Oséias 1-3: Um chamado ao compromisso com o meio ambiente— Roseli a de Oliveira



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7 Considerações sobre o capítulo


A presente pesquisa buscou demonstrar a importância de considerarmos o tema proposto. Entendemos que sustentabilidade ambiental é um assunto atual e que continua exigindo de cada um total atenção, e por esta razão, torna-se extremamente necessário o conhecimento dos fatos descritos acima e de tantos outros, para que possamos adquirir ou desenvolver cada vez mais esta consciência ecológica. Entretanto, os problemas existentes e que são ameaças à vida no planeta, não surgiram de maneira súbita. Tais ameaças, embora surgissem imprevistamente, porque na antiguidade não era possível imaginar que o mundo viria a sofrer tais riscos, (embora a Bíblia já sinalizasse algumas conseqüências da irresponsável ação humana) ao longo do tempo foram emitindo sinais que demonstravam que algo estava errado com a ordem no mundo. Lastimavelmente demoramos a compreender estes sinais.

A pesquisa exegética de Oséias, analisada no capítulo 1 deste trabalho, nos mostrou que Deus/Yahweh possui uma preocupação para o mundo criado, e nesta preocupação concedeu aos seres humanos a responsabilidade de preservá-lo, não como um jugo imposto sobre a humanidade, mas como uma dádiva divina, pois a nossa participação no cuidado do planeta acarretará em benefícios para nós mesmos e para o futuro da humanidade. É isto que veremos no terceiro e último capítulo deste trabalho.

Com base nos argumentos exegéticos da perícope de Oséias, analisados no primeiro capítulo, e diante da constatação dos problemas ambientais diagnosticado no segundo capítulo, com todo o reflexo que atesta nossa irresponsabilidade, nos propomos no último capítulo, a levantar pistas que sinalizem o que ainda podemos fazer a fim de salvarmos o nosso mundo.


Capítulo 3
a proposta de oséias: um chamado ao compromisso

1 Introdução


O requisitório apresentado por Oséias na perícope analisada tinha uma única finalidade: chamar a atenção do povo de Israel (toda a nação, incluindo governantes e sacerdotes) para os males por eles cometidos contra Yahweh, contra o seu semelhante e contra o meio ambiente. Como vimos no capítulo 1 deste trabalho, mais do que infligir um castigo, as palavras do profeta continham em si o desejo de Yahweh, em ver o seu povo se arrependendo de seus pecados e adquirindo novas práticas de vida.

O propósito deste capítulo é apresentar um diálogo entre o passado e a atualidade, com base na pesquisa oferecida no capítulo 2, e a partir desta construção levantar pistas e perspectivas que nos ajudem a compreender a nossa participação e responsabilidade diante de tudo o que já foi apresentado.


2 Chamado de atenção do profeta Oséias: seu alcance ontem e hoje


Assim como no passado a finalidade de Deus era promover a conscientização e o despertamento de um povo para as tragédias que poderiam abater a vida na terra, na atualidade, Deus continua com o mesmo propósito.

Segundo as narrativas bíblicas da criação (Gênesis 1 e 2), aprendemos que desde o princípio, todas as coisas (cosmo e ser humano) foram criadas com um propósito. Embora as histórias da criação não sejam parâmetro para fornecer respostas para a ciência, “pela compreensão das origens (da gênese), pode-se avaliar o quanto nos aproximamos ou nos distanciamos do propósito original de Deus para nós e para o nosso mundo”.134

De acordo com Genilma Boehler, estas narrativas da criação nos mostram que “estamos intrinsecamente vinculados a toda criação”. Seja cuidando da terra, cultivando, guardando ou a povoando, “somos mais dependentes do que imaginamos. Não podemos viver sem a comunidade ecológica que sustenta a possibilidade da nossa existência. Não somos os donos da natureza, mas somos parte dela”.135 Portanto, embora explícito, vale ressaltar que não é apenas a natureza que depende da ação humana para sobreviver, mas os seres humanos também dependem da ação renovadora da criação para garantir sua sobrevivência.

Para Oséias, a autenticidade do conhecimento de Deus é demonstrada não por palavras ou pelo simples fato de se pertencer a um grupo religioso (como pertencer à classe sacerdotal), mas por um conhecimento que se torna evidente e humanizado, pois “se não há na vida da nação lealdade e respeito pelo próximo todo “conhecimento de Javé” será mentiroso”.136 Nas palavras do bispo Metodista, João Alves de Oliveira Filho, “a fé tem que mobilizar nossos passos em direção a uma prática que respalde a nossa espiritualidade”.137

A grande questão é que nem sempre relacionamos espiritualidade com questões práticas da vida, como assuntos ecológicos. Não nos damos conta que o descuido ou descaso com o meio ambiente é sinônimo de pecado, o pecado ecológico da humanidade. “O pecado ecológico da humanidade é aquele que coloca a natureza sitiada como uma cidade em pé-de-guerra, com a desvantagem de que ela não consegue defender-se dos ataques, ocasionando graves desequilíbrios mundiais, como hoje se vê (...)”.138 O pecado que se revela na destruição da flora e fauna; na precariedade da saúde pública e conseqüentemente no sofrimento de muita gente; nos grandes espaços físicos no interior das igrejas, que se mantém fechados por falta de iniciativas; no desperdício de alimentos em muitos lares cristãos, enquanto tantos, muitas vezes próximos a nós, passam fome.139

O chamado de atenção de Oséias naquele tempo tinha a finalidade de despertar uma geração para assumir um novo propósito de vida diante de Deus. Porém, o Deus de Oséias não é somente o Deus de uma única geração, mas de todas. Suas palavras perpassam todas as épocas, a fim de que todas as gerações tomem conhecimento de seus desígnios sobre todos os povos.140

(...) Porque o livro descreve os caminhos, o estilo de Deus, que em si são sinceros e retos. Se o homem (sic) que os percorre tropeça, se escandaliza, isso é devido á sua atitude rebelde. Compreender não é ato puramente intelectual: não é ato, visto ser caminho que se percorre; não é puramente intelectual, visto exigir atitude correta. Não se trata de ciência, mas sim de sabedoria; a palavra profética convida e desafia o homem (sic).141

Compreender o anúncio profético de Oséias como sendo atual, tendo em vista as terríveis conseqüências que a má conduta humana promoveu no passado, e as reconhecendo em nossa contemporaneidade, nos vocaciona para o mesmo compromisso requerido daquele povo, que é o de assumir um compromisso com o meio ambiente.

A forma como a humanidade se relaciona142 com o meio ambiente hoje é bastante diferente de outrora. Já sabemos que as pessoas conseguem pensar em cuidados ambientais devido à própria reflexão que fazem ao presenciarem ou viverem situações que são frutos de problemas dirigidos à natureza. A humanidade já percebeu que a destruição e os maus tratos causados ao planeta, além de provocar certa destruição à própria terra e vegetação, trazem conseqüências danosas ao próprio ser humano. Muitos já perceberam, por exemplo, que o uso exacerbado de agrotóxicos em plantios, tem causado danos a terra, aos consumidores destes produtos e aos próprios trabalhadores, que sofrem, muitas vezes, com conseqüências à sua própria saúde, como intoxicação, alergias, cegueira ou tumores que se manifestam em longo prazo, e até morte.

A grande questão é que apesar de termos evoluído em nossa concepção de cuidado ao mundo, algumas vezes ainda achamos que já fizemos tudo o que deveria ser feito, ou que não há mais o que se fazer.

Há muitos grupos, organizações e pessoas empenhadas em cuidar da Terra, no entanto, isso não isenta o restante da população de ser responsável pelo cuidado com o meio ambiente. Cada cidadão precisa ter a mesma preocupação e disposição para cuidar no mundo em que vivemos.

Esta mesma responsabilidade recai sobre as Igrejas. É seu dever entender a sustentabilidade ambiental como parte da missão dada por Deus. Tercio Machado Siqueira diz que entende que “a Igreja está numa encruzilhada”, porque, ou ela se apropria da idéia de que os maus tratos feitos ao meio ambiente devem fazer parte de sua pauta e passa a se pronunciar contra isso, ou continua apenas a falar sobre a salvação do pecador e corre o risco de, no futuro, não ter quem ouça suas pregações. 143

Assim, entendemos que não é mais possível à Igreja, manter-se ociosa ou calada. Ela precisa exercitar esta consciência missionária ecológica e “sair em defesa da criação”.144 A sustentabilidade como missão da Igreja será um dos tópicos abordados neste último capítulo.

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