Paraliteratura: da acção ao sentimento por João David Pinto-Correia



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Paraliteratura: da acção ao sentimento
por João David Pinto-Correia

(Faculdade de Letras – Universidade de Lisboa)

1. Não há muito tempo, já no século XXI, uma colega universitária, talvez deslumbrada pela nova área que descobria para trabalhar, deixava entender que a Paraliteratura ainda não tinha merecido qualquer atenção da parte dos estudiosos em Portugal, quando se referia a “o vazio à volta da análise científica dos estratos não-canónicos da literatura portuguesa”1. Cremos que a sua opinião assentava no facto de algumas obras de referência como as de Vítor Manuel Aguiar e Silva e Carlos Reis não registarem a bibliografia portuguesa que contemplasse obras paraliterárias portuguesas, ou apenas traduções, as quais englobava no “polissistema literário português”2.

Na verdade, não tem sido feito o suficiente. Mas não exageremos. Podemos mesmo afirmar que, durante os últimos trinta anos, muito tem sido realizado e, sobretudo, reflectido sobre este domínio na actividade académica e na investigação, acompanhando de certo modo o que se fazia na Europa e noutras partes do mundo. Nós próprios, enquanto docente e investigador, contribuímos em certa medida para que se discutisse e aprofundasse o conceito e outros que o acompanhavam, principalmente na perspectiva sociológica e comparativa, sem esquecer a de uma preocupação que muito tinha a ver com a teoria literária. Julgamos que, exactamente como a própria “paraliteratura”, também as obras, os estudos, os artigos sobre a matéria também estão destinados a um certo esquecimento. É que, de facto, nem chegam a ser “legitimados” pela crítica: tão-só existe o silêncio e o “passa à frente”.

Em artigo datado de 1998, mas de facto só publicado em 2001, Arnaldo Saraiva3, autor que igualmente muito se tem dedicado ao assunto, observa: “Até cerca de 1970 o termo “paraliteratura” não aparecia nem em dicionários comuns nem em dicionários ou teorias de literatura”4. E acrescenta com muita razão: “Foi com o volume que reuniu as comunicações de um colóquio realizado em 1967 em Cérisy-la-Salle, Entretiens sua la Paralittérature, volume organizado por Noël Arnaud, Francis Lacassin e Jean Tortel, e publicado em Paris, pela Plon, em 1970, que tal termo começou a circular nos meios literários e culturais”.

Tal foi possível nos anos 70, porquanto, a nível europeu e nacional, se concedia grande atenção a disciplinas como a Teoria da Comunicação, a Sociologia da Leitura, a Sociologia da Literatura, a Semiótica e a Linguística, e se levava a sério uma valorização de todos os textos escritos, como “práticas significantes”, de certo modo em pé de igualdade com o “texto literário”, sem que pelo facto este ficasse menosprezado. Por seu turno, a abertura proporcionada pelo 25 de Abril na reforma do Ensino Superior (e pessoas há que se esquecem que isto aconteceu mesmo...) permitiu incluir nos planos de estudo universitários disciplinas como Literaturas Marginais e Mass-Media ou tão-só Literaturas Marginais e Literatura Tradicional e a felizmente mais cotada Literatura Oral e Tradicional, pelo que algumas foram as actividades, as iniciativas e os projectos neste domínio. Deles em muito nos aproveitámos para esta intervenção, até porque, como já acima fica dito, fomos directo interveniente.

Confirme-se, em primeiro lugar, que, desde a citada década, a designação “paraliteratura” começou a impor-se como a mais adequada para dar conta do grande conjunto de textos que interessava estudar, questão a que voltaremos mais tarde. Mas a “paraliteratura” concorria com outras propostas.

O entusiasmo provocado pela entrada na legitimidade do estudo de todos estes textos que se colocavam na periferia dos incontestavelmente literários (questão que não era e ainda não é simples de resolver) pela crítica e pelas instituições universitárias levou a que se assistisse a uma profusão de designações, algumas mais objectivas, outras de natureza francamente pejorativa. Lembrem-se, a par de “paraliteratura”, desde a que pessoalmente consideramos mais positiva “contraliteratura”, às controversas “literaturas marginais”, “literaturas marginalizadas”, “literatura trivial”, “literatura de consumo”, “literatura de massa”, “literatura de massas”, até às mais negativas “subliteratura”, “infraliteratura”, “literatura kitsch5, para já não falar da de “textos não literários”, que, podendo ser considerada como designação abrangente para todas as manifestações pressupostas nas outras acima mencionadas, foi, muito cedo, e de forma quase unânime, reservada para os registos referenciais e denotativos. Por vezes, até se chegou a confusões, como a de aplicar indiscriminadamente a muitos destes textos classificações como “literatura popular” ou “literatura de cordel”.

Colóquios, cursos, ensaios, estudos muito contribuíram para que se delimitassem conceitos, umas vezes tornando-os quase sinónimos, outras separando os respectivos corpora e estabelecendo critérios para justificar distinções na impressionante quantidade de textos a ter em linha de conta. As obras de teoria literária dedicaram à matéria alguns capítulos, tomando como exemplos obras que, anos antes, seria impensável merecerem o cuidado dos seus autores ou constarem das suas páginas. Mas, apesar de toda essa atenção por parte dos estudos já disponíveis sobre o conjunto ou sobre cada uma delas, ainda sentimos falta de esclarecimentos aprofundados acerca dos conteúdos e dos estatutos das realidades diversamente servidas e qualificadas por essas designações, não só em relação à literatura-instituição ou canónica, como também no que toca a cada uma e às relações de umas com as outras. É certo que a centralidade do que, já antes de Harold Bloom, se chamou “literatura canónica”, e ainda “literatura legítima”, “literatura-instituição”, ou a emergência de campos de estudo diferentes dos das preocupações sociológicas e semióticas podem ter sido responsáveis pelo abrandamento da investigação neste domínio. No entanto, estamos em crer que, uma vez ganho lugar nas preocupações dos estudiosos, este tem de ser um campo de trabalho que se encontra no momento oportuno de ser continuado sem os afãs dos primeiros tempos, antes com a calma que nos advém de conhecer os justos limites da nossa tarefa. E que, como convém e se sabe sempre acontecer, se tornará objecto das atenções dos estudiosos, lá de tempos a tempos, como, diga-se de passagem, neste preciso momento.

Resta-nos, portanto, dar um sentido actual à realidade “paraliteratura”, não para chegarmos a uma proposta final da sua definição, apenas para a re-situarmos nos tempos que correm, em que poderá como designação ser aplicável aos mesmos textos de há décadas, mas também a novas modalidades decorrentes da evolução dos géneros e dos gostos, como o demonstra o facto de estarmos a falar sobre o assunto nesta magnífica realização cultural da Biblioteca Nacional, a propósito do bicentenário de Alexandre Dumas, dos “200 anos de romances de aventuras em Portugal”, como antecessores das actuais “playstations”.


2. Numa perspectiva diacrónica, diríamos que, até ao século XIX, mas não remontando, no nosso caso, a mais cedo do que o século XVI, paralelamente com a “literatura oficial”, a literatura representada pelos grandes autores (se para alguns nunca houve dúvidas, como nos casos de Luís de Camões, Bernardim Ribeiro, outros não foram logo considerados como tal: pense-se no caso do próprio Cervantes ou mesmo do português Fernão Mendes Pinto), o público ou o povo dispunha do contacto com espécies de “literaturas marginais” ou “literaturas marginalizadas”, uma das quais terá sido a “literatura popular”6, sob a sua forma de “literatura de cordel” (“littérature de colportage”), através dos “folhetos” ou das “folhas volantes”, a qual hoje nos merece a atenção pelas suas várias espécies, pelos seus múltiplos conteúdos, pela sua influência junto das povoações rurais ou mesmo urbanas e pela sua influência no imaginário colectivo europeu e português. Julgamos mesmo que o nosso “romance de aventuras” português, para além de estar representado em Peregrinação do já referido Mendes Pinto, começa justamente em muitos dos folhetos que circularam nos séculos quinhentista, seiscentista e setecentista: e lembramo-nos, entre outras, das aventuras de Pedro da Provença e sua amada Princesa Magalona, de João de Calais ou do Livro das Partidas de D. Pedro de Portugal.

Esta seria uma primeira camada da “paraliteratura” “avant la lettre”, constituída portanto pela “literatura de cordel” (como é óbvio, não consideramos a “literatura oral tradicional”, porque o seu estatuto é bem diferente: mas mesmo nessa, como não nos lembrarmos das aventuras de Gaifeiros ou da Donzela Guerreira?), muita dela recuperada para a literatura oficial, como o demonstram o interesse de composições como as chamadas “cinco histórias ou cinco livros do povo” (na designação de Luís da Câmara Cascudo) ou os “relatos de naufrágios”7.

No século XIX, a configuração já é diferente e faz adivinhar o que de certo modo continua a acontecer hoje, decerto acentuada pelos meios de comunicação social. O progresso das técnicas de impressão e o desenvolvimento da Imprensa contribuíram para a mais ampla circulação das mensagens didácticas, narrativas, poéticas: e o autor vai ser mais amplamente apoiado pelo seu público, sendo procuradas as suas obras através do livro, mas de modo ainda mais acentuado através do jornal e da revista. Julgamos que o grande passo, o passo decisivo, na futura trajectória de uma muito significativa parte da “paraliteratura”, principalmente na sua modalidade de “literatura de massa” ou “literatura de consumo” será dado com o sucesso do “folhetim”, fundamental processo da imprensa oitocentista, e cuja técnica vai continuar até aos nossos dias, através das suas múltiplas formas, entre as quais, como exemplos mais importantes, situaríamos os romances policiais (centrados muito frequentemente numa personagem-“pivô”-detective, por exemplo), as bandas desenhadas, as fotonovelas de há anos, e hoje, as séries televisivas e as telenovelas.

O século XX vai utilizar o “folhetim” de variadas formas e para muitos fins: a técnica da divisão da mensagem em fragmentos ou episódios cativa os leitores, sobretudo se se encontrarem meios adequados para garantir a continuidade do interesse (paradigmático é o sobejamente conhecido sucesso decimonónico de O Mistério da Estrada de Sintra, de Eça de Queirós e Ramalho Ortigão). Quem não se lembra das bandas folhetinescas que ocupavam a parte de baixo de determinadas páginas (afinal sempre a mesma) dos jornais e que, depois, eram cuidadosamente cortadas e guardadas para futura leitura seguida, em substituição de livros? Pessoalmente, guardamos a memória do que acontecia na nossa casa de infância, na Madeira.

O mesmo folhetim inspirou a “novela por entregas”, recebida periodicamente em casa, mesmo por debaixo da porta, em tempos em que não havia ranhuras ou caixas de correio para receber a correspondência, pelo menos em muitas das regiões periféricas de Portugal. Mais tarde vieram as bandas desenhadas centradas em personagens (Mundo de Aventuras, O Mosquito, Cavaleiro Andante), que ocuparam episódios em números sucessivos da mesma publicação, ou em albuns, e ainda as fotonovelas (as histórias assinadas por Corín Tellado ou Carlos de Santander). Seguir-se-ão as séries televisivas (O Homem Invisível, Heidi ou) as telenovelas (adaptações de obras literárias, como Gabriela, Cravo e Canela, mas também O Casarão ou Sassaricando). Saliente-se que, no que toca a conteúdos, a técnica folhetinesca serviu toda a espécie de intrigas: de acção (com enredos de aventuras ou policiais) ou de sentimento, e também outras, como as já referidas de adaptação de obras literárias.

Referimo-nos a esta técnica principal, porque julgamos que ela estrutura de modo decisivo as mensagens destinadas ao grande público, e representa uma das partes mais substanciais das “literaturas marginais” no grande conjunto constituído pela “paraliteratura” narrativa.

No entanto, todo um outro grande conjunto de mensagens contornava, desde há muito, a considerada “grande literatura”: eram aquelas a que as entidades legitimadoras iam impedindo, negando ou esquecendo na sua apreciação positiva e integradora no cânone. E isto acontecia desde havia muito: sem dúvida de antes do século XVII, mas torna-se mais acentuado a partir desse século e sobretudo nos seguintes, com a cada vez maior importância alcançada pelas mensagens narrativas (conto, novela e romance). Aliás, este sucesso havia de fazer aparecer, a par das obras dos escritores consagrados, as dos que nem procuravam o seu lugar na literatura oficial (acontecia para alguns, sem dúvida) e que viam bem recebidas as suas histórias por parte de um público, o qual exigia as reedições das obras preferidas ou a continuação da produção dos seus escritores preferidos.

Curiosamente, um dos critérios que muito contou para a actividade legitimidora na sua sanção negativa foi justamente o da grande popularidade de uma obra e de um autor: a muita aceitação por parte do público parece ter sempre constituído motivo de desconfiança sobre a qualidade da obra, o que logo provocava mais exigente apreciação das razões de tal sucesso, sobretudo no que diz respeito a estrutura, conteúdo e expressão. Daí que os resultados tenham sido muito diferentes: pense-se, no que toca ao romance sentimental, nas sortes tão diferentes de Amor de Perdição, de Camilo Castelo Branco, e de A Rosa do Adro, de Manuel L. Rodrigues: o primeiro a ficar como texto institucionalizado; o segundo, também com grande favor junto do público, a tornar-se caso paradigmático da “paraliteratura” portuguesa. Mas também houve problemas quanto à avaliação de autores, muito diferente da vigente hoje em dia: e dêem-se como exemplos Eugène Süe e Honoré de Balzac. Outros continuam no centro da discussão do problema: entre eles, Pearl Buck, Stefan Zweig ou Alexandre Dumas.

Esta síntese em jeito diacrónico disse respeito às própias mensagens “paraliterárias”. Ela exige que consideremos como a crítica ou os estudos culturais começaram a estar atentos a toda esta produção, coisa impensável na primeira metade do século XX. Cremos que o primeiro gesto, nem sempre lembrado, de tentativa de chamar a atenção para a pertinência do estudo destas mensagens partiu de Raymond Queneau (o autor da inesquecível Zazie dans le Métro), que, em 1958, no Vol. III da Histoire des Littératures, da Pléiade8, e sob o título de “Littératures Marginales”, nas quais considerava, entre outras a “literatura oral”, agrupava, muito em jeito de brique-a-braque a literatura “de colportage” (para nós, de cordel), o romance popular, o romance policial, a ficção científica, a canção, o cinema, etc. Doze anos mais tarde, isto é, em 1970, Jacques Bersani e seus colaboradores (M. Autrand, J. Lecarme e B. Vercier) incluíam na sua antologia La Littérature en France depuis 1945 (editora Bordas)9, isto é, num panorama que traçava as grandes linhas da literatura francesa de 1945 a 1970, uma secção que se chamava “Autour de la Littérature”, na qual também eram convocados exemplos das “margens da literatura”: os domínios contemplados eram a canção, o romance policial, o romance histórico e sentimental, a ficção científica e a banda desenhada. Esta matéria ocupava o vigésimo oitavo lugar nos trinta capítulos que constituíam os da obra (isto é, um pouco para o fim, mas não em último lugar). De qualquer modo, não será despiciendo notar que, nesses anos, estas duas obras representativas, sobretudo da literatura institucionalizada, dedicassem corajosamente um lugar importante às “literaturas marginais”: esse era um primeiro sinal de que algo estava a mudar.

Acordavam os estudiosos para a realidade iniludível da pressão dos textos desde há muito postos à margem, mas que a preocupação sociológica cada vez mais demonstrava ocuparem um lugar não menosprezível ou, pelo menos, a necessitarem de atenção especial nem que não fosse para os referenciar no seu conteúdo, nas suas interinfluências com a “grande literatura”, com a “literatura canónica”. Esse mesmo cuidado tinha alertado os críticos e os universitários reunidos no já citado Colóquio de Cérisy-la-Salle de 1967, mas será a publicação da obra em 197010, com o título de Entretiens sur la Paralittérature, que deu conta de todas as suas reflexões, sob forma de conferências e discussões (distinguem-se as de Jean Tortel, responsável pela publicação, Noël Arnaud, Fresnault-Deruelle, Évelyne Sullerot), e assim tornando a matéria acessível a todo o público interessado. Como regista Arnaldo Saraiva, os dicionários e os glossários dos anos seguintes11, de 1972 (Marc Angenot, que havia de aparecer em português em 1984), 1978 (Angelo Marchese), 1986 (Angelo Marchese e Joaquín Forradellas) e 1994 (Jeremy Hawthorn), em respectivamente Canadá (e Portugal, na sua tradução), Itália, Espanha e Grã-Bretanha, faziam-se porta-vozes do novo interesse.

Nesses mesmos anos de 1970, em Portugal, o fenómeno ganharia importância em realizações académicas e editoriais: resultante de um trabalho do grupo que trabalhava na linha de acção que se ocupava da Sociologia da Leitura Literária, integrada no Centro de Literaturas de Expressão Portuguesa da Universidade de Lisboa (CLEPUL), do INIC / Universidade de Lisboa, a obra conjunta de Jacinto do Prado Coelho e seus colaboradores, entre os quais nos encontrávamos na altura, apesentava dois estudos sobre o assunto, assinados um pelo próprio Jacinto do Prado Coelho e por nós próprio (os textos a que nos referimos são “Introdução à Sociologia da Leitura Literária” e “O Significado Sociológico das Literaturas Marginais”)12; e Arnaldo Saraiva, docente da Universidade do Porto, publicava, em 1974, o 1º. Volume da sua Literatura Marginal/izada13. Cremos que esses foram contributos fundamentais para a reflexão que se iniciou sobre o problema em Portugal, no que, depois, se verificaria serem acompanhados por trabalhos de autores brasileiros como, entre outros, Muniz Sodré, Ecléa Bosi, Angeluccia Bernardes Habert ou Luís Beltrán, ou outros, como Ariel Dorfman e Armand Mattelart (autores do muito conhecido Para ler o Tio Patinhas, cuja tradução portuguesa data de 1975). Tratava-se de autores, principalmente de formação sociológica ou com preocupações sociológicas, que estavam atentos aos hábitos de leitura dos seus países, e sobretudo aos produtos e seu sucesso da Indústria Cultural e da Literatura de Massa. Paralelamente, os colegas de expressão castelhana / espanhola, que assistiam na época aos sucessos populares das novelas de um Carlos de Santander e Corín Tellado, juntavam-se ao grupo dos interessados em acompanhar de perto a nova realidade; temos em mente Andrés Amorós e Juan António Rodriguez.

Queríamos registar como decisivo apoio a todas estas iniciativas as obras de Edgar Morin (L’Esprit du Temps) e de Umberto Eco (para além da que dedicou ao romance popular do século XIX, a sua fundamental Apocalípticos e Integrados), bem como as de T.W. Adorno, Lucien Goldmann e mesmo Roland Barthes, e de modo também muito directo também as de Robert e Dénise Escarpit. E não esquecemos naturalmente que as contribuições destes mesmos críticos e estudiosos não contariam com a difusão junto dos públicos mais restritos ou amplos, se não se lhes abrissem as possibilidades de os seus artigos serem conhecidos revistas como Communications, Communication et Langages, ou mesmo, a partir de certo momento, as mais pedagógico-didácticas Langages, Langue Française, Pratiques e mesmo Le Français dans le Monde. Em Portugal, e neste capítulo particular, de objectivos teorizantes de natureza mais pedagógico-didáctica, inscrever-se-ão, para além de todo o trabalho permitido nas disciplinas universitárias dos novos planos de estudo pós-1974, algumas comunicações apresentadas no I Congresso Nacional de Ensino e Investigação do Português, realizado em Lisboa, em 1976 (lembramos a nossa, precisamente intitulada “O ensino do texto não-literário como auxiliar do ensino da língua materna”)14 e todos os artigos aparecidos em livros, pré-publicações ou em revistas (como, por exemplo, Palavras, revista publicada pela recém-formada na altura Associação de Professores de Português).

A suceder a muitas das designações que a princípio pareciam concorrer umas com as outras (principalmente, "literaturas marginais”), a “paraliteratura” foi-se impondo cada vez mais nos escritos de investigadores, como, no Canadá, o já mencionado Marc Angenot (1975), e o polaco-canadiano Wladimir Krysinski, bem como Yves Reuter (1985), Vittorio Frigerio (1997) e Daniel Couégnas (1992). Em Portugal, nós próprios contribuímos com o opúsculo Literatura Juvenil / Paraliteratura, de 197815, e publicámos, em texto mimeografado, em dois cadernos da Associação de Professores de Português, Fevereiro e Março de 1978, que se intitulava O Texto Paraliterário16, que haveríamos de retomar mais em profundidade em palestras e acções formação, entre as quais uma dezena de programas para a RDP, transmitidas semanalmente em forma de diálogo, e cujos textos de suporte nunca foram publicados. Arnaldo Saraiva regressou a esta preocupação de forma bem variada na sua Literaturas Marginal/izadas – Novos Ensaios (1980), e, muito mais tarde, de forma sintética e de certo modo controversa no artigo “Acerca de ‘Paraliteratura’”, publicado na Revista Lusitana – Nova Série, nº. 17-18, em 199817. Lembramos que, entretanto, Jacinto do Prado Coelho ainda regressou ao assunto com o artigo “Apontamentos sobre Literaturas Marginais”, no Boletim de Filologia, em 198318.

E quanto ao lugar que a “paraliteratura” ganhou em obras de carácter mais teórico, sobretudo nas teorias de literatura? Vítor Manuel Aguiar e Silva, na 1ª. Edição, de 1967, da sua fundamental Teoria da Literatura não dedica qualquer espaço à questão: estávamos um pouco longe de o assunto ser considerado pertinente. No entanto, as últimas edições tratam de modo muito aprofundado de todo este campo periférico, se bem que sempre apoiado em autoridades estrangeiras, já que as portuguesas, se as havia, parece terem sido consideradas como de somenos importância.


3. “Paraliteratura: da acção ao sentimento”: foi assim que intitulámos esta nossa modesta intervenção, modesta no assunto, como tudo levaria a crer, modesta também no alcance das nossas propostas. Foi título apressado, mas que considerámos, no momento em que o sugerimos, como muito pertinente para o que se pretendia neste evento, e sem termos conhecimento da real dimensão que se estava procurando efectivar na sua preparação.

Para já, a “paraliteratura” como palavra portuguesa só existe na terminologia neologística dos estudiosos. Ela nem se encontra no Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea da Academia das Ciências de Lisboa, obra que, como sabemos, até se caracteriza pela sobeja abertura a novos vocábulos. Apesar de tudo, utilizamo-la frequentemente, não tanto porque faz jeito (tal como se pode constatar pelas informações dos doutos teorizadores), mas sobretudo porque corresponde a uma realidade que se nos vem impondo desde há muito tempo.

Depois de a encontrarmos nos escritos de autores estrangeiros, alguns dos quais já referimos, ela entra também na preocupação dos investigadores portugueses. Nuns e noutros, porém, não há unanimidade quanto ao seu significado exacto. Mas num ponto todos estavam de acordo: era designação que, como acentua Marc Angenot, assentava no prefixo “para-“, e este “apresenta a vantagem de não implicar um juízo de valor a priori: evoca apenas uma margem, uma orla ou uma periferia”19. Daí, reconhece o mesmo estudioso canadiano: “A noção de paraliteratura apresenta outra vantagem, a de agrupar num todo, para fins heurísticos, diversas formas de expressão desprovidas de estatuto canónico, mas cujo carácter “popular” não é evidente (e a palavra “popular” é ela mesma ambígua e polissémica)”. E, procurando ser mais explícito, faz a pergunta: “Quem consome hoje a ficção-científica, por exemplo, e qual é o seu estatuto institucional?” Concluindo a sua síntese, acentua: “A hipótese fundamental consiste em que, em toda a sociedade dividida em classes, aparecem formas literárias “hegemónicas” (reconhecidas) e outras que não gozam de tal estatuto, sem que por isso possam ser ditas “revolucionárias” ou “contestárias””20.

Mas há interpretações diferentes no emprego da designação e quanto à realidade para que ela aponta. Assim, Jacinto do Prado Coelho considerava que “paraliteratura” (mais concretamente ele preferia falar de “fenómenos de paraliteratura”) devia ser desde logo considerada como diferente de “literatura marginal”. Ou mais explicitamente: “Considero aqui as primeiras [isto é, as “literaturas marginais”] como literatura que o é, pelo menos intencionalmente, enquanto projecto, como literatura susceptível de ser “legitimada”; defino paraliteratura como tudo quanto, embrionariamente, tem algo de literário, tende para a literatura, desde o pregão à inscrição parietal, à anedota, ao horóscopo, etc.”21 Referindo-se a um esquema auxiliar, escrevia peremptório: “O esquema seguinte apresenta a paraliteratura fora da área da literatura, ao invés do que sucede com as literaturas marginais22. À parte ficava ainda a subliteratura, que ele considerava como algo de diferente: “há subliteratura no sector da literatura legítima, e nem sempre a obra de literatura marginal está condenada ao labéu de subliterária”, exemplificando desde logo da seguinte maneira: “um romance policial ou uma “história aos quadradinhos”, do mesmo modo que um poema heróico, uma ode de circunstância ou um drama histórico, tanto podem ser bons como regulares como medíocres”23. No artigo publicado em 1983 (“Apontamentos sobre Literaturas Marginais”)24, explicita o nosso saudoso professor: “Quanto à “paraliteratura”, o que defendo é o seguinte: distinguindo entre as margens interiores do literário e uma zona periférica exterior, usar o rótulo de “literaturas marginais” para tudo quanto possui indiscutivelemente o estatuto do literário, arredados quaisquer juízos de valor, e reservar o termo paraliteratura para os afloramentos, tantas vezes fugidios, episódicos, do literário em toda a sorte de discursos orais ou escritos que, não tendo embora qualquer pretensão a ser literatura, apresentam traços de ficcionalidade ou marcas de trabalho original sobre a língua que os aproximam da literatura, ou até mais precisamente da poesia – e seria o caso de slogans publicitários, de cartas íntimas, de relatos orais, verdadeiros ou mentirosos, no decurso duma simples conversa, etc.” E conclui: “Nem sempre seriam textos, mas tão-só fragmentos, cintilações, achados” 25.

Neste ponto, estamos em crer que Jacinto do Prado Coelho se afastava do sentido mais lato que tinha sido conferido a “paraliteratura” pelos primeiros estudiosos, sobretudo os do Colóquio de Cérisy-la-Salle, e que outros críticos e teóricos posteriores continuaram a atribuir-lhe.

É evidente o embaraço dos estudiosos em tentar delimitar mais de perto o conceito, o que quase sempre parte e mesmo diríamos tem de partir do confronto com a canónica “literatura” (donde a crítica de Muniz Sodré, quando repara que a designação tem a inconveniência de ser criada a partir de outra (a literatura) cujo conceito é “dado como evidente”): e a atrapalhação começa por saber de facto o que é a “literatura”, quais os seus contornos e estatuto, a partir dos quais haverá certezas para catalogar esta ou aquela obra como “não literária”, ou “marginal”, ou “paraliterária”. Wladimir Krysinski, por exemplo, não se interessa tanto pelo assunto (até porque considera imprecisa a oposição), quanto por estudar os autores do século XX que se situam na fronteira da paraliteratura e da literatura, entre os quais nomeia James Joyce, Ezra Pound e Maurice Roche26. E claro que o que o ocupa verdadeiramente é demonstrar o quanto estes autores devem à paraliteratura, sem no entanto delimitar o que ela significa.

Mas estudiosos houve que tentaram memo apresentar uma “análise do modelo paraliterário”. É o caso de Daniel Couégnas, na sua obra Introduction à la Paralittérature (Paris, 1992)27. Aproveitamos as considerações críticas que Arnaldo Saraiva tece acerca da proposta de Couégnas: “Depois de aludir aos perigos do uso da palavra “paraliteratura” e de historiar a sua entrada e circulação nos estudos literários, Couégnas considera duas atitudes possíveis perante ela: a dos que a associam à “má literatura” (caracterizada por inverosimilhanças, inconstâncias psicológicas, deficiências de escrita), e a dos que consideram que a paraliteratura não existe ou que não há diferença absoluta entre ela e a literatura”. Depois de as refutar, reconhece Couégnas que “o termo é cómodo” e que lhe “parece indispensável”. Propõe-se apresentar um “modelo paraliterário” e estabelecer “critérios paraliterários”. No que toca ao primeiro, comenta Arnaldo Saraiva28, “dirá (...) que ele se opõe ao modelo “da literariedade”, privilegiando as funções fática, conativa e referencial da linguagem”. Quanto aos “elementos paraliterários”, tem em linha de conta o “peritexto editorial”, a “tendência para usar os mesmos processos (lugares, décors, personagens...) sem distância irónica ou paródica”, o “recurso a processos textuais tendendo a produzir a ilusão referencial ou a abolir a consciência do acto de leitura”, a “recusa do dialogismo em sentido bakhtiano (simples “reconhecimento do sentido” por parte do leitor)”, o “predomínio do narrativo no espaço textual ou na importância do código hermenêutico e na escolha de personagens de mimese sumária e reduzidos a papéis alegóricos”. Arnaldo Saraiva ajuíza, e com muita razão, que estes elementos coincidem afinal com os que têm sido apontados também para a “literatura popular”, concluindo que “não chegam evidentemente para construir um “modelo” consistente”.

Não somos tão radicais; pensamos que alguns dos elementos apontados por Couégnas são pertinentes, embora insuficientes ainda, e que terão de ser acrescentados dos que dizem respeito à qualidade da língua, do próprio estilo. E apontaremos também que, afinal, nos ficamos apenas nos textos narrativos, quando a “paraliteratura” também deveria integrar textos de outra natureza, como os dramáticos, os líricos, os paródicos. De qualquer modo, igualmente se torna muito significativo que sejam os “narrativos” a suscitar mais atenção e, portanto, maior estudo.

Também não comungamos do mesmo radicalismo de Arnaldo Saraiva, quando afirma que “paraliteratura” constitui uma “designação equívoca”29, e que, por isso, lhe custa aceitar que Vítor Manuel Aguiar e Silva a tenha considerado como “a mais operatória de todas” as designações para o conjunto de produções diferenciadas da “literatura canonizada”.

Na verdade, é a Aguiar e Silva que se devem as páginas mais esclarecidas e informadas sobre o assunto, tanto nas últimas edições da sua Teoria da Literatura (consultámos para o efeito a edição que tínhamos à mão, a 8ª. Edição, 9ª. Reimpressão, de 1996), como também no seu volume de Teoria e Metodologia Literárias (Lisboa, 1990). As páginas que à matéria Aguiar e Silva consagra são bem a evidência da complexidade da resposta acerca do que é literatura e paraliteratura. Não vamos desenvolver, nem mesmo resumir. Remetemos os interessados para esses subcapítulos das duas obras mencionadas. No entanto, não podemos deixar de apontar uma que outra observação do estudioso. A primeira diz assim: “(...) o texto literário, quer no estádio da sua produção, quer no estádio da sua recepção, põe em causa frequentemente os códigos de que em última instância depende, transformando-os, renovando-os, discutindo-os, subvertendo-os. A paraliteratura, pelo contrário, revela-se destituída desta capacidade de inovação e de questionamento em relação aos seus códigos, cujas regras e convenções tanto o autor como o leitor típico do texto paraliterário actualizam dócil e passivamente”30. Outra afirma: “o texto paraliterário, que tende para o esterótipo consumado, para a repetição estrita na sua organização sintagmática das instruções registadas no plano paradigmático, apresenta pois uma capacidade mínima ou nula de informação, isto é, de imprevisibilidade e de novidade, com a correlativa degradação do seu valor estético, ao contrário do que acontece com o texto literário”. Uma questão a que o autor concede grande importância é a da “novidade e originalidade”, conforme a distinção proposta por Stefan Morawski: “Nas grandes obras literárias, a novidade e a originalidade coexistem e interfecundam-se, sob modalidades de maior ou menor tensão recíproca; em muitos textos literários de vanguarda, que nunca alcançam o estatuto de “grandes obras”, avulta a novidade, mas escasseia a originalidade; nalgumas obras, enfim, a originalidade é afectada pela frouxa capacidade inovadora. Os textos paraliterários (...) carecem tanto de novidade como de originalidade (o que não acontece necessariamente com textos literários de autores minores)”31.


4. “Literatura” ou “paraliteratura” – e estamos apenas a considerar a de natureza narrativa de ficção - é questão, portanto, que tem tudo a ver com a institucionalização ou legitimação (preferimos as últimas a “canonização” por esta ser por demais definitiva e quase beata): um autor e uma obra podem nunca ter pretendido um lugar no panteão da “grande literatura”, e, assim, terem a sua aceitação na sua época, e continuando, com mais ou menos êxito, no futuro. No entanto, podem ascender a um grau mais elevado junto dos públicos e sobretudo junto das entidades legitimadoras do futuro. Por seu turno, alguns que tenham sido aceites como verdadeiros representantes da literatura do seu tempo podem vir a perder tal grau, com o passar do tempo e das apreciações menos positivas da instituição literária. E, a acontecer este caso, tal não equivalerá a dizer que tenha perdido a sua popularidade; pelo contrário...

Estamos em crer que, na base da sua não legitimação, a “paraliteratura” de facto não garante junto das respectivas instâncias a novidade e a originalidade dos seus sistemas. A sua estrutura tende para os esterótipos, talvez por vezes gerais e englobantes, mas sobretudo o que se prende com o subgénero ou espécie: romance policial, romance sentimental trivial, por exemplo; a sua subversão corresponderia à perda de confiança dos leitores (pense-se no caso de A. Christie, com uma das suas últimas obras, mais concretamente Cai o pano). Por seu turno, o conteúdo encontra-se construído, arrumado com base em fortes núcleos temáticos ou axiológicos; donde a exigência de personagens de grandes contrastes, de grandes afinidades ou cumplicidades. O estilo e a linguagem são precariamente codificados do ponto de vista retórico, poético e linguístico-literário, o que pode acontecer por escassez ou excesso, mas também por uma grande proximidade do coloquial ou trivial. Todas estas características contribuem para que, ao contrário da fruição, da novidade e da originalidade, próprias do literário, tenhamos antes a consolação, a continuidade e a reprodução do que já é anterior (quase a constituir-se em tradição). No que respeita ao emprego da característica que designámos “consolação”, lembramo-nos, para sua utilização, do que Umberto Eco referia para qualificar toda a “literatura de massa”: ela deve garantir os “mecanismos da consolação”, satisfazer como uma espécie de massagem o gosto dos leitores.

E cremos que, tal como esta exposição em certa medida exemplifica, os dois grandes conjuntos da paraliteratura narrativa de ficção, e mesmo a dita histórica, são os que se concentram na “acção” e no “sentimento”, o que não quer significar que justamente um se não caracterize por qualidades do outro, isto é, o conjunto que consideramos de acção quase sempre vai buscar muito do que compõe o de sentimento, explorando a este em várias direcções, e o de sentimento também exigirá a medida adequada de movimento e acção para interessar os seus leitores.

Quer num, quer noutro, verificamos do ponto de vista semântico, seja paradigmático, quer sintagmático, “campos opostos”, grandes contrastes, valores muito definidos (pobre vs. rico, nobre vs. plebeu, conhecido vs. desconhecido, próximo vs. longínquo), o que pode funcionar quer no ambiente interno, isto é, no ambiente da própria intriga, quer no contexto, ou por outras palavras, no do extracontexto, o do leitor em relação ao intratexto, o da ficção.

Também o recurso às grandes “provas” ou “provações”, e, claro, um fim lógica e adequadamente feliz, que bem pode ser pela positiva ou pela negativa. Por exemplo, consideramos “fim feliz” não apenas aquele que remete para o casamento dos dois enamorados (o mais habitual nas novelas cor-de-rosa), mas também o que se realiza na morte dos dois apaixonados (e mais uma vez ocorre a nossa bem sucedida A Rosa do Adro) Fim infeliz seria, com certeza,aquele em que um dos dois sobrevivesse (e pensamos no mais adequado exemplo de há alguns anos, a Love Story de Eric Sagal).

Os condimentos (perdoe-se-nos a expressão) serão de preferência os ambientes insólitos, os históricos por exemplo (os que remonta aos tempos da Idade Média, Revolução Francesa, Descobrimentos), os exóticos (e neste caso, teremos os orientais ou tropicais ou marítimos) ou os mágicos ou fantásticos.

Em todas estas mensagens paraliterárias de narrativa de ficção, integraremos, entre os de acção, para nós o grande núcleo que neste momento nos ocupa, o romance de aventuras, o romance de capa e espada, o romance policial, o romance de espionagem, algum romance de ficção científica; entre os de sentimento, que constitui o segundo importante e vasto núcleo, o romance sentimental trivial, o romance-melodrama, talvez a fotonovela, e, já num plano diferente, porque implica outros códigos como os audio-visuais, a própria telenovela, a qual, como a banda desenhada ou a já talvez inadequadamente citada fotonovela, em rigor deve ser tida por manfestação para-artística.

Hoje em dia, podemos questionar-nos sobre a situação dos romances erótico-pornográficos, cujo estatuto é muito especial, com um circuito mais cuidado, porque suscitador de bem compreensíveis melindres e preconceitos. A resposta é simples: eles têm todos os ingredientes paraliterários em tão alto grau que até os chamaríamos “novelas mecanicamente estereotipadas” de intriga e de solução final. Também à colação podem ser chamados os “best-sellers” (não os êxitos das obras literárias através dos séculos ou os que se vêem de repente, e por vezes durante muito pouco tempo, vendáveis devido à sua promoção por prémios literários, mas os que já foram produzidos com os ingredientes previsíveis e indispensáveis para o êxito junto do público-massa, por iniciativa da indústria cultural, e por um autor francamente ciente das suas estratégias de sedução do público-alvo, este já integrado num concreto e limitado “horizonte de espera”. E então pensaremos que, por alguma razão, mas “avant la lettre”, Sainte-Beuve chamava à obra de Alexandre Dumas “literatura industrial”.

E ainda uma última peocupação (aliás, pessoalmente não nos afecta, porque apenas numa perspectiva de honesta atenção ao que se passa à nossa volta nas mais recentes modas): será que a dita “literatura light” ou “literatura soft” não comunga de todos estes predicados, quer os da “paraliteratura” em geral, quer dos “best-sellers”, na sua última acepção considerada? E pergunta final: não contribuirão muitos (diríamos mesmo a maior parte) dos “best-sellers” e das narrativas “light” para a constituição mais abundante e variada da “paraliteratura” de hoje e do futuro?
Resumindo e concluindo: a par e em contraste com os textos da Literatura-Instituição, Literatura Legítima ou Literatura Canónica, a Paraliteratura abrange as obras que as entidades legitimadoras consideram como periféricas, senão mesmo ultra-periféricas (“marginalizadas” ou “marginais”, segundo alguns estudiosos). Para tal, foi determinante a avaliação da sua codificação (pobre ou excessiva) respeitante às estruturas, conteúdos e expressões nelas manifestados. No conjunto das obras paraliterárias, e entre outras que não nos interessaram nesta ocasião, ocupam lugar relevante as narrativas de acção (de capa e espada, ou tão-só de aventuras, de ficção policial, de espionagem, de ficção científica, de aventuras) ou as de sentimento (novela sentimental trivial, romance-melodrama, fotonovela, por exemplo). Actualmente, será também de equacionar o estatuto e a característica de outras obras, como os romances ou as novelas erótico-pornográficas, os “best-sellers” e mesmo a literatura dita “light” no âmbito desta Paraliteratura.

Lisboa (Santa Cruz de Benfica), Outubro de 2003



1 Teresa Seruya, “Tradução e Cânone: a Propósito das Traduções de Stefan Zweig em Portugal”, in T. S. (org.), Estudos de Tradução em Portugal. Novos Contributos para a História da Literatura Portuguesa, Lisboa, 2001, p. 214.

2 Id., ib., p. 213.

3 Arnaldo Saraiva, “Acerca de ‘Paraliteratura’”, Revista Lusitana (Nova Série), nº. 17-18, 1998, pp. 147-151.

4 Id., ibid., p. 147.

5 Cf. Vítor Manuel Aguiar e Silva, Teoria da Literatura, 8ª. Ed. (9ª. reimpr.), Coimbra, 1996, p. 114.

6 Todos sabemos quanto esta designação é ambígua, embora, durante muito tempo, recebesse a preferência de ilustras estudiosos, tais como J. Leite de Vasconcellos e Manuel Viegas Guerreiro. No entanto, ela continua a poder ser usada, na sua acepção mais lata, desde que, para cada domínio, seja delimitada. Acerca deste assunto, cf. nosso estudo Os Romances Carolíngios da Tradição Oral Portuguesa, Vol. I, Lisboa, 1993, pp. 142-161. A “literatura de cordel” deverá ser integrada na Literatura Popular Escrita Tradicional e / ou Tradicionalista.

7 Os “cinco livros do Povo”, conforme a feliz designação do etnólogo brasileiro Luís da Câmara Cascudo (Os Cinco Livros do Povo, Rio de Janeiro, 1953 (2ª. Ed., facsim., João Pessoa, 1979)) são as de Princesa Magalona e Pedro da Provença, Imperatriz Porcina, Donzela Teodora, Roberto do Diabo e João de Calais, a que se junta a de Carlos Magno e os Doze Pares de França; por seu turno, sabemos que Bernardo Gomes de Brito compôs os dois volumes da sua História Trágico-Marítima (1735 e 1736), a partir de folhetos, ficando muitos outros por publicar, o que tem sido feito ao longo dos últimos dois séculos.

8 Raymond Queneau, Histoire des Littératures, Vol. III, Paris, 1958.

9 J. Bersani, M. Autrand, J. Lecarme e B. Vercier, La Littérature en France depuis 1945, Paris-Montréal, 1970, pp. 749-785.

10 É a já citada obra de Noël Arnaud, Francis Lacassin e Jean Tortel, Entretiens sur la Paralittérature, Paris, 1970.

11 Marc Angenot, Glossaire de la Critique Littéraire Contemporaine, Paris, 1972 (trad. port. de Miguel Tamen, Lisboa, 1984); Angelo Marchese, Dizionario di Retorica e di Stilistica, Milão, 1978 (trad. e aditam. em espanhol, de Angelo Marchese e Joaquín Forradellas, com o título de Diccionario de Retórica, Crítica y Terminología Literaria, Barcelona, 1986) e Jeremy Hawthorn, A Concise Glossary of Contemporary Literary Theory, Londres, 1994.

12 Jacinto do Prado Coelho et alii, Problemática da Leitura – aspectos sociológicos e pedagógios, Lisboa 1980, pp. 9-33 e 49-60.

13 Arnaldo Saraiva, Literatura Marginal / izada, Porto, 1974, ao qual se seguiu Literaatura Marginal / izada – Novos Ensaios, Porto, 1980.

14 AA. VV., Actas e Conclusões do I Encontro do Ensino e Investigação de Português, Lisboa, 1977 (para o nosso estudo, cf. pp. 31-54).

15 Foi publicado em Lisboa, em 1978.

16 João David Pinto Correia, O Texto Paraliterário, Cadernos da Associação de Professores de Português, nos. 3 e 4, Liboa, Fevereiro e Março de 1979.

17 É o artigo indicado na nota 3.

18 Jacinto do Prado Coelho, “Apontamentos sobre Literaturas Marginais”, Boletim de Filologia, tomo XXVIII (1983), fasc. 1-4, pp. 329-332.

19 Marc Angenot, op. cit. (trad. port.), p. 175; do mesmo autor pode consultar-se também “Qu’est-ce que la paralittérature?”, Études Littéraires, Laval, Vol. 7, nº. 1, Abril de 1974 (este número é dedicado ao estudo da “paraliteratura”, e ainda Le Roman Populaire. Recherches en Paralittérature, Québec, 1975.

20 Id., ib.

21 Jacinto do Prado Coelho, “Introdução à Sociologia da Leitura Literária”, in J. P. C. et alli, Problemática da Leitura Literária, Lisboa, 1980, p. 13.

22 Id, ib.

23 Id., p. 14.

24 Trata-se do artigo indicado na nota 18.

25 Ib., p. 331.

26 Wladimir Krysinski, Carrefours de Signes – Essais sur le Roman Moderne, La Haye, Paris, Nova Iorque: cf. comentário feito por Arnaldo Saraiva no seu artigo publicado na Revista Lusitana – Nova Série, 1998 (indicado na nossa nota 3); o mesmo autor tinha também publicado “Le ‘paralittéraire’ et le ‘littéraire’ dans le texte romanesque moderne”, Zagadnienia Rodzajów Literacèich, Vol. XIX, I.

27 Daniel Couégnas, Introduction à la Paralittérature, Paris, 1992.

28 Registamos entre aspas, as citações e os comentários feitos por Arnaldo Saraiva no artigo já indicado na nossa nota 3, pp. 150-151.

29 Arnaldo Saraiva, “Acerca de ‘Paraliteratura’”, Revista Lusitana (Nova Série), nº. 17-18, 1998, p. 151.

30 Vítor Manuel Aguiar e Silva, Teoria e Metodologia Literárias, Lisboa, 1990, p. 74.

31 Id., ib., p. 75.




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