Os tempos de dom bosco



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CAPÍTULO 1

OS TEMPOS DE DOM BOSCO

Dom Bosco vive entre 16 de agosto de 1815 e 31 de janeiro de 1888 . Seu nascimento coincide com a data que marca a passagem definitiva da Europa do antigo regime à idade contemporânea. Esta passagem foi provocada pela revolução francesa e pelo império napoleônico (1789-1814).

A reviravolta teve uma freiada nas resoluções do congresso de Viena (1814-1815), que deu uma provisória organização na geografia política da Europa, e na Santa Aliança (26 de setembro de 1815).
Mas com o tempo, tomarão a frente fenômenos tão profundos, que tudo ficará mudado no final do século: o rosto da Europa, e de certo modo do mundo inteiro, mudou . Entre os principais fenômenos se podem destacar: as rápidas transformações culturais e sociais; a revolução industrial; as profundas aspirações à unidade nacional, que de início inesperadas, foram depois realizadas com particular determinação na Alemanha e Itália; a expansão colonial da Europa e o concomitante imperialismo econômico, político, cultural1.
O resultado é, antes de tudo, em modo progressivo e diversificado, a passagem do modelo secular de sociedade das ordens (aristocracia, clero, estado), para a sociedade burguesa, fundada na divisão de classes. Esta sociedade vai ser marcada por crescentes tensões, acirradas pelo nascer de um proletariado industrial consciente da própria miséria, das injustiças existentes, e, ao mesmo tempo, da própria força, principalmente graças à consciência socialista emergente.
De grande significado histórico é a revolução industrial, a mais dramática depois da revolução neolítica2, com imprevisíveis repercussões em todos os níveis da vida humana: técnico-científico, econômico, social, cultural, político. A revolução industrial de cunho capitalista teve sua pátria na Inglaterra, na segunda metade do século XVIII. Em meados do século XIX se afirmará em graus diversos na Bélgica, na França, na Alemanha, na Suíça, nos Estados Unidos. Na Itália ela vai iniciar mesmo nos últimos 20 anos do século: quanto aos decênios precedentes, pode-se, no máximo, falar de fenômeno de pré- industrialização em nível local, como Turim, por exemplo.

Gradualmente mais clara, intensa e desenvolvida, acontecerá a unidade política da nação, promovida, sobretudo, pelas forças liberais e democráticas, obstaculadas pelo conservadorismo político, pelos regionalismos e por visões particularistas: na Itália, entre outras, pelas condições especiais do Estado Pontifício. Não se pode esquecer que, após o Congresso de Viena, a Itália, que no decorrer dos séculos, nunca lograra uma unidade nacional, estava dividida nas seguintes unidades políticas: o reino Lombardo-Vêneto, sujeito ao domínio austríaco (o Trentino, Trieste e parte da Ístria tornaram-se territórios imperiais); o Ducado de Parma e Piacenza, doado a Maria Luísa de Absburgo (1815-1847), ex-imperatriz dos franceses (quando morrer, o Ducado passará aos Bourbons de Parma); o Ducado de Modena e Reggio, consignado a Francisco IV de Absburgo-Este (1815-1846); o Ducado de Massa e Carrara concedido a Maria Beatriz de Este, mãe de Francisco IV(quando morrer em 1831, o Ducado passará ao filho); o Ducado de Lucca, dos Bourbons de Parma. Foi depois incorporado ao Grão-Ducado da Toscana, quando morreu Maria Luísa, em 1847, com a passagem dos Bourbons de Parma ao Ducado de Parma e Piacenza. O Grão-Ducado da Toscana, doado a Fernando III de Absburgo-Lorena (1814-1824), irmão do imperador da Áustria, Francisco I de Absburgo (1806-1832); o Estado Pontifício, restituído em Avinhão a Pio VII(1800-1823); o reino das Duas Sicílias, cedido a Fernando IV de Bourbon (1815-1825); o reino da Sardenha sob Vítor Manoel I de Sabóia (1802-1821), formado pela Sabóia, Piemonte, Nizza, Sardenha e aumentado depois com o território da ex-república de Gênova3.
Com a ascenção das nações mais poderosas (Inglaterra, França, Alemanha, Áustria, Rússia), a Europa atinge seu apogeu na segunda metade do século. Nos últimos trinta anos a consolidação do capitalismo e a intensificação da revolução industrial tornarão mais violenta a competição econômica e mais acelerada a corrida armamentista. Ao mesmo tempo cresce a exigência da expansão comercial, política e cultural em nível mundial. Esta exigência encontra sua manifestação mais vasta e brilhante no colonialismo, com a consequente reviravolta dos espaços extra-europeus4. Ao mesmo tempo, entram para o cenário mundial duas novas grandes potências: os Estados Unidos e o Japão.
Não pode ser esquecido o fenômeno da emigração das massas, que de 1840 a 1914 leva de 30 a 35 milhões de europeus a deixar a Europa para se espalharem pelo mundo. A pressão demográfica era determinante: em 1800 a população da Europa, contando com a Rússia, era de 180 milhões de habitantes. Em 1850 já eram 274 milhões ; em 1900, 423 milhões.
Junto com a crescente complicação da vida econômica, social, política e com o ainda que lento ampliar-se das liberdades, cresce um pluralismo mais evidente das concepções de mundo, das ideologias políticas, dos conceitos morais e religiosos. Emergem grandes orientações de idéias e de ação divergentes nas concepções e organizações tanto dos destinos individuais quanto das formas de vida associada . Apesar de persistentes forças conservadoras e às vezes reacionárias, avançam ideologias novas: liberais, continuando a natureza burguesa da revolução francesa ; democráticas e radicais, semelhantes às suas expressões jacobinas; nacionais e nacionalistas, de cunho romântico; mais tarde, socialistas de um lado e cristãs-sociais de outro5. .
Para uma compreensão do mundo espiritual italiano, da impostação pastoral, do caráter das iniciativas assistenciais , educativas e catequéticas, pode ser útil uma referência histórica especifica da região mestra, o Piemonte, da Itália, interessada nos acontecimentos decisivos e nas notáveis transformações nos diversos campos: políticos, religioso sócio-econômico, educativo-escolar.



  1. Elementos de transformação em campo político



O acontecimento político mais importante é a unificação nacional e o fim do poder temporal dos papas: também para este aspecto, a história política da Itália se entrelaça inevitavelmente com a história religiosa6. No fim do processo evolutivo (1870, tomada de Roma), os nove estados nos quais a península é desmembrada, tornam-se um único organismo político.
Ocorre aqui fixar a sucessão dos reis de Sabóia: Vítor Manoel I (1802-1821), Carlos Félix (1821-1831), Carlos Alberto (1831-1849), Vítor Manoel II (1849-1878), Humberto I (1878-1900), que tomaram parte na “revolução” nacional. No período 1815-1848 domina o clima da “restauração”, que é também “reação”. Progridem, ao mesmo tempo, as idéias liberais e se espalham movimentos e sociedades quase sempre secretas, decididas a promover movimentos mais radicais em campo político e social de inspiração “democrática”: maçonaria, federações, ligas estudantis, a “Jovem Itália” e a “Jovem Europa” de G. Mazzini. Com frequência explodem movimentos revolucionários: nos biênios 1820-1821 e 1830-1831, em 1834, em 1843, 1844, 1845. É o prelúdio da grande insurreição de caráter político, social, nacional que de Paris se propaga pelas principais capitais e cidades européias em fevereiro-junho de 1848: Viena, Budapeste, Praga, Berlim, Milão, Veneza, Palermo, Nola no Napolitano. São concedidas “constituições” forçadas ou espontâneas, muitas delas rasgadas logo depois por repressões autoritárias. Carlos Alberto concede o Estatuto em 4 de março, e comanda contra a Áustria uma primeira guerra de independência (1848-1849), que acaba com a derrota e com a abdicação.
Com relação à ordem precedente, grande parte dos católicos se sente improvisamente colocada diante de situações quase traumáticas: a liberdade de imprensa e portanto também de propaganda religiosa, a competição com forças leigas e muitas vezes anticlericais, a perda de privilégios seculares, como o foro elesiástico e as imunidades com a lei Siccardi de 1850, a expulsão dos jesuítas do reino Sardo, das Damas do Sagrado Coração, do arcebispo de Turim, Dom Luís Fransoni, a supressão das Ordens Religiosas e o confisco dos bens em 1855, algumas restrições no campo escolar, em força da lei Boncompagni de 1848 e Casati de 1859.
O decênio 1852-1861 é dominado pelo presidente do Conselho, Camilo Benso de Cavour (ministro desde outubro de 1850). Apoiado em uma coligação de liberais moderados e de democráticos não extremistas, comandados por Urbano Rattazzi, ele conduz uma enérgica política de liberalização leiga do estado, com base no princípio Igreja livre em Estado livre, unida a uma intensa atividade visando internacionalizar o problema da unidade da Itália. Esta acontece em sua maior parte no biênio 1859-1860, com a segunda guerra de independência (1859), com a expedição dos Mil, comandada por Garibaldi (1860) e com as sucessivas anexações. Completa-se quase inteiramente com a terceira guerra de independência (anexação do Vêneto em 1866) e com a tomada de Roma (1870 ). Já em 16 de março de 1861, Vítor Manoel II foi proclamado rei da Itália e Roma declarada formalmente capital: tornar-se-á de fato em 1871, com a transferência para lá da corte e do governo, que estavam provisoriamente em Florença, no período 1865-1871.
A Santa Sé não aceitou o fato consumado, não reconheceu a lei das garantias 7 e em 1874 proibiu os católicos italianos de participar das eleições parlamentares de um Estado usurpador.
Sobre a Direita histórica (liberais moderados), em 1876 prevaleceu no Parlamento a Esquerda histórica, constituída por liberais de esquerda e apoiada em forças muitas vezes heterogêneas (o transformismo), que deram vida a sucessivos ministérios, liderados por Agostinho Depretis, Bento Cairoli e Francisco Crispi, com manifestações quase sempre laicistas e radicalizantes.



  1. Situações no campo religioso



Também na vida religiosa é clara a passagem de acentuada aliança entre trono e altar a uma crescente separação, imposta em parte por medidas políticas consideradas vexatórias, provocada em larga escala pela incapacidade de respeitar operativamente as necessárias distinções entre a esfera do religioso e do político, consumada enfim pela autoexclusão política da não aceitação da Igreja.É todavia notável a presença da Igreja e dos católicos no campo religioso e social.



    1. Na Igreja católica


Aparecem como animadores da reconquista cristã da sociedade os papas, cercados de novo prestígio depois das medidas perseguidoras revolucionárias (Pio VI) e napoleônicas (Pio VII). São eles: Pio VII (1800-1823), eleito em Veneza depois da morte de Pio VI em Valence (França), Leão XII (1823-1829), Pio VIII (1829-1830), Gregório XVI (1831-1846), Pio IX (1846-1878), Leão XIII (1878-1903).
Sem dúvida, em prospectiva mundial, a Igreja católica apresenta sinais evidentes de retomada, de aprofundamento e reforço das próprias estruturas e da ação evangelizadora e pastoral. Instauram-se relações mais amplas com as várias nações através de concordatas. É determinante a retomada missionária. Multiplicam-se as tomadas de posição doutrinais, diferentes no significado teológico e nos êxitos: a encíclica Mirari Vos de GregórioXVI sobre o catolicismo liberal (1832), a definição do dogma da Imaculada Conceição (1854), a publicação da encíclica de Pio IX Quanta Cura e do Syllabus (1864) contra os erros do século, a celebração do Concilio Vaticano I (1869-1870) com a promulgação da Constituição De Fide Catholica e a proclamação do dogma da Infalibilidade Pontifícia.
Há uma forte onda de conversões ligadas à mentalidade romântica e depois com o movimento de Oxford, iniciado em 1833 e alimentado pela conversão de J.H. Newman (1801-1890) em 1845, e de H. E. Manning (1808-1892) em 1852.
Com Leão XII em 1824 acontece uma primeira restauração dos estudos universitários. É o ponto de partida para um revigoramento da cultura e para uma mais cuidadosa formação do clero, que tem o seu apogeu com Leão XIII.
Ao empenho caritativo dos católicos se somam, ao longo do século, mais fortemente na Alemanha e na Bélgica, expressões do catolicismo social, que encontrarão seu primeiro aval oficial na encíclica Rerum Novarum de 1891. São precedidas de um explícito enquadramento organizativo e apostólico do laicato.
Fenômeno característico do século XIX é, enfim, a proliferação de congregações religiosas masculinas e femininas com finalidades caritativas, assistenciais, educativas, missionárias.
O encontro com o mundo novo que nasce, parece fundamentalmente positivo quando a Igreja é governada por Pio VII, ajudado pelo cardeal Hércules Consalvi (1757-1824). Sofre turbulências e freiadas com Leão XII e com Gregório XVI. Torna-se, primeiro, encontro entusiasta; depois, espera ambígua; enfim, conflito político-religioso com Pio IX e com o cardeal Antonelli.
A anistia concedida por Pio IX, um mês depois da eleição (1846), suscita entusiasmos desmedidos, acrescidos por decisões sucessivas: a resolução de construir ferrovias (manifesto do 7 de novembro), o edito sobre a imprensa de 15 de março de 1847, a instituição da Consulta (19 de abril e 14 de outubro), a criação do conselho de Ministros (12 de junho), a formação da guarda Cívica (5 de julho), a instituição do Conselho Municipal de Roma (3 de outubro), e a cautelosa introdução de leigos no conselho de Ministros (29 de dezembro). Seguem a célebre Alocução de 10 de fevereiro de 1848 e a concessão do Estatuto em 14 de março de 1848. Multiplicam-se assim as manifestações populares de consenso e se propaga o grito: “Viva Pio IX”, com a crescente pressão dos círculos “democráticos”8.
Mas a partir da Alocução de 29 de abril de 1848, na qual a viva simpatia pela causa da unidade nacional italiana, é claramente acompanhada pela declaração da impossibilidade de intervir diretamente contra a Áustria, acirram-se ambiguidades e incompreensões .
Chega-se quase fatalmente ao confronto: o assassinato do Presidente do Conselho Pellegrino Rossi e a revolução romana (15-16 de novembro de1848), que desembocará, depois da fuga do papa para Gaeta (24 de novembro), em um governo provisório laicista e na proclamação da República Romana (5 de fevereiro de 1849). Depois da volta a Roma (1850), reconquistada pelas tropas francesas no ano precedente, Pio IX, ajudado pelo cardeal Antonelli (1806-1876), conduzirá uma política intransigente, que excluirá qualquer possível acordo com o governo italiano sobre a existência da Roma papal e do Estado Pontifício.
Não é sem fundamento falar, com referência aos extratos mais vivos da catolicidade, de um verdadeiro “caso de consciência”, que, às dificuldades de conciliar o ser “cristão” e o ser “cidadão” no novo estado leigo, acrescentava o conflito entre a paixão pela unidade nacional e a fidelidade ao papa, ao mesmo tempo chefe espiritual e soberano de um estado, cuja existência era incompatível com tal unidade.

2.2. Na Igreja em Turim


O Piemonte não ficou alheio à complexa problemática religiosa católica italiana. Antes, por sua particular posição política, por seu nível cultural e econômico e pela riqueza de suas obras de caridade, serve de paradigma para outras regiões.
Durante a vida de Dom Bosco, cinco arcebispos se sucedem na Igreja de Turim: Colombano Chiaverotti, camaldulense (1818-1831); Luís Fransoni, de nobre família genovesa (1832-1862, expulso do reino Sardo em 1850, morreu em Lyon em 1862); Alexandre Riccardi di Netro, de Biella (1867-1870); Lourenço Gastaldi, de Turim (1871-1873);o cardeal Caetano Alimonda (1883-1891).
Na situação histórica e pelas singularidades de temperamento, Chiaverotti, Fransoni e Gastaldi tiveram uma influência mais duradoura. Monsenhor Chiaverotti distingue-se pela intensa cura pastoral numa diocese provada pelo período revolucionário e napoleônico. Ele reabre o seminário de Bra para os estudantes de filosofia, acerta o de Giaveno conforme o espírito da Igreja, e em Chieri, na casa dos Filipinos, abre uma sucursal do seminário filosófico-teológico de Turim (1829): neste seminário estudará Dom Bosco, no sexênio 1835-1841. Neste ínterim nascia em Turim o Convitto (Colégio Eclesiástico) de São Francisco de Assis. Iniciou-o o teólogo Luís Guala em 1817, num clima de quentes discussões entre probabilistas e tucioristas. O arcebispo o aprovou em 23 de fevereiro de 18219.
Mais decisivo na história da Igreja de Turim e da Itália, foi o governo de Monsenhor Fransoni. Ele se dedica, antes de tudo, ao cuidado do clero, assim distribuído segundo uma estatística de 1839: 623 sacerdotes diocesanos, 325 sacerdotes religiosos, 216 religiosos leigos, 213 freiras. Com a Restauração, a Igreja do reino da Sardenha tinha recuperado os direitos e os privilégios do antigo regime, em força de uma legislação fortemente confessional de conotação jurisdicista. A censura eclesiástica é forte e o sistema escolar é de inspiração clerical, baseado no Regulamento de 1822, de clara orientação jesuítica. Predominam tendências conservadoras, muitas vezes até reacionárias. São consideradas suspeitas instituições e inovações com ressaibos de liberalismo, de protestantismo, de espírito revolucionário: obras filantrópicas como a Casa de acolhida da Mendicância, as escolas para a infância de Aporti, os cursos de metódica (é típico o choque entre Fransoni e Carlos Alberto, por ocasião do curso ministrado por Aporti do fim de agosto a princípio de outubro de 1844), as escolas noturnas e dominicais, as ferrovias, os Congressos científicos. A situação se agrava definitivamente a partir de 1847, com as primeiras reformas e com a demissão, da parte de Carlos Alberto, do reacionário conde Solaro della Margherita, com redimensionamento da censura, com a liberdade de imprensa e de culto, com a abolição do direito de asilo e do foro eclesiástico. A partir deste momento, a história religiosa do Piemonte e os conflitos que a caracterizam entrelaçam-se sempre mais com a história da Itália, dando lugar a repercussões sempre mais vastas.

Neste período, é importante a reunião de Villanovetta, de 25 a 29 de julho de 1849, dos bispos da província eclesiástica de Turim, preocupados em projetar uma ação comum frente à nova situação política e religiosa. Nesta reunião, é examinado o problema da imprensa, e os bispos de Mondovì e de Ivrea são convidados a “apresentar um projeto de associação para a imprensa e difusão dos melhores escritos eclesiásticos”.
Particular atenção se deveria ter com as orientações morais e pastorais. Um elemento ou outro será indicado mais adiante, sobre o Convitto eclesiástico e as dependências das doutrinas de Santo Afonso e da espiritualidade juvenil, propagada particularmente pela então renascida Companhia de Jesus 10.

3. Elementos de transformação no campo sócio-econômico
Neste espaço de tempo a Itália apresenta um mapa econômico e social muito heterogêneo segundo as regiões e as diversas entidades políticas. A população passa dos 18 milhões no início do século aos 24 milhões em 1850, aos 34 milhões no fim do século. A região vive uma estrutura agrícola e artesanal e ficará assim, mesmo depois da primeira industrialização do fim do século11. Permanece grande a disparidade entre região e região e, sobretudo, entre norte e sul, tornando sempre mais grave a chamada “questão meridional”. Mas, ainda que em graus diferentes, a pobreza está presente em toda parte, mais nos campos e nas montanhas que nas cidades, que se tornaram metas das migrações dos pobres, com o inevitável cortejo das doenças físicas e mentais, dos desnutridos e malnutridos12.
Fenômenos parciais de retomada se vêem especialmente em 1850; e um dos centros mais envolvidos é justamente o Piemonte e a capital Turim. No século XIX a capital registra uma notável expansão demográfica, econômica, habitacional. A população da cidade se torna cinco vezes maior, passando dos 65 mil habitantes em 1808 aos 320 mil em 1891, com um ritmo de crescimento particularmente rápido entre 1835 e 1864 (de 117 mil a 218 mil) e especialmente de 1848 a 1864( de 137 mil a 218 mil)13
No período mais quente dos inícios do Oratório, a cidade vê aumentar seus habitantes de 80 mil unidades, das quais 25 mil no quinquênio 1858-1862. Não intervêm somente causas sócio-políticas, mas também econômicas: carestia na montanha e no campo; aumento das fábricas na cidade: fábricas de tecidos, arsenal, moinhos, fábrica de alimentos, de armas, de fumo, de carruagens e carroças, ampliação da burocracia e dos empregos; aumento da construção civil; melhoramento das comunicações. Em 1858 o Piemonte tinha 935 quilômetros de ferrovias contra 100 do reino de Nápoles e 17 do Estado Pontifício; providências legislativas extraordinárias; iniciativas da administração civil, também para prevenir uma possível crise que poderia acontecer com a transferência da capital para Florença(1865)14
Este fenômeno da migração interna deu endereço ao primeiro apostolado oratoriano de D. Bosco; depois de 1870 vai motivar a abertura de várias obras na Itália e na França.



  1. Transformações no campo cultural, educativo, escolar

À estagnação dos primeiros decênios do século, sobretudo depois de 1830, dá lugar um gradual interesse pela cultura e pela escola popular. A ação catequética se põe num contexto de notável expansão pedagógica e escolar na Europa, na Itália e no Piemonte15.



Na primeira metade do século floresce o romantismo com Fröbel, Pestalozzi, Girard, e outros; aparece a escola realista de Herbart; cresce o espiritualismo; um pouco mais tarde, a pedagogia e a didática positivistas. No Piemonte é sensível, a partir dos anos 30, a contestada simpatia pelos internatos infantis de Ferrante Aporti, iniciados em Cremona em novembro de 1828.
Mais adiante faremos menção de reais ou hipotéticos contactos entre estas novas iniciativas

do oitocentos e as instituições juvenis de Dom Bosco16.
No plano da organização escolar, depois do reacionário Regulamento de Carlos Félix (1822), nota-se uma primeira decidida ruptura com o passado, provocada pela lei Boncompagni, que consagra certo monopólio estatal revertendo a situação precedente, concentrando a instrução pública nas mãos do Secretário de Estado para a Instrução Pública17.
Uma re-ordenação geral da Instrução Pública é feita pela lei Casati de 13 de novembro de 1859. O poder executivo foi pondo limites sempre mais apertados à escola particular. O próprio Dom Bosco teve este problema na condução de suas escolas.
Também o caminho da escola pública italiana, no decorrer de todo o século, ficava longo e difícil, sobretudo em nível de instrução elementar e popular18.

1 Cfr J. GODECHOT, A época das revoluções. Turim, UTET 1981, 929 páginas.

2 Cfr C. M. CIPOLLA, A revolução industrial em: História das Idéias políticas, econômicas e sociais, aos cuidados de L. Firpo. Turim UTET 1972, Volume V, página 11.

3 A republica de São Marino Conservara sua secular independência.

4 Sobre o imperialismo e colonialismo do século XIX, cfr. A. DESIDERI, História e Historiografia, volume II Do iluminismo à idade do imperialismo. Messina – Florença, G.D’Anna 1997, 1337 páginas; R Marx-R.Poidevin, Da revolução francesa ao imperialismo. Milão, CDE 1990, 410 páginas; P. SINANNI, emigração e imperialismo. Roma, editoras reunidas 1975, 258 páginas; F. BOIARDI, História das doutrinas políticas, volume V colonialismo e imperialismo (1875-1945). Milão, Nova CEI 1982, 911 páginas; G. BALANDIER e outros, As religiões na idade do colonialismo e do neo colonialismo. Bari-Roma, laterza 1990, XXIV-307 páginas.

5 R. ALBRECHT-CARRIÉ, As revoluções nacionais. Turim, UTET 1981, 543 páginas.

6 Por uma parte a existência do estado pontifício é visto como problema territorial e político italiano; ao contrário, pela outra é considerada problema teológico vital que interessa à Igreja universal e abarca a política internacional.

7 Era a lei de 13 de maio de 1871, através da qual o estado italiano pretendia legitimar a ocupação de Roma de 20 de setembro de 1870, a conquista para o reino da Itália do ex-estado pontifício e regulamentar as relações com o vaticano. Esta lei nunca foi reconhecida pela Santa Sé

8 Durante uma visita a Roma, em 1846, o Conde Solaro della Margherita “observava que ninguém gritava “Viva o papa”, mas somente “Viva pio IX” (...)”: P.PIRRI, Visita de Solaro della Margherita a Pio IX em 1946, em : “La Civiltá Catolica” 1928, III, página 509 (Carta ao rei de 05 de setembro de 1846).


9 Cfr. G.TUNITETTI, Lourenço Gastaldi (1815-1883), volume I. Teólogo, publicista, rosminiano, bispo de Saluzzo 1815-1871. Casale Monferrato, Edições Piemme 1983, páginas 35-37.


10 Cfr PEDRO STELLA, Dom Bosco na história da religiosidade católica, dois volumes, Roma, LAS 1979/1981; IDEM, Dom Bosco na história econômica e social (1815-1870),Roma, LAS 1980. Pode ser de orientação a seguinte nota: “Não causa maravilha se, no santuário de Lanzo e no Colégio Eclesiástico, dominasse o espírito da Companhia de Jesus e as suas características distinguissem os cenáculos espirituais dirigidos por Guala: Ascética inaciana, luta decisiva contra o jansenismo e o regalismo, sincera e terna devoção ao Sagrado Coração, a Nossa Senhora, ao Papa, freqüência dos sacramentos, a teologia moral segundo o espírito de santo Afonso”: F.BAUDUCCO, S.I, São José Cafasso e a Companhia de Jesus, em “A Escola Católica” 88 (1960) 289.

11 Cfr. A obra fundamental em colaboração , aos cuidados de G.MORI, A industrialização da Itália (1861-1900) Bolonha, Il Mulino 1981, segunda edição, 509 páginas.

12 Cfr. F.DELLA PERUTA, Aspectos da sociedade italiana na Itália da Restauração, em “Estudos históricos” 17 (1976) número 2, páginas 27-68; Temor e caridade. Os pobres na Itália moderna. Atas do Congresso, Pauperismo e assistência nos antigos estados italianos, Cremona, 28-30 março de 1980, aos cuidados de G. Politi, M. Rosa e F. Della Peruta. Cremona, edição do Congresso de 1982, XIV-500páginas; A. MONTICONE, pobres a caminho. Mobilidade e assistência entre a Úmbria e Roma na idade moderna. Milão. F. Angeli 1993, XIV-417 páginas; F. DELLA PERUTA, doença e medicina, sétimo volume dos Anais da História da Itália. Turim, Einaudi 1984, XX – 1293.

13 Uma imagem precisa de Turim pode ser encontrada no volume do Padre Pedro Baricco, por vários anos vice-prefeito da cidade: Turim descrita. Turim, tipografia de João Batista Paravia e companhia, 1869, 972 páginas.

14 G. M. BRAVO, Turim operária: mundo do trabalho e idéias sociais na época de Carlos Alberto. Turim, Fundação Luís Einaudi 1968, 300 páginas.

15 Ainda na metade do século a Itália sofre, como a maioria da população européia, a praga do analfabetismo. Dom Bosco, porém, inicia a sua obra no Piemonte, que era a região mais alfabetizada e das menos pobres.

16 Cfr. A. GAMBARO, A pedagogia italiana na época do Risorgimento, em Novas questões de história da pedagogia, volume II. Brescia. La Scuola 1977, páginas 535-796; D. BERTONI JOVINE, História da escola popular na Itália. Turim. Einaudi 1954, 511 páginas.

17 Cfr. V. SINISTRERO, A lei Boncompagni de 4 de 0utubro de 1848 e a liberdade da escola, em “Salesianum” 10 (1948) 369-423.

18 Cfr. G. GOZZER e outros, Ensaios de história da escola italiana da lei Casati a 1982. Roma, Armando 1982, 147 páginas; D. RAGAZZINI, História da escola e história da Itália desde a unificação até hoje. Bari, De Donato 1982, 276 páginas; D. RAGAZZINI, História da escola italiana. Linhas gerais e problemas de pesquisa. Florença, Le Monnier 1983, 132 páginas. Sobre a situação nos anos que sucederam imediatamente à lei Casati, quem fornece documentação preciosa é G. TALAMO, A escola, da lei Casati à inspecção de 1864. Milão, Giuffrè 1960,VII-420 páginas. A revista “Os problemas da pedagogia” 5 (1959), número 1 de janeiro-fevereiro, dedicou um número especial à lei Casati de 13 de novembro de 1859, que depois se tornou a lei orgânica da escola italiana até à reforma Gentile de 1923.


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