Oséias 1-3: Um chamado ao compromisso com o meio ambiente— Roseli a de Oliveira



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Introdução




Em minhas leituras bíblicas aprendi que Deus não apenas criou o mundo e tudo o que nele há como também possui um sentimento de amor e cuidado muito grande para com este mundo criado. Por amar e querer cuidar, Deus instrui a humanidade a ser participante deste projeto divino de sustentabilidade. Partindo deste princípio é que me propus a pesquisar com mais afinco este tema na Bíblia, escolhendo como parâmetro para minha pesquisa a perícope bíblica de Oséias 4.1-3, comparando as necessidades ambientais antigas com as contemporâneas.

Assim, no primeiro capítulo, apresento uma análise exegética da perícope de Oséias, a fim de demonstrar a preocupação de Deus com o meio ambiente e a proposta de comprometimento social apresentada às pessoas daquela época, para promover o equilíbrio da criação.

Há muitos métodos de interpretação bíblica, conforme abaixo:1

Método da Crítica Textual: Basicamente é uma leitura comparativa das primeiras traduções com o mais antigo texto da Bíblia Hebraica, a Leningradense;

Método da Crítica Literária: A Crítica Literária, de modo geral, abrange todas as questões ligadas ao texto bíblico, incluindo sua autoria, assento histórico e os vários aspectos da linguagem, estando voltada, basicamente, para estabelecer a integridade literária do texto bíblico. Utilizando essas indicações, o estudante da Bíblia pode isolar fontes literárias antigas e recentes;

Método da Crítica da Tradição: Tem como finalidade estudar a história da transmissão das tradições bíblicas, tanto no nível oral como escrito, durante o período bíblico;

Método da Crítica da Forma: Este método exegético surgiu a partir da Crítica Literária que por razões metodológicas busca analisar extensos textos ou obras literárias; a Crítica da Forma enfatiza e valoriza as pequenas unidades literárias, também conhecidas como perícopes. Para a Crítica da Forma a escolha de uma perícope do texto bíblico é um dos primeiros passos para uma correta interpretação. Perícope vem de uma palavra da língua grega que significa “recorte”, “parágrafo”. Isto quer dizer que numa perícope as frases aí contidas mantêm maior relação entre si do que com o restante do texto.

A Crítica da Forma se aproxima do texto com maior interesse de conhecer o autor e as circunstâncias que o levaram a compor tal texto; apesar de sua análise técnica, a Crítica da Forma proporciona à leitura popular da Bíblia muitos elementos para o serviço pastoral.

Assim, o método utilizado para a exegese bíblica nesta pesquisa será a Crítica da Forma.

No segundo capítulo deste trabalho, será analisada a proposta de sustentabilidade ambiental estabelecida pela ONU, com um dos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio, investigando quais são os seus alvos e o que tem dado certo ou não, ao longo desta caminhada.

E por fim, no terceiro e último capítulo, apresento reflexões e propostas como perspectiva de sinalizar caminhos que nos apontem para a possibilidade de promovermos certas mudanças necessárias que transformem algumas situações caóticas do nosso mundo, e que nos ajude na conscientização da nossa participação e responsabilidade social, a fim de, quem sabe, salvarmos o nosso mundo.

Capítulo 1
a proclamação de Oséias – BASE PARA UMA SOCIEDADE MAIS JUSTA E sustentável


1 Introdução


O objetivo deste capítulo é analisar exegeticamente a perícope de Oséias 4.1-3, a fim de procurar entender o que o texto bíblico tem a dizer sobre meio ambiente, sustentabilidade e responsabilidade. Para tanto, faremos uma estrutura do texto, que será o ponto de partida, para que possamos explicar cada parte desta unidade literária. Assim, após a divisão estrutural da perícope, apresentaremos uma pesquisa exegética referente ao contexto da época e uma análise do conteúdo. Ao final deste capítulo procuraremos apontar sinais que atestem que Deus/Iahweh possuía um interesse em promover e despertar um senso de responsabilidade do ser humano para com a criação.

2 A perícope


1. Ouvi a palavra de Iahweh, filhos de Israel, pois Iahweh vai abrir um processo contra os habitantes da terra, porque não há fidelidade, nem amor, nem conhecimento de Deus na terra.

2. Mas perjúrio e mentira, assassínio e roubo, adultério e violência, e sangue derramado soma-se ao sangue derramado.

3. Por isso a terra se lamentará, desfalecerão todos os seus habitantes e desaparecerão os animais selvagens, as aves dos céus e até os peixes do mar.2

3 Estrutura literária3


I.      Abertura do processo (v. 1a)

II.    Acusação (v. 1b-2)

A – Ausência: (v. 1b)

      Fidelidade

      Amor

      Conhecimento de Deus

     B – Presença: (v. 2)

       Perjúrio e mentira

       Assassínio e roubo

       Adultério e violência

       Sangue derramado soma-se ao sangue derramado

III.  Sentença (v. 3)


4 Explicação da estrutura


Esta perícope se divide em três partes: na primeira parte o profeta anuncia ao povo de Israel que será aberto um processo contra eles, tendo como requerente Iahweh (v.1); na segunda parte ele comunica o motivo do processo (v.1b e 2); e na última parte ele declara a sentença (v.3), devido a falta de arrependimento por parte do povo.

5 Contexto e mensagem


O profeta Oséias, que foi contemporâneo dos profetas Amós (Am 1.1), Isaías (Is 1.1) e Miquéias (Mq 1.1)4, profetizou durante os últimos anos do reinado de Jeroboão II, que governou o estado de Israel de 782-753 a.C.5, conforme observamos em Oséias 1.1: “Palavra do Senhor, que foi dirigida a Oséias, filho de Beeri, nos dias de Uzias, Jotão, Acaz e Ezequias, reis de Judá, e nos dias de Jeroboão, filho de Joás, rei de Israel”. Os reis mencionados neste versículo exerceram o seu governo durante o século 8º a.C.6 Os nomes citados neste livro podem sugerir o período da atuação profética de Oséias, até o princípio do reinado de Ezequias, em 715 a. C.7

Os reis citados acima se gloriaram de um próspero reinado no início de seus governos. Muito embora seus territórios fossem pequenos reinos, se comparados ao poderio de seus vizinhos, como a Assíria, durante certo tempo eles desfrutaram de um período de paz e tranqüilidade, enquanto os grandes monarcas viram-se muito mais preocupados em resolver certos assuntos considerados mais necessários do que guerrear e subjugar outros povos.8 Conforme explica Asurmendi:

Tudo parece tranqüilo e calmo, nenhuma preocupação em particular preocupa o horizonte. Com efeito, durante este período, nenhuma potência está em condições de inquietar os pequenos Estados. Os arameus foram subjugados, no começo do século, pelos assírios e não mais levantarão a cabeça a não ser para desaparecer. O Egito, enfraquecido por suas lutas e divisões internas, há muito tempo deixou de desempenhar papel de qualquer importância.9

Neste período da história, Israel já estava dividido em dois reinos: o Reino do Norte (Israel), com a capital em Samaria; e o Reino do Sul (Judá), permanecendo a cidade de Jerusalém como capital.

Embora o reinado de Jeroboão II, o rei de Israel, tenha sido pacífico e próspero, com amplo expansionismo na agricultura e comércio, sabemos pelo livro de Amós, que tal prosperidade pode ter sido vivenciada apenas pela elite da sociedade, enquanto os pobres camponeses eram explorados ao terem que pagar altos valores hipotecários ao Estado, mergulhando cada vez mais numa terrível miséria,10 conforme denuncia Amós, em 2.6-7: “(...) Os juízes vendem o justo por dinheiro e condenam o necessitado por causa de um par de sandálias. Suspiram pelo pó da terra sobre a cabeça dos pobres e pervertem o caminho dos mansos (...)”. E ainda, “Portanto, visto que pisais o pobre e dele exigis tributo de trigo, não habitareis nas casas de pedras lavradas que tendes edificado; nem bebereis do vinho das vides desejáveis que tendes plantado. Porque sei serem muitas as vossas transgressões e graves os vossos pecados; afliges o justo, tomais suborno e rejeitais os necessitados na porta” (5.11-12).

A respeito deste período Donner destaca o seguinte: “(...) O brilho do reinado de Jeroboão II encobriu só imperfeitamente os males sociais, a corrupção na administração e no exercício da justiça. Estes eram evidentes, sobretudo para Javé (...).11

Na metade do século, entretanto, esta situação tomou sentido oposto. Após a morte de Jeroboão II, em 753 a.C., o Reino do Norte entrou em grande crise.12 A prosperidade de Israel começou a ser abalada, enquanto que a Assíria, com seu Imperador Teglat-Falasar III (745-727 a.C.)13, na ânsia de conquistar novos territórios e rotas comerciais, aperfeiçoou, modernizou e equipou seu exército, como também modificou a administração de seu país,14 retomando assim, o seu espaço de poder e glória.15 Asurmendi salienta:

Mas, em 745, acontece na Assíria um fato decisivo. Sobe ao trono um novo rei, de origem obscura: Teglat-Falasar III. Com ele, muda tudo: organiza um exército permanente para o conjunto do reino e modifica profundamente a administração do país. Entretanto, o que pesa mais e que modifica radicalmente o panorama internacional é a sua política externa. Até então, os assírios contentavam-se com incursões nos países da redondeza para receber tributos. A partir de Teglat-Falasar III, instalam-se nos países conquistados de maneira permanente. E as revoltas dos vassalos só serão toleradas uma única vez. Se a revolta se repetir, o país rebelde perde a autonomia e a sua existência própria, tornando-se província da Assíria.16

Os grandes imperadores da antiguidade, relatados na Bíblia, empregavam uma tática militar de guerra muito utilizada naquela época e muito eficaz, chamada de “guerra de conquista”. Tratava-se de um método, dividido em três estágios, para impor gradativamente seu domínio sobre as nações subordinadas. Era “um sistema de gradual aniquilamento da autonomia política dos pequenos Estados”,17 dividido em três estágios, conforme Donner:

1º estágio: Imposição de um relacionamento de vassalagem, por meio de manifestação de poder militar que impõe ao estado vassalo a obrigação de pagamentos de tributos anuais, em sinal de dependência, e em caso de necessidades, convocação de soldados para auxiliar nos combates.

2º estágio: Caso ocorressem evidências ou suspeitas de conspiração, o vassalo traidor era então eliminado e uma nova dinastia era estabelecida, ou seja, um novo chefe de estado, de confiança do Império, era instituído. Entrementes, ocorria o aumento na taxa dos tributos obrigatórios e a diminuição dos territórios, pois parte destes territórios eram transformados em províncias do Império dominador, geralmente as terras produtivas.

3º estágio: Ao primeiro indício de rebelião, uma nova e definitiva ocupação militar ocorria, com o intuito de eliminar o dinasta vassalo, com a tomada da capital, transformando completamente o estado vassalo em propriedade do estado dominador. Nesta etapa, eram estabelecidas novas fortificações, a liderança nativa era deportada e um grupo de estrangeiros ocupava cargos estratégicos. A finalidade dessa deportação era tolher a atuação dos camponeses, impedindo qualquer manifestação de ressurgimento.18

Foi essa a tática empregada por Tiglate-Pileser para estabelecer o seu Império. O primeiro alvo do rei da Assíria foi a Palestina em 734, que sofreu grandes perdas. Em 732 o rei e seu exército tomaram Damasco, que nunca mais conseguiu se reerguer e conquistar sua autonomia. Neste intervalo de tempo quase todo Reino do Norte também ficou submetido ao seu domínio,19 de acordo com II Reis 15,29: “Nos dias de Peca, rei de Israel, veio Tiglate-Pileser, rei da Assíria, e tomou a Ijom, e a Abel-Bete-Maaca, e a Janoa, e a Quedes, e a Hazor, e a Gileade, e a Galiléia, e a toda terra de Naftalí, e os levou para a Assíria”. Gunneweg explica a situação de Israel diante da ameaça Assíria da seguinte forma:

Será que se devia assumir uma atitude amistosa com a Assíria, pagando-lhes tributo, ou será que deveriam se coligar com ajuda de outros estados pequenos com apoio do Egito, defendendo a independência nacional? Era isso que permanecia subjacente às sangrentas revoltas e terríveis assassinatos de reis.20

Neste cenário de abuso e impiedade surge Oséias como porta-voz do povo simples e explorado. Ele, que também era um camponês, criticou a monarquia em seus dois campos de atuação: o exército e a religião, denunciando o sistema opressor difundido por meio dos mesmos.21 Sobre isso, Asurmendi descreve:

Inimigo da monarquia, Oséias é igualmente adversário da religião de Canaã. (...) Para ele (...), é aí que está a fonte de todos os males de Israel. Os dois (Baal e a monarquia) estão, aliás, intimamente ligados e os ataques do profeta misturam constantemente ambos os aspectos. 22

O livro de Oséias revela uma experiência pessoal do profeta que se casou com uma mulher prostituta e com ela teve dois filhos. Após a traição de sua mulher, Oséias usou a figura desse relacionamento rompido para anunciar ao povo de Israel que era dessa forma que eles se relacionavam com Deus/Iahweh.23 “(...) Sua experiência conjugal e paternal serve de imagem para exprimir a relação entre Deus e Israel”.24

Conforme Oséias 1.2, “Quando, pela primeira vez, falou o Senhor por intermédio de Oséias, então, o Senhor lhe disse: Vai, toma uma mulher de prostituições e terás filhos de prostituição, porque a terra se prostituiu, desviando-se do Senhor”. De acordo com Silva:

A primeira parte do livro, Os 1,1-3.5, é muito discutida. Não se sabe se estes capítulos iniciais falam de uma experiência real do profeta, que teria se casado, de fato, com uma prostituta, ou se temos aqui apenas uma parábola. (...) O interessante é que este início de Oséias já coloca programaticamente, através do simbolismo do matrimônio – mesmo que tenha sido real, ele é elevado aqui à categoria de símbolo -, todo o arcabouço semântico que organiza o livro: em um pólo estão o amor, a união e a fecundidade, no outro comandam o desvio, a ruptura e a morte (...). É aí que se move Israel.25

Iahweh se utiliza deste exemplo para revelar a rebeldia do povo de Israel que se esqueceu de seu próprio Deus, indo atrás de outros deuses, divindades cananéias, que eram tidos como deuses da fertilidade e da vida. 26 Gerhard von Rad explica essa dimensão profética de Oséias:

Limita-nos a mencionar aqui dois dados fundamentais característicos do reino do Norte: a fé javista herdade dos patriarcas, que se diluía no culto cananeu da fecundidade, e a estrutura estatal e política do reino de Israel, que atribuía ao profeta uma forma profundamente diferente de participação nos problemas públicos. Para bem compreender Oséias, é necessário ter em conta estes dois fatores. 27

A ênfase da mensagem do profeta era o relacionamento de Israel com o seu Senhor; relacionamento que para ele teve início nos primórdios da história do povo israelita. Para Oséias o povo de Israel já havia experimentado a fidelidade de Javé28 durante o êxodo, época em que foram libertos da tirania faraônica (Cf. Os. 9.10 e 13.4).

Entretanto, a inconstância deste povo se tornou uma ameaça à este relacionamento, pois como o profeta cita nos próprios versículos acima, a infidelidade de Israel era algo detestável ao seu Deus. Sobre isso Asurmendi declara:

(...) Oséias levou seus ouvintes de um lugar a outro, lembrando-os de sua tendência de abalar o relacionamento devido à inconstância: “Baal-Peor – aqui, pela primeira vez, vocês se distraíram com Baal” (9.10); “Gilgal – aqui vocês coroaram Saul como rei e comprometeram a soberania de Javé” (9.15); “Betel – aqui, com o bezerro de ouro, vocês profanaram o nome de Javé e a memória de Jacó” (10.5-6); “Gibeá – aqui a cobiça descontrolada de vocês maculou sua história com o relato horripilante do estupro grupal” (9.9; 10.9-10).29

Apesar da insistência de Iahweh e do profeta, Israel não se arrependeu verdadeiramente de seus atos infiéis; não modificou os seus caminhos e atitudes, nem como povo, nem como nação, e em 722 a.C. Israel foi destruída pelos assírios.30 Reimer salienta:

Oséias usa a imagem lingüística para falar de Iahweh. Para ele “Iahweh é o homem-marido, que, em amor profundo por Israel, arde em ciúmes, quando este Israel, concebido como grandeza feminina, corre atrás se outras divindades. Essa inclinação ou busca por outras divindades acabou sendo estigmatizada como “prostituição” e “idolatria”.31

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