Palavras-chave: História da imprensa – jornalismo cidade Belo Horizonte



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II Encontro Nacional da Rede Alfredo de Carvalho

Florianópolis, de 15 a 17 de abril de 2004



GT História das Mídia Impressa
Coordenação: Prof. Luís Guilherme Tavares (NEHIB)

Imprensa e cidade: diários da vida besta

Elton Antunes*


Resumo

O propósito deste artigo é delinear, a partir das falas dos próprios protagonistas do fazer jornalístico, as imagens da relação imprensa e cidade suscitadas pela movimentação editorial em Belo Horizonte nos anos 20 e 30, período historicamente caracterizado como principal momento de modernização da imprensa local. Nesse sentido, procedemos a um mapeamento das noções e associações simbólicas em torno do "urbano" e do jornalismo que organizavam as referências da prática dos grupos e indivíduos que atuavam no espaço da imprensa belo-horizontina. O trabalho verifica de que maneira a idéia de que as forças "materiais" e "espirituais" da cidade aparecem como condição e limite para a realização de um determinado projeto de imprensa, organizando uma “estrutura de sentimentos” e se inscrevendo como problema no relato daqueles que estiveram à frente da iniciativa de "modernizar” a imprensa mineira.

Palavras-chave: História da imprensa – jornalismo - cidade - Belo Horizonte



Imprensa e cidade: diários da vida besta

A Marinoni chega a cidade

A primeira impressora rotativa de um jornal privado em Belo Horizonte desembarcou na cidade no semestre inicial de 1927. Era uma "Marinoni", que chegava para a fundação do Diário da Manhã e impressionava os citadinos: eles viam ali um indicador palpável do fôlego do projeto editorial que brevemente se instalaria na capital. Conta-se que a impressora - a qual somente a Imprensa Oficial, responsável pela edição do Minas Gerais, órgão dos poderes do Estado, possuía semelhante - provocou grande alvoroço na cidade quando do seu desembarque, vinda do Rio de Janeiro, na estação da Central do Brasil.

A agitação era, sobretudo, dos que militavam na imprensa da capital à época, segundo eles marcada pela precariedade dos equipamentos gráficos e o pauperismo nos recursos disponíveis para tocar qualquer empreendimento jornalístico. A "Marinoni" estacionada na gare da Central custara a significativa importância de 200 contos de réis.

Mas nem só os homens de imprensa acorreram à estação ferroviária. Junto com a impressora chegavam também novos equipamentos gráficos que davam à carga um volume e peso gigantescos, raramente desembarcados na cidade. A chegada da "imprensa moderna" a BH era assim, antes mesmo que resultasse num novo jornal, também um fato que despertava a curiosidade dos habitantes.

Como o guindaste da estação não conseguisse mover a carga, enquanto se resolvia o que fazer, parte do equipamento mais leve era aos poucos transportada para as futuras oficinas do Diário da Manhã. A solução foi juntar ao esforço de uma turba de curiosos transformados em voluntários a força de oito juntas de bois trazidas da periferia da cidade "para puxar o caixote mais pesado, já que os mais possantes caminhões da cidade, convocados para a missão, sequer se arriscaram ao vexame de engasgar na subida da Bahia, diante de tanta gente, tão entusiasmados espectadores".(1) Entusiasmo tão grande que, combinando com a proximidade do carnaval, acabou por transformar o transporte da impressora num verdadeiro desfile de Momo. Foram oito horas até que os bois conseguissem puxar o equipamento da estação às oficinas, num percurso de pouco mais de dez quarteirões.

A história desse episódio encontra-se dispersa e compõe a memória coletiva produzida pelos indivíduos que viveram tal acontecimento ou dele tomaram conhecimento à época.(2) Tais relatos nos chamam a atenção pelas associações e imagens que os diversos narradores articulam e que expressam, a nosso ver, como determinadas percepções da experiência urbana estiveram no coração de uma perspectiva de vislumbrar a imprensa de Belo Horizonte nos anos 20 e 30, em geral como o seu principal momento de modernização. O propósito deste artigo é delinear, a partir das falas dos próprios protagonistas do fazer jornalístico, as imagens da relação imprensa e cidade que a movimentação editorial em Belo Horizonte nos anos 20 e 30 suscitou. Em suma, o interesse gira em torno de quais noções e associações simbólicas em torno do "urbano" e do jornalismo organizavam as referências da prática dos grupos e indivíduos que atuavam no espaço da imprensa. Com isso buscamos (re)produzir uma representação do mundo tal como os homens o vivenciavam/significavam e que ordenava sua prática social, suas obras e seu modo de ser. Em suma, investigamos uma "estrutura de sentimentos", num sentido tal como proposto por Raymond Williams (1989).

O levantamento empírico que sustenta tal reflexão consistiu na organização das representações que os homens atuantes na imprensa de Belo Horizonte na época estudada tinham da dinâmica desse incipiente campo cultural. Recorrendo a documentos escritos, artigos de jornal, relatos diversos, fragmentados e produzidos em função dessa percepção de uma imprensa em mudança, mapeamos uma sensibilidade, uma lógica particular de juntar cidade e a prática do jornalismo (ANTUNES, 1995)

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Cidade, limites e possibilidades para os jornais


Um cronista de O Diário, em 1936, saúda a passagem do primeiro aniversário do jornal descrevendo o que, para ele, expressava o dilema central do fazer imprensa na Belo Horizonte dos anos 30.

"O Edgar Matta Machado arranca os cabelos. Falta de matéria. O dia decorreu morto, honestamente, sem reportagens. Nem uma homenagem a político evidente, nem um discurso, nem um ladrão de galinhas.

- Belo Horizonte é mesmo uma aldeia.

(...) Dia de excesso de matéria. A Itália ganhou uma batalha, Hauptmann não será eletrocutado, um bonde pegou um automóvel, o Sr. Fulano fez uma conferência, houve um assalto a importante estabelecimento comercial, o Macedo da publicidade encheu as páginas de anúncios. O Indiano quer por um clichê de Chico Preto em três colunas... Como é que no jornal pode caber tudo isso? E o Edgar arranca os cabelos, sem saber o que fazer. Um dia acaba careca."(3)

A cidade é como um suporte, o palco de ação da imprensa local que, de forma análoga a um pêndulo, oscila da profusão de acontecimentos e anúncios publicitários a publicar à carência absoluta do que noticiar diariamente. Os jornais, sugere-nos o cronista, caminham de acordo com o ritmo da cidade. E a Belo Horizonte da época, ao mesmo tempo em que reluta em oferecer-se como objeto da visada particular do jornalismo, parece experimentar ocasiões em que transborda mesmo, não cabe nas páginas dos periódicos.

Os anos 20 e 30 são em geral apontados como momentos fundadores de uma imprensa renovada, que experimenta processos de modernização editorial. Mas, afinal, a cidade aparece como aparece como limite ou torna-se a melhor possibilidade para engendrar a chamada imprensa de corte moderno? Quais as articulações que o ambiente urbano estabelece com as movimentações no espaço da imprensa local?

Nas representações dos "homens de imprensa" belorizontinos da terceira e quarta décadas do século XX, a cidade evidencia-se como par inseparável na reflexão que envolve a prática jornalística. Tais falas nos sugerem dois eixos temáticos que permitiriam discutir a relação imprensa/cidade da forma como era percebida pelos nossos protagonistas: o primeiro diz respeito àquilo que se constitui ou deve se constituir em objeto de atenção do novo jornalismo praticado na capital; o outro ponto salienta a percepção dos jornalistas do modo como essas mudanças na imprensa implicam uma nova forma de reportar os acontecimentos e as notícias nas páginas dos jornais. A nosso ver, esses dois vértices organizam uma imagem de cidade que orienta a prática dos agentes nas movimentações verificadas na imprensa de Belo Horizonte das décadas de 20 e 30. Permitir-nos-iam, pois, entabular uma reflexão em torno de uma proposta de jornalismo em discussão, ali e naquele momento, e sua interface com o ambiente urbano.

Em alguma medida, pode-se dizer que as mudanças que se operam na prática do jornalismo na capital mineira acompanham movimentações mais gerais que se fazem presentes nas diversas dimensões da vida social naquele momento. Não sem razão, em várias passagens os discursos em tela ressaltarão a ocorrência de um relativo desenvolvimento do jornalismo local como um dos resultados de um progresso sócio-econômico da cidade. Pedro Aleixo, protagonista desse processo, sustenta a idéia de que a cidade já organizava as condições materiais necessárias para o êxito de uma empresa jornalística como o Estado de Minas. A presença do periódico na primeira metade dos anos 30 valia como
"demonstração de vigor e de pujança da Capital mineira, em cuja vida o órgão de imprensa, lançado em 7 de março de 1928, integrou-se definitivamente, passando a ser, de então para cá, o registro exato dos mais variados acontecimentos que marcaram as boas e más vicissitudes da terra montanhesa".(4)

De fato, a historiografia da cidade situa o momento de passagem à República Nova como o da deflagração de um acentuado desenvolvimento urbano, que transforma a cidade no efetivo pólo econômico planejado quando de sua fundação.(3) As evidências de tal processo são várias: o crescimento físico-espacial da cidade, escapando para além dos limites do traçado original; o aumento significativo da instalação de estabelecimentos comerciais, industriais e de serviços; a quebra do isolamento da cidade em relação a outras regiões do estado e com outros estados através da inauguração de linhas telefônicas, construção de rodovias e ampliação do sistema ferroviário; a expansão da rede educacional e do acesso dos habitantes à educação básica, além do investimento na formação superior, com destaque para a criação em 1927 da Universidade de Minas Gerais; o grande aumento no número de habitantes.

O crescimento da população é dos dados mais representativos da "pujança" que adquire a capital. Eram cerca de 55 mil habitantes em 1920, 80 mil em 1925, 140 mil em 1930 e quase 215 mil seriam contabilizados pelo censo de 1940. Correia Dias identifica nesse período um processo de diversificação ocupacional que alcança também as chamadas profissões intelectuais. Tal processo permite o início de uma profissionalização, ainda que incipiente, dentro do jornalismo da cidade. Além disso, a diversificação das atividades produtivas da cidade e do Estado, a expansão industrial que induz algum incremento no mercado publicitário e a preeminência do debate político no período, marcado por forte polarização ideológica, criam condições que predispõem a um certo fervilhamento organizacional e ideológico no espaço da imprensa. Não se pode esquecer também que, combinado a estes fatores, o período colhe os primeiros resultados de um esforço de educação popular produzido durante o governo Antônio Carlos. Ainda que deva ser lida com alguma reserva, essa ação produz conseqüências para uma possível ampliação dos públicos leitores. O número de pessoas consideradas alfabetizadas vai, num crescendo permanente desde meados da década de 20, atingir 66,5% da população da capital em 1940, contra o índice de 27% relativo ao conjunto do estado. Nesse contexto, o período assiste a uma certa estabilidade no desenvolvimento da imprensa da capital, marcado sobretudo por uma perenidade maior dos jornais frente à fugacidade dos empreendimentos editoriais até então surgidos na cidade.(5) Por fim, a expansão do periodismo por esta época não deve ser tomada como característica exclusiva de Belo Horizonte. Além do Rio de Janeiro e São Paulo, os dois pólos econômico-culturais mais importantes, outros centros do país, como Porto Alegre, Recife e Bahia, experimentam também, num processo que se prolonga através das quatro primeiras décadas do século, o crescimento da chamada imprensa "noticiosa".(6)

A dinâmica da imprensa local no período poderia ser apreciada como resultado de mudanças na configuração social e econômica da capital. Tal perspectiva, em alguma medida, estaria corroborando teses clássicas da sociologia urbana que vislumbram a cidade e produtos considerados típicos do ambiente urbano - tais como, ciência, arte, literatura, liberdade pessoal, ampliação dos horizontes individuais - como motor do desenvolvimento humano(7).

As críticas a essa vertente analítica são por demais conhecidas: proposições válidas para cidades industriais típicas são generalizadas para o conjunto do fenômeno urbano; a distinção entre rural e urbano não está nitidamente ligada à diferença entre grupos primários e secundários como sugerirá esta análise, já que os primeiros têm persistência e também integram a vida urbana; dentre outras questões.(8) Todavia, essa idéia de causalidade, na qual a cidade torna-se uma potência indutora de efeitos diversos na vida social e gera uma "cultura" específica de tipo urbano, parece ter pontos importantes de contato com a percepção corrente acerca da imprensa belorizontina no início do segundo quartel do século.

Um conjunto de indicadores de desenvolvimento da cidade são "escolhidos" pelos jornalistas para colocar em tela a nova situação da imprensa. Tais referências de progresso do meio urbano sugerem o privilégio de uma ordem de fenômenos muito próxima da idéia de formação de uma "cultura urbana" específica. De certa forma, apoiados em impressões acerca de variáveis da evolução demográfica e sócio-econômica de Belo Horizonte, nossos protagonistas procuram relacionar as movimentações no espaço da imprensa a fatores representativos de modificações na vida quotidiana e cultural. Alguns cronistas, por exemplo, vão sugerir que a imprensa moderna é uma imposição do patamar alcançado pela cidade do ponto de vista do seu "desenvolvimento cultural". O editorial de fundação do Diário da Manhã, em 1927, afirma que "o desenvolvimento da cidade impunha o aparecimento de órgão de publicidade afastado da dependência do governo".(9) Os responsáveis pelo jornal O Debate, em 1934, permanecem nesse viés acentuando que a idéia de editar um vespertino, "à altura do desenvolvimento cultural de Belo Horizonte", levou a mudanças no jornal. Quais seriam, então, as evidências de desenvolvimento cultural citadino organizadoras, para os "homens de imprensa", de uma realidade social a qual exige e garante as mudanças que se processam no campo da imprensa diária da capital?

Belo Horizonte, ao abandonar o primeiro quartel do século XX, começava a superar um certo bucolismo de sua paisagem. Esse traço urbano, combinado com o moralismo e o convencionalismo ritualista das práticas coletivas dos habitantes dos segmentos médios e de elite da cidade, e somado a uma organização marcantemente patrimonialista da política, conformava um sufocante ambiente para o convívio e desenvolvimento intelectual.(10) O mosaico das representações dos jornalistas da imprensa local esboça um quadro que confere visibilidade significativa a um conjunto de hábitos e costumes sociais. Aponta-se com ênfase a emergência de práticas que, organizadoras da vida quotidiana e cultural dos habitantes da cidade, atuam como pressuposto e resultado dessa oxigenação do ambiente urbano.

É o caso do crescente e disseminado hábito de ir ao cinema. Contemporânea da criação do cinematógrafo, Belo Horizonte tinha na assistência de filmes, na década de 20, atividade regular dentre os segmentos médios e da elite local - "o bonde conduz freqüentadores de cinema,"(11) diz a crônica. O costume de freqüentar as salas de exibição da cidade era programa cotidiano obrigatório e distintivo da vida cultural desses segmentos sociais. O negócio do cinema, por sua vez, encontrava-se em franca expansão no final dos anos 20 e anos iniciais da nova fase republicana, com a inauguração de novos espaços sendo acontecimento periódico. Salas tradicionais, mas que não ofereciam mais condições de atender satisfatoriamente ao público devido ao acanhamento de suas acomodações, eram rapidamente substituídas.

O cinema será fonte inesgotável para a imprensa da época. Do ponto de vista econômico, as exibidoras patrocinam boa parte dos anúncios publicitários nos jornais, destacando a programação, horários e lançamentos. Constituem-se num dos primeiros segmentos publicitários organizados e cativos. Já como uma espécie de "pauta", colunas e, com grande freqüência, páginas diárias inteiras são dedicadas a críticas e informes cinematográficos. Eventualmente, o hábito de ir ao cinema podia fornecer até mesmo material para as páginas policiais: o acúmulo de gente, por exemplo, em frente ao Cine Odeon, na Rua da Bahia, na "sessão da Fox" às 8 da noite, no fim dos anos 20, bloqueava o tráfego e obrigava a intervenção da polícia.

"Cenas de vandalismo. A rua da Bahia esteve ontem agitada por tropelias da polícia. Estudantes espancados covardemente a bengalão e cassetete"(14).

O cinematógrafo aparece como objeto de atenção dos jornais por se constituir num costume de um conjunto expressivo dos citadinos das camadas de elite e médias urbanas.

Além de alimentar a crônica jornalística, a recém aclamada "sétima arte" fornecia também uma perspectiva de enquadramento e abordagem discursiva. O cinema, na prática do jornalismo, produzia uma espécie de "grade" simbólica (temáticas, figuras sociais típicas etc.), que era recurso freqüente na construção dos textos dos jornais.

"Os filmes de Joan Crawford, que são sempre bons de se ver, porque mostram alegres e bonitas meninas com bonitos vestidos, estão educando a mocidade feminina no sentido do horror ao homem rico e civilizado, que quer divertir-se e escolhe para isso as mais doces companhias",(15)

escrevia Drummond em sua crônica diária.

Mas o cinema rivalizava com o futebol dentre as paixões que arrebatavam os hábitos dos habitantes da capital. No período em questão, os registros apontam para uma mudança importante no contexto do futebol. Perdia força o esporte cultivado pela juventude das camadas sócio-econômicas privilegiadas nos clubes tradicionais. A própria transformação da definição do esporte de "ludopédio" para futebol, na escrita da imprensa, sugere a incorporação do esporte nas hostes das preferências populares.(16) O esporte focalizado pelos diários rivaliza com o futebol de rua e dos campinhos de periferia, talvez a principal atividade de lazer das camadas pobres da sociedade local. A atenção dos diários é, no final dos anos 20, pela ascensão do esporte na cidade como um espetáculo de massas.(17) É nessa condição que tal modalidade esportiva parece ganhar nova dimensão no rol das práticas objeto de atenção privilegiada dos jornais. Por essa época, praticar e, sobretudo, assistir ao futebol vai consagrando-se, segundo os cronistas, como um dos costumes mais generalizados em Belo Horizonte.

Um correr de olhos nos diários do período permite a constatação de que o novo jornalismo, com olhos voltados para temas locais e do cotidiano, acompanha com grande destaque os eventos relacionados ao futebol. O escritor e jornalista João Alphonsus atenta para o fenômeno em várias passagens de sua obra literária - pródiga no registro do ambiente social de Belo Horizonte dos anos 30. É recorrente a presença desse esporte na organização da cotidianidade da população. O futebol foi, por exemplo, para indivíduos das camadas mais pobres, uma forma de adquirir status social. Os jornais alimentam essa nova condição.



"Ah, o Leôncio. Está bem, agora; ganhando a vida com o pé. De amador de futebol suburbano passou a profissional, comandante da linha dianteira do Lusitano F.C. Veja só, coronel: aquele rapaz estava se perdendo como simples servente de pedreiro! Um centro-avante de primeira, com aquele corpo fino, aquelas pernas compridas... Quando os jornais falarem nas escapadas sensacionais de Leon na porta do gol, o senhor já sabe: é ele! Me admira que o senhor ainda não tenha visto o retrato dele nos jornais. É o homem do dia. Leon!"(18)

As páginas ou suplementos esportivos são dos recursos mais utilizados pelos periódicos para atrair a atenção dos leitores. No caso do futebol, a cobertura das partidas e do cotidiano desse esporte na capital merecem um destaque nas páginas dos jornais só comparável à crônica política. Um match entre Atlético e Palestra, duas das principais agremiações da cidade, provocava uma semana de crônicas e reportagens nos periódicos com manchetes diárias. Segundo rememora o jornalista, Plínio Barreto, relembrando sua infância,



"foi nesta época, já tão distante, que o nosso futebol começou a ganhar impulso maior, surgindo para a crônica esportiva da cidade o clássico Palestra x Atlético. Até então a coisa se resumia em Atlético x América. A ascensão do `time verde do Barro Preto` era a causa do entusiasmo diferente que então passou a envolver o chamado 'balípodo' ou 'ludopédio'".(19)

É certo que o futebol vai ganhando na cidade a projeção de uma das mais populares práticas sociais. Afinal, "o futebol não impunha exigências. A bola e as onze camisas adquiriam-se mediante rateio. Era esporte de pobre, daí sua popularidade".(20) Mas a atenção que a "nova" imprensa passa a dispensar ao fenômeno, e a repercussão que constrói nas páginas diárias de cobertura esportiva, parece ter menos a ver com a ascensão da prática do esporte, já popular como forma de diversão entre o conjunto da população, do que com um novo enfoque construído sobre os eventos que expressavam a vida e os costumes dos citadinos. A prática e a assistência do futebol - o futebol espetáculo de massas - eram das mais concorridas atividades em Belo Horizonte, à semelhança do que ocorria também noutras capitais. Todavia, essa prática só passa a constituir "fato jornalístico", ou se tornar objeto da cobertura sistemática do periodismo, quando o futebol é visto como um acontecimento que marca o ritmo da capital, adentra a hierarquia da vida quotidiana e ganha preeminência na organização dos hábitos das pessoas. A expansão da figura do "torcedor" e a incipiente profissionalização dos jogadores são fenômenos característicos desse processo.

É nesse período, fim dos anos 20, que se tornam populares os chamados "placards"(21), afixados à porta dos jornais. Neles a redação informava, em forma telegráfica, novidades no transcurso de partidas de futebol disputadas noutras cidades e que chegavam pelo rádio ou telefone. Há uma, como de hábito, cativante crônica de Drummond evidenciando a importância do futebol na cidade, e o papel da imprensa para que ele comece a se tornar um espetáculo ritualizado de massas.

"Domingo, à tarde, na forma do antigo costume, eu ia ver os bichos do Parque Municipal (cansado de lidar com gente nos outros dias da semana), quando avistei grande multidão parada na Avenida Afonso Pena. Meu primeiro pensamento foi continuar no bonde; o segundo foi descer e perguntar as causas da aglomeração. Desci, e soube que toda aquela gente estava acompanhando, pelo telefone, o jogo dos mineiros na Capital do país. Onze mineiros batiam bola no Rio de Janeiro; dois mil mineiros escutavam, em Belo Horizonte, o eco longínquo dessa bola e experimentavam uma patriótica emoção.

(...)"Para mim, o melhor jogador do mundo, chutando fora do meu campo de vista, deixa-me frio e silencioso.

Os meus patrícios, porém, rasgaram-se anteontem de gozo, imaginando os tiros de Nariz, e sentiram na espinha o frio clássico da emoção, quando o telefone anunciou que Carlos Brant, machucando-se no joelho, deixara o combate. Alguns pensaram em comprar iodo para o herói e outros gritavam para Carazzo que não chutasse fora. A centenas de quilômetros, eles assistiam ao jogo sem pagar entrada. E havia quem reclamasse contra o juiz, acusando-o de venal. Um sujeito puxou-me pelo paletó, indignado, e declarou-me. 'o Sr. está vendo que pouca vergonha. Aquela penalidade de Evaristo não foi marcada'. Eu olhei para os lados, à procura de Evaristo e da penalidade; vi apenas a multidão de cabeças e de entusiasmo; e fugi."(22)

Vale acenar também para o fenômeno do carnaval como costume citadino que desperta a atenção dos periódicos. Apesar de ser uma festa popular de momento bem delimitado no ano, nem por isso possui menor impacto na cobertura realizada pela imprensa à época. Desde alguns meses que antecediam a festa e durante o período que envolvia o chamado "reinado de Momo", os jornais voltavam-se com particular atenção para o acontecimento. Além de artigos em profusão, os diários promoviam inclusive uma série de atividades carnavalescas, como "batalhas de confete" e encontro de blocos, vinculando essa ação à presença e inserção de cada periódico no cotidiano da cidade. O destaque dos jornais é, obviamente, para as manifestações festivas que envolvem a pequena burguesia urbana, com rara menção a comemoração patrocinada por segmentos mais pobres da população. A organização de blocos, os tradicionais corsos e os bailes recebem acolhida e divulgação generosa dos diários. Em alguns momentos a dinâmica da festa carnavalesca serve até mesmo para justificar as mudanças que ocorrem na imprensa. É o que sugere o articulista do Diário da Tarde em crônica da primeira edição do jornal.



"Diário da Tarde, jornal essencialmente brasileiro, aguardou o sábado-gordo para se apresentar a amável população da capital. Ele veio de mãos dadas com El Rey Momo, e ambos foram recebidos com as mesmas manifestações alegres de encorajamento e de aplauso.

Não se pode estranhar, em absoluto, o caráter de acontecimento sensacional que se emprestou à chegada das duas ilustres personalidades. Ao contrário, nada mais lógico e natural: - Belo Horizonte, cidade tradicionalmente pacata e burguesa, já muito que se ressentia da falta de um vespertino que tivesse realmente essa feição - leve, ágil, noticioso - e de um carnaval que fosse verdadeiramente carnaval."(23)

Carnaval, cinema, futebol. São práticas significativas que se fazem presente na capital desde os anos iniciais de sua fundação. O que parece acontecer de novidade agora é que estas atividades começam a adquirir traços - como o alargamento da participação de setores que têm acesso à fruição dessas atividades e uma certa integração cultural dos diferentes setores - fundamentais à emergência posterior do que se convencionou chamar cultura popular de massa.(24). Tais práticas parecem representar, na capital mineira, a introdução dos primeiros passos de "um movimento de unificação cultural, projetando na escala da nação fatos que antes ocorriam no âmbito das regiões" e, com isso, possibilitando "o surgimento de condições para realizar, difundir e 'normalizar' uma série de aspirações, inovações, pressentimentos gerados no decênio de 1920".(25) Assim como ocorria com a imprensa local, também o futebol, cinema e carnaval tinham como contraponto permanente a dinâmica e atenção dispensada às mesmas atividades nas cidades do Rio de Janeiro e, em menor grau, São Paulo. Através dessas "pontes", a vida cultural da cidade adquiria ares menos intimistas e estabelecia contatos e rede de relações com outros ambientes distantes e mais cosmopolitas.

A vida social em Belo Horizonte, na visão expressa nos jornais, ganhava novos ares através da ritualização e performance pública dessas práticas culturais. A entrada da cidade no concerto nacional da modernização não se dava, todavia, somente nas referências aos hábitos relacionados ao cinema, carnaval e futebol. Ao que parece, também não procedia mais a reclamação de Drummond, por ocasião da semana modernista de 1922, segundo a qual o que era escândalo na capital paulista não chegava a atingir a capital mineira. Belo Horizonte agora tinha seu próprio estoque de escândalos.

É que outro aspecto estruturante da "nova realidade social" da cidade, para os "homens de imprensa", é o relato dos fenômenos relacionados ao conflito social e à criminalidade. A movimentação no periodismo local inicia por essa época a construção de sua idéia de marginalidade social, traduzida nas abundantes matérias dedicadas à cobertura policial.

As diversas manifestações de conflito social têm participação expressiva na constituição do cotidiano da cidade desde a sua fundação. Afinal, já dessa época um amplo "mundo da desordem", experimentado pela população mais pobre, choca-se com a ordem que o planejamento da cidade tenta impor.(26) Prostitutas, "desocupados", moradores das cafuas, os pobres em geral ganham visibilidade e passam a ocupar espaço destacado nos jornais com o redirecionamento editorial das publicações. A crônica da marginalidade social segue de perto, como atesta o simples folhear dos jornais do período, o volume de material dedicado à política e ao futebol, e obtém atenção e repercussão entusiasmada junto aos leitores.

Estrela nas páginas dos jornais, o destaque dado ao noticiário policial para consolidação da nova fase da imprensa local, é, entretanto, mais dissimulado, marginal como seu tema. A idéia da força da crônica policial no periodismo transparece nas entrelinhas da memória de uma vida boêmia da capital. Sugere-se ali o lugar que "o mundo da desordem" ocupava nos acontecimentos que seriam objeto das notícias.



"A vida boêmia de todas as cidades sempre foi o habitar de tipos singulares. Prostitutas, cafetinas, gigolôs e gente endinheirada sempre serviram de fonte inspiradora de escritores e artistas. Uma vez ou outra corria pela cidade a notícia de um caso pitoresco. Ficávamos sabendo dos atritos e desavenças, das brigas entre amantes, que costumavam ocorrer na madrugada. Se não se alastravam na letra de forma do jornal, corriam de boca em boca até o comentário chegar ao Bar do Ponto".(27)

Mapear esse setor da vida urbana tornava-se atividade do noticiário de polícia através de "visitas à 2ª Delegacia, conversas com lunfas ou mulheres da Zona, através das grades, a cara do delegado, antipática, secarrona, desdenhosa, desconfiada".(28)



Algumas passagens do romance "Rola Moça", de João Alphonsus, são também elucidativas da realidade que o olhar dos jornais passa a construir no seu encontro com a temática da marginalidade social. O personagem Anfrísio, bacharel em direito e funcionário público, observa de sua casa, a única "burguesa" nas imediações da favela do "Rola Moça", morro na zona sul da cidade, os eventos cotidianos que se desenvolvem no local. Um deles, a morte de um dos habitantes da vila, é pródiga no insinuar essa nova perspectiva adotada pelos emergentes jornais noticiosos da capital. Ao narrar os acontecimentos a um amigo,

"Anfrísio abriu um jornal que conservara na mão durante o enterro:

- Leia esta notícia do falecimento. Se já leu, repita atentamente a leitura.

O outro leu:

SR. ANTÔNIO PIO DA COSTA CÂNDIDO

'Faleceu ontem repentinamente nesta capital o Sr. Antônio Pio da Costa Cândido, chefe de tradicional família da cidade de Montanha. Natural daquela cidade, para essa Capital veio ao tempo do antigo Curral del-Rey, tendo participado da construção da nova cidade, então nascente.

Passando a exercer funções na repartição dos Correios de Belo Horizonte, no desempenho do cargo que lhe coube, fê-lo dando sempre provas de seu caráter probo, enérgico e independente (...)

Falecendo na avançada idade de oitenta anos, pai dos saudosos mineiros Drs. João Cândido e Antônio Cândido Filho, deixa os seguinte filhos vivos: (...)

Seu enterramento realizar-se-á hoje às 16 horas, saindo da rua Montanha, 17, para o Cemitério do Bom-Fim.

(...) Agora, vire a página do jornal e procure o DIA POLICIAL. Olhe aí.

FALECEU NA VIA PÚBLICA - Populares encontraram na manhã de hoje, nas imediações do Sanatório Montanhês, no Rola-Moça, o cadáver de um homem. Comunicado o fato à polícia, esta fez remover o cadáver para o necrotério. A necrópsia revelou tratar-se de morte por insuficiência cardíaca. Entrando em diligência, pode a Delegacia de Segurança Pessoal identificar o morto. Trata-se do operário Antônio Cândido, de oitenta anos de idade, residente num barracão daquelas imediações.

O corpo será enterrado hoje.

(...) O homem que depois de morto virou dois. Bom título para uma novela. Se eu quisesse escrever novelas. Os elementos estão aí, oferecidos pela realidade. A família enlutada forneceu os dados, para a notícia solene, da seção social, ocultando porém o humilde cargo posto que exerceu: carteiro. O repórter foi na delegacia e apanhou na vala comum do livro de pequenos incidentes anônimos o falecimento chapa: na via pública. O terreiro foi transformado em via pública, já que é assim que os cadáveres humildes são encontrados pelos populares. Ninguém morre dentro de sua moradia para ser encontrado por populares. Note que, apesar de identificado, o repórter do DIA POLICIAL não lhe deu maior importância: o corpo será enterrado hoje. Corpo anônimo e humilde, literalmente corpo: lama".(29)

O acontecimento e a visada do jornalismo. A interseção de ambos produzindo a notícia policial é esplendidamente mostrada pelo autor de Rola Moça. Noutro momento da estória Anfrísio, ao deparar com o relato no jornal de um ritual de macumba ocorrido na favela, constata que "a maior parte da notícia é imaginação do repórter". Mas o caso lhe provoca a lembrança de outro episódio, onde um jornalista, no afã de realizar uma reportagem sobre os terreiros de macumba, se meteu numa "trágica aventura", que lhe causou a morte. Camilo, o repórter do jornal, buscava reportagens sensacionais, "cada vez mais palpitantes e pitorescas". Mergulha no ambiente da macumba em busca de uma série de artigos de grande repercussão.

O repórter envolve-se com uma Mãe de Santo, a mulata Josefa, com quem se casa. Ambos morrem três anos depois. O narrador conta então a reavaliação do ocorrido que Anfrísio faz em suas reminiscências:

"falavam de uma atração doentia pelas excentricidades, marca de sua psicologia e revelada na própria vivacidade jornalística, uma assombrosa facilidade de apreender estranhos pedaços de realidade para a fome inestancável do noticiário. Entretanto Anfrísio, com a memória provocada para todas as circunstâncias, sentia que havia naquilo mais do que o de que se falava. Sim, a vingança da macumba contra quem a penetrara com intuito de sensacionalismo de imprensa. Vingança dentro da pura realidade. Sem literatura. Ou a literatura estaria na maneira do bacharel encarar o fenômeno."(30)

Ao que podemos complementar: ou a crônica policial residia na maneira do novo jornalismo olhar a "marginalidade"?



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