar que esta documentação traz elementos importantes para analisar a presença de população diversificada, que foi formada durante o período colonial e após as independências dos países platinos. Os indígenas mantiveram-se presentes na região, ao mesmo tempo em que participaram da miscigenação com indivíduos e grupos que passaram e se estabeleceram em diversos locais. Em outras palavras, os indígenas continuaram vivendo em aldeias nas suas tribos, portugueses, espanhóis negros, paulatinamente, deixaram rastos de suas presenças. E, principalmente, elementos mestiços decorrentes desta multipresença étnica participaram da vida da região.

Isto ocorreu num contexto de fronteiras múltiplas. Havia vivências entre diferentes que viam, por exemplo, no rio Paraná um elo de integração. Podem-se imaginar indivíduos e grupos aos quais não interessassem as fronteiras estabelecidas em acordos, tratados e disputas territoriais. Estes eram estabelecidos em outros âmbitos.
1 Doutor em História pela UFF/RJ e professor adjunto da Unioeste.
Após o Tratado de Madrid de 1750, que reconheceu o rio Paraná, no trecho entre Sete Quedas e a foz do rio Iguaçu, como marco de fronteiras entre as colônias espanhola e portuguesa, confirmado pelo Tratado de Santo Ildefonso, a (re)construção territorial sofreu alterações. As emancipações políticas e a constituição dos estados nacionais na Bacia do Prata, durante o século XIX, reforçaram tais mudanças e expuseram os sertões do Paraná às disputas fronteiriças entre o Brasil, a Argentina e o Paraguai. Diversos empreendimentos foram implantados em cima desta realidade. A navegabilidade dos rios da região e as concessões de terras contribuíram para uma sistemática exploração 2

das riquezas naturais de territórios brasileiros, argentinos e paraguaios. Os empreendimentos e suas ações exploratórias, produtivas e comerciais, denominadas de obrages, não obedeciam aos limites das fronteiras nacionais. A dinâmica cotidiana ocorria independentemente desta lógica que se queria estabelecer. Os vínculos econômicos estabeleciam-se, pela Bacia do Prata, com a Argentina e com o imperialismo inglês. Esta situação de disputa foi evidenciada durante o movimento tenentista (década de 1920), que teve uma das suas ações mais marcantes, a Coluna Prestes, interferindo no xadrez geopolítico regional. João Cabanas2, intelectual e combatente tenentista, em A Colunna da Morte, ressalta a presença estrangeira, a exploração da natureza e dos trabalhadores e as precárias condições de vida no Oeste Paranaense, emitindo a mensagem de que o Brasil dever-se-ia fazer presente na região a fim de integrá-la aos seus domínios. Neste sentido, a história recente do Oeste do Paraná, no que concerne à ocupação brasileira e à colonização, tem, como pano de fundo, as disputas de fronteiras. Em 1889, por motivos estratégicos e de segurança, foi fundada a Colônia Militar que deu origem ao atual centro urbano de Foz do Iguaçu, tendo entre seus objetivos realizar a fiscalização e a cobrança de impostos3 numa área considerada de predominância de presença de estrangeiros. Foram criados portos na margem brasileira do rio Paraná e uma ferrovia entre Porto Mendes e Guaíra. Foram implantadas, desta forma, melhorias em infra-estrutura para a exploração de riquezas naturais da região, principalmente, erva-mate (ilex paraguaiensis) e madeiras. Neste contexto, a área era habitada por população de remanescentes indígenas, mestiços caboclos, descendentes de portugueses, espanhóis ingleses dentre outros.


2 CABANAS, João. A columna da morte. Rio de Janeiro, Livraria Editora Almeida&Torres, 1926. 3 Ver GREGORY, Valdir. Os eurobrasileiros e o espaço colonial: migrações no Oeste do Paraná. Cascavel, EDUNIOESTE, 2002, pp. 88-9. 4 SILVEIRA NETO, (1872-1942). Do Guairá aos Saltos do Iguaçu. Curitiba, Fundação Cultural, 1995. 5 SILVEIRA NETO, 1995, p. 19.
Manoel de Azevedo da Silveira Neto4 escreveu sobre a região Oeste do Paraná, narrando sua viagem que fez no início do século XX. Conforme dados catalográficos, o depósito legal do livro junto à Biblioteca Nacional ocorreu em 20 de dezembro de 1907, conforme Decreto nº 1823 daquele ano. O texto foi publicado, novamente em 1995 pela Coleção Farol do Saber da Prefeitura Municipal de Curitiba. O autor diz que aportou na então colônia militar de Foz do Iguaçu em 1905 a fim de “instalar a Mesa de Rendas do Ministério da Fazenda naquela paragem meio deserta”,

acompanhado pela sua família e pelo colega de função Benedito Nicolau dos Santos.5 A população, nessa época, seria 3 de 2000 almas. E, em 1936, quando publicado o livro, a população da sede de Foz do Iguaçu seria de 1500 habitantes e a do extenso município seria de 6000.


possui em veículos 206 carroças 4 rodas (toco duro); 22 alçapremas; 9 automóveis de passageiros e 19 auto-caminhões. Indústria: 6 serrarias; uma fundição, em Guaíra; 6 ferrarias, sendo uma em Guaíra; 7 carpintarias, sendo 2 em Guaíra; uma fábrica de móveis, duas de gelo, duas de beneficiar arroz, 2 olarias, uma em Guaíra; um estaleiro completo para pequenas lanchas e embarcações miúdas; 3 usinas de eletricidade, sendo uma em Guaíra, outra em Porto Francisco Mendes Gonçalves e outra em Iguaçu; 4 fábricas de rapadura e 9 engenhos de aguardente. Dois grupos escolares, sendo um em Guaíra e seis escolas isoladas, todos do Estado. Gado, assim distribuído: lanígero, 100 cabeças; caprino, 30; eqüino, 250; cavalar, 400, suíno, 200; bovino, 1.500.6
6 SILVEIRA NETO, 1995., pp. 25 e 26. 7 SILVEIRA NETO, 1995, pp. 26 e 27.

Com relação à Guaíra, Silveira Neto informa que havia uma “igreja de cantaria”, uma estação de rádio pertencente ao Serviço e Rádio do Quinto Regimento de Aviação, uma sub-delegacia de polícia civil, uma sociedade recreativa, um clube de tênis e cinema.7

Segundo ele, em 1888, a Comissão Estratégica do Paraná foi encarregada da fundação da Colônia Militar na foz do rio Iguaçu e da construção de estradas estratégicas do Paraná. Menciona que, naquela época, teriam sido encontrados, entre a foz do rio Iguaçu e a do Ocoí, “35 fogos habitados por 324 pessoas, sendo 188 paraguaios, 93 brasileiros, 3 argentinos, 5 franceses, 2 orientais, 2 espanhóis e um inglês”, 220 homens e 104 mulheres. Os moradores mais antigos, desde 1881, seriam Pedro Martins da Silva e o espanhol Manoel Gonzales. Depois se estabeleceram os irmãos Goiacachea, que exportavam mate em grande escala. Os moradores do povoado dedicavam-se quase exclusivamente à exploração da erva mate e ao corte de madeira. Parte da população teria vindo da região das missões argentinas por motivo de desavenças com o respectivo governador. O pessoal da Comissão teria encontrado “grande número de indígenas que, convencidos das benévolas intenções dos exploradores, chegaram à fala”. Seriam de estatura mediana, de cor amarela clara, com cabelos longos, “parece que se trata dos últimos representantes dos cabeludos ... confiantes e inimigos acérrimos dos habitantes da coeva província de Tayoba, na maior 4 parte pertencentes à nação Guarani”. Teriam informado que haveria outros toldos para o lado do Iguaçu e para o norte.8 Além de 220 homens e 104 mulheres, haveria grande número de indígenas. Os moradores mais antigos têm nomes portugueses e espanhóis. Os indígenas não estavam incluídos entre os moradores, nem entre os homens e entre as mulheres, nesta descrição. Quando os indígenas são mencionados, parece que se trata de seres sem os atributos de humanidade. A civilização viria com homens e mulheres, com os que, já, vieram e, principalmente, com os que, ainda, viriam para os sertões. Registrou-se, no entanto, que havia indígenas em “grande número”.

Desavenças com autoridades, no caso com o governador da região das missões, são eventos que ocorrem, normalmente e de maneira mais evidente, com pessoas de certa ascensão social e/ou com lideranças. Este deveria ser o caso dos tais argentinos vindos às proximidades da Colônia Militar de Foz do Iguaçu. A Comissão registrou que havia indígenas, imigrantes de diversas procedências e argentinos. Vê-se que se joga luz, dentre os imigrantes, sobre a presença dos argentinos. Isso se deve a preocupações com as questões de fronteira na região.

8 SILVEIRA NETO, 1995, pp. 29 a 31. 9WESTPHALEN, Cecília Maria. História documental do Paraná : primórdios da colonização moderna na região de Itaipu. Curitiba : UFPR, 1987, p. 8 e 9. 10 FRANCO, Artur Martins. Relatos de viagem. Curitiba, 1973, p. 50.

Westphalen9, discutindo concessões de terras no Oeste do Paraná, informa que Raymond Robert de Blasset, um francês, solicitou uma concessão de terras “para criação e cultura” em trinta e um de maio de 1892, dizendo ser morador do local desde 1887 e empregando mais de cem pessoas. Havia, nesta época, outros requerimentos para concessões de terras, que, quando atendidos, costumavam ser demarcados.

Artur Martins Franco10 era engenheiro e exercia a função de Comissário de Terras do estado do Paraná. Franco, como já mencionado neste trabalho, iniciou uma excursão em 1904 e outra em 1913 para os sertões do Paraná a fim de comandar medições de terras. Conta suas experiências durante as andanças pelas áreas fronteiriças no cumprimento de suas missões. Em 1904, foram medir as terras requeridas por Nuñes Y Gibaja. Segundo ele, arriaram a tropa e, “arranjadas as montarias para mim, Aristides e Getúlio (a peonada marchava a pé, muchila às costas), partimos [...] para o interior do sertão”. Chegaram a um acampamento, onde esperaram por oito dias a guarnição, que viria com outra tropa. Foram 52 dias “num sertão deserto e desconhecido, chefiando uma turma de 16 homens, composta, quase toda de 5 paraguaios e argentinos, entre os quais havia apenas 2 brasileiros: o Francisco Chagas, o balizador, e meu cozinheiro José, paulista”. Franco chamou “o feitor da turma, Sr. Norberto Benitez, excelente paraguaio e bom e leal amigo, e comuniquei-lhe a resolução ... da nossa retirada, ao que ele nada objetou e ordenei ao pessoal que desfizesse o acampamento e preparasse as muchilas para a retirada”. Encontraram a outra turma e um “chasque” estava com eles, porque se apoderaram dos mantimentos de uma besta que estava conduzindo. Diante da situação, ordenou ao Norberto Benitez que retornasse com a turma ao acampamento anterior com as sobras dos mantimentos para continuarem a abertura da picada. “A turma, sem um protesto e da melhor boa vontade, obedeceu aquela minha ordem”. Depois, ele e o Bonifácio, “paraguaio com cerca de 40 anos de idade e pai de um rapazinho que fazia parte da turma, pusemo-nos a caminho, a pé, para o Acampamento Central”. Encontraram um tropeiro que estava levando mantimentos para a turma que ficara.

A narrativa aponta para diversos episódios significativos para as discussões desta pesquisa. É possível apontar para um ambiente de tensão em função da administração da alimentação e do trabalho. São homens de outras nacionalidades, “apenas 2 brasileiros”, que participam dos trabalhos de demarcação de Nuñes Y Gibaja. É perceptível a construção discursiva de um ambiente de domínio sobre os trabalhadores e de submissão e obediência. O acampamento central era da própria obrage a ser demarcada. Retornados ao Porto Sol de Maio, Franco diz terem permanecido neste porto por dois dias. Assim, conheceram o argentino Juan Matheus Arriola, que trabalhava há 30 dias em ervais e madeiras no Paraguai. Ele dominava o idioma guarani e tinha com ele peões

paraguaios.11


11 FRANCO, 1973, p. 50. 12 DOMINGOS NASCIMENTO. Pela fronteira. 1903. 13DOMINGOS NASCIMENTO, 1903, p. 35.
Domingos Nascimento12 relatou viagem sua pelo Paraná em obra publicada em 1903 intitulada Pela Fronteira, mencionando que fora premiado em concurso realizado pela Sociedade de Agricultura do Paraná, na Exposição Paranaense de 19 de dezembro de 1903, data do cinqüentenário da emancipação da Província do Paraná com relação à Província de São Paulo. Diz que partiu de Bella Vista, procurando melhores opções para sair de Guarapuava e penetrar as selvas do Iguaçu13. Passando por caminhos e florestas, relata diversos encontros com homens dessas terras. “Depois do Chagu, atravessa-se o 6

rio das Cobras” e, nas imediações da Colônia Chopin, teria encontrado um toldo de índios, que vieram em grande número cumprimentar o general Bormann. Seriam uns quinhentos índios mansos, sendo que alguns já falavam regularmente o idioma português e viviam em harmonia com os soldados. Cultivavam milho e feijão. Mais adiante encontraram trabalhadores que aplainavam o leito da estrada. Era um acampamento de umas 300 pessoas.14 Nas proximidades da Colônia Chopin, havia índios mansos, ou seja, índios tidos civilizados. Havia trabalhadores, que, parece, não eram índios. Esses índios, mesmo civilizados, não são mencionados e considerados trabalhadores. Agora, de acordo com a sequência do texto, ele vai encontrar argentinos, tropeiros de pele negra e indianos.

14 DOMINGOS NASCIMENTO, 1903, p. 82-83. 15 DOMINGOS NASCIMENTO, 1903, p. 95-100. 16DOMINGOS NASCIMENTO, 1903, p. 99.


Escreve sobre um brasileiro de nome Machado, encarregado do pessoal, que abandonaria casa e plantações, porque teriam sido suprimidas pela casa comercial. Ele estaria indo “à colônia para pedir um lote para recomeçar a sua vida com os seus filhos”. A colônia mencionada era Foz do Iguaçu. Encontrou, também, um moço de Antonina de nome Américo Veiga. Diz que, no limite das terras de Barthe, brasileiros, correntinos e paraguaios viviam na melhor harmonia. Nesse imenso sertão, à beira da picada, entre pinheiros, cedros e imbuias, esbarraram com “um toldo de índios guaranis, bastante grande e muito povoado”.15

Os dados extraídos da descrição de Domingos Nascimento proporcionam elementos para debater a formação populacional da região. Transparece um ambiente de convivência entre indígenas, argentinos, brasileiros em situações de diferenciação social. A narrativa aponta para uma determinada elite na exploração da erva mate, quando se refere às vestimentas, às comidas e às atividades dos argentinos. O autor ressalta essas diferenças em relação aos trabalhadores braçais dos ervais. Pode-se perceber uma preocupação em denunciar a exploração estrangeira sem que os mesmos trouxessem contribuições para o desenvolvimento da região. Nas palavras do autor,


é um verdadeiro trecho de paizagem selvatica. No seio da matta escura se abrem pequenas clareiras de ligeiras derrubadas. Os grandes madeiros ficam de pé: o índio zela mais pelo que é nosso do que o forasteiro sequioso de fortuna, que devasta impenitentemente as nossas florestas. Os silvícolas edificam as choças à sombra dessas grandes árvores entrelaçadas de heras, cordões de cipoaes trepando os seus troncos robustos como enormes serpes torcicolando madeiro acima.16 7

A paisagem deveria ser adaptada à civilização, mas para a civilização brasileira. A exploração de forasteiros estaria proporcionando a devastação do que seria brasileiro. Agora, o forasteiro depreda o que o índio estaria zelando. O indígena é retratado como o guardião das riquezas naturais.

Correa Filho17, tratando da Companhia Mate Laranjeira e dos ervais mato-grossenses, destaca as habilidades indígenas como necessárias para atividades econômicas de extração de riquezas. Para ele, “sem o braço Guarany, seria impossível a exploração dos hervaes, a que iam prazenteiros, expondo-se a todos os sacrifícios...”
17 CORREA FILHO. À sombra dos Hervaes Mattogrossenses. SP, Ap Editora Ltda., 1925 (Monografias Cuiabanas, vol. 4), 1925, p. 11. 18 CABANAS, 1926, p. 252.
Para João Cabanas18, o mensu, o trabalhador do erval, era geralmente nascido no Paraguai, de onde é arrebanhado e internado nos ervais do Oeste do Paraná, onde está sob o domínio de capatazes, muitas vezes argentinos. Os “escravos” seriam sempre brasileiros ou paraguaios, mas os capatazes, na sua quase totalidade, seriam argentinos que nutriam contra os mesmos uma manifesta antipatia.

É interessante observar que os exploradores, para Cabanas, o tenente revolucionário, eram os argentinos e os explorados eram brasileiros e paraguaios. É mais pertinente caracterizar a ameaça argentina do que a paraguaia para os perigos da fronteira na década de 1920. As pretensões paraguaias com relação às fronteiras com o Brasil estavam mais resolvidas após a Guerra do Paraguai do que as ameaças argentinas, afloradas com a Questão de Palmas e vistas como mais complicadas em função das potencialidades da economia portenha.

A chegada a Foz do Iguaçu de Domingos Nascimento motivou a descrição de observações importantes para as preocupações com relação aos domínios territoriais brasileiros.

Depois de alguns dias de sacrifício em pleno sertão, ouvindo a toda hora o patuá castelhano, misto de hespanhol e guarany, em terras brazileiras, observando costumes e physionomias estranhos aos nossos, ouvir de repente a nossa língua falada por patrícios intelligentes e instruídos, os contemplar com os nossos hábitos e o nosso vestir, - não mais o chiripá, o cinto e o gorro vermelho - foi para nós um momento de calorosas expansões de 8 alegria, além de que abraçávamos velhos amigos de muitos annos, que mais de um anno se haviam abalado para o interior, no cumprimento dos deveres de seus encargos.19


19 DOMINGOS NASCIMENTO, 1903, p. 117. 20 DOMINGOS NASCIMENTO, 1903, p. 119. 21 DOMINGOS NASCIMENTO, 1903, p. 123-124. 22 DOMINGOS NASCIMENTO, 1903, p. 144. 23COELHO JUNIOR. Pelas selvas e rios do Paraná. Curitiba/SP/RJ, Editora Guaíra Limitada, 1946, p. 30. 24 COELHO JUNIOR, 1946, p. 35-37.
A povoação, com uma incipiente estrutura administrativa, seria um chão brasileiro e estaria sempre em movimento, motivado pela chegada de embarcações de argentinos, como a de Domingos Barthe e de Nuñes y Gibaja.20 Subindo o rio Paraná, teriam atracado do lado paraguaio, sendo que muitos cidadãos paraguaios teriam cumprimentado os viajantes, onde se achavam as instalações da Companhia Industrial Paraguaya, com numerosos empregados. Seriam homens educados e bem instruídos, dedicados ao comércio e aos serviços de extração de ervas e madeiras, além de autoridades.21 O Espanha, embarcação na qual viajava Domingos Nascimento, estaria cheio de passageiros argentinos, paraguaios e alguns europeus. Todos em harmonia.22

Coelho Junior, em livro publicado em 1946 pela Editora Guaíra Limitada, relata, em estilo literário, suas andanças pelas selvas e rios do Paraná em 1919 e 1920, logo depois de ter saído do curso de desenho da Escola Nacional de Belas Artes. Refere-se ao caboclo caluniado pelo “gênero literário” que faria dele “uma caricatura onde lhe deformamos as linhas exagerando-lhes os defeitos, sem uma única pincelada de seus traços nobres”23. Seria caracterizado como imperfeito e cheio de qualidades negativas. Diz que ele e os que o acompanhavam foram surpreendidos por homens de estranha indumentária, em 1920 em Campo Mourão, que fugiram rapidamente. Puderam, mais tarde, ter maiores proximidades com o caboclo pioneiro. “João Custódio de Oliveira, austero e simpático cacique da vasta tribo dos „Custódios... originários de Minas Gerais”, teriam sido informados por conterrâneos envolvidos na Guerra do Paraguai sobre um campo próximo ao sul de Mato Grosso. Os Custódios teriam penetrado pelo sertão de terras roxas no divisor de águas dos rios Ivaí e Piquiri, chegando a Campo Mourão.24 Coelho Junior descreve outros casos de caboclos que teria encontrado nos sertões às margens do rio Paraná, ou seja, no Oeste do Paraná e sul de Mato Grosso. Ressalta a narrativa de Ana Couto, companheira de um posseiro. Ela, enquanto jovem, 9

teria sido seduzida por um namorado em Guarapuava, que a abandonara. “Desiludida, não quis ou não teve coragem de voltar ao lar – e „caiu na vida. Conheceu um posseiro de Campo Mourão, que se isolara por ter cometido um crime, com o qual se unira. “Era ele o Capitão Norberto, homem do mato, valente, trabalhador e rico”. Teriam formado uma fazenda e Ana “trazia para a sua estância todos os órfãos de filhos de gente pobre que lhe dessem”, resgatando, assim, seus pecados. Na época em que Coelho Junior teria estado lá, criava seis rapazes e oito meninas, que recebiam terra, quando se casavam.25 Há alusões a referenciais de estrutura familiar. A cabocla “caiu na vida”, mas estava reconstruindo a sua vida com uma relação estável e se redimindo com a dedicação aos órfãos. O texto não informa os motivos das orfandades. Seriam filhos de homens e mulheres dos chamados sertões. É possível admitir tratar-se de filhos de forasteiros, de trabalhadores itinerantes que deixaram herdeiros em lugares por onde teriam andado, de homens e mulheres mortos por diversos motivos. São dados que apontam para complexos aspectos da constituição populacional dos sertões, percebidos pelo narrador.
25 COELHO JUNIOR, 1946, p. 40-41. 26 COELHO JUNIOR, 1946, p. 47.
Este autor, como outros, proporciona ricos dados para a discussão sobre a formação populacional mestiça desta região fronteiriça e para a compreensão da presença de caboclos nos sertões do Paraná. Teria sido recebido por um deles, que, “fumando e chimarreando”, oferecia janta, café e almoço. Observa que “geralmente os nossos caboclos abandonam os seus „sítios e penetram o sertão, na sua voluntária marcha para o Oeste, com o exclusivo auxílio de suas próprias forças – quase sempre tocados de suas terras, de posse sem formalidades legais, por despejos judiciários”. Esta despreocupação com as formalidades em relação à documentação de suas terras é vista como responsável pela instabilidade de suas posses e de seus domínios, pois, “depois de vencerem todas as dificuldades que a mata virgem lhes antepõe à sua corajosa penetração, vem a ambição dos espertos que lhes exploram, inescrupulosamente e impatrioticamente, a sua irremediável ingenuidade e desproteção”.26 A instrumentalização documental e jurídica dos civilizados proporcionava vantagens de domínio e posse sobre os sertanejos, que estariam desprotegidos por causa de sua ingenuidade.

Outra história é a de João Bento, mineiro, morador de Campo Mourão com a mulher, filhos e netos. Teria migrado para o Paraná porque não quis casar-se com uma 10



sobrinha do seu tio rico que o criara. Teria vindo a pé de Minas Gerais, juntado um dinheiro no Paraná e retornado a Ouro Preto para casar-se com Maria Cândida. “Soubemos que João Bento se achava a meio caminho da picada de Campo Mourão, onde empreitava grandes roçadas.”27

27 COELHO JUNIOR, 1946, p. 53-56. 28 COELHO JUNIOR, 1946, p. 65-77. 29 COELHO JUNIOR, 1946, p. 91.

Outro era um malandro sertanejo de Vila Rica, “um caboclo moço, branco, de olhos azuis, alto, vigoroso, a fisionomia de traços delicados engastada nos ombros largos de atleta ... Num „fandango, conheceu Mariazinha de Nhô Tonico Pereira, cabocla bonita, fruto do mato [...] „e se gostaram”. Descreve as belezas desta morena de dezesseis anos e as qualidades do bravo derrubador de mato, seu pai. Usando de malandragem, João Caçador teria conquistado o coração da jovem (para os nossos padrões atuais, uma adolescente), a revelia de seu progenitor, e gerado um neto para o velho.28 Eis um personagem caracterizado como caboclo, embora apresente aspectos diferentes da maioria deles. Era moço. Sua cor era branca. Os olhos eram azuis. Além de outros atributos que o destacavam. Polidoro, outro caboclo, era descrito como um caboclo arranjado, meio fazendeiro, “atrazadão, simplório como todo o sertanejo, mas inteligente e „matreiro”.29

Nas descrições registradas acima, os caboclos têm histórias de vida. Têm paixões, emoções. Constituem famílias. São trabalhadores. São explorados devido à ingenuidade e desproteção. Enfim, consituem uma parcela da população dos sertões. Faltam-lhes vários atributos da civilização, mesmo sendo inteligentes e demonstrando espertezas. Eis pessoas e territórios a serem abrasileirados.

Observa, por ocasião de sua presença no local, que, no início de agosto, os caboclos já teriam escolhido a área de capoeira para ser roçada. O seu trabalho, nesta época do ano, é mais afeito à abertura de roças e, “se o caboclo é „arranjado, ou tem filho homem, ou „justa um camarada, com as foices bem afiadas, ataca” vigorosamente a vegetação. Costuma erguer um “rancho tosco, onde ferve a panela de feijão, abriga-se das chuvas e, se a residência é longe, pernoita, mais os companheiros”. O dia-a-dia é descrito enquanto dedicação aos trabalhos e aos relacionamentos interpessoais. Mencionam-se comidas e bebidas. “Se é pobre, de há muito que comprou umas garrafas de „pinga, engordou uns frangos – e promove, com o auxílio dos vizinhos, que jamais se recusam – o tradicional „picherão”. A roçada é 11

feita num ou em mais dias, por vários foiceros que se reúnem. A comida é feita no local. “O caboclo „arranjado, mais o filho homem ou o camarada, já está temperando o feijão do almoço, com torresmo e farinha de milho”.30 Assim, o foicero, com chapéu de palha, manga de camisa e calças velhas e remendadas, dedicar-se-ia às tarefas da roçada. Mataria a sede e se refrescaria nas águas de sangas, trabalhando dias sob o sol forte.31 A época do ano descrita é o findar do inverno, quando é o tempo de preparo dos solos e terrenos para os cultivos da primavera e do verão. São as estações mais adequadas para diversos cultivos, quando as temperaturas sobem, o sol aquece e a vegetação se desenvolve mais rapidamente. Estamos, pois, no mundo rural, cujo ritmo é cadenciado mais pela natureza do que por um tempo artificializado da cronometria do urbano. O relógio praticamente não faz parte da paisagem e, quando aparece, é secundário e não dita ritmos para os humanos.

Este trabalho de preparação dos terrenos para os plantios era tarefa dos homens adultos e, às vezes, acompanhados por filhos homens. É um ambiente masculinizado. Aliás, a pena dos narradores, geralmente, pinta mais os espaços dos homens. O mundo feminino aparece como anexo ao mundo masculino dos sertões. Inclusive, numericamente os homens suplantam as mulheres.

30 COELHO JUNIOR, 1946, p. 150. 31 COELHO JUNIOR, 1946, p. 150-151. 32 COELHO JUNIOR, 1946, p. 179.


Coelho Junior32, quando fez levantamentos topográficos do vale caudaloso do rio Piquiri, desde sua nascente na Serra da Pitanga até a sua foz, localizada pouco acima das Sete Quedas, no rio Paraná, menciona que ali estavam instalados “argentinos e paraguaios da Emprêsa Júlio Allica e, como costumavam dar denominações de sua língua em nosso território, batizaram-no de „Pensamiento. Eis um alerta sobre a toponímia considerada inadequada para os interesses nacionais. O paraguaio Santa Cruz, segundo ele, era “atrevido e facinoroso” e mantinha trabalhadores como infames escravos, “explorando centenas de infelizes extratores de erva-mate, „mensús segregados, sem esperanças, do mundo civilizado, vivendo como animais de tração”, para enriquecer estrangeiros inescrupulosos.

Para o autor, Santa Cruz praticava abusos contra brasileiros, paraguaios e argentinos, aproveitando-se das meninas filhas dos mensus. Enaltece os resultados saneadores das presenças dos revoltosos tenentistas e das forças legalistas na região, que 12 teriam contribuído para desarticular o domínio estrangeiro e ajudar na melhoria das condições de vida dos moradores da região.33


33 COELHO JUNIOR, 1946, p. 179. 34 COELHO JUNIOR, 1946, p. 180. 35 COELHO JUNIOR, 1946, p. 79-83. 36 COELHO JUNIOR, 1946, p. 84.
Foi até Guaíra, sede da Mate Larangeira. Lá, para se hospedar no hotel, teve que pedir licença da empresa, “assim como para viajar na via férrea que vai a Pôrto Mendes e Pôrto Artaza, no comêço da navegação do baixo Paraná, até Pozadas, na Argentina.” Coelho Junior34 teria encontrado em Porto Monjoli (Guaíra), os operários da Companhia Mate Larangeira. Observa que eram, na maioria, paraguaios, contratados em Posadas, situada na margem oposta de Encarnación. “Neste porto argentino, as empresas ervateiras tinham agências encarregadas de recrutar” pessoal para extrair erva mate no Alto Paraná. Descreve a dura realidade vivida por esses trabalhadores na árdua tarefa de colher, transportar e beneficiar a erva mate. O autor se posiciona contra a exploração estrangeira das riquezas naturais, propondo a “necessária extirpação do cancro que ia, imperturbavelmente, distendendo suas raízes pelos nossos sertões”. Com quatro dias de viagem, “o vaporzinho, com seu apito, suas bandeiras, seus tripulantes, passageiros, música e mais alaridos e cores – quebra a monotonia daquelas solidões e alegra os cais de Pôrto Artaza e Pôrto Mendes, ponto final da navegação do baixo Paraná”

Deste ponto em diante, a viagem de sessenta quilômetros era feita de ferrovia até Guaíra, em Porto Monjoli, de onde começava a navegação do Alto Paraná, “em frente às famosas cataratas das Sete Quedas.”35 Informa que há uma estrutura para as atividades exploratórias da Mate Larangeira e caminhos para ervais do Paraná e o acesso, por água, para o território do Mato Grosso, onde rios e caminhos proporcionam acessos aos ervais daquele território. Afirma que a extração se dá a longas distâncias e que os mensus ficam “presos, impossibilitados de fugir aos maus tratos que os esperam”.36

Com relação à distribuição de espaços, registra que havia um galpão de madeira, destinado às moças paraguaias, denominadas de „cunhatais, trazidas de Posadas. Estas teriam suas funções na organização e na dinâmica da obrage. Dentre as observações feitas sobre o cotidiano em Guaíra, descreve cenas de um baile, observando comportamentos e posturas de homens e mulheres. “À noite realiza-se um baile, última nota alegre da vida do „mensú, onde ele escolhe a companheira para enfrentar a nova 13 vida que o espera lá longe, bem longe, às margens do caudaloso e ermo Piquirí”. Assevera que, no interior do Paraguai, por causa da ausência do clero, as famílias estariam desorganizadas, sendo que os párias, escravizados nas empresas ervateiras dos sertões do Paraná, teriam, nesta situação, suas origens no concubinato generalizado.37

37 COELHO JUNIOR, 1946, p. 89. 38 COELHO JUNIOR, 1946, p. 88. 39 COELHO JUNIOR, 1946, p. 89. 40 COELHO JUNIOR, 1946, p. 181. 41 NOGUEIRA, Julio. Do rio Iguassu e ao Guayra. Rio de Janeiro, Editora Carioca, 1920, p. 115.


No baile, vêem-se “os „mensús barbeados, de „chiripá vermelho à cinta, de botas e os chapéus de pano batidos à testa”. As mulheres usam “vistosas sáias de sêda perfumadas, airosas, com aspectos de uma alegria estranha”, e esquecem-se da vida real naqueles momentos fugazes. “Começa o baile, entre gritos selvagens dos „mensús.”38 As alegrias de mulheres são estranhas e os gritos dos homens são selvagens, num ambiente de fuga da realidade. Parece que a realidade, para o autor, está no trabalho, no corte e na coleta de produtos nativos, no transporte e no beneficiamento da erva mate. Os comportamentos vistos e descritos não são considerados adequados para famílias civilizadas e brasileiras.39

Na ida a Foz do Iguaçu, embarcaram num navio estrangeiro, onde se falava o castelhano e não era aceito o dinheiro brasileiro.40 Nesta rápida informação, há três dados preocupantes para o narrador: o navio é estrangeiro, a língua é castelhana e o dinheiro brasileiro não era aceito. Há a construção de uma territorialidade em que a brasilidade estava fragilizada e ameaçada. Os vínculos econômicos e a lógica dos negócios estabeleciam e consolidavam laços ameaçadores à integridade territorial dos sertões do Paraná. As descrições dos tipos humanos questionavam a formação populacional brasileira nestes sertões. As suas práticas culturais não eram vistas como adequadas a uma cultura nacional brasileira. As formas como as observações eram descritas têm como base a concepção de uma territorialidade brasileira a ser construída a partir da civilização assentada mais ao litoral do território da nação. O Brasil, ainda, estava por se estabelecer nestes sertões. Isto era sempre mais urgente. As fronteiras deveriam ser nacionalizadas.

Júlio Nogueira41 mostra preocupações com relação à presença de estrangeiros, quando observa que na população do Porto Guayra havia “pouco elemento nacional”. Entre os funcionários mais qualificados da empresa “o administrador, o encarregado de 14 Porto Mendes e o pharmacêutico são paraguayos; o médico é hespanhol; o chefe de contabilidade e o do depósito são allemães”. Não haveria mais do que três brasileiros e o “único empregado brasileiro de categoria é o secretário”. Assim a quase absoluta maioria dos trabalhadores braçais seria composta por estrangeiros, pois a “peonada é paraguaya ou argentina”.

Estes dados dão conta de que, em Guaíra, haveria uma exploração, também, do ser humano e que os trabalhadores estariam distantes da civilização de outras partes do território brasileiro. E ainda mais, esta situação estaria criando condições de domínio estrangeiro na região. Mostra as ausências de manifestações necessárias ao desenvolvimento de elementos da cultura brasileira no local. A empresa estaria explorando trabalhadores não qualificados e inadequados para a construção da nacionalidade brasileira em áreas de fronteira. Os seus costumes não contribuiriam para a formação desta nacionalidade.

Na época em que Júlio Nogueira fez e descreveu suas observações sobre o oeste, o responsável pela administração dos empreendimentos da Mate Larangeira, em Guaíra e no Porto Mendes, era Wilson Sidwel. Este era um engenheiro civil norte-americano, formado na Universidade de Stanford em 1910. Ele deixou uma narrativa de 28 páginas, escrita em inglês, tendo em anexo umas duas dezenas de fotografias da época.

O texto foi traduzido para o espanhol pelo seu filho, Enrique Sidwel, datado de 22 de outubro de 2006. Este documento, já trabalhado em páginas anteriores deste texto, servirá de fonte, aqui, para historicisar alguns aspectos do cotidiano de Guaíra e do Porto Mendes entre os anos de 1914 e 1930.



O texto de Wilson Sidwel42 traz a descrição de vários detalhes de sua atuação em Guaíra, enquanto engenheiro e, mais tarde, também como administrador geral desta unidade da Mate Larangeira. Aqui interessam características relacionadas a pessoas.
42 SIDWEL Wilson. Através de los años 1910-1930. (Texto original em inglês e tradução para o espanhol de Enrique Sidwel, filho de Wilson Sidwel, datado de 22 de outubro de 2006. Texto datilografado, acervo pessoal).
A narrativa segue com dados importantes para se entender a formação da população de Guaíra do início do século XX. Sidwel afirma que havia dois homens estratégicos para a administração. Eram Adan Godoy e Generoso Britez. Também fazia parte da administração Patrocínio Rojas. Depois, havia “um sin numero de trabajadores leales por cada disidente”. Dentre eles, Joe Clark, um escocês mestre ferreiro. Este era 15 capaz de fazer qualquer coisa com um pedaço de ferro. Sidwel pondera que seu salário era pouco, mas era bebedor, mesmo que a bebida alcoólica fosse proibida no povoado. Menciona que Clark teve uma boa mulher que o cuidava. O engenheiro acrescenta que construiu uma casa para ele. Joe Clark ficou até 1930 em Guaíra, quando foi a Buenos Aires ajudar na construção de nova fábrica da Mate Larangeira. Dá destaque, também, a quatro irmãos franceses, os Garrecoix, “todos maestros constructores de buques”, ou seja, construtores de barcos. Um era capaz de escolher uma árvore dura e, com ferramentas adequadas, transformá-la em excelente embarcação para “una chata de bajo calado”. Havia outros colaboradores importantes. Menciona, também, um trabalhador dissidente, um mecânico alemão, que teve que tomar o primeiro barco que saía de Porto Mendes. Havia o Phillinto Braga, “um patriótico brasileño, que era inspector o más bien „Informador General del presidente, y algunas veces me ayudó a resolver problemas, especialmente com las autoridades brasileñas.” El presidente é o presidente da Mate Larangeira, Mendes Gonçalves. Registra que estivera várias vezes com ele, no início do novo cargo e, também, depois.43 Mais adiante, é narrado um episódio ocorrido após o término do Movimento Tenentista em Guaíra. Refere-se a dinheiro enterrado em diferentes locais em um galinheiro que ficava no fundo da casa. Teria vindo o velho amigo, Phillinto Braga. “Cuidadosamente desenterre los mojados billetes y Don Phillinto los puso em uma vallija [...] yo tênia una razón especial para tenerlo todo secreto, no queria que las autoridades brasileñas, ni ningún outro supiera de mi logro”, para evitar quaisquer suspeitas.44 Percebe-se menção clara sobre o trânsito e a cumplicidade de uma autoridade brasileira para com as atividades de uma obrage.
43 SIDWEL, p. 8. 44 SIDWEL, p. 13.
Aqui há elementos que apontam para diversos aspectos que podem ser enfocados. Os colaboradores são descritos, na maioria, como leais e com experiências para exercerem tarefas específicas. Eles são qualificados por suas origens nacionais e por suas habilidades profissionais. Neste sentido, os aspectos de fronteira aparecem nos enfoques da diferenciação. Os trabalhadores “comuns” são apresentados em centenas e, na maioria, paraguaios, os especializados são nominados, adjetivados e recebem carimbos de origens nacionais, qualidades profissionais e são avaliados com relação a atributos subjetivos, como a lealdade, a dedicação ao trabalho, a confiança e assim por diante. O engenheiro dá mostras de que os administradores da obrage buscavam 16

estabelecer relações de confiança com autoridades brasileiras, embora precisasse do auxílio de um representante da administração e estrutura de estado brasileira para contornar um problema de sonegação de rendimentos e informações da Mate Larangeira. No entanto, o relato de Sidwel, enquanto administrador da obrage, proporciona elementos de integração nacional.

Concluindo e retomando, cabe observar que, nas fontes trabalhadas, há referências relacionadas a características diversas sobre as populações locais, sobre a ausência de civilização, sobre a natureza e sobre as potencialidades econômicas dos serões paranaenses. São adjetivações e conferência de atributos, principalmente no que se refere às pessoas, recebendo denominações que merecem ser contextualizadas em base a conceitos e preconceitos relacionados às discussões a respeito de fronteiras, territórios e identidades, dentre outras. Transparece, na documentação mencionada, uma necessidade de ser atribuída uma nacionalidade, uma origem étnica, um nível cultural, uma capacidade produtiva, uma religiosidade, condições psico-sociais, dentre outros atributos. Os moradores, por diversas vezes, são denominados de incivilizados, bárbaros, selvagens, atrasados. O espaço é descrito como inóspito, sertão, selvagem. Costumam serem utilizados termos dicotômicos, ou pares opostos, como mostra Gilmar Arruda45 em texto sobre o oeste paulista, norte do Paraná e Mato Grosso, tais como “moderno/arcaico, civilizado/incivilizado, progresso/atraso, cidades/sertões”. Percebe-se, na leitura destas fontes, que havia uma necessidade de atribuir, por exemplo, características às pessoas. Parece que se confirma o dizer de Benedict Anderson46 de que “todo mundo deve e pode „ter, e „terá uma nacionalidade, tanto quanto terá um sexo”. As línguas que sabiam falar, os modos de se vestirem, a alimentação, a dedicação ou não ao trabalho, as habilidades de lidarem com lugares inóspitos dos sertões, enfim, muito do cotidiano da fronteira foi registrado. A construção da nacionalidade tinha implicações “étnico-raciais”. Os conteúdos evidenciam falas, juízos, conceitos e preconceitos sobre o mundo observado pelos autores. A construção de identidades deu-se no contexto da construção de representações sobre fronteiras culturais, econômicas e nacionais e merece ser relacionada à gênese documental, ou seja, à construção de contextos a partir dos quais os autores emitem os seus juízos e valorizações. Evidenciaram-se a construção e a produção de elementos justificadores para discursos

45 ARRUDA, Gilmar. Cidades e Sertões: entre a história e a memória. Bauru, EDUSC, 2000, p. 14. 46 Ver ANDERSON, Benedict. A nação e consciência nacional. São Paulo, Ed. Ática, 1989, p. 13. 17



da Marcha para o Oeste, que buscava justificar-se pela necessidade de nacionalizar, civilizar, desenvolver, conquistar os sertões. Estas representações são construções de imagens entendidas como consciência do eu em relação ao outro, podendo predominar um esquema cultural mais de quem observa do que de quem é observado. Estes dados proporcionam subsídios para debater fronteiras e territórios, principalmente representações sobre, nos três países limítrofes: Brasil, Argentina e Paraguai. Esta tarefa está no horizonte. Considero pertinente observar que os conteúdos dos documentos mencionados e destacados neste texto trazem elementos que evidenciam preocupações geopolíticas e disputas na tríplice fronteira Brasil, Argentina e Paraguai. Os conflitos platinos não estavam de todo resolvidos nas primeiras décadas o século XX. Conteúdos do discurso da Marcha para o Oeste do período Vargas estavam sendo gestados. Justificativas para os planos de colonização e a criação de empresas madeireiras e colonizadoras, que atuaram no Paraná nas décadas de 1940 e 1950, aparecem nos discursos trabalhados.





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