Os Tipos de Signos



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Antilogos

Proust vive, a seu modo, a oposição entre Atenas e Jerusa­lém. No decorrer da Recherche ele elimina muitas coisas ou muitas pessoas que aparentemente formam uma mistura hete­róclita: os observadores, os amigos, os filósofos, os tagarelas, os homossexuais à grega, os intelectuais e os voluntariosos. Mas todos eles participam do logos e são, sob diversos aspectos, as personagens da mesma dialética universal: a dialética como "Conversa entre Amigos", em que wdas as faculdades se exer­cem voluntariamente e colaboram, sob a égide da Inteligência, para ligar a observação das Coisas, a descoberta das Leis, a for­mação das Palavras, a análise das Idéias e tecer continuamente o vínculo entre a Parte e o Todo e entre o Todo e a Parte. Obser­var cada coisa como um todo e depois pensá-la, por sua lei, como parte de um todo, ele mesmo presente, por sua Idéia, em cada uma das partes. Não será o logos universal, o gosto pela to­talização, que se encontra, de diferentes modos, na conversa dos amigos, na verdade racional e analítica dos filósofos, na dé­marche dos sábios, na obra de arte premeditada dos literatos, no simbolismo convencional das palavras que todos empregam?!



  1. A dialética não é separável dessas características extrínsecas; é assim que Bergson a define pelas duas características da conversa entre amigos e da significação con­vencional das palavras nas cidades (cf. La pensée et le mouvant, Presses Universitai­res de France, ps. 86-88).

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No logos há um aspecto, por mais oculto que esteja, pelo qual a Inteligência vem sempre antes, pelo qual o todo já se en­contra presente e a lei já conhecida antes daquilo a que se vai aplicá-Ia: passe de mágica dialético, em que nada mais se faz do que reencontrar o que já estava dado de antemão e de onde se tiram as coisas que aí tinham sido colocadas. (Reconhecem-se restos de um logos em Sainte-Beuve e seu detestável método, quando interroga os amigos de um autor para avaliar a obra como produto de uma família, de uma época e de um meio, mesmo que considere, por sua vez, a obra como um todo que reage sobre o meio. Método que o levou a considerar Baudelaire e Stendhal um pouco como Sócrates considerou Alcebíades: gentis rapazes que merecem ser conhecidos. E Goncourt dispõe ainda das migalhas do logos quando observa o banquete dos Verdurin e os convidados reunidos "para conversas de alto ní­vel, entremeadas de jogos inocentes".)2

A Recherche é construída sobre uma série de oposições. À ob­servação Proust opõe a sensibilidade; à filosofia, o pensamento; à reflexão, a tradução; ao uso lógico ou conjunto de todas as nossas faculdades, que a inteligência precede e faz convergir na ficção de uma "alma total", um uso dislógico e disjunto que mostra que nunca dispomos de todas as faculdades ao mesmo tempo e que a inteligência vem sempre depois.3 Mais ainda: à amizade opõe-se o amor: à conversa, a interpretação silenciosa; à homossexuali­dade grega, a judia (a amaldiçoada); às palavras, os nomes; às sig­nificações explícitas, os signos implícitos e os sentidos enrolados. "Eu seguira em minha vida uma marcha inversa à dos povos, que não se servem da escrita fonética senão depois de só terem consi­derado os caracteres como uma seqüência de símbolos; eu, que


  1. TR 13. Foi nesse pastiche de Goncourt que Proust levou às últimas conseqüências sua crítica à observação, que constitui um dos temas constantes da Recherche.

  2. SG 127; sobre a inteligência que deve vir depois, cf. TR 130 e todo o prefácio de Contre Sainte-Beuve.

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durante tantos anos não buscara a vida e o pensamento reais das pessoas senão no enunciado direto que deles me forneciam elas voluntariamente, chegara, por culpa delas, a, pelo contrário, só dar importância aos testemunhos que não são uma expressão ra­cional e analítica da verdade; as mesmas palavras só me elucida­vam sob a condição de serem interpretadas como um afluxo de sangue às faces de uma pessoa que se perturba, ou ainda como um silêncio súbito."4 Não que Proust substitua a lógica do Ver­dadeiro por uma simples psicofisiologia dos motivos. É o ser da verdade que nos força a procurá-la onde ela reside, naquilo que está implicado ou complicado, e não nas imagens claras e nas idéias manifestas da inteligência.

Consideremos três personagens secundários da Recherche que, por certos aspectos, estão ligados ao logos: Saint-Loup, in­telectual ávido de amizade; Norpois, obcecado pelas significa­ções convencionais da diplomacia; Cottard, que escondeu sua timidez com a máscara fria do discurso científico autoritário. Ora, cada uma deles revela, a seu modm, a falência do logos e só tem valor por sua familiaridade com os signos mudos, fragmen­tários e subjacentes, que o integram nessa ou naquela parte da Recherche. Cottard, imbecil iletrado, encontra sua genialidade no diagnóstico, isto é, na interpretação das síndromes equívo­cas.5 Norpois sabe muito bem que as convenções da diplomacia, como as do mundanismo, mobilizam e restituem signos puros sob as significações explícitas empregadas.6 Saint-Loup explica


  1. P 70.

  2. RF 3, 54-55.

  3. CG 201-202: "O Sr. de Norpois, aflito com o aspecto que iam tomar os aconteci­mentos, sabia muito bem que não era com a palavra 'paz' ou com a palavra 'guerra' que lhe seriam notificados, mas com uma outra, banal em aparência, terrível ou bendita, e que o diplomata, com auxílio de sua cifra, saberia imediatamente ler, e à qual responderia, para salvaguardar a dignidade da França, com outra palavra igualmente banal, mas sob a qual o ministro da nação inimiga veria em seguida: guerra."

102que a arte da guerra depende menos da ciência e do raciocínio do que da penetração de signos sempre parciais, signos ambí­guos que envolvem fatores heterogênenos ou mesmo signos fal­sos destinados a enganar o adversário.7 Não há lagos da guerra, da política ou da cirurgia, mas apenas códigos enrolados nas matérias e nos fragmentos não totalizáveis que fazem do estra­tegista, do diplomata e do médico pedaços mal ajustados de um divino intérprete, mais próximo da Sra. de Thebes do que de um mestre da dialética. Proust sempre contrapõe o mundo dos signos e dos sintomas ao mundo dos atributos, o mundo do pa­thos ao mundo do lagos, o mundo dos hieróglifos e dos ideogra­mas ao mundo da expressão analítica, da escritura fonética e do pensamento racional. São constantemente recusados por ele grandes temas herdados dos gregos: o philos, a sophia, o diálogo, o lagos, a phoné; e somente os ratos que aparecem em nossos pesa­adelos "fazem discursos ciceronianos". O mundo dos signos opõe-se ao lagos de cinco pontos de vista: pela figura das partes que esses signo; recortam no mundo, pela natureza da lei que revelam, pelo uso das faculdades que requerem, pelo tipo de unidade que deles decorre e pela estutura da linguagem que os traduz e interpreta. É de todos esses pontos de vista – partes, lei, uso, unidade, estilo – que é preciso confrontar e opor o sig­no e o lagos, o pathos e o lagos.

*

Vimos que havia um platonismo proustiano: toda a Recher­che é uma experiência das reminiscências e das essências. Sa­bemos, também, que o uso disjunto das faculdades em seu exercício involuntário tem como modelo Platão, quando este apresenta uma sensibilidade que se expõe à violência dos sig­nos, uma alma memorante que os interpreta e redes cobre seu



7. CG 84.

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sentido, um pensamento inteligente que descobre a essência. Entretanto, há uma diferença evidente: a reminiscência platô­nica tem como ponto de partida qualidades ou relações sen­síveis apreendidas umas nas outras, tomadas em seu devir, em sua variação, em sua posição instável, em sua "fusão mútua" (como o igual que, sob certos aspectos, é desigual, o grande que se torna pequeno, o pesado que é inseparável do leve... ). Mas esse devir qualitativo representa um estado de coisas, um esta­do do mundo que, mais ou menos e segundo suas forças, imita a idéia. E a idéia como ponto de chegada da reminiscência é a es­sência estável, a coisa em si separando os contrários, introdu­zindo no todo a justa medida (a igualdade que só é iguaL). Razão por que a idéia vem sempre "antes", é sempre pressupos­ta, mesmo quando só é descoberta depois. O ponto de partida só vale por sua capacidade de já imitar o ponto de chegada, de tal modo que o uso disjunto das faculdades é apenas um "prelú­dio" à dialética que os reúne em um mesmo lagos, um pouco como a construção dos arcos de círculo prepara o giro do círculo inteiro. Como diz Proust, resumindo toda a sua crítica à dialéti­ca: a inteligência vem sempre antes.

Não é absolutamente o que acontece na Recherche: o devir qualitativo, a mútua fusão, "a instável oposição" são inscritos num estado d'alma e não num estado de coisas ou do mundo. Um raio oblíquo do sol poente, um perfume, um sabor, uma cor­rente de ar, um complexo qualitativo efêmero são valorizados apenas pelo "lado subjetivo" em que penetram. É por essa razão que a reminiscência intervém: a qualidade é inseparável de uma cadeia de associação subjetiva que não estamos isentos de experimentar quando a sentimos pela primeira vez. Certa­mente o sujeito não é a última palavra da Recherche: a fraqueza de Swann é ater-se às simples associações, prisioneiro de seus estados d'alma, associando a pequena frase musical de Vinteuil ao amor que teve por Odette ou às folhagens do Bois, onde ele a

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ouviu.8 As associações subjetivas, individuais, só existem para serem ultrapassadas no caminho para a essência; o próprio Swann pressente que o gozo da arte, "ao invés de ser puramente individual como o do amor", remete a uma "realidade su­perior". Mas a essência, por sua vez, não é mais a essência está­vel, a idealidade vista, que reúne o mundo em um todo e nele introduz a justa medida. A essência, segundo Proust, como ten­tamos demonstrar, não é algo visto, mas uma espécie de ponto de vista superior. Ponto de vista irredutível que significa tanto o nascimento do mundo quanto o caráter original de um mundo. Nesse sentido a obra de arte constitui e reconstitui sempre o co­meço do mundo, mas forma também um mundo específico ab­solutamente diferente dos outros, e envolve uma paisagem ou lugares imateriais inteiramente distintos do lugar em que o apreendemos. Sem dúvida, é essa estética do ponto de vista que aproxima Proust de Henry James. Mas o importante é que o ponto de vista ultrapassa o indivíduo, tanto quanto a essência ultrapassa o estado d'alma: o ponto de vista permanece superior àquele que nele se coloca ou garante a identidade de todos os que o atingem. Não é individual, mas, ao contrário, princípio de individuação. Nisso reside precisamente a originalidade da re­miniscência proustiana: ela vai de um estado d'alma, e de suas cadeias associativas, a um ponto de vista criador ou transcen­dente; e não mais, à maneira de Platão, de um estado do mundo a objetividades vistas.



De tal modo que todo o problema da objetividade, como o da unidade, se acha deslocado de uma maneira que devemos di­zer "moderna", essencial à literatura moderna. A ordem ruiu, tanto nos estados do mundo que presumidamente deveriam re­produzi-la quanto nas essências ou idéias que supostamente de­veriam inspirá-la. O mundo ficou reduzido a migalhas e caos.

8. CS 201; RF 83.

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Precisamente porque a reminiscência vai de associações subje­tivas a um ponto de vista originário, a objetividade só pode se encontrar na obra de arte: ela não existe mais nos conteúdos significativos como estados do mundo, nem nas significações ideais como essências estáveis, mas unicamente na estrutura formal significante da obra, isto é, no estilo. Não se trata mais de dizer: criar é relembrar; mas relembrar é criar, é ir até o ponto em que a cadeia associativa se rompe,- escapa ao indivíduo constituí­do, se transfere para o nascimento de um mundo individuante. E não se trata mais de dizer: criar é pensar, mas, pensar é criar e, antes de tudo, criar no pensamento o ato de pensar. Pensar é fa­zer pensar; relembrar é criar; não criar a lembrança, mas criar o equivalente espiritual da lembrança ainda por demais material, criar o ponto de vista que vale para todas as associações, o estilo que vale para todas as imagens. É o estilo que substitui a expe­riência pela maneira como dela se fala ou pela fórmula que a ex­prime, o indivíduo no mundo pelo ponto de vista sobre o mundo, e faz da reminiscência uma criação realizada.



Encontram-se os signos no mundo grego: a grande trilogia platônica, O Banquete, Fedra e Fédon, isto é, o amor, o delírio e a morte. O mundo grego não se exprime apenas no lagos como bela totalidade, mas em fragmentos e partes como objetos de aforismos, em símbolos como metades separadas, nos signos dos oráculos e no delírio dos adivinhos. Mas a alma grega sempre teve a impressão de que os signos, linguagem muda das coisas, eram um sistema mutilado, variável e enganador, restos de um lagos que deveriam ser restaurados em uma dialética, reconcilia­dos por uma philia, harmonizados por uma sophia, dirigidos por uma inteligência que antecede. A melancolia das mais belas es­tátuas gregas é o pressentimento de que o lagos que as anima vai se romper em fragmentos. Aos signos do fogo que anunciam a vitória a Clitemnestra, linguagem mentirosa e fragmentária, boa para mulheres, o corifeu opõe uma outra, o logos do mensa­geiro que reúne tudo em um, na justa medida, felicidade e ver-

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dade.9 Na linguagem dos signos, ao contrário, só há verdade naquilo que é feito para enganar, nos meandros daquilo que a oculta, nos fragmentos de uma mentira e de uma infelicidade: só há verdade traída, isto é, ao mesmo tempo entregue pelo ini­migo e revelada por contornos ou pedaços. Como disse Espino­sa quando definiu a profecia, o profeta judeu privado de lagos, reduzido à linguagem dos signos, tem sempre necessidade de um signo para persuadir-se de que o signo de Deus não é enga­nador. Porque mesmo Deus pode querer enganá-lo.

Quando uma parte vale por si própria, quando um frag­mento fala por si mesmo, quando um signo se eleva, pode ser de duas maneiras muito diferentes: ou porque permite adivinhar o todo de onde foi extraído, reconstituir o organismo ou a estátua a que pertence e procurar a outra parte que se lhe adapta, ou, ao contrário, porque não há outra parte que lhe corresponda, ne­nhuma totalidade a que possa pertencer, nenhuma unidade de onde tenha sido arrancado e à qual possa ser devolvido. A pri­meira maneira é a dos gregos: somente dessa forma eles supor­tam os "aforismos". É preciso que a menor parte seja também um microcosmo para que nela se reconheça que ela pertence ao todo mais vasto de um macrocosmo. Os signos se compõem se­gundo analogias e articulações que formam um grande Vivente, como ainda se vê no platonismo da Idade Média e do Renasci­mento, eles são tomados numa ordem do mundo, em um feixe de conteúdos significativos e significações ideais, que ainda são testemunhas de um lagos no instante mesmo em que o rompem. Não se pode invocar os fragmentos dos pré-socráticos para fazer deles os Judeus de Platão; não se pode fazer passar por uma in­tenção o estado fragmentado em que o tempo os deixou.

9. Cf. Ésquilo, Agamemnon, 460·502 (Henri Maldiney comenta esses versos ao anali· sar a oposição entre a linguagem dos signos e a do lagos, Bulletin Faculté de Lyon, 1967).

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Acontece o contrário com uma obra que tem por objeto, ou melhor, por sujeito, o tempo. Ela diz respeito a fragmentos que não podem mais se reajustar, é composta de pedaços que não fa­zem parte do mesmo puzzle, que não pertencem a uma totalida­de prévia, que não emanam de uma unidade, mesmo que tenha sido perdida. Talvez o tempo seja isso: a existência última de partes de tamanhos e de formas diferentes que não se adaptam, que não se desenvolvem no mesmo ritmo e que a corrente do estilo não arrasta na mesma velocidade. A ordem do cosmos ruiu, despedaçou-se nas cadeias associativas e nos pontos de vista não comunicantes. A linguagem dos signos se põe a falar por si mesma, reduzida aos recursos da infelicidade e da menti­ra; ela não mais se apóia em um lagos subsistente: só a estrutura formal da obra de arte será capaz de decifrar o material frag­mentário que ela utiliza, sem referência exterior, sem código alegórico ou analógico. Quando Proust procura precursores em reminiscência, cita Baudelaire, mas reprova-lhe ter feito um uso muito "voluntário" do método, istGJ é, ter procurado analo­gias e articulações objetivas ainda muito platônicas em um mundo habitado pelo lagos. Ao contrário, o que ele aprecia na frase de Chateaubriand é que o perfume de heliotrópio seja tra­zido não "pela brisa da pátria, mas pelo vento selvagem da Ter­ra-nova, alheio à planta exilada, sem simpatia de reminiscências e de volúpia".1O Entendamos que não há aqui reminiscência platôni­ca precisamente porque não há simpatia como reunião em um todo, mas que o próprio mensageiro é uma parte heteróclita que não se une à sua mensagem nem àquele a quem ele a envia. É o que sempre acontece em Proust e é justamente sua concepção inteiramente nova ou moderna da reminiscência: uma cadeia associativa heteróclita só é unificada por um ponto de vista criador, ele próprio desempenhando o papel de parte heteróclita no conjunto.

10. Citação de Chateaubriand, TR 159.

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Esse é o procedimento que garante a pureza do encontro ou do acaso e que recalca a inteligência impedindo-a de vir antes. Em vão procurar-se-iam, em Proust, as banalidades a respeito da obra de arte como totalidade orgânica, em que cada parte pre­determina o todo e o todo determina as partes (concepção dia­lética da obra de arte). O próprio quadro de Ver Meer não vale como um todo, mas pelo pequeno detalhe de parede amarela nele colocado como fragmento de um outro mundo. 11 O mesmo acontece com a pequena frase musical de Vinteuil, "intercala­da, episódica" e sobre a qual disse Odette a Swann: "Que neces­sidade tens do resto? Este é o nosso trecho."12 Também a igreja de Balbec, decepcionante quando nela procuramos "um movi­mento quase persa" em seu conjunto, revela, ao contrário, sua beleza em uma de suas partes discordantes, que representa, de fato, "dragões quase chineses".13 Os dragões de Balbec, o deta­lhe da parede de Ver Meer, a pequena frase musical, misteriosos pontos de vista nos dizem a mesma coisa que o vento de Cha­teaubriand: agem sem "simpatia", não fazem da obra uma tota­lidade orgânica; funcionam como fragmento que determina uma cristalização. Veremos que não foi por acaso que o moc:lel; dõvegetal substituiu em Proust o da totalidade animal, tanto na arte quanto na sexualidade. Tal obra, que tem como sujeito o tempo, nem mesmo precisa ser escrita em aforlsmos. É nos meandros e nos anéis de um estilo Antilogos que ela faz todos os rodeios necessários para juntar os ú(timos pedaços, arrastar em velocidades diferentes todos os fragmentos, em que cada um re­mete a um conjunto diferente, não remete a conjunto nenhum, ou só remete ao conjunto do estilo.



  1. P 157·158.

  2. CS 186.

  3. RF 331·332.

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Capítulo II

As Caixas e os Vasos


Afirmar que Proust tinha uma idéia, mesmo que confusa, da unidade prévia da Recherche, ou que a tivesse encontrado logo em seguida, mas como que animando desde o início o conjunto, é lê-lo desatentamente, é aplicar-lhe critérios de to­talidade orgânica que ele justamente recusava, é fechar-se à concepção tão nova de unidade que ele estava criando. Pois é exatamente daí que é preciso partir: a disparidade, a incomensurabilidade, o esmigalhamento das partes da Recherche, com as rupturas, os hiatos, as lacunas, as intermitências que lhe ga­rantem a diversidade final. Sob esse aspecto, há duas figuras fundamentais: uma concerne particularmente às relações con­tinente-conteúdo; a outra, às relações partes-todo. A primeira é uma figura de encaixe, de envolvimento, de implicação – as coi­sas, as pessoas e os nomes são caixa, das quais se tira alguma coisa de forma totalmente diferente, de natureza totalmente diversa, conteúdo desmedido. "Atento em relembrar exatamente o perfil do telhado ou o matiz da pedra, que, sem que eu soubes­se o motivo, me haviam parecido plenos, prestes a entreabir-se, a revelar-me aquilo de que não eram mais que a cobertura... "1 O Sr. de Charlus, "esse personagem pintalgado, pançudo e fecha­do, semelhante a alguma caixa de procedência exótica e suspei-

1. CS 153·154.

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ta", abriga em sua voz ninhada de jovens e de almas femininas tutelares.2 Os nomes próprios são caixas entreabertas que proje­tam suas qualidades sobre o ser que designam: "O nome de Guermantes de então é como um desses balõezinhos em que se encerrou oxigênio ou algum outro gás", ou como esses "peque­nos tubos" dos quais se "tira" a cor desejada.3 Com relação a esta primeira figura de envolvimento, a atividade do narrador consiste em explicar, isto é, em desdobrar, desenvolver o con­teúdo do incomensurável ao continente. A segunda figura é a da complicação: trata-se, desta vez, da coexistência de partes as­simétricas e não comunicantes, seja porque se organizam como metades bem separadas, seja porque se orientam como "lados" ou caminhos opostos, seja porque se põem a girar, a turbilho­nar, como a roda de uma loteria que arrasta e por vezes mistura os lotes fixos. A atividade do narrador consiste, então, em ele­ger, escolher; pelo menos é esta sua atividade aparente, pois mui­tas forças diversas, elas próprias complicadas nele, se esforçam para determinar sua pseudovontade, para fazê-lo eleger tal par­te na composição complexa, tal lado na instável oposição, tal lote no torvelinho das trevas.



A primeira figura é denominada pela imagem das caixas en­treabertas, a segunda pela imagem dos vasos fechados. A primei­ra (continente-conteúdo) vale pela posição de um conteúdo sem medida comum; a segunda (partes-todo) vale pela oposição de uma vizinhança sem comunicação. Freqüentemente elas se misturam, passam de uma para outra. Por exemplo: Albertina tem dois as­pectos; por um lado, ela complica em si muitas personagens, muitas jovens das quais dir-se-ia que cada uma é vista com a ajuda de um instrumento de ótica diferente, que é preciso saber escolher de acordo com as circunstâncias e os matizes do dese­jo; por outro lado, ela implica ou envolve a praia e as ondas,

  1. SG 347.

  2. CG3.

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mantém ligadas entre si "todas as impressões de uma série marí­tima" que é preciso saber desdobrar, desenvolver como se de­senrola uma corda.4 Mas cada uma das grandes categorias da Recherche não deixa de assinalar uma preferência por uma des­sas figuras, até em sua maneira de participar secundariamente daquela que não constitui sua origem. Razão por que se pode conceber cada grande categoria em uma das duas figuras como tendo seu duplo na outra, e talvez como já sendo inspirada por esse duplo, que é, a um só tempo, o mesmo e o inteiramente ou­tro. Assim, no que concerne à linguagem: os nomes próprios têm, em primeiro lugar, todo o seu poder como caixas das quais se extrai o conteúdo e, uma vez esvaziados pela decepção, orde­nam-se, ainda, uns em função dos outros, "encerrando", "en­clausurando", a história universal; mas os nomes comuns adquirem seu valor introduzindo no discurso pedaços não co­municantes de mentira e de verdade escolhidos pelo intérprete. Ou então, do ponto de vista das faculdades: a memória invo­luntária tem como atividade, antes de tudo, abrir as caixas, des­dobrar um conteúdo oculto, enquanto, do outro pólo, o desejo, ou melhor, o sono faz girar os vasos fechados, as faces circulares e elege aquele que melhor convém a determinada profundidade do sono, a determinada proximidade do despertar, a determina­do grau de amor. Ou ainda no próprio amor: o desejo e a memó­ria combinam-se para formar sedimentos de ciúme, o primeiro ocupado, antes de tudo, em multiplicar as Albertinas não co­municantes, o segundo em extrair de Albertina incomensurá­veis "regiões de lembranças".

De tal modo que só se pode considerar abstratamente cada uma das duas figuras para determinar sua diversidade específi­ca. Em primeiro lugar, perguntar-se-á qual é o continente e em que consiste exatamente o conteúdo; qual é a relação de um


  1. CG 282-283. Os dois aspectos estão bem assinalados pela expressão "por outro lado".

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com o outro; qual é a forma da "explicação"; que dificuldades ela encontra em razão da resistência do continente ou da ocul­tação do conteúdo, e, acima de tudo, onde intervém a inco­mensurabilidade dos dois, oposição, hiato, esvaziamento, corte etc. No exemplo da madeleine, Proust evoca os pedacinhos de papel japonês que, mergulhados numa bacia, se estiram e se desdobram, isto é, se explicam; "Assim, agora todas as flores de nosso jardim e as do parque do Sr. Swann, e as ninféias do Vi­vonne, e a boa gente da aldeia e suas pequenas moradias, e a igreja e toda Combray e seus arredores, tudo isso que toma for­ma e solidez, saiu, cidade e jardins, da minha taça de chá."5 Mas apenas aproximadamente. O verdadeiro continente não é a taça mas a qualidade sensível, o sabor. E o conteúdo não é uma cadeia associada a este sabor, a cadeia das coisas e das pessoas conhecidas em Combray, mas Combray como essência, Com­bray como puro ponto de vista, superior a tudo que foi vivido desse próprio ponto de vista, aparecendo, enfim, por si e em seu esplendor, numa relação de corte com a cadeia associativa que, em relação a ele, só percorria metade do caminho.6 O conteúdo foi de tal maneira perdido, nunca tendo sido possuído, que sua reconquista é uma criação. E é precisamente porque a essência como ponto de vista individuante supera toda a cadeia de asso­ciação individual com a qual rompe, que tem o poder não só de nos lembrar, mesmo intensamente, o eu que viveu toda a ca­deia, mas também de o fazer reviver em si, reindividuando-o, uma existência pura que ele jamais viveu. Neste sentido, toda "explicação" de alguma coisa é ressureição de um eu.



  1. CS 47.

  2. Já observamos que a madeleine é um caso de explicação bem-sucedida (contraria­mente às três árvores, por exemplo, cujo conteúdo permanece perdido para sem­pre). Mas bem-sucedida apenas em parte, porque, embora a "essência" já seja invocada, o narrador permanece na cadeia associativa, que não explica ainda "por que essa recordação (o) tornava tão feliz". Somente no final da Recherche é que a teoria e a experiência da essência adquirem seu estatuto.

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O ser amado é como a qualidade sensível, vale pelo que en­volve. Seus olhos seriam apenas pedras e seu corpo um pedaço de carne, se não exprimissem um mundo ou mundos possíveis, paisagens e lugares, modos de vida que é preciso explicar, isto é, desdobrar, desenrolar como os pedacinhos de papel japonês: como a Srta. de Stermaria e a Bretanha, Albertina e Balbec. O amor e o ciúme são estritamente comandados por essa ativi­dade de explicação. Há mesmo como que um duplo movimento pelo qual uma paisagem necessita enrolar-se numa mulher, como a mulher, desenrolar as paisagens e os lugares que "con­tém" encerrados em seu corpo.7 A expressividade é o conteúdo de um ser. Aí, também, poder-se-ia acreditar que exista apenas uma relação de associação entre o conteúdo e o continente. Entretanto, embora a cadeia associativa seja estritamente ne­cessária, há algo a mais, que Proust define como caráter indi­visível do desejo que quer dar uma forma a uma matéria e preencher de matéria uma forma.8 Mas o que mostra ainda que a cadeia de associações só existe em relação com uma força que a vai romper é uma curiosa distorção pela qual se é tomado no mundo desconhecido expresso pelo ser amado, esvaziado de si próprio, aspirado para esse outro universo.9 De tal modo que ser visto faz o mesmo efeito que ouvir pronunciar seu nome pelo ser amado; o efeito de aparecer nu em sua boca.1O A associação da paisagem e do ser amado no espírito do narrador é, portanto, rompida em proveito de um ponto de vista do ser amado sobre a paisagem, em que o próprio narrador é tomado, mesmo que seja para ser excluído, recalcado. Mas, desta vez a ruptura da cadeia associativa não é superada pela aparição de uma essência; ela é

  1. CS 135-136.

  2. CS 79: "... não era isso devido ao acaso de uma simples associação de idéias... "

  3. RF 230; RF 294.

  4. CS 331.

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aprofundada por uma operação de esvaziamento que restitui ao narrador o seu próprio eu. Pois o narrador-intérprete, apaixo­nado e ciumento, vai enclausurar o ser amado, encerrá-lo, se­qüestrá-lo para melhor "explicá-lo", isto é, esvaziá-lo de todos os mundos que contém. "Prendendo Albertina, restituíra eu ao universo todas aquelas asas cintilantes. (...) Elas dão beleza ao mundo. Foram elas que em outro tempo deram beleza a Alber­tina. (...) Perdera Albertina todas as suas cores. (...) Perdera pouco a pouco a beleza. (...) Convertida na desbotada prisionei­ra, reduzida ao seu eu sem brilho lhe eram necessários, para lhe serem restituídas as cores, aqueles relâmpagos em que eu me re­cordava do passado." 11 Apenas o ciúme tornará a preenchê-la, por um instante, com um universo que uma lenta explicação se esforçará, por sua vez, em esvaziar. Devolver ou restituir o eu do narrador a ele próprio? Trata-se na verdade de outra coisa. Tra­ta-se de esvaziar cada um dos eus que amou Albertina, de conduzi-lo a seu término, segundo uma lei de morte que se en­trelaça com a das ressurreições, como o tempo perdido se entre­laça com o tempo redescoberto. E os eus se obstinam tanto em procurar seus suicídios, em repetir-preparar seus próprios fins, quanto em reviver em outra coisa, repetir-rememorar suas vidas.12

Mesmo os nomes próprios têm um conteúdo inseparável das qualidades de suas sílabas e das associações livres de que fa­zem parte. Justamente porque não se pode entreabrir a caixa sem projetar todo o conteúdo associado na pessoa ou no lugar reais, ao contrário das associações forçadas, que, totalmente di­ferentes, impostas pela mediocridade da pessoa e do lugar, vêm


  1. P 145-146.

  2. RF 147: "Encarniçava-me continuamente no longo e cruel suicídio dessa parte do meu eu que em mim próprio amava Gilberta, e isso com a clarividência do que estava fazendo no presente e de suas conseqüências no futuro."

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torcer e romper a primeira série e criar um grande hiato entre o conteúdo e o continente.13 Em todos os aspectos dessa primeira figura da Recherche manifesta-se sempre a inadequação do con­teúdo; sua incomensurabilidade: seja conteúdo perdido, que se redescobre no esplendor de uma essência que ressuscita um an­tigo eu, seja conteúdo esvaziado, que provoca a morte do eu, seja conteúdo separado, que nos lança numa inevitável decepção; um mundo nunca poderá ser organizado hierárquica e objetiva­mente, as próprias cadeias de associação subjetivas, que lhe dão um mínimo de consistência ou de ordem, rompem-se em pro­veito de pontos de vista transcendentes, mas variáveis e violen­tamente imbricados, uns exprimindo verdades da ausência e do tempo perdido, outros, da presença ou do tempo redescoberto. Os nomes, os seres e as coisas estão abarrotados de um conteú­do que os faz explodir; assiste-se, então, não só a uma espécie de explosão dos continentes pelos conteúdos, mas à explosão dos próprios conteúdos que, desdobrados, explicados, não formam uma figura única, mas verdades heterogêneas em fragmentos que lutam muito mais entre si do que se conciliam. Mesmo quando o passado nos é restituído em sua essência, a conjunção do mesmo presente com o passado parece mais uma luta do que um acordo, e aquilo que nos é dado nem é uma totalidade nem uma eternidade, mas "um pouco de tempo em estado puro", isto é, um fragmento do tempo.14 Nada é pacificado por uma philia; como acontece com os lugares e os momentos, dois sentimentos só se unem lutando, e formam nessa luta um corpo irregular de pouca duração. Até mesmo no mais alto estado da essência



  1. Sobre os dois movimentos associativos em sentido inverso, cf. RF 185-186. É essa decepção que será recompensada, sem ser preenchida suficientemente, pelos prazeres da genealogia ou da etimologia dos nomes próprios: cfRoland Barthes, "Proust et les noms" (To Honor Roman ]akobson, Mouton) e Gérard Genette, "Prollst et le langage indirect" (Figures lI, Editions dll Sellil).

  2. TR 125.

116

como ponto de vista artístico, o mundo que começa faz com que os sons lutem com pedaços finais disparatados sobre os quais re­pousa. "Em breve os dois motivos lutaram entre si, num cor­po-a-corpo em que algumas vezes um desaparecia totalmente, quando, a seguir, não se percebia mais que um trecho do outro."

É isso, sem dúvida, que dá conta, na Recherche, desse ex­traordinário encadeamento de partes inconciliáveis, em ritmos de desdobramento ou em velocidade de explicação irredutíveis: não apenas elas não compõem em conjunto um todo, mas cada parte separadamente também não exprime um todo de onde se­ria arrancada, diferente do todo de uma outra parte, formando uma espécie de diálogo entre universos. Mas a força com que são projetadas no mundo, inseridas violentamente umas nas outras, apesar de suas bordas não serem correspondentes, faz com que todas elas sejam reconhecidas como partes, sem no en­tanto compor um todo, mesmo que seja oculto, sem emanar de totalidades, mesmo que sejam perdidas. Ao colocar fragmentos nos fragmentos, Proust encontra o meio de nos fazer pensar to­dos, mas sem referência a uma unidade de que eles derivariam, ou que deles derivaria. 15


  1. Disse muito bem Georges Poulet; "O universo proustiano é um universo em pe­daços, cujos pedaços contêm outros universos, esses, por sua vez, em pedaços. (...) A descontinuidade temporal é precedida, até mesmo comandada, por uma descontinuidade ainda mais radical, a do espaço" (L 'espace proustien, Gallimard, ps. 54-55). Todavia, Poulet mantém na obra de Proust os direitos de uma conti­nuidade e de uma unidade, de que ele não procura definir a natureza original muito particular (ps. 81 e 102); é que, por outro lado, ele tende a negar a origina­lidade ou a especifidade do tempo proustiano (sob o pretexto de que esse tempo nada tem a ver com uma duração bergsoniana, ele afirma que é um tempo espaci­alizado, cf. ps. 134-136). O problema de um mundo em fragmentos, em seu conteúdo mais geral, foi colocado por Maurice Blanchot (principalmente em L'entretien infini, Galli­mard). Trata-se de saber qual é a unidade ou a não-unidade de tal mundo, uma vez dito que ele nem pressupõe, nem forma um todo; "Quem diz fragmento não deve apenas dizer fragmentação de uma realidade já existente, nem momento de um conjunto ainda por vir... Na violência do fragmento uma outra relação, intei ramente diferente, nos é dada", "nova relação com o de fora", "afirmação irredutível à unidade" que não se deixa reduzir à forma aforística.

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Quanto à segunda figura da Recherche, a da complicação, que mais particularmente concerne à relação partes-todo, ve­mos ela aplicar-se às palavras, aos seres e às coisas, isto é, aos tempos e aos lugares. A imagem do vaso fechado, que marca a opo­sição de uma parte com uma vizinhança sem comunicação, substitui aqui a imagem da caixa entreaberta, que marcava a posição de um conteúdo sem medida comum com o continente. É assim que os dois lados da Recherche, o lado de Méséglise e o lado de Guermantes, permanecem justapostos "longe um do outro e sem poder-se co­nhecer, nos vasos herméticos e incomunicáveis de tardes dife­rentes",16 Impossível fazer como diz Gilberta: "Podemos ir a Guermantes passando por Méséglise." Mesmo a revelação final do tempo redescoberto não os unificará, nem os fará convergir, apenas multiplicará as "transversais", também incomunican­tes.17 Do mesmo modo, o rosto dos seres tem pelo menos dois la­dos assimétricos, como "duas estradas opostas que nunca se co­municarão": é o que acontece com Rachel, que tem o rosto da generalidade e o da singularidade, como também o da nebulosa informe, vista de muito perto, e o da boa organização, a distân­cia conveniente. Ou então com Albertina, que tem o rosto que inspira confiança e o que reage à suspeita do ciúme.18 Os dois lados ou os dois caminhos são apenas direções estatísticas. Po­demos formar uni. conjunto complexo, mas nunca nós o forma­remos sem que ele se cinda, por sua vez, em mil vasos fechados: como o rosto de Albertina, que, quando pensamos em juntá-lo para um beijo, salta de um plano a outro durante o percurso de nossos lábios à sua face; "dez Albertinas" em vasos fechados, até

  1. CS 118.

  2. TR 237.

  3. F 56 e CG 121,133-134.

118

o momento final quando tudo se desfaz na proximidade exage­rada.19 Em cada vaso um eu que vive, que percebe, que deseja e se recorda, que vela ou que dorme, que morre, se suicida e revi­ve intermitentemente: "esmigalhamento", "fracionamento" de Albertina, a que corresponde uma multiplicação do eu. Uma mesma notícia global, a partida de Albertina, deve ser sabida por todos esses eus distintos, cada qual no fundo de sua urna.20

Não acontece o mesmo, em outro nível, com o mundo, rea­lidade estatística sob a qual "os mundos" são tão separados quanto astros infinitamente distantes, cada qual possuindo seus signos e suas hierarquias, que fazem com que um Swann ou um Charlus nunca sejam reconhecidos pelos Verdurin, até a grande mistura do final, cujas novas leis o narrador renuncia a apreen­der, como se também ele tivesse atingido esse limiar de proximi­dade em que tudo se desfaz e volta ao estado de nebulosa? Finalmente, os discursos ou as faltas operam também, do mes­mo modo, uma distribuição estatística das palavras, sob a qual o intérprete discerne camadas, famílias, subordinações e emprés­timos muito diferentes uns dos outros, que dão testemunho das ligações daquele que fala, de seus relacionamentos e de seus mundos secretos, como se cada palavra pertencesse a um aquá­rio colorido deste ou daquele modo, contendo determinada es­pécie de peixes, para além da falsa unidade do logos: é o que acontece com certas palavras que não faziam parte do vocabu­lário anterior de Albertina e que persuadem o narrador de que ela se tornara mais abordável ao entrar numa nova faixa de ida­de, com novas relações; ou então com a horrível expressão "se faire casser le... ", que revela ao narrador um mundo abominá­vel.21 É por isso que, em oposição ao logos-verdade, a mentira


  1. CG 284-285: "Soube, por esses detestáveis signos, que estava beijando as faces de Albertina."

  2. F 9.

  3. CG 276-278; P 290-292.

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pertence à linguagem dos signos; como a imagem de um puzzle desajustado, as próprias palavras são fragmentos de um mundo que se ajustariam a outros fragmentos do mesmo mundó, mas não àos outros fragmentos de outros mundos junto aos quais os tivéssemos posto.22 Existe, portanto, aqui, nas palavras, como que um fundamento geográfico e lingüístico para a psicologia do mentiroso.

É o que significam os vasos fechados: só existe totalidade estatística e privada de sentido profundo. "Pois o que nós julga­mos seja o nosso amor, o nosso ciúme, não é uma mesma paixão contínua, indivisível. Compõem-se eles de uma infinidade de amores sucessivos, de ciúmes diferentes, mas, por sua multidão initerrupta, dão a impressão da continuidade, a ilusão da unida­de."23 Entretanto, entre todas as partes fechadas, existe um sis­tema de passagem, que não se deve confundir com um meio de comunicação direta nem de totalização. Como entre o caminho de Méséglise e o caminho de Guermantes, toda a obra consiste em estabelecer transversais que nos fazem saltar de um a outro perfil de Albertina, de uma Albertina a outra, de um mundo a outro, de uma palavra a outra, SEP nunca reduzir o múltiplo ao uno; sem nunca reunir o múltiplo em um todo, mas afirmando a unidade bastante original daquele múltiplo, afirmando, sem os reunir, todos esses fragmentos irredutíveis ao todo. O ciúme é a transversal da multiplicidade amorosa; a viagem, a transversal da multiplicidade dos lugares; o sono, a transversal da multipli­cidade dos momentos. Os vasos fechados se organizam ora em


  1. CS 234; PISO. Com relação a Odette tanto quanto com relação a Albertina, Proust invoca esses fragmentos de verdade que, introduzidos pelo ser amado para autenticar uma mentira, têm como efeito contrário denunciá-Ia. Mas, antes de se referir à verdade ou à falsidade de um relato, esse "desacordo" se refere às pró­prias palavras que, reunidas numa frase, têm origens e alcances bastante dife­rentes.

  2. CS 307-309.

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partes separadas, ora em direções opostas, ora (como em certas viagens, ou durante o sono) em círculo. Mas o importante é que o círculo não se fecha, não totaliza, ao contrário, faz desvios e forma ângulos, é um círculo descentrado que faz passar para a direita o que estava à esquerda e para a extremidade o que esta­va no centro. Não se estabelece a unidade de todas as vistas de uma viagem de trem no próprio círculo, que guarda suas partes fechadas, nem na coisa contemplada, que multiplica as suas, mas em uma transversal que sempre se está percorrendo, indo "de uma janela a outra",24 Tanto isso é verdade que a viagem não faz os lugares se comunicarem nem os reúne, mas só afirma em comum sua diferença (essa afirmação comum se fazendo em outra dimensão que não a da diferença afirmada – na trans­versal) .25

A atividade do narrador não consiste mais em explicar, des­dobrar um conteúdo, mas em eleger, escolher, uma parte não comunicante, um vaso fechado, com o eu nele contido. Esco­lher determinada jovem num grupo, determinado corte ou pla­no fixo na jovem, escolher determinada palavra naquilo que ela diz, determinado sofrimento no que ela nos faz sentir e, para sentir esse sofrimento, para decifrar a palavra, para amar essa jovem, escolher determinado eu que se faz viver ou reviver en-


  1. RF 181: "O trem fez uma volta... e eu me desolava por haver perdido minha faixa de céu rósea, quando a avistei de novo, mas vermelha desta vez, na janela fron­teira, que ela abandonou, a um segundo cotovelo da linha férrea; de modo que eu passava o tempo a correr de uma janela a outra, para aproximar, para enquadrar os fragmentos intermitentes e opostos de minha bela madrugada escarlate e fugi­dia, e ter dela uma vista total e um quadro contínuo." Esse texto invoca certa­mente uma continuidade e uma totalidade, mas o essencial é saber onde elas se elaboram – nem no ponto de vista, nem na coisa vista, mas na transversal, de uma janela a outra.

  2. RF 173: "O prazer específico das viagens (...) é tornar a diferença entre a partida e a chegada não tão insensível, mas tão profunda quanto possível, em senti-ia na sua totalidade, intacta... "

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tre todos os possíveis: essa é a atividade correspondente à com­plicação.26 Essa atividade de escolha, sob a forma mais pura, nós a vemos exercer-se no momento do despertar, quando o sono fez girar todos os vasos fechados, todas as peças cerradas, todos os eus seqüestrados, freqüentados por quem dorme. Não só existem diferentes compartimentos do sono que giram aos olhos do insone em vias de escolher sua droga ("sono do estra­mônio, do cânhamo-da-índia, dos variados extratos do éter... ") – mas todo homem que dorme "mantém em círculo, em volta de si, ao longo das horas, a ordem dos anos e dos mundos": o problema do despertar é o de passar deste compartimento do sono, e de tudo o que aí se desenrola, ao compartimento real onde se está, de redescobrir o eu da vigília entre todos aqueles que se acaba de ser em sonho, que se poderia ter sido ou que se foi, de redescobrir, enfim, a cadeia associativa que nos fixa ao real, ao deixar os pontos de vista superiores do sono.27 Não se deve perguntar quem escolheu. Certamente nenhum eu, visto que nós mesmos somos escolhid05, visto que um determinado eJ é escolhido cada vez que "nós" escolhemos um ser para amar, um sofrimento a suportar, e que esse eu não menos se surpreen­de em viver e reviver, e em responder ao apelo, não sem se fazer esperar. Desse modo, ao sair do sono "não se é mais ninguém. Como, então, procurando nosso pensamento, a nossa persona­lidade, como se procura um objeto perdido, acaba-se por en­contrar o próprio eu antes de outro qualquer? Por que, quando recomeçamos a pensar, não é então uma outra personalidade, que não a anterior, que se encarna em nós? Não se vê o que é que dita a escolha e por que, entre os milhões de seres humanos



  1. F 99-100: "No sofrimento físico, pelo menos, não precisamos escolher nós mes­mos a nossa dor. A doença no-ia determina e impõe. Mas, no ciúme, temos de ensaiar de algum modo sofrimentos de todo gênero e de toda magnitude, antes de nos determos naquele que parece convir-nos."

  2. Cf. as célebres descrições do sono e do despertar, CS 11-16 e CG 62-64.

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que a gente poderia ser, vamos pôr a mão exatamente naquele que éramos na véspera".28 Na verdade, existe uma atividade, um puro interpretar, puro escolher, que não tem nem sujeito nem objeto, visto que ela escolhe tanto o intérprete quanto a coisa a interpretar, tanto o signo quanto o eu que o decifra. É o que se dá como o "nós" da interpretação: "Mas nem sequer di­zemos nós... um nós que não tivesse conteúdo."29

Assim, o sono é mais profundo do que a memória, pois a memória, mesmo involuntária, permanece ligada ao signo que a solicita e ao eu já escolhido que ela fará reviver, enquanto o sono é a imagem do puro interpretar que se enrola em todos os signos e se desenvolve através de todas as faculdades. O inter­pretar só tem uma unidade transversal; ele é a única divindade de que qualquer coisa é fragmento, mas sua "forma divina" não recolhe nem recola os fragmentos: ela os conduz, ao contrário, ao mais alto estado, ao mais agudo, impedindo que eles formem um conjunto ou sejam destacados. O "sujeito" da Recherche não é, finalmente, nenhum eu, é esse nós sem conteúdo que distri­bui Swann, o narrador, Charlus, e os distribui ou os escolhe sem totalizá-los.

Vimos, anteriormente, signos que se distinguiam por sua matéria objetiva, sua cadeia de associação subjetiva, a faculda­de que os decifra, sua relação com a essência. Mas, formalmen­te, os signos têm dois tipos que se encontram em todas as espécies: as caixas entreabertas, a serem explicadas, e os vasos fechados, a serem escolhidos. E se o signo é sempre fragmento sem totalização nem unificação, é porque o conteúdo se atém ao continente por toda a força da incomensurabilidade que traz consigo, e porque o vaso se atém a sua vizinhança por toda a força de não-comunicação que mantém em si. A incomensura­bilidade e a não-comunicação são distâncias, mas distâncias

28. CG 63.

123


que colocam um dentro do outro ou os aproximam. E o tempo não significa outra coisa: sistema de distâncias não espaciais, distância específica do próprio contíguo ou do próprio conteú­do, distâncias sem intervalos. Sob esse aspecto, o tempo perdido, que introduz distâncias entre coisas contíguas, e o tempo redes­coberto, que estabelece, ao contrário, uma contigüidade entre coisas distantes, funcionam de maneira complementar confor­me seja o esquecimento ou a lembrança que operem "inter­polações fragmentadas, irregulares". Pois ainda não é esta a diferença entre o tempo perdido e o tempo redescoberto; o pri­meiro, por sua força de esquecimento, de doença e de idade, afirma os pedaços como que disjuntos, tanto quanto o outro, com sua força de lembrança e de ressurreição.30 De qualquer modo, segundo a fórmula bergsoniana, o tempo significa que tudo não é dado: o Todo não pode ser dado. O que não quer dizer que o todo "se faz" em uma outra dimensão que seria pre­cisamente temporal, como o entende Bergson, ou como o en­tendem, por sua vez, os dialéticos partidários de um processo de totalização; mas que o tempo, último intérprete, último inter­pretar, tem o estranho poder de afirmar simultaneamente peda­ços que não formam um todo no espaço, como também não formam uma unidade por sucessão no tempo. O tempo é exata­mente a transversal de todos os espaços possíveis, inclusive dos espaços âe tempo.

  1. F 139. Nesse trecho é o esquecimento que tem força de interpolação fragmenta. da, introduzindo distâncias entre nós e os acontecimentos recentes; enquanto em SG 129 é a lembrança que se interpola e dá contigüidade às coisas distantes.

124


Capítulo III

Os Níveis da Recherche

Em um universo assim fragmentado não há lagos que possa reunir todos os pedaços: não há lei que os ligue a um todo; não há todo a redescobrir nem mesmo a formar. E no entanto há uma lei; mas o que mudou foi sua natureza, sua função, sua rela­ção. O mundo grego é um mundo em que a lei vem sempre em segundo lugar; ela é potência secundária em relação ao lagos que abrange o todo e o refere ao Bem. A lei, ou melhor, as leis apenas regem as partes, as adaptam, aproximam, reúnem, nelas estabelecendo um "melhor" relativo. As leis também só valem na medida em que nos permitem conhecer alguma coisa que as ultrapassa e em que elas determinam uma figura do "melhor", isto é, o aspecto que toma o Bem no lagos em relação a determi­nadas partes, determinada região, determinado momento. Pa­rece que a consciência moderna do antilogos impôs à lei uma revolução radical. Na medida em que ela rege um mundo de fragmentos não totalizáveis e não totalizados, a lei se toma po­tência primordial; ela não diz mais o que é bom, mas é bom o que diz a lei. Assim, ela adquire uma espantosa unidade: não há mais leis especificadas desta ou daquela maneira, mas a lei, sem outra especificação. É bem verdade que esta unidade espantosa é absolutamente vazia, unicamente formal, visto que ela não nos permite conhecer nenhum objeto distinto, nenhuma totali­dade, nenhum Bem de referência, nenhum lagos referente. Ao invés de juntar e adaptar partes, ela, ao contrário, as separa, as

125


compartimenta, introduz a não-comunicação no contíguo, a não-comensurabilidade no continente. Nada nos possibilitan­do conhecer, a lei só nos mostra o que ela é marcando nossa car­ne, já nos aplicando a sanção; eis, então, o fantástico paradoxo: como não sabíamos o que queria a lei antes de receber a puni­ção, só podemos obedecer à lei como culpados, só podemos lhe responder por nossa culpabilidade, visto que ela só se aplica às partes como que disjuntas, tornando-as ainda mais disjuntas, desmembrando-lhes os corpos, arrancando-lhes os membros. Rigorosamente incognoscível, a lei só se dá a conhecer quando aplica as mais duras sanções ao nosso corpo supliciado.

A consciência moderna da lei adquire uma forma particu­larmente aguda com Kafka: é em A muralha da China que apa­rece o liame fundamental entre o caráter fragmentário da muralha, a maneira fragmentária de sua construção e o caráter incognoscível da lei, sua determinação idêntica a uma sanção de culpabilidade. Em Proust, no entanto, a lei apresenta uma outra figura, porque a culpabili.dade é, antes de tudo, como que a aparência que oculta uma realidade fragmentária mais pro­funda, ao invés de ser ela mesma essa realidade mais profunda, à qual nos levam os fragmentos separados. À consciência depres­siva da lei, tal como aparece em Kafka, se opõe a consciência es­quizóide da lei segundo Proust. Entretanto, à primeira vista, a culpabilidade desempenha um grande papel na obra de Proust, com seu objeto essencial: a homossexualidade. Amar pressupõe a culpabilidade do ser amado, embora todo o amor seja uma dis­cussão sobre as provas, um julgamento de inocência pronuncia­do sobre o ser que no entanto sabemos que é culpado. O amor é, pois, uma declaração de inocência imaginária estendida entre duas certezas de culpabilidade, a que condiciona a priori o amor e o torna possível e a que acaba o amor, que lhe marca o fim ex­perimental. Daí o narrador não poder amar Albertina sem ter apreendido esse a priori de culpabilidade que ele vai deslindar

126

em toda a sua experiência através de sua persuasão de que ela é inocente apesar de tudo (essa persuasão sendo inteiramente ne­cessária, agindo como reveladora): "Aliás, mais até do que as culpas do tempo em que as amamos, há as culpas de antes de as conhecermos, e a primeira de todas: sua índole. O que, com efeito, torna dolorosos tais amores, é que lhes preexiste uma es­pécie de pecado original da mulher, um pecado que no-las faz amar... "1 "Afinal, e apesar de todas as negativas da razão, esco­lhê-la e amá-la não era conhecer Albertina em toda a sua he­diondez?... Sentirmo-nos atraídos por um ser, e começar a amá-lo, é, por mais inocente que nos pareça, ler, já em versão diferente, todas as suas traições e suas faltas."2 O amor acaba quando a certeza a priori de culpabilidade completou sua traje­tória, quando se tornou empírica, desfazendo a persuasão empí­rica de que Albertina era, apesar de tudo, inocente; uma idéia "formava pouco a pouco o fundo da minha consciência, aí se substituindo à idéia de que Albertina era inocente – era a idéia de que ela era culpada", de modo que a certeza das faltas de Albertina só se revelou ao narrador quando elas não mais o in­teressavam, quando ele deixou de amá-la, vencido pelo cansaço e pelo hábito.3



Com mais razão, a culpabilidade aparece nas séries homos­sexuais. Lembremo-nos da veemência com que Proust traça o quadro da homossexualidade masculina como raça maldita, "raça sobre a qual pesa uma maldição e que tem que viver em mentira e perjúrio, filhos sem mãe... amigos sem amizades... sem honra, que não precária, sem liberdade, que não provisória até o descobrimento do crime; sem posição que não seja instável", homossexualidade-signo que se opõe à grega, à homossexuali-

  1. P 126.

  2. F 151-152.

  3. F 92.

127

lidade-logos.4 Mas o leitor tem a impressão de que essa culpabilidade é mais aparente do que real; e se o próprio Proust fala da originali­dade de seu projeto, se ele próprio declara ter passado por várias "teorias", é porque ele não se contenta em isolar especificamen­te uma homossexualidade maldita. Todo o tema da raça maldi­ta ou culpada se entrelaça, aliás, com um tema de inocência, a sexualidade das plantas. A complexidade da teoria proustiana é enorme devido ao fato de que ela apresenta vários níveis. Em um primeiro nível, o conjunto dos amores intersexuais em seus contrastes e suas repetições; em segundo nível, esse conjunto se divide em duas séries ou direções; a de Gõmorra, que esconde o segredo cada vez revelado, da mulher amada, e a de Sodoma, que traz o segredo, ainda mais oculto, do amante. É nesse nível que impera a idéia de falta ou de culpabilidade; mas, se esse se­gundo nível não é o mais profundo é devido ao fato de ele pró­prio ser tão estatístico quanto o conjunto que ele decompõe: a culpabilidade, nesse sentido, é vivida muito mais como social do que como moral ou interiorizada. De modo geral, pode-se observar em Proust que não apenas um conjunto dado só tem valor estatístico, como também os dois lados dissimétricos ou as duas grandes direções em que ele se divide. Por exemplo: o "exército" ou a “multidão" de todos os eus do narrador que amam Albertina forma um conjunto de primeiro nível; mas os dois subgrupos da "confiança" e da "suspeita do ciúme" estão em um segundo nível de direções ainda estatísticas que reco­brem movimentos de terceiro nível, as agitações das partículas singulares, de cada um dos eus que compõem a multidão ou o exército nessa ou naquela direção.5 Do mesmo modo, o cami­nho de Méséglise e o caminho de Guermantes só devem ser considerados como lados estatísticos, também eles como que



  1. SG 14. Contre Sainte-Beuve, capo XIII: "A raça maldita".

  2. 56: "Na multidão, esses elementos podem... "

128

formados por uma multidão de figuras elementares. Do mesmo modo, enfim, a série de Gomorra e a série de Sodoma, com suas culpabilidades correspondentes, são sem dúvida mais finas do que a grossa aparência dos amores heterossexuais, mas ocultam ainda um último nível, constituído pelo comportamento de ór­gãos e partículas elementares.

O que interessa realmente a Proust nas duas séries homos­sexuais, e o que as torna estritamente complementares, é a pro­fecia da separação que elas realizam: "Os dois sexos morrerão cada um para seu lado."6 E a metáfora das caixas ou dos vasos fechados adquire todo o seu sentido se considerarmos que os dois sexos estão ao mesmo tempo presentes e separados no mesmo indivíduo: contíguos, mas compartimentados e não co­municantes, no mistério do hermafroditismo inicial. É aí, justa­mente, que o tema vegetal adquire todo o seu sentido, por oposição a um lagos-vivente: o hermafroditismo não é a proprie­dade de uma totalidade animal hoje perdida, mas a comparti­mentação atual dos dois sexos numa mesma planta. "O órgão masculino está separado nela por um tabique do órgão femini­no."7 E é nesse ponto que vai se situar o terceiro nível: um indiví­duo de determinado sexo (só se é de determinado sexo global ou estatisticamente) traz em si mesmo o outro sexo, com o qual não pode comunicar-se diretamente. Quantas jovens aninha­das em Charlus e que mais tarde se tornarão também avós.8 "Em alguns (...) a mulher se acha não só interiormente unida ao homem, mas horrivelmente visível, agitados como estão em um espasmo de histérico, por um riso agudo que lhes convulsiona os joelhos e as mãos."9 O primeiro nível foi definido pelo con-


  1. SG 14.

  2. SG 23, 84.

  3. SG 243, 289. Cf. o comentário de Roger Kempf, "Les cachotteries de M. de Char­Jus", Critique, janeiro de 1968.

  4. SG 18.

129

junto estatístico dos amores heterossexuais; o segundo, pelas duas direções homossexuais ainda estatísticas, pelas quais um indivíduo tomado no conjunto precedente era remetido a outros indivíduos do mesmo sexo, participando da série de Sodoma, se é homem, e da série de Gomorra, se é mulher (como Odette e Albertina). Mas o terceiro nível é transexual ("o que erroneamente chamamos homossexualidade") e ultrapassa tanto o indivíduo quanto o conjunto: designa no indivíduo a coexistência de fragmentos dos dois sexos, objetos parciais que não se comunicam. O mesmo acontece com as plantas: o her­mafrodita tem necessidade de um terceiro (o inseto) para que a parte feminina seja fecundada ou para que a parte masculina seja fecundante. 10 Uma comunicação aberrante se faz em uma dimensão transversal entre sexos compartimentados. Ou me­lhor, é ainda mais complicado, porque vamos encontrar nesse novo plano a distinção entre o segundo e o terceiro nível. Com efeito, pode acontecer que um indivíduo globalmente determi­nado como masculino procure, para fecundar sua parte femini­na com a qual ele próprio não pode se comunicar, um indivíduo globalmente do mesmo sexo que ele (o mesmo acontecendo com a mulher e sua parte masculina). Entretanto, em um caso mais profundo, o indivíduo globalmente determinado como masculino fecundará sua parte feminina por meio de objetos parciais que podem ser encontrados tanto numa mulher como num homem. Aí está o fundo do transexualismo segundo Proust: não mais uma homossexualidade global e específica em que os homens se relacionam com os homens e as mulheres com as mulheres numa separação de duas séries, mas uma homossexua­lidade local e não específica em que o homem procura também o que há de masculino na mulher, e a mulher, o que há de femini-

10. SG 4, 23.

130


no no homem; e isso na contigüidade compartimentada dos dois sexos como objetos parciais.11

Daí o texto, aparentemente obscuro, em que Proust opõe à homossexualidade global e específica essa homossexualidade local e não específica: "Uns, os que tiveram a infância mais tí­mida sem dúvida, pouco se preocupam com a qualidade ma­terial do prazer que recebem, contanto que possam referi-lo a um rosto masculino. Enquanto outros, dotados indubitavel­mente de sentidos mais violentos, assinalam a seu prazer mate­rial imperiosas localizações. Estes ofenderiam acaso com suas confissões ao tipo mediano das pessoas. Talvez vivam menos ex­clusivamente sob o signo de Saturno, já que para eles as mulhe­res não estão totalmente excluídas como para os primeiros... Mas os segundos buscam aquelas que gostam de mulheres, po­dem conseguir-lhes algum jovem, aumentar-lhes o prazer que sentem em encontrar-se com ele; ainda mais, podem, da mesma forma, achar nel-as o mesmo prazer que com um homem. Daí vem que somente existem os ciúmes, dos que amam os primei­ros, pelo prazer que pudessem ter com um homem e que é o úni­co que lhes parece uma traição, já que não participam do amor das mulheres, não o praticaram senão como costume e para re­servar-se a possibilidade do matrimônio, imaginando tão escas­samente o gozo que este pode proporcionar, que não os faz sofrer a não ser que o experimente aquele a quem amam, ao passo que os segundos muitas vezes inspiram ciúmes por causa de seus amores com mulheres. Porque, nas relações que com elas mantêm, representam para a mulher que gosta das mulhe­res o papel de outra mulher, e a mulher lhes oferece ao mesmo



  1. Gide, que se bate pelos direitos de uma homossexualidade-Iogos, critica em Proust o fato de considerar apenas os casos de inversão e de efeminação. Ele se atém ao segundo nível, não parecendo absolutamente ter compreendido a teoria proustiana. (Da mesma maneira que aqueles que se limitam ao tema da culpabili­dade em Proust.)

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tempo aproximadamente o que encontram eles no homem... "12 Se compreendermos o sentido desse transexualismo como últi­mo nível da teoria proustiana, e sua relação com a prática das compartimentações, não apenas se esclarecerá a metáfora vege­tal, como também se tornará totalmente grotesca a pergunta sobre o grau de "transposição" que Proust teria realizado, como se acredita, para transformar Alberto em Albertinaj mais gro­tesco ainda seria apresentar como uma revelação a descoberta de que Proust deve ter tido algumas relações amorosas com mu­lheres. É o caso de dizer que realmente a vida não dá nenhuma contribuição para a obra ou para a teoria, pois a obra ou a teoria se ligam à vida secreta por um liame mais profundo do que o de todas as biografias. Basta seguir o que Proust explica em seu grande relato de Sodoma e Gomorra: o transexualismo, isto é, 8 homossexualidade local e não específica, fundada na comparti­mentação contígua dos sexos-órgãos ou dos objetos parciais, que se descobre sob a homossexualidade global e específica fundada na independência dos sex9s-pessoas ou das séries de conjunto.

O ciúme é o delírio próprio dos signos. Encontra-se err Proust a confirmação de um liame fundamental entre o ciúme e a homossexualidade, embora lhe dê uma interpretação inteiramente nova. Na medida em que o ser amado contém mundos possíveis (Srta. de Stermaria e a Bretanha, Albertina e Balbec) trata-se de explicar, de desdobrar todos esses mundos. Mas, precisamente porque esses mundos só têm valor pelo ponto de vis ta que o amado tem sobre eles, e que determina a maneira come se enrolam neles, o amante nunca poderá ser suficientementl tomado nesses mundos sem ser ao mesmo tempo excluído deles pois só lhes pertence como coisa vista, portanto, também come coisa quase não vista, quase não notada, excluída do ponto de

12. SG 19-20.

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vista superior a partir do qual se faz a seleção. O olhar do ser amado só me integra na paisagem e circunvizinhanças excluin­do-me do ponto de vista impenetrável a partir do qual a paisa­gem e circunvizinhanças nele se organizam: "Se me vira, que lhe poderia eu significar? Do seio de que universo me distinguia ela? Ser-me-ia tão difícil dizê-lo como, ao nos aparecerem ao te­lescópio certas particularidades em um astro vizinho, seria de­sastrado inferir que ali habitam seres humanos, que eles nos avistam e que idéias essa visão acaso lhes despertou."13 Do mes­mo modo, as preferências e as carícias do amado só me tocam quando delineiam a imagem dos mundos possíveis em que ou­tros foram, são ou serão preferidos. 14 Razão pela qual, em segun­do lugar, o ciúme não é mais simplesmente a explicação dos mundos possíveis envolvidos no ser amado (em que outros, pare­cidos comigo, podem ser vistos e escolhidos), mas a descoberta do inundo incognoscível que representa o ponto de vista do pró­prio amado e que se desenvolve em sua série homossexual. Nele o amado só está em relação com seres iguais a ele, mas diferen­tes de mim, fontes de prazeres que me são desconhecidos e im­praticáveis: "Era uma terra incógnita terrível a que eu acabara de aterrar, uma fase nova de sofrimentos insuspeitados que se abria."15 Finalmente, em terceiro lugar, o ciúme descobre a transexualidade do ser amado, tudo aquilo que se oculta ao lado de seu sexo aparente globalmente determinado, os outros sexos contíguos e não comunicantes, e os estranhos insetos encarre­gados de estabelecer a comunicação entre esses lados – em suma, a descoberta dos objetos parciais, ainda mais cruel do que a das pessoas rivais.

Há uma lógica do ciúme que é das caixas entreabertas e dos vasos fechados e que consiste em seqüestrar, em enclausurar o



  1. RF 294.

  2. CS 232.

  3. SG 405.

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ser amado. É essa a lei que Swann pressente no final de seu amor por Odette e que o narrador já percebe em seu amor pela mãe, sem ter ainda força para aplicá-la, e que finalmente aplica­rá em seu amor por Albertina.16 Toda a filiação secreta da Re­cherche, os tenebrosos cativos. Seqüestrar é, em primeiro lugar, esvaziar o ser amado de todos os mundos possíveis que ele con­tém, é decifrar e explicar esses mundos; mas é também relacio­ná-los com o ponto de envolvimento, com a dobra que marca seu pertencimento ao ser amado.17 Em seguida, é cortar a série homossexual que constitui o mundo desconhecido do amado; mas é também descobrir a homossexualidade como o pecado original do amado, cujo seqüestro é a forma de punição. Enfim, seqüestrar é impedir os lados contíguos, os sexos e os objetos parciais de se comúnicarem na dimensão transversal freqüenta­da pelo inseto (o terceiro objeto); é fechá-los em si mesmos, in­terrompendo as malditas trocas; mas é também colocá-los um do lado do outro e deixá-los inventar seu sistema de comunica­ção que sempre nos surpreende, que cria prodigiosos acasos e despista nossas suspeitas (o segredo dos signos). Há uma rela­ção impressionante entre o seqüestro causado pelo ciúme, a paixão de ver e a ação de profanar – a trindade proustiana: se­qüestro, voyeurismo e profanação. Porque aprisionar é precisa­mente colocar-se na posição de ver sem ser visto, isto é, sem arriscar-se a ser dominado pelo ponto de vista do outro que nos expulsava do mundo ao mesmo tempo que nos incluía. Assim acontece quando o narrador vê Albertina dormir. Ver é exata­mente reduzir o outro aos lados contíguos não comunicantes que o constituem e esperar o modo de comunicação transversal que essas metades compartimentadas encontrarão um jeito de criar. Ver também se ultrapassa na tentação de fazer ver, de mostrar, mesmo que seja simbolicamente. Fazer ver é impor

  1. RF 108 e P 12-13.

  2. P 145-146.

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a alguém a contigüidade de um espetáculo estranho, abominá­vel, hediondo. É não apenas impor-lhe a visão dos vasos fecha­dos e contíguos, objetos parciais entre os quais se esboça um acoplamento contranatureza, mas também tratar esse alguém como se ele próprio fosse um desses objetos, um desses lados contíguos que devem comunicar-se transversalmente.

Daí o tema da profanação, tão caro a Proust. A Srta. Vinteuil põe a fotografia de seu pai em contigüidade com seus entretenimentos sexuais. O narrador põe móveis de família numa casa de tolerância. Sendo beijado por Albertina ao lado do quarto materno, ele pode reduzir a inãe ao estado de objeto parcial (língua) contíguo ao corpo de Albertina. Sonhando, ele põe seus pais em jaulas como se fossem ratos feridos, abandona­dos aos movimentos transversais que os atravessam e os fazem sobressaltar-se. Profanar é sempre fazer a mãe (ou o pai) funcio­nar como objeto parcial, isto é, compartimentá-Ia, fazê-la ver um espetáculo contíguo e até mesmo fazê-la atuar nesse espetá­culo que ela não pode mais interromper e do qual não pode es­capar, fazê-la juntar-se ao espetáculo.18

Freud assinalou duas angústias fundamentais em relação com a lei: a agressividade contra o ser amado acarreta, por um lado, uma ameaça de perda de amor, por outro lado, uma culpa­bilidade por uma volta da agressividade contra si próprio. A segunda figura dá à lei uma consciência depressiva, mas a pri­meira é uma consciência esquizóide da lei. Em Proust o tema da culpabilidade permanece superficial, mais social do que moral, mais projetado sobre os outros do que interiorizado ao narrador, distribuído nas séries estatísticas. Em compensação, a perda do amor define realmente o destino ou a lei: amar sem ser amado,

18. Esse tema de profanação, tão freqüente em sua obra e em sua vida, Proust geral­mente o expõe em termos de "crença": por exemplo, CS 140-142. Ele pare­ce-nos, antes, remeter a toda uma técnica de contigüidades, compartimentações e comunicações entre vasos fechados.

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visto que o amor implica a apreensão desses mundos possíveis no amado, que me expulsam ao mesmo tempo que me aprisio­nam, culminando no incognoscível mundo homossexual; mas também deixar de amar, visto que o esvaziamento dos mundos, a explicação do amado acarretam a morte do eu que ama.19 "Ser duro e pérfido com aquele que se ama", visto que se trata de se­qüestrá-Io, de vê-lo quando ele não mais nos pode ver, e depois fazer-lhe ver cenas compartimentadas de que ele é o teatro ver­gonhoso ou simplesmente o aterrorizado espectador. Seqües­trar, ver, profanar, resume toda a lei do amor.

Isso significa que a lei em geral, num mundo privado de logos, rege as partes sem todo, de que vimos a natureza entreaber­ta ou fechada. Longe de reuni-las ou de aproximá-las num mesmo mundo, ela mede sua separação, seu afastamento, sua distância, sua compartimentação, instaurando apenas comuni­cações aberrantes entre os vasos não comunicantes, unidades transversais entre as caixas que repelem qualquer totalização, inserindo à força em determinaçlo mundo o fragmento de outro mundo, impelindo os mundos e os diversos pontos de vista para o infinito vazio das distâncias. É por esta razão que, desde o ní­vel mais elementar, a lei como lei social ou natural aparece do lado do telescópio e não do microscópio. Sem dúvida, muitas vezes Proust faz uso do vocabulário do infinitamente pequeno: o rosto, ou melhor, os rostos de Albertina diferem por "um infi­nitesimal desvio de linhas", os rostos das jovens do grupo dife­rem "pelas diferenças infinitamente pequenas das linhas".20 Mas, mesmo aí, os pequenos desvios de linhas só adquirem va­lor como portadores de cores que se afastam e se distanciam uns dos outros, modificando suas dimensões. O instrumento da Re­cherche é o telescópio e não o microscópio, porque as distâncias



  1. Amar sem ser amado: RF 400. Deixar de amar: RF 147; P 145. Ser insensível e pérfido com aquele que se ama: P 91.

  2. CG 285; RF 414-415.

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infinitas subtendem sempre as atrações infinitesimais e também porque o tema do telescópio reúne as três figuras proustianas daquilo que se vê de longe, do choque entre mundos e do des­dobramento das partes umas nas outras. "Breve pude mostrar alguns esboços. Ninguém entendeu nada. Até os que me apro­vavam a percepção das verdades que tencionava gravar depois no templo felicitaram-se por as haver descoberto ao 'microscó­pio', quando, ao contrário, eu me servira de um telescópio.."para distinguir coisas efetivamente muito pequenas, mas porque estavam situadas a longas distâncias, cada uma num mun­do. Procurara as grandes leis, e tachavam-me de rebuscador de pormenores."21 O salão do restaurante comporta tantos astros quanto mesas em torno das quais os garçons executam suas evo­luções; o grupo das jovens tem movimentos aparentemente irre­gulares cujas leis só podem ser conhecidas através de pacientes observações, "astronomia apaixonada"; o mundo envolvido em Albertina tem as particularidades daquilo que vislumbramos em um astro "graças ao telescópio".22 E, se o sofrimento é um sol, é porque seus raios atravessam as distâncias num saldo sem anu­lá-las. É o que vimos com relação à contigüidade, à comparti­mentação das coisas contíguas: a contigüidade não reduz a distância ao infinitamente pequeno, mas afirma, alonga uma distância sem intervalo, em conformidade com uma lei sempre astronômica, sempre telescópica, que rege os fragmentos de universos disparatados.



  1. TR 246.

  2. RF 294, 307 e 324.

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