Osvaldo polidoro (reencarnação de Allan Kardec) o grande cisma deus



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OSVALDO POLIDORO

(reencarnação de Allan Kardec)

O GRANDE CISMA

DEUS

Eu Sou a Essência Absoluta, Sou Arquinatural,

Onisciente e Onipresente, Sou a Mente Universal,

Sou a Causa Originária, Sou o Pai Onipotente,

Sou Distinto e Sou o Todo, Eu Sou Ambivalente.

Estou Fora e Dentro, Estou em Cima e em Baixo,

Eu Sou o Todo e a Parte, Eu é que a tudo enfaixo,

Sendo a Divina Essência, Me Revelo também Criação,

E Respiro na Minha Obra, sendo o Todo e a Fração.

Estou em vossas profundezas, sempre a vos Manter,

Pois Sou a vossa Existência, a vossa Razão de Ser,

E Falo no vosso íntimo, e também no vosso exterior,

Estou no cérebro e no coração, porque Sou o Senhor.

Vinde pois a Meu Templo, retornai portanto a Mim,

Estou em vós e no Infinito, Sou Princípio e Sou Fim,

De Minha Mente sois filhos, vós sereis sempre deuses,

E, marchando para a Verdade, ruireis as vossas cruzes.

Não vos entregueis a mistérios, enigmas e rituais,

Eu quero Verdade e Virtude, nada de “ismos” que tais,

Que de Mim partem as Leis, e, quando nelas crescerdes,

Em Meus Fatos crescereis, para Minhas Glórias terdes.

Eu não Venho e não Vou, Eu sou o Eterno e o Presente,

Sempre Fui e Serei, em vós, a Essência Divina Patente,

A vossa presença é em Mim, e Quero-a plena e crescida,

Acima de simulacros, glorificando em Mim a Eterna Vida.

Abandonando os atrasados e mórbidos encaminhamentos,

Que lembram tempos idólatras e paganismos poeirentos,

Buscai a Mim no Templo Interior, em Virtude e Verdade,

E unidos a Mim tereis, em Mim, a Glória e a Liberdade.

Sempre Fui, Sou e Serei em vós a Fonte de Clemência,

Aguardando a vossa Santidade, na Integral Consciência,

Pois não quero formas e babugens, mas filhos conscientes,

Filhos colaboradores Meus, pela União de Nossas Mentes.

RASGANDO O VÉU
A primeira perseguição em massa, oficialmente levada a efeito contra os cristãos novos – relata-nos a história – teve lugar no reinado do truculento Nero (ano 64 D.C.). Acusado o imperador pelo povo de haver ateado fogo à cidade de Roma para se inspirar, pois fora visto, na ocasião, de lira em punho, a entoar um hino sobre o incêndio de Tróia, lançou toda a culpa desse crime contra os seguidores do Nazireu. Daí o motivo pelo qual o poviléu, açulado como a hiena bravia, exigisse o trucidamento sumário e impiedoso desses mártires, ora nas arenas à sanha dos leões, ora untados com pez para servirem de archotes vivos, em dias de festa, nos jardins do famigerado César.

Foi esse, realmente o primeiro golpe assestado contra o verdadeiro cristianismo, nas pessoas dos seus ardorosos e sinceros sectários. Todavia, foi Décio, dos imperadores romanos (anos 249 a 251 D.C.), o primeiro a empreender uma perseguição sistemática e oficializada contra os neófitos da doutrina cristã. Iniciada nesse reinado, ela se desdobrou até atingir o seu clímax no governo de Diocleciano (anos 303 a 311 D.C.). Caracterizada pela sua violência sanguinária, foi, entretanto, o marco inicial de uma completa transformação tática e política, no reinado do imperador sárdico, transformação essa visando à nova seita. Como os métodos violentos aplicados contra essas vítimas inermes não surtiram o efeito desejado, havia, portanto, mais que nunca, necessidade de mudança dessa atitude drástica por outra mais inteligente e eficaz, uma vez que logo nos dois primeiros séculos de vida o cristianismo havia aumentado consideravelmente o seu raio de influência; no terceiro, avassalara todo o Império Romano e no princípio do quarto século estendeu-se também pelo Oriente. O sangue dos mártires era, assim, como que a essência generosa e providencial, que conferia à doutrina a consistência vigorosa e tenaz do cacto bravio, a desafiar a aspereza do chão piçarrento.

No dizer de diversos historiadores, Constantino era um homem relativamente iletrado, porém, sagaz, de uma acuidade espiritual inimitada; percebeu ele, desde logo, a inutilidade daqueles processos de perseguição calculada e fria movida contra os nazireus, como eram então chamados. Por outro lado, ante seus olhos processava-se rapidamente o desmoronamento do Império, pela falta de unidade, coesão e moral. A sociedade romana deixava-se empolgar e corromper-se ante as pompas e a ociosidade do viver oriental. De promiscuidade com os elementos bárbaros da invasão, os súditos não obedeciam mais ao governo central. Os desregramentos morais, as incontinências, a lascívia e outros vícios que prognosticam sempre a deterioração social, roíam surdamente o pedestal das instituições romanas, anunciando o fim próximo dessa civilização decrépita e doentia.

Tudo isso passou como um relâmpago pelo cérebro de Constantino. Urgia, pois, uma providência eficaz para evitar a catástrofe iminente.

No seu leito de morte, corroído pelas úlceras, Galério, aquele mesmo potentado que antes arrancara das mãos de Diocleciano o famoso edito de perseguição aos cristãos, entregava aos seus executores outra ordem, mas esta, de complacência à nova doutrina. Remorso ou não, quiçá – quem sabe? – os mesmos fundamentos que despertaram os cuidados e a preocupação de Constâncio, o tetrarca moribundo via no seu último gesto o passo fundamental dado no sentido da solução de um grande e importantíssimo problema. Eis o edito:

Entre os importantes cuidados que ocuparam o nosso espírito em prol do bem e preservação do império, foi nossa intenção corrigir e restabelecer todas as coisas de acordo com as antigas leis e disciplina pública dos romanos. Fomos particularmente insistentes em chamar ao caminho da razão e da natureza os iludidos cristãos que, tendo renunciado à religião e cerimônias instituídas pelos seus pais e desprezado, presunçosamente, a prática da antigüidade, entenderam de inventar opiniões e leis extravagantes em harmonia com os ditados de sua fantasia, para, dentro delas, constituir com elementos das diferentes províncias do nosso império, uma sociedade heterogênea. Os editos que publicamos para reforçar o culto dos deuses, tendo exposto muitos dos cristãos a perigo e aflição, muitos tendo sofrido a morte, e muitos mais que ainda persistem na sua ímpia loucura tendo-se visto privados de qualquer exercício público da religião, achamo-nos dispostos a estender a esses infelizes homens os efeitos da nossa habitual clemência. Damos-lhe, portanto, permissão para professar livremente as suas opiniões privadas e reunir-se em seus conventículos sem receio ou molestamento, desde que mantenham sempre o devido respeito pelas leis e o governo constituído. Por um outro rescrito, manifestaremos as nossas intenções aos juízes e magistrados; e esperamos que a nossa indulgência estimule os cristãos a oferecer as suas orações à divindade que adoram, pela nossa segurança e prosperidade, pela sua própria e pela da república.”( H. Universal – H.G. Wells).



Anos depois, subia ao trono Constantino, o Grande. O ato de clemência do seu antecessor, mais ainda avivou no espírito do novo imperador a necessidade de uma outra medida acertada para salvação do império e das suas instituições seculares. Romper definitivamente com estas, para salvar a unidade política da pátria, seria um sacrifício caro demais para ser posto em prática. O paganismo tinha de continuar vivendo, ainda que camuflado por qualquer modo e a qualquer preço.

Um clarão nefasto iluminou, então, num átimo de tempo, o cérebro do filho de Constâncio Cloro: simularia uma conversão; desse modo, estaria perfeitamente garantido o plano que concebera para manter a hegemonia do Estado e solapar os alicerces da novel religião, em proveito das instituições romanas. Desse conchavo, resultou o edito de Milão e a convocação, pelo poder temporal, do famoso primeiro Concílio de Nicéia (ano 325). Constantino fez da Igreja uma instituição prepotente, autoritária, absoluta, porém sempre um instrumento dócil aos interesses políticos do Estado, ainda que, para isso, fosse necessário derramar, como derramou, o sangue generoso de tantos mártires.

Assim entronizada pelo braço forte do poder estatal, iniciou a Igreja a sua jornada fatídica, pontilhando as páginas da História de crimes horripilantes e lançando sobre os povos uma imensa cortina de trevas.

O segundo Concílio de Nicéia, fiel às tradições do paganismo, assegurou a adoração das imagens, condenada pela Lei. O cristianismo emergido dos decretos forjados nos concílios nada tinha de comum com a pulcra doutrina pregada por Jesus; em nada diferia dos cultos Serapis, Amon ou Bel-Marduk, no dizer de Wells. Fez do papa um deus e da verdade um mistério proibido à argúcia dos fiéis. E é esse, infelizmente, o desfigurado arremedo de cristianismo que ainda hoje vige em grande parte da nossa sociedade, se bem que apresentando já sintomas indisfarçáveis de colapso.

De todas as ofensas, porém, dirigidas contra a pureza dos elevados ensinamentos de Jesus, a mais ignominiosa é aquela que proíbe, que sufoca e procura ainda hoje sufocar o exercício sagrado e fundamental do Espírito Santo, conforme se lê em I Epístola de Paulo ao Coríntios, cap. 14. Esse foi, sem dúvida nenhuma, o maior cisma cometido pelos falsos cristãos, embora conhecessem a terrível advertência: “Portanto vos digo: Todo o pecado e blasfêmia serão perdoados aos homens, porém, a blasfêmia contra o Espírito Santo não lhes será perdoada. E todo o que disser alguma palavra contra o Filho do homem, perdoar-se-lhe-á; porém, o que a disser contra o Espírito Santo, não se lhe perdoará, nem neste mundo, nem no outro.” (Mateus, XII, 30 a 32).

Perseguidos e espezinhados por todos os lugares pelo feroz Anticristo, esses médiuns foram paulatinamente desaparecendo, enquanto a Besta 666, ao contrário, ia consolidando os seus tentáculos em todos os quadrantes do mundo profano. O materialismo, como conseqüência dessa apostasia, desenvolveu as suas raízes.

Cumpre-nos, todavia, o dever de saber fazer a distinção devida entre Catolicismo e Cristianismo, hoje tão lamentavelmente confundidos. Assim, enquanto advertia o profeta Jeremias: “Maldito o homem que confia em outro homem”, o papa se fazia infalível.

Enquanto recomendava Jesus: “A qualquer que te ferir numa face, dá a outra; quem quiser apossar-se da tua roupa, dá-lhe também a tua capa; ama aos vossos inimigos, etc.”– a bula do papa Nicolau II proclamava: “Anátema eterno e excomunhão ao temerário que não tenha em conta o nosso Decreto e que em sua perseguição tentar submeter ou perturbar a igreja romana. Que nesta e na vida futura prove a cólera de Deus (!) e a ira dos apóstolos, cuja igreja ele tenha tentado derrubar; que sua casa fique deserta, que seus filhos fiquem órfãos e viúva sua mulher; que seja desterrado e seus filhos obrigados a mendigar seu pão e expulsos de sua casa; que toda a terra combata contra eles e que todos os elementos lhe sejam hostis!”. Que belo exemplo de amor fraternal! Quanta diferença da mansidão e humildade de Jesus!

Também foi dito: “Guardai-vos dos que querem andar com vestidos compridos e gostam de ser saudados nas praças e de ter os primeiros assentos nos banquetes; os quais devoram as casas das viúvas a pretexto de longas orações. Receberão uma condenação severa.” (Sem comentários...).

A chamada conversão de Constantino não era, como se vê, mais do que uma reação para sobrevivência do politeísmo pagão da Grécia e de Roma dos primeiros tempos. Todavia, as profecias de Jesus já previam a futura restauração da verdade, antes do ano 2000; e hoje vemos o Espiritismo sacolejando vigorosamente os alicerces falsos dessa máquina, que não tardará a se desmantelar; e a Igreja de Jesus, iniciada no Pentecoste, a irradiar benditas verdades para a salvação dos povos.

São de Emmanuel as seguintes palavras: “Em vão o mundo esperou as realizações cristãs iniciadas no império de Constantino. Aliada do Estado e vivendo à mesa dos seus interesses econômicos, a igreja não cuidou de outra coisa que não fosse o seu reino perecível. Esquecida de Deus, nunca procurou equiparar a evolução do homem físico à do homem espiritual, prendendo-se a interesses mesquinhos da política do mundo. É por isso que agora pairam-lhe sobre a fronte os mais sinistro vaticínios.” (“A Caminho da Luz”).

Os tempos chegaram. A onda de fenômenos psíquicos em crescente intensidade invadiu toda a Terra e já não há mais quem tenha o poder de sustá-la. Nesse crescendo constante e rápido, ao som do tropel fragoroso dos quatro cavalos apocalípticos, enquanto o mundo velho se esboroa irremediavelmente, os raios brilhantes de um novo sol começam a despontar no horizonte da vida. Em meio desse caos, o surdo rumor da velha igreja que se desmorona afugenta, espavoridos, os escravizadores do homem.

Iniciada a restauração da igreja revelacionista, o ciclo agora vive a sua fase sintética e, assim, tudo procura seguir a senda da unificação.

“O Grande Cisma” faz parte de uma série onde os interessados e estudiosos encontrarão os mais elevados ensinamentos e informes sobre o renascimento da igreja cristã.



Heráclito Carneiro
Nunca soube de meus pais, nem de parente algum. E se chamei alguém de pai, de mãe, e pensei nos que podiam ser irmãos, não o fiz por engano, mas enganei-me e por inteiro. Assim é que comecei a minha vida, na última passagem que fiz pela Terra, no último arranco a bem de minhas relativas liberdades. Relativas, é claro, pois a libertação total ainda viceja muito longe de minhas realizações. No quadro de meus eventos, marcas fortes ainda restam, para que o encontro seja feito, entre mim, o Ego relativo, o ser evolutível, e o Ego Total, Deus.

Porque, inventem-se como queiram teorias, ou filosofias, adotem-se as mais variadas interpretações do problema espiritual, a verdade é que somos portadores de virtudes divinas, mas virtudes que devem aflorar em nós mesmos, à custa de vivências práticas, de trabalhos íntimos. Se dissermos que tudo se resume em pureza e sabedoria, ou amar a Deus de todo o coração e de toda a inteligência, estaremos muito certos, desde que se interprete isso como sendo aplicações práticas, e aplicações que resultem no bem-fazer ao próximo.

Nisto faço questão de chamar a atenção de quem eventualmente me possa vir a ler; embora se fale muito sobre o Céu, e graus celestiais sejam cogitados e distribuídos a granel, ninguém jamais gozará qualquer tonalidade celestial, sem que se faça espontaneamente amoroso. Porque, de tal modo, para dizer de um modo entendível, foram expostas as verdades espirituais pelo Ego Total, ou Deus, que sem amor, nenhum valor é de direito e de fato. O Céu interior é vigente quando o amor lhe marca o encontro, a chegada, identificando completamente o Ego relativo.

Também, amigos, podem teimar ferrenhamente os partidários de teorias as mais contrárias, dizendo ser ou não veraz a questão imoralista e suas conseqüências ou decorrências. Podem teimar, é claro, pró ou contra; mas ninguém deve pretender mudar a natureza real dos fatos, pelo simples poder de teimar, porque bem longe do alcance humano, paira o direito de alterar a ordem universal. Digamos, com simplicidade, que a função do Ego relativo não é discutir os problemas fundamentais, e sim aprendê-los, assimilá-los e dar-lhes seguimento íntimo. Sintonizar com o Ego Total é levantar bandeira e bradar vitória; fazer oposição significa truncamento, atrofia, quebrantamento dos direitos de libertação.

Não penseis que pretendo negar o direito de livre discussão. Sei muito bem a origem de tais veleidades volitivas. Quero dizer, apenas, que direito de discussão não significa poder de alteração da ordem fundamental. O Ego relativo, ou espírito dito criado é conseqüente e não necessário. Necessário é Deus, ou Ego Total, e Dele se derivam as leis e os destinos. Harmonizar-se, portanto, eis a tarefa do Ego relativo.

Para compreender o dever de harmonização, quanto se tem que viver?

Depois de haver crescido intimamente, ou ter evoluído, a ponto de compreender a importância da lei de harmonia, quanto resta fazer para realizá-la?

O grau de Céu a gozar corresponde integralmente ao tom de harmonização a que se atingiu. Que se atingiu de modo prático, fica bem entendido, pois as realizações teóricas são apenas teóricas, não conferem estado de vivência clássica. Sonhar é sonhar, e embora se o faça a respeito de questões sadias, nunca será mais de que sonhar. E podemos afirmar, com sobras de razão, o quanto apenas sonham miríades de criaturas, na Terra e nestes espaços tão saturados de complexidades ambientais. Porque vivem na esperança dos milagres e dos mistérios, dos cabalismos e dos poderes simbólicos. Confiam na força da fé contemplativa, esquecidos de que o seu poder é teórico, é apenas ideal, restando ao poder realizador a concretização de fato, a cimentação final, a ereção do edifício!

Nos baixios astrais deambulam legiões de criaturas crentes. Nos planos inferiores do Céu, ou nas esferas menos esplendorosas gravitam legiões de grandes esperançosos, de quiméricos pensadores do Nirvana. Isto porque, amigos, se de algum modo procuraram saber daquelas realidades, nem sempre se desincumbiram bem da função prática, achando que saber delas era o suficiente. A fé vale como instrumento primário, assim como a importância da teoria é apenas projetista. Sem a complementação prática, tudo fenece no momento mais asado, na grande hora em que a encruzilhada se faz presente, indicando que é chegado o momento de tomar posse do que se fez por ter até então.

Uma é a lei, para todos. Essa lei quer dizer tudo, os valores internos, inatos, e as instruções que nunca faltam, quando a criatura se faz acessível. Porque, em verdade, o Ego Total tudo tem disposto, a fim de que, na hora certa, surja a instrução necessária. Com a subida do homem na escala dos poderes intelectuais, não se processou a vinda dos Grandes Mestres? Entretanto, ninguém é obrigado a aceitar o Mestre; porque, para tanto, conta com o direito de livre discussão. Este direito faz do homem um semideus, responsabilizando-o, tornando-o proprietário de suas semeaduras e colheitas. Como homem, ou como igual a todos, posso afirmar o quanto temos usado e abusado deste direito natural. Pensamos como queremos, no quadro de nossas possibilidades, dizendo sim ou não ao Mestre; depois, na hora da verificação, temos o resultado exato, custando-nos dores ou regalias, constrangimentos ou frenesis deslumbrantes.

Na Terra, entre os povos chamados civilizados, ninguém pode acusar o Ego Total, alegando a falta de instrutores. O mais velho livro do mundo é de instrução moral, é religioso, é de religação consciente, isto é, de iniciação sintônica entre o Ego relativo e o Ego Total, ou, para ficar com o Cristo, de ligação entre o Filho e o Pai. Se, portanto, são brutos os homens, não cabe disso culpa alguma ao Emanador, cuja Suprema Inteligência supre os mundos com as organizações diretoras. Não há meta-galáxia, galáxia, sistema planetário ou mundo algum, que não esteja provido de sua organização diretora. Um Cristo e Seus imediatos cumprem as ordens superiores e ministram ensinos pelos canais competentes. É hora, aqui, de lembrar a importância da Revelação? Por acaso não sabem os homens da existência dos Livros Sagrados? E já houve grande povo sem grandes reveladores?

Enquanto isso, ainda se faz lodo com sangue humano!

Enquanto isso, os que falam em Deus obram como selvagens!

Enquanto isso, as religiões dividem os irmãos entre si!

Enquanto isso, se faz da religião simples meio de vida!

Também, para contribuir com o meu quinhão de inferioridade, que enquanto isso, ao lado das grandes instruções, dos fachos sagrados, arrasto a minha condição de pecador, de espírito endividado. Venho dos fundões embrionários, da inconsciência, estando ainda no período das primeiras investiduras celestiais. O que tenho, por ora, são teorias. Muito pouco é prático, quase nada se traduz pelo valor de um estado feliz de estar. Vivo cá por baixo, focalizando o Céu através de ensinamentos sublimes, de lições imortais. Nos abismos de mim mesmo, à custa dos Grandes Mestres, percebo aquele Céu que um dia, mais cedo ou mais tarde, com certeza gozarei, na plenitude de minhas faculdades.

Caminhar é o lema dos espíritos, queiram ou não, aceitem ou deixem de aceitar. Eu caminho, pelos sendeiros da vida, embutido na imensa caravana de irmãos, cujos pensares e sentires divergem ao infinito, mas cujo fim é um só. Sou parte da falange que marcha, visando o mesmo ponto, mas tecendo a seu respeito os mais contraditórios comentários. Eu também vejo a Verdade pelo prisma que posso. E se colho aqui e ali maus bocados, devo isso à própria vida e a mim mesmo, pois nada mais faço do que colher o que semeei.

Mas vamos ao meu relato, motivo de minha presença aqui, convidado que fui por amigo bastante responsável.

Como dizia, não conheci pais nem irmãos, e quando quis chamar alguém, seja lá pelo que for, saí-me bastante mal. Reconheci que os insultava, pois fizeram caretas e disseram palavras muito acres. Eram pobres, quase pedintes, mas tinham lá os seus brasões de dignidade, disso que então eu desconhecia, mas que me fez amargurar a alma pela primeira vez, na última jornada terráquea.

Nesse dia escondi-me e só voltei à boca da noite. Ao entrar em casa levei um puxão de orelha e fui convidado a ir dormir sem jantar. Era o castigo, por ter-me ofendido. Não tinha direito a saber de meus pais, nem de ofensa por ser repelido por aqueles que julgava que o fossem.

No dia seguinte, bem cedo, mandaram-me capinar.

– Moleque dos infernos, você vai comer, de hoje em diante, à sua custa. Com sete anos eu já era suficiente para limpar este quintal. Você já está nos oito, pode muito bem fazer a mesma coisa... Principalmente por isto – eu era filho da casa, enquanto que você é um...

Aquele homenzarrão podia muito bem ofender-me, pois seu, era aquele tamanho todo, aquele sítio estéril, e por cima a sua imensa fé, a seu modo. Porque ele era muito freqüentador de sua Igreja, estava armado de regalias e direitos que eu ignorava, e que agora faço todo o empenho em ignorar.

Levaram-me a comida numa lata vazia de banha, lá pelas onze horas. Uma menina fora a entregadora; filha dele, do pretão, e a quem sempre eu estimara por julgá-la minha irmã até o dia em que me disseram a verdade.

– Papai mandou dizer – avisou-me ela – que é comer ligeiro e trabalhar, ouviu? Ele vai para a Vila, mas eu vou ficar de olho. Se não trabalhar não come, porque ninguém aqui tem obrigação de sustentar um perdido, um vagabundo, um negro sem-vergonha.

– Vocês não são negros, também? – respondi-lhe.

– Mas o sítio é nosso. E você é filho da Mariquita, que fugiu com o Dito e acabou se matando. Sua mãe se matou e seu pai sumiu. Quem tem obrigação de sustentar um perdido? Trabalhe se quiser comer, ouviu?

Eu era um pretinho, com oito anos de idade, e tinha certeza de não haver criado a Terra nem coisa alguma. Falavam de Deus, aqui e ali, mas cada qual parecia ter um Deus todo especial, ou como se fosse artigo de feira-livre, cujo preço pode variar à vontade, e cuja aplicação era indefinível. Como dona Maria, a quem eu pensara ser minha mãe, praguejava por nada e por tudo, entredentes comecei a praguejar, desejando a eles todos os males possíveis.

Quando terminei de engolir aquele angu mal temperado, misturado a uns grãos de feijão preto, e nadando num caldo muito ralo, coloquei a lata vazia debaixo de uma figueira do mato, indo ao cabo da enxada. Um menino que passou pela rua, colega de brinquedos, chamou-me.

– Barnabé! Barnabé! Vai liquidar com o trabalho de uma vez?

Parei para falar-lhe, coisa de segundos, quando ouvi um berro. Era o meu até bem pouco suposto pai, que indo a caminho da Vila, viu-me encostado ao cabo da enxada. Recomecei o trabalho, o que fez o menino dizer-me, num tom de intriga.

– A coisa virou, seu Barnabé?... A enxada é maior do que você, hein?

Envergonhado, nada lhe respondi, continuando o trabalho. O menino, julgando a seu modo, disse muitas coisas mais, fustigando-me a paciência. Uma vez enraivecido, atirei a enxada para um lado, apanhei algumas pedras e atirei-lhas. Uma delas o apanhou em cheio, fez-lhe um furo na cabeça o que fez berrar como se estivesse morrendo. Foi um escândalo para o lugarejo e uma grande surra para mim. Nem o resultado podia ser outro. Surra e dormir sem jantar. Sem angu, ao menos isso, de mistura com caldo bem ralo de feijão preto.

O dia seguinte se fez presente e Barnabé lá se viu de armas em punho. À tarde fui convidado a ir visitar o meu adversário, que estava deitado numa esteira, e com ares de majestade ofendida. Ele e sua família eram brancos, mas também muito pobres, e segundo diziam, doentes de uma triste doença. É que a anemia pulmonar os ia eliminando, nada mais, assim como outros males eliminam outros seres, pois a vida na Terra não pode ser eterna.

Obrigaram-me a pedir desculpas, e fi-lo sem restrição, pois de fato estava arrependido. Não me lembro de o fazerem pedir desculpas, por sua vez, pelo fato de me haver procurado irritar. A meu ver, quem provoca é pior do que aquele que reage. Em todo caso, eram da mesma Igreja, e aquilo soava como formalidade ou qualquer modalidade de concerto piegas e superficial. Estou certo de que a bondade humana com ou sem beneplácito das veleidades sectárias, é sempre condicional. Pela mesma razão que um diz sim, outro diz não, mais além outro nada diz. Por falta de maturidade psíquica o Ego relativo entende como pode e não como é devido. E a Verdade fica sendo qualquer coisa, menos aquilo que deve ser.

Eles, portanto, concertaram-se através de minhas desculpas.

Quando saímos daquela casa, eles eram anjos e eu fazia, bem ou mal, a vez de filhote de Lúcifer. Mandaram-me andar na frente, feito cão surrado, cuja andadura devia ser fiscalizada. Ao chegar no domicílio, mandaram-me ao eito, com a devida advertência; isto é, ao escurecer podia vir para casa e jantar.

Fui capinar e tive um grande aviso. Este veio pela conversa de um outro menino, o Rafael, mulatinho claro, muito espigado, cujos pais diziam ser especialistas no trato com o diabo. Eram tidos como feiticeiros, e agora posso dizer que o eram, pois ainda gemem numa esfera inferior. Rafael deu-me o seu conselho, todo ele fundamentado numa lei ordinária. Interpreto assim o que disse:

– O Pedro Álvares Cabral ainda não havia descoberto o Brasil e a humanidade vivia. Por que, afinal de contas, você precisa ser escravo? Fuja, seu bobo! Um cabo de enxada pode-se achar em qualquer lugar, sem xingamentos ou coisa que o valha. Você não percebeu ainda que só cachorro é que tem patrão? Deus é Senhor de tudo e nós somos apenas irmãos uns dos outros...

Lá veio um berro:

– Acabe com isso, seu moleque! Vamos, trabalhe!

O mulatinho espigado foi saindo, recomendando:

– Não se esqueça, ouviu?

Daquela hora em diante, fugir era a solução do problema. Minha alma devaneava por terras de leite e mel, de liberdades e regalias, de uma felicidade que a Terra jamais poderá oferecer. Eu delirava, essa era a verdade, em torno do problema sumir, desaparecer, mundear.

Alguns dias depois, uma senhora apresentou-se, sabendo não sei o que, nem por informe de quem, no meu domicílio. Pedia-me, como disse, para criar-me como filho, mandar-me à escola, fazer-me homem. Como fosse noite, e me ordenassem ir deitar, estava acordado e ouvi toda a conversa, ficando em parte encantado e em parte acabrunhado. Aquela mulher, dizendo tudo aquilo, fazia supor qualquer coisa instigada por mim.

Lembro-me ter dito ela, finalmente:

– De qualquer forma, seu Bento, se ele tiver que ficar nisso, eu o aceito como filho. Um inocente não pode ser tratado assim. Que culpa tem ele de a sua prima cometer uma asneira? Ele pediu para nascer? Ou, porventura, teria prazer em nascer para isso? E quem é o senhor para julgar, tão radicalmente, a um pobre menino?

Ante um silêncio profundo, completou o seu vibrante interrogatório:

– Sabe certo sobre os desígnios de Deus? Já mediu a extensão de sua desumanidade?

A voz meio rouca, de minha, até então, suposta mãe, surgiu:

– Nós somos crentes em Deus, dona Tita.

Imediatamente veio a lúcida resposta, consubstanciada noutra pergunta:

– E Deus é crente em vocês?

– Temos fé – alegou meu, até então, suposto pai.

– Ter fé é apanágio de santos e de criminosos. Muita gente só acredita em Deus o suficiente para se julgar mais e melhor do que os outros. Entretanto, a verdadeira religião é o cumprimento dos deveres. Deus quer inteligência e amor e não laudatórias saturadas de bajulações, carregadas de lambetismos hipócritas. Eu sei que vocês se julgam...

A voz rouca abafou aquelas causticantes palavras finais, não me deixando ouvir-lhes o remate:

– Dona Tita, pare. Nós vamos pensar... A senhora parece que está rogando pragas!... Deixe-nos, faça o favor!

Ouvi um sussurro e nada mais. Creio que lhe abriram a porta. Ao longe, no entanto, ouvi que dona Tita bradou:

– Pensem bem, ouviram? Porque do contrário vou à Polícia!

A noite prosseguiu e Morfeu nos cobriu com o seu manto de esquecimento e paz.

No dia seguinte fui duramente interrogado; isto é, interrogado sob o terror de uma vara de marmelo, cujos vergões ficaram por semanas. O resultado foi ter eu sumido de casa, indo bater na casa de Dona Tita.

– Não – disse-me ela – aqui não. Vá ao Delegado, na Vila, e conte-lhe tudo, que logo mais por lá estarei. Quero ampará-lo, mas dentro da lei. Se ficar aqui, como menino fujão, poderão ter fortes alegações a favor.

Eu estava apavorado. Tristeza cruel varria-me a alma e bamboleava-me as pernas raquíticas. E foi gemendo que dali parti, indo ao encontro do Delegado. Cada passante era um possível inimigo, e do meio do mato parecia-me surgir alguém. Os poucos quilômetros foram vencidos penosamente, mas cheguei ao Delegado, feito em pranto, mergulhado numa crise de choro.

Deram-me café, disseram-me palavras carinhosas, depois examinaram-me. Eu estava todo marcado por varadas.

– Quanta maldade! – bramiu um dos soldados.

– A vida também oferece dessas coisas – filosofou um outro.

– Haverá mesmo um Deus? – perguntou um caboclo, abanando a cabeça.

O Delegado aparteou-o:

– Não é por falta de Deus que estas coisas se dão, é pelo mau uso das liberdades conferidas por Deus.

Um dos soldados comentou:

– Sendo assim, tanto maior é o crime. Ninguém tem direito a usar mal as graças do Emanador.

O Delegado disse a um dos soldados:

– Vá buscar aquela gente. Traga marido e mulher.

Apontou para o caboclo incréu e disse-lhe:

– Leve o menino para minha casa.

Lá fiquei uma semana, nada mais tendo ouvido nem sabido. Sei que dona Tita veio buscar-me e com ela e os seus, vivi até aos dezoito anos. Durante esse tempo, como não podia deixar de ser, pois era gente pobre mas bastante criteriosa, aprendi a ler e a escrever, fazer umas contas, e algumas coisas mais. Eles eram esoteristas, liam o quanto podiam, procuravam conhecer o suficiente do imenso Universo, do qual se sabiam partes integrantes. Conscientes dessa verdade simples, e por isso fundamental, não eram supersticiosos, tal como acontece com os crentes dogmáticos, que tudo esperam de pseudo mistérios e milagres, numa patente e formidável negação dos poderes intrínsecos, das virtudes básicas, do celestial fermento sagrado de que toda centelha é por natureza herdeira. Não esperavam dos possíveis milagres aquelas realizações que competem ao desenvolvimento íntimo; pediam menos ao Céu e procuravam dar mais de si próprios. Antes de procurar outros templos, fictícios, inidôneos e fanfarrões, tudo aguardavam de si, do sagrado repositório interno. Viviam a regra do Cristo –

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