Os usos dos registros administrativos no estudo das Irmandades Religiosas



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Os usos dos registros administrativos no estudo das Irmandades Religiosas

Luciana Maria Pimentel Fernandes1



RESUMO:

O presente artigo é uma produção resultante das discussões da disciplina de Seminário de Pesquisa I e tem como objetivo fazer uma análise teórico-metodológica e ao mesmo tempo prática dos diferentes usos oferecidos pelas fontes produzidas pelas Irmandades de Nossa Senhora do Rosário e do Santíssimo Sacramento de Quixeramobim-ce na transição do século XIX para o XX (1896-1928), no chamado período de romanização da Igreja, sendo o objetivo principal percebermos de que forma esses registros administrativos podem orientar nossa prática de pesquisa e nos ajudar a revisitar o cotidiano de tais grupos, conhecendo-os de forma mais aprofundada.



Palavras Chave: Irmandades - Quixeramobim – Romanização.

Introdução:

Considerar a história como uma operação, será tentar, de um modo necessariamente limitado, compreendê-la com a relação entre um lugar (um recrutamento, um meio, um ofício etc.) e procedimentos de análise (uma disciplina). É admitir que a história faz parte da “realidade” da qual trata, e que essa realidade pode ser captada “enquanto atividade humana”, “enquanto prática”. (NORA, P; LE GOFF, J. 1995, p.18).
O ofício do Historiador está envolto da responsabilidade de tentar restituir um passado que ele jamais conseguirá atingir em sua totalidade, porém, mesmo conscientes dessa realidade, o nosso papel social é produzir uma análise do passado que possibilite as pessoas compreenderem o seu presente, e a melhor maneira de fazer isso é tornar esse passado inteligível para as pessoas de nossa época, a partir das “pegadas” que os homens de outrora deixaram para nós, tentando assim nos aproximarmos ao máximo desse “real”. Mas como fazer isso?

A “operação histórica” começa a acontecer a partir do momento que o pesquisador faz a escolha das fontes, os vestígios deixados pelas pessoas que viveram determinados períodos nos permitem formularmos nossas questões e empreendermos estudos que, mesmo analisando o mesmo objeto e utilizando os mesmos documentos jamais vão ser iguais, pois possuímos um elemento que nos favorece, e é uma construção individual, encontrando-se ligado a uma série de outros fatores, a narrativa, que permite termos “uma idéia na cabeça, uma pergunta na boca, os recursos de um método nas mãos e um universo de fontes diante de si a explorar” (PESAVENTO, 2005, p.68), mas para isso é importante ter em mente que o Historiador:


Deve controlar suas paixões, mas sem estrangulá-las, e tanto melhor desempenhará seu papel se deixar-se aqui e ali levar por elas. Longe de afastá-lo da verdade, elas têm todas as possibilidades de aproximá-lo mais ainda. À história seca, fria, impassível, prefiro a história apaixonada. Inclinar-me-ia mesmo a considerá-la mais verdadeira. (DUBY, 1993, p.61)
Aparece então uma questão fundamental, a relação entre o pesquisador e o objeto, que deve acontecer, como nos diz Duby, sem estrangular nossas “paixões” e lembrando que “nem tudo na pesquisa histórica é estritamente racional, que muitas vezes o historiador deve apelar para a sua intuição e imaginação”, e que a partir do momento que escolhe pesquisar determinado assunto:
Estabelece com seu objeto uma relação íntima pela qual se afirma, progressivamente, sua própria identidade. Ao debruçar-se sobre a vida e morte dos homens do passado, ele trabalha também sobre sua própria vida e morte. (PROST, 2008, p.89)
O papel da fonte dentro da pesquisa histórica é que, além de atribuir um grau de cientificidade a narrativa do historiador, o documento vai ser o elemento que possibilita o contato, mesmo que de forma parcial, já que nunca conseguiremos reunir “tudo” o que foi produzido, com um passado ao qual buscamos incessantemente, na tentativa de sanar nossos anseios, reflexos de nossas experiências e vivências. A própria escolha do objeto de pesquisa do historiador muitas vezes está ligada a sua trajetória pessoal, tanto acadêmica quanto de vida, e é importante que sua pesquisa possa trazer alguma contribuição significativa não apenas para quem está pesquisando, mas para a sociedade na qual está inserido, e nesse sentido:
O documento seria não apenas um resto, um vestígio do passado, mas um produto do passado, ou seja, produzido por relações de força assimétricas, desiguais sempre, de um passado agônico, irregular e contingente (grifos meus). (PINSKY,Carla B.; LUCA, Tania R. de, 2012, p.317).
Perceber as relações de força “assimétricas”, demonstradas pelos documentos é fundamental para o trabalho do historiador, principalmente no nosso caso, que analisaremos tanto produções dos participantes do nosso objeto de pesquisa, que são duas das irmandades religiosas que existiram em Quixeramobim, quanto dos membros da igreja, e isso nos permite confrontar diferentes escritas e idéias inseridas naquele contexto, para podermos assim, “escovando a história a contrapelo” (BENJAMIN, 1996), perceber dentro daquilo que se apresenta para nós, a possibilidade de analisar o não-dito, bem como as diferentes relações construídas pelos nossos sujeitos.

Mesmo sabendo que a pesquisa histórica é uma construção que parte das fontes, é importante levarmos em consideração o papel que os documentos possuem na elaboração desse conhecimento, e que por mais que tenham sido produzidos no intuito de registrar acontecimentos de determinado tempo, eles jamais vão conseguir trazer esse passado de volta, são, portanto, o resultado de uma série de intenções de quem os produziu, que devem ser minuciosamente analisadas, pois:


Os documentos sempre representarão uma visão parcial do descrito, que foi determinada por quem as elaborou. Os acontecimentos que a documentação comporta devem ser questionados, esmiuçados e analisados para que se possam verificar quais foram alguns dos caminhos que trilharam, visando-se, portanto, efetuar uma leitura das entrelinhas.(PRADO, 2010, p.132).
Uma pesquisa histórica passa a ter relevância a partir do momento que o historiador que nela está envolvido consegue fazer as perguntas certas as suas fontes e tem, a partir da análise dos documentos e dos estudos teóricos utilizados para dar sustentação ao trabalho, condições de fornecer alguma contribuição significativa não só para ele, mas para os sujeitos pertencentes ao espaço onde a pesquisa se desenrola, a quem seus resultados sem dúvida também interessam.
Conhecendo as fontes produzidas pelas Irmandades:

Para realizarmos essa pesquisa, é importante estarmos conscientes da procedência dos documentos que vamos lançar mão, ou seja, traçarmos primeiramente um histórico de como chegamos até esse material, da sua localização, até para entendermos melhor como tivemos acesso ao mesmo e como ele se mantém preservado até hoje para que possamos utilizá-lo.

Durante uma primeira busca na casa paroquial de Quixeramobim, conversamos com o padre e a funcionária responsável pela biblioteca, explicando do que se tratava a pesquisa e pedimos permissão para pesquisar lá. Para nossa surpresa recebemos uma resposta positiva, já que sabemos que “os arquivos de natureza religiosa no Brasil são detentores de grandes conjuntos documentais, nem sempre facilmente acessíveis” (PINSKY, 2008, p.39).

Na casa paroquial, existe uma biblioteca, criada por um padre Holandês chamado José Van Esch, que foi nomeado pároco da cidade em 1990 (SIMÃO, 1996, p.107), lá permaneceu por muitos anos e deu uma contribuição significativa para a história religiosa da cidade, pois nessa biblioteca pode se encontrar uma vasta documentação da paróquia de Santo Antônio, que inclui livros de tombo, de apontamentos, aforamentos, receitas e despesas e etc, e foi em meio a esses documentos que tivemos acesso a maioria dos registros das irmandades que existiram na cidade, nesse caso a do Rosário e a do Santíssimo Sacramento, que são nosso foco principal.

A primeira dificuldade encontrada foi localizar esses documentos, pois o acervo da biblioteca não é organizado, e não existe um funcionário específico para ajudar nisso, ficamos então, sozinhos, a procurar nos livros e pastas os documentos que nos interessavam, e logo de cara percebemos que seria um pouco trabalhoso fazer a leitura deles, pois a maioria são manuscritos e necessitam de um certo conhecimento de paleografia para que possam ser trabalhados, mas resolvemos aceitar o desafio.

Através da leitura de um trabalho, que nos serviu como referência, descobrimos que parte da documentação das irmandades de Quixeramobim estava na sala de História Eclesiástica do Seminário da Prainha, em Fortaleza, e resolvemos visitar esse arquivo para ter acesso a essas fontes, que são de grande importância por se tratarem dos estatutos das confrarias. O acervo de lá encontra-se bem organizado e tem uma funcionária para auxiliar nosso trabalho, então não tivemos muita dificuldade em ter acesso e fotografar aqueles documentos que nos interessavam.

Como trabalhamos com muitas fontes que datam do século XIX, o primeiro procedimento feito em relação aos documentos foi transcrevê-los, seguido, nesse momento, da elaboração de um inventário de todos eles, que por se tratar de uma análise prévia dos documentos que possuímos até o presente momento, possibilita um conhecimento mais amplo acerca do objeto e facilitará o nosso trabalho quando da construção da escrita dos resultados do trabalho de pesquisa.

Sabemos, pois, que não se trata de um trabalho fácil mergulhar numa época a qual nem de longe vivemos, e estudar um grupo através apenas de documentação escrita requer bastante cuidado em observar as “entrelinhas” das fontes, para tentarmos formular questões que permitam atingirmos, da forma mais aprofundada possível, a realidade cotidiana do nosso objeto de pesquisa, e produzir uma análise que parta dos nossos anseios e questionamentos.

As Irmandades religiosas são estruturas bastante organizadas de se conhecer, pois produziam uma série de registros administrativos, que possibilitam analisarmos toda a sua estrutura de funcionamento, começando pelos livros de matrícula, materiais que além dos nomes dos irmãos que ingressavam na confraria, contém a quantia paga pelos mesmos quando da sua entrada, e são assim denominadas fontes nominativas:

(documentos que trazem nomes de pessoas), esses registros se prestam a cruzamentos entre si e com outras fontes nominativas. Aos historiadores persistentes, possibilitam, por exemplo, a reconstituição de famílias e de redes sociais e a identificação de diversos aspectos que marcaram as vidas de pessoas e grupos, relacionados, por exemplo, às hierarquias sociais, às práticas religiosas, aos sistemas de compadrio. (PINSK, 2012, p.143).
Para estudar a Irmandade do Rosário de Quixeramobim, trabalhar com os estatutos ou compromissos de 1896, 1899 e 1923, se faz de fundamental importância, no intuito de conhecer a estrutura organizacional de tal agremiação, bem como seus cargos e as atribuições de seus membros. Já o livro de matrícula (1918-1923) permitirá sabermos quem eram esses irmãos, qual o valor que se pagava ao ingressar na irmandade, se ele variava de irmão para irmão e etc.

Dialogar com os livros de receitas e despesas (1911-1918) e (1924-1928), onde se registrava tudo o que se recebia e se gastava dentro da Irmandade, e com os recibos de pagamentos do ano de 1925, permitem perceber a situação econômica da confraria, conhecer um pouco das suas posses e mais ainda, observar em que momento essa estrutura tão bem organizada começa a dar indícios de decadência, e isso pode ser observado através de outro documento, que contém uma lista de irmãos devedores à irmandade (1910-1922), que nos leva as seguintes questões: Por que os irmãos deixaram de pagar suas anuidades? Será que a confraria estava perdendo sua razão de existir?

Os documentos referentes à realização da festa de Nossa Senhora do Rosário nos anos de 1923 e 1924 demonstram que a confraria estava funcionando, mas por outro lado deixam clara a fiscalização que a igreja matriz empreendia nesse momento sobre as Irmandades. A fonte de 1924 diz o seguinte:
Ilm° Revm° Sen. Vigário:

A commissão da mesa regedora provisória desejando fazer a festa da Virgem Senhora do Rosário, apresenta a V. Rvmª os nomes das commissões agenciadoras de donativos para a dicta festa.2
Em se tratando do patrimônio da Senhora do Rosário, dialogar com registros de aforamentos dos anos de 1899, e de 1914 a 1922, possibilitará conhecermos as posses que a santa tinha nessa virada de século e de certa forma perceber como esse patrimônio era administrado, já que analisaremos também um protesto do ano de 1919 onde a confraria do Rosário requeria de volta parte de suas terras que haviam sido vendidas sem autorização.

Questionar as certidões de aforamento dos sítios Rosário e Boa Vista, bem como um pedido de venda do sítio serrinha, todos datados do ano de 1899, é mais uma maneira de observarmos o que a Irmandade possuía e como seus bens eram gerenciados, e o pedido de venda aparece como uma mudança no relacionamento com a Igreja, que obrigava as irmandades, nesse momento, a pedirem ao Bispo Diocesano para realizar a venda de qualquer um dos seus bens, só podendo realizar se o mesmo autorizasse. O documento diz:



Meza da Irmandade de Nossa Senhora do Rozario de Quixeramobim, 5 de Setembro de 1899:

Exm° Rm° Snhr:

Informo o Rm° parocho sobre o objectivo desta petição, conto que a Igreja só permitte a alienação dos bens [...] quando disso resulta maior vantajoza para auctorizado pela Irmandade de Nossa Senhora do Rozario, d’esta freguezia consulto a VERmª se pode a mesma irmandade vender um pequeno sítio de sua propriedade, encravado na Serra de Santa Maria d’este município pela quantia de dous contos de réis; (2:000/000).3
Esse pedido é seguido ainda de toda uma justificativa do Juiz da irmandade, explicando porque era vantajoso realizar a venda do referido sítio naquele momento, já que um vizinho havia invadido para explorar as seringueiras que nele existiam, a própria confraria alega a necessidade da venda como algo que traria benefícios.

Trabalhar com ratificações de aforamentos, onde se renovava os fôros das propriedades da confraria, com contratos de locação, através dos quais as mesmas alugavam suas propriedades, e os contratos de enfiteuse 4, também nos dará um panorama da situação de tais confrarias dentro do período que pretendemos analisar.

Da Irmandade do Santíssimo Sacramento, o seu compromisso, do ano de 1871, e recibos diversos dos anos de 1896 a 1899, servirão no sentido de conhecermos sua estrutura de funcionamento e para termos uma noção de quais as suas principais fontes de gastos. Já as atas das reuniões da mesma confraria dos anos de 1896 a 1902, são documentos que tem muitos elementos a nos fornecer, pois nelas se registrava o dia a dia da mesma, e através da interpretação desses registros de reuniões será possível sabermos o que estava se discutindo na confraria naquele momento, qual sua situação e ainda o posicionamento dos irmãos em relação à nova postura da Igreja, que os fiscalizava com mais intensidade.

Para termos uma noção de como a Igreja enxergava as Irmandades nesse momento utilizaremos textos escritos pelo padre de Quixeramobim, na época, Salviano Pinto Brandão, no ano de 1878, num livro de apontamentos ou miscelâneas religiosas, onde os padres costumavam discorrer sobre os mais variados assuntos, e o mencionado padre deu a sua opinião sobre a existência das irmandades, além de colocar a situação das mesmas naquele momento, asseverando que:


Se as irmandades pelo menos dessem mostras de respeito no interior dos templos, se tivessem sentimentos de piedade, se acatassem o sacerdote, se guardassem decoro nas festividades; se imitassem os exemplos dos santos, cujos irmãos elles se dizem, bom seria; porque estarião no seo papel e nas vistas da igreja, que as tolera.5

A fala do padre deixa claro um descontentamento em relação ao comportamento das irmandades durante os rituais realizados na Igreja naquele momento, e é interessante para conhecermos também o contexto de disputas que vamos observar entre Igreja e Irmandades, onde a primeira estava mudando sua postura, que se voltava mais para as orientações de Roma, e acabava se colocando contra muito do que era praticado pelas confrarias, as quais os bispos e padres só podiam então, fiscalizar e criticar severamente.


Que metodologias utilizar?

A questão do método em história deve ser uma discussão constante, pois cabe ao historiador, dentro do seu campo de trabalho, e juntamente aos materiais que possui, criar condições favoráveis para proceder com a análise de um objeto que o próprio pesquisador constrói durante a sua trajetória, e vai “lapidando” ao longo da pesquisa, por exemplo, quando do momento que faz a escolha um recorte específico, o que implica a necessidade de se proceder com uma metodologia que, certamente, não se aplicaria a outra(s) pesquisa(s), já que:


Não há método geral, válido para vários campos objetivos, muito menos para qualquer objeto; ele não é uma ferramenta que pode receber diversos empregos, mas se constitui na relação entre sujeito e objeto, inseparável de ambos, específico ao conteúdo de ambos. (Pinsky, 2008, p.295).
A metodologia acaba sendo então, algo intrínseco a pesquisa, que dela deriva e só funciona se aplicada aquela situação específica, e isso vai se construindo dentro da própria prática interpretativa do historiador, momento no qual o mesmo faz a leitura dos documentos, interpreta-os e transforma a sua análise numa narrativa, que vem carregada de impressões e intenções, e essa escrita resulta de um emaranhado de fatores que estão ligados ao pesquisador e a sua trajetória.

As metodologias utilizadas em relação as nossas fontes são portanto análises construídas a partir de um estudo dos documentos produzidos pelas Irmandades de Nossa Senhora do Rosário e do Santíssimo Sacramento de Quixeramobim que conseguimos encontrar na casa paroquial da cidade e no Seminário da Prainha em Fortaleza. Não pretendemos fazer uma mera leitura seguida de transcrição, mas um trabalho interpretativo no intuito de nos aproximarmos ao máximo da realidade cotidiana dessas confrarias, pois isso garante o caráter histórico do nosso trabalho e leva-nos a pensar que “a solidez do texto histórico, ou seja, sua admissibilidade científica, dependerá do esmero que tiver sido aplicado na construção dos fatos” (PROST, 2008, p.73), por isso cada historiador deve ter o cuidado quando for construir os fatos a partir da sua escrita.

Algo muito importante é termos o devido cuidado com a seleção e os usos que faremos das fontes, tendo a consciência que não devemos utilizar o conteúdo das mesmas apenas para “ilustrar”, e sim através de perguntas que devemos direcionar aos documentos produzidos dentro e fora das confrarias para responder as principais questões da pesquisa e para que nossa escrita demonstre que a mesma é detentora do caráter científico que todo trabalho histórico precisa ter, pois:
Pela questão é que se constrói o objeto histórico, ao proceder a um recorte original no universo ilimitado dos fatos e documentos possíveis. Do ponto de vista epistemológico, a questão desempenha uma função fundamental, no sentido etimológico do termo: com efeito, ela serve de fundamento e constitui o objeto histórico. Em certo sentido, o valor da história depende do valor de sua questão. (PROST, 2008, p.75)
Outra ação que deve partir do historiador é o cruzamento entre as diferentes fontes que ele conseguir coletar, que favorece a compreensão do contexto analisado, e no caso das irmandades religiosas, traz a possibilidade de perceber para além do contexto, sendo possível, por exemplo, ao se cruzar os estatutos com os livros de matrícula, receitas e despesas e diversos outros, perceber se esses estatutos estavam realmente sendo respeitados e vivenciados no cotidiano dos irmãos.

Acreditamos que o historiador deve partir da fonte para a teoria, pois é interessante que primeiramente o pesquisador conheça bem o seu objeto, para então partir para os estudos teóricos referentes ao assunto, e é no contato com a fonte, na maioria das vezes, que as idéias surgem e dão a dinâmica imprevisível que a pesquisa vai tomando durante o seu desenrolar.


Considerações Finais:

Após essa explanação é importante salientarmos que a própria idéia de documento tem a sua historicidade, e ao longo do tempo os usos que o historiador faz das fontes também foi se transformando, sendo hoje imprescindível se observar as minorias, pois elas possibilitam uma compreensão bastante ampla de qualquer sociedade.

No nosso caso, que estudamos grupos religiosos, é importante tentarmos ao máximo buscar saber qual o papel desses sujeitos dentro da vivência religiosa da cidade, e para isso o manuseio documental se faz o elemento mais importante, pois é a partir dele que os primeiros anseios são sanados e novas questões vão sendo formuladas, mais ainda, acreditamos que falta, na realidade que vivemos hoje, o historiador dar maior importância aos documentos, pois em muitos casos a teoria, ou seja, os conceitos acabam se sobrepondo a atividade interpretativa e de produção do conhecimento histórico que as fontes oferecem.

Fazer pesquisa em história é sempre um envolvimento com o objeto, que deve permitir a articulação entre a ação e o pensamento para possibilitar uma maior compreensão da realidade a ser analisada, porém muitas vezes isso não acontece por parte do historiador, e torna sua escrita algo muito distante daquilo que ele pretendeu estudar. Sobre isso Febvre perguntou:


É tudo? Não. Não é mesmo nada se vocês continuarem a separar a ação do pensamento, a vida do Historiador da vida do homem. Entre a ação e o pensamento, não há separação. Não há barreira. É preciso que a história deixe de vos aparecer como uma necrópole adormecida, onde só passam sombras despojadas de substância. É preciso que, no velho palácio silencioso onde ela dorme, vocês penetrem, animados da luta, todos cobertos da poeira do combate, do sangue coagulado do monstro vencido – e que, abrindo as janelas de par em par, avivando as luzes e restabelecendo o barulho, despertem com a vossa própria vida, com a vossa vida quente e jovem, a vida gelada da Princesa Adormecida... (FEBVRE, 1989, p.40)
A própria atividade de escrita desse trabalho nos deu uma chance de dialogarmos com nossas fontes e ao mesmo tempo fazermos uma reflexão sobre as possibilidades que elas oferecem, e esse exercício acaba contribuindo de forma muito positiva para o amadurecimento de muitas idéias que estamos construindo para essa pesquisa, que se trata da continuação de um trabalho monográfico e requer a elaboração cuidadosa de novas questões, bem como a incorporação de novos elementos, para que possamos construir um conhecimento novo acerca da vida religiosa da cidade de Quixeramobim, que possa trazer contribuições significativas para a historiografia cearense.
Referências Bibliográficas:

-BASSANEZI, Maria Silvia. Os eventos vitais na reconstituição da história. In: PINSK, Carla B.; LUCA, Tânia R. de (orgs). O historiador e suas fontes. São Paulo: Contexto, 2012.


-DUBY, Georges. A História Continua. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1993.
-FEBVRE, Lucien. Combates pela História. Lisboa: Editora Presença, 1989.
-KARNAL, Leandro.; TATSCH, Flávia Galli. A memória evanescente. In: PINSK, Carla B.; LUCA, Tânia R. de (orgs). O historiador e suas fontes. São Paulo: Contexto, 2012.
-NORA, Pierre; LE GOFF, Jaques. (orgs). História: Novos Problemas. Rio de Janeiro:

Francisco Alves Editora, 1995.


-PESAVENTO, Sandra Jatahy. História & História Cultural. Belo Horizonte: Autêntica, 2005.
-PINSKY, Carla Bassanezi (org). Fontes Históricas. São Paulo: Contexto, 2008.
-PINSKY, Carla B.; Luca, Tania R. de (orgs). O historiador e suas fontes. São Paulo: Contexto, 2012.
-PRADO, Eliane Mimesse. A importância das fontes documentais para a pesquisa em História da Educação. In: InterMeio: revista do Programa de Pós-Graduação em Educação, Campo Grande, MS, v.16, n.31, p.124-133, jan./jun. 2010.
-PROST, Antoine. Doze lições sobre a História. Belo Horizonte: Autêntica Editora, 2008.
-SALIBA, Elias Tomé. Aventuras modernas e desventuras pós-modernas. In: PINSK, Carla B.; LUCA, Tânia R. de (orgs). O historiador e suas fontes. São Paulo: Contexto, 2012.
-SIMÃO, Marum. Quixeramobim, Recompondo a História. Fortaleza, 1996.

1 Mestranda em História e Culturas (MAHIS) pela Universidade Estadual do Ceará- UECE, vinculada à linha de pesquisa de Práticas Urbanas.

2 Pedido para a realização da festa de Nossa Senhora do Rosário de 1924, disponível na biblioteca da casa paroquial de Quixeramobim.

3 Documento enviado ao Bispo, em 1899, solicitando a venda do sítio na Serra de Santa Maria, de propriedade de Nossa Senhora do Rosário, disponível na casa paroquial de Quixeramobim.

4 A enfiteuse deriva diretamente do arrendamento por prazo longo ou perpétuo de terras públicas a particulares, mediante a obrigação, por parte do adquirente (enfiteuta), de manter em bom estado o imóvel e efetuar o pagamento de uma pensão ou foro anual, certo e invariável, em numerário ou espécie, ao senhorio direto (proprietário). Este, através de um ato jurídico, inter vivos ou de última vontade, atribui ao enfiteuta, em caráter perpétuo, o domínio útil e o pleno gozo do bem.

5 As Irmandades, in Apontamentos, 1878 p.99-100.

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