Oséias 1-3: Um chamado ao compromisso com o meio ambiente— Roseli a de Oliveira



Baixar 292.06 Kb.
Página3/13
Encontro31.07.2016
Tamanho292.06 Kb.
1   2   3   4   5   6   7   8   9   ...   13

6 Comentário exegético


6.1 Abertura do processo (v.1a)

A maneira de narrar a mensagem é muito importante nos anúncios proféticos, pois algumas expressões ou ênfases transmitem a autoridade divina sobre estas palavras. Oséias usa a expressão: “Ouvi a palavra do Senhor” (da raíz hebraica שמצ [shāmả], cujo significado é ouvir, escutar, obedecer)32, no início de seu anúncio profético, o que legitima a autoridade divina em suas palavras.

¡Oíd la palabra de Yahvé! (v. 1a). Así exclama el profeta Oseas en la forma de una proclamación. Sin duda que se puede actuar como si no interesara tal proclama. Pero nadie se sustrae a los hechos que aquí se anuncian. Pues el profeta publica la palabra de Dios para todos. (...) Esas palabras pretenden prestarnos un doble servicio: nos muestran el origen de nuestra culpa con sus desoladoras consecuencias y, asimismo, la importancia que tiene para nosotros los hombres, y para la vida de todo el mundo, el saber acerca de Dios.33

Mesmo sendo uma proclamação da parte de Deus, os seus ouvintes eram pessoas que não davam muita atenção à sua autoridade profética, como vemos expresso no texto bíblico de Oséias 9.8: “A sentinela de Efraim é aquele que está com o meu Deus: é o profeta, que é exposto a ciladas em todos os caminhos; que é exposto à hostilidade na própria casa de seu Deus”.34

Iahweh demonstra sua indignação através da fala do profeta e alerta o povo sobre o que intenciona fazer: “Abrirei um processo contra vós”. Esse processo seria movido contra todos os habitantes (yoxebim) da terra.

O processo (da raiz hebraica ריב [rîb]) também significa contenda, controvérsia.35 “Por meio de outra transição também bastante fácil, o verbo assume um sentido jurídico-legal, tendo estranhamente, Deus como sujeito”.36 É mais jurídico do que uma simples discussão.37 No comentário bíblico de Stuhlmueller encontramos a seguinte definição:

Esta passagem está escrita no estilo de um procedimento legal na porta da cidade (cf. Dt 25,7; Rt 4,1) e inclui a intimação do réu (v.1a), a evidência de crimes (vv. 1b-2a), o veredicto de “culpado” (v.2b, literalmente, “sangue derramado segue-se a sangue derramado”, significando que os crimes estão escritos nas mãos) e o castigo conseqüente (v.3)”.38

Rîb é uma palavra que denota a compreensão de luta, no sentido de combate físico.“O radical rîb está documentado somente em hebraico e aramaico antigo e tem o significado de ‘disputar’. No Antigo Testamento o verbo aparece em qal, que lhe dá o sentido de adversário”,39 pois, qal, significa disputar, contender (em público, com palavras, queixas, declarações, censuras).40 Encontramos a seguinte definição para rîb no dicionário teológico:

rîb e seus derivados se encontram no Antigo Testamento em três âmbitos vitais e lingüísticos que se entrelaçam entre sí: no âmbito do conflito a) extra-judicial, b) prejudicial e c) judicial. O processo que rîb designa se desenvolve entre as partes que, como contendores, estão no mesmo nível (conflito simétrico) ou em nível desigual (conflito assimétrico). 41

Estes três versículos de Oséias aludem a ação judicial do processo e revelam uma característica peculiar dos profetas dos séculos 8º e 7º a.C, que era revelar os delitos do povo ou nação, de forma processual, “o profetismo dos séculos VIII-VII conhece a disputa de Yahweh contra seu próprio povo”,42 é isso que está implícito em Oséias 4.1.

O profeta Miquéias, contemporâneo de Oséias, declarou as maldades de Israel usando a mesma raíz hebraica três vezes, durante uma única sentença, utilizando-a para convocar o povo para um pleito43 (Cf. 6. 1-2). O próprio Oséias a repete, conforme citado no capítulo 12.3, para designar um desfecho condenatório.44

De igual modo o profeta Jeremias, que profetizou durante a segunda metade do século 7º a.C., ao anunciar os oráculos de Deus para as nações, declarou: “O Senhor tem uma contenda contra as nações, entrará em juízo contra toda a carne” (25.31). A palavra contenda, que aparece neste versículo, tem no texto hebraico a mesma raíz, ריב [rîb].

Oséias 4 seria uma forma de agrupamento de ditos ja mencionados, revelando-os em palavras críticas e ameaças.45

Assim, a abertura do processo seria contra os próprios habitantes de Israel (yoxebim). Nas palavras do verso 1, observamos a acusação: “porque não há fidelidade, nem amor, nem conhecimento de Deus na terra”. Iahweh acusa Israel de serem os responsáveis por estas ausências, ou seja, Israel deveria ter responsabilidades para com os habitantes da terra e não deram atenção à isto.

A biblista Mercedes Lopes traduz a palavra hebraica “yoxebim”, por “governantes”. “O termo yoxebim tem como raíz o verbo yxb que tem os sentidos de ‘sentar-se’, de ‘estar situado’, de ‘governar’, de ‘instalar-se’. Como verbo, yxb toma ainda o sentido de ‘reinar’ (...). Por tudo isso, traduzo yoxebim em 4,1 por ‘governantes’.46 Desta forma, é por causa dos governantes que a vida sofre ameaças na terra.

Para Alonso Schokel e Sicre, esse processo tem muito mais a função de repreensão, que procura a reconciliação, do que um simples castigo.47

Oséias 4.1 a 3 é na verdade uma introdução aos versículos que se seguem, onde Iahweh acusa os sacerdotes de serem os culpados por boa parte dos males presentes na nação, ja que eles representavam o Estado. Eles, que deveriam ser mediadores entre o povo e Deus, ensinando-lhes o verdadeiro conhecimento de Iahweh, se corremperam para o lado da corte e do cultos profanos do baalismo,48 conforme expresso em Oséias 4.8-10

Parte desta acusação de Iahweh também se destina aos próprios habitantes do país, conforme o versículo primeiro.49 “Não diz “meu povo”, mas “israelitas...habitantes da terra”, ressaltando a sua radicação em uma terra que se contagia com os pecados e compartilhará os castigos”.50

6.2 Acusação (v.1b-2)

A. Ausência (v.1b)

O profeta inicia sua fala declarando o que falta no meio do povo: fidelidade, amor e conhecimento de Deus. Estas três carências ja denotam o pecado da nação:

Fidelidade. A acusação feita à Israel é a de que, entre outras coisas, eles também são infiéis a Iahweh. A palavra hebraica para fidelidade é ´emet (אמת), que significa firmeza, verdade. “Esta palavra tem sentido enfático de certeza, confiança”.51 “A verdade é a honestidade habitual ou confiabilidade, o primeiro ingrediente que exigimos em qualquer negócio,52 mesmo impessoal, que realizamos com o nosso próximo”.53 É esta confiança, que Iahweh gostaria que existisse neste relacionamento.

Amor. O amor, do hebraico hesed (תסד) significa bondade, bondade amorosa, misericórdia.54 “(...) Espera-se amor e lealdade dos parceiros de uma aliança; e esta parceria tem o sentido de enlaçar tanto o Senhor como todos os companheiros israelitas (...)”.55 O termo hesed aparece 245 vezes em todo o Antigo Testamento; 6 vezes somente em Oséias.56 A etimologia da palavra é incerta. É possível que a raiz esteja relacionada com a palavra árabe hasada, “reunir-se para prestar socorro”.57 Desta forma hesed é traduzida como amor solidário, voluntário, e aparece em Oséias como uma exigência.58

Conhecimento. Uma das queixas fazia referência à falta de um verdadeiro conhecimento de Iahweh (דצת- da׳at ׳elohim), da mesma raiz yada (ידע), que tem um sentido de saber.

“Usa-se yada para designar o conhecimento que Deus tem do homem (sic) e de seus caminhos (...). Usa-se também yada para designar o conhecimento que o homem (sic) e igualmente os animais possuem. (...) Yada é usado para expressar familiaridade com uma pessoa (...) também é usado para os relacionamentos mais íntimos”.59

O conhecimento de Deus, reclamado em Oséias, torna-se muito expressivo e que se pode distinguir:

Particularmente distintivo é o conceito profético de “conhecimento de Deus”(da׳at ׳elöhîm), que é especialmente proeminente em Oséias (...). O conhecimento de Deus deriva daqueles destacados acontecimentos históricos em que Deus deu provas de si mesmo e revelou-se a indivíduos escolhidos, tais como Abraão e Moisés. Essas revelações devem ser ensinadas a outros. “Conhecimento de Deus” aparece em paralelo com “temor do Senhor” (...) como descrição da religião verdadeira. Aquele que tem uma relação correta com Deus confessa-o e obedece-lhe. Exercitar o juízo e a justiça e julgar a causa do pobre e do necessitado é conhecer a Deus (...). Por outro lado, onde não há nenhum conhecimento de Deus, existe o perjúrio, a mentira, o homicídio, o roubo, o adultério e a quebra de todos os limites (...).60

A denúncia do profeta vem mostrar que a religião daquele povo era baseada em mentiras. O verdadeiro conhecimento é adquirido à medida que se caminha com Deus61, à medida que se exercita a misericórdia (hesed).62 Tais palavras revelam que o povo se esqueceu do seu Senhor.63 Sem conhecimento de Deus todos “vão se afastando das tradições que marcam a identidade de Israel. ‘Já não existe fidelidade, nem bondade, nem conhecimento de Deus na terra’ (v.1c)”.64

B. Presença (v.2)

As virtudes que deixaram de existir nos israelitas e que foram citadas por Oséias (v.1), possibilitaram que outras atitudes fossem agregadas às suas práticas de vida. Todos os preceitos transmitidos por Oséias, como práticas ausentes em suas vidas, (v.2) referem-se diretamente à expressões do Decálogo, para orientação do povo de Israel. “O Decálogo constitui o representante principal das séries de proibições que se dirigem de forma direta ao indivíduo”.65 É o “Não farás”; proibições expressas em várias referências (Lv 18.7s; Êx 22.17-20, 27 e 23.1). “Os mandamentos do Decálogo advertem contra o delito antes que seja cometido, constituem instruções para a vida (...).66

Os dez mandamentos, tanto reforçam a necessidade do ser humano manter um relacionamento com Deus, como atuam na proteção à vida, proteção ao próximo.67 Entretanto, a acusação do profeta, revela que os israelitas agiram de maneira oposta, ou seja, em Oséias, os mandamentos são negligenciados. “O que se encontra na terra é todo o contrário das tradições do Êxodo, expressas no decálogo (Êx 20,2-17; Dt 5,6-21)”.68



Perjúrio e mentira. Perjurar é o mesmo que jurar falso, faltar a promessa, maldizer. Maldizer para prejudicar os outros. Em Êxodo 23.1,7 encontramos a orientação para não perjurar, nem maldizer: “Não espalharás notícias falsas, nem darás mão ao ímpio para seres testemunha maldosa. Da falsa acusação te afastarás”.

Assassínio e roubo. A manifestação da vontade divina em Êxodo 20.13,15 era: “não matarás”, “não furtarás”. O profeta Oséias, conhecedor desses preceitos divinos, ja havia anteriormente manifestado sua indignação quanto aos assassinatos ocorridos em Israel. Após o período de reinado de Jeroboão II, muitos reis que o sucederam foram assassinados (Zacarias, Pecaías)69. Oséias criticou duramente o rei Jeú pelas matanças provocadas por ele na terra de Jezreel (Os 1.4), onde causou um fim sangrento ao governo de Jorão, exterminando com ele, toda sua família (2 Rs 9s).

Adultério e violêcia. “Não adulterarás”, é a declaração que encontramos no decálogo. Entretanto, para Oséias, o adultério expressa a infidelidade de Israel que se esqueceu de seu Deus (praticando a religião cananéia)70 e de seus preceitos.

Sangue derramado soma-se a sangue derramado. Acúmulo de sangue derramado significa que assassinatos foram cometidos.71 Sem dúvida, as mãos de muitos israelitas, governantes e sacerdotes, estavam manchadas de sangue, por isso, seriam processados devido ao sangue derramado nas inúmeras guerras. Essa expressão “parece indicar as guerras provocadas pelas insensatas alianças feitas pelos governantes. Em vez de impedir a invasão do império, empobrecem e debilitam o povo, abrindo passagem para o dominador que entra com tal violência que a terra se cobre de sangue”.72

(...) Os crimes representam um mini decálogo (...). São todos crimes contra os relacionamentos básicos e a confiança humana: imprecações pela linguagem ritual, mentiras, assassinatos premeditados, raptos (o significado original , em vez de “roubos”) e adultério.73

Para o povo de Israel, ouvir tais palavras, fazia um grande sentido, pois eles eram o povo da aliança. O povo que Iahweh escolheu para estabelecer uma aliança de fidelidade. As palavras do profeta anunciavam que esta aliança havia sido quebrada pelos israelitas, que agiam com relação a Iahweh como uma esposa infiel.

Como conhecedores da Lei Mosaica sabiam que a quebra dos mandamentos divinos resultariam em conseqüências, conforme Êxodo 19.5 que declara: “Agora, pois, se diligentemente ouvirdes a minha voz e guardardes a minha aliança, então, sereis a minha propriedade peculiar dentre todos os povos; porque toda a terra é minha”.

6.3 Sentença (v.3)

Oséias declara as conseqüências da desobediência, conforme expressas anteriormente no verso 3: “Por isso a terra se lamentará, desfalecerão todos os seus habitantes e desaparecerão os animais selvagens, as aves dos céus e até os peixes do mar”.74

Os mandamentos que foram violados pelo povo de Israel, são ações que correspondem ao direito do próximo. Embora todas estas práticas interfiram no relacionamento do ser humano com Deus, por não agradá-lo, elas agridem e infringem o direito à vida. A violência gerada a outrem interfere na vida como um todo. É o sangue derramado que se junta ao sangue derramado.

David A. Hubbard, citando Andersen em seu livro “Oséias: introdução e comentário,” declara:

(...) sangue derramado pode indicar uma carnificina grande e brutal ou, mais especificamente, a atividade de tropas armadas, invadindo casas a fim de capturar vítimas para os sacrifícios humanos que alimentavam os altares de Baalins (Andersen, pp. 338-339), uma transgressão cruel da lei divina (...).75

As palavras do profeta Oséias denotam uma ação futura, revelando algo que ainda haveria de acontecer. Tem o peso de uma catástrofe que vem sobre todos os habitantes da terra gerando grande caos, deixando a terra desabitada. Seres humanos, animais na terra, nos céus e no mar sofrerão as conseqüências dos atos descritos acima. “É um discurso de julgamento abrangente, acusando o pecado em termos amplos (v.1-2) e anunciando um juízo de alcance cósmico (v.3)”.76

Esta sentença estabelecida por Iahweh poderia ser uma forma de mostrar a todos a onipotência de Deus sobre os baalins, pois estas divindades exigiam de seus adoradores, além das práticas sexuais em seus cultos, o culto à própria natureza.77 Nesses rituais os adeptos procuravam através dos elementos da natureza exercitar a processo adivinhatório, prática totalmente abominada nos escritos bíblicos pelo próprio Deus (cf. Dt. 18.9-12). O próprio Oséias se queixa desta prática divinatória através de objetos de madeira: “O meu povo consulta o seu pedaço de madeira, e a sua vara lhe dá resposta; porque um espírito de prostituição os enganou, eles, prostituindo-se, abandonaram o seu Deus (cf. Os.4.12)”. Gerhard von Rad contextualiza esse processo adivinhatório:

A adivinhação era a mais elevada das ciências, a ciência “das coisas ocultas”, dos mistérios dos céus e da terra, como diziam os babilônios. O especialista consultava a vontade divina, através de sonhos, de visões, de fenômenos atmosféricos ou astronômicos e das tábuas do destino. Enfim, através de um ritual sagrado que supunha o uso de objetos também sagrados. (...) Os métodos advinhatórios são variados: chuva, trovão, direção do relâmpago e terremotos deram origem às hemerologias e menológios (descrição dos meses). Extremamente apreciada era a hepatoscopia (exames das entranhas, especialmente do fígado, de animais sacrificados), assim como a lecanomancia (observação de lagos e tanques ou do som de objetos ao caírem na água).78

Todas estas ações negativas produzidas pelo povo de Israel, que são uma violação aos termos da aliança, agridem não apenas a Deus e ao próximo, mas tem ação direta no meio ambiente. “A sentença proferida por Oséias (v.3) demonstra a responsabilidade de Israel para com outras nações, bem como, a estabilidade ecológica (que) implicaria não só no relacionamento humanidade-Deus, mas humanidade-humanidade e humanidade-natureza”.79 A respeito desta exploração e violência gerada ao próximo, Mercedes Lopes destaca o seguinte:

O perigo da contaminação cúltica está relacionado tanto à perda da identidade do povo israelita como a ideologia que leva a explorar as pessoas e a natureza, através da dominação dos corpos, tanto pelos sacerdotes da religião de Yahweh (4,8), como pelos governantes (reis com seus ministros e exército) que exigem tributos e promovem as guerras.80

Desta forma, a vida na terra começa a ficar ameaçada. “Terra e habitantes, igualados no castigo, permutam entre si as funções: lamenta-se a terra, definham os habitantes. Despovoada da vida animal, a terra fica vazia e de certo modo desfeita (...)”. 81 É o prenúncio de uma iminente catástrofe.

Não é um castigo de Yahweh, mas uma conseqüência do não cumprimento do decálogo. É conseqüência da falta de conhecimento de Deus, tanto dos governantes da terra, como de seus habitantes, tanto daqueles que deveriam conduzir o povo pelos caminhos da vida, através das relações de solidariedade e de justiça, como do próprio povo que não busca um conhecimento que leve à promoção, defesa e cuidado da vida.82

Hubbard ainda trabalha a idéia de que o juízo estabelecido por Iahweh seria um forma de “estiagem”, que é a falta de chuva que leva a seca. Ele explica:

(...) O juízo parece tomar a forma de estiagem – uma sentença apropriada para crimes cometidos na busca da fertilidade por meio dos Baalins (...) – conforme indica o segundo verbo, “ressaca” (“desfalece”, ARA; “esvai-se” (...), e o primeiro verbo (o hebraico ´bl, está em luto, parece ter o sentido de “secar”, em Jr 12.4; 23.10; Am 1.2) pode sugerir. A extensão da seca, acabando com tudo o que mora (...) na terra e com todo o reino animal – animais, aves e peixes – mostra que a devastação não é apenas natural: os crimes na terra de Israel (v.1) resultarão em juízo para todo o “planeta” (pode-se interpretar terra nesse sentido, no versículo 3) (...).83

Assim sendo, percebemos que ocorre nestes versículos uma ruptura do ser humano com a natureza. Para Mercedes Lopes, “a unidade literária deste texto mostra que a vida ficou corrompida e a harmonia do cosmos foi quebrada em consequência da violação de um pacto estabelecido por Yahweh”.84

Cabe salientar que os animais citados em Oséias 4.3, são os mesmos que ficaram sob a responsabilidade dos seres humanos, quando na narrativa da criação do mundo em Gênesis 1.26b. “Tenha ele domínio sobre os peixes do mar, sobre as aves dos céus, sobre os animais domésticos, sobre toda a terra e sobre todo réptil que rasteja sobre a terra”. A respeito da palavra domínio, maxal, Siqueira diz que em Gênesis este verbo significa dominar, governar, falar em provérbios, com sabedoria. Ele explica:

(...) Há uma relação entre governar e falar com sabedoria (...) Assim, maxal é uma palavra hebraica que significa dominar ou governar com sabedoria. Posteriormente, o livro de Isaías comparou maxal com pastorear, apascentar (Is 40,10-11; Mq 5,2), (...). Portanto, a ordem de Deus para o casal humano nunca foi dominar a natureza com tirania, crueldade, mas com sabedoria, isto é, com o amor de um pastor ou pastora de ovelhas.85

Durante muito tempo, acreditou-se que “o ser humano poderia e deveria dominar a natureza”86. Por não saber agir com sabedoria, mas explorando a natureza e as pessoas, é que o pecado de Israel alcançou dimensões cósmicas.87


1   2   3   4   5   6   7   8   9   ...   13


©principo.org 2016
enviar mensagem

    Página principal