Participação do Investidor Individual: a democratização para o Desenvolvimento do Mercado de Capitais e da Nação



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Participação do Investidor Individual:

A Democratização para o Desenvolvimento do Mercado de Capitais e da Nação




Resumo


Inserido na questão do desenvolvimento sócio-econômico do país, este trabalho se apresenta como uma recuperação dos condicionantes determinantes da atrofia existente no Mercado de Capitais Brasileiro, a fim de validar as perspectivas e as políticas que se podem arquitetar para o seu desenvolvimento e conseqüente da nação.

Os principais condicionantes para a retomada do Mercado de Capitais de suas funções clássicas são apresentados segundo uma lógica teórico-empirista, onde se faz essencial para a retomada da liquidez e da eficiência do sistema, a democratização do mercado via a participação do investidor individual.


Palavras chaves: bolsa de valores, investidor individual, mercado de capitais, desenvolvimento sócio-econômico.

Sumário

1 - Introdução.............................................................................................................................03


2 - A Questão da Poupança e do Desenvolvimento..............................................................04


2.1 - Considerações sobre a Poupança Privada no Brasil.................................................05

3 - O Papel do Mercado de Capitais.........................................................................................07


4 - A Democratização do Mercado de Capitais para os Investidores Individuais como Elemento de Desenvolvimento................................................................................................08


4.1 - A Criação de uma Política para a Participação do Investidor Individual no Mercado de Capitais.............................................................................................................10
4.2 - O que pode ser feito para estimular os brasileiros a investirem mais no mercado de capitais?............................................................................................................................14

5 - À Guisa de Conclusão..........................................................................................................15


6 - Bibliografia...........................................................................................................................16



Participação do Investidor Individual:

A Democratização para o Desenvolvimento do Mercado de Capitais e da Nação

A ascensão do investidor individual na última década é um dos mais poderosos e marcantes desenvolvimentos dos nossos mercados de capitais


Arthur Levitt1




1 - Introdução


Na teoria econômica qualquer tipo de produção pode ser efetivamente baseado em três fatores: trabalho, recursos naturais e capital. Conseqüentemente, os mercados desses fatores de produção têm sido passíveis de investigação, dentre os quais se destaca o mercado de capitais.

O mercado de capitais se traduz em um importante mecanismo para a promoção do crescimento econômico, ao alocar a poupança de forma eficiente, entre as várias oportunidades de investimento. A principal contribuição do processo de intermediação financeira é a de facilitar a transferência de recursos para alternativas de investimento mais adequadas ao processo de desenvolvimento econômico. Assim sendo, a captação e alocação eficientes de recursos através do mercado de capitais, tornam-se de fundamental importância para viabilizar este desenvolvimento.

A percepção de tal fenômeno, associada às especificidades da política econômica nos últimos 30 anos no Brasil, nos permitem avaliar de forma crítica as causas da queda da poupança financeira doméstica e do atrofiamento do mercado de capitais, a fim de que, embasados pela história econômica do país, possamos construir um novo modelo de desenvolvimento econômico-social impulsionado de forma auto-sustentável pelo mercado de capitais.




2 - A Questão da Poupança e do Desenvolvimento
A experiência de vários países mostra haver inter-relacionamento entre o desenvolvimento financeiro embasado na poupança privada e o desenvolvimento econômico. Discutir sobre alternativas para aumentar a poupança privada pode passar a impressão equivocada de que um esforço maior de poupança por parte dos indivíduos traduz-se automaticamente em fluxo maior de investimento, em termos macroeconômicos. Isto poderia ser válido, conforme lembra Keynes, apenas em uma economia do tipo “Robinson Crusoé”. Na doutrina por ele questionada que “tem sido suposto que qualquer ato individual de abstenção de consumir leva necessariamente a um aumento no mesmo valor do investimento” (Keynes, 1936:19).

Entretanto, em uma economia onde as decisões de se abster de consumir e as decisões de investir, associada a uma expectativa de consumo futuro, são tomadas por agentes diferentes. Conseqüentemente, o desafio de aumentar a poupança privada no Brasil implica definir mecanismos que permitam atingir simultaneamente dois objetivos, sem os quais as taxas de poupança e de investimento dificilmente poderão aumentar até os níveis necessários para o país poder aspirar a uma taxa de crescimento significativa nesta década: o primeiro é diminuir a propensão média a consumir da sociedade, de forma a viabilizar um aumento da participação do investimento na demanda agregada; o segundo, por sua vez, é canalizar os recursos que deixariam de ser consumidos pelos indivíduos para que eles de fato sejam utilizados no financiamento do investimento, dado que, sem essa intermediação eficiente do mercado de capitais, o menor consumo vai ter como efeito apenas a diminuição da demanda agregada e da renda.

Nesse último caso, o investimento como fator de geração de renda tem um fundo Keynesiano, ou seja, implica em reconhecer que não basta apenas a decisão de não consumir para que o investimento se realize, faz-se necessário a presença de um mecanismo para intermediação de funding, o mercado de capitais, uma vez que os recursos devem ser canalizados para viabilizar os novos projetos de investimento.

Há uma série de iniciativas que poderiam conduzir a um aumento da taxa de crescimento do país, através de uma melhora dos mecanismos de financiamento do mercado de capitais, que estão sendo convalidados pelo enforcement político e institucional.2


2.1 - Considerações sobre a Poupança Privada no Brasil
O Brasil enfrentou, desde o final dos anos 70, uma queda expressiva dos seus níveis de investimento, fenômeno ao qual esteve associado a um declínio de mesma magnitude da poupança agregada. A literatura tem sido pródiga em relacionar este fato com a crise fiscal do país, ressaltando o duplo papel do combate ao déficit público como elemento central de uma política de estabilização e como fator-chave para a recuperação da poupança e do investimento. Porém, quase nada tem sido escrito no país acerca de um fenômeno que vinha ocorrendo desde o início dos anos 90 e que se acentuou recentemente: a queda da poupança privada, expressa pelo boom de consumo das famílias que se intensificou a partir de 1993. Outros países da América Latina, que nos anos 80 e 90 também passaram por processos de certa expansão econômica, liberalização financeira e abertura das suas economias, têm experimentado um crescimento similar do consumo privado, como são os casos do México e da Argentina.

Este trabalho aborda tal fenômeno, sem o intuito, porém, de analisar as suas causas, mas apenas de avaliar os limites que o consumo elevado das famílias – ou a contrapartida, na forma de uma poupança privada limitada – pode impor a uma trajetória de crescimento sustentado da economia brasileira3, uma vez que os países subdesenvolvidos ou em desenvolvimento distinguem-se dos demais por uma série de características comuns.

Provavelmente, a baixa capacidade de formação interna de poupança4 constitui uma grave limitação desses países, na medida em que cerceia o processo de acumulação de capital e dificulta o crescimento acelerado do produto e do nível de emprego.

Naturalmente, um importante passo na busca de soluções para os graves problemas dos desses países deve ser o encaminhamento de medidas que promovam o crescimento da poupança interna, canalizando-a, de preferência via mercado de capitais, para as alternativas de investimento que cumulativamente produzam altos retornos sociais.

É importante, nesse sentido, medidas que busquem estimular o hábito de poupança em camadas crescentes da população, educando-as para a conveniência de obterem uma maior consumo futuro com a transferência de parte de seu consumo atual para aplicações financeiras que constituam aumento de patrimônio ou riqueza.

No Brasil, o atual nível da taxa de poupança doméstica indica uma significativa queda da poupança pública em relação à que vigorava nos anos 70, o que reflete a piora das contas fiscais. No que diz respeito à evolução da poupança privada, observa-se que, após apresentar um aumento na segunda metade dos anos 80, ela voltou a cair nos anos 90.

Este comportamento da poupança privada reflete a evolução do consumo privado no período. O consumo privado caiu significativamente ao longo dos anos 80, como resultado da queda do salário real no período, devido ao efeito combinado da redução dos níveis de renda – decorrentes do período recessivo – com uma taxa de câmbio elevada. Contudo, a partir da estabilização macroeconômica viabilizada pelo Plano Real, observa-se uma trajetória ascendente do consumo privado. Isto se explica, por um lado, pela queda significativa das taxas de inflação, que reduziu o imposto inflacionário e favoreceu, particularmente, as camadas da população de renda baixa que não tinham acesso aos instrumentos financeiros de proteção contra as perdas inflacionárias do período anterior à estabilização5. Considerando-se a demanda reprimida desta faixa de população, isto representou um significativo aumento da demanda de bens de consumo, com destaque para os produtos eletroeletrônicos.

Por outro lado, a isto se somou a restauração dos mecanismos de crédito, com destaque para o alargamento dos prazos de pagamento, com efeitos positivos tanto para as classes de renda mais baixas quanto para as mais altas, o que neste caso refletiu-se no aumento de bens de consumo durável.

Dados os níveis de demanda reprimida das classes de baixa renda e levando em consideração o fato de que sua propensão marginal a consumir é alta – praticamente gastam tudo o que ganham – no período da segunda metade da década de 90 observa-se uma tendência ao aumento da propensão a consumir da economia como um todo, o que a longo prazo, pode comprometer o potencial de crescimento da economia.

O que se depreende é que a contenção do consumo requerida para aumentar as taxas de crescimento do PIB é: a) apenas relativa, já que o consumo privado poderia crescer continuamente; e b) gera como resultante, a longo prazo, um consumo maior do que aquele que resulta de ter um consumo inicial maior associado a uma propensão a consumir maior. Em outras palavras, a estratégia de conter inicialmente o crescimento do consumo envolve um trade-off intertemporal, que implica substituir consumo presente por consumo futuro.


3 - O Papel do Mercado de Capitais
O Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social, BNDES, principal responsável pela política de investimento do Governo, tem representado o grande sustentáculo das empresas privadas nacionais nas últimas quatro décadas, suprindo-as de fôlego financeiro – e capitalizando-as via empréstimos a juros subsidiados – para consecução de seus projetos, evidenciando-se, portanto, seu papel em prol do desenvolvimento econômico de nosso país. Ora, se o mercado de capitais é assumido como parte integrante de uma estratégia global orientada para o desenvolvimento econômico, por quê, então, não pensar numa efetiva integração BNDES/CVM, o primeiro em sua política fomentista e a segunda basicamente reguladora de mercado, enquanto instrumento para compatibilizar os objetivos de capitalização das empresas privadas nacionais com o de criação de uma legião de investidores individuais?

A popularização dos investimentos em bolsa de valores pode ser o grande mecanismo acelerador do objetivo, a ser perseguido, de dispersar a propriedade na medida em que se crie uma solução operacional de baixo custo que possibilite uma distribuição ampla e direta das ações entre milhões de investidores individuais, atendido o princípio de vinculação da propriedade ao controle. A conquista deste objetivo seria o fortalecimento de um notável instrumento a favor da busca de um caráter de cooperação entre Governo-Empresas-Empregados, situação facilmente identificada no Japão, por exemplo, como um fator muito importante para explicar os resultados alcançados por aquela nação.

A meta de se estabelecer um clima de cooperação empresas-empregados tende a ser um anseio comum quer endogenamente pela interdependência estrutural de interesses, quer pela alta potencialidade de crescimento de produtividade, que acarreta amplos benefícios de desenvolvimento econômico e social para a nação.

Ora, o mercado de capitais se traduz em importante mecanismo para promoção do crescimento econômico ao alocar a poupança de forma eficiente, entre as várias oportunidades de investimento.


4 – A Democratização do Mercado de Capitais para os Investidores Individuais como Elemento de Desenvolvimento
A história da civilização humana é delineada por grandes acontecimentos que impactaram sobremaneira a sociedade. Estes eventos funcionam como marcos históricos, pela relevância das mudanças que deflagram em todos os níveis: social, político, econômico e tecnológico (Lima Silva et. aii, 2000).

Todos os marcos científico-culturais que marcaram, o que alguns chamam e outros negam, de a 3a Revolução Industrial são os fatores determinantes para a evolução econômica-social no século XXI, seja através de uma sociedade global do conhecimento ou da informação, mas fundamentalmente atrelados à velocidade de mudança e à concentração do capital e das decisões vis-a-vis a descentralização do poder e fortalecimento do local.



Dessa forma, cada vez mais os fluxos financeiros dependem de contas com propriedade e controle descentralizados; fundos de pensão, fundos de investimento, ativos de seguradoras, caixas das empresas, grandes fortunas, pequenos poupadores individuais. Veja a propósito, o que aconteceu com a Nyse – Bolsa de Valores de Nova York, na segunda metade do século XX.


Tabela I - Quem são os proprietários de ações nos EUA?*




1950

1970

1990

1996

Fundos Privados de Pensão

1,1

67

592

1255

Fundos Estaduais e locais de pensão

0

10

506

851

Companhias de seguro

2,1

14

228

425

Outros grupos seguradores

2,6

13

103

152

Fundos mútuos

2,9

39

607

1345

Fundos fechados




4

27

38

Contas fechadas em bancos




80

181

213

Estrangeiros

2,9

27

373

575

Investidores Individuais

130,3

572,5

3248

4477

Outros

0,8

12,1

42

51

Fonte: www.nyse.com Fact book Nyse, 1996/Data

*Valores em US$ bilhões


Nos anos 50, os investidores individuais tinham um predomínio absoluto sobre o mercado. Os fundos mútuos, fundos, fundos fechados, as companhias de seguro e os fundos de pensão, todos juntos, não representavam mais do que seis por cento dos ativos controlados pelos investidores individuais no quadro da Nyse. O perfil mudou completamente nos anos 90 com o crescimento dos Fundos, mas é preciso fugir de algumas simplificações.

Mesmo transformados em grandes atores, os fundos de pensão não podem nem querem ser considerados com um fator de concentração. Sua participação na Nyse, tomando como base os dados de 1996, limitava-se a 22,4 por cento do total.

O que está acontecendo, na realidade, é uma diversificação do processo de tomada de decisões, e uma das conseqüências disso é uma procura cada vez mais intensa de administradores profissionais e técnicas de cobertura de riscos, porém, as instituições, apesar de se mostrarem menos avessas ao risco do que os indivíduos, são também menos dispostas comprar, sejam as emissões sazonais de menor liquidez, sejam as novas emissões não-sazonais.

Portanto existe um espaço para os investidores individuais, haja vista a importância que eles têm no aumento das negociações efetuadas, trazendo qualidade e eficiência para o mercado acionário, através de liquidez e da pulverização de ações.



4.1 – A Criação de uma Política para a Participação do Investidor Individual no Mercado de Capitais
Os volumes negociados no mercado brasileiro de ações aumentaram rapidamente depois do Plano Real, refletindo a relativa estabilidade da moeda e acompanhando as expectativas de privatização de empresas estatais. Entre 1995 e junho de 1997, o volume médio diário negociado na Bolsa de Valores de São Paulo quadriplicou, passando de 300 milhões para 1,2 bilhão de reais.

Apostando no crescimento da base dos acionistas, a Bolsa lançou uma campanha publicitária, a primeira de toda a sua história com o uso maciço dos tradicionais veículos de comunicação, televisão, rádio, jornais e revistas de grande circulação; no ano de 1996, quando se achava que mercado de capitais iria sair de sua atrofia para se desenvolver.

A iniciativa da Bovespa baseou-se na hipótese de que, se o Plano Real fosse consistente a longo prazo, haveria uma inevitável migração dos investimentos, que aos poucos sairiam da renda fixa (CDBs, cadernetas e similares) passando para a renda variável (ações, fundos de ações).

Se essa migração acontecesse (o que se confirmou), seria preciso aumentar o estoque de ações para atender à procura. Até meados de 1997, contudo, os programas de privatização que poderiam aumentar o estoque de papéis disponíveis para os investidores, contudo, o Estado negligenciou este importante fato.

A opção do governo pela venda direta de lotes de controle acionário alegadamente visou maximizar os ganhos para o Tesouro. O desinteresse pela pulverização das ações provavelmente aconteceu por erros de leitura, somados a alguns preconceitos contra as Bolsas e o mercado de ações.

O primeiro erro de leitura foi subestimar os anseios dos pequenos poupadores espalhados pelo Brasil inteiro. Entre 1996 e 1997, os fundos de ações aumentaram de 4 para 12 por cento a sua fatia no patrimônio global dos fundos, mesmo sem contar com o embalo das privatizações.

Os pequenos investidores, como se pode detectar no gráfico abaixo, queriam se informar melhor e participar desses programas, fato que a Bovespa detectou através de um trabalho de campo para sondar o que pensavam os sindicatos e a população em geral.



Fonte: Pesquisa da campanha Privatização Democrática (junho/agosto de 1996)

www.bovespa.com.br
Portanto, os instrumentos para lidar com meios mais concentrados e oligopolizados, durante as privatizações, poderiam derivar de um simples refinamento dos instrumentos regulatórios nas mão do Estado, porém aquela oportunidade de valorização do mercado de capitais se esvaiu, uma vez que o mercado brasileiro continuou com elevado grau de concentração na Bovespa, respondendo por 54% do total dos negócios das dez ações mais negociadas em 2001 vis-a-vis a uma incapacidade de democratizar o mercado de capitais, posterguando-o como mecanismo de geração de renda futura e de longo prazo pela potencial massa de investidores individuais.

O que se depreende desse processo é que a participação oficial do Estado no mercado de capitais diminuiu, na medida que o dinheiro passou a fluir por canais privados, o governo reservou para si o papel regulador, por outro lado o mercado de capitais continua atrofiado, mas com um potencial promissor de acionistas que foram ignorados pelas privatizações, os investidores individuais.





Fonte: Relatório de Gestão 2001 www.cvm.gov.br
É sugerido que o crescimento dos investimentos em ações por parte dos investidores institucional e estrangeiro e instituições financeiras através de uma especulação excessiva tenha provocado efeito indesejável sobre a eficiência do mercado acionário, afetando a estabilidade dos preços das ações.

Por outro lado, o crescimento dos investimentos em ações por parte dos investidores individuais no Neuer Markt na Alemanha fornece um exemplo conciso que o desenvolvimento do mercado acionário pode ser originado através do estímulo à participação de pessoas físicas, garantindo-lhes transparência, informação e fácil acesso ao mercado, além de fortalecimento dos acionistas minoritários como mecanismos eficientes de promoção do mercado de capitais, haja vista que o mercado de capitais alemão, antes do Neuer Markt ser criado em 1997, tinha uma baixa performance, considerando-se a concentração de mercado e o número de empresas que abriam capital; situação não muito diferente do Brasil, que atento às transformações criou o Novo Mercado, buscando diagnosticar as causas do enfraquecimento de nosso mercado de capitais e encontrar os caminhos para a superação através de um tripé: liquidez, transparência e facilidade de acesso.

Diante desse novo panorama de reestruturação e fortalecimento do mercado de capitais nacional, faz-se mister a presença do investidor individual brasileiro em um momento em que são desenvolvidos alguns instrumentos financeiros eficazes e instituições competentes para que a poupança financeira possa ser administrada eficientemente. Fortalecendo a confiança e credibilidade do público investidor no mercado de capitais, normalmente o público vai se interessar mais, e. g. por ações, com isso o que tendencialmente acontece é que o preço dessas ações deve melhorar e é isso que vai viabilizar a reativação do mercado primário, pois à priori com preços baixos, devido aos elevados custos de transação, as empresas não se arriscam a abrir seu capital.

Diante dessa considerações, o momento epigráfico de nossa partida faz sentido, pois realmente “a ascensão do investidor individual na última década é um dos mais poderosos e marcantes desenvolvimentos dos nossos mercados de capitais” ; é a partir dele que se inicia os primeiros passos para que o nosso atrofiado mercado de capitais volte a andar.




4.2 – O que pode ser feito para estimular os brasileiros a investirem mais no mercado de capitais?
Existe um problema que está intrínseco na cultura brasileira e que foi sendo amalgamado com o tempo, que é a aversão ao mercado de capitais ou à poupança. A problema da poupança, conforme anteriormente explicado, está relacionado à elevada demanda reprimida que há, principalmente nas camadas mais pobres da população. Já questão do mercado de capitais está intimamente ligada a idéia de jogatina, que se explica pelo caráter conservador historicamente construído.

Portanto faz-se necessário uma política geral, que procure reconquistar a confiança no mercado de capitais, ou até mesmo criar uma nova idéia sobre os benefícios, do mercado de capitais. Muito já tem sido feito pelos agentes e instituições do Mercado de Capitais, porém estamos na era digital, que é marcada pela revolução tecnológica que está mudando, em alta velocidade, as formas de pensamento, costumes e hábitos.

Paralelamente a essa mudança, as previsões de crescimento para o comércio eletrônico mostram valores cada vez maiores. Analistas do mundo inteiro projetam um acelerado crescimento do e-commerce nos próximos anos. As expectativas para o Brasil são mais otimistas ainda: acredita-se que o comércio eletrônico crescerá aqui mais que em outros países. Além disso, os processos de negociação entre empresas e consumidores têm mudado radicalmente. Nunca antes os consumidores foram tão bem informados e exigentes (LIMA SILVA, et.aii, 2000), pois o computador é, atualmente, visto como um mecanismo de aperfeiçoamento técnico e gerador de riqueza, e ferramenta que viabiliza a democracia e a emancipação política dos habitantes do mundo, por quê não um mecanismo de pulverização de ações, a fim de diminuir a concentração no mercado de capitais nacional? Segundo pesquisa do website Cadê?6, em 1999, menos que 5%de todas as pessoas que usavam a internet para compras já haviam comprado ações, em comparação 80% já haviam comprado livros e 11% eletroeletrônicos; o que demonstra que existe espaço na internet, não somente para transmitir informações, como transparência do mercado, mas também para o comércio.

Uma outra importante maneira de democratizar o mercado acionário é a utilização de recursos do FGTS na compra de ações. Além disso, a venda pulverizada é um caminho válido para o governo alienar ações que detém em empresas estatais. Os casos da Petrobrás, Vale do Rio Doce e Banco do Brasil são exemplos que demonstram o sucesso, e o comprometimento do governo de ampliar as condições para o aumento de investidores individuais.


5 – À Guisa de Conclusão
Somos sabedores da necessidade de viabilizarmos vultosos investimentos capazes de criar oferta de empregos para as novas gerações e de melhorar o perfil de distribuição de renda existente. Sem aumento da poupança privada, as alternativas de financiamento serão ou políticas inflacionárias (pouco provável devido o compromisso com a estabilização), poupança externa; fluxos de investimentos diretos ao exterior e empréstimos, ou maior poupança do governo via tributos e poupanças forçadas, ou ainda maiores financiamentos externos.

Dentre estas opções, o mercado de capitais é o que apresenta a mais orgânica proposta de desenvolvimento, integrada aos diversos setores econômicos nacionais e internacionais, como uma proposta estratégica de concentração e alocação eficiente de capital e investimento.

O papel desempenhado pelo Mercado de Capitais difere, naturalmente, de país para país; entretanto, de um modo geral, é bastante relevante nas nações desenvolvidas, onde já existam mercados acionários representativos. Mesmo no caso de países menos desenvolvidos, com mercados acionários ainda em processo de evolução, existe um interesse bastante acentuado no impacto da participação e das negociações dos investidores individuais sobre a liquidez e a eficiência econômica.

Como muito bem demonstrado no case alemão de sucesso do Neuer Markt, o investidor individual é uma elemento fundamental para o reerguimento do mercado de capitais, de forma a injetar liquidez no sistema, segundo regras mais transparentes e eficientes. Da mesma forma, com as reestruturações que vem ocorrendo no mercado de capitais brasileiro, tudo aponta, que com o Novo Mercado e a nova Lei das S.A., garantindo maiores direitos aos acionistas minoritários, eficiência e eqüidade, o Brasil aponta para um momento imperativo para o desenvolvimento de seu mercado de capitais embasado - com princípios fundamentais da Governança Corporativa e da democratização de participação do Investidor Individual, revertendo-se como elemento propulsor de financiamento para o desenvolvimento nacional.


6 - Bibliografia
BOVESPA, Desafios e Oportunidades para o Mercado de Capitais Brasileiro. Estudos para o Desenvolvimento do Mercado de Capitais. São Paulo: Bovespa, 2000.

_________, O Mercado de Capitais: Sua importância para o Desenvolvimento e os Entraves com que se Defronta no Brasil. Estudos para o Desenvolvimento do Mercado de Capitais. São Paulo: Bovespa, 2000.

CALVACANTE FILHO, F. S. & MISUMI, J. Y., Mercado de capitais, 4a edição. Belo Horizonte: CNBV, 1998

FERREIRA, P. C., Perspectivas de longo prazo da economia brasileira: uma análise exploratória. Ensaios Econômicos da EPGE, no 290. Rio de Janeiro, 1996.

KEYNES, J. M., The general theory of employment, interest, and money. New York: Harcout, Brace and Company, 1936.

LIMA SILVA, A. C.; PAULA, E. R.; MORAES, M. A. & GONÇALVES, C. A., Um olhar sobre o comportamento de compra dos usuários da Internet. Caderno de Pesquisas em Administração, vol. 7, no 3, julho/setembro. São Paulo, 2000.

NAJBERG, S. & SOUZA DE OLIVEIRA, P. A., Democratização do Mercado Acionário: A Utilização de Recursos do FGTS na Compra de Ações da Petrobrás. Revista do BNDES, vol. 1, no 1. Rio de Janeiro: BNDES, 1994.

NERI, M., Fuga da moeda e distribuição de renda. Boletim Conjuntural no 34, julho. Rio de Janeiro:IPEA, 1996.



www.bovespa.com.br

www.cade.com.br

www.cvm.gov.br

www.nyse.com


1 Chairman da Security and Exchanges Comission.

2 Este ponto é uma das discussões fundamentais da monografia e será discutido nos próximos itens.

3 A restrição de poupança não é o único entrave a prejudicar as possibilidades de crescimento da economia brasileira a taxas maiores que a dos últimos anos. Para uma discussão abrangente dos problemas que devem ser enfrentados para o país poder aspirar o crescimento, ver Ferreira (1996).

4 A poupança total da economia resulta da soma da poupança externa e da poupança doméstica. Esta última, por sua vez, é composta pela poupança pública – calculada pela diferença entre o investimento do governo e o déficit público – e pela poupança privada.

5 A respeito dos efeitos redistributivos da redução do imposto inflacionário, ver Néri (1996).

6 www.cade.com.br





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