Para Onde Vamos?



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"Para Onde Vamos?"
Texto de Jorge Figueira (em Veneza)
PÚBLICO - MIL FOLHAS, nº  6072 | Sexta, 15 de Setembro de 2006
Talvez seja uma das muitas consequências culturais do 11 de Setembro. A verdade é que após décadas em que o debate se centrou à volta de questões formais - a "linguagem" (anos 80), a "desconstrução" (anos 90) - é cada vez mais notório o regresso à política, e a tentativa de reformular uma "função social" para a arquitectura. Na 10ª edição da Mostra Internacional de Arquitectura da Bienal de Veneza, a decorrer até 19 de Novembro segundo o tema "Cidades. Arquitectura e Sociedade", é esse o pressuposto central. O comissário geral do evento, Richard Burdett, convoca 16 metrópoles - São Paulo, Los Angeles, Bogotá, Cairo, Londres, New York, Tokyo, Shangai, Istanbul, entre outras - que analisa e radiografa com dados estatísticos, imagens e sons. 
Trata-se de uma apologia destas cidades, reflectindo problemas mas pretendendo inspirar oportunidades. "75% das pessoas viverá em cidades em 2050", diz Burdett, "a maior parte em cidades mega". O que significa esta vastidão? Como intervir? Burdett destaca projectos de âmbito social, como o programa de construção de 100 novas escolas em favelas de São Paulo. 
A compilação de dados que as novas tecnologias facilitam e sedutoramente comunicam é hoje o equivalente aos estudos, levantamentos, e gráficos que a partir dos anos 50 começaram a dinamitar a raiz formalista da arquitectura moderna. 
Nesse sentido, estaremos também hoje num ciclo anti-formalista, onde se pretende que a "análise", a "experiência", e a "vivência" conte mais que a forma. Aliás, isso de alguma forma já estava presente no premiado Pavilhão da Bélgica da anterior edição da Bienal (2004), cuja exposição "Kinshasa, Uma Cidade Imaginária" fazia a apologia da cidade espontânea. 
Este ano, a proposta do Pavilhão da França, "Metávilla", comissariada por Patrick Bouchain e contando com a participação do grupo de arquitectos e designers gráficos "EXYZT", é talvez a que mais radicalmente expressa o "ar dos tempos". O Pavilhão foi "ocupado" por este grupo de arquitectos que durante o tempo da Bienal aí vive e faz a "revolução". O edifício historicista da França é interrompido por estruturas tubulares que conformam precariamente espaços de atelier, de dormir, e cozinha; atravessando a cobertura, criam áreas de sauna, duche e repouso. Os visitantes são habitantes temporários da "ocupação". Esta intervenção é entendida como um "acto arquitectónico". 
Por outro lado, o clima de inquiração, perplexidade e de turbulência que se vive na Bienal está bem patente na exposição "C On Cities", organizada pela "C Photo Magazine", documentando a já antiga relação entre a fotografia e a arquitectura. Em particular, a reconstrução digital de imagens reais - um edifício que sangra (em Caracas), um bairro de lata atravessado por arquitecturas desconstrutivistas ("Heliopolis") - usam a arquitectura para expressar o sentido de desenraizamento contemporâneo. 
Mas há também um plano mais conservador ou disciplinar na 10ª edição da Bienal de Veneza. A exposição "Cities of Stone", comissariada por Claudio D"Amato, é uma celebração das civilizações mediterrânicas Gregas e Romanas, procurando uma alternativa contemporânea a formas de arquitectura "despidas de memória" e "desviadas da tradição". A representação holandesa, "Seeing is knowing", comissariada por Aaron Betsky, exibe "perspectivas de cidades" de Berlage, M. de Klerk, Oud, Bakema, entre outros, remetendo-nos para um momento onde era possível imaginar a realidade urbana como um todo, e convocando o extraordinário património da arquitectura holandesa do século XX. 
Talvez por ligar estas duas frentes - uma mais "política", outra mais "disciplinar" - a representação espanhola "España (f.) Nosotras, las Ciudades", comissariada por Manuel Blanco, é das mais eloquentes da Bienal. Um conjunto de mulheres fala cruzadamente em vídeo, através de gestos e legendas, testemunhando actividades diversas no usufruto e construção da cidade. A mulher surge como "performer" da cidade, gerindo e experimentando, desenhando e construindo, naquilo que é simultaneamente um "statement" político, e um tema gráfico muito forte. 
Para lá da representação oficial portuguesa, Lisboscópio [ver texto na página seguinte], a exposição "Habitar Portugal", comissariada por José António Bandeirinha, está patente na Fundação Marcello até ao dia 19 de Novembro enquanto evento "colateral". Trata-se da selecção de 18 obras de uma exposição maior que está a ser organizada pela Ordem dos Arquitectos, e documenta o registo qualificado e profissional da melhor arquitectura portuguesa. O que está em questão em "Habitar Portugal" é, de facto, a "qualidade" absoluta das obras, e não qualquer discurso sobre a arquitectura. De qualquer forma, sem ser deliberado, o silêncio desta exposição permite-nos perceber o melhor que a arquitectura portuguesa consegue contemporaneamente: uma tradição segura de projecto, sínteses belas, objectos qualificados. Ilações políticas, ou societais, ou culturais, não são claras; estarão seguramente implícitas nas arquitecturas. 
Todavia, o desafio desta Bienal é a possibilidade de se reencontrar um destino "social" para a arquitectura. E, em certo sentido, é isso que esteve presente nos dois debates que se realizaram no Teatro Piccolo Arsenale, no passado dia 8: o primeiro com a participação de Paolo Portoghesi, comissário da lendária 1ª Bienal de Veneza ("A Presença do Passado", 1980) e o segundo com a participação de Rem Koolhaas, Jacques Herzog, e Richard Burdett. 
No primeiro debate, Portoghesi afirmou que a mostra "Cities of Stone" significava o "regresso de Itália" à Bienal, e fazendo equivaler "contemporâneo" a "porcaria", desejava o regresso da história, invocando o exemplo de Aldo Rossi. No segundo debate, a contemporaneidade entrou na sala sob a forma de Koolhaas e Herzog, expondo o primeiro a sua leitura do "Golfo" como um novo território para a arquitectura, e o segundo elaborando sobre "a crise das cidades suíças". Nestes dois debates pairou, de facto, um entendimento político da arquitectura: através de uma espécie de recuo historicista, ou entrando no coração do contemporâneo. 
A pergunta que dá o nome à exposição actualmente patente no Palazzo Grassi, "Where are we going?", atravessa também a 10ª edição da Bienal de Veneza.

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