Paternalismo, populismo e história social1



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Paternalismo, populismo e história social1


Antonio Luigi Negro

Departamento de História, UFBa


Introdução


Durante o encontro nacional da Anpuh de 2003, no decorrer dos debates que deram seqüência à comunicação que apresentou sobre um calendário do Estado Novo, Ângela de Castro Gomes, em réplica a um dos presentes (após este ter chamado o sindicalismo peronista de “pelego”), perguntou: “se os escravos faziam o diabo, por que não os trabalhadores?”.2 Com tal interrogação, Ângela de Castro Gomes se referiu ao avançado estágio dos estudos em história social da escravidão que, para resumir, descoisificaram o lugar da plebe na história do Brasil. Esses estudos mostraram que o paternalismo senhorial  no campo ou na cidade, na vida privada ou na esfera pública, na casa-grande ou na lavoura, no sobrado ou nas ruas  podia tanto ser negociado e carcomido no cotidiano quanto desafiado em excepcionais lances de envergadura e ousadia (os quais que eram urdidos, a duras penas, durante o cotidiano comum de pessoas comuns).3

Exemplo dessa produção é o artigo de Marcus de Carvalho que saiu na Revista Brasileira de História (lançada em João Pessoa). Ele retoma o problema da participação política das classes subalternas almejando precisar o alcance de suas ações, bem como seus motivos. O universo foi a Revolta Praieira, no Recife de 1848. Ao estudar os “limites da obediência” da clientela submetida “às malhas patronais”, o autor demonstra que as classes subalternas escapam à dominação e defendem seus interesses. Tem em vista, para isso, a “formação de lideranças populares capazes de intermediar as relações entre a haute politique partidária e os interesses imediatos dos trabalhadores livres pobres urbanos”. Um segundo exemplo vem, a calhar, da história social da escravidão. Soares e Gomes defendem que “africanos e seus descendentes não viviam isolados do mundo das idéias” e que, portanto, “avaliavam a ‘grande política’ e a partir dela mantinham expectativas e empreendiam ações, provocando temor entre senhores e autoridades”.4

Sintetizando  e de novo citando , no encontro nacional da Anpuh em Niterói, Sidney Chalhoub colocou a questão da seguinte maneira: “os senhores exerciam a sua prerrogativa de comprar e vender escravos no interior da arena da luta de classes, tinham de lidar com as expectativas e pressões dos cativos; podiam torturar e matar, mas sabiam que também corriam riscos”. Além destes riscos  às vezes mortais , os senhores tinham de lidar com os costumes em comum dos escravos, apesar das diferenças e rivalidades destes últimos. Com tradições forjadas “na experiência cotidiana sob o domínio senhorial”, os cativos “impunham limites claros ao exercício do domínio senhorial  ao mesmo tempo em que, via de regra, ajudavam a reproduzi-lo”.5

A discussão, portanto, a ser feita aqui é: se os escravos endiabravam a política de domínio senhorial, por que os trabalhadores não podiam assombrar a arquitetura da política trabalhista  e isso já no primeiro governo Vargas (1930-1945)? Por quanto tempo, em segundo lugar, vamos nos haver com o reino do populismo  arrebatado por um maquiavélico Getúlio , durante o qual teria ocorrido o triunfo da manipulação, em que os trabalhadores caíram errantes, iludidos ou incapazes?

Para começar, a classe operária  sob o cativeiro ou em liberdade  estava “presente ao seu próprio fazer-se”, realçando com isso que estamos diante de um “processo ativo, que se deve tanto à ação humana como aos seus condicionamentos”.6 A partir daí, precisamos identificar os nomes, valores, estratégias, as iniciativas e tendências dos trabalhadores, ou dos integrantes das classes chamadas de “operárias”, “subalternas” ou “perigosas”. Isto nos levará de encontro a duas posições firmemente estabelecidas e aceitas.

A primeira delas alega o seguinte: os trabalhadores são uma massa em desarraigo social; são estranhos uns diante dos outros. São, ainda mais, rivais entre si. Não falam o mesmo idioma, seja na língua, seja na cultura. Em seu grande livro, Eder Sader escreveu que, ao pintar os trabalhadores desse jeito  dispersos ou divididos (sendo assim impotentes para formular idéias, práticas e estratégias de largo alcance) , se abre um vazio à espera do sujeito histórico (o “chefe”) que arrebata e eletriza a massa operária.7 A segunda posição situa no operariado o manancial de recrutas (anônimos e ordinários) para o qual, voltando-se um destacamento de elite, se arregimentará o exército invencível do proletariado. Afirmando a nulidade histórica dos trabalhadores, ambas as posições os retiram de cena e se colocam em seu lugar, agigantando-se no papel que atribuem a si mesmas: de boas cabeças letradas e esclarecidas, capazes de guiar os acontecimentos.


Paternalismo, populismo, trabalhismo


No capítulo “Patrícios e Plebeus”, Thompson afunda e acode o conceito de paternalismo.8 Ele primeiro afirma que o termo nada mais serve do que para abarcar fenômenos díspares entre si, no tempo e no espaço. No lugar de servir para construir comparações, paralelos ou contrastes, apenas rotula. Seu uso, por causa disso, tem sido de uma equivocada amplitude. Depois, sua própria perspectiva  estabelecida a partir de cima  não comporta uma relação, mas implica o oposto: uma “sociedade de uma só classe”, sugerindo manipulação. O resultado, conclui, é a desconsideração da história das classes subalternas.9 A história, em resumo é decidida no nível superior, de onde parte a clarividência, a habilidade, o pensamento e a manipulação, mal importando o que vem debaixo  se é que debaixo vem alguma coisa.

Uma terceira ressalva é acrescentada por causa da insinuação de solidariedade e coesão entre classes sociais contrapostas. Paternalismo

“sugere calor humano, numa relação mutuamente consentida; o pai tem consciência dos deveres e responsabilidades para com o filho, o filho é submisso ou complacente na sua posição filial”.

Na seqüência mais objeção. Como mito ou ideologia, paternalismo promove uma visão retrospectiva, que idealiza o passado, confundindo “atributos reais e ideológicos”. Outra reserva é feita pelo fato de paternalismo inibir o reconhecimento da recorrência do conflito entre classes  o que é crucial.10

O conceito populismo tem sofrido censuras parecidas. Contudo, se os historiadores do Brasil do paternalismo senhorial não jogaram fora a criança junto com a água do banho, a lavagem de populismo chega à conclusão de que o termo não presta.11 Populismo (argumenta-se) é pecha que se joga no adversário, denunciando-o como demagogo, farsante, prestidigitador, alguém prestes a consumir-se em fogueira de impulsos autoritários. Antes de ser usado, em segundo lugar, necessita explicar-se em demasia.12 Em acréscimo, é um conceito não só excessivamente elástico como também característico de abordagens etnocêntricas ou distanciadas. De fora  ou a partir de cima , não é operacional para vislumbrarmos as diferenças e os atritos entre as classes, ou dentro delas. Populismo, então, induz ao triunfo da manipulação.

Com certeza, ao argumentarem que é preciso reconhecer a diferença, a especificidade e o conflito, sobretudo da invenção do trabalhismo (datada em 1942) em diante,13 os defensores do abandono deixam claro que não havia uma era populista (ou uma era Vargas) regendo, inconteste, o período 1930-1964. Havia rivalidades e polarizações, e o rótulo de populismo nos faz enxergar pouca coisa, turvando o jogo das forças e nossa visão de um operariado trabalhista.14

Apesar da sua importância, se “trabalhismo” substitui “populismo”, a elasticidade deste último sai de cena para a entrada de um foco que iluminará contextos específicos: o trabalhismo foi arquitetado para os trabalhadores urbanos, sobretudo os sindicalizados, ou para a base mais ampla que recaía na órbita das atribuições oficiais dos sindicatos (abarcada pelo recolhimento do imposto sindical e pela representação sindical única). Apesar de o trabalhismo ter chegado ao campo  tanto pela lei quanto pela ação dos trabalhadores , os trabalhadores rurais não foram contemplados desde logo, isentando o mandonismo de coronéis e oligarquias.

Em segundo lugar, o ancoramento na especificidade há de levar em conta interfaces comparativas, o que implica manter o balanço das semelhanças e das diferenças com outras experiências. Pois, na busca de respostas para o Craque de 29, quando se quebrou um padrão latino-americano de exportação agrícola ou de matéria-prima, certos traços do primeiro governo Vargas não são de um exclusivo perfil nacional. Na América Latina, contabilizou Hobsbawm, “12 países mudaram de governo ou regime” no biênio 1930-1931, “dez deles por golpe militar” (sendo um desferido pela aeronáutica chilena, em prol do socialismo). Para confrontar a Grande Depressão, ganharam corpo as “tendências gerais da política de massa” dos anos 30, isto é, o “populismo latino-americano baseado em líderes autoritários buscando o apoio dos trabalhadores urbanos”.15

Falando do Brasil, defendemos a seguinte posição: Vargas não encontrou diante de si uma massa amorfa, sem experiência de lutas e idéias, independentes e autônomas. O sindicalismo corporativista não foi a única  nem tampouco a primeira  experiência de associação operária dos trabalhadores nos anos 30, sejam industriais e fabris ou migrantes e rurais. Não estavam os trabalhadores despossuídos nem esquecidos de sua história, e esta não era irrelevante. Não aconteceu o triunfo da manipulação.

Falando mais amplamente, quando Getúlio apresenta, em sua plataforma, não só a necessidade do rearranjo do sistema político e econômico, mas também o endosso à tese de que os trabalhadores possuíam o direito a direitos, ele é parte de um fenômeno mais amplo, de incorporação das massas à política dos partidos e das instituições republicanas (um passo, em si mesmo, notável). Ele acenava com a promessa de justiça social para um operariado progressivamente numeroso, o que difundiu expectativas de simpatia já em sua campanha presidencial. Robert Levine, além disso, faz referência a outro país americano que também se altera, seguindo caminho diverso, mas não completamente diverso. Ele observa que Roosevelt, no Rio de Janeiro (em 1936), atribuiu a Vargas o papel de referência para a formulação do New Deal, por causa da política estatal de intervenção, regulando a economia ou buscando intimidade com os sindicatos.16

Vargas recolhia fichas para o seu cacife, apresentando-se como confiável anteparo a uma temida escalada comunista (nem sempre efetivamente em curso). Ao oferecer a mão aos trabalhadores brasileiros os mais humildes e longínquos, deixando de lado as loas ao embranquecimento  racial e católico  dos imigrantes, Vargas explorava algo além do anticomunismo de dois grandes aliados, a Igreja e as Forças Armadas (ffaa). Duma parte, Ângela de Castro Gomes foi mais uma vez pioneira quando argumentou que seu primeiro governo, ao enquadrar o trabalhador brasileiro, o retratava em seu valor, enaltecendo sua figura. Ainda que não tivesse direito à livre organização, o operariado, com o seu trabalho, tinha direitos e sua dignidade finalmente acolhidos no ordenamento da República. Isso, no entanto, não impediu Adriano Duarte de concluir que cidadania e exclusão se encontravam, perigosamente, vinculadas durante o Estado Novo.17 Doutra parte, não era o único a ver no liberalismo uma ideologia débil e fracassada, liderando, outrossim, setores das oligarquias ao encontro de um projeto corporativo de clara inspiração autoritária (positivista, nazi-fascista ou salazarista). Além de tais alianças e de seu gosto pessoal pelo poder, o que lhe deu sustentação foi a formulação estratégica de um Brasil industrial, defendendo, em paralelo, a lavoura do café. Sustentou, em simultâneo, investimentos maciços em propaganda, polícia e nas ffaa.

Apontando para a improcedência de certas explicações comparativas, John French recapitula que, para uma certa abordagem, na Consolidação das Leis do Trabalho (clt) sopraria um certo paternalismo latino-americano  “eco da herança colonial”.18 Esse eco teria sido reelaborado na forma de paternalismo estatal de bem-estar, com o governo agindo como benfeitor, favorecendo uns de maneira arbitrária ou clientelista, ou respondendo a outros em função de pressões corporativas (em prejuízo de fracos e pobres). Nesta argumentação, ao infiltrar-se no aparato estatal, o paternalismo inspira o populismo, e aí se renova e se prolonga. Nesse sentido, modernidade, cidadania e democracia continuariam fenômenos estranhos aos brasileiros, sempre atados, de alguma forma, ao apadrinhamento e ao mandonismo.19 O que essas comparações improcedentes fazem, vale a pena frisar, é inserir paternalismo e populismo em um falacioso modelo explicativo imposto à história de vários países, todos atados a um ente chamado “herança colonial”: ibéricos, logo, imperfeitos  ontem, hoje e amanhã.

O trabalhismo não provocou uma desunião do operariado entre excluídos e incluídos. Ao contrário, vai ao encontro de expectativas e iniciativas por justiça social e expande-se, ao ser alvo de movimentos e iniciativas que requisitam sua contemplação pelas leis do trabalho, ou que usam precedentes para melhorar sua posição de barganha.20 À data base regular em que podiam conversar e reivindicar, as lutas operárias, frustrando o corporativismo, somam movimentos, por empresa, por categoria ou intersindicais, inclusive fora da “hora H” da data base. Este acréscimo, note-se, pode ser encontrado durante o governo provisório (1930-1934) e, até mesmo, nas vésperas da decretação do estado de sítio em 1935, quando afinal, pela repressão, os sindicatos, quaisquer que fossem, foram submetidos.

Sabemos, com toda a certeza, que não houve um triunfo da manipulação. Mesmo assim, outro aspecto a ser conferido é o alcance da política varguista, que não cogitava renunciar ao controle. O trabalhismo, afinal de contas, foi inventado para controlar, e não para liberar. Embora os trabalhadores não fossem marionetes, eram vistos, pelos donos do poder, como perigosos, primitivos, despropositados, submissos ou imaturos; eram vistos como presa fácil da pobreza, das ideologias “exógenas” ou de seus senhores. Getúlio aspirava a ser chefe, tanto antes quanto depois do Estado Novo (e, óbvio, durante). Seu perfil era de um político paternal, tutelar, redentor e autoritário: ele tratou de criar a platéia que desejava receber a outorga de suas concessões. Assim se valeu de espionagem e polícia, autoridade e poder, propaganda e truculência. Ele “queria aplauso e tinha”, reconheceu o pecebista Rolando Fratti, a propósito de um comício no Pacaembu (em 1943).21 Com efeito, o trabalhismo foi precedido por um período autoritário  de cerca de sete anos (1935-1942)  no decorrer do qual Vargas reservou o lugar do trabalhador no Estado Novo (1937-1945) sem haver-se com nenhuma dissidência politicamente operante (salvo a direita integralista, desbaratada em 1938). Portanto, se retiramos populismo de cena, porque recusamos o triunfo da manipulação, ressaltando a existência de um efetivo trabalhismo, não se pode entreabrir a porta da edulcoração, de caráter retrospectivo, do par varguismo e trabalhismo.


Uma obra inacabada


Embora tenham estimulado e apadrinhado toda uma geração de sindicalistas não só devotos à idolatria de Vargas como “chefe” mas também subservientes ao Ministério do Trabalho  geração esta que se reproduziu sem a concorrência de forças de esquerda , o mesmo Vargas e sua equipe laboral, em 1942, constataram que o Estado Novo não recebia apoio sindical consistente.22 De fato, desde 1935, Getúlio pouco fizera além de ditar aos sindicatos o que fazer, havendo quase nada além de manipulação na política presidencial.

Prometendo justiça social com o amparo do trabalho pela lei, Getúlio formulou uma proposta de inclusão dos trabalhadores  como uma classe  na República e no regime estadonovista. Este último, todavia, não comportava nem sindicalistas autênticos nem partidos, sendo fundado o Partido Trabalhista Brasileiro (PTB) em 1945, exatamente quando acaba o Estado Novo.23

Então, a política varguista arriscava-se a ser ineficaz não fosse a providencial invenção do trabalhismo, em 1942, e o concurso das lutas operárias e do PCB, exigindo-lhe coerência, abrangência e concretude. Nesse sentido, o trabalhismo oscilava em servir tanto a seu inventor quanto ao público a que se destinava, sendo muito difícil ancorá-lo  firmemente  numa posição vantajosa para ambos. Porque, para o operariado, foi um convite à participação, à manifestação, ao voto, à sindicalização, à defesa da “legislação social mais avançada do mundo”, a clt. No entanto, os sindicatos estavam limitados a preencher papelada (aqueles que haviam saído do papel), pois não havia vida associativa afora a retórica pró-regime. Além disso, também a clt nasce natimorta e se encontra no papel, mas não só por causa do antagonismo patronal. Baixada pelo próprio governo Vargas, a Lei do Esforço de Guerra impedia a aplicação dos direitos trabalhistas, cancelando vários deles.24 Por isso, no instante de seu lançamento, o trabalhismo era uma agenda inacabada, que ainda precisava passar por testes e ajustes, influenciáveis pela ação dos trabalhadores. Estes, como sempre, foram capazes de surpreender pela firmeza de propósitos específicos e pela sua independência de ação. Nem todos que aderiam eram cordeiros ou cordatos.

Da parte dos patrões foi hábito a contrariedade, o desrespeito ou o desconhecimento da lei. Igualmente comum foi a discriminação, como ilegal, de tudo aquilo que a lei não previa, retórica acionada naquelas negociações em que os trabalhadores pleiteavam o reconhecimento de direitos incomuns, como as comissões de fábrica, por exemplo. A propósito, a polícia política conviveu, sem tensões, com o desrespeito das leis de proteção ao trabalho nas empresas aonde investigava os protestos operários. Com freqüência indicou esse fato como causa dos atritos, sem se incomodar em fiscalizar a aplicação da lei.25 Outro mais, na ditadura ou na democracia, a polícia se enxergava  e assim era vista pelos donos do poder  como fiador ou mantenedor da colaboração entre as classes. Conforme comprovou a pesquisa de Maria A. Loyola, essa incompletude do trabalhismo era percebida no seu tempo e lugar. Um líder sindical de Juiz de Fora disse: “o trabalhador brasileiro é um trabalhador rodeado de leis por todos os lados e morto de fome. Tantas leis! Mas falta uma para impedir ele de morrer de fome”.26

Mais e mais esboçadas a partir de 1943, foram as lutas que propiciaram o suplemento rápido sem o qual o trabalhismo não ganharia a força de um movimento popular, vigor depois reaproveitado no queremismo. Porém, aí, o trabalhismo saíra do papel. Conjugando luta por direitos, autonomia sindical e liberdade política, as greves trouxeram à tona a necessidade de encaminhar o contratualismo, sem abrir mão do conflito, nos níveis do local de trabalho, da categoria (insinuando o amálgama intersindical de massas) e do sistema político, o que poderia abalar o sistema corporativo da clt e influir, de ponta a ponta, na reorganização institucional e partidária do pós-guerra. Isso apareceu, de modo ameaçador, no ressurgimento do PCB e na aglomeração de um radical ativismo operário.

Orquestrando a transferência do poder político institucional das mãos de uma oligarquia liberal, Vargas conseguiu reformatar a presença do operariado no sistema político. Mas não conseguiu impedir que seu movimento trabalhista fosse submetido à interferência dos trabalhadores, o que introduziu o risco da dissidência e da ultrapassagem da tutela. A questão associativa, vale frisar, não repousava apenas em mãos de vanguardas ativistas, pois era evidência da auto-organização da maioria sem discurso político-partidário articulado. No fim da Segunda Guerra, a proliferação de movimentos sociais não era reflexo único da presença de militantes dispostos à organização dos trabalhadores. A distância entre a estrutura do PCB e os mundos do trabalho, muitas vezes, se refletiu no agrupamento independente dos trabalhadores. Hélio da Costa, a propósito, chama a atenção para as relações interpessoais de legitimidade e liderança, oriundas da vivência cotidiana, como eixo da constituição de comissões de fábrica.27

A estrutura sindical disposta no Título V da clt serviu para arbitrar paz social, na ditadura e na democracia. Enquanto isso ainda não estava claro, enquanto a clt ainda não havia saído do papel, a polícia, a Lei do Esforço de Guerra e os patrões já estavam, de pé, contra os direitos nela consagrados, ou à sua aplicação e respeito. Por outro lado, valendo-se de seus próprios recursos e experiência, ao entrarem em disputas e confrontos, os trabalhadores mostraram que podiam se apossar dos sindicatos e revertê-los em seu favor, esboçando uma luta por direitos abrangente e diversificada, indo além das concentrações fabris e urbanas do Rio e São Paulo.28 Por causa disso, Dutra, que foi eleito com apoio de Vargas, deflagrou ampla e longa ofensiva antioperária a partir de 1947.

Vamos encontrar o segundo sentido de um inconcluso trabalhismo  como uma obra de imprevisível percurso  na trama do Golpe de 64. Os golpistas deixaram transparecer, em várias ocasiões, que temiam os rumos da politização do Comando Geral dos Trabalhadores (CGT) e as reformas de base. Se voltarmos aos anos 30, perceberemos que as contramarchas de 1947 e 1964 dispõem de um precedente no primeiro governo Vargas. Investigando a implantação da estrutura sindical corporativa entre 1933 e 1935, Alexandre Fortes identificou, na relação entre sindicato e Estado, um desentendimento fundamental: os direitos eram para valer, na ótica dos trabalhadores.29 Sem esquecer o poder do primeiro governo Vargas de desmantelar e imobilizar, temos sustentado que o movimento operário, mesmo assim, conseguiu afirmar-se. Foi, por isto mesmo, abatido pela escalada de contra-ataque aos levantes comunistas de 1935.30 Diversas pesquisas, de fato, já demonstravam que o sindicalismo não capitulara nas mãos de Vargas, tendo conseguido preservar projetos e ação independentes, até 1935. Vários sindicatos, ao invés de serem destruídos ou criados, foram reorganizados, pelos trabalhadores, a partir de posições amadurecidas e consolidadas (e não necessariamente indispostas com o varguismo).31



1 Esta comunicação é um resultado parcial do projeto Diferenças, Territórios, Identidades: Os Trabalhadores no Brasil (1790-1930), apoiado pelo Programa Nacional de Cooperação Acadêmica (Procad), da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes).

Uma versão em forma de artigo  revista e ampliada  deverá sair nos Cadernos AEL, no 20/21.

Agradeço a leitura criteriosa de Cristiana S. Pereira e Leonardo Pereira.


2 Gomes, Ângela de C., “Propaganda Política, Construção do Tempo e Mito Vargas: O Calendário de 1940”. Comunicação apresentada no XXII Simpósio Nacional de História. João Pessoa, 27 de julho a 1o de agosto de 2003. Da mesma autora, ver: “Questão Social e Historiografia no Brasil do Pós-1980: Notas para um Debate”. Comunicação apresentada no seminário Brasil-Argentina “A Visão do Outro: Sobre a Questão Social”. Buenos Aires, 13 e 14 de novembro de 2003.

3 Gomes, Flávio dos Santos, Histórias de Quilombolas. Mocambos e Comunidades de Senzalas no Rio de Janeiro, Século XIX. Rio de Janeiro, Arquivo Nacional, 1995. Lara, Sílvia, “Blowin’ in the Wind. E. P. Thompson e a Experiência Negra no Brasil”. In: Projeto História, no 12, 1995. Reis, João, Rebelião Escrava no Brasil. São Paulo, Companhia das Letras, 2003.

4 Carvalho, Marcus de, “Os Nomes da Revolução. Lideranças Populares na Insurreição Praieira, Recife, 1848-1849”. In: Revista Brasileira de História, no 45, 2003, p. 209. Soares, Carlos E.; Gomes, Flávio, “Sedições, Haitianismo e Conexões no Brasil Escravista”. In: Novos Estudos, no 63, 2002, p. 132.

5 Chalhoub, Sidney, “A Enxada e o Guarda-Chuva: A Luta pela Libertação dos Escravos e a Formação da Classe Trabalhadora no Brasil”, palestra apresentada no XXI Simpósio da Anpuh. Niterói, julho de 2001.

6 Thompson, E. P., A Formação da Classe Operária Inglesa (vol. I). Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1987, p. 9.

7 Sader, Eder, Quando Novos Personagens Entraram em Cena. Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1988, p. 31.

8 Thompson, E. P., “Patrícios e Plebeus”. In: Costumes em Comum. São Paulo, Companhia das Letras, 1998, p. 29 e ss.

9 Gramsci, Antonio, “Ai Margini della Storia. Storia dei Gruppi Sociali Subalterni”. In: Quaderni del Carcere, vol. III. Turim, Einaudi, 1975.

Ver também: “a escassez de testemunhos sobre o comportamento e atitudes das classes subalternas do passado é com certeza o primeiro  mas não o único  obstáculo contra o qual as pesquisas do gênero se chocam. Porém, é uma regra que admite exceções”. Ginzburg, Carlo, Os Andarilhos do Bem. São Paulo, Companhia das Letras, 1988, p. 16.



10 Negro, Antonio L., “Imperfeita ou Refeita? O Debate sobre o Fazer-se da Classe Trabalhadora Inglesa”. In: Revista Brasileira de História, vol. 16, no 31/32, 1996.

11 Um dos primeiros textos descartando o conceito de populismo é o de Daniel A. Reis Fo, “A Maldição do Populismo”. In: Linha direta, 6-12/9/97.

Prós e contras são apresentados na coletânea organizada por Jorge Ferreira, O Populismo e sua História. Debate e Crítica. Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 2001.

O debate prosseguiu em Gomes, Angela de C., “Reflexões em Torne de Populismo e Trabalhismo”. In: Varia Historia, no 28, 2002. Ver também: Mattos, Marcelo B., Greves e Repressão Policial ao Sindicalismo Carioca, 1945-1964. Rio de Janeiro, Aperj, 2003, pp. 23 e ss.


12 Não é só populismo que necessita explicar-se. Peter Burke faz várias reservas ao uso de popular, cultura e cultura popular e, ao final, retém todos. Ver: Cultura Popular na Idade Moderna. São Paulo, Companhia das Letras, 1989, p. 20 e ss.

13 Gomes, Angela de C., A Invenção do Trabalhismo. São Paulo, Vértice, 1988.

14 Ferreira, Jorge, “O Nome e a Coisa. O Populismo na Política Brasileira”. In: Ferreira, Jorge (org.). O Populismo e sua História. Debate e Crítica. Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 2001.

15 Hobsbawm, Eric, Era dos Extremos. São Paulo, Companhia das Letras, 1995, pp. 108, 212.

16 Levine, Robert, Pai dos Pobres? São Paulo, Companhia das Letras, 2001, p. 29, 41.

17 Gomes, Angela de C., “A Construção do Homem Novo: O Trabalhador Brasileiro”. In: Oliveira, L., Velloso, M., Gomes, A. (org.), Estado Novo. Ideologia e Poder. Rio de Janeiro, Zahar, 1982. Duarte, Adriano, Cidadania e Exclusão, Brasil 1937-1945. Florianópolis, Editora da Universidade Federal de Santa Catarina, 1999.

18 French, John, Afogados em Leis. A CLT e a Cultura Política dos Trabalhadores Brasileiros. São Paulo, Editora Fundação Perseu Abramo, 2001, p. 28.

19 “Modernização”, “racionalização” e “progresso” são repetidamente invocados como contraponto do suposto atraso de nossas relações capital-trabalho. Na regularidade com que são evocados, refletem o intuito de encobrir o contragosto do patronato de ver seu mundo arbitrário e privado  o recinto do trabalho  submetido à esfera pública e à regulamentação legislativa, o que explicita conflitos de classe.

Como indica Giovanni Levi, outras dicotomias (cidade–campo, centro–periferia, civilizado–primitivo, rude–ilustrado, trabalho livre–trabalho escravo, industrial–pré-industrial) aliam a pesquisa e a análise a esquemas hierarquizados e teleológicos. Ver: Negro, Antonio L., “O Fragmento como Via de Acesso à História Social”. In: Diálogos, vol. 1, no 1, 1997, p. 124.



20 Stolcke, Verena, Cafeicultura: Homens, Mulheres e Capital (1850-1980). São Paulo, Brasiliense, 1986. Ferreira, Jorge, Trabalhadores do Brasil. O Imaginário Popular. Rio de Janeiro, Editora da FGV, 1997. Neves, Berenice, Do Mar ao Museu. A Saga da Jangada São Pedro. Fortaleza, Museu do Ceará, 2001.

21 Entrevista de Rolando Fratti ao Programa Memória e Acompanhamento do Movimento Operário do Centro Ecumênico de Documentação e Informação (PMO-Cedi), s.d.

22 Gomes, A Invenção, p. 269 e ss.

23 Loyola, Maria A., Os Sindicatos e o PTB. Estudo de um Caso em Minas Gerais. Petrópolis, Vozes, 1980. Benevides, Maria V., O PTB e o Trabalhismo. São Paulo, Brasiliense, 1989. Delgado, Lucília de A. Neves, PTB: Do Getulismo ao Trabalhismo, 1945-1964. São Paulo, Marco Zero, 1989. D’Araújo, Maria Celina, Sindicatos, Carisma e Poder. Rio de Janeiro, Editora da FGV, 1996. Fortes, Alexandre, “Nós do Quarto Distrito”. A Classe Trabalhadora Porto-Alegrense e a Era Vargas. Campinas, tese de doutorado apresentada ao Ifch-Unicamp, 2001.

24 Costa, Hélio da, Em Busca da Memória. Organização no Local de Trabalho, Partido e Sindicato em São Paulo. São Paulo, Scritta, 1995, p. 15 e ss.

25 Jordan, Thomas, Contesting the Terms of Incorporation. Labor and the Sate in Rio de Janeiro; 1930-1964. Urbana, tese de doutorado apresentada à University of Illinois at Urbana-Champaign, 2000, p. 60 e ss.

26 Loyola, Os Sindicatos, epígrafe. Citada em French, John, Afogados em Leis. A CLT e a Cultura Política dos Trabalhadores Brasileiros. São Paulo, Editora Fundação Perseu Abramo, 2001, p. 7.

27 Costa, Em Busca, p. 12.

28 Leite Lopes, José S., “A Formação de uma Cultura Operária”. In: Tempo & Presença, no 220, 1987.

29 Fortes, Alexandre, “Como Era Gostoso Meu Pão Francês. A Greve dos Padeiros de Porto Alegre (1933-34)”. In: Anos 90, no 7, 1997.

30 Fortes, Alexandre; Negro, Antonio Luigi, “Historiografia, Trabalho e Cidadania no Brasil”. In: Ferreira, Jorge; Neves, Lucília de Almeida, O Brasil Republicano, vol. 2. Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 2003, pp. 199-200.

31 Batalha, Cláudio, Le Syndicalisme «Amarelo» à Rio de Janeiro (1906-1930). Paris, tese de doutorado apresentada à Universidade de Paris I, 1986. Stotz, Eduardo, A União dos Trabalhadores Metalúrgicos do Rio de Janeiro na Construção do Sindicato Corporativista. Niterói, dissertação de mestrado apresentada ao Ichf-UFF, 1986. Gomes, A Invenção. French, John, “The Origin of Corporatist Intervention in Brazilian Industrial Relations, 1930-34: A Critique of the Literature”. In: Luso-Brazilian Review, vol. 28, no 2, 1991. Araújo, Angela, A Construção do Consentimento. Corporativismo e Trabalhadores nos Anos 30. São Paulo, Scritta, 1998.


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