Palavras-chave: História da imprensa – jornalismo cidade Belo Horizonte



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Uma nova porta de entrada


As perspectivas analíticas enfeixadas nessa "porta de entrada" tem como solo comum o entendimento de que o ambiente urbano produz um contexto propício à emergência de novas formas de experiências. Essas experiências são marcadas por características como fragmentação, contingência, descontinuidade e de instituição do individualismo como um valor fundamental da vida social. Simmel e Benjamim são vistos como autores recorrentes nesse olhar que percebe a cidade como campo por excelência da experiência moderna.

Nesse viés, a cidade, por um lado, é apresentada como corporificação de um processo de aceleração do ritmo de vida responsável por mutações avassaladoras sobre o conjunto das disposições mentais dos indivíduos. A readequação psicossocial do ser metropolitano exige a mobilização crescente de energias ou, na incapacidade dessa resposta, redunda em mecanismos como a atitude blasé.(50) De toda forma, essa visão de cidade destaca o isolamento e uma perda de conexão que passam a ser condições básicas de uma nova forma de percepção dos citadinos. Face ao adensamento urbano, ao crescimento demográfico acelerado, o indivíduo dentro da "multidão" própria do ambiente citadino, torna-se parceiro da solidão, de um isolamento essencial.

Por outro lado, o ambiente metropolitano permite a liberação do indivíduo do controle e supervisão por outras pessoas, gerando aversão à sujeição de seu comportamento na intimidade por códigos morais diferentes do seu parâmetro pessoal. Nesse quadro de referência, o homem da cidade é aquele que desenvolve um processo permanente de individualização, em busca da identificação progressiva de interesses próprios. "Simmel está desde o primeiro momento associando a cidade moderna, a metrópole, à possibilidade intelectual de libertação e realização do indivíduo no sentido pleno da amplitude do pensamento, do 'cultivo' interior, aprimoramento da subjetividade. Trata-se da libertação, pelo pensamento, traduzida na reserva e no estranhamento ao controle provinciano".(51)

Assim, novos objetos e um novo olhar na imprensa da capital são processos que andam lado a lado com o desenvolvimento urbano, segundo a visão dos cronistas. A cidade, seja no crescimento de seus indicadores demográficos ou na expansão de sua topografia, seja por mudanças no campo político e econômico, impõe nova configuração aos contatos físico e sociais de seus habitantes. E, no mesmo movimento, o fenômeno urbano engendra novas formas culturais responsáveis pela remodelação do comportamento citadino.

Não podemos nos esquecer, contudo, que a fala do jornalista que abriu essa parte do trabalho, se apontava Belo Horizonte como um terreno fértil para germinar e crescer uma imprensa renovada, também imputava à cidade a condição de dique fundamental para o exercício de uma prática editorial "mais moderna". Dessa forma, as possibilidades abertas à ação dos diários no desenvolvimento material e espiritual da capital constituem apenas um dos sentidos de movimento do pêndulo. Não há como compreender o que se verifica na cidade, na perspectiva dos "homens de imprensa", desconsiderando o vaivém desses discursos. Como contraponto à perspectiva da cidade exemplo de progresso surge a dúvida: será mesmo a capital capaz de propiciar uma vida vertiginosa nos anos 30? Belo Horizonte do Diário da Manhã, do Correio Mineiro, do Estado de Minas, da Folha de Minas com estilo e ares de metrópole?

Lembremos que os indivíduos que povoam os hábitos de freqüentar futebol, cinema, bailes de carnaval, registrados como novos temas dos jornais, dizem respeito majoritariamente ao grupo social formado pelos estratos médios urbanos. São, sobretudo, os citadinos ligados a profissões liberais de formação superior e muitas vezes vinculados à burocracia estatal, apesar de todos estes costumes terem relação também com as práticas culturais e de lazer das camadas populares. Em suma, os protagonistas centrais dessas práticas visadas pela imprensa diária são também os leitores em potencial dos jornais.

E é exatamente no registro da experiência citadina do "seu leitor" que a "moderna", "febril", "inebriante" Belo Horizonte parece claudicar como uma realidade inquestionável. O Diário da Tarde, nesse sentido, dá como que um depoimento dessa ambigüidade através de uma crônica publicada em 1931. O jornal relata as dificuldades para que a pequena burguesia urbana tivesse acesso a uma vida cultural ativa numa cidade como a Belo Horizonte da época.

Reclamando da falta de opções para lazer na cidade, o narrador inicia o relato identificando exatamente a ocupação social típica dos setores médios da sociedade da capital: o funcionário público. O ritmo do seu trabalho é o ritmo da cidade.



"Belo Horizonte é, toda ela, um grande livro de ponto. Com os indefectíveis minutos de atraso. (...) Ninguém se liberta do contágio alarmante do funcionário público. E os amanuenses somos eu, você, e as meninas bonitas que olhamos, furtivamente, nos bondes que levam às secretarias a grande fauna de estômagos mal alimentados. Quando não é pior: a maior parte, leitor imaginário, pertence ao número dos `contratados`.

Quando não amanuense e contratados de uma secretaria, pelo menos funcionário público da vida sem dinheiro. O que não deixa de ser o mesmo".(52)

A ocupação burocrática se confunde com a necessidade de administração da rala vida cultural na cidade. O amanuense/leitor imaginário prossegue seu itinerário. Depois de aventar a possibilidade de passar pelo parque municipal, intenção logo abandonada já que lá nada acontece e a vida apenas "escorre", retorna para



"um itinerário certo, de segunda a sábado: o trabalho e depois do trabalho, se há dinheiro, cinema, e se não há, o doce lar e uma viagem ao Bar do Ponto, onde se comentam as novidades políticas do último mês. E no domingo, doce lar outra vez.

E a vida, incerta, caminha devagar pelas ladeiras enormes. (Até parece literatura)."(53)

O jornalista segue seu desfiar do entediante cotidiano da cidade que, apesar de "grande cidade", em nada se assemelha às opções oferecidas por metrópoles como Rio de Janeiro e São Paulo. Os dois principais centros urbanos do país, certamente já visitados e muito percorridos imaginariamente através da imprensa destes estados, como que lembravam de um estilo e ritmo de vida do qual os belorizontinos se viam privados.

O contraste é feito, por exemplo, com a figura dos esportes náuticos, ou mesmo a mais "inofensiva" natação, que na capital mineira não se constituíam em opções.(54)

"Os banhos de sol, que dão alegria e até saúde, segundo os clínicos, jamais foram praticados em Belo Horizonte. E a natação é um esporte proibido. Só há dois recursos: a fazenda do Acaba Mundo e o córrego do Arrudas. Mas, naquela, a iniciativa é particular e no córrego do Arrudas a Polícia não consente que os meninos pobres de arrabalde se banhem nas suas águas barrentas. Resultado: as meninas da Praça tem uma cor doentia e os rapazes também.

O América anunciou que iria construir uma piscina para os sócios. Falou-se em fazer o mesmo no Parque Municipal. Mas os projetos foram esquecidos. E essa coisa tão vulgar em outras cidades, continua a ser, para nós, um problema de metafísica. O Prado Mineiro não comporta uma pista de corridas. Mas na Pampulha, oh! na Pampulha vai haver uma do outro mundo.

Projetos, projetos, projetos".(55)

Não se percebe, pois, a cidade de vida vertiginosa aventada anteriormente. No máximo, um sonho de urbe. O ritmo acelerado, as mudanças nos costumes, a efervescência do mundo urbano escapam ao relato do cronista. E, da melancolia que brota da imagem dos passeios impossíveis trilhados na cidade projetada, resta o que a cidade vivida parece oferecer como consolo: cinema e futebol.



"Uma coisa, porém, ainda consola boa parte do povo: o futebol. Mas a maioria não conhece outra diversão que fuja do cinema. Mário, Ninão e Canhoto enchem nossas tardes mais bonitas de gritos, torcedores e vitórias esportivas. Pic-nics, passeios ao campo, nada disso. O futebol é rei."(56)

Futebol, cinema, carnaval, o próprio acontecimento sensacional e escandaloso da crônica policial, parecem ser, ao mesmo tempo, prova do desenvolvimento cultural da cidade, que impõe a imprensa moderna, mas também evidência de que somente a realidade dessas práticas na capital não sustentam um jornalismo inovador. A cidade, reclamam agora os jornalistas, não gerava o elemento básico dessa nova imprensa: notícia.



"As notícias eram escassas há 50 anos, em uma cidadezinha despretensiosa, onde só existiam duas indústrias (...) o comércio não se arriscava aos grandes empreendimentos, por medo da falência, e o povo se referia à Praça Raul Soares como um lugar longínquo, onde existia até morro, no local onde hoje fica a fonte luminosa. Tudo se resumia à burocracia estatal e ao seu bairro, o dos Funcionários, pequenas áreas da Floresta, o centro com seus bondes no Bar do Ponto e os estudantes".(57)

Quase nada de metrópole, tudo que lembrava província. Belo Horizonte, ao abrir e adentrar o segundo quartel do século, marcava, assim, uma certa ambigüidade na sensibilidade dos protagonistas da imprensa. Afinal, a progressista Belo Horizonte ainda guardava dentro de si um "cidadezinha qualquer", como diria o poeta. Uma cidadezinha onde as atividades quotidianas seguem num ritmo cadenciado, marcando o passo da "vida besta".



Nesse sentido, a Belo Horizonte do progresso ladeia e se confunde com a capital provinciana. Analogamente, podemos dizer que são representações polarizadas pelo que Hardman chamou de perspectivas eufórico-diurno-iluminista e melancólico-noturno-romântica, configurações típico-ideais no interior de um mesmo continuum mental feito de múltiplas e contraditórias combinações.(58) Pois, se não se trata de cotejar a "grande cidade" narrada anteriormente com uma pretensa cidade real, tampouco nos propomos a tomar como descrição da realidade a capital meio ronceira agora apresentada. De fato, a historiografia da cidade, como já apontáramos anteriormente, indica que, na conjunção dos anos 20 e 30, Belo Horizonte experimenta uma aceleração no seu processo de urbanização e industrialização. Processo esse que resulta em novas condições de vida material e cultural, embora ainda muito aquém da cidade desejada pelos jornalistas. A dimensão provinciana da capital sugerida nos discursos não deixa de ser, em alguma medida, também realidade efetiva desse meio urbano. Todavia, tais condições não podem ser traduzidas como a de uma situação de insulamento da cidade. Belo Horizonte, desde o momento mesmo de sua fundação, não estava à margem da ordem histórico-cultural que se impunha no país, articulada à expansão mundial do sistema capitalista. Tal processo, e todas as suas decorrências, como alterações significativas na percepção espaço-temporal das pessoas, tinham incidência também sobre a cotidianidade dos habitantes da capital. Não era estranho ao belorizontino dos segmentos médios, por exemplo, o contato com inovações tecnológicas que estavam no centro dessas transformações: a eletricidade é equipamento urbano desde os primórdios da capital; a intensificação das trocas materiais e simbólicas tem na expansão de linhas férreas um poderoso aliado; o telégrafo, o linotipo, a rotativa, o aperfeiçoamento da fotografia, o cinema influenciavam e organizavam sobremaneira o ritmo da vida urbana. O traçado e a concepção urbanística da capital, por sua vez, calcados num ideal de engenharia pública que traduzia uma perspectiva de progresso e modernização industrial, impunha efetivamente formatos e condições materiais de vida à população distintos das cidades construídas sem o ideal do planejamento. Tais fenômenos se dão articulados e no interior do processo de construção de fato do Estado Nacional, deflagrado com a República no século XIX, e que implica ações de homogeneização e padronização vistos como necessário à edificação de uma identidade nacional. Além disso, não se pode esquecer, Belo Horizonte convive e se produz também, desde as primeiras horas, através da ação de dois personagens emblemáticos dessa "vida moderna" em expansão: o imigrante e o movimento operário.(59) Pode-se, certamente, discutir se esses elementos estão configurados no interior de um processo de formação de uma sociedade urbano/industrial ou se restringem, nesse momento, à difusão cultural de um gênero de vida, o burguês ocidental, tipicamente citadino.(60)

Todavia, não buscamos contrapor cidade física/cidade imaginada. Nosso objetivo foi o de revolver um conjunto de idéias que, no ato de plasmar imagens de cidade, produz coordenadas simbólicas poderosas para desencadear e possibilitar uma prática cultural específica. Em suma, trata-se de perceber aspectos da lógica de um sistema de significações que organiza a prática do jornalismo e, a nosso ver, se constitui em elemento essencial para o entendimento da movimentação ocorrida no mundo da imprensa local.

Nesse sentido, seria importante juntar novamente aquilo que a ligeira análise feita até aqui separou: Belo Horizonte, traduzida simultaneamente em cosmopolita e provinciana. Uma cidade que se materializa na aspiração de espaço propício ao desenvolvimento cultural e na percepção de um ambiente provinciano. A capital é, pois, uma espécie de solução onde restam dissolvidas essas duas perspectivas de vislumbrar a relação imprensa/cidade.

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