Paródia: Rapunzel



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Encontro31.07.2016
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Paródia: Rapunzel

Eva Furnari, baseando-se no conto clássico de Rapunzel, faz modificações na história original criando, então, uma paródia nomeada de “Uma história um pouco esquisita”. Tal título, por sua vez, sugere que o leitor espere algumas mudanças na história original, instigando-o a pensar em prováveis acontecimentos/hipóteses que podem ter deixado a história “esquisita”. Desta forma, o próprio título já traz algo novo que permite elaborar alguns questionamentos e, assim, antecipar várias idéias referentes à história, como por exemplo: o que teria mudado para o conto de Rapunzel tornar-se esquisito, quais personagens terão (os mesmos e/ou outros personagens), o que estes farão no novo enredo, em que cenário se passará a nova história, entre outras possíveis formulações de sentido.

As ilustrações, por sua vez, complementam o texto-verbal, possibilitando ao leitor visualizar as expressões dos personagens e, especialmente, as diferenças entre as características dos personagens existentes na versão recriada e na versão original. Neste sentido, o recurso da multimodalidade é utilizado no texto de Eva Furnari de forma que as imagens ajudam a compor os sentidos em relação à nova versão do conto.

Na paródia “Uma história um pouco esquisita”, a autora apresenta várias alterações em relação ao texto-base. Neste, os personagens principais são: princesa, uma linda jovem; bruxa, muito malvada e feia e príncipe, um bom e bonito rapaz. Já no conto recriado por Eva Furnari, os personagens são coelhos que representam os papéis de princesa, bruxa e príncipe. Entretanto, a grande novidade é a inversão nas ações destes personagens, já que as características negativas são agregadas à princesa (“horrorosa, chata, mandona e feia de doer” – p.25), enquanto que a bruxa também foge totalmente ao estereótipo esperado, pois ao contrário do que encontramos no conto clássico, ela é “muito interessante, bonita, alegre e engraçada” (p.26). O príncipe, por sua vez, também não enquadra-se nos padrões dos contos de fadas, pois na paródia em questão ele é “um pouco feio, um pouco estranho, um pouco torto e um pouco azarado também” (p.25), ou seja, não é representado dentro dos moldes da “perfeição” como geralmente o encontramos nos contos clássicos.

Diferenciando-se da narrativa tradicional de Rapunzel, a nova versão traz a princesa como a “vilã” da história e não como a “vítima” encarcerada pela bruxa malvada. Aliás, na paródia, quem aparece preso é o príncipe e, ainda, aprisionado pela princesa!

Este, então, acaba salvo pela bruxa que, nesta versão de Eva Furnari, acaba fugindo e casando com a própria bruxa, vivendo felizes para sempre num castelo antigo e lindo, numa terra distante. Já a princesa, diferente do que ocorre no texto-base, casa-se com um dragão (personagem novo na história) que queima a maldade dela com o fogo de suas ventas.

Portanto, o final do conto clássico foi profundamente alterado contrariando as expectativas já construídas para os personagens. O príncipe casa-se com a bruxa, enquanto a princesa termina ao lado de um dragão. Fatos inesperados dentro dos “padrões” dos contos clássicos!

Na minha opinião, a inversão dos papéis dos personagens principais (princesa é má e feia, bruxa é bondosa e bonita, príncipe não é perfeito), bem como as qualidades que são descritas para eles, são aspectos que dão humor à nova versão. Além disso, é interessante a mudança que a autora faz ao deixar que a bruxa salve o príncipe. Nesta paródia em análise, esse fato é bem relevante, pois indiretamente, remete à questão das relações de gênero: não é mais o homem corajoso e seguro que salva a indefesa e pobre princesa, mas o contrário. Na nova versão, a bruxa decidida e solidária salva e cuida do príncipe “imperfeito”. Achei bem interessante e provocativa esta modificação apresentada pela paródia. Desta forma, o título acaba muito integrado ao enredo do novo texto e faz todo o sentido em sugerir que a história é “um pouco esquisita”.


Bibliografia

FURNARI, Eva. Felpo Filva. São Paulo: Editora Moderna, 2006, p. 25 e 26.



Algumas idéias para inverter aspectos de narrativas tradicionais:

João e Maria:

Possíveis mudanças:

João e Maria seriam crianças desobedientes que fugiram da casa dos pais e foram para a floresta, escondidos.
A bruxa seria uma velha doceira que, na casa feita de doces, prepara gostosas guloseimas para as festas dos animais da floresta. Ela teria momentos de doçura e de loucura!
As crianças comeriam parte de sua casa e, num dos momentos de loucura, a velha bruxa-doceira obrigaria João e Maria a fazerem uma enorme encomenda de doces para uma festa que aconteceria na reunião dos reis da floresta: os leões! Caso contrário, deixaria as crianças na toca destes ferozes animais.
Exaustas com tamanho trabalho e assustadas com as ameaças da bruxa-doceira, as crianças cumpririam a punição e voltariam correndo para a casa dos pais, certos de que lá seria o verdadeiro “lar-doce-lar”!

Branca de Neve e os Sete Anões:
Possíveis mudanças:

Branca de Neve morava em um castelo medieval e os Sete Anões seriam os Sete Gigantes...



Sua madrasta seria uma feiticeira desastrada e solidária que tenta arrumar um casamento encantado para sua enteada através de suas poções mágicas. Por ser desastrada, erra em suas magias e o resultado acaba por transformar o príncipe encantado em um desagradável sapo!

Os Sete Gigantes tentam desfazer o feitiço da madrasta, levando uma mosca de ouro (encontrada nas minas onde trabalham) para o sapo encantado engoli-la e voltar à sua forma de príncipe!


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