Para uma ediçÃo crítica de ulisses de jayro josé xavier



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PARA UMA EDIÇÃO CRÍTICA DE ULISSES DE JAYRO JOSÉ XAVIER
Jaqueline Vanessa Barbosa de Melo - Universidade Federal Fluminense

Orientadora: Profª Drª Deila Conceição Peres


Mesmo sem naus e sem rumos,

Mesmo sem vagas e areias,

Há sempre um copo de mar

Para um homem navegar.

(Jorge de Lima. Invenção de Orfeu:II, 9-12.)
Jayro José Xavier, professor de Língua Portuguesa da Universidade Federal Fluminense em Niterói, RJ, iniciou sua carreira literária nos anos setenta com o livro de poesia Idade de Urânio, com prefácio de Antônio Houaiss, pela editora Cátedra e mais tarde lançou Enquanto vivemos, pela editora Achimé com prefácio de Alfredo Bosi, também de poesia.

Sua primeira obra em literatura para crianças e jovens foi Estória de uma Vaquinha, em 1987, da Editora Globo, uma poesia em que o lirismo tece a singela travessia da vaquinha Mocha pelo mundo. No ano seguinte, foi a vez de Ulisses, Editora Melhoramentos, narrativa que, com forte sentido místico”, traça a travessia de um menino através da noite, tendo para isso, que vencer seus medos até alcançar o sono. O personagem se reveste de um caráter de alusão ao Herói de Homero, também Ulisses, e outros elementos do clássico passam a figurar nos caminhos do menino.



Ulisses recebeu vários prêmios, entre eles, Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA)em 1988 e da Fundação Nacional do Livro Infanto-Juvenil Como altamente recomendável, em 1989.

Segundo depoimento do autor, “A minha idéia era escrever três livros” chamados “Três em trânsito, a vaquinha dentro da noite, outro personagem em travessia, desanimei um pouco e fiquei com os dois: Estória de uma vaquinha e Ulisses”.

O autor, que lê de tudo um pouco, tem entre os autores brasileiros referências em Manuel Bandeira, Carlos Drummond de Andrade, João Cabral, Cecília Meireles, Graciliano e Machado, lê filosofia, psicologia, gramática, botânica, e quanto a escrever para adultos ou para crianças, o autor nos diz que:

Eu não quis fazer literatura infantil, mas sim uma literatura que também uma criança pudesse ler ou ouvir. Acho que o ideal da arte é uma arte capaz de agradar criancinhas até velhinhos. Eu tenho como modelo para isso Chaplin que é capaz de fazer um filme que o adulto vê com extremo prazer, vê beleza nele, mas também agrada uma criança, uma criança pode ler uma narrativa daquelas. (...) Espero que também um adulto dentro de uma Estória de uma vaquinha se veja de alguma maneira fazendo essa travessia sozinho, se entregue a essa solidão que é a solidão do ser que atravessa o seu tempo.

Assim é que o Poema Ulisses traduz todo o encanto da história de um menino, que – por temer atravessar a noite – entra, pela narrativa do pai, no mundo da fantasia. Para Ulisses, aquele momento – a noite – era a hora difícil de aventurar-se pelo desconhecido. Antes desta viagem, era preciso vencer o medo: “canto para um menino atravessar a noite”, como se observa nos títulos abaixo:
A Tít.: ULISSES/história para ninar meninos

B Tít.: ULISSES/canto para ajudar um menino a atravessar a noite

C Tít.: ULISSES/ canto para ajudar um menino a atravessar a noite
O registro, segundo o método da Crítica Textual:

A:[Segue-se ao título]: história para ninar meninos
No Poema, o narrador, pela óptica de um presumido leitor, faz referências a Ulisses, herói de Homero, perseverante, seguro da vitória na linha de chegada. A figura do mito de Ulisses ultrapassa o âmbito do universo grego e se converte em um símbolo da capacidade do homem para superar as adversidades. Tal como o menino Ulisses: fazer uma viagem da noite sem medo, enfrentando as dificuldades diante da noite.

No Poema, o medo – ou insegurança – de atravessar desafios não tem idade pré-estabelecida. O menino é sempre o mesmo, só variam os medos. A importância de o adulto passar confiança à criança em seus medos (por mais que não os valorizamos) faz deste menino – que é eterno – um verdadeiro vencedor de piratas. Este novo Ulisses aprende a navegar. Aprende a vencer suas inseguranças diárias.

Mas a escrita também é um “fenômeno” da insegurança, do eterno fazer, “corrigir”, a busca da palavra mais precisa, é um processo “torturado”. Aqui entra a área de conhecimento Crítica Textual que provoca uma leitura por “dentro da obra”, quantas escritas foram feitas pelo autor, qual seria a definitiva versão, aquela finalmente vem para as mãos dos leitores.

O texto de base é a 3ª versão, ainda inédita, levando-se em consideração uns dos critérios de Crítica Textual que é de optar pela última edição em vida do autor.


Versão de cotejo A: 1988

Versão de cotejo B: 2002 (datiloscrito)

Versão de base C: 2003 (ainda inédita)
Como se pode observar na versão C em que o autor revê seu texto com vistas a uma possível nova edição, na página 57-59 nos versos 97 a 104:

Conta um velho marinheiro

que o navio do menino

todo dia vai a pique sob o fogo dos piratas

mas o menino não morre.

O menino

(todo menino)

é eterno.
Esta travessia através do medo é comparada ao mar. Muitos são os anos que nos afastam da Era de Ulisses, maior nossa tecnologia e conhecimento, no entanto, é o mesmo mar: enorme, misterioso e rumoroso. Assim descrito nas passagens das versões A, B, e C:
C28 a 33: Ulisses amava o Mar

e seu rumor

morava dentro de Ulisses.

Mas só dentro

(como dentro.

de uma concha).


A28 a 33: [Não Há]

B28 a 33: Havia, é verdade, o Mar

e seu rumor

morava dentro de Ulisses.

Mas só dentro

(como dentro

de uma concha)



B 28: Havia, é verdade, o

B 33: [Alinhamento justificado]
Reúne à noite os temores do menino sentir medo e expressá-lo faz parte do desenvolvimento de Ulisses, além disso, é uma característica do ser humano funcionando como um mecanismo de defesa. Por ser desconhecido o percurso após o sono, aí mora o medo da noite, onde dormimos e vamos dar em praias várias, muitas vezes sem ilha alguma. Assim lemos, nas passagens com variantes dos textos A, B, C:
C 34 a 40: Da janela em que vivia

dia e noite

noite e dia

não se avistava uma ilha,

nem,

ao longe,



a linha pura do mar.
B 24 a 40: Da janela em que vivia

dia e noite

noite e dia

não se avistava uma ilha

nem,

ao longe,



a linha pura do mar.
B 37: ilha_

B 38: [Outra página]
A 24 a 40: Da janela em que vivia

dia e noite,

noite e dia,

não se avistava uma ilha.

Nem

ao longe


a linha pura do mar.
A35: noite,

A36: dia,

A37a 39: [Outra página]

A37: ilha.

A38: Nem_

A39: [Alinhamento justificado]:

longe,_


Ulisses vence seu medo (adormecendo) quando encontra a proteção no pai. E o carinho da mãe que dá a acolhida necessária para que atravesse de fato a noite e aí – e só então – Ulisses consegue percorre novos mares.

Tudo é atraente pela poesia em si e nas imagens fornecidas através do território do faz-de-conta da infância. A poesia contém o jogo de oposições pelas quais o menino é inserido: Ulisses vive no Encantado que deveria ser um conto de fadas ou seja um mundo de contos, mas que na realidade ele vive em um mundo do Desencanto. Quando se narra um conto e se fala; “Era uma vez”, a criança se transporta para um tempo especial, um tempo sagrado que a leva também a encarnar o papel do herói ou do príncipe. Como se pode observar nas passagens do texto A, B, e C com variantes:


C 5 a 10: era apenas um menino

que vivia

no Encantado

(ou noutro canto de um mundo

de onde as fadas se foram

para sempre).


C 50 a 58: Assim vivia o menino

- sem gosto e com

um gosto de sal na boca –

ali


naquele último andar

do Desencanto.


E assim viveria

se eu


não te contasse o que conto.
B 5 a 10: Era apenas um menino

que vivia

no Encantado

– ou noutro canto do mundo

de onde as Fadas se foram

para sempre .



B8: __ - ou / canto do __ mundo

B9: Fada

B10: sempre__ .
B 50: Assim vivia o menino

B 51/52: [Não Há]

B 52 a 58: ali

naquele último andar

do Desencanto.

E assim viveria

se eu

não te contasse o que conto.


A 5 a 10: era apenas um menino

que vivia no Encantado

(ou noutro canto do mundo

de onde as fadas se foram pra sempre).


A6/7:[Mesmo verso]

A8: canto do _ mundo

A 50 a 58:[Não há]
Existe uma desilusão em relação ao mundo encantado em que Ulisses vive. O autor utiliza do artifício da pontuação exclamativa para reforçar a idéia do tempo sem beleza, sem a graça do mundo encantado:
C 35: Era um tempo sem beleza!

A 35: Era um tempo sem beleza!

B 35: Era um tempo sem beleza.

B 35: beleza.

Utilizando personagens de Homero, ocorrem alusões à mitologia, interagindo a narração com os símbolos do mito, afirmando-a ou negando-a: retrata em Penélope o porto seguro, as melodias das Sereias sob forma de encantamento, e até mesmo ao cão de Ulisses, citado na passagem a seguir, verso 24/25: “Nem tinha um cãozinho alegre/para lamber-lhe as orelhas”.

Pode-se observar que a narrativa faz uma possível referência ao cão Argos de Ulisses na Odisséia, Argos reconhece o seu dono – Ulisses – depois de um intervalo de vinte anos afastados, tal como se observa na passagem da Odisséia, no livro de Homero:

(...) não menos havia de emocioná-lo uma outra, de feição bem diversa e inesperada. Trata-se do cão Argos:

E um cão, que estava deitado, erguendo a cabeça,

eriçou as orelhas: era Argos que o paciente Ulisses havia

criado antes de ir para a sagrada Ílion (...)

Abandonado na ausência de seu senhor, rolava diante do portal

Sobre os estrumes das mulas e dos bois.

Ali estava deitado Argos, comido das carraças.

Vendo aproximar-se Ulisses, agitou a cauda e baixou a cabeça.

Faltaram-lhe força para chegar até onde estava seu senhor.

Este, voltado a cabeça, chorou...

(Od. XVII,291-304 apud BRANDÃO, 1995, p.316 )



O tempo pode estar vinculado no dia-a-dia e dos anos, na forma articulada dos calendário, ou livre no pensamento e memória, mergulhado no passado, inventando o futuro com um poder além da imaginação.Com isso, pode se observar, um grande corte na narrativa, segundo o verso 91, do texto de base: “Quantos anos se passaram...

Nesse verso, parece que há toda uma vida narrada ou seja de tudo que não foi contado ou poderia ser contado na poesia. Nós sabemos que, no princípio da história, existe um menino que sonha com a viagem e depois temos o final a idéia de que esse menino fez essa viagem, superando seus “afundamentos e naufrágios.” Com esse verso, chega-se a uma grande elipse: toda uma vida está contida nesse momento, naquilo que é narrado no início e depois é narrado no final.

Conta-nos o autor “Quantos anos se passaram... no filme a Odisséia no espaço, há um personagem que joga o osso para cima, que gira e vira uma nave... há toda uma enorme experiência que não precisa ser relatada. É uma elipse da própria espécie humana.”

A função poética é a “geradora” da linguagem, ressoando no leitor um poema denso, pleno de sentido propício dentro de uma forma sensível, intuitiva, mas trabalhada, só possível pelo envolvimento da subjetividade do receptor. O livro consegue nos mostrar as várias formas do olhar ansioso e temeroso do universo humano.

Cada leitor, pois, deve buscar em si um pouco do convite de vencer os desafios visitados em Ulisses que, quando preservado, mais significativa e independente dos mares se torna a viagem.


Bibliografia
XAVIER, Jayro José. Ulisses. Rio de Janeiro: Melhoramento, 1988.

BRANDÃO, Junito de Souza. Mitologia Grega. 2ª ed., Petrópolis:Vozes,1995. 3º v.



HOMERO .Odisséia. Rio de Janeiro: Ediouro, 2002.RICARDO, Cassiano. Martim Cererê (O Brasil dos meninos, dos poetas e dos heróis), Edição Crítica: PERES, Deila Conceição et alii Antares/INL/ EDUFF, 1986.


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