Para uma poética do século XVI



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Para uma poética do século XVI

Poéticas do testemunho – a correspondência entre Heitor da Silveira e André Falcão de Resende



Izabela Guimarães Guerra Leal

O presente trabalho procura investigar a correspondência entre André Falcão de Resende1 e Heitor da Silveira2, composta por duas cartas assinadas pelo primeiro e endereçadas ao amigo e cunhado, com as respectivas respostas do segundo. Nosso interesse é tentar averiguar em que medida podemos falar na emergência de uma subjetividade na referida correspondência, o que a tornaria não apenas o retrato histórico de uma época, nem tampouco uma mera repetição de tópicos e ideologias do Renascimento, mas sim um lugar de inscrição de um sujeito que utilizaria a escrita como momento de reflexão sobre a vida e o mundo.

O período compreendido pelo século XVI em Portugal foi extremamente conturbado, com muitas mudanças em todos os níveis da sociedade. A conquista de novas terras transformou o pequeno país que era Portugal num grande império de fronteiras alargadas, alterando radicalmente a estrutura política e econômica do país. A sociedade feudal, baseada na posse da terra, deu lugar a uma sociedade mercantil, que tinha como eixo principal a circulação de mercadorias, resultando no aparecimento e no fortalecimento de uma nova classe social: a burguesia. Essa ampliação do comércio teve como conseqüência a busca de ouro, prata e de toda sorte de mercadorias valiosas, gerando também uma mudança de valores na sociedade da época. Do ponto de vista cultural, houve a formação de um novo tipo de saber, decorrente tanto das novidades trazidas do exterior com o Renascimento italiano, como também da própria experiência das viagens ultramarítimas, que representaram o encontro com o inesperado, com realidades nunca antes vistas ou imaginadas.

O desmoronamento das antigas certezas e do molde tradicional de vida produziu insegurança e perplexidade. A produção literária da época começou, então, a refletir uma visão de mundo calcada nas idéias de mudança e de desconcerto. Essas duas faces da instabilidade da vida tornaram-se temas privilegiadíssimos na produção poética do século XVI. E o poeta tornou-se aquele que, suportando as adversidades, fez da poesia um lugar de reflexão e de aprendizado.

Assim, procuraremos mostrar de que forma a correspondência entre os autores citados implica numa postura ética de ver e pensar o mundo, observando alguns pontos de semelhança com outros autores da época. A mencionada correspondência está pontuada por referências pessoais que muitas vezes tomam a forma de uma confissão, fato esse que, no nosso entender, não é apenas uma prova da intimidade entre os autores, mas sim o esforço de um sujeito para compreender e suportar os desígnios de um destino que lhe parece insondável. A transformação da experiência pessoal em texto, empreendida por esses autores, é o que nos permite apontar para um indivíduo que reflete sobre si próprio, atitude que só se consolidará como um gênero na literatura muitos anos mais tarde, como mostra Philippe Lejeune em Le pacte autobiographique, com o advento do Romantismo.


HUMANISMO E EXPANSIONISMO
Vertentes da cultura expansionista
O século XVI em Portugal foi um período marcado por enormes transformações que repercutiram de forma determinante nos diversos segmentos da sociedade. Luis Felipe Barreto, no artigo intitulado "Fundamentos da cultura portuguesa da expansão"3, aponta a existência de três vertentes que formaram a cultura renascentista portuguesa: a escolástica, o humanismo e o expansionismo. A escolástica era, na verdade, a cultura hegemônica e não apresentava um caráter renovador, mas sim conservador, uma vez que fornecia as bases da cultura portuguesa muito antes das influências humanistas e expansionistas. Se buscamos falar de inovações ocorridas no século XVI, elas devem ser procuradas do lado das outras duas vertentes apontadas.

É importante lembrarmos que o humanismo e o expansionismo não são duas correntes excludentes. É claro que há um humanismo dissociado dos valores e aspirações expansionistas, que se manifesta através das inovações que chegam a Portugal por via de uma importação, e estamos aqui aludindo às novidades decorrentes do Renascimento italiano; mas há ainda uma outra espécie de mudanças, essas originadas no próprio solo português, e que não contribuíram menos para uma radical alteração da situação política e econômica do país. Ora, se as primeiras estão relacionadas a uma valorização das letras e da cultura greco-latina, isto é, a uma aquisição de ordem intelectual baseada nos saberes dos antigos, as segundas devem-se à grande aventura dos descobrimentos e estão muito mais ligadas a um saber prático do que a um saber teórico que poderia ser encontrado nos livros. Vislumbra-se, então, uma possibilidade de agir sobre a natureza, de buscar novos conhecimentos e instrumentos que tornem o homem capaz de dominá-la, em suma, de sustentar uma atitude ativa perante a vida e o mundo. Essa segunda corrente põe em cena um humanismo de outra ordem, pois, mesmo que abrisse mão dos suportes concedidos pela Antiguidade, a ideologia expansionista repousava numa importância central concedida ao homem, ou seja, na valorização das suas capacidades e potencialidades, o que apontaria para um antropocentrismo.

Entretanto, as conseqüências produzidas por essas duas faces inovadoras do Renascimento não atingiram da mesma forma a sociedade portuguesa do quinhentos. Do lado do saber livresco, percebe-se a lenta introdução em Portugal dos valores humanistas, passando até por uma desvalorização das letras, que só foram adquirir a importância merecida a partir de 1530. Os homens de letras, para suprirem a lacuna educacional de seu país, partiam para estudar nas universidades estrangeiras. A implantação do classicismo deu-se, então, através da incorporação de seus valores à cultura eclesial dominante. Do lado do saber prático, constituía-se uma outra maneira de lidar com o legado dos antigos, pois estava a formar-se uma mentalidade estruturada a partir das experiências dos navegadores que descortinavam um novo mundo. A formação desse novo saber, ao contrário do que ocorria com o classicismo, realizava-se num ritmo bastante veloz.
A valorização da experiência
Nesse momento surgem inúmeras obras com descrições geográficas, antropológicas ou mesmo científicas, como a descrição de plantas e ervas medicinais nos Colóquios dos simples e drogas da Índia, de Garcia de Orta. Para esses exploradores de novos horizontes, o que havia de mais verdadeiro não era aquilo que estava nos livros, mas sim o que poderia ser atestado a partir de suas próprias experiências. A importância da experiência na formação desse novo modelo de homem aponta para o surgimento de uma individualidade, já que se trata de um sujeito que vem contestar, e não aceitar, passivamente, o saber que lhe é legado. A visão e a observação da realidade tornam-se, então, fatores cruciais para o conhecimento do mundo, vide os relatos de viagens terrestres e marítimas como a carta de Caminha endereçada a D. Manuel a respeito do "achamento" do Brasil. Como observa José Mattoso,
A atitude mental que ditou este e outros passos revela uma profunda mudança na relação do homem com o Mundo, e ao afectar radicalmente a concepção da pessoa, a consciência da individualidade, abre caminho para a teorização antropocêntrica que tipifica o humanismo. Um humanismo que, no caso vertente, ao invés de se comprazer no programa de imitação e restituição dos antigos, em que se havia empenhado a corrente classicista, surge animado de um impulso ascendente, virado para o futuro, [...]que, desde o limiar do século XVI, se apoderou dos homens ligados à Expansão.4

É interessante observarmos como a vertente do humanismo – pensado aqui no seu sentido erudito, que recebe a influência de Erasmo, por exemplo – e a da expansão podem estar associadas ou isoladas de forma a produzirem efeitos muito díspares na cultura e nas produções literárias da época. Assim é que um relato de viagem, ou até mesmo uma obra literária que louve os grandes feitos da expansão e veja nela uma espécie de missão civilizadora, isto é, a conversão dos povos bárbaros ao cristianismo, reúne esses dois núcleos da cultura do quinhentos. Essa visão ocorre, de acordo com Silva Dias5, nas obras de Gil Vicente, João de Barros e André de Resende, entre outros, que imbuíam a expansão com valores de epopéia e cruzada. Ao contrário, se excluirmos o louvor da expansão, teremos obras que apresentam um olhar crítico a respeito da ideologia expansionista e mercantil do século XVI, de forma a apoiar esta crítica nos princípios classicistas, vinculados ao louvor de uma vida simples e guiada por valores de forte cunho filosófico que repousavam num tipo de estoicismo, isto é, numa orientação moral voltada para a moderação e para a condenação da cobiça. Entre os poetas portugueses, Sá de Miranda e gracia de Resende foram os primeiros a adotar esse tipo de atitude.


Cultura cristã X cultura pagã
Curiosamente, os princípios éticos do classicismo, apesar de estarem relacionados a uma filosofia pagã, coexistiram, durante um certo período, de forma bastante harmoniosa com a cultura cristã, de modo que André de Resende chegou a defender abertamente a convivência pacífica entre "os clássicos cristãos" e os "clássicos pagãos". Este momento de vigor da cultura humanista teve o seu apogeu com a reforma da Universidade, empreendida durante o reinado de D. João III, que culminou com a criação do Colégio das Artes, representando um passo determinante para a modernização do país, uma vez que promoveria a instalação de uma instituição educacional laica. Entretanto, esse impulso de modernização foi fortemente abalado pela instauração do Concílio de Trento e pelo estabelecimento da Inquisição em Portugal em 1547, e as aspirações em prol da instituição de uma cultura humanista cristã foram totalmente sepultadas quando os jesuítas assumiram a direção do Colégio.

A combinação entre os valores cristãos e a filosofia latina poderá ser observada na correspondência de André Falcão e Heitor da Silveira, manifesta em temas recorrentes como o desprezo aos bens mundanos e a valorização dos bens espirituais, sendo que a poética de ambos já aparecerá colorida de um tom bastante melancólico e sombrio, em que a tristeza é a tônica dominante. Américo da Costa Ramalho, num livro intitulado Camões no seu tempo e no nosso6, relata a existência de uma "moda" da tristeza, mas temos que lembrar que estamos tratando de dois poetas que atravessaram enormes dificuldades financeiras, enfrentando até mesmo a fome e a miséria.7 É com relação a um Portugal que se afunda no sentimento de desilusão – motivado pelas dificuldades econômicas que o país enfrenta para sustentar toda a conquista imperial realizada até o momento – que Camões escreverá n'Os Lusíadas a respeito de uma pátria mergulhada numa "austera, apagada e vil tristeza".8

Desse modo, se podemos observar na vertente ligada ao projeto expansionista uma atitude otimista e de crença nas potencialidades do homem – que se refletem justamente no desejo de observar e interrogar a natureza –, o mesmo não se pode observar no projeto humanista despojado da ideologia da expansão, no qual a crença no progresso levado a cabo pelas navegações começa a dar lugar a uma atitude pessimista, que se afirma num descrédito, do ponto de vista moral, em relação aos valores trazidos pelo mercantilismo.

Assim é que Luis Felipe Barreto aponta para o surgimento de diversas teses sobre o sentido e o valor da expansão, teses essas que podem ser inteiramente discordantes no que respeita a uma avaliação ética relacionada às novidades provenientes dos descobrimentos:


É a propósito deste tópico da novidade que melhor surge a ambivalência da doutrina da expansão. No plano do conhecimento toma-se como positiva esta novidade, mas em nível de acontecimento, do comportamento, dos valores éticos e do trabalho, esta novidade é, na maior parte dos casos, julgada como profundamente negativa.9

DESCONCERTO E MUDANÇA


O novo mundo como alteridade
A vivência da novidade introduzir-nos-á a um tópico bastante comum nas obras literárias do Renascimento: o tema da mudança. A descoberta de novas terras e a contemplação de culturas absolutamente diferentes daquelas conhecidas pelos europeus geraram fortes sentimentos de admiração e espanto, que repercutiram em muitas obras literárias do período, como podemos observar no Canto I d'Os Lusíadas com a chegada dos portugueses à ilha de Moçambique: "Que gente será esta, em si diziam, / Que costumes, que lei, que Rei teriam?".10 Há, de fato, uma estranheza proveniente da própria experiência da viagem, decorrente do enfrentamento de situações inesperadas, como as tempestades e os naufrágios; e do encontro de realidades até então inimagináveis, como o canibalismo, por exemplo.

Todas essas novidades trazidas com o expansionismo produziram a sensação de que o mundo estava o tempo todo a mudar. Assim, escreve Garcia de Resende na sua Miscelânia:


Me ocupei em cuidar / e recolher à memória / as muitas e grandes cousas / que em nossos dias passaram / e as novas novedades, / grandes acontecimentos / e desvairadas mudanças / de vidas e de costumes / tantos começos e cabos / tanto andar, desandar / tanto sobir e descer / tantas voltas más e boas / tanto fazer, desfazer / tanto dar tanto tomar / tantas mortes tantas guerras / tão poucas vidas e pazes [...].11
A mutabilidade foi um tema central na obra de Camões12, Sá de Miranda e Bernardim Ribeiro. A este respeito, escreve Helder Macedo: "esse tópico literário da tradição clássica, que o Renascimento europeu redimensionou, serviu a cada um deles para transformar as suas respectivas percepções individuais em representações exemplares de uma consciência nacional em metamorfose."13 O tema da mudança, encenado no Portugal do quinhentos, não é, portanto, apenas uma consideração abstrata sobre o mundo, mas a sensação de um indivíduo que presencia a transformação daquilo que para ele representava um solo seguro: a sua própria pátria.
O descompasso entre Eu e Mim
Paralelamente à mudança, Camões cantou também o desconcerto do mundo. É por se ver sujeito às injustiças, ao destino, ao tempo e à morte que o poeta se interroga a respeito do sentido da vida, acreditando que o mundo não obedece a nenhuma lógica, mas apenas a uma cega desordem. Ora, se neste lugar tão sujeito às intempéries todas as coisas estão em desacordo, não é de se estranhar que Bernardim Ribeiro e Sá de Miranda dêem voz a uma outra problemática: a de um eu que também se encontra em desacordo consigo mesmo, como num desdobramento da personalidade. Esse eu abre um espaço para que se manifeste um descompasso entre Eu e Mim, que culminará na expressão de um "inimigo de mim". Assim, escreve Bernardim Ribeiro, num poema que será comumente glosado: "Antre mim mesmo e mim / Não sei que s'alevantou, / que tão meu inimigo sou."

Do mesmo modo, Sá de Miranda também tematizou a ruptura interna de um sujeito que não consegue sentir-se acomodado em seu próprio tempo e espaço.


Comigo me desavim,

Sou posto em todo perigo;

Não posso viver comigo

Nem posso fugir de mim.


Com dor, da gente fugia,

Antes que esta assi crecesse:

Agora já fugiria

De mim, se de mim pudesse.

Que meo espero ou que fim

Do vão trabalho que sigo,

Pois que trago a mim comigo

Tamanho imigo de mim?14


Diante de um mundo com tanta contrariedade, que sujeita o indivíduo de forma totalmente arbitrária, e da experiência de um tempo irreversível, como encontrar o equilíbrio? Para minimizar os efeitos de um quadro tão dilacerante, Sá de Miranda tece o elogio da vida no campo, propiciadora de austeridade e temperança. Como já dissemos anteriormente, o autor foi um grande crítico da expansão ultramarina, uma vez que esta representava o oposto do que ele acreditava ser o caminho correto. Sua opção pelo bucolismo – Sá de Miranda retirou-se da vida na corte e foi morar com a sua esposa no Alto Minho, onde se dedicou à vida no campo como fidalgo lavrador – é entendida por Helder Macedo não como um passadismo, e sim como uma inovação, "por trazer para o tempo histórico português uma visão de modernidade alternativa, ao utilizar o bucolismo como a imagem inversa das opções políticas e econômicas que Portugal estava em processo de implantar"15. O autor condena a ambição que motiva a busca desenfreada de riquezas, as guerras e a escravidão decorrentes do expansionismo. Compara a vida urbana com a vida no campo e traça elogios à simplicidade da segunda em comparação com a artificialidade da primeira. Esse tópico, como veremos a seguir, será um dos temas mais desenvolvidos na correspondência de André Falcão de Resende e Heitor da Silveira.
A CORRESPONDÊNCIA DE ANDRÉ FALCÃO DE RESENDE E HEITOR DA SILVEIRA:
A mímesis do Renascimento
A leitura corrente a respeito da produção poética epistolar e satírica dos autores portugueses do século XVI normalmente concentra-se numa abordagem que tende para uma certa normatização, seja por tomá-las como documentos históricos que dariam uma visão social, cultural e política da época, como observa Saulo Neiva em seu livro intitulado Au nom du loisir et de l'amitié16, seja por preocupar-se em mostrar até que ponto essa produção poética está vinculada a uma arte do discurso, seguindo por isso determinadas regras e convenções. Esta última estratégia foi a adotada pelo autor que acabamos de citar. Em ambos os casos, há um tipo de perda no que diz respeito à especificidade de cada poeta, e o próprio Saulo Neiva reconhece a existência dessa perda, ainda que não seja o seu objetivo trabalhar sobre as especificidades dos poetas e sim sobre as semelhanças entre eles:

Nous n'avons pas beaucoup insisté sur ces différences car notre objectif principal était de présenter le fonctionnement général de la rhétorique de l'épître chez trois auteurs représentatifs de la littérature portugaise du XVI siècle. Il nous a donc semblé préférable d'attirer l'attention sur les points communs des poèmes étudiés: leur rattachement au modèle horacien, leur appropriation du procédé d'imitation d'un cadre d'échange épistolaire, leur rôle didactique dans la défense des valeurs liées au loisir et à l'amitié...17


A mímesis do Renascimento está submetida, portanto, aos padrões da imitação (imitatio). Ao falarmos em imitação, estamos pensando em toda uma produção poética que procura tomar os clássicos como modelo, ainda que esta recriação comporte também uma série de alterações, ou seja, uma nota pessoal, que o poeta inserirá na fonte sobre a qual se debruçou. Assim é que muitos sonetos – sejam eles de Camões ou de outros poetas do século XVI – imitam os versos de Petrarca, e as epístolas seguem o modelo de Horácio. Do mesmo modo, muitos dos temas nelas desenvolvidos também têm uma influência clássica, como é o caso do tema da amizade verdadeira que se baseia no Tratado da amizade de Cícero.

O período renascentista, como já procuramos assinalar, comporta grandes mudanças de ordem política, econômica e social. A transformação da sociedade implica também na lenta transferência da educação eclesiástica para uma educação leiga, ainda que no Portugal do século XVI o período de duração da educação leiga tenha sido marcadamente efêmero. Como sublinha Luiz Costa Lima no livro Vida e mimesis18, a expansão da educação leiga contribuiu para modificar a própria estrutura social do quinhentos, uma vez que na sociedade emergente as letras ganhavam uma importância fundamental e o homem letrado adquiria um prestígio sobre o homem comum. Desse modo, o autor vislumbra um duplo papel da imitatio:


o de se dissociar do "bárbaro", do incomodamente contemporâneo e o de consolidar, pela irradiação que agora se promovesse, o bom legado dos antigos. [...] Se imitatio nunca significou cópia servil, em troca sempre implicou o aspecto de destacar-se, de constituir para o nome do autor uma genealogia "nobre", separadora do homem de letras da gente vil e vulgar.19
Ressaltam aqui o nome de alguns letrados portugueses, como o já citado André de Resende, que desenvolveu um programa pedagógico no qual elogiava o homem educado, que mesmo sendo de origem plebéia poderia atingir a nobreza através do saber, ao contrário do homem ignorante, que mesmo sendo nobre teria a sua condição social rebaixada. De forma até mais veemente, o poeta e desembargador António Ferreira – que, de acordo com Saraiva e Lopes20, teve a mais completa educação humanística dentre os de seu tempo –, impregnado dos valores morais classicistas, manifestou sua opinião contrária ao vulgo, retomando o tema horaciano do odi profanum vulgus. Ora, se a partir do domínio das letras o homem culto poderá definir-se como sendo mais nobre do que o homem comum, é porque estamos a falar de uma dimensão moral que este conhecimento implica, daí que a produção poética da época apareça indissoluvelmente associada a um objetivo pedagógico.

Ainda que em Portugal não tenham existido muitos textos de reflexão poética, Isabel Almeida, na sua introdução à antologia intitulada Poesia maneirista21, relata-nos a existência de um tratado escrito por D. António de Ataíde, um dos poucos autores a preocupar-se com a teorização acerca da poesia. A autora cita a definição que D. António propõe de poesia – "ua imitação de acções exprimida com peso, conta e medida, a qual procede de um furor poético, cujo fim é ensinar deleitando" – e observa em que medida ela representa uma conciliação entre Horácio, Platão e Aristóteles.

Deixando de lado o que, nesta definição, remete a Platão e a Aristóteles, é na dimensão horaciana implicada na finalidade da poesia – o ensinar deleitando – que nos concentraremos. Como observa Almeida algumas páginas adiante, "a definição de poesia implicou sempre a explicitação de seus propósitos, e raro foi o texto que deixasse de se ocupar do problema."22 A reflexão sobre a finalidade da poesia é justamente o que põe em cena o seu caráter moral, consolidando uma ligação intrínseca da poesia com a retórica, uma vez que o poeta procurará obedecer a determinadas regras para atingir o seu objetivo, que é aconselhar, persuadir ou dissuadir o seu interlocutor. Entretanto, devemos notar que essa dimensão pedagógica da poesia não se separa de uma outra que está atrelada ao prazer, ao contentamento. A poesia não é, portanto, um simples tratado de moral, ela tem também uma dimensão que se relaciona ao deleite, ainda que muitas vezes o caráter moral e educativo ganhe um status de maior importância do que o prazeroso, vide a pouco conhecida obra de Baltazar Estaço, por exemplo.

O aspecto educativo da poesia baseado no modelo horaciano foi plenamente difundido nas obras do século XVI, como observa Saulo Neiva no livro citado anteriormente. Assim é que a Epístola aos pisões, de Horácio, se torna uma referência absolutamente necessária quando se quer apontar para o caráter pedagógico das epístolas. Esse caráter educativo implicará a tomada de certas atitudes, como o desapego dos bens materiais e o louvor de uma vida tranqüila e guiada pela virtude, como já havíamos apontado na obra de Sá de Miranda.

Para além da imitatio
Todos esses tópicos clássicos exaustivamente desenvolvidos nas epístolas do século XVI tendem a dar a impressão de que a redação dessas cartas seria muito mais da ordem de uma convenção do que um ato realmente particular. Gostaríamos, assim, de tentar apontar alguns traços bastante específicos presentes na correspondência entre André Falcão e Heitor da Silveira. A existência desses traços revelaria, a nosso ver, não apenas um exercício retórico cujo objetivo seria pôr em prática os temas poéticos inspirados pelo classicismo, mas sim a necessidade de um sujeito de construir, através da poesia, uma saída para superar as contrariedades do mundo. A dimensão ética dessa correspondência não é, portanto, somente o desejo de educar o semelhante ou extirpar o vício, o que faria da mesma um discurso impessoal ou puramente social; aqui, revela-se uma ética na qual o sujeito que escreve tem sempre algo a ensinar (e a aprender) a partir de sua própria experiência.

A penosa vivência dos cunhados é ainda mais relevante se lembrarmos das duras condições de vida que ambos enfrentaram. André Falcão e Heitor da Silveira não foram poetas que viram apenas observaram a situação do seu país e decidiram censurá-lo. Não foram homens que criticaram a corte ao mesmo tempo em que usufruíam de seus privilégios, mas que viveram à margem dos luxos cortesãos, sem obter reconhecimento.23 Foram indivíduos desiludidos que enfrentaram a contrariedade e procuraram fazer da poesia a ocasião para transformar as dores em oportunidades de reconstrução.

O registro que temos de tal correspondência compõe-se de cinco cartas: a Sátira VIII de André Falcão de Resende a Heitor da Silveira, acompanhada de resposta, a Sátira IX de André Falcão de Resende a Heitor da Silveira – classificada como Epístola I por Joaquim Inácio de Freitas que, no século XIX, fez uma edição do manuscrito original de André Falcão24 – com a respectiva resposta de Heitor da Silveira e a Sátira de André Falcão de Resende a Heitor da Silveira, esta sem resposta. Ambas as respostas foram encontradas entre os manuscritos de André Falcão e estão entre os manuscritos quinhentistas da Biblioteca da Universidade de Coimbra.

Não nos deteremos na discussão a respeito do gênero dessa correspondência: se essas cartas devem ser consideradas como sátiras ou epístolas. De acordo com Vanda Anastácio em Visões de glória ­– uma introdução à poesia de Pêro de Andrade Caminha25, a epístola é um tipo de composição que se inicia do mesmo modo que o cabeçalho de uma carta, incluindo o nome do destinatário, e cujo final também é feito de forma bastante pessoal, com a função de uma assinatura. Além disso, a epístola se propõe a apresentar questões de interesse universal, de acordo com uma abordagem moral. Já Saulo Neiva, no livro citado anteriormente, afirma que a epístola faz o elogio de um modo de vida encarnado pelo autor, tendo como objetivo o ensino da virtude e por isso se dirige a alguém que é do mesmo nível social do autor ou superior a ele. A sátira, ao contrário, condena o vulgo, manifestando um desejo de extirpar o vício, mas seu destinatário é esse mesmo vulgo. "[...] la poésie satirique est écrite contre le vulgaire tout en s'adressant au vulgaire ("contra o vulgo e para o vulgo"), dans un discours dont le thème et le destinataire sont les mêmes."26

Ora, se tomarmos a definição de Saulo Neiva como padrão, as cartas de André Falcão deveriam ser classificadas mais como epístolas do que como sátiras, uma vez que o destinatário é bem específico: o próprio cunhado. Por não considerarmos que a classificação seja um aspecto determinante para a realização deste trabalho, passaremos ao largo destas definições. Vale aqui lembrarmos, mais uma vez, que, no decorrer desta correspondência, André Falcão de Resende estava em Portugal, ao passo que Heitor da Silveira se encontrava na Índia.
Algumas notas pessoais na condenação à cobiça
O contexto no qual uma tal correspondência se desenvolve está relacionado aos conflitos e alterações do mundo que vínhamos apontando: a transformação da sociedade feudal na sociedade mercantil desencadeada pelo expansionismo; o crescimento do comércio com o Oriente; a busca desenfreada de riquezas e mercadorias preciosas e a consciência dos efeitos morais negativos gerados por todo esse processo. Certamente, há uma revisitação dos tópicos horacianos nas cartas trocadas entre os dois poetas, como fica claro, por exemplo, na condenação aos bens mundanos presente na Sátira IX de André Falcão:

Por mais que andeis cursando mar e terra,

Se lá tão longe na alma achaes socego,

Achar-vos-heis na vossa pátria e terra.

Nem vos fará mais rico o grande emprego

Trocado no Pegu, Çofala, ou China

Com retorno de mór desassocego.

Ouro, prata, e a pedraria fina,

Bens mundanos, que a terra os dá e os toma,

Não podem fartar alma, que é divina.27


Crítico ferrenho do expansionismo na esteira de Sá de Miranda, o poeta associa os males de sua época com o desejo desenfreado de fama e fortuna, decorrente das viagens ultramarinas. Por outro lado, a referência à alma e a um plano divino também são tópicos constantes da poesia portuguesa do século XVI, o que se explica pela rígida dominação da Igreja em época de Contra-Reforma. A dimensão moral da poesia do quinhentos promove um cruzamento entre os valores cristãos e a moral dos antigos, sendo que, no caso de André Falcão, a influência dos princípios cristãos parece ser mais determinante: a sua poesia passa, então, a associar a virtude ao louvor a Deus.

Mas o objetivo da carta não se reduz a esse discurso mais generalizante. Sabemos que as epístolas eram escritas em situações de distanciamento entre o autor e o destinatário. No caso das cartas estudadas, a distância não era apenas o elemento desencadeador da correspondência, mas sim o próprio tema da mesma. No exemplo acima, além da finalidade educativa de pregar o desprezo à riqueza e aos bens mundanos, percebemos também um desejo de persuadir o amigo a deixar as terras distantes em que se encontrava e retornar a Portugal.

Do mesmo modo, o lugar-comum da exaltação dos bens espirituais é explorado na Sátira VIII. Em contraposição aos bens materiais, surgem como valores os bens espirituais; bens verdadeiros, que nenhuma adversidade pode destruir:
Com riqueza e tesouros encobertos

A seus amigos Deus não gratifica,

Que são bens de fortuna e bens incertos.

O que da terra é, na terra fica;

Do Céu nos vem o bem, que não perece,

Que nunca mingua, e sempre multiplica.28


Mas é exatamente através desse elogio da virtude e da condenação à cobiça que uma nota bastante pessoal se insere em ambas as cartas do poeta. O tom de pregação normalmente evidenciado em sua poesia é radicalmente alterado a partir do momento em que o autor se reporta à sua própria experiência, deixando de lado um louvor abstrato do divino para elogiar a vida em companhia da esposa.
Que em reciproco amor minha consorte,

Minha doce Norélia, e eu vivamos,

Que mal me póde vir, que eu não supporte?

Os trabalhos, nos quaes nos desvelamos,

Bem amando e soffrendo graves damnos,

Quão doces são, despois que descançamos!29


O objetivo pedagógico, neste caso, deixa de apoiar-se num saber que seria anterior ao próprio poeta, um saber que estaria respaldado pela sabedoria dos antigos ou pelas garantias fornecidas pela religião. Aqui, é a própria vivência do autor – sua capacidade para lutar contra o mundo que ele tem como inimigo – que lhe serve de guia. E, por isso, ele chega a dar alguns detalhes do cotidiano compartilhado com sua esposa, assegurando de forma clara que o caminho virtuoso que conseguiu trilhar faz parte de uma opção construída à força de muita perseverança: "A sparta, que alcancei de Deus com tudo, / Minha consorte digo, amo e acompanho; / Com ela falo, leio, escrevo, estudo."30 A respeito desses versos, Américo da Costa Ramalho observa atentamente que a Sparta a que o autor se refere "parece também insistir na idéia da disciplina espartana, aceite com a possível resignação, dum casal que espiritualizava as suas condições económicas, fazendo da necessidade virtude."31

Assim, o objetivo do autor não é apenas redigir um discurso belo e bem construído que serviria de alerta contra as mazelas do mundo, pois devemos notar que a carta faz alusão a uma série de circunstâncias vividas por este, como podemos observar no surpreendente desfecho da Sátira VIII de André Falcão. Ainda com o intuito de persuadir o amigo a retornar a Portugal e sem abrir mão de criticar as vaidades mundanas, o autor acrescenta detalhes extremamente prosaicos sobre a sua própria situação:


Podéra eu escrever-vos mais verdades

D'aquesta alta verdade, e da baixeza

Dos enganos do mundo e vaidades:

Mas vai-m'o impedir minha fraqueza

D'umas febres, que me detêm na cama:

Do mais, que tendes cá, tendes certeza,

Basta que vos espera quem vos ama.32
Desconstrução do imaginário expansionista
Mas a experiência nem sempre é propiciadora de um caminho apaziguador. No caso de André Falcão, a privação econômica pôde ser revertida num aprendizado da virtude. Já Heitor da Silveira, na resposta à Sátira IX de André Falcão de Resende, encara as dificuldades impostas pela vida como os desígnios de um destino implacável, que o condena a uma situação da qual ele não vê saída. Numa atitude de auto-análise em relação aos seus erros, o autor se dirige à esposa, lamentando a decisão que o fez partir:
Beliza, amor, Beliza, mal cuidava,

Quando de vós fugi quasi voando,

Que vinha o mal voando, e cá o achava!

Parti-me sem vos ver, assi enganando

A dura saüdade bem guardada,

Que inda ora, mais que então, estou chorando.33


As respostas de Heitor da Silveira, mais ainda do que as cartas de André Falcão de Resende, podem servir como exemplo testemunhal de alguém que vê de perto as enfermidades do mundo e considera-as de acordo com a sua própria experiência. Como o Velho do Restelo d'Os Lusíadas, há aqui um homem "cum saber só de experiências feito"34, um homem que desperdiça a sua vida e saúde por entre as nefandas colônias portuguesas, e que não consegue furtar-se aos efeitos nocivos que a terra distante lhe provoca: "Mas ah! que este enganoso, falso Oriente, / Desbota minha fé, minha verdade, [...]"35. Assim é que o poeta não mede as palavras quando se refere ao
Cruel Gama, cruel, que tantos damnos

Ó Lusitano dás! Que se desfaça

Em pó tanto varão por bens mundanos!

Oh desleal cubiça! viva traça,

Faminta harpia, que por quasi nada

Alma, que livre é, prêsa andar faça!36

Pois temos que lembrar que o próprio poeta é um desses lusitanos que sofreram danos irremediáveis, que se encontra distante da pátria, enfrentando uma situação de penúria. O seu discurso não é apenas uma exortação a uma vida afastada da cobiça e dos bens terrenos, mas sim uma revolta concreta de alguém que sentiu na carne a dor de uma experiência malsucedida. A poesia torna-se ocasião para refletir, propiciando a transformação do relato do vivido numa aprendizagem, num desengano. Há, nesse momento, a desconstrução de um imaginário de riqueza e fama obtidas através das viagens ultramarinas. Ao assumir-se como sujeito perante o fracasso de suas ambições e de sua ida para a Índia, Heitor da Silveira adota uma atitude corajosa e sincera, fazendo de sua própria vida um alerta a todos os outros que poderiam vir a iludir-se. Assim, diz o poeta numa clara referência a si próprio:
Quem foge do seu bem, da patria amada,

Do amigo, que lhe fica, e da pobreza

Segura, por buscar vida enganada;

Que enleva a tantos já a vã riqueza,

Que tão infernal é; e quem se abala

A vêl-a com vontade tão accesa?37


As cartas de Heitor da Silveira estão repletas desse tipo de testemunho. Trata-se de um homem que observa o mundo à sua volta e relata aquilo que vê, com perplexidade e indignação. Observamos o movimento de um indivíduo que se opõe ao crescimento das forças produtivas do capitalismo, ao primado da acumulação. Apesar de ter incorrido nos mesmos erros dos outros homens, o autor já desiludido pode considerar, a partir da sua experiência, o comportamento de seus semelhantes:
Quantos já vistos hei, que eu não allego,

Cheios de hypocrisia de famintos,

Que agora mostram o peito avaro e cego!

Os quaes houve já cá, que de jacinthos

E de preciosas pedras rodearam

Os seus santos cordões, devotos cintos.38


Apesar de estar em uma situação bastante diferente daquela em que se encontra Heitor da Silveira, André Falcão também observa o seu país com olhos bastante críticos e abre a Sátira IX com uma pergunta diretamente endereçada ao amigo:
Que vos tem parecido, Heitor clarissimo,

Da nossa rica e occidental Lisboa

Seu scetro e seu estandarte alongadissimo?39
Obviamente, a pergunta é apenas um artifício para que o autor introduza o verdadeiro tema do seu discurso: a condenação da cobiça e da avareza e o elogio da quietude e de um modo de vida modesto. Mais uma vez, notamos a contraposição entre o ócio e o negócio, sendo que o negócio (o trabalho) é a negação do ócio (do lazer). O ócio é encarado como um valor positivo, uma vez que está ligado à rejeição dos princípios capitalistas. É interessante atentarmos para uma certa semelhança entre a posição do poeta nesse momento e num outro muitos anos depois: o dos poetas românticos do século XIX. No Romantismo, a oposição entre o indivíduo e a sociedade capitalista atingia uma tensão máxima. Na sociedade industrial e pragmática do século XIX o trabalho ligava-se à produtividade e o lazer à improdutividade. E o poeta romântico era aquele que, se recusando a adquirir um valor de utilidade, punha-se à margem da sociedade.
Uma poética do testemunho
Recusando os valores da burguesia emergente, André Falcão de Resende evoca outro tópico bastante comum: o da prudência.
Tristes dos que vão vivos sepultar-se

Nas minas d'ouro, por viver contentes;

E sem ouro, e sem vida vem ficar-se!

As perfeitas riquezas, e excellentes

Gostos não se hão de achar nas veias da terra,

Mas nos corações justos dos prudentes.40


De acordo com Saulo Neiva, o tópico da prudência deve ser evocado – como prescrevem as regras da retórica clássica – quando o orador

est capable de parler en tant que connaisseur du domaine auquel s'attache l'objet de la discussion. Enfin, il doit le faire quand il est question d'un sujet qu'il connaît grâce à une expérience vécue: cela lui permettra en effet de justifier son avis au moyen d'un témoignage "vivant" – et, par conséquent, très persuasif – sur le problème abordé. (NEIVA, 1999, p. 89)


O testemunho torna-se, assim, um elemento-chave desse tipo de escrita. Pois é efetivamente o seu testemunho, isto é, o relato da sua experiência pessoal, de sua capacidade de superar as contrariedades da vida e de manter-se sereno perante as arbitrariedades do destino, o que André Falcão de Resende procura dar quando conta ao amigo a longa e triste história da perda dos seus filhos, como ocorre na seguinte passagem:
D'um, de que eu tinha já mil gasalhados,

Esperanças, signaes d'esp'rito altivo,

Saudade nos tem inda magoados.

Sempre assim nos presenta o rosto vivo,

Doce premio d'amor, dom excellente,

Que a morte descórou com golpe esquivo.41


Ao fazer da memória e de sua capacidade de auto-análise o mecanismo de construção de uma ética, o autor torna-se capaz de transmitir algo da sua experiência vivida. Dupla função de uma poética do testemunho: por um lado, persuadir o semelhante, utilizando a vivência pessoal como fundamento sobre o qual se erige a argumentação; por outro, transformar a si próprio, fazendo da poesia a ocasião para converter uma experiência dolorosa em possibilidade de aprendizado. De fato, é porque há um nó indissolúvel entre a dimensão moral e a dimensão pessoal da correspondência entre os cunhados que versos como esses se tornam tão inesperados. Como assinala Sheila Hue a respeito da obra de Falcão, "hoje, o que mais chama atenção em sua obra é o caráter íntimo e testemunhal"42; testemunho esse que não é apenas uma observação neutra do real, mas a leitura de acontecimentos sociais e/ou pessoais vistos e vividos através de um sujeito.

Nosso interesse é, portanto, perceber em que medida esse diálogo epistolar do século XVI é interessante não apenas por servir como um documento sobre a sociedade da época, ou por apresentar modelos argumentativos inspirados na retórica clássica, mas também por permitir que se observe, ainda que de forma rudimentar, o lugar de uma subjetividade que reivindica para si uma visão particular do mundo.



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1 André Falcão de Resende nasceu em Évora em 1527. Era sobrinho de Garcia de Resende e de André de Resende e seu pai, Jorge de Resende, escreveu poemas que estão entre os do Cancioneiro Geral. Estudou direito na Universidade de Coimbra e trabalhou como Juiz de Fora em Torres Vedras. O manuscrito com sua obra foi descoberto numa farmácia de Guimarães em 1880, onde estava sendo utilizado para embrulhar remédios. Encontra-se, atualmente, na Biblioteca da Universidade de Coimbra.


2 Heitor da Silveira era cunhado de André Falcão. Exerceu o cargo de capitão na Índia, terra na qual foi companheiro de Camões, de quem recebeu um valioso elogio na estrofe 60, Canto X, d'Os Lusíadas. Camões escreveu também umas redondilhas ao Vice-Rei, pedindo favores para o amigo. Em contrapartida, a viagem de Camões de retorno a Portugal foi custeada por alguns de seus conterrâneos, dentre eles Heitor da Silveira.

3 BARRETO, Luis Felipe. "Fundamentos da cultura da expansão", In: Camoniana, vol. 14, 3ª séria. Bauru: EDUSC, 2003

4 Mattoso, José (dir). História de Portugal, 3° vol. - No alvorecer da modernidade (1480-1620). Lisboa: Ed. estampa, s/d. p. 379.

5 DIAS, J.S. da Silva. Camões no Portugal de quinhentos. Lisboa: ICALP – Ministério da educação, 1981, p.9

6 RAMALHO, Américo da Costa. Camões no seu tempo e no nosso. Coimbra: Livraria Almedina, 1992

7 A este respeito, confira-se a epístola IV de André Falcão de Resende, na qual o autor ironicamente se diz depenado: "E nisto queixar-me posso / Sem galgo, nem gavião, / Bem que temos cá o Falcão / Em todo exercício nosso. / Mas anda tão depenado / Com as más mudas passadas, / Que parece desazado, e que as asas tem quebradas."; os já citados versos de Camões ao Vice-Rei, em prol de Heitor da Silveira: "Nos livros doutos se trata / Que o grande Aquiles, insano, / Deu a morte a Heitor troiano; / Mas agora a fome mata / O nosso Heitor lusitano."; e o artigo de Sheila Moura Hue "Luís de Camões e André Falcão de Resende – dois poetas entre a pena, a fome e a 'vã cobiça'."



8 CAMÕES, Luís de. Os Lusíadas. Porto: Porto ed., s/d, p. 335

9 Op. Cit., p. 445

10 Op. Cit., p. 64

11 RESENDE, Garcia de. Poesia de Garcia de Resende (ed. de José Camões). Lisboa: Comissão Nacional para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses, 1999, p. 195

12 Vide o soneto "Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades, / muda-se o ser, muda-se a confiança; / todo o mundo é composto de mudança, / tomando sempre novas qualidades.[...]" CAMÕES, Luís de. Lírica Completa II. Lisboa: INCM, 1981


13 GIL, Fernando e MACEDO, Helder. Viagens do olhar: retrospecção, visão e profecia no Renascimento português. Porto: campo das Letras, 1998, p. 213

14 MIRANDA, Sá de. Obras completas, vol. 1. Lisboa: Sá da Costa, 2002, p. 9

15 Op. Cit., p. 218

16 NEIVA, Saulo. Au nom du loisir et de l'amitié. Paris: Centre Culturel Calouste Gulbenkian, 1999

17 Op. Cit., p. 267

18 LIMA, Luiz Costa. Vida e mimesis. Rio de Janeiro: Ed. 34, 1995

19 Op. Cit., p.79

20 SARAIVA, António José e LOPES, Óscar. História da literatura portuguesa. Porto: Porto ed, 1982, p. 265

21 ALMEIDA, Isabel (org.). Poesia maneirista. Lisboa: Editorial Comunicação, 1998

22 Op. Cit., p. 40

23 Bastante esclarecedora a esse respeito é a Sátira II de André Falcão a Luís de Camões, na qual o autor examina a mísera condição em que vivem os poetas que não empregam o seu tempo em bajular e divertir a corte.

24 RESENDE, André Falcão. Poesias. Coimbra: Imprensa da Universidade, s.d.

25 ANASTÁCIO, Vanda. Visões de glória ­– uma introdução à poesia de Pêro de Andrade Caminha, Vol.1. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian - Junta Nacional de investigação científica e tecnológica, 1998

26 Op. Cit., p. 75

27 RESENDE, André Falcão. Poesias. Coimbra: Imprensa da Universidade, s.d.p. 356

28 Op. Cit., p. 335

29 Op. Cit., p. 334

30 Op. Cit., p. 357

31 RAMALHO, Américo da Costa. O essencial sobre André Falcão de Resende. Lisboa: INCM, 1988

32 Op. Cit., p. 336

33 Op. Cit., p. 365

34 Op. Cit., p. 171

35 Op. Cit., p. 360

36 Op. Cit., p. 362

37 Op. Cit., p. 338

38 Op. Cit., p. 338

39 Op. Cit., p. 353

40 Op. Cit., p. 356

41 Op. Cit., p. 358

42 Op. Cit., p. 98


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