Otimismo cristãO, hoje (diálogo com um pessimista) Francisco Faus o desabafo de um pessimista amargurado



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OTIMISMO CRISTÃO, HOJE

(diálogo com um pessimista)

Francisco Faus

O DESABAFO DE UM PESSIMISTA AMARGURADO

O REINO DAS SOMBRAS DE MORTE (Cf. Lc 1,79)


– As sombras de Mordor já estão tomando conta de tudo!
– O quê?
– Será que o senhor é dos poucos que não leram O Senhor dos Anéis?
– Li, sim, por acaso, já faz algum tempo. Mas, escute, você quem é?
– Ninguém... Aliás, sou um leitor.
– Ah! Já nos encontramos outras vezes... Desta vez, você é um leitor jovem ou um leitor velho?
– Tenho trinta e dois anos.
– Jovem. Boa idade ainda para arranjar emprego... Mas, o que é que você queria dizer com essa história de "Mordor"?
– O que qualquer um que não seja cego pode enxergar no mundo atual. Não vai dizer que esqueceu que Mordor é o domínio do Senhor das Trevas...
– Sei, sim. São as terras de Sauron, o "Senhor dos Anéis", o rei do ódio e da destruição ...
– Pois então, basta abrir os olhos para perceber que as trevas de Mordor estão cada vez mais espalhadas e densas, invadindo o mundo, a política, a sociedade, a cultura, as escolas, as famílias... Onde antes havia luz, agora há trevas.
– Você fala de "antes" como se tivesse vivido muito...
– Não é preciso ter vivido muito, basta conhecer um pouquinho de história e ter um mínimo de sensibilidade. E gostaria de que percebesse que não falo de impressões emotivas nem de interpretações subjetivas, mas daquilo que todo o mundo vê e toca por toda a parte, todos os dias e a todas as horas. Para ser mais explícito, vou tentar fazer-lhe um resumo das sombras de Mordor mais patentes e o senhor vai-me dizer se é assim como digo, ou não.
A primeira sombra
Veja. Primeiro, o mundo está envolto em brumas cada vez mais densas de falta de fé e de sentido transcendente da vida. Todos sabemos que se está propagando – entre jovens e adultos e velhos (que pretendem ser cultos) – a moda do agnosticismo, do niilismo e do pseudo-misticismo deliqüescente do vale-tudo (chame-o de New Age ou como quiser). Cada qual fabrica ou escolhe a capricho a sua "filosofia de vida" ou a sua "crença", cada uma mais barata e vazia do que a outra (importante é que não custe nada, que não exija nem proíba nada, em todo o caso que só exija os direitos do prazer e da bandalheira). Escolhe-se a "pseudo-verdade" interesseira como se escolhe na loja um par de sapatos bem em conta, desde que correspondam ao tamanho do pé (só que aqui o "pé" se chama egoísmo, vício, rejeição do compromisso e da fidelidade ..., numa autêntica maratona de mentiras que são batizadas com o nome de autenticidade).
– Permite-me interromper? Desculpe, mas não me parece bom caminho filosofar sobre o mundo atual como você faz, com tanta amargura e pessimismo; quase diria que com ódio... Assim não iremos longe, quando muito cairemos num buraco negro de desesperança.
– Está bem. Vejo que prefere não me escutar. Então, conversa encerrada.
– Não, meu amigo, desculpe de novo. Eu só estou manifestando um ponto de vista diferente do seu, um ponto de vista que gostaria de expor, e de fato vou expor depois amplamente, mas respeito as suas opiniões e não quero ser grosseiro. Penso que devemos respeitar o pensamento de todos. Por favor, continue.
A segunda sombra
– Muito bem. Passemos, então, à segunda nuvem ( e, com isso, não estou classificando as "sombras de Mordor" pela ordem de importância, é só um modo de falar). É evidente que, no bojo dessas primeiras nuvens negras, viajam os raios e trovões de um laicismo anti-religioso (não apenas a-religioso), raivoso e descarado; especialmente hostil à Igreja Católica, à qual procura desprestigiar, caluniar, achincalhar com qualquer pretexto (basta ler a imprensa, assistir a entrevistas e programas de tv, e saber do que se diz em inúmeras aulas e palestras de colégios, cursinhos e faculdades).
Veja o que acontece, por exemplo, quando um católico tenta abrir a boca sobre questões controvertidas – e vitais! – de atualidade, por exemplo, questões sobre o direito à vida. Logo se procura costurar-lhe a boca com os grampos de uma gritaria hipocritamente escandalizada. Chovem invectivas, insultos, motejos, insinuações contra a Igreja, acusada de medievalismo, anti-cientifismo, bruxaria, e outras imbecilidades. Bradam, como se fosse um dogma da nova fé (uma fé de que eles são os sumos pontífices e grandes inquisidores), que não se deve misturar religião e moral com as leis, os projetos e as decisões do governo, mesmo que, como acontece na quase totalidade dos casos, os cristãos manifestem apenas opiniões estritamente éticas, racionais e científicas, sem a menor pretensão de impor dogmas de fé cristãos.
É assim que está surgindo, de forma acelerada, uma nova "democracia", falsa e mistificadora, totalitária e ditatorial, que pretende espoliar milhões de cidadãos do direito fundamental de opinar (elemento essencial da democracia), direito que ficaria monopolizado nas mãos fanáticas dos materialistas-hedonistas, dos niilistas nietzcheanos e dos fiéis devotos do credo veteromarxista, essas figuras que se auto-atribuem, por decreto pessoal, a exclusiva do manejo dos cordeizinhos da história. Veja jornais de grande circulação que, deliberadamente, se amesquinham e não dão a menor oportunidade – pois fecham com grade de aço o acesso às suas páginas – a nenhuma opinião que se oponha aos seus pré-conceitos materialistas, dogmaticamente pré-definidos.
– Rapaz, como você gosta de descer a lenha e provocar a polêmica! Não acho...
– Paramos, então.
– Não, não! Já lhe disse que pode continuar, livremente..., ainda que lhe aviso que, como já o adverti, eu também falarei livremente depois. Só lhe pediria licença, neste momento, para fazer um inciso e dirigir-me aos “outros” leitores, que eventualmente estejam folheando estas páginas.
– À vontade.
(Ao pé do ouvido de vocês, que me lêem, eu queria dizer que tudo o que vem a seguir, neste texto, não vai ser tão irado e soturno. Esperem. O ar vai clarear daqui a poucas páginas ..).
Pronto, já dei o recado aos outros leitores. Você estava dizendo?
A terceira sombra
– Ia falar da terceira nuvem, que, no fundo, é a que as mais das vezes provoca os raios e trovões da anterior. Mais do que de uma nuvem, eu falaria aqui de uma erupção viscosa de piche, que captura e arrasta em suas lavas grudentas – lavas que, por sinal, rendem lucros enormes– tudo o que encontra pelo caminho, mulheres e homens, crianças e adolescentes, jovens e velhos.
Refiro-me à enxurrada da pornografia e do sexo desnaturado; do sexo-jogo meramente egoísta, mesmo no casamento; dos abusos, excessos e aberrações da genitalidade de consumo. A família, cada vez mais dizimada, apresenta os alicerces rachados (demolidos até mesmo pela picareta das leis); e a imagem do ser humano, da dignidade dos filhos de Deus, fica reduzida a uma poça suja, em que qualquer um chapinha, ou a um cuspe que se joga de lado. Perdoe-me se repito, de modo atenuado e não textual, a ironia um tanto grossa de um filósofo moderno: – Ao longo da história, o ser humano foi adquirindo um maior conhecimento de si mesmo. Durante milênios, pensava-se que fosse uma unidade de corpo e alma, de matéria e espírito. Agora, nestes últimos tempos, comprovou-se por fim que é uma unidade de sexo e porta-sexo. Tudo é sexo, o resto é só suporte para sustentar o sexo.
– Que exagero!
– Opinião sua. Mas não se esqueça de duas coisas, sem a pretensão de lhe dar lições. Por um lado, o sexo hedonista e sem entraves, como é patente, é insaciável. Por isso cada vez reivindica maiores "direitos", maiores "campos" de exercício e maiores "liberdades", e acaba defendendo verdadeiras monstruosidades, como se fossem normais (por exemplo, estão sendo produzidos na surdina filmes em que se faz a apologia da pedofilia, algum deles promovido pelos mesmos “intelectuais” que acusam padres de praticá-la ). É natural que os que vivem chafurdando no sexo pervertido odeiem uma Igreja que – embora não se canse de mostrar amor e compreensão para com todos os que erram – se recusa, pelo bem da humanidade, a considerar normal ou inocente o "sexo livre", o adultério sistemático, o homossexualismo proselitista, o aborto, o infanticídio eugênico (já praticado em vários países do primeiro mundo), e, em geral, o desprezo pela vida humana nascente ou terminal. Fazendo um leve esforço de memória, lembre-se do Oscar concedido ao melhor filme estrangeiro de 2005: "Mar adentro" (a defesa "linda" e sentimental do direito à eutanásia, a matar ou matar-se).
Acha que é simples acaso que este mergulho nos desvios sexuais vá acompanhado, quase sempre, pela praga da droga e/ou pelo alcoolismo, que desestruturam e arruínam milhares de seres humanos desde a infância e a adolescência? Acha estranho que esses desvarios acabem, às vezes, com vem acontecendo cada vez mais, na decisão fria e calculada de assassinar pai, mãe, irmãos..., no chamado "aborto ascendente"? Já deve ter lido a respeito disso. O raciocínio subjacente a esses crimes é o seguinte: – Por que, se os pais eliminam tranqüilamente (com o aplauso caloroso da mídia e de celebridades) seus filhos no ventre materno, para gozar de mais liberdade, dinheiro e prazer na vida, os filhos não vão poder eliminar os pais, quando estes lhes tolhem a o acesso ao dinheiro, à liberdade e aos prazeres da vida?
– Me desculpe, mas você me faz sentir mal. Você, por mais católico que seja, me parece doente, de tão amargo. Será que se esqueceu da imensa quantidade de gente boa que anda pelo mundo? É possível que você ignore que esta época de sombras é também uma época de grandes luzes, que este mundo enviscado de pecado é também um mundo em que se multiplicam iniciativas cristãs belíssimas e eficazes, em que surgem novas vocações de dedicação total a Deus e ao próximo, e há exemplos fantásticos de bondade, de abnegação, de santidade?
Justamente ao fazer o resumo da sua estadia no Brasil, em 2007, o Papa comentou, muito bem-humorado, que no nosso país, quase que diariamente surge um novo movimento apostólico, um novo caminho de entrega a Deus e de serviço ao próximo, que arrasta a generosidade de muitos jovens.
Você citou o Senhor dos Anéis, mas não se esqueça de que Mordor acaba vencido, e de que o amor, o desprendimento, o sacrifício abnegado, a fidelidade e a bondade, encarnados em Frodo e Sam, afinal acabam triunfando ... Seja positivo!
– Espero que o senhor me convença disso, e, aliás, já vejo por onde vão soprar os ventos quando tomar a palavra... Mas, enfim, uma vez que comecei, deixe-me terminar.
– Eu não preciso "deixar", meu amigo. Eu escuto. Você opina e eu vou opinar depois. Não pretendo tapar a boca de ninguém.

A quarta sombra
– Então aí vai a última nuvem negra de Mordor, um enorme exército de nazgûl, se é que se lembra do que são os cavaleiros negros ou espectros do Anel. É nuvem ameaçadora. Está tingida de um vermelho que congela o coração. Porque é a nuvem da violência. Todos bradam contra a violência, mas o que se faz para eliminar as "lições" constantes de violência que, desde a infância, todos recebem dos vídeo-games, da televisão, da Internet, do cinema, dos livros, dos jornais? É claro que também aqui quem está guiando as rédeas é o dinheiro! Violência dá lucro, como o sexo, como a droga, como o aborto... Muito dinheiro, muito!
O dinheiro! Esse é o "ídolo", o "único deus soberano" da maioria, neste mundo podre, que explora, larga e tritura os mais pobres, cada vez mais pobres; que despreza os desvalidos, abandona os doentes (veja as "maravilhas" da saúde pública!), afunda legiões de gente honesta e competente na angústia insuportável do desemprego, defende tartarugas fluviais e nega trabalho a "homens humanos" de mais de quarenta anos; arquiteta atentados brutais (com bandeiras de direita e de esquerda, de nacionalismo ou de vingança); e, em contraste com a miséria absoluta de tantos, alimenta as mil e uma formas de corrupção e enriquecimento ilícito em todos os setores públicos e privados da sociedade...
– Ufa! Você deixa o coração e o estômago apertados com a sua retórica, porque não pode negar que está "discursando", até parece comício. Será que você acha que está próximo o fim do mundo? Porque o vejo profeta de desgraças e apocalíptico antes da hora.
– Será que é antes da hora? Quando se toca o fundo do poço, e não é possível cair mais baixo, não me parece absurdo pensar que o fim está chegando?
– Eu fico, meu amigo, com as palavras de Jesus: "Não sabeis o dia nem a hora" (Mat 25, 13), e acho perda de tempo especular sobre a iminência do Juízo Final. Prefiro confiar na Providência misericordiosa de Deus. Por outro lado, vejo que, do próprio fundo do poço, brotam renovos cheios de vitalidade, tanta, que os creio capazes de enfrentar serenamente e com fruto todas nuvens de Mordor...
– Sinto muito, mas não acredito mais nisto... Já me fartei de ouvir palavras bonitas.

DEUS E AS SOMBRAS

SÓ PALAVRAS BONITAS?


– Pois eu confio nessas “palavras bonitas”, e mais: tenho certeza de que, em boa parte, tudo esse mal depende de cada um de nós. Não fiquemos só generalizando. Criticamos, lamentamos, mas somos uns tremendos omissos. Choramos lágrimas turvas, por assim dizer, e deixamos de irrigar com água limpa as boas sementes do mundo, que – como veremos – são muitas. Por isso, gostaria de que todos aprendêssemos a cantar no coração, sentindo-a sinceramente, a música esperançosa do Gonzaguinha: "Ah, meu Deus, eu sei que a vida devia ser bem melhor e será. / Mas isso não impede que eu repita: / É bonita, é bonita e é bonita!”. Depende de você e de mim que a vida seja mais bonita, e vou repetir-lhe isso mil vezes, se for preciso ... Mas não quero colocar o carro na frente dos bois...
– “É bonita!”. Fazer poesia é fácil, mas, na minha opinião, isso não passa do famoso words, words, words!
– Então, que Deus o ajude. Você precisa sarar do mal do pessimismo. Não consigo deixar de citar-lhe, por mais que você não goste, aquelas famosas palavras do general Mac Arthur, dirigidas aos jovens cadetes de West Point: "És tão jovem quanto a tua fé, tão velho quanto a tua dúvida; tão jovem quanto a tua esperança, tão velho quanto o teu desencanto... Se um dia o teu coração começar a ser mordido pelo pessimismo e roído pelo cinismo, que Deus tenha misericórdia da tua alma de velho".
– Muito obrigado pela descompostura. Acho que o senhor não entendeu nada.
– Não se ofenda, nem eu vou me ofender. Mas já está na hora de pararmos com essa pirotecnia verbal e refletir serenamente. Sabe? Eu gostaria, se você não se importar, de falar-lhe com um pouco de calma, de expor outra visão dessa mesma realidade que tanto o amargura..., sem pretender tapar o sol com a peneira nem enfeitar os males com fantasias de carnaval.
– Fique à vontade e fale quanto quiser. Não sou eu que vou amordaçá-lo...
– Muito obrigado..., ainda que não entendo isso da mordaça. Acho que não estou sendo consigo tão rude ou intransigente, mas deixemos para lá.
– Desculpe, não queria ofender. Garanto que sou todo ouvidos.
– Pois bem. Veja. Ainda que pareça um paradoxo, para iniciar a minha reflexão sobre os fortíssimos motivos que temos para ser otimistas, não vou falar de flores, nem vou pintar o mundo de azul. Vou começar focalizando precisamente as mesmas realidades sombrias que tanto o agoniam, e que certamente existem. E desde já peço ajuda a Deus para que ambos possamos contemplá-las com os olhos da fé, dessa virtude que proporciona o ajuste do nosso olhar com o de Deus: «É como se contemplássemos tudo com o olho de Deus», diz Santo Tomás de Aquino1 . Estou convencido de que, da visão da fé, sempre salta a faísca luminosa do otimismo, mesmo no seio da escuridão mais densa.
– Gostaria muito de ver. Afinal, eu tenho fé, e se desabafo com tanta dor, me trincando todo por dentro, é porque sou um católico convicto que, como tantos outros, vem sofrendo demais...
– Pois, então, valerá a pena tentar.

COMO DEUS VÊ AS SOMBRAS



– Eu estou convencido de que, para ponderar corretamente os negrumes do mundo, que você tanto lamenta (e eu também, de outro modo), é necessário partir de uma certeza, que a nossa fé nos garante: Deus ama este mundo, onde há tantas coisas horríveis. Deus o ama até com loucura: Tanto amou Deus o mundo – dizia Cristo a Nicodemos – que lhe deu seu Filho único, para que todo o que nele crer não pereça, mas tenha a vida eterna (Jo, 3,16). São Paulo chegará a afirmar que o ama em demasia, quase que passando dos limites: Deus, que é rico em misericórdia, pelo excessivo amor com que nos amou [...], deu-nos a vida por Cristo (Ef 2,4-5).
– Desculpe, mas a respeito dessas afirmações eu vejo uma contradição na Bíblia. Não faz muitos dias, eu que gosto de ler diariamente, li e anotei vários trechos da primeira carta de São João, onde parece dizer o contrário. Lembra-se? Não ameis o mundo nem as coisas do mundo – diz –. Se alguém ama o mundo, não está nele o amor do Pai (1 Jo 2,15). Como se entende isso? Cristo diz que o Pai ama o mundo e João diz que amar o mundo e amar o Pai são coisas incompatíveis...
– Foi bom você mencionar esse texto, porque aí há um equívoco que é preciso esclarecer. Na realidade, a palavra mundo, no Novo Testamento, é usada em três sentidos diversos:
-umas vezes, a expressão significa apenas, de modo geral, o mundo criado por Deus – toda a obra da criação material e espiritual –, e, neste sentido, o livro do Gênesis diz que, após ter criado o mundo, Deus viu tudo quanto tinha feito, e achou que era muito bom (Gen 1,31);
-outras vezes, a palavra mundo significa a humanidade toda, a humanidade que caiu desde o princípio, que pecou, mas que Deus nunca deixou de amar (tanto amou Deus o mundo que lhe deu seu Filho único) nem desistiu de salvar (pois Deus não enviou o Filho ao mundo para condená-lo, mas para que o mundo seja salvo por Ele: Jo 3, 17), verdade consoladora que Cristo repete uma e outra vez (Eu não vim para condenar o mundo, mas para salvá-lo: Jo 12,47).
-finalmente, há outras ocasiões, bastante freqüentes no Novo Testamento, em que a palavra mundo é usada para significar tudo aquilo que, nesta terra, se opõe a Deus, ou seja, aquela grande parte deste mundo que está dominada pelo pecado. Neste sentido é que São João fala, por exemplo, de que o Filho de Deus estava no mundo e o mundo foi feito per ele, e o mundo não o conheceu (cf. Jo 1,10). Dentro dessa perspectiva negativa, Jesus chama ao demônio príncipe deste mundo (Jo 14,30); e João, de maneira bem categórica, declara que tudo o que há no mundo é concupiscência da carne, concupiscência dos olhos e soberba da vida (1 Jo 1,16) e chega a dizer que o mundo todo jaz sob o poder do Maligno (1 Jo 5,19).
É disso, concretamente, que fala o Catecismo da Igreja Católica quando diz: «As conseqüências do pecado original e de todos os pecados pessoais dos homens conferem ao mundo, em seu conjunto, uma condição pecadora, que pode ser designada com a expressão de São João: “O pecado do mundo” (Jo 1,29). Com esta expressão quer-se exprimir também a influência negativa que exercem sobre as pessoas as situações comunitárias e as estruturas sociais, que são fruto do pecado dos homens» (n. 408).

O MUNDO DO PECADO


– Quando você, amigo leitor, desabafava sobre as sombras do mundo atual, apenas estava constatando que o mundo, nesse terceiro sentido, ou seja, o “mundo” moldado e dominado pelo pecado, infelizmente existe e, por vezes, cresce tanto que quase parece ocupar tudo, tapando a visão do resto. Daí o pessimismo. Só que essa constatação esquece um dado fundamental.

– Qual?


– O seguinte. Se um cristão quer julgar o mundo com realismo, tem que ver toda a realidade, não só uma parte. Concretamente, tem que ver que, neste mundo, ao lado da forte presença do pecado, há a presença ainda mais forte e ativa do amor de Deus. Se só levássemos em conta a presença do pecado, infelizmente evidente, teríamos uma visão míope ou até cega. É preciso que nunca percamos de vista essas “duas” realidades. Bento XVI, no discurso inaugural da Conferência dos bispos da América Latina e do Caribe, em Aparecida, no dia 13 de maio de 2007, dizia palavras que deveríamos meditar:
«O que é a “realidade”? O que é o real? [...]. Quem exclui Deus de seu horizonte falsifica o conceito de “realidade” e, em conseqüência, só pode terminar em caminhos equivocados e com receitas destrutivas. A primeira afirmação fundamental é, pois, a seguinte: Só quem reconhece Deus, conhece a realidade e pode responder a ela de modo adequado e realmente humano» 2.
– Tem toda a razão. Mas não é fácil ver a ação de Deus nesse “mundo”, o terceiro da sua classificação, o mundo do pecado...
– Certo. Então vamos dar mais um passo. Penso que nos ajudará refletir mais um pouco sobre o que ensina o Catecismo da Igreja Católica acerca da presença do pecado e das suas conseqüências nefastas; ao mesmo tempo que fala – por incrível que pareça – das conseqüências "maravilhosas" do pecado...
- Maravilhosas? Essa não!
- Espere e verá, e, se você é realmente cristão, terá que concluir que "essa sim". Escute o que diz o Catecismo:
«O pecado está presente na história do homem. Seria inútil tentar ignorá-lo ou dar a esta realidade obscura outros nomes. Para tentarmos compreender o que é o pecado, é preciso antes de tudo reconhecer a ligação profunda do homem com Deus, pois fora desta relação o mal do pecado não é desmascarado na sua verdadeira identidade de recusa e de oposição a Deus... » (n. 386).
Trata depois o Catecismo do pecado original e mostra as conseqüências do “pecado” na vida e na história dos homens: «A harmonia em que viviam, graças à justiça original, ficou destruída; o domínio das faculdades espirituais da alma sobre o corpo ficou abalado; a união do homem e da mulher ficou sujeita a tensões; as suas relações serão marcadas pela cupidez e pela dominação. A harmonia com a Criação está rompida; a Criação visível tornou-se para o homem estranha e hostil [...]. A partir do primeiro pecado, uma verdadeira “invasão” do pecado inunda o mundo [...]. A Sagrada Escritura e a Tradição da Igreja não cessam de lembrar a presença e a universalidade do pecado na história do homem” (nn. 400 e 401).
– Muito bem diz o catecismo. É uma fotografia da realidade. Impossível não vê-la. O catecismo fala de “inundação” do pecado. Todos vemos que, mais do que uma inundação, hoje é um verdadeiro tsunami... Onde está, então, a "maravilha" de que o senhor falava?
– Está onde a Igreja ensina que está. Sabe o que diz a liturgia da Vigília Pascal ao referir-se ao pecado original? Feliz culpa, que mereceu ter tal e tão grande Redentor!-, venturosa culpa, que fez com que Jesus viesse a nós! E o que diz São Paulo? Onde foi abundante o pecado, foi superabundante a graça trazida pela Redenção. É como se dissesse: É incrível! Graças ao pecado, nós recebemos a maravilha do amor e da graça de Cristo, mil vezes superior ao pecado (Cf. Rm 5,20). É um paradoxo, mas é assim.
Essas considerações, como é óbvio, nada têm de levianas. O Catecismo fala com plena consciência do mal do pecado, dessa triste realidade, o único verdadeiro mal do mundo. Mas o faz para depois poder falar mais alto e com maior força do benefício imenso da Redenção. Mal acaba de expor a doutrina sobre o pecado original, o Catecismo explica que, logo depois da queda dos primeiros pais, «Deus chama o homem e lhe anuncia de modo misterioso a vitória sobre o mal e o soerguimento da queda». e reforça essa afirmação esperançosa citando palavras de São Leão Magno (século V), tão otimistas como as de São Paulo acima citadas: «A graça inefável de Cristo deu-nos bens melhores do que aqueles que a inveja do Demônio nos havia subtraído»; e, a seguir, transcreve palavras de Santo Tomás de Aquino, cheias da mesma perspectiva otimista: «Deus permite que os males aconteçam para tirar deles um bem maior» (nn. 410 e 412).
A “vitória sobre o mal” fica mais impressionante se temos diante dos olhos a magnitude e perversidade do mal, que Deus supera com o “bem maior” que dele tira.
É com essa visão que o Papa João Paulo II, no seu último livro Memória e identidade 3, refletia sobre os grandes tsunami do século XX, que ele chamava com o nome de ideologias do mal. Falava por experiência própria, pois tinha sofrido pessoalmente a opressão asfixiante dessas ideologias materialistas e anticristãs tiranizando a sua Polônia natal: o nazismo e o comunismo. Vale a pena deter-nos nessas “sombras de Mordor”. Já lhe dizia antes que iríamos refletir sobre as sombras – sem atenuá-las nem pintá-las de azul – para depois contemplar melhor a luz.

TRÊS IDEOLOGIAS DO MAL


O nazismo e o marxismo
No discurso de Natal dirigido à Cúria Romana em 22 de dezembro de 2005, o Papa Bento XVI fazia uma referência a esse livro Memória e identidade, e dizia: «Tanto no início como no final do mencionado livro, o Papa [João Paulo II] mostra-se profundamente sensibilizado pelo espetáculo do poder do mal que, no século recém-terminado, nos foi concedido experimentar de modo dramático. Diz textualmente: “Não foi um mal de pequenas dimensões... Foi um mal de proporções gigantescas, um mal que se valeu das estruturas estatais para realizar uma obra nefasta, um mal edificado como sistema”».
Cada uma dessas ideologias pretendia oferecer uma cosmovisão: uma interpretação global, totalitária, científica e definitiva da verdade sobre o mundo, o homem, a história, a política, a sociedade... Por outras palavras, atribuíam-se a si mesmas as características de uma autêntica "religião atéia", e foram vividas e impostas como “crenças” dogmáticas intocáveis, como cultos obrigatórios de adoração à tirania totalitária, negadora de Deus, a quem viam como um concorrente que era preciso apagar das consciências e da vida social. Por isso, ambas as ideologias perseguiram ferrenhamente a religião.
Entre as duas, levaram ao martírio muito mais cristãos (sem contar a brutalidade inominável do “holocausto” dos judeus) que todas as perseguições sofridas por estes ao longo de vinte séculos. E disto pouco se fala hoje nas aulas universitárias, nos cursinhos e colégios...
– Gostei de ouvir! Confesso que estou farto de escutar e ler ataques contra a Igreja, mesmo em colégios e universidades “católicos”, de suportar o cacarejo incessante e monótono de “Inquisição, Inquisição, Inquisição!..., e de não ouvir nem ler nem meia palavra das atrocidades cometidas contra os cristãos e fiéis de outras religiões por Stalin, Mao Tsé Tung, Pol Pot e quejandos... Pelo contrário, alguns desses ditadores, manchados de alto a baixo de sangue ideológico, são ainda apresentados como porta-bandeiras da “salvação” da América Latina e do mundo.
Que Inquisição?
– Já que fez esse desabafo, vou aproveitar a dica. Você sabe como costumo retrucar aos que me questionam sobre a Inquisição? Como os mineiros, respondendo com outra pergunta: – De que Inquisição está falando? – E quando me olham com o espanto característico dos sabichões, explico-lhes: – Eu não defendo nem defenderei nunca a Inquisição. Mas é imoral e cínico esquecer que não foi, nem de longe, a única nem a pior “inquisição” da história. Foram muitas as inquisições dedicadas a julgar e encaminhar à morte cidadãos pelo “crime” de defender idéias ou ideologias julgadas intoleráveis, perigosas e daninhas para os "dogmas" do Estado, para a paz e a unidade da nação.

Mesmo no campo religioso, cristão, naqueles séculos em que a unidade de religião era considerada uma questão de estado e elemento indispensável para a segurança dos reinos (cuius regio, eius religio: cada região, a sua religião), os países protestantes tiveram também as suas inquisições, muitas vezes bem mais ativas que as dos reinos católicos. É fato conhecido, por exemplo, que os tribunais calvinistas de Genebra queimaram em praça pública o espanhol Miguel Servet, cientista, descobridor da circulação do sangue, porque negava o dogma da Trindade; na Inglaterra, Henrique VIII e, depois, a rainha Elisabeth, em nome do anglicanismo, fizeram correr galões, barris de sangue de católicos, desde Sir Tomas More (São Tomás More), antigo chanceler do Reino e um dos “três homens mais cultos da Europa”, até monges e monjas contemplativos, como os cartuxos, pacifica e silenciosamente recolhidos em seus mosteiros. E nunca ouviu falar do massacre dos “anabaptistas” (julgados hereges por Lutero) que, liderados por Münzer, uniram-se à revolta dos camponeses alemães contra os príncipes de tendência luterana e acabaram sendo vencidos; num só dia, foram degolados vinte mil deles, com a aprovação de Lutero, que exortava os príncipes germânicos: "Exterminai, decapitai!"...? 4


– O senhor está lavando a minha alma...
– Espere, que daqui a pouco talvez a tenhamos que queimá-la um pouco... Mas, já que estamos nessa, eu queria completar brevemente o quadro inquisitorial. Quando foram comemorados os duzentos anos da Revolução francesa, saíram a luz vários estudos históricos, quase todos de especialistas franceses, muito completos, sobre aquela época. À distancia de dois séculos, já não se faziam idealizações românticas, mas apresentavam-se documentos, dados e números. É de estarrecer a enorme quantidade de cabeças inocentes de católicos que os tribunais revolucionários, em nome da liberté, fraternité et egalité, deceparam na França liberal. Tribunais sectários, anticristãos, usando de juízos-relâmpago, sumaríssimos (inquisitoriais), eliminavam em poucas horas quem tinha fé católica e fidelidade à Igreja. É paradigmático o julgamento infame e a decapitação na guilhotina das carmelitas do mosteiro de Compiègne, que chegaram juntas ao suplício, cantando o Veni, Creator Spiritus. É um episódio que tem dado pé a duas obras literárias admiráveis: A última ao cadafalso, de Gertrud von Le Fort, e os Diálogos de carmelitas, de Georges Bernanos.
Em resumo, a verdade é que as inquisições ideológicas de diversas cores, sobretudo as inquisições laicas (não-religiosas, isso é importantíssimo frisar!) do “liberalismo”, do nazismo e do comunismo, fizeram muitíssimo mais vítimas, em nome de seus "dogmas de fé laica" intocáveis, que a tão cacarejada inquisição dos reinos católicos...
– Isso é que me revolta! Quase sempre são os “liberais anticlericais” (herdeiros diretos da Ilustração e da Revolução francesa), os marxistas (planta arcaica que custa a murchar), e os defensores das manipulações genéticas, das experiências com embriões e fetos humanos, do aborto eugênico, da eutanásia, etc. (herdeiros diretos, nisso, dos experimentos de vida e morte com seres humanos nos campos de concentração nazistas), os que grasnam com mais arrogância contra a inquisição das nações católicas, quando eles têm a casa infinitamente mais suja de sangue inquisitorial que qualquer “inquisição católica”... Mas eles são os inocentes, os "científicos", os avançados, os liberais, os juízes dos demais, eles...
– Pare, pare, pare! Você está se exaltando. Não lembra que o diabo é o pai da mentira? É lógico que os sem-Deus mintam. Além disso, não nos esqueçamos do que predisse Jesus sobre o ódio que o "mundo" (esse "mundo" impregnado de mal de que estávamos falando) dedicaria aos seus discípulos: Se o mundo vos odeia dizia Cristo –, sabei que me odiou a mim antes que a vós. Se fôsseis do mundo, o mundo vos amaria como sendo seus. Como, porém, não sois do mundo, mas do mundo vos escolhi, por isso o mundo vos odeia [...]. Se me perseguiram, também vos hão de perseguir (Jô 15, 18-20).
– Está bem. Mas o senhor só falou de duas ideologias do mal. Qual é a terceira?
A terceira ideologia do mal
– Já me referi a ela um pouco, de passagem; e você, aliás, também falou dela bem claramente no início do nosso diálogo. É aquela ideologia materialista e hedonista – hoje predominante – que tem o mesmo dogmatismo e a mesma intransigência que as duas anteriores, ainda que, mais do que uma ideologia completa e estruturada, seja um puzzle sincretista de idéias hedonistas, de agnosticismo, de relativismo, de niilismo, de libertinagem requintada... , embrulhado tudo no papel colorido do direito de fazer o que você bem entender (pois para isso é que tem a liberdade), e da pseudo-mística ecologista (ecologismo-pretexto, muitas vezes, só para lavar a alma).
Como as outras duas ideologias, é ferozmente (diria, febrilmente) anti-cristã, e sobretudo anti-católica. Se quer dar-lhe um nome, vamos chamá-la de laicismo, uma "filosofia" que reúne tudo o que acabo de enumerar e mais várias pitadas de condimentos materialistas. O seu credo tem uma única certeza: “não terás outros deuses fora do teu eu e a tua liberdade absoluta”. Como você já dizia, no início da nossa conversa, esse novo dogma da fé atéia ou agnóstica domina cada vez mais o mundo, as esferas do poder, as relações internacionais, a cultura, e quer atropelar tudo.
- É verdade. Por favor, continue.
- João Paulo II, numa audiência de 24-I-2005, dizia que é "uma ideologia que leva gradualmente, de forma mais ou menos consciente, à restrição da liberdade religiosa até promover um desprezo ou ignorância de tudo o que seja religioso, relegando a fé à esfera do privado e opondo-se à sua expressão pública".
Para o laicismo, a democracia só pode existir se todos reconhecem que não há nem verdades nem valores absolutos, que tudo é relativo, é apenas opinião pessoal. Consiste, como você já sabe, em elevar à categoria de princípios intocáveis o relativismo (não há “verdades”, só opiniões) e o subjetivismo (cada qual tem a “sua” moral, a “sua” religião, os "seus" valores, que valem tanto quanto os dos outros... ; basta que ele "sinta" assim).
Alguém professa uma religião? Acredita em verdades e em valores morais baseados na lei divina – a começar pela lei natural, que é a “verdade” racionalmente cognoscível sobre a natureza – e na Palavra de Deus? Esse, então, é um perigo para a democracia! Irão obrigá-lo (à força de pressões da mídia, dos organismos políticos e até da lei) a trancar a sua fé, os seus valores, as suas convicções no porão oculto da sua consciência e no recinto fechado do seu templo. Se ousar expô-los em público, ou, pior ainda, defendê-los como valores éticos válidos para a vida social, terá que ser banido como um perigoso inimigo da liberdade e da democracia.
É por isso que o deputado italiano Rocco Buttiglione, eleito democraticamente para o Parlamento europeu e proposto pelo Presidente da Comissão Européia para o cargo de Comissário de Segurança, Liberdade e Justiça da União Européia, recebeu desse Parlamento um voto de desconfiança política. A razão foi porque, apesar de ter votado contra a discriminação dos homossexuais, depois, em conversa privada com parlamentares disse – assediado de perguntas –, “tenho o direito de pensar que o homossexualismo é algo moralmente injusto”. Tanto bastou para que se levantassem ondas de “escândalo” e pressões violentas da mídia, dos lobbies laicistas e de políticos, que empurraram o Parlamento a um voto de desconfiança – de exclusão – contra ele, um voto juridicamente injusto, pois o Parlamento europeu só pode emitir esse voto negativo nos casos de “indignidade moral ou evidente incompetência”. Em boa lógica, desse julgamento deduz-se que, para as atuais autoridades européias, pensar livremente, sem obedecer à cartilha do “politicamente correto”, é julgado imoral. Na realidade, Buttiglione foi massacrado por exercer – privadamente!– o seu “direito de pensar” como católico. É claro que isso equivale a despojar despoticamente os católicos de seus direitos civis mais elementares...5 Com toda a razão, o Cardeal Ratzinger comentava o “caso Buttiglione”, em 2004, dizendo:
«O laicismo não é mais aquele elemento de neutralidade, que abre espaços de liberdade para todos. Começa a transformar-se numa ideologia, que se impõe por meio da política e não concede espaço público para a visão católica e cristã» 6.
No mesmo ano de 2004, em diálogo com o professor universitário e Presidente do Senado italiano Marcello Pera, um agnóstico aberto aos valores éticos, Ratzinger acrescentava: «Ultimamente tenho notado, com maior freqüência, que o relativismo – à medida que se vai tornando a forma de pensamento comumente aceita – tende à intolerância, transformando-se num novo dogmatismo. A political correctness (o politicamente correto), com a sua pressão onipresente, quereria erguer o reino de um único modo de pensar e de falar. [...] Seria assim, desse único modo, que todos deveriam pensar e falar, se quisessem estar à altura do presente. Enquanto a fidelidade aos valores tradicionais e aos conhecimentos (racionais) que os sustentam é tachada de intolerância, o padrão relativista torna-se obrigatório» 7.
Após a sua eleição como Papa, é natural que faça questão de alertar uma e outra vez sobre o perigo da “ditadura do relativismo”.
– É espantoso. Imagino que o senhor saiba que, nos Estados Unidos, já é proverbial dizer que a única coisa que, hoje, não é politicamente incorreta é agredir e caluniar a Igreja Católica, o Papa e os sacerdotes católicos, as obras católicas ... E isso, não esporadicamente, mas por meio de campanhas mundiais sistemáticas, perfeitamente organizadas. Mas, ai de quem discordar das abortistas, das feministas radicais, dos defensores do casamento gay e das experiências com embriões humanos...! Todos podem opinar, menos os católicos, reduzidos à condição de infra-cidadãos "malháveis" (desculpe o neologismo).
– E muitos se deixam malhar como carneiros! Seja como for, acho lógico que, perante esses atentados cada vez mais abertos e agressivos contra a liberdade civil dos católicos, a Santa Sé tenha saído em defesa da liberdade religiosa e política dos seus fiéis, com vários documentos, entre eles a "Nota doutrinal sobre algumas questões relativas à participação e comportamento dos católicos na vida política", da Congregação para a Doutrina da Fé, de data 24.11.2002, onde se lê: "Nas sociedades democráticas todas as propostas são discutidas e avaliadas livremente. Aquele que, em nome do respeito à consciência individual, visse no dever moral dos cristãos de serem coerentes com a própria consciência um motivo para desqualificá-los politicamente, negando a sua legitimidade de agir em política de acordo com as próprias convicções relativas ao bem comum, cairia numa espécie de intolerante laicismo" (n. 6) 8.

Creio que, por ora, isto é suficiente. Mas já está na hora de darmos mais um passo rumo a uma visão otimista do mundo atual, a despeito de todas as nuvens negras de Mordor. Vamos sair ao ar livre e ao sol, mas prepare o seu coração, pois chegou o momento de “queimar” o seu pessimismo ...


– Já vejo que chuva grossa vai cair, o ferro em brasa vem para cima de mim...

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