Palestra no clube militar duque de caxias celebraçÃo do dia do soldado – 25 de agosto



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PALESTRA NO CLUBE MILITAR
DUQUE DE CAXIAS
CELEBRAÇÃO DO DIA DO SOLDADO – 25 DE AGOSTO


LUIZ GONZAGA SCHROEDER LESSA (*)

LUIZ ALVES DE LIMA E SILVA-DUQUE DE CAXIAS - o marechal da fulgurante estrela dourada, que jamais amargou uma derrota, após um longo período de esquecimento que atingiu a Primeira República, só passou a ser reverenciado com a introdução do “CULTO A CAXIAS’, em 1923, pelo Ministro da Guerra Setembrino de Carvalho.

È interessante notar que até então eram destacados Osório e Barroso, com Caxias, inexplicavelmente, colocado em segundo plano.

A partir dessa iniciativa cria corpo e ganha cada vez mais projeção no Exército a figura de Caxias, com a instituição da sua data de nascimento como o “DIA DO SOLDADO”, em 1925, a designação de turmas de Realengo com o seu nome, a instituição do espadim dos cadetes, réplica do seu sabre invencível, “como símbolo da própria honra militar”, em 1932, a designação do Forte do Leme, em 1935, como Forte Duque de Caxias e a denominação do novo prédio do Ministério da Guerra como “Palácio Duque de Caxias”. Por fim. a consagração definitiva do grande soldado como “PATRONO DO EXÉRCITO BRASILEIRO”, pelo Decreto do Governo Federal de 13 de março de 1962.

Por que destacar de forma tão veemente a figura de LUIZ ALVES DE LIMA E SILVA, tradição que de 1923 para cá já perfaz 84 anos? Será apenas para exaltar o grande chefe militar, o maior soldado que o nosso Exército já produziu, o consolidador da unidade nacional, o homem que dos seus 77 anos de vida dedicou 60 deles integralmente ao serviço da Pátria, sempre servindo com estremada lealdade a dois imperadores, envolvido em revoluções e guerras intestinas que ameaçavam a soberania e a integridade territorial do Reino Brasileiro?

Sem dúvida, por tudo isso e muito mais para que, em tempos de mensalão, navalha, cheque-mate, sanguessuga, aloprado, furacão, caça-níquel e tantas outras operações que envergonham, achincalham, corrompem e fazem com que a sociedade brasileira cada vez mais se envergonhe dos homens que a conduzem , tenha a nossa juventude exemplos para se pautar e modelos de homens públicos de quem possa se orgulhar. Infelizmente, os padrões de referência de hoje se assemelham aos da revolta e inconformismo do grande Ruy Barbosa , quando em desabafo dizia que :

“Tenho pena, tanta pena de ti Povo Brasileiro!

De tanto ver triunfar as nulidades, de tanto ver prosperar a desonra, de tanto ver crescer as injustiças, te tanto ver agigantarem – se os poderes nas mãos dos maus, o homem chega a desanimar da virtude, a rir-se da honra, a ter vergonha de ser honesto.”(Poema “Tenho Vergonha”, de Ruy Barbosa).

É, pois, mister, é preciso, que se apontem para as atuais gerações , não importa se civis ou militares, virtudes perenes que sempre governaram e sustentaram povos que lograram progredir sócio-político-cultural e economicamente, como patriotismo, nacionalismo, honestidade, honradez, exação no cumprimento das funções públicas, correção de atitudes, compromisso e honra com a palavra empenhada, colocação do interesse público acima do particular.

Essas são as virtudes mais aparentes no nosso Duque de Caxias, que nascido em 25 de agosto de 1803, aos 19 anos, quando o Brasil se fazia independente. é escolhido pessoalmente pelo monarca, no Campo de Santana. para com mais 800 bravos formarem o Batalhão do Imperador e como seu ajudante ser o primeiro porta-bandeira do novo pavilhão nacional que, invencível em todas a pelejas, seria, muito em breve, o êmulo a guiar os soldados na Batalha de Pirajá, palco do seu batismo de fogo, derrotando os portugueses que, na Bahia, se opunham á independência do Brasil.

Não poderia se mais feliz Vilhena de Moraes na descrição desse jovem combatente, que por seus méritos pessoais e apenas por eles, se tornaria o Patrono de um Exército, também invencível, que o tem como paradigma:

“É um ajudante de 19 anos, robusto, feições regulares, cabeça bem implantada nos ombros largos, busto varonil, olhos castanhos fisionomia móbil e expressiva. È filho e neto de soldados. Aos cinco anos, cadete; aos 15, alferes. Chama-se Luiz Alves de Lima e Silva. É o Bayard “o cavaleiro sem medo e sem reproche” que Deus suscita, para ser, durante meio século, o vexilário impertérrito do paládio santo que acaba de abençoar; o protótipo do militar brasileiro, do guerreiro cristão: forte e magnânimo, paciente e abnegado, corajoso como um leão, no calor da batalha, manso, na paz,como um cordeiro; o inimigo visceral da sangueira, da chacina, das violências inúteis que hão desonrado a maior parte dos homens de guerra, cioso de poupar até o sangue dos próprios adversários; o sustentáculo inabalável de dois impérios – caso único na história –desde o alvorecer da existência até a idade ´provecta, presente a todas as lutas, internas e externas, e nunca, jamais, em tempo algum,vencido em qualquer delas; o “grande herói tranqüilo”, no dizer de Euclides, sempre prevenido e nunca fatigado, física ou moralmente, capaz de combater e administrar ao mesmo tempo, cortando com uma das mãos e sanando ele próprio com a outra as feridas abertas; pronto a estender a mão leal aos adversários da véspera, para fazer deles amigos dedicados, captando a simpatia dos povos que subjugava, a ponto de se orgulharem de elegê-lo seu representante no Parlamento; o “maior guerreiro de todo um hemisfério”, na expressão de Dionísio Cerqueira; o colosso cujos braços possantes abarcaram unidas as mais vastas províncias, impedindo a fragmentação nacional; o soldado em uma palavra, o parlamentar, o político, o administrador, “cuja vida”-no sentir de Olegário-“foi também a vida do Brasil”.

A partir de Pirajá o futuro Duque dá inicio à sua epopéia de lutas pelo Brasil a fora e de campanhas pelo continente sul-americano, começando pela Cisplatina, onde permaneceu por 3 anos. Com abdicação de D. Pedro I, a quem servira tão lealmente por 9 anos, empenha-se durante a Regência em quebrantar os movimentos sediciosos que se espalhavam pelo Brasil, começando pelo Maranhão, sufocando a rebelião dos balaios, e pela vitória alcançada recebeu o seu primeiro título nobiliárquico: conde. Em seguida, prossegue com a sua missão pacificadora indo ás províncias de S.Paulo, onde, a contragosto, aprisiona o grande Feijó, em Sorocaba, e em Minas Gerais debela a rebelião com a prisão do seu chefe Ottoni José Ferreira. Mais tarde, no Rio Grande do Sul, prende Tobias Barreto, chefe do movimento na província paulista, prisões que lhe deram grandes dissabores pelos ares das políticas regionais e indecisões, incertezas e vacilações do governo central.

Nomeado Comandante Geral e Presidente da Província do Rio Grande do Sul, em 9 de novembro de 1842, aos 39 anos de idade, se apresenta ao jovem Imperador Pedro II que lhe diz energicamente:

“Acabe com esta revolução como acabou com as outras”, ao que Caxias reponde “Pode VM estar certo que nisso empenharei os meus últimos esforços”.

Ao Conde de Caxias não foi fácil vencer os indômitos e aguerridos farrapos que combinando muito bem táticas de guerrilha espicaçavam as tropas legais e evadiam-se, sempre evitando um combate definitivo.

Essa campanha marcada pela bravura e estoicismo dos contendores, traz-nos à mostra um fato magistral de Caxias e realça a sensibilidade e o entendimento que sempre demonstrou de que os farrapos não buscavam a secessão do Brasil e de que combatia irmãos que, momentaneamente, pugnavam por interesses diversos.

Após a vitória de Porongos, em 1844, ao entrar em Bagé, quis o reverendo da cidade rezar-lhe um ‘te deum’ pela vitória alcançada. Caxias , com a grandeza da sua alma cristã, respondeu-lhe:

“Reverendo ! Precedeu a esse triunfo derramamento de sangue brasileiro. Não conto como troféus desgraças de concidadãos meus. Guerreio dissidentes, mas sinto as suas desditas, e choro pelas vítimas como um pai por seus filhos. Vá, reverendo, vá. E em lugar de um ‘te deum’ celebre missa de defuntos, que eu, com o meu estado-maior e a tropa que na sua igreja couber, irei, amanhã ouvir, por alma dos nossos irmãos iludidos, que pereceram no combate.”

Antecipando-se ao movimento abolicionista, Caxias “assegura liberdade para os lanceiros negros farrapos mediante o artifício de incorporá-los à Cavalaria Ligeira do Exército no Rio Grande do Sul.”

Nem bem terminara a Guerra dos Farrapos, vê-se Caxias, novamente, empenhado em preservar a soberania nacional, desta feita, em campanha conduzida contra os caudilhos Oribe e Rosas. Num rasgo de liderança militar e antecipando princípios e condutas que só muito mais tarde viriam a fazer parte das leis da guerra, em pronunciamento aos seus soldados, procura identificar o verdadeiro inimigo dos brasileiros e se envolve em preocupações até então inusitadas com respeito ás populações civis, conforme determinou em sua ordem do dia, datada de 4 de setembro de 1851, no quartel- general de Pontos de Cunha Peru:

“Soldados !...Não tendes no Estado Oriental outros inimigos senão os soldados do General Manoel Uribe, e esses mesmos enquanto iludidos empunharem armas contra os interesses de sua pátria; desarmados ou vencidos, são americanos, são nossos irmãos, e como tais os deveis tratar.

A verdadeira bravura do soldado é nobre, generosa e respeitadora dos princípios da humanidade. A propriedade de quem quer que seja, nacional, estrangeiro, amigo ou inimigo, é inviolável e sagrada; e deve ser tão religiosamente respeitada pelo soldado do Exército Imperial, como a sua própria honra. O que por desgraça a violar será considerado indigno de pertencer às fileiras do exército, assassino da honra e reputação nacional, e como tal, severa e inexoravelmente punido”. Sempre afeito às operações militares e como dizia ”muito mais militar do que político”, Caxias é chamado a exercer funções políticas, inicialmente, como Ministro da Guerra, em 1855, no gabinete do Marquês do Paraná e, com a morte deste, assume a Presidência do Conselho em 1856, função que repetiria mais tarde, a chamado urgente do Imperador, em 1875, como sua última grande participação na vida política do País.

Durante a Questão Christie, em fins de dezembro de 1863, senador do Império, e face às hesitações do Gabinete e às pressões do governo inglês e impossibilitado de tomar medidas enérgicas, em carta que dirigiu ao seu amigo Visconde do Rio Branco, assim se expressou:

“Não se pode ser súdito de nação fraca .........Tenho vontade de quebrar a minha espada quando não me pode servir para desafrontar o meu Pais de um insulto tão atroz.”

Por mais sinais belicosos que desse Solano Lopes, o Império continuava amorfo, indiferente, um paquiderme na lentidão das suas decisões, com a Marinha e o Exército totalmente despreparados para uma guerra no sul do continente. Nem planejamento para enfrentar a conjuntura existia. A imprevidência, a incúria, o desaparelhamento, a falta de vontade política imperavam.

As fronteiras encontravam-se desguarnecidas. Assim. quase de surpresa, de forma vergonhosa, amargamos a tomada de Uruguaiana, em agosto de 1865, quando Estigarríbia transpõe o Rio Uruguai com um potente exército não encontrando pela frente nada mais do que 370 guardas nacionais.

A guerra leva o Imperador Pedro II ao Sul, que assiste junto com os presidentes Flores e Mitre a rendição de Uruguaiana.

Caxias se fez presente. Não como comandante, em função de destaque, ele que fora o vencedor de tantas lutas internas, conhecedor profundo do teatro de operações do sul do continente; ele que, por justo mérito, se tornara uma figura lendária do Império. Caxias assiste a rendição em posição subalterna, com a espada embainhada, como ajudante-de-campo do Imperador.

Triste sina esta do nosso Exército em estar sempre despreparado, por inépcia e incúria dos políticos, nos momentos mais graves que ameaçam a Nação. Assim foi na Guerra do Paraguai, onde tudo teve que se fazer com o inimigo pisando o solo pátrio. Mas, assim, também, aconteceu na 1ª Guerra Mundial, na 2ª Guerra Mundial e, mesmo, na contra-revolução de 1964.

“O desastre de Curupaiti (setembro de 1866), medonho revés em que a inépcia militar atirou de encontro às baterias inimigas 19 mil soldados , dos quais cerca de 4 mil tombaram mortos, ao passo que tiveram os paraguaios tão somente 250 homens fora de combate”, força o gabinete liberal a convidar o conservador Caxias para o Comando Geral das Forças do Império do Brasil em Operações no Paraguai. Ante à possível negativa em aceitar o convite para não servir a um gabinete liberal, Caxias, prontamente, responde ao Conselheiro Zacarias:

“Aceito, o convite, Conselheiro, a minha espada não tem política. “Vai entrar,agora, finalmente,em cena, a velha espada posta de banda como enferrujada e inútil pela politicagem matreira.”

Juntos, em todos os acontecimentos político-militares do sul do País, Caxias escreve ao seu amigo Osório( 20 de outubro de 1866), pedindo-lhe , mais uma vez, o seu insuperável apoio ao designar-lhe como comandante das forças no Rio Grande do Sul:

“Vamos acabar esta guerra com honra, meu amigo e camarada, pois vejo as coisas tão tortas desde o princípio que receio algum fim. Fale a esses guascas aquela linguagem que nós sabemos e verá como eles correm todos para o campo de combate” ........”Cure a perna, e vá reunindo gente e dispondo as coisas, pois para montar a cavalo quase que uma perna só é suficiente. E mais faz quem quer do que quem pode.”

“Osório, de Montevidéu, respondeu nestes termos: Espero a V.Exa. como ao Anjo da Guarda. Não tenho ambições, não desejo comandos; sei que não sei nada, porém, que desejo ajudar a V.Exa. a salvar a honra de nossa Pátria”.

Ainda que de longe acompanhasse a campanha, Caxias não podia supor o verdadeiro estado em que se encontrava o Exército Imperial, se não desmoralizado, profundamente desmotivado em prosseguir a guerra que já lhe causara tão profundos danos. Assim se expressou o Marechal Bormann que militou sob as ordens de Caxias:

“Era preciso preparar tudo, como se pela primeira vez nessa campanha se fosse entrar em operações ativas de guerra, porque tudo estava desorganizado. Eram más as condições do pessoal, péssimas as dos hospitais e enfermarias; pelo Rio Paraná o ditador Solano Lopes recebia de Corrientes todos os recursos. Tudo foi prontamente sanado e estabelecido um rigoroso bloqueio naquele rio”.

O Exército como estava não poderia ser lançado á luta, seria um desastre! Era preciso reestruturá-lo, treiná-lo, discipliná-lo, fundamentalmente modificando a sua precária cadeia logística. E foi o que fez Caxias, movido pela sua experiência e conhecimento da arte da guerra, ainda que isso desafiasse a sua impaciência e, principalmente, a do Imperador.

Passaram-se 8 meses até que chegasse o tão esperado 22 de julho de 1867, quando reestruturado, motivado, orgulhoso de si mesmo, o Exército Imperial se move e flanqueando as posições inimigas vai obtendo sucessivas vitórias até atingir HUMAITÁ , o objetivo das operações em curso, que cai em 25 de julho de 1868, por meio de magistral manobra terrestre-fluvial e da perfeita harmonia e coordenação dos planos traçados por Caxias e Inhaúma.

Por determinação de Caxias, o bravo marechal Argolo constrói a famosa estrada do Grão Chaco, permitindo que as forças brasileiras executassem a célebre marcha de flanco pelo chaco paraguaio, que, uma vez por todas, consagrou Caxias como um grande estrategista, imortalizando o seu nome na literatura militar.

Até a conquista de Assunção, em 5 de junho de 1969, objetivo político da guerra, Caxias lega à história militar brasileira páginas imortais de bravura, sacrifício e estoicismo que bem atestam o valor do nosso combatente, quando liderado por chefes audazes e competentes.

Não é possível lembrar a Dezembrada sem falar do valor pessoal de Caxias em Itororó e Avaí:

“A estrada era estreita, bordada de capoeirões e pequenos campestres e ligeiramente acidentada. Levava a uma ponte sobre o Itororó. Este riacho ‘verdadeira torrente, deslizava por entre muros de rochedos e teria nesse passo de 3 a 4 metros de largura por 4,5 de profundidade. A ponte tosca, de madeira forte, apresentava uma largura de três metros. Ao alcançarmos o alto, o inimigo, cuja artilharia dominava a ponte do arroio Itororó, rompeu fogo sobre a vanguarda , Travou-se o combate’ A violência revela-se extraordinária. Num corpo a corpo que durou horas, sucedem-se os ataques e os contra-ataques consecutivos, sem intervalos, um após o outro, de lado a lado, num fluxo e refluxo de imprevisíveis conseqüências. Morre o coronel Fernando Machado. As margens da ponte estão cobertas de cadáveres. O general Argolo, comandando um contra-ataque, cai gravemente ferido em plena ponte. É quando os paraguaios lançam violento contra-ataque.’Caxias vislumbra rapidamente a influência deste lance sobre o resultado final da jornada . Comandando, pessoalmente, a Reserva, o Marechal desembainha a espada, galopa para a ponte numa atitude que arrebata, e grita às suas tropas:-‘Sigam-me os que forem brasileiros’. Conta Dionísio Cerqueira, que participou da ação: ’Passou pela nossa frente animado, erecto no cavalo, o boné de capa branca com tapanuca, de pala levantada e presa ao queixo pelo jugular, a espada curva, desembainhada, empunhada com vigor e presa pelo fiador de ouro, o velho general em chefe, que parecia ter recuperado a energia e o fogo dos vinte anos.(note-se – tinha 65 anos de idade). Estava realmente belo. Perfilamo-nos como se uma centelha elétrica tivesse passado por todos nós. Apertávamos o punho das espadas, ouvia-se um murmúrio de bravos ao grande marechal. O batalhão mexia-se agitado e atraído pela nobre figura, que abaixou a espada em ligeira saudação a seus soldados . O comandante deu a voz de firme. Daí há pouco , o maior dos nossos generais arrojava-se impávido sobre a ponte, acompanhado dos batalhões galvanizados pela irradiação da sua glória. Houve quem visse moribundos, quando ele passou, erguerem-se brandindo espadas ou carabinas, para caírem adiante.’

“A carga foi irresistível, o inimigo completamente feito em pedaços. As bandas tocaram o hino nacional, cujas notas sugestivas se mesclavam com a alvorada alegre, repetida pelos corneteiros que ainda viviam” Com este feito, Caxias “escrevera mais uma página- com as suas virtudes de Chefe e com a sua bravura pessoal- da História Militar do Brasil”.

Se em Itororó desponta o valor pessoal e a coragem de Caxias, em Avaí ganha realce a sua capacidade de coordenação e de condução da batalha, onde despontam os nomes de muitos bravos, hoje ícones da nossa história militar. Guarnecendo o arroio Avaí , como em Itororó , estava o general Caballero com 7.000 homens e 18 peças de artilharia.

“Caxias decide , sem demora, passa-se ao ataque, iniciado por Osório, no centro. Os paraguaios –com a sua tradicional bravura – resistem. No momento mais difícil, desaba sobre o campo da luta violenta borrasca; alaga-se o terreno, cresce o volume do arroio, molha-se a munição da força atacante, e os brasileiros tiveram que recorrer à arma branca. Luta-se em cada canto, com indescritível ardor e bravura ! Numa carga, cai morto, a ferro frio, o tenente-coronel Francisco de Lima e Silva; a seguir, o tenente-coronel Antônio Pedro de Oliveira e o coronel Niederauer; o chão está juncado de heróis. Caxias, do seu observatório, a cavalo, bem junto à frente de combate, acompanha todos os lances e comanda o combate. Ele próprio, num momento, comanda pessoalmente, uma intervenção violenta do 2º Corpo sobre o flanco direito da posição. Osório é ferido no rosto por bala de fuzil. José Luis Mena Barreto é um aríete, abrindo brechas. O coronel Câmara- á frente de sua cavalaria - parece uma figura de legenda, em entreveros consecutivos, envolto por esquadrões que se digladiam. Ao passar pelo Marechal, com os seus cavaleiros indóceis, Caxias o promove:

“General, louvo-o pelas suas brilhantes cargas”...”Andrade Neves e João Manuel Mena Barreto, executando a fase final da manobra – cada um sobre um dos flancos da posição chegam no momento justo e desferem os seus golpes mortais. A resistência fraqueja e a posição é arrebatada. O combate durara cinco horas. Caxias atinge , um por um, os seus objetivos, numa marcha vitoriosa que levará seu nome glorioso á imortalidade dos heróis.”

Antecedendo à terrível batalha de Lomas Valentinas, Caxias dirige-se aos seus soldados em proclamação que se tornaria emblemática para o nosso Exército:

Camaradas! O inimigo vencido por nós na ponte de Itororó e no arroio do Avaí vos espera em Lomas Valentinas com os restos do seu Exército. Marchemos sobre ele e, com esta batalha mais, teremos concluído as nossas fadigas e provações.

O Deus dos Exércitos está conosco.

Eia! Marchemos ao combate, que a vitória é certa; porque o general e amigo que vos guia ainda hoje não foi vencido.”

Demonstrou, mais uma vez, a sua estatura de condutor de homens e líder em combate e por 36 horas seguidas, sem apear-se do seu cavalo, conduziu a batalha, conforme descreveu-a ao Ministro da Guerra, Barão de Muritiba:

“Foi necessário que eu durante toda a tempestuosa noite de 21 me conservasse constantemente a cavalo, suportando continuados aguaceiros sem ter um palmo de terreno enxuto em que pudesse apear-me, percorrendo constantemente as linhas de fogo, para que toda a tropa me visse e me reconhecesse no ponto do risco e do perigo.”

Após a conquista de Assunção, com a guerra praticamente decidida no campo estratégico e com os objetivos políticos alcançados, Caxias, doente, após longo desmaio na Catedral de Assunção, sem condições de prosseguir na campanha e na caçada a Solano Lopes, retira-se do comando .Sem poder cavalgar, quase sem andar, carregado, chega ao Hotel Oriental, em Montevidéu, aguardando o navio que o traria ao Rio de Janeiro.

Com o seu fígado seriamente comprometido, nem na doença teve a compreensão dos seus compatriotas, pois, muitas eram as críticas que se faziam, inclusive do próprio Imperador , que julgavam que a sua doença era um mero pretexto para não prosseguir na campanha e retornar ao Brasil.

Quando o Navio aportou no Rio de Janeiro nenhum alto dignatário, nenhum representante do Imperador estava a esperá-lo , ele que tanto se sacrificara e cobrira de glorias as cores nacionais. Somente D.ANA LUISA, sua dedicada esposa, o aguardava.

Combalido, quase no ostracismo, refugiou-se na sua casa na Tijuca.

Como a querer reparar as ofensas e faltas de atenções que lhe haviam sido dispensadas, e por reconhecer a enormidade do trabalho que realizara , transformando uma situação de quase derrota em esplendorosa vitória nos campos de batalha do Paraguai, foi lhe conferido o título nobiliárquico de duque , único a receber tal distinção no Império.

Enfermo, exausto, quase que coagido pelo Imperador, Caxias assumiu, pela terceira vez, em 1875, o Ministério da Guerra e a Presidência do Conselho de Ministros, em meio à grave crise política motivada pela Questão Religiosa. Pedindo-lhe que formasse o novo governo, o Imperador PEDRO II disse-lhe:”

“Se você não aceitar, abdico e vou embora”.

Na fala que dirigiu ao Parlamento, delineando as linhas mestras do seu governo, aborda temas que, ainda hoje, se afiguram como os grandes problemas em que a sociedade brasileira se debate:

“O nosso programa é o seguinte: Manter a paz externa, sem quebra da dignidade e direitos do Império; seremos moderados e justos, observando as leis e resolvendo as questões internas com ânimo desprevenido.

Continuaremos a desenvolver a educação e o ensino popular, e procuraremos obter providências que podem caber no tempo da presente sessão legislativa. Entre elas mencionarei o orçamento, os auxílios à lavoura e a reforma eleitoral. E por último declararei que, se este Ministério tiver a honra de presidir às próximas eleições gerais, fará quanto couber na sua legítima ação para que a liberdade do voto seja sinceramente mantida.È este o pensamento com que aceitamos o poder nas atuais circunstâncias.”

Em 1878 retira-se, definitivamente, da vida pública e recolhe-se à Fazenda Santa Mônica, onde, em 7 de maio de 1880, por volta das 20 horas, veio a falecer após mais de 60 anos de inolvidáveis serviços prestados à nação brasileira, que a ele tanto deve a sua unidade e soberania .

Fechou os olhos para as injustiças, incompreensões e ingratidões, mas abriu-os para a glória, para a eternidade.

Na morte, foi sempre o mesmo grande e incomparável Caxias, capaz de empolgar e levar os seus soldados aos maiores sacrifícios. Dispensou todas as honras militares, todas as pompas, e não quis que a nobreza carregasse o seu caixão.

Como enfaticamente asseverou Capistrano de Abreu, Caxias “Dispensou as honras militares. Fez bem. As armas que ele tantas vezes havia conduzido à vitória teriam tido pejo talvez de não terem podido libertá-lo da morte”.

Deixou ordens para que seis soldados de comportamento exemplar, dos 1º e 10º Batalhão de Infantaria conduzissem os seus restos mortais, sepultados no Cemitério São Francisco de Paula. Trajava o uniforme mais simples de marechal. No peito, apenas duas medalhas: a do Mérito Militar e a Geral da Campanha do Paraguai.

No momento em que o seu corpo baixava à sepultura, o Visconde de Taunay, então major do Exército,assim se pronunciou:

“ Carregaram o seu féretro seis soldados rasos; mas, senhores, esses soldados que circundam a gloriosa cova e a voz que se levanta para falar em nome deles, são o corpo e o espírito de todo o Exército Brasileiro. Representam o preito derradeiro de um reconhecimento inextinguível que nós militares, de norte a sul deste vasto Império, vimos render ao nosso velho marechal, que nos guiou como General, como protetor, quase como pai durante 40 anos; soldados e orador, humildes todos em sua esfera,muito pequenos pela valia própria, mas grandes pela elevada homenagem e pela sinceridade da dor”

A divisa, tão querida por todos nós que militamos nesse nosso Exército, na ativa ou já na reserva, -BRAÇO FORTE, MÃO AMIGA—não poderia ser mais fiel a Caxias que soube sempre harmonizar violência com perdão, dissidência com união, secessão com unidade, autoridade com tolerância, liderança com camaradagem, na busca, sempre árdua e difícil, do congraçamento e da pacificação.

Nesta exaltação a Caxias prestamos o nosso tributo de reconhecimento e glória ao valor do Soldado Brasileiro, na paz ou na guerra, que na simplicidade e ingenuidade do seu ser se afigura como um gigante na defesa dos mais sagrados direitos da sociedade brasileira, que, em última instância, é o seu objeto do servir.

Sociedade e Estado, os dois pilares que na realidade governam e submetem a servidão militar e não governos temporários que, muitas vezes, nem mesmo estão alinhados na defesa dos objetivos maiores da Nação.

Disciplina e hierarquia, todos nós o sabemos desde o alvorecer da nossa vida militar , são os pilares das Forças Armadas e não se coadunam com a transigência, liberalidade, imprevidência, promiscuidade e irresponsabilidade, que temos presenciado em acontecimentos recentes no nosso País, evidenciando o despreparo das hostes governamentais na compreensão e e no trato com o segmento militar.

Se disciplina e hierarquia são os vetores que moldam a organização militar, a sua resultante fundamental é a obediência que o soldado deve ao Estado e ao seu ideal militar, aspectos da nossa profissão que têm sidos descurados pelos agentes do Poder Executivo, e mesmo, pelo seu chefe – o Presidente da República.

Ontem como hoje, é o soldado brasileiro o garantidor maior da nossa integridade, soberania e liberdade.

Do soldado das guerras do Paraguai, da 2ª Guerra Mundial, com a Força Expedicionária Brasileira lutando contra o nazi-fascismo nos campos de batalha da Itália e escrevendo páginas gloriosas de heroísmo e estoicismo hoje incorporadas à história pátria, evoluímos para o Soldado da Paz nos desertos escaldantes do Sinai, na tumultuada São Domingos, nas pradarias miseráveis de Moçambique e Angola, nas paupérrimas vilas do Timor Leste, nos traiçoeiros campos de minas da América Central, na conflituosa fronteira perúvio-equatoriana, no hostil e miserável Haiti, talvez a sua mais desafiante missão. Na guerra ou na paz, nossos soldados, na sua intrínseca humanidade que os diferencia dos combatentes de outros exércitos, têm a ciência e o convencimento de que lutam e morrem pelos ideais de liberdade, de fraternidade e de paz entre os povos.

Mas continuamos sendo sempre o Soldado da Unidade Nacional, presente em qualquer parte do território brasileiro, sobrevivendo às dificuldades em áreas inóspitas, amargando sofrimentos, incompreensões e desilusões, mantendo a soberania sobre a imensidão amazônica , a despeito das imensas pressões que sobre ela se avolumam.

Caxias, ao longo de toda a sua vida pública, nos legou o Soldado da Mão Estendida à gente brasileira, nos momentos de alegria e sofrimento. Mas, também, dele herdamos o soldado irrequieto, inconformado com as incompreensões, críticas, revanchismos, injustiças e com o apequenamento das suas missões constitucionais e que só se cala pela rígida disciplina e estrita obediência ao seu espírito militar. É o soldado amargurado com a baixa prioridade na alocação dos escassos recursos financeiros que o agente estatal destina ao Exército e que mal permite atender á sua vida vegetativa, deixando-o despreparado, desatualizado tecnologicamente e desaparelhado para responder, energicamente e com sucesso, à qualquer ameaça, interna ou externa, real ou potencial, que se faça sobre o País e o estado democrático de direito. DESAFORTUNADAMENTE, É FRACA, MUITO FRCA, A SUA FORÇA DISSUASÓRIA.

Os anos passam e cada vez mais se eternizam e tornam mais enfáticas e verdadeiras as lições que o grande Caxias deixou aos seus contemporâneos e os exemplos que legou às futuras gerações, na esperança, mais do que isso, na confiança, de que as roubalheiras, os desatinos, os desrespeitos aos cofres públicos e aos votos recebidos, a falta de vergonha e de pudor públicos, as impunidades, os descasos com a miséria do País, os conchavos que, vergonhosamente e por seguidas vezes, envolvem os três poderes, enfraquecendo-os perante a opinião pública, os descuidos com as Forças Armadas conferindo-lhes uma prioridade que nunca chega, deixando-as despreparadas para o cumprimento das suas missões constitucionais, mazelas, todas, que haverão, um dia, de ter fim, inspiradas nas virtudes, no patriotismo, no desprendimento, nos sacrifícios, no amor incontido à Pátria de homens como Caxias, que imolaram suas vidas na salvaguarda dos mais sagrados direitos da sociedade brasileira.

Aqui reside, em essência. a razão para celebrarmos cada vez com mais ardor , cuidado e atenção a figura de Luiz Alves de Lima e Silva, o nosso Pacificador, o fiel da liberdade, unidade e soberania brasileiras.

E volto ao início dessas palavras, que já vão longe. Para que celebrar o Duque de Caxias? Para que celebrar o Soldado, o Exército Brasileiro?

E, para responder, vou louvar-me do inflamado pronunciamento de D.Pedro I, na praça, no Campo de Santana, apinhado de gente, dirigido ao povo e à guarnição da Corte, em 10 de novembro de 1822, com a Independência recém proclamada, e que, a despeito dos novos tempos que estamos vivendo, continua com a mesma força e vitalidade :

“Soldados de todo o Exército do Império!

Logo que os exércitos perdem os estímulos e a obediência que devem ao poder executivo, a ordem e a paz são substituídas pela anarquia; mas quando eles são como este que tenho a glória de comandar-em-chefe, cuja divisa é VALOR, RESPEITO E OBEDIÊNCIA aos seus superiores, os cidadãos pacíficos contam com a sua segurança individual e de propriedade e os perversos retiram-se da sociedade, sucumbem ou convertem-se.

Quando a Pátria precisa ser defendida e o Exército tem por divisa INDEPENDÊNCIA ou MORTE, a Pátria descansa tranqüila e os inimigos assustam-se, são vencidos e a glória da nação redobra o brilho”.

Sabedor do quanto fui omisso nessa rápida síntese do grande Caxias, finalizo recorrendo, mais uma vez, ao Visconde de Taunay, quando, à beira do seu túmulo, assim se pronunciou:

“Há muito que narrar! Só a mais vigorosa concisão unida à maior singeleza é que poderá contar os seus feitos. Não há pompas de linguagem, não há arroubos de eloqüência capazes de fazer maior essa individualidade,( Caxias) cujo principal atributo foi a simplicidade na grandeza.”



A todos, senhoras e senhores, o meu muito obrigado pela paciência em me ouvirem.

(*) O autor é General-de-Exército e Ex-Presidente do Clube Militar

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