P aulo freire em debate: docente e a pedagogia da autonomia



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AULO FREIRE EM DEBATE: DOCENTE E A PEDAGOGIA DA AUTONOMIA

Janaina Lucia Rodrigues/UFMT-IE

janainapsicologia@hotmail.com

Débora Roberta Borges/UFMT-IE

debora_roberta@hotmail.com


  1. INTRODUÇÃO

Quando se refere a um modelo de educação que conduza o educando a autonomia, Paulo Freire apresenta uma proposta fundada na ética e no respeito à dignidade e a própria autonomia do educando. Esse modelo de educação compreende que a relação entre educador e educando precisa ser autêntica estimulando à curiosidade critica do educando e valorizando as diversas experiências que este traz por meio de sua realidade.

O interesse por discutir teoricamente a prática do educador em um modelo de educação que conduza a autonomia surgiu após o contato com o conceito de Pedagogia da Autonomia proposta por Freire como um modelo de educação que conduza o educando a autonomia. Assim, o encontro às obras de Freire estimulou a reflexão sobre a importância de mudanças nas práticas educativas, para que o processo de aprendizagem seja de construção e deixe de ser de transmissão do conhecimento. Para Freire a relação entre educador e educando deve ser de troca de conhecimentos, e afirma “Quem ensina aprende ao ensinar, e quem aprende ensina ao aprender”. (1996, p. 12)

O professor que estimula a autonomia do educando, cria possibilidades para que o aluno possa construir o conhecimento, se abre para as indagações do aluno estimulando a curiosidade critica e dialogando com o aluno. Para Freire quando o professor valoriza as experiências que o aluno traz da sua realidade social aceitando e respeitando a diferença ele aprende a transformar o seu discurso em uma fala com o aluno.

Isso porque ensinar para o autor não é transferir conhecimento, mas elaborar possibilidades para sua construção, através de uma relação autêntica de aceitação entre educador e educando. O papel do educador nesse processo deve ser de facilitador, estimulando a construção do conhecimento e a autonomia do educando para que seja capaz de assumir de forma ética suas escolhas e compreenda que é possível intervir na realidade e mudar a história, a política, o mundo. O processo para essa mudança é possível através de um modelo de educação que conduza o educando a autonomia, em que o e educador estimule e crie possibilidades para construção do conhecimento.

Para tal, o estudo constitui-se em uma pesquisa de caráter bibliográfico a partir do campo da educação, tendo como contribuições autores como: Freire (1987, 1996, 2001), Foucault (2007) e Rogers (1985).




  1. LIBERDADE E AUTONOMIA NA EDUCAÇÃO

Para Freire a autonomia é a possibilidade pessoa pensar por si mesma, libertando se das ideologias dominantes e reduzindo as dependências da institucionalização ou da dominação e controle que essa exerce. Para isso acontecer é necessário que a ética seja vivida na prática diária, nas relações, em que o discurso do educador seja condizente com sua conduta. Afirma ainda: “Não podemos nos assumir como sujeitos da procura, da decisão, da ruptura, da opção, como sujeitos históricos transformadores a não ser assumindo-nos como sujeitos éticos”. (1996, p.10)

Essa ética implica ser consciente e responsabilizar-ser pelas ações no mundo, uma vez o homem é um ser de possibilidades, capaz de construir e reconstruir sua realidade e com isso seu futuro. E uma das formas da pessoa se conscientizar é através da curiosidade crítica, que o autor define como sendo uma inquietação indagadora, que impulsiona a busca por esclarecimentos, ressalta ainda que um dos papeis do educador é justamente o de despertar essa curiosidade crítica no educando.

Desta forma, Freire compreende que é o conhecimento, que tira as pessoas da condição de impotência e permite que sejam agentes modificadores na realidade. Essa busca por mudanças implica posicionar se e fazer escolhas e afirma: “Ninguém pode estar no mundo. Com o mundo de forma neutra”. (1996, P.31)

Assim, é impossível se manter neutro diante da história e da realidade, e ao homem cabe a difícil liberdade de escolher entre ser ou não autêntico consigo mesmo, e fazer suas escolhas de forma ética consciente de sua responsabilidade. Uma vez que até mesmo no ato de não escolher, está se fazendo uma escolha, mesmo que está seja irresponsável e inautêntica. Freire afirma que as pessoas que alegam ser “neutras” em suas ações, ou são ingênuas ou possuem má fé.

Um dos desafios do educador que busca em sua prática conduzir o educando a autonomia deve ser o de provocar os alunos a perceberem de forma crítica que a realidade de injustiça e desigualdade social pode ser mudada. Para que esses possam assumir com ética e responsabilidade suas escolhas.

Nesse processo de construção do conhecimento o educador também aprende com educando, que traz consigo toda sua vivência e conhecimento da sua realidade social, quando o professor compreende essa vivência ele se abre para uma relação autêntica de novas possibilidades de troca de conhecimento.

Essa relação é possível quando educador consegue escutar o educando, pois “Somente quem escuta paciente e criticamente o outro, fala com ele” (Freire, 1996 p.44). Assim, escutar é se abrir para fala do outro, sendo que o educador que escuta aceita e respeita a diferença e aprende a transformar o seu discurso em uma fala com o aluno.

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  1. O EDUCADOR E A PROPOSTA DE PAULO FREIRE

Ao me aproximar do referencial proposto por Paulo Freire, foi possível verificar o quanto seu posicionamento contribui para a compreensão das relações sociais de forma geral, e especialmente aquelas que se estabelece entre educador e educando. Para Freire (1987), o conhecimento é um processo que se realiza na relação do homem com o mundo que é entendido como dinâmico em constante transformação, e não pode dar-se de um ato de "doação" que o educador faz ao educando. Nesse sentido somos conduzidos a pensar em como se estabelece as relações entre professores e alunos, em um modelo de educação que propicie a autonomia do educando.

Segundo o autor, Freire (1996), é papel do educador despertar e desenvolver a curiosidade crítica nos educando. Esta curiosidade, segundo ele, impulsiona a busca por esclarecimentos, que constrói e reconstrói a história. Nesse contexto, o diálogo surge como forma de compreensão do outro midiatizado pelo mundo. Para Freire (1987, p.29) “o educador já não é o que apenas educa, mas o que , enquanto educa, é educado, em diálogo com o educando que, ao ser educado, também educa”. Dessa forma somos capazes de intervir na realidade e mudar a história, a política, o mundo. Afirma ainda que o processo para essa mudança é justamente a educação enquanto fonte de conhecimento, que permite a pessoa sair da condição de impotência e ser agente modificador da realidade.

Fica claro que a mudança nas práticas educativas gera transformações no contexto social e conduz a reflexão sobre a importância do papel do professor enquanto facilitador da produção do conhecimento, uma vez que a instrução não pode dar-se alheia à formação moral do educando. Freire (2001, p.13) afirma “Aprender e ensinar faz parte da existência humana, histórica e Social, como dela fazem parte à criação, a invenção os sentimentos”. Rogers (1985), no mesmo sentido que Freire entende que a aprendizagem faz parte da existência humana e deve ser provocadora não se limitando apenas ao aumento de conhecimentos, mas precisa penetrar profundamente em todas as parcelas da existência para ser significativa. Para o autor, o papel do professor é de facilitador da aprendizagem significativa, fazendo parte do grupo e não se colocado acima dele, pelo contrário, deve se inserir na relação, fazendo parte dela e facilitando a aprendizagem. Para Rogers essa relação precisa ser vivida de forma autêntica, ou seja, ética e sincera em que o professor vivencie os conhecimentos que são transmitidos.

A visão do homem tanto para Rogers quanto para Freire é de um ser de possibilidades em processo de construção, influenciados por fatores genéticos, sociais, econômico e cultural. O homem, assim, para os teóricos, não é determinado, sendo capaz de construir e reconstruir sua realidade e seu futuro.

Essa concepção de homem possibilita pensar que entre as questões fundamentais para as mudanças na educação está a pratica do educador em estimular a reflexão critica e viabilizar ao educando autonomia em seu processo de construção de saberes. E o quanto essa prática do educador pode promover mudanças na escola e na sociedade em geral.




  1. A INSTITUCIONALIZAÇÃO DA VIDA SOCIAL

A busca pela ordem social leva a criação na modernidade do Estado - Nação e as instituições enquanto estruturas de poder e controle social, a escola nesse contexto surge como uma fabrica de “modelar” comportamentos, seguindo o modelo estatal. Assim, pode se dizer que depois de criadas as instituições se autonomizam, e a sociedade passa a ser controlado por sua própria criação (Castoriadis, 1985)

Para Foucault (2007) vivemos no estado de controle social, em que o homem se deixa guiar por uma falsa idéia de liberdade, mas vive controlado pela ação das instituições governamentais, que tende a moldar profundamente o homem segundo modelos sociais de comportamento.

Assim, a sociedade capitalista se organiza através do processo de institucionalização da vida social, que é guiado por conjuntos de comportamentos de autocontrole e de conformidades que descreve as ações do individuo. A escola institucionalizada nesse contexto esta a serviço de um mecanismo de controle social, que objetiva educar conforme os modelos políticos ideológicos de normalidade e de eficiência e produtividade social. Assim, nessa sociedade que educa para conformação aos seus objetivos, o educando precisa ser moldado tanto no pensar quanto no agir para que seu desejo seja igual ao do Estado que é direcionado pela escola.

O Estado utiliza as instituições sociais e os meios de comunicação de um modo geral para produção e distribuição de suas ideologias e com isso matem o controle social e a conservação do poder. A escola neste contexto não surge para democratizar, mas sim para restringir o conhecimento a poucos e nesse contexto às diferenças serão transformadas em desigualdades em forma de descriminação e exclusão.

Esse modelo de educação é criticado por Freire (1996) que compreende que a escola deve ser um espaço de interação e socialização incentivando a curiosidade crítica dos educando e à produção do conhecimento. Para que o aluno consciente de suas escolhas possa reconhecer e assumir o seu papel enquanto sujeito histórico social e responsabilizar-se de forma ética por suas ações e ser agente de mudanças no contexto social, com autonomia, para dialogar e participar de movimentos sociais (político, religioso, popular etc.) para construção de uma sociedade melhor.

Rogers (1985) compreende que o papel do educador no processo aprendizagem deve ser de facilitador, e critica a política da educação convencional, relacionando esse modelo como uma forma de controle e manobra para as tomadas de decisões. Afirma ainda:

É a política da teoria educacional da “jarra e da caneca”, na qual o corpo docente (a jarra) possui o conhecimento intelectual e concreto e faz com que o estudante seja o recipiente passivo (a caneca), de modo que o conhecimento lhe possa ser despejado. (1985, p.193)


Concordo com Rogers e Freire que o processo deve ser de construção do conhecimento, e que o papel do educador nesse processo deve ser de facilitador, em uma relação autêntica de aceitação que permita que quem ensine também aprenda ao ensinar, e que essa vivencia conduza o educando a autonomia. Acredito que quando a prática educativa possibilita a autonomia do educando ela contribui para mudanças significativas no contexto social e no papel da escola que deixa de ser uma fabrica de moldar comportamentos para ser um espaço do dialogo, da política e da construção do conhecimento.


  1. CONSIDERAÇÕES FINAIS

O interesse por discutir teoricamente a prática do educador em um modelo de educação que conduza a autonomia surgiu após o conhecer a Pedagogia da Autonomia proposta por Freire de uma educação fundada na ética e no respeito à dignidade e a própria autonomia do educando.

Essa proposta de educação compreende que o processo deve ser de construção do conhecimento, em que educador e educando possam compartilhar seus conhecimentos, de forma que os conteúdos e disciplinas possam ser interpretados e adquiram significados e conduzam o educando a autonomia. Para que seja capaz de reconhecer o seu papel e saber que é possível intervir na realidade e mudar a história, a política, o mundo.

E o processo para essa mudança passa pela educação enquanto fonte de produção de conhecimento, que pode possibilitar a pessoa sair da condição de impotência e ser agente modificador da realidade, construindo uma sociedade mais justa e igualitária. E a atuação do educador é muito importante e pode possibilitar essa transformação, quando esse consegue estabelecer uma relação autentica com o educando, de aceitação e respeito e valorizando suas experiências



REFERÊNCIAS

CASTORIADIS, Cornelius. A Instituição imaginária da sociedade. Rio de Janeiro: Paz e terra, 1985.


FREIRE, P. Pedagogia do oprimido. 17º ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1987.

FREIRE, P. Pedagogia da autonomia: saberes necessário a prática educativa. 25º ed. São Paulo: Paz e Terra, 1996.

FREIRE, P. Política e educação: ensaios. 5ºed. São Paulo: Cortez, 2001.

FOUCAULT, Michel. Microfísica do Poder. Org.Introd e Ver. Técnica. Roberto Machad, ed. Graal, Rio de Janeiro. 2007


ROGERS, Carl. Liberdade de apreender em nossa década. Trad. José Octavio de Aguiar Abreu. Porto Alegre: Artes Médica, 1985.


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