Oséias 1-3: Um chamado ao compromisso com o meio ambiente— Roseli a de Oliveira



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3 Mais de 2700 anos depois a terra continua de luto


A forma como nos relacionamos com o passado são determinantes para o futuro. Manter um olhar voltado para a história antiga, para aquilo que foi bom e aquilo que foi ruim, nos ajuda a analisarmos a nossa própria história e a refletirmos sobre o que queremos como diferente. Olhar para a Bíblia também nos ajuda nesta reflexão. Olhar para a Bíblia é notar luz para o caminho a seguir; olhar para o que tínhamos e o que temos; olhar para os desastres, as frustrações e analisar onde queremos chegar.145

Ao lermos um texto bíblico precisamos sempre procurar entender quem escreveu, para quem escreveu e por que escreveu tal texto. Conhecer o contexto é fundamental para interpretar a razão daquele escrito.

Entretanto, não podemos negar que apesar de tais palavras serem específicas para aquele povo daquela época, ela nos remete à uma afirmação de que Deus, Iahweh, possui um olhar para a criação, para a natureza. A própria palavra criação (apesar desta palavra não aparecer na perícope de Oséias 4.1-3, apenas alguns elementos da natureza) é uma expressão teológica. Conforme narrativa bíblica, o mundo foi criado por Deus (cf. Gênesis 1). Meio ambiente, sustentabilidade, são expressões contemporâneas.

Oséias 4 não é um texto que nasceu com uma preocupação ecológica. Nasceu com outro propósito, mas que pode ser relido com esta perspectiva. Aliás, uma releitura ecológica é de fundamental necessidade para os dias atuais.

O teólogo Haroldo Reimer explica que o mundo contemporâneo trouxe consigo uma nova maneira de se pensar o mundo; essa nova reflexão é denominada “visão holística”, ou seja, é algo referente ao todo. Trata-se de uma compreensão de que os seres humanos fazem parte de um conjunto maior, onde ele é apenas uma parte e não um todo. O ser humano não é o centro de tudo, “embora a nós nos caiba uma posição privilegiada de responsabilidade e cuidado, e, em últimos casos, a tarefa e o privilégio de prover a reflexão crítica sobre o próprio lugar dos humanos dentro do todo.”146

(...) é importante compreender que, na sua etimologia, a palavra eco-logia é constituída por duas palavras-raízes de origem grega. A segunda parte da palavra (=eco) provém da palavra grega oikós, que significa literalmente “casa”. Assim, ecologia tem a ver com a casa como espaço comum da vida. Ecologia, pois, é uma ciência que estuda a “casa” em suas diversas formas de organização e manifestação. Em tempos de globalização vamo-nos acostumando a falar de “aldeia global” ou de “casa global”. Com esse conceito quer se buscar entender todo o nosso planeta terra, ou melhor, todo o universo como uma grande casa. Neste amplo espaço, do qual, muitas vezes, não conseguimos visualizar a extensão, convivem e devem conviver, cada vez mais próximos, os mais distintos elementos e seres de toda natureza e do cosmos. Cada vez mais, o destino desta casa global está relacionado com as ações e as práticas de cada habitante. Se no paradigma moderno se afirma que a terra é uma grandeza a ser dominada e explorada em favor dos seres humanos, dentro da visão do novo paradigma holístico ou ecológico deve-se dizer que a terra é a casa comum de todos os seres vivos e do próprio Deus e cada qual tem responsabilidades e cuidados.147

Ainda hoje nossas ações maléficas, negativas, produzem muita destruição ao nosso mundo, de dimensões tão assustadoras e danosas quanto na época de Oséias. Tal como no século 8º, ao invés de haver harmonia entre seres humanos e criação, o que ocorre é uma grande desatenção para as necessidades de nosso planeta e as grandes ameaças que ele sofre. “O texto bíblico nos apresenta a possibilidade de terríveis consequências para o meio ambiente, quando o ser humano está presente no cenário”.148 Nosso descaso, nem nos permite enxergar, que na maioria das vezes, somos nós os causadores desse grande risco de extinção à muitas espécies e à vida na terra. Lastimavelmente, nem percebemos “que os seres vivos que lutam contra seu ambiente e o derrotam, destroem a si próprios”.149

O grito de socorro que brota da nossa terra e que poucos conseguem ouvir, reflete o drama de Oséias 4.3: “Por causa disso, a terra está de luto, e nela todas os habitantes murcharão, inclusive o animal do campo, e as aves dos céus e os peixes do mar morrerão”.

Enquanto a terra realiza ação própria dos humanos (“fazer velório” e “chorar”), a humanidade está a caminho de experimentar algo que é próprio da natureza: “murchar-se”. A troca de papéis entre natureza e seres humanos mostra a interdependência entre a terra e seus habitantes. Na profecia de Oséias a destruição acontece pelo descaso, ganância e violência daqueles que têm responsabilidade pela vida de todos”.150

A biblista Mercedes Lopes diz que “os textos bíblicos são atuais e atuantes nas lutas de libertação do povo de Deus”.151 Assim, olhar para as narrativas bíblicas, observar os conflitos existentes na época em que foram escritos e perceber, não apenas as consequências vivênciadas por tais atos, mas também a orientação transmitida para a promoção da vida, é uma maneira de percebermos que sim, ainda existem algumas semelhanças entre os humanos do século 21 e os do século 8º a.C. Continuamos em desarmonia com o mundo que Deus criou. Continuamos sendo uma ameaça ao nosso planeta. Justamente nós, os seres humanos, dotados de tanta racionalidade e sabedoria.

Com base na pesquisa levantada na perícope de Oséias, observamos que o Criador propõe que haja uma harmonia entre seres humanos e criação, e podemos atestar com segurança que esta é uma resposta para o nosso problema.

Não apenas a promoção da sustentabilidade ambiental, mas todas as demais Metas instituídas são extremamente necessárias, tais como combater a pobreza e a fome, promover a educação e a igualdade de gênero, melhorar a saúde pública, saneamento, habitação, pois tais ações são elementos fundamentais para se alcançar um mínimo de desenvolvimento e conseguir com isto, construir um mundo mais justo e solidário para todos. Cremos que o objetivo de tudo isto, não é apenas preservar o mundo, ou mantê-lo intacto para futuras gerações, mas construir um ambiente saudável e agradável, onde todos possam viver com mais qualidade e dignidade. Um ambiente em que haja espaço para todos, e de onde todos possam encontrar sua subsistência.

Este também é o ideal proposto por Deus, por isso, alcançar um convívio harmônico, entre a humanidade e a criação, onde haja respeito e cuidado, é fundamental para caminharmos em direção à um futuro possível.

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