Palmares: cem anos de sonho



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L EITURAS




PALMARES: CEM ANOS DE SONHO

II CORÍNTIOS 5.14-15 – CALVÁRIO. EM JESUS SOMOS LIVRES, DO PECADO!
Uma equipe de arqueólogos e antropólogos americanos e brasileiros começa a escavar a história do Quilombo dos Palmares, a maior rebelião negra das Américas, para tentar reconstituir um pouco da vida dessa sociedade livre, que resistiu por quase um século a todos os ataques dos senhores de escravos no Brasil colonial.
O ano de 1602 trouxe novidades para Pernambuco. Pela primeira vez, a capitania tinha a graça de receber um governador-geral da colônia em sua capital, Olinda. A visita inédita, no entanto, entraria para a história não exatamente por isso, mas sim porque, naquele mesmo ano, o governador em questão, Diogo Botelho, iria inaugurar uma epopéia fadada a ser a mais longa guerra interna deste país. Na época, ainda eram poucos os que usavam a palavra quilombo, e Botelho preferiu referir-se às suas ordens como uma “entrada” contra os “negros de Guiné” na região serrana conhecida como Palmares.

Sob o comando do oficial português Bartolomeu Bezerra, a expedição durou poucos meses e se deu por satisfeita com o resultado anunciado: em carta a Felipe III, rei da Espanha e de Portugal, Diogo Botelho se disse “livre por ora da insolência desses alevantados”. Mesmo que não tivesse a intenção, as palavras do governador foram premonitórias. Até o ano de 1694, as autoridades coloniais continuaram tendo que enfrentar a insolência negra do Quilombo de Palmares sem conseguir mais do que isso: vitórias inexpressivas que não iam além de um “por ora”. Por quase um século, Palmares resistiu a todas as investidas contra seu reduto para, aos poucos, se transformar num país negro e livre incrustado na colônia escravagista.

Em julho passado, quase 400 anos depois da primeira aventura de Bartolomeu Bezerra, uma outra expedição subiu as estradas de terra alagoanas que levam à Serra da Barriga, onde um dia floresceu Macacos, a capital de Palmares. Mas dessa vez numa missão pacífica. “O quilombo ficou conhecido por suas batalhas e guerras”, conta o arqueólogo americano Charles Orser Junior, da Universidade Estadual de Illinois, que chefia o Projeto Arqueológico Palmares, um trabalho científico que pretende escavar e resgatar uma nova face da revolta negra que marcou a vida do Brasil no século XVII. “O que nós queremos agora é descobrir como era a vida dessa comunidade.”

Reconstituir uma sociedade arrasada pelos seus oponentes é um trabalho complicado, ainda mais em Palmares, onde a matéria-prima das construções eram a madeira e folhas de palmeira, altamente perecíveis”, completa Pedro Paulo Abreu Funari, arqueólogo e professor da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), que divide com Orser a responsabilidade sobre a pesquisa de campo. Até agora, o trabalho tem sido animador.



Financiados por entidades americanas como a National Geographic Socie-ty, a Universidade Estadual de Illinois e o Conselho Nacional de Pesquisas em Ciências Sociais, Orser e Funari já levantaram material suficiente para justificar as verbas jogadas no projeto. Em duas incursões — a primeira em julho do ano passado e a segunda há dois meses —, a equipe de arqueólogos e antropólogos brasileiros e americanos identificou 17 sítios arqueológicos e recolheu 2 448 artefatos — na maioria restos de cerâmica.

Quem chega hoje ao topo da serra precisa de um pouco de imaginação para reconstruir a paisagem de quatro séculos atrás. Embora a cerração quase londrina, sempre acompanhada pela chuva fina e constante, ainda se faça presente, resta muito pouco das matas do século XVII. Tudo que se vê por ali agora são plantações de mandioca, feijão, milho e cana-de-açúcar, um ambiente muito diferente do encontrado pelas tropas que atacavam o território dos negros. Investir contra Palmares era uma incursão ao inferno, como relatou um anônimo da época: “Um sítio naturalmente áspero, montanhoso e agreste, semeado de toda variedade de árvores conhecidas e ignotas, com tal espessura e confusão de ramos que em muitas partes é impenetrável a toda luz”.

Para os escravos, essa natureza inóspita foi acolhedora. Oficialmente, a história do quilombo começou no final do século XVI, quando os primeiros quarenta negros chegaram ali, fugindo de um engenho de Porto Calvo, no sul da capitania. Um grupo insignificante, mas teve o mérito de descobrir no país estranho, para o qual haviam sido trazidos à força, um refúgio inexpugnável para acolher os que desafiavam os senhores brancos: as montanhas de Alagoas.

Isolado do mundo, ainda com poucos moradores, em sua fase inicial Palmares era basicamente uma sociedade extrativista. Alimentos não faltavam na região. Frutas como a pitanga, araçá, joá, ingá, cajá, jenipapo, trapiá, pitomba ou sapucaia eram colhidas à vontade. O próprio nome Palmares vem dessa fartura, inspirado pelas palmeiras de pindoba (Palma attalea pindoba). Havia caça e pesca em abundância também: nos rios, traíras, jundiás, piabas. Nos campos e florestas, uma fauna infindável, às vezes apetitosa, com veados, gambás, pacas e queixadas, às vezes perigosa, com onças, jaguatiricas e cobras variadas, da jibóia às peçonhentas coral, cascavel e surucucu.

De tempos em tempos, um grupo de homens voltava aos engenhos ou fazendas que haviam abandonado para tentar convencer outros escravos a fugir com eles. Os que se negavam, eram seqüestrados para os quilombos. Precisavam também arregimentar um bem precioso e raro nos primeiros tempos de Palmares: mulheres. Negros eram trazidos da África para enfrentar o trabalho pesado na lavoura, e a maio-ria dos senhores de escravos preferia homens. Além disso, eram freqüentemente os homens que tomavam a iniciativa da fuga. Essa disparidade deu ao matrimônio na sociedade palmarina uma característica curiosa. “Enquanto os chefes e o rei podiam ter várias esposas, no resto da comunidade predominava o casamento poliândrico, ou seja, as mulheres chegavam a ter até sete maridos”, revela o historiador Clóvis Moura, presidente do Instituto Brasileiro de Estudos Africanistas (Ibea). “Há relatos de que índias e mesmo brancas foram raptadas pelos quilombolas.” O próprio Zumbi parece ter tido uma branca entre suas esposas.

Até a invasão holandesa, em 1630, embora já incomodassem os senhores de terra da vizinhança, parece que os fugitivos mereceram pouca atenção das autoridades portuguesas: somente duas incursões expressivas, comandadas por Bartolomeu de Bezerra, em 1602 e em 1608, foram enviadas para combatê-los. Fora isso, escaramuças e investidas dos plantadores, que nunca surtiam efeito. Além de algumas capturas e eventuais chacinas, jamais conseguiram desbaratar a comunidade negra. O quilombo continuou crescendo e se tornou uma referência para a fuga de escravos não só de Pernambuco, como até da distante Bahia.

Com a chegada dos holandeses ao Nordeste, a população de Palmares se multiplicou. Durante a luta de resistência -— que se estendeu até 1641 —, com o governo colonial preocupado em combater o invasor e os senhores-de-engenho abandonando as lavouras, as fugas se tornaram constantes e grandes levas de novos escravos se incorporaram ao quilombo. Os mesmos holandeses que subjugaram os portugueses, dominaram Pernambuco por 24 anos (1630-1654) e trouxeram prosperidade, riqueza e palácios para região, não conseguiriam fazer mais do que os portugueses contra os “salteadores dos bosques”, como chamavam os negros de Palmares, a essa altura um verdadeiro Estado confederado, que agrupava sua população em várias aldeias ou mocambos, ligados entre si econômica e militarmente.

No apogeu da federação palmarina, eram 16 ou 17, espalhados numa área de 27 quilômetros quadrados, que hoje atravessaria o Estado de Alagoas e entraria Pernambuco adentro. Cada um com um chefe eleito pela comunidade, que, por sua vez, integrava um conselho de guerreiros encarregados de escolher o rei de Palmares e comandar a guerra. Os tamanhos variavam. Um deles, “tinha meia légua de comprimento (3 000 metros) e duas portas; a rua era da largura de uma braça (2,20 metros)”, escreveu o capitão holandês João Blaer, falando do Mocambo de Mundéus, em 1645. Abandonado pelos negros três anos antes por um problema de insalubridade, Blaer ainda encontrou suas casas de pé — 220, segundo ele — bem como a muralha. “As portas ... eram cercadas por duas ordens de paliçadas ligadas por meio de travessões...” Na época, estimava-se em cerca de 6 000 os habitantes de Palmares. Por volta de 1680, esse número era calculado em até 30 000. Macacos, o mocambo do rei Ganga-Zumba e capital do quilombo, tinha então nada menos do que 1 500 casas, quantidade suficiente para fazer sombra a mais de 90% das cidades coloniais de então. Em 1660, a população do Brasil não passava de 184 000 habitantes, 74 000 deles brancos e índios subjugados e 110 000 escravos.

Negro, índio ou branco, qualquer pessoa que chegasse ao território dominado pelos palmarinos costumava ser aceita. Depois de admitido por algum líder, o novato recebia um pedaço de terra para trabalhar. Ali, ele deveria plantar os mantimentos e reservar uma parte da colheita para a manutenção do reino, principalmente para sustento das tropas. Do resto, parte ainda acabava sendo negociada com os moradores de vilas e pequenos povoados das proximidades, em troca de armas, munições, tecidos e outros gêneros de que os quilombos não dispunham. Mas a agricultura não era a única atividade dos palmarinos. Testemunhos antigos falam em olarias, oficinas, escolas de treinamento militar e até mesmo uma fundição no mocambo de Macacos, na qual eram fabricados facões, martelos e foices para a lida agrícola.

Sobre sua base negra, Palmares, com o tempo, tornou-se uma sociedade multirracial. Principalmente pela presença marcante de índios em seu território, e mesmo nos mocambos. Em quase todas as investidas contra o quilombo, era comum fazerem-se prisioneiros negros, mulatos e muitos índios. Alguns documentos mencionam até brancos marginalizados que passaram a viver ali. “A cerâmica que estamos encontrando é um forte indício da participação dos índios nos quilombos”, diz a antropóloga americana Julie Ruiz-Sierra, que faz parte da equipe do Projeto Palmares.

Em 1694, depois de quase um século de tentativas, o maior quilombo das Américas chegou ao fim. Sob o comando do paulista Domingos Jorge Velho, as forças legais não mediram esforços para alcançar o objetivo. Sua tropa somava mais de 7 000 homens e, pela primeira vez no Brasil, canhões foram usados em uma batalha campal. Os primeiros ataques foram infrutíferos: os palmarinos estavam bem acantonados e a muralha parecia inexpugnável. Mas uma distração mudaria o destino da batalha: após duas semanas de combate, durante a noite de 4 de fevereiro daquele ano a sentinela quilombola dormiu e não percebeu o movimento dos inimigos, que se preparavam para levantar uma paliçada junto à muralha de Macacos. Era a única chance que teriam para aproximar suas armas e efetivos da defesa do quilombo.

Os defensores da cidadela amanheceram desorientados diante da obra erguida numa única noite. Zumbi ordenou a execução do vigia, mas era tarde. À noite, quando tentaram atravessar o corredor formado pelas muralhas, que tinha como saída um abismo, foram atacados e massacrados. Zumbi conseguiu escapar vivo, apesar de ferido. Mais de 200 de seus guerreiros morreram no precipício. E Macacos caiu no dia seguinte sob o fogo dos canhões. Assim conta a história oficial.

Mais do que confirmar a história, porém, nossa esperança é desvendar a vida dos palmarinos”, garante Pedro Paulo Funari, da Unicamp. “Saber exatamente como eram suas casas, as aldeias, os objetos que usavam no dia-a-dia. Se conseguirmos desenterrar a cultura dessa sociedade, que desafiou durante tanto tempo o sistema colonial escravista, talvez finalmente se conheça um pouco da versão dos vencidos.” Uma história que há quatro séculos tem sido vista apenas através dos documentos deixados pelos vencedores.


Super Setembro de 1993



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Pr. Marcelo Augusto de Carvalho


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