Para onde caminha a Ciência Política ? José Luís Bizelli Introdução



Baixar 47.32 Kb.
Encontro08.08.2016
Tamanho47.32 Kb.
Para onde caminha a Ciência Política ?
José Luís Bizelli

Introdução
Em 1987, Terence Ball (Ball, 1987) colocava para o debate o seu artigo “Is there a progress in Political Science?”, através do qual, retomando preocupações de Kuhn (Kuhn, 1970), Lakatos (Lakatos e Musgrave, 1970) e Laudan (Laudan, 1977) buscava responder à pergunta proposta no título e propunha um “repensar” para a Ciência Política, a partir do conceito de “tradições de pesquisa”.

Uma tradição de pesquisa é um conjunto de considerações gerais sobre entidades e processos num domínio de estudo, indicando, assim, métodos apropriados para a investigação de problemas e para a reconstrução das teorias naquele domínio, quando isto se mostrar necessário.

As tradições de pesquisa não são, portanto, nem explanatórias, nem preditivas, e nem diretamente testáveis. Embora não falsificável uma tradição de pesquisa pode ser mais ou menos frutífera, em termos de habilidade de solucionar “quebra-cabeças” e problemas dentro da tradição. O sucesso de uma tradição leva a uma solução adequada um leque crescente de problemas empíricos conceituais.

O esforço de Ball pode nos dar um referencial para analisarmos o momento pelo qual passa a Ciência Política, voltada para as armadilhas por ela mesma criadas, agarrada à instrumentalidade da Democracia, que avança cada vez mais entre os países ocidentais, ao mesmo tempo em que reduz a sua força explicativa, ou seja abre seu flanco para o surgimento de outras “tradições de pesquisa”.

Ao fim de um século de consolidação do pensamento racional liberal, que superou qualquer forma “pós-moderna” de resistência, é preciso que se coloque em dúvida o valor universal da Democracia que invade domínios culturais adversos ao etnocentrismo ocidental. Nesse movimento atropelado de consolidação de uma discursividade universalista, o paradigma democrático desgasta o seu valor ético, fundamentado na igualdade e na liberdade, perdendo espaço, irremediavelmente, para a discussão da tecnicidade de sua implantação.

Reduzida à sua esfera de “processo decisório”, a Democracia esvazia-se enquanto “tradição de pesquisa”, como sugere Ball, ou seja, diferentemente de abrir chaves explicativas que possibilitem mapear o progresso da Ciência Política, reitera, na verdade, os princípios etnocêntricos ocidentais, que querem consolidar uma maneira politicamente correta de se colocar frente ao exercício hermenêutico da construção da diversidade.

Os conflitos gerados pelos interesses divergentes que permeiam a sociedade plural passam a ser expulsos da esfera pública para a esfera do mundo privado, destruindo as particularidades histórico-culturais de cada povo e condenando o Estado nacional, objeto tão caro à Ciência Política dos séculos passados, a reduzir suas esferas de interferência na geração das condições materiais de vida. Vejamos os passos dessa jornada.

A construção de um objeto de estudo: o Estado
O marco inaugural da nossa ciência é representado pelo pensamento político de Machiavel, que, isolando -- como em um laboratório se isola um fenômeno que se quer entender e controlar -- da tradição ética e moral religiosa o Estado, foi capaz de criar um objeto de estudo passível de análise.

A genealidade do autor fiorentino perpassará todos os argumentos trabalhados por este texto, mas cabe ressaltar já aqui que contidos no dicionário hermenêutico de Machiavel estão até hoje as chaves mestras para se ter acesso aos meandros do Estado moderno, quais sejam, os seus conceitos de virtù e “fortuna”.

A liberdade de opção na escolha dos meios só poderia ser pensada a partir do desatar o nó da luta entre o bem e o mal, entre o sagrado e o profano, porque na escolha, por princípio, não estamos livres para abraçar o mal, entre Deus e o Diabo somos, ética e moralmente, livres para nos consagrar a Deus e não ao Diabo.

No entanto, que poderíamos dizer sobre a liberdade em relação aos fins, já que estes justificariam a liberdade em relação aos meios? Aqui me parece que repousa toda a dificuldade do entendimento mais profundo do pensamento de Machiavel, já que, os fins, quantificáveis através dos resultados das ações empreendidas pelos atores políticos, não são individuais mas coletivos, morais e éticos, embora laicos. Os fins se resumiriam em um fim último que poderia ser expresso como o “bem comum”.

Para que isso se realize, primeiro torna-se necessária a construção de um espaço de sobrevivência que só pode ser “comum”. A partir daí são estabelecidas as normas de gestão desse espaço através de uma instituição política -- o Estado-nação e seus atores. Finalmente, é necessário a defesa do espaço criado, defesa que se confunde com a defesa de sua representação (Estado-nação) ou de seus atores (os governantes).

Frente ao exposto, a figura do déspota esclarecido, do tirano sanguinário ou do corpo de representantes conduzido ao poder seja por qual forma for, pertence ao exercício da liberdade em relação aos meios, construída historicamente pelos atores políticos em conflito, e fadada ao sucesso ou insucesso pelo pragmatismo do exercício da sobrevivência governativa, ou seja, pelos resultados que poderão ser medidos a posteriori.

Criado o objeto de análise, cabe delimitar o seu contorno, marcando claramente o que está dentro e o que está fora do objeto. Cabe esclarecer, se possível através da sua negação, mesmo que hipotética, a sua natureza e a partir dela a função a que se destina. Assim, o Estado-nação terá que se confrontar, portanto, com o “estado de natureza”, consolidando diferentes modelos interpretativos, de acordo com a natureza e funções que lhe são atribuídas. Totalitário em Hobbes, parlamentar em Locke, popular em Rousseau, “jogo de soma zero” em Montesquieu.

O século XIX traz consigo um outro patamar de consolidação do objeto Estado-nação. A partir de Marx, a discussão da natureza e das funções do Estado escaparão à lógica da política para serem explicadas pelo movimento mais geral da organização material da vida socialmente produzida.

Atrofia-se a discussão sobre a liberdade quanto aos “fins” da política, perdendo sentido qualquer elaboração mais aprofundada sobre a natureza do Estado, que passa a ser determinada pelo fato do campo econômico estar mais ou menos organizado nos diferentes estágios da luta de classes no modo de produção capitalista, configurando-se assim a “coisificação” do Estado que reduz-se a mero instrumento de dominação de uma classe sobre a outra.

No campo liberal clássico, o exercício não é diferente. Constant em seu ensaio sobre a liberdade dos antigos e dos modernos, recupera a idéia, que já estava presente em Machiavel, de diferenciar claramente a liberdade política da liberdade civil. A primeira demanda preparo e disponibilidade, sendo objeto do desejo de poucos. A segunda, condição sine qua non da convivência regulada e produtiva da sociedade, é cobiçada por todos. Aqui se separa também, no pensamento liberal, a política (a esfera pública) da construção material da vida em sociedade (a esfera privada), dando personalidades diferentes a cada um dos termos da expressão Estado-nação.

Toda a elaboração do “jusnaturalismo”, anterior ao século XIX, pautava-se pela afirmação de dois valores considerados intrinsicamente distintivos da manutenção da subsistência da sociedade política, quais sejam, a liberdade e a igualdade. Esses valores vão ser lidos de forma diversa pelo liberalismo clássico e por Marx.

Dado que, para ambas as correntes de pensamento, o caráter instrumental do Estado, no sentido de dirigir a nação, terá que acertar contas com os valores da liberdade e da igualdade, o liberalismo vai deitar seus olhos no primeiro valor, abandonando a igualdade para ser conquistada através do mercado que regularia capacidades individuais e recompensas materiais. Já o grupo que se organiza ao lado de Marx, preconizará a consolidação da igualdade como condição para a conquista da liberdade.

O mais interessante é que a Democracia percorre os dois grupos como inimiga, no primeiro, por representar uma ameaça da sociedade “inculta” aos beneméritos organizadores do mundo produtivo do trabalho; no segundo, por representar a “teatralização” da política enquanto dominação de classe.

Ao olharmos agora, no final do século XX, para esses quase 100 anos, podemos analisar o liberalismo e o marxismo clássicos com certa serenidade.



O século da consolidação democrática.
O século XX, em suas primeiras décadas, já coloca em questão se no campo das relações intra-nacionais e internacionais seria possível prescindir dos conflitos armados, em favor de uma forma civilizada de convivência, regulada entre atores que defendem concepções de vida diferentes.

O marxismo encontra na revolução leninista a consolidação de sua visão instrumental do Estado. Na União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, esta visão passa a dar uma nova direção à luta de classes, concretizando os princípios modernos do totalitarismo. No campo internacional, porém, a URSS não deixou de aliar-se às potências capitalistas, nas disputas imperialistas que marcaram o primeiro meado do século, particularmente, durante a II Guerra Mundial.

O Estado totalitário soviético esteve aliado às democracias liberais contra a ameaça totalitária do nazismo e do fascismo, prenunciando o resultado final daquilo que se seguiria à Guerra Fria, travada entre as duas maiores potências consolidadas nos conflitos bélicos mundiais: Estados Unidos da América e URSS.

O socialismo real abalou, contudo, a crença liberal do Estado capitulado à Nação. Como resultado histórico da crise capitalista de 29 e da estruturação de um sistema de escolha de políticas públicas através do jogo partidário competitivo, vai se estruturando um conjunto de idéias baseadas no princípio de uma regulação estatal. Essas idéias ganharão força a partir das teorias de Keynes e Dexter White, consolidas no tratado de Bretton Woods. (Bizelli, 1996).

Ao olharmos para as “novidades” históricas da primeira metade do século XX, podemos identificar dois padrões bem definidos em relação aos instrumentos disponíveis para pautar o universo da ação dos atores políticos comprometidos com as transformações das sociedades modernas: um anti-democrático, totalitário, de influência marxista-leninista; e outro moldado pela democracia partidária competitiva.

Ambos os modelos mantinham uma ligação com toda a tradição da Ciência Política produzida nos séculos anteriores, buscando orientar a interpretação dos fatos políticos associada aos valores iluministas da igualdade e da liberdade. Livres do teocentrismo, pudemos racionalmente acreditar em utopias dessacralizadas de convivência pacífica.

O Estado totalitário dos países do bloco alinhado à União Soviética, encarnaria a fórmula da abolição das classes, da sobrevalorização do trabalho do homem aos proprietários e controladores dos meios de trabalho, da distribuição mais equânime das riquezas socialmente produzidas, a partir de um acesso maior às condições materiais de vida. Por outro lado, o Estado liberal, fortalecido pela visão do Welfare State Keynesiano, imprime à Democracia uma conotação não meramente instrumental de interação sistêmica (teatralização da política), mas que se expande para um projeto de transformação social (democracia econômica arquitetada pelo Estado).

Olhados como fenômenos históricos de longa duração, ambos os modelos não resistiram às rápidas mudanças engendradas a partir de meados dos anos 70.

O primeiro a capitular foi o modelo da democracia partidária competitiva associada ao modelo keynesiano do Welfare State. O recrudescimento das “regras do mercado”, advogadas pelos propagandistas do neoliberalismo, reconduziram o mundo capitalista, a partir dos países centrais, ao seu curso histórico natural. A retomada de curso do capitalismo se fez por um processo de desregulamentação da economia, abrindo espaço para que, no campo internacional, os anos 90 conhecessem um processo de globalização direcionado pela especulação financeira, o que vem produzindo desastrosos efeitos nas economias mundiais, particularmente naquelas que se colocam em posições mais fracas, como é o caso da maioria dos países latino-americanos.

Com a chegada de Gorbatchóv ao poder, em 1985, a URSS vai acelerar o seu processo de fragmentação territorial e de quebra de sua hegemonia dentro do bloco socialista, processo esse que a levará a supressão do regime totalitário. A reunificação da Alemanha e a queda do muro de Berlim (09/11/89) passam a emblematizar o golpe fatal no modelo marxista-leninista de construção de uma utopia política racionalizável nas sociedades concretas.

Frente à visibilidade trágica das transformações ocorridas no modelo socialista, talvez possa passar desapercebida a falência, para a Ciência Política, dos valores constitutivos da “teoria democrática”, capazes de dar orientação não só para a análise política em geral, mas também para a ação política em particular. Assim, a discussão sobre a Democracia assume uma forma protocolar de defesa das “regras do jogo”, nas quais o sentido de aperfeiçoamento é factível já que o objeto de estudo não passa de um instrumento do “fazer político”.

Por mais que haja divergências conceituais importantes, poderíamos dizer que no transcorrer dos anos, vai perdendo força a corrente que defende uma discussão de princípios, de valores, sobre a Democracia e vai se espraiando uma posição de defesa da democracia enquanto forma civilizatória (forma de adestramento) do campo da política e única fórmula possível de fomento da convivência social entre os socialmente diferentes.

Talvez o melhor retrato do processo descrito acima esteja sintetizado em Samuel Huntington: “Em meados do século XX, três abordagens gerais sobre o significado da democracia surgem dos debates. Como forma de governo, a democracia foi definida em termos de fontes de autoridade do governo, propósitos do governo e procedimentos para a constituição do governo. (...) O procedimento central da democracia é a seleção dos líderes, através de eleições competitivas, pelo povo que governam. A mais importante formulação moderna desse conceito de democracia foi feita por Joseph Schumpeter em 1942. Em seu estudo pioneiro, Capitalismo, socialismo e democracia, Schumpeter apresentou as deficiências do que qualificou de ‘teoria clássica de democracia’, que a definia em termos da ‘vontade do povo’ (fonte) e do ‘bem comum’ (propósito). Demolindo definitivamente tais abordagens ao tema Schumpeter apresenta o que chamou de ‘outra teoria da democracia’. O ‘método democrático’ diz, ‘é o arranjo institucional para se chegar a decisões políticas em que os indivíduos adquirem o poder de decidir através de uma luta competitiva pelos votos do povo’”.(Huntington, 1994: 16)

Instrumento de engenharia institucional, a democracia assim pensada reserva à Ciência Política a função de historiografar os avanços conseguidos durante as eleições ou pesquisar novas formas de incrementar esses avanços. O sonho de uma ciência “pura”, que deixou de lado as profundas e inquietantes discussões filosóficas sobre os “valores” que norteiam o exercício democrático, que superou a fase contraditória de considerá-la como expressão da “vontade do povo” ou princípio emancipador rumo ao “bem comum”, pode agora realizar-se na sua plenitude.

Esse é o caminho mais fácil. Abate-se sobre ele menores conflitos. Mas, certamente, não é o caminho que nos tirará do ceticismo em relação à Política, ao Estado e à Nação. Principalmente, este é um caminho etnocêntrico, que revisita, agora sob a capa da globalização, o discurso do universalismo ocidental que chama de “racional” a lógica individual da ação.

Isso não quer dizer, como nos lembra Jon Elster (Elster, 1982), que os indivíduos não sejam capazes de articular ações coletivas. Quer dizer que não necessariamente eles o façam ou que, ao fazê-lo, tenham um intuito maior do que aquele que se esgota na ação imediata.

No entanto, para cumprir esse papel histórico a Política não teria necessitado atingir o status de ciência, e nem precisaríamos nos preocupar se esta ciência amadureceu ou não frente às questões que se propôs interpretar segundo códigos estabelecidos.

Dada a vitória histórica do paradigma democrático na explicação do fenômeno da organização política das sociedades modernas globalizadas, existe uma razão comunicativa que nos ajude a entender o mundo em que vivemos, a criar um cenário de alternativa possível e a construir uma ponte entre estes dois pontos rumo a uma transformação evolutiva?



Democracia: ética, valores, e utopia
Machiavel ao libertar a Política do legado da ética, não o fez em relação a sua finalidade que para o fiorentino estava ligada ao “bem comum”, ao bem da polis, ao supremo bem do Estado soberano. Assim, Política e ética criam entre si uma tensão dialética, já que atuam sob o mesmo campo de valores. Que valores são esses?

No mundo moderno, como resultado da implantação revolucionária dos princípios iluministas, poderíamos defini-los enquanto: liberté, égalité, fraternité. Interessante notar que quando a discussão sobre os princípios do mundo racional burguês moderno vêm à tona, nunca se discute a fraternidade.

Esse fato nos revela uma contradição intrínseca entre o último princípio e o código de partida da sociedade liberal, que é o indivíduo enquanto ator racional que expressa suas noções de “preferência” e de “intencionalidade”, dando concretude àquilo que Constant chamou de liberdade dos modernos.

Mas, deixando o terceiro princípio de lado, é fácil entender que os homens, através da Democracia, possam expressar sua liberdade. Afinal, todo o esforço histórico de construção do Estado moderno, e do jogo que garante o seu funcionamento, caminha no sentido de proporcionar o exercício da liberdade política.

Impossível é aceitar que pelo fato de cada homem valer um voto se esteja caminhando para atender o princípio da igualdade, seja política, seja social. A desigualdade cristalizada na sociedade, rompe o link entre a expressão democrática da Política e os princípios éticos que deveriam atuar como campo limitador das ações políticas, abrindo um espaço existencial para a violência estrutural da sociedade moderna.

Direitos fundamentais lavrados nas regras constitucionais do jogo passam a ser inoperantes diante de uma sociedade política que não consegue, institucionalmente, garantir a letra da lei. Por outro lado -- como já argumentei em outro texto (Bizelli, 1996), seguindo os passos de Habermas -, muitas vezes, a nossa ação alcança somente o campo da facticidade -- fatos produzidos pelo mundo vivido -- não sendo capaz de atingir sua validade -- materialização no discurso normativo.

A desigualdade social fomenta a violência estrutural do nosso mundo moderno globalizado, rompendo as condições necessárias para religar o campo da Política com os princípios da ética em relação aos fins. Três condições têm que ser recompostas para um reencontro da teoria democrática com os seus valores constitutivos.

A primeira condição é uma luta contra a violência estrutural. Faz-se necessário aqui substituir o conceito clássico de exploração, tão caro a Marx, pelo de marginalização. A Democracia, portanto, perde a sua capacidade explicativa, enquanto categoria-chave da Ciência Política moderna, quando não é capaz de criar condições de luta contra todos os mecanismos que cerceiam a liberdade daqueles que compõem, muitas vezes apenas por direitos legais, o corpo político apto a praticar a escolha, condenando-os à marginalidade, recriando o “ostrakismós”. Não estamos discutindo aqui as condições de realização de eleições livres e seguras, mas sim direitos inalienáveis do ser humano, que deve ser tratado como tal e não como um objeto.

Assim não podemos concordar com Huntington: “Eleições abertas, livres e imparciais são a essência da democracia, o inescapável sine qua non. Governos eleitos podem ser ineficientes, corruptos, de visão estreita, irresponsáveis, dominados por interesses específicos e incapazes de adotar as políticas exigidas pelo bem público. Tais características podem tornar tais governos indesejáveis, mas não os tornam não-democráticos” (Huntington, 1994: 19). Segundo a caracterização feita acima classificar um país na categoria democrática nada significa, nada explica sobre a natureza do regime político vigente.

A segunda condição é uma luta contra o despotismo, esteja ele no campo da vida privada ou pública. Assim, a democracia tem que gerar um ambiente favorável à organização social, a partir do crescimento do indivíduo. Isso quer dizer não ceder às expressões das vontades individuais injustificáveis, retomando os preceitos da fraternidade, educando os cidadãos para que percebam que sem um horizonte cultural coletivo não há espaço para projetos individuais. Em uma sociedade na qual elites despóticas controlam maiorias em detrimento de minorias sociais, econômicas, étnicas ou sexuais, não há valor explicativo em eleições regulares.

O funcionamento da Democracia exige um ambiente competitivo, racionalmente construído. Minorias despóticas que venham a manipular o espaço público e os meios de comunicação social em favor próprio, subvertem os princípios da convivência de conflitos regulados por manifestações eleitorais periódicas, gerando arbitrariedades intoleráveis ao regime democrático.

Finalmente, a terceira condição para que a Democracia acerte as contas com seus valores é um recolocar-se frente ao significado da liberdade nos dias de hoje. A liberdade tem sido assumida por nós no seu sentido passivo de manifestação da vontade e não no seu sentido ativo de construir o porvir.

Talvez isso explique a inexistência das utopias sociais no final do segundo milênio. É decepcionante olharmos para a entrada do novo século guindados pela falência das utopias liberais, quer de esquerda quer de direita, como nos lembra Wallerstein (Wallerstein, 1995).

Afinal, no término do milênio anterior certamente os liberais de esquerda empolgavam-se no discurso de uma sociedade sem classes, e os de direita dormitavam embalados pelas profecias de Alfred Marshall: “O problema não é se , em última análise, todos os homens serão iguais -- certamente que não o serão -- mas se o progresso não pode prosseguir firmemente, mesmo que vagarosamente, até que, devido à ocupação ao menos, todo homem será um cavalheiro. Afirmo que isto acontecerá”. (Marshall apud Marshall, 1967: 59). Considerando-se que o termo cavalheiro, lord, tem o status de cidadania plena com relação aos direitos civis e políticos, podemos entender o porvir preconizado por ele.

No entanto, para podermos pensar estratégias de mudanças para o próximo milênio, devemos nos lembrar que mudar significa responder a três perguntas que trabalham sob lógicas discursivas distintas.

Primeiro temos que responder à pergunta: o que mudar? Todo argumento desenvolvido neste texto aponta para “valores” que nos podem orientar no diagnóstico racional do cenário em que estamos mergulhados, segundo às particularidades histórico-culturais concretas em que vêm se estabelecendo de fato a construção da nossa Democracia. Embora estejamos repletos de “teorias” gerais de explicação ampla, o processo de rápidas mudanças no mundo do trabalho, que têm acompanhado o processo de globalização econômica via deslocamentos de capitais especulativos transnacionais, tem colocado complicadores para desarmar as respostas prontas.

Uma análise desapaixonada da realidade em que vivemos tem que responder, frente aos desafios da economia-política do próximo milênio, quem serão os atores sociais responsáveis por transformações sociais significativas; quais os apelos que os motivarão à ação; que novas formas de instituições os reunirão? A partir da depreciação dos organismos estatais de manutenção de serviços públicos, que passarão para outros tipos de contratos de gestão, como será a participação dos eleitores-cidadãos na garantia de qualidade no atendimento de demandas? O que significarão as ONGs (Organizações Não Governamentais) no traçado de políticas estratégicas, voltadas à preservação do planeta, da prestação de serviços essenciais e de assistência ao cidadão? E assim por diante.

A segunda pergunta a ser respondida é para o que mudar? Se nós não conseguirmos construir apaixonadamente uma utopia que nos coloque na vanguarda das transformações sociais, não há chance de atingirmos o nosso porvir. Aqui a profissão de fé tem que ser no sentido de construir aquilo para o que fomos convencidos pela nossa razão comunicativa, desde os primórdios do iluminismo: libertos de Deus os homens terão nas suas próprias mãos os seus destinos, para fazê-los mais justos, mais equânimes, mais livres e mais fraternos.

Hoje perdemos terreno para as novas igrejas, para os fundamentalismos, para os antigos totalitarismos, para as violentas manifestações da xenofobia em todos os recantos do mundo. Precisamos avivar a mitologia e a ritualística da Razão, ascender às origens de nossas culturas, nos debruçar no exercício hermenêutico da sociedade moderna em que vivemos.

Last but not least, temos que responder como provocar a mudança? Como construir um caminho seguro partindo do cenário atual e chegando àquilo que identificamos com a nossa utopia? E aqui eu voltarei ao meu início: Machiavel.

O fiorentino na sua época, partindo das práticas políticas vigentes construiu a sua utopia: a construção de um Estado italiano. Príncipe sem armas, apesar de sua passagem pela vida pública, Machiavel não viu sua utopia realizada, mas influenciou toda a Ciência Política que nasceu de seu esforço em compilar e entender sua experiência.

Legou-nos ainda duas chaves para abrirmos os segredos da ação política. Nem só o paradigma do comportamento racional dos atores individuais (voluntarismo); nem só a sobredeterminação de sistemas econômicos, políticos, sociais, culturais ou simbólicos (determinismo estrutural). Ambos: virtù e fortuna, segredos complementares para a criação da occasione (Bizelli, 1992).

O indivíduo forjado na luta desenvolve competitivamente os seus padrões de resposta e, ao mesmo tempo, está submetido às condições da vida material, às regras ditadas por estruturas sobre as quais ele não exerce influência individual.

Mas quando a ocasião se apresenta, como Machiavel descreve no último capítulo de “O príncipe”, o ator individual encarna as vontades coletivas, as identidades coletivas e é capaz de provocar mudanças.

Como diria Gramsci temos que manter o pessimismo na inteligência e o otimismo na ação!



Bibliografia
BALL, T. - Is there progress in Political Science? Idioms of Inquiry. New York: New York Press, 1987.
BIZELLI, J. L. - A ocasião para o Príncipe. Perspectivas, n° 15. São Paulo: EDUNESP, 1992.
BIZELLI, J. L. - Los Estados Latinoamericanos Frente al Proceso de Globalizacion. Libro eletrônico del I Congreso Europeo de Latinoamericanistas. Salamanca: CEISAL, 1996.
ELSTER, J. - Marxismo, Funcionalismo e Teoria dos Jogos. Lua Nova, no 17. SP: CEDEC, 1989.
HUNTINGTON, S. P. - A terceira onda: a democratização no final do século XX. São Paulo: Ática, 1994.
KUHN, Th. - A estrutura das revoluções científicas. São Paulo: Perspectiva, 1991 (3° edição).
LAKATOS, I & MUSGRAVE, A - A crítica e o desenvolvimento do conhecimento. São Paulo: CULTRIX, 1979.
LAUDAN, L. - Progress and its problems. Berkeley & LA: University of California Press, 1977.
MARSHALL, T. H. - Cidadania, classe social e status. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1967.
WALLERSTEIN, I. - La reestructuración capitalista y el sistema-mundo. Conferencia Magistral (XX Congreso de la ALAS). México: 1995.


©principo.org 2016
enviar mensagem

    Página principal