Os valores que consideramos universais são postos em causa pelo relativismo "multicultural"



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16.02.2008, José Pacheco Pereira

Os valores que consideramos universais são postos em causa pelo relativismo "multicultural"

A cena do pedido de perdão do primeiro-ministro australiano Rudd aos aborígenes provocou a habitual satisfação politicamente correcta por este tipo de actos. Rudd pediu desculpa pelas "leis e políticas de sucessivos Parlamentos e governos que causaram profunda dor, sofrimento e perdas aos nossos companheiros australianos (fellow australians)" e salientou em particular a política de retirar à força os filhos e filhas de casamentos mistos aos aborígenes, que viriam a constituir as Gerações Perdidas (Stolen Generations). Tal política infligiu "indignidades e degradação a um povo orgulhoso e a uma cultura orgulhosa". Acabou desejando que com este pedido de desculpas se abrisse caminho a um futuro que unisse "todos os australianos, indígenas ou não indígenas", separados hoje por grandes diferenças de "esperança de vida, oportunidades económicas e resultados educacionais", como "parceiros iguais" para moldar este "grande país, a Austrália". A declaração foi negociada ao milímetro com dirigentes da comunidade aborígene e provocou cenas de choro, emoção e festa em vários sítios da Austrália. Parece que muitos aborígenes a consideram mesmo assim insuficiente e, por detrás da declaração, arrasta-se uma enorme discussão sobre as reparações económicas e financeiras que são devidas aos aborígenes, os homens e mulheres que vivem em piores condições na Austrália.


O cerne da declaração tinha a ver com as Stolen Generations, uma política iniciada em 1860 e que durou cerca de 100 anos até ao fim da década de sessenta do século XX. O objectivo era retirar as crianças de origem mista, quase sempre com pai branco e mãe aborígene, que as comunidades originais recusavam e abandonavam e levá-las para orfanatos e instituições do Estado e religiosas com o fim de as educar fora da sua cultura original, mas também de as proteger dos abusos de que eram vítimas ou, pura e simplesmente, recolhê-las porque eram abandonadas. Cerca de 100.000 crianças teriam conhecido este destino, mas os números são muito contestados.
Toda a questão é muito controversa na Austrália, incluindo um debate sobre números, percentagens, relevância e significado da política, que atravessa também as linhas de fractura político-partidárias. Nalgum desse debate não é difícil reconhecer quer variantes do "negacionismo", quer do "politicamente correcto", na interpretação dos factos, valorizando ou negando a sua dimensão e significado. E o pedido de desculpas actual tem também a ver com a viragem política ocorrida nas últimas eleições que deram a vitória a um trabalhista, Rudd, contra um conservador, John Howard. O governo Howard sempre se recusou a fazer um pedido formal de desculpas considerando que a actual geração de australianos não devia pagar o preço pelos "erros da geração anterior", embora vários estados já tivessem feito pedidos de desculpa sem a dimensão nacional do que ocorreu na semana passada.
O que aconteceu na Austrália não é muito diferente dos múltiplos pedidos de desculpa que têm proliferado nos últimos anos, em particular na Europa, pela expulsão dos judeus (Portugal também fez), do pedido de desculpas do Papa anterior, quer aos judeus, quer aos ortodoxos, pela conquista e saque de Constantinopla, repetido aliás pelo Papa actual, e dos pedidos de desculpa exigidos por várias comunidades como os arménios face aos turcos, os povos indígenas americanos ao Governo dos EUA, e os coreanos face às violências japonesas.
Estes pedidos de desculpa são uma atitude política e cultural moderna, sem precedente no passado, na qual confluem muitas influências. Falando do "arrependimento", o Papa João Paulo II referiu um conceito judaico, o de teshuva, como estando na base destes pedidos de perdão. Os judeus, sujeitos a uma exterminação de proporções bíblicas, o Holocausto, mostraram-se sempre muito sensíveis a esta relação de culpa, aliás um elemento muito importante que o judaísmo trouxe à modernidade e que impregnou a cultura ocidental. Durante muito tempo, a exigência da admissão da culpa, de arrependimento e da sua proclamação pública fazia-se em relação aos "injustos" que tinham perseguido os judeus, os nazis e a Alemanha, e a todos os anti-semitas. Pouco a pouco, o clima do pós-guerra europeu e em particular do "olimpianismo" dominante desde o fim da Guerra Fria tornaram aquilo que era uma reivindicação judaica, que só tinha paralelo na exigência do reconhecimento do genocídio arménio pelos turcos, se tornasse um ritual público muito comum nos governos à esquerda. Não se conhecem pedidos de desculpa, por exemplo, pelo Gulag, nem pelas purgas soviéticas que atingiram milhões de pessoas durante mais de trinta anos.

Os pressupostos dessa atitude têm também na Europa muito a ver com o fim do mundo colonial e com a culpa que o "homem branco" teria na colonização. A culpabilização do colonialismo acompanhou uma nova sensibilização "multicultural", que tende a considerar de forma relativista o valor de todas as culturas e civilizações em nome do abandono de uma visão eurocêntrica do mundo.


O racismo, o sentimento de superioridade branca e o correlativo menosprezo pelas culturas não europeias, em particular aquelas que não se tinham constituído em civilizações, como acontecia em África ou pior ainda, as que se considerava estarem no limiar da idade da pedra, como acontecia com as tribos da Amazónia ou os aborígenes australianos, levaram a enormes violências e a atitudes que hoje seriam entendidas como um crime. E bem. Estes fenómenos culturais foram muitas vezes o instrumento para a chacina das populações locais, principalmente quando estas se encontravam na posse de terras, bens, recursos minerais, florestas, valiosos para os colonizadores externos ou internos. Os índios do Brasil e as tribos da Amazónia foram sujeitos a múltiplas violências, só para citar exemplos recentes.
Mas, quando saímos da actualidade e vamos para a História as coisas são bastante mais complexas. A ideia da "missão do homem branco", a ideia de que ao colonizador branco estava assacada uma missão divina de "civilizar" os povos "atrasados", tiveram como resultado práticas que hoje consideramos racistas e cruéis, como foi o caso da política australiana de "roubo" de crianças que "perdeu" gerações de aborígenes. Mas elas eram feitas muitas vezes com as melhores das intenções, em nome daquilo que se pensava ser o bem-estar e dignidade das crianças, que seriam rejeitadas pelos aborígenes. A ideia de "civilizar", a bem ou à força, implicava também obrigações e sentido de missão que levaram muitos homens e mulheres a viverem vidas difíceis e perigosas apenas para melhorar as condições de vida daqueles que, ou queriam converter à sua religião e num certo sentido "salvar", ou a quem queriam dar condições mínimas de vida, alimentação, cuidados médicos, educação, como seres humanos que tinham direito à dignidade da vida. Foi esse, por exemplo, o papel das missões religiosas, elas próprias também um produto do colonialismo.
Por estranho e irónico que pareça, o pedido de desculpas é também uma típica atitude "branca" e ocidental, que não conhece paralelo noutras civilizações, a que não é alheia uma tradição humanista, que se poderia saudar se não contivesse elementos perigosos para os próprios valores que a sustentam. O "multiculturalismo", com o seu forte relativismo cultural, é cada vez mais difícil de compatibilizar com o adquirido civilizacional ocidental. Os valores que consideramos universais, em particular os direitos humanos, são postos em causa pelo relativismo "multicultural", que tende a desvalorizar a universalidade desses conceitos e a substituí-los por "interpretações" culturais que os põem em causa. As declarações do arcebispo de Cantuária sobre a aceitabilidade da sharia são um exemplo do caminho a que o "multiculturalismo" leva e, se tomarmos à letra o significado profundo destes pedidos de perdão pela História, ainda acabamos por dar razão à Al-Qaeda, que nos considera como "cruzados", logo um alvo a abater pelo novo Saladino. E porque não, se nos consideramos culpados de tudo o que aconteceu na História desde que somos o que somos? Há certas ideias que funcionam como o boomerang, a gente atira-as convencidos das nossas melhores intenções e elas voltam para nos bater na cabeça.

 Historiador



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