Para além dos muros da companhia brasileira de energia elétrica: os guinle no centro industrial do brasil e na associaçÃo comercial do rio de janeiro



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PARA ALÉM DOS MUROS DA COMPANHIA BRASILEIRA DE ENERGIA ELÉTRICA: OS GUINLE NO CENTRO INDUSTRIAL DO BRASIL E NA ASSOCIAÇÃO COMERCIAL DO RIO DE JANEIRO
Cláudia Regina Salgado de Oliveira Hansen

Doutoranda em História Social/UFF

Existe uma pequena bibliografia acerca do tema da eletricidade no Brasil, especialmente no que se refere às empresas nacionais.1 Grande parte das investigações sobre o tema no Brasil do início do século XX, se debruçaram sobre os investimentos da canadense São Paulo Light e The Rio de Janeiro Tramway Light and Power, que dominaram os dois grandes mercados de eletricidade do país no período: os mercados do Distrito Federal e da cidade de São Paulo.2

Nosso trabalho, ao contrário da grande maioria dos estudos sobre o setor elétrico no Brasil do início do século XX, está intimamente ligado a uma empresa de eletricidade que pertenceu a um grupo de negociantes3 brasileiros, chamado por nós de Grupo Guinle, e que disputou com as “Lights”4, entre outros mercados, o do Distrito Federal e o da cidade de São Paulo. Cabe destacar, no entanto, que muitas são as facetas possíveis de serem trabalhadas quando se trata do tema energia elétrica e das empresas de eletricidade.

Nós procuramos estudar5 os investimentos dos Guinle no setor elétrico no Brasil do início do século XX, em uma perspectiva ampla, seguindo “as pegadas” da historiadora econômica Maria Bárbara Levy (Levy, 2004). Ou seja, escapando das análises que buscam apenas analisar as empresas dentro dos seus próprios muros. Por isso, o esforço em tentar analisar as articulações que esse grupo possuía na sociedade em que viviam e atuavam como investidores.

Procuraremos, para tanto, nesse artigo, analisar a presença e participação do Grupo Guinle em duas associações de classe de grande prestígio no período: O Centro Industrial do Brasil e a Associação Comercial do Rio de Janeiro. Em um primeiro momento apresentaremos a Companhia Brasileira de Energia Elétrica e o Grupo Guinle; e em um segundo, além de tecermos algumas considerações sobre o Centro Industrial do Brasil (CIB)6, faremos a análise desse grupo nessas associações de classe.7Além disso, faremos algumas considerações finais.


1. A Companhia Brasileira de Energia Elétrica, os Guinle e o setor de eletricidade
1.1 A CBEE e o setor de eletricidade brasileiro no início do século XX
A Companhia Brasileira de Energia Elétrica (CBEE) foi fundada no Rio de Janeiro em 1° de junho de 1909 por iniciativa dos membros da família Guinle, entre os quais Eduardo Guinle, Guilherme Guinle e Carlos Guinle, filhos do negociante Eduardo Palassin Guinle, para dar continuidade aos negócios da firma Guinle&Cia, fundada em 1904. Esta estava estabelecida na praça de comércio de materiais e instalações elétricas na Rua do Ouvidor, nº. 55 e nº. 13, no Rio de Janeiro e na Rua Direita, nº. 7, em São Paulo, e no mesmo ano abriu uma filial em Porto Alegre, Rio Grande de Sul. Entre 1904 e 1909, data em que entra como acionista da CBEE, a Guinle&Cia, ao lado do comércio de artigos elétricos e representação dos maiores fabricantes internacionais de equipamentos elétricos8, envolveu-se na construção de usinas hidrelétricas e linhas de transmissão, executando projetos de terceiros em diversos estados (Minas Gerais, São Paulo, Distrito Federal e Rio Grande do Sul).

Diferentemente da Guinle&Cia, que era uma Sociedade Comanditária9, a CBEE era uma Sociedade Anônima10, regulamentada pelo decreto n. 164 da Lei Das Sociedades Anônimas de 1890, marcado pelo seu aspecto liberal.11 Portanto, os empresários da CBEE atuaram em uma sociedade onde havia uma legislação favorável ao surgimento de grandes empresas. No entanto, no que se refere ao setor de eletricidade, a atuação dos mesmos se deu em meio a um ambiente legislativo bastante impreciso, pois não existia no período um projeto nacional sobre concessões de serviços públicos.

Os serviços de energia elétrica tiveram no país suas primeiras experiências durante a década de 1880, mas só tornaram-se uma realidade para os habitantes das mais modernas cidades brasileiras durante os primeiros anos do século XX. Alexandre M. Saes (Saes, 2008) chega a afirmar que era tão embrionária a legislação sobre os serviços de energia elétrica no Brasil do início do século XX, que seria possível dizer que ela inexistia. Enfatiza que a única exceção foi a promulgação do Decreto n. 5.407 de dezembro de 1904 pelo presidente Rodrigues Alves, que definia linhas gerais como: 90 anos de prazo máximo de concessão, a reversão sem indenização do patrimônio para a União e revisão tarifária a cada cinco anos. Além disso, o que existia eram os preceitos liberais da Constituição de 1891, que defendia a idéia da livre iniciativa, logo, da proibição dos privilégios, e ainda, que cabia aos municípios a responsabilidade sobre os contratos e fiscalização dos ditos serviços.

Logo, apesar de serem respeitáveis as decisões estaduais e federais sobre o setor de eletricidade, as decisões acerca da distribuição de energia estavam à mercê dos arranjos políticos nas Câmaras Municipais e das relações entre empresários e vereadores.



1.2 O chamado “Grupo Guinle”
Dentre os acionistas da Companhia Brasileira de Energia Elétrica estavam negociantes12 como Cândido Gaffrée, cidadão brasileiro, natural da província de São Pedro do Sul, domiciliado e estabelecido na cidade do Rio de Janeiro e Eduardo Palassin Guinle, também cidadão brasileiro, e também natural da província de São Pedro do Sul, domiciliado e estabelecido na cidade do Rio de Janeiro; o advogado Raul Fernandes, natural do Rio de Janeiro e que fora vereador em Vassouras em 1900, deputado estadual em 1903, e deputado federal em 1909; engenheiros como Gabriel Osório de Almeida, natural de Minas Gerais e que trabalhou como engenheiro-ajudante no prolongamento da Estrada de Ferro D. Pedro II, consultor técnico do Ministério da Indústria e Obras Públicas entre 1902-1906, Presidente do Conselho Municipal do Distrito Federal de 1910-1918, Presidente do Clube de Engenharia, e Guilherme Guinle, natural do Rio de Janeiro e que além de ser presidente de várias empresas da família Guinle, foi Vice-Presidente do Conselho Técnico de Economia e Finanças nos anos 1930; e o industrial Jorge Street, natural do Rio de Janeiro, que além de dirigir várias empresas da família Guinle, foi também membro da diretoria da Sociedade da Agricultura e Indústria Nacional, em 1900, presidente do Centro industrial do Brasil, em 1912, e também, entre outros, presidente da Associação comercial de São Paulo.

Esses agentes citados e outros acionistas da CBEE como João Evangelista Vianna, Saturnino Cândido Gomes, Antônio Vaz de Carvalho Júnior, Eugênio Vaz de Carvalho Júnior, Eugênio José de Almeida, Ildefonso Dutra e Américo Firmiano de Moraes, além, é claro, dos filhos de Eduardo P. Guinle, tinham relações empresariais diversas com Eduardo P. Guinle e Cândido Gaffrée, os dois maiores acionistas da CBEE, depois da Guinle&Cia, tal como destacamos no Quadro 1 abaixo.13 Daí afirmarmos que os Guinle formavam um grupo e um grupo que estava presente em várias associações de classe que detinham papel fundamental no processo de expansão de determinadas atividades econômicas.14



Quadro 1: Relação dos empresários ou negociantes da CBEE que eram também acionistas de outras empresas junto com Gaffrée e Palassin Guinle.

Negociantes ou empresários

Gaffrée/Guinle&cia (1888)

Cia. Docas de Santos (1892)

CBEE (1909)

Fábrica Santa Helena(1909)

Cia. Nacional de Tecidos de Juta (1914)

Cândido Gaffrée

x

x

x

x

x

Eduardo P. Guinle

x

x

x

x

x

João Evangelista Vianna




x

x







Saturnino Cândido Gomes




x

x







Antônio Vaz de Carvalho




x










Antônio Vaz de C. Júnior




x

x







Eugênio Vaz de Carvalho




x

x







Eugênio J. de Almeida e Silva




x

x

x

x

Raul Fernandes







x







Gabriel O. de Almeida







x







Jorge Street







x

x

x

Ildefonso Dutra







x

x

x

Mário Ribeiro







x







Américo Firmiano de Moraes







x

x




Mário Monteiro







x







Sebastião A. Alves







x







César Sá Rabelo







x







Fonte: (Hansen, 2006:248)

2. Os Guinle como agentes no CIB

O Centro Industrial do Brasil (CIB) representou uma importante iniciativa de centralização e encaminhamento das reivindicações e demandas apresentadas pelos industriais estabelecidos na Primeira República brasileira. De acordo com seus estatutos a associação tinha por objetivo promover o desenvolvimento da indústria e incentivar a formação de associações congêneres nas outras federações brasileiras.15

A partir da sua criação, em 1904, o CIB reuniu como filiados, além dos integrantes da antiga Sociedade Auxiliadora da Indústria Nacional (SAIN) e do Centro de Indústria de Fiação e Tecelagem de Algodão do Rio de janeiro (CIFTA), empresas de vários ramos como: metalurgia, vidro, cerâmica, bebidas, fumo, madeira, etc., totalizando um número de 338 filiações entre empresas e associações.

Em seus estatutos constava que o Centro organizaria um serviço diário de informações e uma biblioteca especial, além da publicação do boletim da entidade, organização de uma exposição permanente e de um museu de matérias-primas nacionais. No entanto, apenas a publicação de textos avulsos, do Boletim e a elaboração de estatísticas tornaram-se uma prática constante.16

Apesar de não cumprir tudo que fora estabelecido em seus estatutos, o Centro Industrial do Brasil desempenhou papel de destaque no Brasil daquele período e Edgard Carone, Ângela de Castro Gomes e Maria Letícia Corrêa, ao analisarem aspectos dessa instituição, mostram isso.

Edgard Carone (Carone, 1978), após fazer um histórico sobre a fundação da instituição e apresentar alguns artigos dos seus estatutos, afirma que o Centro Industrial do Brasil cresceu muito como instituição representativa dos industriais nos primeiros anos do século XX, e que marcou presença diante da classe, do governo e da sociedade. Ressalta que os elementos que estavam à frente do CIB eram homens ligados à indústria e que tinham plena consciência dos seus objetivos - que era essencialmente a defesa da indústria. Ressalta ainda que seus dirigentes procuravam contato com o governo, aliás, procuravam a colaboração do governo. Além disso, Carone faz questão que enumerar as várias conquistas da instituição tais como a organização dos seus Boletins, as exposições, os estudos que fez sobre a defesa das tarifas alfandegárias, sobre a presença do capital estrangeiro, sobre os impostos interestaduais, etc., e a organização da obra “Brasil, suas riquezas naturais, suas indústrias”, que, segundo o autor, marcou os estudos históricos e econômicos brasileiros.(Carone, 1978:73-78).

Portanto, Edgard Carone não tem qualquer dúvida acerca da importância do CIB para a indústria brasileira da Primeira República, pois deixa claro que a instituição agiu em favor da indústria em geral.

Ângela de Castro Gomes (Gomes: 1979), estudando as várias organizações de várias entidades de classe surgidas na Primeira República, mostra que havia um certo padrão de organização nessas entidades. Tal como se organizava o CIB, quase sempre havia uma diretoria que de modo geral era composta pelos cargos de presidente e vice-presidente, dois secretários e dois tesoureiros. Podia existir ainda o cargo de secretário geral, que representava a entidade em conferências e congressos, além de elaborar os documentos dirigidos às autoridades governamentais. Ressalta ainda que a diretoria era eleita e variava em torno de dois anos, mas que os dirigentes poderiam permanecer nesses cargos por longos períodos excedentes, o que aconteceu, por exemplo, no CIB. Afirma também que além da diretoria existia um Conselho Fiscal que acompanhava as atividades e iniciativas da associação de classe através de reuniões com a diretoria e exame do seu relatório. No CIB esse conselho era formado por três integrantes. Ressalta ainda que o CIB desempenhou o papel de instituição intermediária, que agia em nome dos interesses representados “não só face às pressões do movimento operário como principalmente face ao Estado”, e que tinha representação nacional.17

Maria Letícia Corrêa (Corrêa, 1996) destaca o papel que os diretores dessas entidades tinham e a relação entre o CIB e os poderes públicos. Afirma que os diretores eram convocados a participar das assembléias gerais destinadas às decisões mais importantes, como eleições de dirigentes e empreendimentos de diversas ações junto aos poderes públicos, e ainda, que eram eles que examinavam as ações realizadas, consignadas na apresentação de relatórios. Com relação especificamente ao CIB, antes de enumerar as várias alternativas utilizadas pelos dirigentes da instituição para se relacionarem com os poderes públicos, destaca a questão da proporcionalidade do direito de voto, pois os sócios efetivos tinham direito a um voto, exceto as sociedade anônimas ou coletivas, que tinham direito a dois votos correspondentes a cada 500 contos de réis do seu capital, ou fração, até o máximo de 40 votos, ou seja, era uma associação onde as empresas tinham muito poder de decisão. (Corrêa, 1996: 92)

A autora segue em sua análise enfatizando que o CIB tinha entre suas metas pressionar as autoridades governamentais, apresentando as estratégias utilizadas pela instituição para atingir tal fim, e afirma que a instituição fora reconhecida pelos poderes públicos. Mostra que quando a associação foi criada o vice-presidente da República Afonso Pena e muitos presidentes de estado enviaram telegramas congratulando-se com a entidade; mostra que em muitas atas de assembléias da instituição os dirigentes do CIB deixaram claro que pressionar as autoridades era fundamental; que houve a formação de comissões por parte do CIB para entrar em contato com as autoridades governamentais, e exemplifica isso através da criação de um projeto para elaboração de uma estatística nacional, resultante de uma conferência realizada em 1905 entre uma comissão de integrantes do CIB e o então ministro da Viação, Lauro Müller; que o Centro organizava manifestações públicas para o presidente da República; que divulgavam suas reivindicações na imprensa na tentativa de interferir nas questões de política econômica em discussão no Congresso; que fez propaganda das indústrias nacionais, e os artigos de Cunha Vasco seriam emblemáticos; e ainda, que a instituição organizou seu Boletim que reunia os artigos da instituição que saíam na imprensa, Boletim esse que era distribuído gratuitamente para estados, governadores, industriais, bibliotecas, etc. (Corrêa, 1996:92-98).

Assim, Maria Letícia Corrêa, a partir das análises dos artigos publicados no Jornal do Commercio pelo CIB e demais textos, entende que os dirigentes do CIB procuraram, através da publicação dos seus textos, das comissões que formaram, das manifestações públicas que organizaram, fazer pressão sobre seus interlocutores diretos, que eram os homens de governo. Defende que tudo isso fazia parte de uma ação articulada, e que a divulgação das estatísticas feitas pelo Centro era um dos seus principais instrumentos de pressão.

Portanto, os três trabalhos acima citados nos informam sobre o importante papel desempenhado pelo Centro Industrial do Brasil na economia da Primeira República brasileira, pois além de revelarem aspectos da organização da instituição, mostram a articulação que seus dirigentes procuraram estabelecer com as autoridades governamentais e com a sociedade em geral, se considerarmos as propagandas que faziam nos jornais, os boletins que produziam, as exposições que organizavam, e das pautas que defendiam.


2.1 Os Guinle no Centro Industrial do Brasil: presença, participação e ocupação de posições
A presença, participação e ocupação de posições por parte dos Guinle no Centro Industrial do Brasil começaram a se delinear em sua inauguração. Em primeiro lugar, ressaltamos que na primeira reunião do CIB, em 18 de agosto de 1904, estavam presentes dois dos grandes sócios de Eduardo Palassin Guinle e Cândido Gaffrée - Gabriel Osório de Almeida e Jorge Street.18

E mais, que nessa primeira reunião duas questões nos chamaram atenção acerca da presença dos Guinle na instituição: o destaque dado à defesa da indústria nacional, aspecto enfatizado por Jorge Street, Gabriel Osório de Almeida e também Serzedello Corrêa; e a entrada de várias empresas do chamado “Grupo Guinle” como sócias da instituição.


“O sr. Dr. Jorge Street propõe para sócios effetivos as sociedades anônimas, Companhia Docas de Santos, capital 60.000:000$; Sociedade Anônima Fabrica de São João, capital de 2.400:000$; Nova Fábrica do Rink, capital de 1.200:000$; Fábrica Santa Luzia, capital de 360:000$; Fábrica de Tecidos Santa Heloísa, capital de 500:000$, e sociedade coletiva Guinle &Cia., capital 1.200:000$; e os srs. Candido Gaffrée, Eduardo P. Guinle, Eduardo Guinle, Guilherme Guinle, Carlos Guinle, sendo todos aprovados unanimemente.”19

Logo, os Guinle, não só através do chamado “Grupo Guinle”20, mas através dos próprios membros da família, Eduardo Palassin e seus filhos, além de Cândido Gaffrée21, estavam presentes na instituição desde a sua fundação como sócios.

Quanto à ocupação de posições do “Grupo Guinle” na instituição, podemos afirmar que ela se fez a partir de quatro dos grandes homens desse grupo: Jorge Street, Gabriel Osório de Almeida, Ildefonso Dutra e Guilherme Guinle, que ocuparam posições no grupo dirigente do CIB22.

A primeira diretoria do CIB, formada para o período de 1904-1907, mas que só foi substituída em 1912, foi formada por Inocêncio S. Corrêa, presidente; Luiz Raphael V. Souto, primeiro vice-presidente; M. A da Costa Pereira, segundo vice-presidente; Jorge Street, primeiro secretário; J. M. da Cunha Vasco, segundo secretário; Alfredo L. Pereira Chaves, primeiro tesoureiro e Júlio Pedroso de Lima, segundo tesoureiro. A Comissão Fiscal era formada por Gabriel Osório de Almeida, Joaquim Carvalho de Oliveira e Hermann Kaldhul.23

Jorge Street e Gabriel Osório de Almeida, que se tornaram sócios dos Guinle em vários negócios, tal como podemos constatar no quadro 1, fizeram parte da diretoria da instituição desde a sua fundação em 1904. De 1904 até 1912 Jorge Street foi o 1º tesoureiro, e Gabriel Osório de Almeida, no mesmo período, fazia parte da Comissão Fiscal. De 1912 a 1925 Jorge Street passou a ser presidente do CIB e Gabriel Osório de Almeida primeiro vice-presidente. 24

A partir de 1912 outros dois membros do chamado Grupo Guinle passaram também a fazer parte da diretoria. Ildefonso Dutra passou a ser segundo tesoureiro e membro da Comissão Fiscal, no período de 1916-1917 e primeiro secretário, no período de 1917-1925. E Guilherme Guinle foi membro do Conselho Fiscal de 1916-1925 e segundo vice-presidente da instituição no período de 1926-1931. Além disso, ambos fizeram parte do Conselho Superior da instituição no período de 1912-191725

Assim, podemos afirmar que o “Grupo Guinle” esteve presente no grupo dirigente do CIB e ocupou posições bastante significativas da instituição: membros do Conselho Fiscal, primeiro-secretário, presidente, primeiro vice-presidente, segundo vice-presidente. E ainda, a partir do momento em que Jorge Street ocupou o cargo de presidente da instituição, outros cargos fundamentais ficaram nas mãos de membros do “Grupo Guinle”, pois o primeiro vice-presidente era Gabriel Osório de Almeida e o primeiro secretário Ildefonso Dutra, além da presença de Guilherme Guinle na Comissão Fiscal.

2.2 Jorge Street: um homem forte do CIB e do “Grupo Guinle”

A participação efetiva do Grupo Guinle no CIB, para além das funções executivas, ou consultivas, ou mesmo fiscalizadoras, se deu, principalmente, através de Jorge Street.

Jorge Street tinha uma posição de destaque no CIB. Foi primeiro secretário da instituição, tal como já afirmamos, de 1904-1907, e nesse período foram feitas, aproximadamente, 86 reuniões da diretoria, e Street não faltou a nenhuma delas.26 Salientamos ainda que foi Street que presidiu a assembléia de fundação do CIB, e que foi ele junto com Cunha Vasco e Serzedello Corrêa que fizeram o projeto dos estatutos da instituição.

Além de estar presente na instituição e ocupar posições importantíssimas na Diretoria, tais como a de primeiro secretário e depois presidente, iniciou, no ano mesmo de fundação da instituição, uma grande campanha acerca das tarifas aduaneiras no Brasil.

Publicou uma série de artigos na Gazeta de Notícias, sob o título Tarifas em defesa de um projeto que corria no Congresso, de cunho protecionista e de agrado dos industriais, de autoria do Deputado João Luis Alves.

Começou assim seu trabalho:


“No estudo que tencionamos fazer sobre o projeto de tarifas do ilustre Deputado Dr. João Luís Alves, ora em discussão na Câmara, procuraremos dar a orientação a mais prática possível, valendo-nos dos dados e fatos de que dispomos e que julgamos poderem servir para apoiar ou refutar as diversas opiniões emitidas sobre o assunto no parlamento e na imprensa.

Não nos alongaremos em considerações sobre as diversas escolas do livre-cambismo e do protecionismo, pois o assunto está por demais debatido e conhecido. O sistema livre-cambista está moribundo no mundo inteiro, e a estupenda progressão econômica da América do Norte, da Alemanha, da Rússia e da Itália, devida unicamente ao decidido apoio e proteção à outrance dada por essas nações às suas indústrias, tornou indiscutível a vitória do protecionismo.

Os mais decididos adversários do projeto João Luís Alves, na Câmara, defendem-se cuidadosamente de ser contrários à proteção às nossas indústrias, declarando apenas querer fazer entre elas uma seleção e opondo-se a uma exagerada proteção, que reputam de nocivas conseqüências. Foi esta a orientação dos dignos Deputados Curvelo Cavalcanti, Paula Ramos e Felisbelo Freire, que ilustraram a discussão com discursos realmente valiosos. É, pois, uma vitória para a indústria brasileira ter-se grandemente modificado a linguagem e o modo de pensar daqueles que, há muito pouco tempo, negavam em absoluto a existência da indústria nacional, a qual era por eles qualificada de artificial e pouco digna de qualquer proteção”.27

Suas primeiras colocações já deixam muito claro que sua participação no CIB seria muito intensa, para além das formalidades burocráticas. Os trechos do seu texto que destacamos, nos mostram ser ele um articulador, pois afirma que vai discutir o projeto com o Parlamento e com a Imprensa e mais, que defende a indústria nacional. Logo, a partir do primeiro ano de existência do CIB, assumiu a discussão de uma das questões mais importantes da economia brasileira do período – a questão tarifária.

Street se empenhou em mostrar, nesses artigos, e nos discursos proferidos no CIB, que a indústria nacional estava pronta para atender as necessidades do país e que era necessário que os deputados adotassem um sentido de nacionalismo econômico ao votarem as questões (Moraes Filho, 1980:37-38).

Só por isso, já podemos estabelecer uma ligação direta entre as idéias defendidas por Street no CIB e “Grupo Guinle”, já que a partir do segundo semestre de 1904 e durante todo o ano de 1905, a disputa entre a The Rio de Janeiro Tramway Light and Power e a Guinle&Cia, pelo mercado de eletricidade do Distrito Federal, especialmente na imprensa carioca28, se traduziu um pouco em uma luta do capital nacional, representado pelos Guinle, versus o capital estrangeiro, representado pela canadense Rio Light.

Essa ligação torna-se mais emblemática, a nosso ver, quando Street lança sua campanha para defender as indústrias brasileiras de fósforos. Para criticar os deputados que diziam que existia um trust das indústrias de fósforos, o primeiro secretário do CIB usou exatamente os negócios da canadense Light - e não acreditamos ter sido isso por acaso, já que os negócios da São Paulo Light e da Rio Light, atrapalhavam os negócios dos Guinle no setor de eletricidade.

Afirma ele que:


“Já se disse na imprensa e é uma verdade que repetimos: é admirável que no parlamento não houvesse uma única voz que desse o alarma contra o mais formidável trust que está começando a imperar na Capital da República, enfeixando em suas mãos uma enorme força, oriunda da massa de serviços que vai executar, com anuência dos poderes públicos, e, no entanto ouve-se um tal terror pelo fantástico trust dos fósforos, que não existe nem nunca existiu! Ma é que de um lado estão brasileiros e do outro estão americanos, cujo poderio ofusca e não deixa ver o perigo. Referimo-nos à Rio Light! Pensam, realmente, os adversários da nossa indústria que a proteção aos fósforos de produção brasileira seja mais perigosa e antipatriótica do que a absoluta indiferença com que se assiste ao abocanhamento, pelos americanos, das nossas mais preciosas jóias, e a instalação como dono e senhor da Capital da República”!29

Ora, a defesa da indústria nacional, de um certo nacionalismo econômico, o ataque direto aos investimentos das “Lights” no Brasil nos anos de 1904-1905, por parte de uma autoridade de uma instituição que tinha como um de seus interlocutores o governo, eram, sem sombra de dúvidas, um apoio importantíssimo àqueles que se arvoravam de estarem aplicando capitais nacionais no Brasil – os Guinle.

Outro momento em que essa aproximação fica clara ocorreu em 1912, quando Street se tornou presidente do CIB. Nesse ano, o presidente da instituição voltou a denunciar o monopólio de energia elétrica pela Light. Escrevia ele, em O Estado de São Paulo de 10 de junho de 1912:
“A Light and Power não gostou do protesto que fizemos contra o monopólio perpétuo que ela pretende obter da Câmara Municipal, e, como não gostou, dirigiu-nos pela coluna do Estado uma carta zangada e com ares de violência, mostrando assim que demos em ponto certo. Vamos responder ao pé da letra.

Temos enormes interesses que deliberadamente vinculamos ao Estado de São Paulo, centro do grandioso futuro da nossa terra; é legítima, pois, a parte ativa que tomamos em tudo quanto lhe diz respeito. O nosso protesto foi feito contra a pretensão da Light and Power de alterar desde já a situação atual de fornecimento de energia elétrica oito anos antes da terminação dos seus contratos, de surpresa, de afogadilho, sem a devida discussão, contra as boas normas, enfim, como se se tratasse de um caso de salvação pública. Essa pretensão fere os nossos interesses de grandes consumidores dessa energia, impedindo que possamos comprá-la em prazo relativamente curto a quem nos oferecesse melhores condições ou mesmo de irmos gerá-la em qualquer outro município conveniente, trazendo-a depois a esta capital para nosso uso exclusivo. A lei atual nos garante esse direito e a Light and Power pretendia com o seu monopólio exclusivo e perpétuo privar-nos dele. O protesto foi, pois, legítimo “(Filho, 1980:42-43).


Portanto, Street, na posição de presidente do Centro, se colocou abertamente contra as pretensões monopolizadoras da Light em um momento importantíssimo da disputa entre a Light e a CBEE, sucessora da Guinle&Cia nos negócios de eletricidade. Os anos de 1910-1912, tanto no Conselho Municipal do Distrito Federal quanto na Câmara Municipal de São Paulo, e também na justiça, foram marcados por enfrentamentos intensos entre as duas empresas.30 E, novamente, tal como ocorreu nos anos de 1904-1905, o Centro Industrial do Brasil, agora através do seu presidente, se posicionou fazendo críticas a atuação da Light.

Outra discussão importante ocorrida no CIB e que diretamente beneficiava os Guinle, porque se ligava a Light, foi a questão da desnacionalização. Segundo Evaristo de Moraes Filho (Moraes Filho, 1980:46) Street, juntamente com um grupo de colegas seus, industriais, políticos, economistas e publicistas, defendiam um nacionalismo sadio e vigilante quanto aos capitais estrangeiros e à concorrência vinda de fora. Denunciava a desnacionalização da economia nacional. Rejeitava abertamente o açambarcamento das riquezas do Brasil pelo sindicato financeiro de Percival Farquhar.
“Por evidenciada importância, a indústria fabril brasileira tem direito a essa justiça. Ela compõe, realmente, uma enorme parte da riqueza do país; constitui poderoso fator de sua produção. É um grande patrimônio que, aos filhos desta terra, cabe corajosa e francamente defender, porque esse patrimônio traduz uma força econômica genuinamente brasileira, e porque os capitais que formaram e servem à indústria fabril do país estão, na sua quase totalidade, em mãos brasileira, ou se acham intimamente nacionalizados pelos vínculos dos mais fortes interesses internos. E agora, que vozes imparciais e patrióticas dão justo alarme contra empolgante e abusiva conquista do Brasil; agora, mais do que nunca, importa defender, amparar e animar a indústria fabril nacional. Poderes públicos, imprensa, líderes da opinião pública, todos os elementos responsáveis pela grandeza dessa nacionalidade, devem assim proceder. È mister impedir que, de futuro, se submeta ao domínio de especulações bolsista de sindicatos externos tão preciso ramo do comércio brasileiro.

É claro que o capital estrangeiro merece todo o apoio e garantia quando vem ao Brasil em procura de normal aplicação, porém igual tratamento e maior incentivo deve receber o capital brasileiro, o qual, sendo embora mais modesto, será sempre mais estável na incorporação às empresas fundadas no país. Assim prestigiado o esforço nacional, não se teria a lamentar a freqüente desnacionalização de empresas que, nascidas brasileiras, podiam e deviam continuar realmente nacionais”. (Moraes Filho, 1980:46-47).


Fica evidente que a crítica que Street fez à desnacionalização e ao sindicato Farquhar, “por tabela” significava rejeitar os interesses monopolizadores da Light.

Street, a nosso ver, foi um dos grandes líderes do Centro Industrial do Brasil, não só por sua participação na diretoria da instituição desde a sua fundação, mas também pelos muitos temas ligados à indústria nacional que colocou em discussão. Além disso, foi também, um defensor dos interesses do “Grupo Guinle” (do qual fazia parte), dentro do Centro Industrial do Brasil.




3. Os Guinle e a Associação Comercial do Rio de Janeiro
Fizemos um levantamento em alguns documentos da Associação Comercial do Rio de Janeiro para tentar analisar a participação do “Grupo Guinle” nesta instituição.31

Conseguimos confirmar a presença do “Grupo” na instituição, pois entre seus associados estavam muitos dos membros do grupo: Jorge Street, Eugênio José de Almeida e Silva, Antônio Vaz de Carvalho Júnior, Américo Firmiano de Moraes, Cândido Gaffrée, Eduardo Palassin Guinle, Saturnino Cândido Gomes, Ildefonso Dutra, Gabriel Osório de Almeida e até mesmo algumas das suas empresas, como a CBEE e a Companhia Nacional de Tecidos de Juta.32

No entanto, ao contrário do que ocorrera no Centro Industrial do Brasil, não houve uma participação efetiva dos membros do “Grupo” nesta instituição, ou seja, nenhum deles se destacou como grande articulador, fundador, produtor de discursos. Apenas Jorge Street ocupou um cargo na diretoria, o cargo de vice-presidente, em 1912.33 Enfim, fizeram parte da instituição, ou seja, estavam presentes nela, mas não conseguimos estabelecer qualquer relação direta entre serem sócios da instituição e a defesa dos seus interesses particulares, especialmente aqueles que nos interessam de perto – o setor de eletricidade.


Considerações Finais

A importância que o Centro Industrial do Brasil adquiriu na sociedade brasileira de fins do século XIX e início do XX, especialmente o material estatístico produzido pela instituição, as pressões que exerceu sobre os governantes, e a propaganda veiculada na imprensa, reforçam nossa idéia de que uma boa história empresarial tem que procurar analisar as estratégias empresarias estabelecidas para além dos muros da própria empresa.

Conseguimos, após levantamento feito nos Boletins, Relatórios e Processos Eleitorais do CIB, demonstrar que além de Gaffrée e Palassin, vários dos seus sócios eram associados da instituição e, mais que isso, ocupavam cargos importantes na Diretoria da mesma. Portanto, conseguimos demonstrar que o “Grupo Guinle” foi parte importantíssima na constituição da instituição e que ocupou posições-chave dentro dela.

Além disso, a análise do papel desempenhado por Jorge Street no CIB, além de ter mostrado algumas das suas idéias, mostrou a importância que “um dos Guinle” teve para a instituição e para o “Grupo Guinle”, pois sua participação foi grande e, muitas vezes, decisiva em função da liderança que exercia. Destacamos também a presença marcante e determinante dos discursos de Jorge Street em momentos cruciais da disputa Guinle&Cia/CBEE contra as “Lights” pelos mercados do Distrito Federal e da cidade de São Paulo.

Fora isso, gostaríamos ainda de salientar que apesar do “Grupo Guinle” não ter tido uma participação efetiva na Associação Comercial do Rio de Janeiro - instituição representativa dos comerciantes do Rio -, também estiveram presentes nela, ou seja, de alguma forma tentavam se articular junto aos grandes comerciantes da praça do Rio de Janeiro.


Referências Bibliográficas

CARONE, Edgard. O Centro Industrial do Rio de Janeiro e sua importante participação na economia nacional (1827-1977). Rio de Janeiro: CIRJ/Cátedra, 1978.


CORRÊA, Maria Letícia. As Idéias Econômicas na Primeira República: Serzedelo Corrêa, Vieira Souto e Nilo Peçanha.Rio de Janeiro/Niterói. UFF, Instituto de Ciências Humanas e Filosofia, 1996.(Dissertação de Mestrado)
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SAES, Alexandre Macchione. Conflitos do capital: Light versus CBEE na formação do capitalismo brasileiro (1898-1927). São Paulo/Campinas. Instituto de Economia da Unicamp, 2008.(Tese de Doutorado)


1 O levantamento bibliográfico feito por nós revelou que na grande parte dos trabalhos que tratam do tema a questão da energia elétrica aparece subordinada à urbanização/industrialização, ou então tratam o tema de forma tangencial, ou ainda trabalhos que contemplam as questões técnicas sobre o setor de eletricidade. Poucos são os trabalhos que tratam diretamente do tema e de forma que contemplem as interações técnicas, sociais, políticas e ideológicas. Dentre esses cf. (Saes, 1996), (Lorenzo, 1987) e (Lamarão, 1997).

2 Cf. (Lamarão, 1997), (Levy e Lobo, 2008), (Mc Dowall, 2008)

3 Entendemos negociantes a partir da definição proposta por José da Silva Lisboa, o Visconde de Cairu: “São aqueles que empregam grandes fundos em tráficos e manufaturas, pondo em rápido movimento e promovendo a agricultura, original fonte de riquezas nacionais (...). São os que fazem comércio da especulação, bancos e seguros. Precisam de grande penetração, sagacidade e inteligência teórica e prática, para bem calcularem as circunstâncias vantajosas aos negócios que projetam”. (Lisboa: 1819. In: Guimarães, 1997: 65)

4 Em abril de 1899, foi constituída em Toronto, Canadá a São Paulo Tramway Light and Power, e, em pouco tempo, monopolizou o transporte coletivo e a produção/distribuição de eletricidade para a capital paulista, Em maio de 1904, Frederick Pearson e Alexander Mackenzie, associados a Percival Farqhuar, constituíram, em Nova Jersey (EUA) a The Rio de Janeiro Tramway Light and Power, que também buscou, assim como em São Paulo, monopolizar o mercado do Distrito Federal. Em 1912, os integrantes das diretorias da Rio Light e da São Paulo Light, decidiram unificar os empreendimentos no Brasil numa grande companhia holding, a Brazilian Traction Light and Power. (Lamarão, 1997:207).

5 Esse trabalho corresponde a uma das partes de um dos capítulos da minha tese de doutoramento, intitulada Eletricidade no Brasil da Primeira República: a CBEE e os Guinle no Distrito Federal e na cidade de São Paulo (1924-1923), que está sendo desenvolvida no PPGH-UFF, Brasil.

6 Optamos por não fazer considerações acerca da organização, função e papel que a Associação Comercial do Rio de Janeiro teve no período, porque o “Grupo Guinle”, apesar de estar presente nessa entidade de classe, não teve significativa participação na mesma.

7Estamos trabalhando com a concepção de Estado Ampliado de Gramsci. Cf. (Gramsci, 1966), (Gramsci, 1981), (Gramsci, 1968)

8 Entre algumas das empresas que eram representadas pela Guinle&Cia figuravam: General Electric Co, Pelton Wter Wheel Co, Otis Elevadores Co., Man Kodak Company, Uniteds States Productis Export Co. , etc. Brazil Ferro Carril, Ano II, n. 14, fevereiro de 1911, p.15.

9 O Código Comercial Brasileiro de 1850, nos artigos 311, 312 e 313, definiu esse tipo de sociedade com responsabilidade ilimitada. Segundo ele, criava-se uma sociedade em Comandita, quando duas ou mais pessoas se associavam para fim comercial, onde uns sócios eram solidariamente responsáveis e outros simples prestadores de capitais.(BRASIL. Código Comercial do Império do Brasil. Anotado com toda legislação do país que lhe é referente. Comentado por Sallustiano Orlando de Araújo Costa. 2 ed. Rio de Janeiro, Eduardo e Henrique Laemmert, 1896. pp. 120-121. In: Guimarães, 1997:101)

10 “Sociedade composta de muitos homens de negócios, ou de outras pessoas que se unem entre si e com seus cabedais e conselhos, e trabalho para empreenderem algum estabelecimento útil”. (SALES, Alberto Jaqueri de. Diccionário Universal do commercio. Tradução e adaptação manuscrita do Dictionnaire Univesel de Commerce, de Jacques Savary des Brulons, 3 vols., 1813. In: Guimarães, 1997: 100). Segundo o Código Comercial Brasileiro de 1850, no seu Artigo 297, o capital das Companhias era dividido em ações, e estas poderiam ser subdivididas em frações. O Artigo 298 determinava que a responsabilidade dos sócios fosse limitada ao valor das suas ações. BRASIL. Op. Cit

11 Para a organização das empresas sob a forma de sociedades anônimas, bastava que os estatutos estivessem aprovados pela assembléia dos acionistas, para que fossem registradas na Junta Comercial; limitava a responsabilidade do cedente das ações apenas aos atos ocorridos durante o período em que fora acionista; atribuía à assembléia a faculdade de excluir a responsabilidade dos administradores pela aprovação de suas contas; exigia apenas 10% do capital autorizado da empresa em algum banco, para que a sociedade fosse considerada constituída e suas ações pudessem ser negociadas; etc. (Levy, 1994:166).

12 Eduardo Palassin Guinle e Cândido Gaffrée estavam matriculados no Tribunal do Comércio. Palassin teve o número de registro 4.157 e sua carta registrada à folha 20 do n. 1 tomo 7º do registro competentes, 12 de outubro de 1874; e Gaffrée teve o número de registro 4.158 e sua carta registrada à folha 19 do n. 1 tomo 7º do registro competente, 12 de outubro de 1874. Fonte: Arquivo Nacional. Série Indústria e Comércio. Livro 1º, tomo 4º da matrícula dos commerciantes, corretores, agentes de leilões, trapicheiros e administradores de armazéns de depósito – Tribunal do Commercio da Capital do Império. 1º de outubro de 1868. IC³9.


13

14 Analisamos a presença e participação do Grupo Guinle no Clube de Engenharia, uma associação de engenheiros e industriais que ocupou uma posição de destaque na sociedade brasileira em fins do século XIX e início do XX, seja como espaço de fortalecimento da engenharia nacional, como espaço de formulação de idéias ligadas a possibilidade de crescimento da economia nacional, como espaço de interseção entre o conhecimento técnico e a ocupação de cargos nas administrações públicas, etc. Verificamos que esse Grupo ocupava posições importantes da diretoria dessa instituição e que nela, especialmente, através de Gabriel Osório de Almeida, procurou defender os interesses de seus negócios. Cf. (Hansen, 2009).

15 Estatutos. In. Boletim do Centro Industrial do Brasil. 1904-1905. pp. 18-20

16 Idem.

17 A autora constatou ainda que as associações de classe patronais surgidas no Rio de Janeiro na Primeira República eram dirigidas por um grupo de elementos que se constituía em lideranças empresariais, por sua representatividade econômica e pela prática adotada na defesa dos interesses da classe, e composta por um universo limitado de nomes que se mantinha no controle dos cargos dirigentes das entidades. Quanto à representatividade nacional do CIB teria se verificado quando da discussão da legislação social, a partir de 1917. (GOMES, 1979: 117-123).

18 Atas de reuniões do CIB, filme n. 0001.Codificação DIR./CIR J0001.Folha n.1,1904.


19 Livro de Atas das Reuniões, sessão em 18/08/1904.

20 É preciso observar que as empresas dos Guinle e seus sócios eram sócias do CIB.

21 Consideramos Gaffrée como um dos membros da família, pois era sócio de Palassin em todos os seus negócios, além de ser o grande articulados de todos os negócios da família, e ainda, quando morreu, em 1919, deixou seus bens para os membros da família.

22 Referimo-nos aos membros da diretoria do Centro Industrial do Brasil

23 Processos eleitorais. Filme SDO/CIRJ 0001, ficha n.1.

24 Idem.

25 Idem.

26 Nos arquivos da Firjan encontramos as atas das reuniões do CIB completas para os períodos de 1904,1905 e 1906. Já para o ano de 1907, só houve reuniões de janeiro a agosto. Quanto às reuniões referentes aos anos de 1908 a 1912, não podemos afirmar se aconteceram ou não, ou em que períodos, pois nessa instituição, não há registros dessas reuniões, somente nos meses de junho e julho de 1912.

27 Boletim do CIB. 1 v. (1904-1905). Rio de Janeiro: Typ. do Jornal do Commercio, 1905. (grifo nosso)

28 Essencialmente nos meses de março e abril de 1905 em periódicos como A Notícia, Gazeta de Notícias e Correio da Manhã encontramos muitas matérias sobre o assunto.

29 Jorge Street, “Artigos publicados na Gazeta de Notícias”. Boletim do CIB (1904-1905). Rio de Janeiro, 1905.pp. 205-215

30 Em 1910 a CBEE conseguiu a assinatura de um contrato com a Prefeitura do Distrito Federal, e cujo prefeito era Serzedello Corrêa, para fornecer energia elétrica a partir de 1915. E em São Paulo, em 1909, o prefeito Antônio Prado, autorizou a Docas de Santos (empresa do Grupo Guinle) a distribuir energia elétrica para a capital. É importante lembrar que a essa altura Jorge Street já era sócio dos Guinle em, pelo menos, duas empresas, tal como mostra o quadro I.

31 A pesquisa foi realizada nos Relatórios, Boletins e Atas das Assembléias.

32 Arquivo da Associação Comercial do Rio de Janeiro (ACRJ). Boletim da ACRJ, 1904. Ano I, 15/03/1904; Relatório de 1906,p.7; Relatório de 1908,p.7;Relatório de 1914,p.8; Relatório de 1916, p.221; Assembléia Geral Ordinária da ACRJ de 30/05/1912; Assembléia Geral Ordinária da ACRJ de 01/06/1914 e Assembléia Geral Ordinária da ACRJ de 30/05/1917

33 Arquivo da ACRJ. Assembléia Geral Ordinária de 30/05/1912, p. 25. Street aparece como vice-presidente da instituição no período de 1912-1914 e de 1914-1918. Arquivo da ACRJ. Assembléia Geral Ordinária de 01/06/1914.


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