Patriarcas e Profetas



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Patriarcas e Profetas

Ellen G. White



Introdução
Este volume trata de assuntos da história bíblica; assuntos que, em si mesmos, não são novos, mas apresentados aqui de um modo que lhes dá nova significação, revelando motivos de ação, mostrando o importante propósito de certos movimentos e realçando alguns aspectos que são apenas mencionados sucintamente na Bíblia. As cenas têm assim uma vividez e importância que tendem a causar impressões recentes e duradouras. É lançada tal luz sobre o relato bíblico que revele mais cabalmente o caráter e os desígnios de Deus; manifeste os ardis de Satanás e a forma pela qual será finalmente destruído o seu poder; aponte a debilidade do coração humano; e mostre como a graça de Deus tem habilitado os homens a serem vitoriosos na batalha contra o mal. Tudo isso está em harmonia com o que Deus tem demonstrado ser o Seu propósito ao desdobrar as verdades de Sua Palavra para os seres humanos. Percebe-se que o meio pelo qual têm sido dadas essas revelações - ao ser testado pelas Escrituras - é um dos métodos que Deus ainda utiliza para dar instruções aos filhos dos homens.
Conquanto agora não seja como no princípio, quando o homem, em sua santidade e inocência, recebia instruções pessoais do seu Criador, os seres humanos não são deixados sem um mestre divino que Deus proveu na pessoa de Seu representante, o Espírito Santo. Ouvimos, portanto, o apóstolo Paulo declarar que determinada "iluminação" divina constitui o privilégio dos seguidores de Cristo; e que eles são "iluminados" ao se tornarem "participantes do Espírito Santo". Heb. 10:32; 6:4. João também afirma: "Vós possuís unção que vem do Santo." I João 2:20. E Cristo prometeu aos discípulos, ao estar prestes a deixá-los, que lhes enviaria o Espírito Santo como Consolador e Guia para conduzi-los a toda a verdade. João 14:16 e 26.
Para mostrar como essa promessa se cumpriria para a Igreja, o apóstolo Paulo, em duas de suas epístolas, faz a declaração formal de que certos dons do Espírito foram colocados na Igreja para sua edificação e instrução até o fim do tempo. I Cor. 12; Efés. 4:8-13; Mat. 28:20. E isto não é tudo. Diversas profecias bem definidas e explícitas declaram que nos últimos dias haverá um derramamento especial do Espírito Santo, e que a Igreja, por ocasião do aparecimento de Cristo, terá tido, durante sua experiência final, "o testemunho de Jesus", que é o espírito de profecia. Atos 2:17-20 e 39; I Cor. 1:7; Apoc. 12:17; 19:10. Vemos nestes fatos uma evidência do cuidado e do amor de Deus por Seu povo; pois a presença do Espírito Santo, como Consolador, Mestre e Guia, tanto nos Seus métodos de atuação ordinários como extraordinários, certamente é necessária à Igreja, ao enfrentar os perigos dos últimos dias, mais do que em qualquer outra parte de sua experiência.
As Escrituras apontam para diversos meios pelos quais o Espírito Santo operaria no coração e na mente dos homens para iluminar-lhes o entendimento e guiar-lhes os passos. Entre estes, encontram-se as visões e os sonhos. Seria deste modo que Deus ainda Se comunicaria com os seres humanos. Eis a Sua promessa a esse respeito: "Ouvi agora as Minhas palavras; se entre vós há profeta, Eu, o Senhor, em visão a ele Me faço conhecer, ou falo com ele em sonhos." Núm. 12:6. Desse modo foi transmitido conhecimento sobrenatural a Balaão. Ele disse, portanto: "Palavra de Balaão, filho de Beor, palavra do homem de olhos abertos, palavra daquele que ouve os ditos de Deus, e sabe a ciência do Altíssimo; daquele que tem a visão do Todo-poderoso, e prostra-se, porém de olhos abertos." Núm. 24:15 e 16.
Pesquisar o testemunho das Escrituras acerca da amplitude com que o Senhor tencionava que o Espírito Santo Se manifestasse na Igreja durante o período de prova dos seres humanos constitui, portanto, uma questão de grande importância.
Depois que foi elaborado o plano da salvação, Deus, segundo vimos, ainda poderia, pelo ministério de Seu Filho e dos santos anjos, comunicar-Se com os homens através do abismo causado pelo pecado. Algumas vezes Ele falou-lhes face a face, como no caso de Moisés; mas, com mais freqüência, por meio de sonhos e visões. Exemplos dessa comunicação se destacam por toda parte do registro sagrado, e abrangem todas as dispensações. Enoque, o sétimo depois de Adão, olhou antecipadamente, pelo espírito de profecia, para o segundo advento de Cristo em poder e glória, e exclamou: "Olhem! O Senhor virá com muitos milhares dos Seus anjos." Jud. 14, BLH. "Homens santos falaram da parte de Deus movidos pelo Espírito Santo." II Ped. 1:21.
Se por vezes, quando declinava a espiritualidade do povo, a atuação do espírito de profecia quase parecia haver desaparecido, ela assinalou, porém, todas as grandes crises na experiência da Igreja e as épocas que testemunharam a mudança de uma dispensação para a outra. Ao chegar a era que se distinguiu pela encarnação de Cristo, o pai de João Batista ficou repleto do Espírito Santo, e profetizou. Luc. 1:67. A Simeão foi revelado que, antes de morrer, ele veria o Senhor; e quando os pais de Jesus O levaram ao templo, para a dedicação, Simeão foi ao templo, movido pelo Espírito, tomou o Menino nos braços e profetizou algo a Seu respeito. E Ana, uma profetisa, chegando naquele momento, falava dEle a todos os que esperavam a redenção em Jerusalém. Luc. 2:26 e 36.
O derramamento do Espírito Santo que acompanharia a pregação do evangelho pelos seguidores de Cristo foi anunciado pelo profeta, nestas palavras: "E acontecerá depois que derramarei o Meu Espírito sobre toda a carne; vossos filhos e vossas filhas profetizarão, vossos velhos sonharão, e vossos jovens terão visões; até sobre os servos e sobre as servas derramarei o Meu Espírito naqueles dias. Mostrarei prodígios no céu e na Terra; sangue, fogo, e colunas de fumo. O Sol se converterá em trevas, e a Lua em sangue, antes que venha o grande e terrível dia do Senhor." Joel 2:28-31.
No dia de Pentecostes, Pedro citou esta profecia na explicação da maravilhosa cena que ocorreu então. Línguas repartidas, como de fogo, pousaram sobre cada um dos discípulos; eles ficaram cheios do Espírito Santo, e passaram a falar em outras línguas. Quando os escarnecedores disseram que eles estavam embriagados, Pedro respondeu: "Estes homens não estão embriagados como vindes pensando, sendo esta a terceira hora do dia. Mas o que ocorre é o que foi dito por intermédio do profeta Joel." Então ele citou, em essência, a profecia de Joel transcrita mais acima, substituindo, porém, a palavra "depois" por "nos últimos dias", e fazendo com que a profecia dissesse o seguinte: "E acontecerá nos últimos dias, diz o Senhor, que derramarei do Meu Espírito sobre toda a carne", etc.
É evidente que foi somente a parte da profecia relacionada com o derramamento do Espírito Santo que começou a cumprir-se naquele dia; pois não havia velhos sonhando ali, nem jovens tendo visões e profetizando; e não apareceram então prodígios de sangue e fogo, e colunas de fumo. O Sol não se escureceu, e a Lua não ficou vermelha como sangue naquela ocasião. Contudo, o que foi visto ali ocorreu em cumprimento da profecia de Joel. Outrossim, é evidente que essa parte da profecia a respeito do derramamento do Espírito não se exauriu naquela única manifestação; pois a profecia abrange todos os dias, daquele tempo em diante, até à vinda do grande dia do Senhor.
O dia de Pentecostes constituiu, porém, o cumprimento de outras profecias, além da de Joel. Ele cumpriu também as próprias palavras de Cristo. Em Sua última mensagem aos discípulos, antes da crucifixão, Jesus lhes disse: "Eu rogarei ao Pai, e Ele vos dará outro Consolador, ... o Espírito da verdade." João 14:16 e 17. "Mas o Consolador, o Espírito Santo, a quem o Pai enviará em Meu nome, esse vos ensinará todas as coisas." João 14:26.
"Quando vier, porém, o Espírito da verdade, Ele vos guiará a toda a verdade." João 16:13. E depois que ressuscitou dentre os mortos, Cristo disse aos discípulos: "Eis que envio sobre vós a promessa de Meu Pai; permanecei, pois, na cidade, até que do alto sejais revestidos de poder." Luc. 24:49.
No dia de Pentecostes, os discípulos foram, portanto, revestidos do poder do alto. Essa promessa de Cristo, assim como a profecia de Joel, não se restringiu, porém, àquela ocasião. Pois Ele lhes deu a mesma promessa sob outra forma, assegurando-lhes que estaria com eles todos os dias até o fim do mundo. Mat. 28:20. Marcos nos diz em que sentido e de que maneira o Senhor estaria com eles, afirmando: "E eles, tendo partido, pregaram em toda parte, cooperando com eles o Senhor, e confirmando a palavra por meio de sinais, que se seguiam." Mar. 16:20. E Pedro, no dia de Pentecostes, comprovou a perpetuidade dessa atuação do Espírito Santo testemunhada por eles. Quando os judeus convictos perguntaram aos apóstolos: "Que faremos?", Pedro respondeu: "Arrependei-vos, e cada um de vós seja batizado em nome de Jesus Cristo para remissão dos vossos pecados, e recebereis ó dom do Espírito Santo. Pois para vós outros é a promessa, para vossos filhos, e para todos os que ainda estão longe, isto é, para quantos o Senhor nosso Deus chamar." Atos 2:37-39. Isto certamente confirma a atuação do Espírito Santo na Igreja, mesmo em suas manifestações especiais, por todo o tempo futuro, enquanto a misericórdia divina convidar as pessoas a aceitarem o compassivo amor de Cristo.
Vinte e oito anos mais tarde, em sua carta aos Coríntios, Paulo expôs perante essa igreja um argumento formal sobre essa questão, dizendo: "A respeito dos dons espirituais, não quero, irmãos, que sejais ignorantes" (I Cor. 12:1) - tão importante era para ele que este assunto fosse compreendido na Igreja cristã! Depois de afirmar que, embora o Espírito seja um, há diversidades de realizações, e explicar quais são essas diversidades, ele apresenta a figura do corpo humano, com os seus vários membros, para mostrar como a Igreja se compõe de diversos dons e funções. E, assim como o corpo consiste de várias partes, cada uma das quais desempenha uma função especial, e todas trabalham de comum acordo para a formação de um conjunto harmonioso, também o Espírito Santo atuaria na Igreja de diversas formas, para constituir uma corporação religiosa que funcionasse muito bem. Paulo prossegue, então, com estas palavras: "A uns estabeleceu Deus na igreja, primeiramente apóstolos, em segundo lugar profetas, em terceiro lugar mestres, depois operadores de milagres, depois dons de curar, socorros, governos, variedades de línguas."
A declaração de que Deus estabeleceu alguns na igreja, etc., denota algo mais do que o fato de que o caminho estava desimpedido para o aparecimento dos dons se as circunstâncias fossem favoráveis. Quer dizer que eles deviam ser partes permanentes da verdadeira estrutura espiritual da Igreja, e que, se não estivessem sendo atuantes, a Igreja se encontraria na mesma condição que o corpo humano cujos membros, por acidente ou enfermidade, se houvessem estropiado ou invalidado. Uma vez estabelecidos na Igreja, esses dons deviam permanecer ali até que fossem removidos formalmente. Não há, porém, nenhuma indicação de que tenham sido removidos.
Cinco anos mais tarde, o mesmo apóstolo escreveu aos Efésios a respeito dos mesmos dons, expondo claramente o seu objetivo e mostrando assim, indiretamente, que precisam continuar até que seja alcançado esse objetivo. Ele declara: "Por isso diz: Quando Ele subiu às alturas, levou cativo o cativeiro, e concedeu dons aos homens. ... E Ele mesmo concedeu uns para apóstolos, outros para profetas, outros para evangelistas, e outros para pastores e mestres, com vistas ao aperfeiçoamento dos santos para o desempenho do seu serviço, para a edificação do corpo de Cristo, até que todos cheguemos à unidade da fé e do pleno conhecimento do Filho de Deus, à perfeita varonilidade, à medida da estatura da plenitude de Cristo." Efés. 4:8 e 11-13.
Na era apostólica, a Igreja não atingiu a unidade apresentada aí; e logo depois dessa era, as trevas da grande apostasia espiritual começaram a envolver a Igreja; e, certamente, durante essa situação de decadência, não foram atingidas a plenitude de Cristo e a unidade da fé. Nem serão atingidas até que a última mensagem de misericórdia tenha colhido, de cada tribo e nação, de cada classe da sociedade, e de toda organização do erro, um ovo completo em todas as reformas do evangelho, aguardando a vinda do Filho do homem. E, na verdade, se já houve alguma ocasião, em sua experiência, na qual a Igreja necessitasse do benefício de todas as instrumentalidades estabelecidas para seu bem-estar e orientação, encorajamento e proteção, isso seria em meio aos perigos dos últimos dias, quando os poderes do mal, preparados para sua nefanda obra pela experiência e o preparo, procurariam, mediante suas obras-primas de impostura, enganar, se possível, os próprios eleitos. É muito apropriado, portanto, que haja profecias especiais acerca do derramamento do Espírito Santo para o benefício da Igreja nos últimos dias.
Na literatura do mundo cristão é, porém, ensinado comumente que os dons do Espírito só se destinavam à era apostólica; que foram dados simplesmente para a implantação do evangelho; e que, uma vez estabelecido o evangelho, não haveria mais necessidade dos dons espirituais; estando eles, conseqüentemente, destinados a desaparecer da Igreja. Mas o apóstolo Paulo advertiu os cristãos de seu tempo, dizendo que "o mistério da iniqüidade já estava operando e que depois de sua partida penetrariam entre eles lobos vorazes, que não poupariam o rebanho; e também que, dentre eles mesmos, se levantariam homens falando coisas pervertidas para arrastar os discípulos após si. Atos 20:29 e 30. Não poderia ser, portanto, que os dons, colocados na Igreja para protegê-la desses males, estivessem prestes, quando chegasse esse tempo, a desaparecer, como se houvessem realizado seu objetivo; pois sua presença e ajuda, nessas circunstâncias, seria mais necessária do que quando os próprios apóstolos estavam no palco da ação.
Na carta de Paulo à igreja de Corinto, encontramos outra declaração, a qual demonstra que o conceito popular da duração temporária dos dons não pode ser correto. É o seu contraste entre o atual estado imperfeito e a gloriosa condição imortal a que finalmente chegará o cristão. Nos versos 9 e 10 de I Coríntios 13, ele diz: "Porque em parte conhecemos, e em parte profetizamos. Quando, porém, vier o que é perfeito, então o que é em parte será aniquilado." Ele ilustra mais ainda o estado atual, comparando-o ao período da infância, com sua fraqueza e imaturidade de pensamento e ação; e a situação perfeita, à condição de uma pessoa adulta, com sua visão mais clara, maturidade, e força. E inclui os dons entre as coisas que são necessárias na situação atual e imperfeita, mas que não precisaremos mais quando chegar o estado de perfeição. "Agora - diz ele - vemos como em espelho, obscuramente, então veremos face a face; agora conheço em parte, então conhecerei como também sou conhecido." I Cor. 13:12. Em seguida, ele declara quais são as virtudes adaptáveis à condição eterna, e que existirão ali: a fé, a esperança e o amor; "estes três: porém o maior destes é o amor".
Isto explica o que é declarado no verso 8: "O amor jamais acaba"; isto é, a virtude celestial do amor durará para sempre; ele é a suprema glória da futura condição imortal dos seres humanos; "mas, havendo profecias, desaparecerão"; chegará o tempo em que as profecias não serão mais necessárias, e o dom de profecia, como um dos meios de ajuda na Igreja, deixará de ser exercido; "havendo línguas, cessarão"; isto é, o dom de línguas não terá mais utilidade; "havendo ciência, passará"; o conhecimento, não na forma abstrata, mas como um dos dons especiais do Espírito Santo, tornar-se-á desnecessário pelo conhecimento perfeito de que seremos dotados no mundo eterno.
Pois bem, se adotarmos a posição de que os dons cessaram com a era apostólica, porque não eram mais necessários, estaremos dando a entender que o período apostólico foi a época fraca e infantil da Igreja, em que tudo era visto como em espelho, obscuramente; mas a época que se seguiu, na qual apareceriam lobos vorazes, que não perdoariam o rebanho, e em que, até mesmo na Igreja, se levantariam homens falando coisas pervertidas para atrair discípulos após si, foi um período de perfeita luz e conhecimento, no qual desaparecera o conhecimento imperfeito, pueril e obscurecido dos tempos apostólicos! Pois, importa lembrar que os dons só cessam quando é atingido um estado de perfeição, porque isso faz com que não sejam mais necessários. No entanto, ninguém, em seu juízo perfeito, poderá manter, nem que seja por um momento, o conceito de que a era apostólica foi inferior, em elevação espiritual, a qualquer período posterior. E se os dons foram necessários naquele tempo, certamente são necessários agora.
Entre as instrumentalidades que o apóstolo, em suas cartas aos Coríntios e aos Efésios, apresenta como "dons" estabelecidos na Igreja, encontram-se os "pastores", "mestres", "socorros" e "governos"; e todos estes são reconhecidos, em toda parte, como estando ainda presentes na Igreja. Por que não, portanto, também os outros, como a fé, os dons de curar, a profecia, etc.? Quem é competente para traçar a linha separatória, e dizer que dons foram "eliminados" da Igreja, se no começo todos foram igualmente incluídos nela?
Tem-se feito alusão a Apocalipse 12:17 como uma profecia de que os dons seriam restaurados nos últimos dias. O exame do seu testemunho confirma este conceito. O texto fala do remanescente da descendência da mulher. Admitindo-se que a mulher constitui um símbolo da Igreja, sua descendência seriam os membros individuais que compõem a Igreja em qualquer tempo; e o "restante" da sua descendência seria a última geração de cristãos, nu os que estiverem vivendo na Terra por ocasião da segunda vinda de Cristo. O texto também declara que essas pessoas "guardam os mandamentos de Deus e têm o testemunho de Jesus"; e no capítulo 19, verso 10, é explicado que "o testemunho de Jesus é o espírito de profecia", o qual constitui, entre os dons, aquele que tem sido denominado "o dom de profecia" (I Cor. 12:9 e 10).
A colocação dos dons na Igreja não denota que cada membro iria exercê-los individualmente. Em I Coríntios 12:29, o apóstolo pergunta o seguinte a esse respeito: "Porventura são todos apóstolos? ou todos profetas? são todos mestres?" A óbvia resposta é: Não! Os dons são, porém, repartidos entre os membros segundo apraz a Deus. I Cor. 12:7 e 11. Contudo, é declarado que esses dons foram estabelecidos na igreja, e se um dom é concedido a determinado membro da igreja, pode-se dizer que esse dom está "na igreja", ou que a igreja o "possui". Por conseguinte, a última geração deveria ter, e acredita-se que tem agora, o testemunho de Jesus, ou o dom de profecia.
Outro trecho das Escrituras que evidentemente foi escrito com referência aos últimos dias, salienta claramente o mesmo fato. I Tess. 5. O apóstolo inicia o capítulo com estas palavras: "Irmãos, relativamente aos tempos e às épocas, não há necessidade de que eu vos escreva; pois vós mesmos estais inteirados com precisão de que o dia do Senhor vem como ladrão de noite." No verso 4, ele acrescenta. "Mas, vós, irmãos, não estais em trevas, para que esse dia como ladrão vos apanhe de surpresa." Então lhes faz diversas admoestações referentes a esse acontecimento, entre as quais se encontram as seguintes: "Não apagueis o Espírito. Não desprezeis profecias; julgai todas as coisas, retende o que é bom." I Tess. 5:19-21. E no verso 23 ele ora para que aqueles mesmos que assim tivessem de lidar com "profecias" fossem conservados íntegros e irrepreensíveis na vinda do Senhor.
Em vista destas considerações, não temos razões suficientes para crer que o dom de profecia será manifestado na Igreja nos últimos dias, e que por meio dele será comunicada muita luz, e transmitidas muitas instruções oportunas?
Todas as coisas devem ser tratadas de acordo com a regra do apóstolo: "Julgai [ou examinai] todas as coisas, retende o que é bom."; e ser provadas pela norma do Salvador: "Pelos seus frutos os conhecereis." Apelando para essa norma em favor do que se apresenta como uma manifestação do dom de profecia, recomendamos este volume à consideração dos que crêem que a Bíblia é a Palavra de Deus, e que a Igreja constitui o corpo do qual Cristo é a cabeça.
Urias Smith.

Capítulo 1


Por que Foi Permitido o Pecado?
D eus é amor” 1 João 4:8. Sua natureza, Sua lei, são amor. Assim sempre foi; assim sempre será. “O Alto e o Sublime, que habita na eternidade” (Isaías 57:15), “cujos caminhos são eternos” (Habacuque 3:6), não muda. NEle “não há mudança nem sombra de variação” Tiago 1:17.
Toda manifestação de poder criador é uma expressão de amor infinito. A soberania de Deus compreende a plenitude de bênçãos a todos os seres criados.
Diz o salmista: “Forte é a Tua mão, e elevada a Tua destra. Justiça e juízo são a base de Teu trono; Misericórdia e verdade vão adiante do Teu rosto. Bem-aventurado o povo que conhece o som festivo: Andará, ó Senhor, na luz da Tua face. Em Teu nome se alegrará todo o dia, e na Tua justiça se exaltará. Pois Tu és a glória da sua força. [...] Porque o Senhor é a nossa defesa, e o santo de Israel o nosso Rei” Salmos 89:13-18.
A história do grande conflito entre o bem e o mal, desde o tempo em que a princípio se iniciou no Céu até o final da rebelião e extirpação total do pecado, é também uma demonstração do imutável amor de Deus.
O Soberano do Universo não estava só em Sua obra de beneficência. Tinha um companheiro - um cooperador que poderia apreciar Seus propósitos, e participar de Sua alegria ao dar felicidade aos seres criados. “No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus. Ele estava no princípio com Deus” João 1:1, 2. Cristo, o Verbo, o Unigênito de Deus, era um com o eterno Pai - um em natureza, caráter, propósito - o único ser que poderia penetrar em todos os conselhos e propósitos de Deus. “O Seu nome será: Maravilhoso Conselheiro, Deus forte, Pai da eternidade, Príncipe da paz” Isaías 9:6. Suas “saídas são desde os tempos antigos, desde os dias da eternidade” Miquéias 5:2. E o Filho de Deus declara a respeito de Si mesmo: “O Senhor Me possuiu no princípio de Seus caminhos, e antes de Suas obras mais antigas. [...] Quando compunha os fundamentos da Terra, então Eu estava com Ele e era Seu aluno; e era cada dia as Suas delícias, folgando perante Ele em todo o tempo” Provérbios 8:22-30.
O Pai operou por Seu Filho na criação de todos os seres celestiais. “NEle foram criadas todas as coisas, [...] sejam tronos, sejam dominações, sejam principados, sejam potestades: tudo foi criado por Ele e para Ele” Colossences 1:16. Os anjos são ministros de Deus, radiantes pela luz que sempre flui de Sua presença, e rápidos no vôo para executarem Sua vontade. Mas o Filho, o Ungido de Deus, “a expressa imagem de Sua pessoa” (Hebreus 1:3), o “resplendor da Sua glória” (Isaías 66:11), “sustentando todas as coisas pela palavra do Seu poder” (Hebreus 1:3), tem a supremacia sobre todos eles. “Um trono de glória, posto bem alto desde o princípio” (Hebreus 1:3, 8), foi o lugar de Seu santuário; “cetro de eqüidade” é o cetro de Seu reino Jeremias 17:12. “Glória e majestade estão ante a Sua face, força e formosura no Seu santuário” Salmos 96:6. “Misericórdia e verdade” vão adiante do Seu rosto Salmos 89:14.
Sendo a lei do amor o fundamento do governo de Deus, a felicidade de todos os seres inteligentes depende da perfeita harmonia, com seus grandes princípios de justiça. Deus deseja de todas as Suas criaturas o serviço de amor, serviço que brote de uma apreciação de Seu caráter. Ele não tem prazer na obediência forçada; e a todos concede vontade livre, para que Lhe possam prestar serviço voluntário.
Enquanto todos os seres criados reconheceram a lealdade pelo amor, houve perfeita harmonia por todo o Universo de Deus. Era a alegria da hoste celestial cumprir o propósito do Criador. Deleitavam-se em refletir a Sua glória, e patentear o Seu louvor. E enquanto foi supremo o amor para com Deus, o amor de uns para com outros foi cheio de confiança e abnegado. Nenhuma nota discordante havia para deslustrar as harmonias celestiais. Sobreveio, porém, uma mudança neste estado de felicidade. Houve um ser que perverteu a liberdade que Deus concedera a Suas criaturas. O pecado originou-se com aquele que, abaixo de Cristo, fora o mais honrado por Deus, e o mais elevado em poder e glória entre os habitantes do Céu. Lúcifer, “filho da alva”, era o primeiro dos querubins cobridores, santo, incontaminado. Permanecia na presença do grande Criador, e os incessantes raios de glória que cercavam o eterno Deus, repousavam sobre ele. “Assim diz o Senhor Jeová: Tu és o aferidor da medida, cheio de sabedoria e perfeito em formosura. Estavas no Éden, jardim de Deus; toda a pedra preciosa era a tua cobertura. [...] Tu eras querubim ungido para proteger, e te estabeleci; no monte santo de Deus estavas, no meio das pedras afogueadas andavas. Perfeito eras nos teus caminhos, desde o dia em que foste criado, até que se achou iniqüidade em ti” Ezequiel 28:12-15.
Pouco a pouco Lúcifer veio a condescender com o desejo de exaltação própria. Dizem as Escrituras: “Elevou-se o teu coração por causa da tua formosura, corrompeste a tua sabedoria por causa do teu resplendor” Ezequiel 28:17. “Tu dizias no teu coração: [...] acima das estrelas de Deus exaltarei o meu trono. [...] Serei semelhante ao Altíssimo” Isaías 14:13, 14. Se bem que toda a sua glória proviesse de Deus, este poderoso anjo veio a considerála como pertencente a si próprio. Não contente com sua posição, embora fosse mais honrado do que a hoste celestial, arriscou-se a cobiçar a homenagem devida unicamente ao Criador. Em vez de procurar fazer com que Deus fosse o alvo supremo das afeições e fidelidade de todos os seres criados, consistiu o seu esforço em obter para si o serviço e lealdade deles. E, cobiçando a glória que o infinito Pai conferira a Seu Filho, este príncipe dos anjos aspirou ao poder que era a prerrogativa de Cristo apenas.
Quebrantou-se então a perfeita harmonia do Céu. A disposição de Lúcifer para servir a si em vez de ao Criador, suscitou um sentimento de apreensão ao ser observada por aqueles que consideravam dever a glória de Deus ser suprema. No conselho celestial os anjos insistiam com Lúcifer. O Filho de Deus apresentou perante ele a grandeza, a bondade e a justiça do Criador, e a natureza imutável, sagrada de Sua lei. O próprio Deus estabelecera a ordem do Céu; e, desviando-se dela, Lúcifer desonraria ao seu Criador, e traria a ruína sobre si. Mas a advertência, feita com amor e misericórdia infinitos, apenas despertou espírito de resistência. Lúcifer consentiu que prevalecessem seus sentimentos de inveja para com Cristo, e se tornou mais decidido.
Disputar a supremacia do Filho de Deus, desafiando assim a sabedoria e o amor do Criador, tornara-se o propósito desse príncipe dos anjos. Para tal objetivo estava ele a ponto de aplicar as energias daquela mente superior, que, abaixo da de Cristo, era a primeira dentre os exércitos de Deus. Mas Aquele que queria livres as vontades de todas as Suas criaturas, a ninguém deixou desprevenido quanto ao sofisma desconcertante por meio do qual a rebelião procuraria justificar-se. Antes que se iniciasse a grande luta, todos deveriam ter uma apresentação clara a respeito da vontade dAquele cuja sabedoria e bondade eram a fonte de toda a sua alegria.
O Rei do Universo convocou os exércitos celestiais perante Ele, para, em sua presença, apresentar a verdadeira posição de Seu Filho, e mostrar a relação que Este mantinha para com todos os seres criados. O Filho de Deus partilhava do trono do Pai, e a glória do Ser eterno, existente por Si mesmo, rodeava a ambos. Em redor do trono reuniam-se os santos anjos, em uma multidão vasta, inumerável - “milhões de milhões, e milhares de milhares” (Apocalipse 5:11), estando os mais exaltados anjos, como ministros e súditos, a regozijar-se na luz que, da presença da Divindade, caía sobre eles. Perante os habitantes do Céu, reunidos, o Rei declarou que ninguém, a não ser Cristo, o Unigênito de Deus, poderia penetrar inteiramente em Seus propósitos, e a Ele foi confiado executar os poderosos conselhos de Sua vontade. O Filho de Deus executara a vontade do Pai na criação de todos os exércitos do Céu; e a Ele, bem como a Deus, eram devidas as homenagens e fidelidade daqueles. Cristo ia ainda exercer o poder divino na criação da Terra e de seus habitantes. Em tudo isto, porém, não procuraria poder ou exaltação para Si mesmo, contrários ao plano de Deus, mas exaltaria a glória do Pai, e executaria Seus propósitos de beneficência e amor.
Os anjos alegremente reconheceram a supremacia de Cristo, e, prostrando-se diante dEle, extravasaram seu amor e adoração. Lúcifer curvou-se com eles; mas em seu coração havia um conflito estranho, violento. A verdade, a justiça e a lealdade estavam a lutar contra a inveja e o ciúme. A influência dos santos anjos pareceu por algum tempo levá-lo com eles. Ao ascenderem os cânticos de louvores, em melodiosos acordes, avolumados por milhares de alegres vozes, o espírito do mal pareceu subjugado; indizível amor fazia fremir todo o seu ser; em concerto com os adoradores destituídos de pecado, expandia-se-lhe a alma em amor para com o Pai e o Filho. De novo, porém, achou-se repleto de orgulho por sua própria glória. Voltou-lhe o desejo de supremacia, e uma vez mais condescendeu com a inveja de Cristo. As altas honras conferidas a Lúcifer não eram apreciadas como um dom especial de Deus, e, portanto, não provocavam gratidão para com o seu Criador. Ele se gloriava em seu brilho e exaltação, e almejava ser igual a Deus. Era amado e reverenciado pelo exército celestial, anjos se deleitavam em executar suas ordens, e estava ele revestido de sabedoria e glória mais do que todos eles. Contudo, o Filho de Deus era mais exaltado do que ele, sendo um em poder e autoridade com o Pai. Partilhava dos conselhos do Pai, enquanto Lúcifer não penetrava assim nos propósitos de Deus. “Por que”, perguntava este poderoso anjo, “deveria Cristo ter a primazia? Por que é Ele mais honrado do que Lúcifer?”
Deixando seu lugar na presença imediata do Pai, Lúcifer saiu a difundir o espírito de descontentamento entre os anjos. Ele agia em misterioso segredo, e durante algum tempo escondeu seu propósito real sob uma aparência de reverência para com Deus. Começou a insinuar dúvidas com respeito às leis que governavam os seres celestiais, dando a entender que, conquanto pudessem as leis ser necessárias para os habitantes dos mundos, não necessitavam de tais restrições os anjos, mais elevados por natureza, pois que sua sabedoria era um guia suficiente. Não eram eles seres que pudessem acarretar desonra a Deus; todos os seus pensamentos eram santos; não havia para eles maior possibilidade de errar do que para o próprio Deus. A exaltação do Filho de Deus à igualdade com o Pai, foi representada como sendo uma injustiça a Lúcifer, o qual, pretendia-se, tinha também direito à reverência e à honra. Se este príncipe dos anjos pudesse tão-somente alcançar a sua verdadeira e elevada posição, grande bem resultaria para todo o exército do Céu; pois era seu objetivo conseguir liberdade para todos. Agora, porém, mesmo a liberdade que eles até ali haviam desfrutado, tinha chegado a seu fim; pois lhes havia sido designado um Governador absoluto, e todos deveriam prestar homenagem à Sua autoridade. Tais foram os erros sutis que por meio dos ardis de Lúcifer estavam a propagar-se rapidamente nos lugares celestiais.
Não tinha havido mudança alguma na posição ou autoridade de Cristo. A inveja e falsa representação de Lúcifer, bem como sua pretensão à igualdade com Cristo, tornaram necessária uma declaração a respeito da verdadeira posição do Filho de Deus; mas esta havia sido a mesma desde o princípio. Muitos dos anjos, contudo, ficaram cegos pelos enganos de Lúcifer.
Tirando vantagem da amável e leal confiança nele depositada pelos seres santos que estavam sob suas ordens, com tal arte infiltrara em suas mentes a sua própria desconfiança e descontentamento que sua participação não foi percebida. Lúcifer havia apresentado os propósitos de Deus sob uma luz falsa, interpretando-os mal e torcendo-os, de modo a incitar a dissensão e descontentamento. Astuciosamente levou os ouvintes a dar expressão aos seus sentimentos; então eram tais expressões repetidas por ele quando isto servisse aos seus intuitos, como prova de que os anjos não estavam completamente de acordo com o governo de Deus. Ao mesmo tempo em que, de sua parte, pretendia uma perfeita fidelidade para com Deus, insistia que modificações na ordem e leis do Céu eram necessárias para a estabilidade do governo divino. Assim, enquanto trabalhava para provocar oposição à lei de Deus, e infiltrar seu próprio descontentamento na mente dos anjos sob seu mando, ostensivamente estava ele procurando remover o descontentamento e reconciliar anjos desafetos com a ordem do Céu. Ao mesmo tempo em que secretamente fomentava a discórdia e a rebelião, com uma astúcia consumada fazia parecer como se fosse seu único intuito promover a lealdade, e preservar a harmonia e a paz.
O espírito de descontentamento que assim se acendera, estava a fazer sua obra funesta. Conquanto não houvesse uma insurreição declarada, a divisão de sentimentos imperceptivelmente crescia entre os anjos. Alguns havia que olhavam com favor para as insinuações de Lúcifer contra o governo de Deus. Posto que tivessem estado até ali em perfeita harmonia com a ordem que Deus estabelecera, achavam-se agora descontentes e infelizes, porque não podiam penetrar Seus conselhos insondáveis; não estavam satisfeitos com Seu propósito de exaltar a Cristo. Estes se encontravam prontos para apoiar a exigência de Lúcifer para ter autoridade igual à do Filho de Deus. Entretanto, anjos que eram fiéis e verdadeiros sustentavam a sabedoria e justiça do decreto divino, e se esforçavam por reconciliar este ser desafeto com a vontade de Deus. Cristo era o Filho de Deus; tinha sido um com Ele antes que os anjos fossem chamados à existência. Sempre estivera Ele à destra do Pai; Sua supremacia, tão cheia de bênção a todos os que vinham sob Seu domínio benigno, não havia até então sido posta em dúvida. A harmonia do Céu nunca fora interrompida; por que deveria agora haver discórdia? Os anjos fiéis apenas podiam ver conseqüências terríveis para esta dissensão, e com rogos ansiosos aconselhavam os que estavam desafetos a renunciarem seu intuito e se mostrarem leais para com Deus, pela fidelidade ao Seu governo.
Com grande misericórdia, de acordo com o Seu caráter divino, Deus suportou longamente a Lúcifer. O espírito de descontentamento e desafeição nunca antes havia sido conhecido no Céu. Era um elemento novo, estranho, misterioso, inexplicável. O próprio Lúcifer não estivera a princípio ciente da natureza verdadeira de seus sentimentos; durante algum tempo receou exprimir a ação e imaginações de sua mente; todavia não as repeliu. Não via para onde se deixava levar. Entretanto, esforços que somente o amor e a sabedoria infinitos poderiam imaginar, foram feitos para convencê-lo de seu erro. Provou-se que sua desafeição era sem causa, e fez-se-lhe ver qual seria o resultado de persistir em revolta. Lúcifer estava convencido de que não tinha razão. Viu que “justo é o Senhor em todos os Seus caminhos, e santo em todas as Suas obras” (Salmos 145:17); que os estatutos divinos são justos, e que, como tais, ele os deveria reconhecer perante todo o Céu. Houvesse ele feito isto, e poderia ter salvo a si mesmo e a muitos anjos. Ele não tinha naquele tempo repelido totalmente sua lealdade a Deus. Embora tivesse deixado sua posição como querubim cobridor, se contudo estivesse ele disposto a voltar para Deus, reconhecendo a sabedoria do Criador, e satisfeito por preencher o lugar a ele designado no grande plano de Deus, teria sido reintegrado em suas funções. Chegado era o tempo para um decisão final; deveria render-se completamente à soberania divina, ou colocar-se em franca rebelião. Quase chegou à decisão de voltar; mas o orgulho o impediu disto. Era sacrifício demasiado grande, para quem fora tão altamente honrado, confessar que estivera em erro, que suas imaginações eram errôneas, e render-se à autoridade que ele procurara demonstrar ser injusta.
Um compassivo Criador, sentindo terna piedade por Lúcifer e seus seguidores, procurava fazê-los retroceder do abismo de ruína em que estavam prestes a imergir. Sua misericórdia, porém, foi mal-interpretada. Lúcifer apontou a longanimidade de Deus como uma prova de sua superioridade, como indicação de que o Rei do Universo ainda concordaria com suas imposições. Se os anjos permanecessem firmes com ele, declarou, poderiam ainda ganhar tudo que desejassem. Persistentemente defendeu sua conduta, e entregou-se amplamente ao grande conflito contra seu Criador. Assim foi que Lúcifer, “o portador de luz”, aquele que participava da glória de Deus, que servia junto ao Seu trono, tornou-se, pela transgressão, Satanás, o “adversário” de Deus e dos seres santos, e destruidor daqueles a quem o Céu confiou a sua guia e guarda.
Rejeitando com desdém os argumentos e rogos dos anjos fiéis, acusou-os de serem escravos iludidos. A preferência mostrada para com Cristo declarou ele ser um ato de injustiça tanto para si como para todo o exército celestial, e anunciou que não mais se sujeitaria a esta usurpação dos direitos, seus e deles. Nunca mais reconheceria a supremacia de Cristo. Resolvera reclamar a honra que deveria ter sido conferida a ele, e tomar o comando de todos os que se tornassem seus seguidores; e prometeu àqueles que entrassem para as suas fileiras um governo novo e melhor, sob o qual todos desfrutariam liberdade. Grande número de anjos deram a entender seu propósito de o aceitar como seu chefe. Lisonjeado pelo apoio com que suas insinuações eram recebidas, esperou conquistar todos os anjos para o seu lado, tornar-se igual ao próprio Deus, e ser obedecido por todo o exército celestial.
Os anjos fiéis ainda instavam com ele e com os que com ele simpatizavam, para que se submetessem a Deus; apresentavam-lhes o resultado inevitável caso se recusassem a isso: Aquele que os criara poderia subverter seu poder, e castigar de maneira notável sua revoltosa ousadia. Nenhum anjo poderia com êxito opor-se à lei de Deus, que é tão sagrada como Ele próprio. Advertiram todos a que fechassem os ouvidos ao raciocínio enganador de Lúcifer, e insistiram com este e seus seguidores para buscarem a presença de Deus sem demora, e confessarem o erro de pôr em dúvida Sua sabedoria e autoridade.
Muitos estiveram dispostos a dar atenção a este conselho, arrependerse de sua desafeição, e procurar de novo ser recebidos no favor do Pai e de Seu Filho. Lúcifer, porém, tinha pronto outro engano. O grande rebelde declarou então que os anjos que com ele se uniram tinham ido muito longe para voltarem; que ele conhecia a lei divina, e sabia que Deus não perdoaria. Declarou que todos os que se sujeitassem à autoridade do Céu seriam despojados de sua honra, rebaixados de sua posição. Quanto a si, estava decidido a nunca mais reconhecer a autoridade de Cristo. A única maneira de agir que restava a ele e seus seguidores, dizia, consistia em vindicar sua liberdade, e adquirir pela força os direitos que não lhes haviam sido de boa vontade concedidos.
Tanto quanto dizia respeito ao próprio Satanás, era verdade que ele havia ido agora demasiado longe para que pudesse voltar. Mas não era assim com os que tinham sido iludidos pelos seus enganos. Para estes, os conselhos e rogos dos anjos fiéis abriram uma porta de esperança; e, se houvessem eles atendido a advertência, poderiam ter sido arrancados da cilada de Satanás. Mas ao orgulho, ao amor para com seu chefe, e ao desejo de uma liberdade sem restrições permitiu-se terem o domínio, e as instâncias do amor e misericórdia divinos foram finalmente rejeitadas.
Deus permitiu que Satanás levasse avante sua obra até que o espírito de desafeto amadurecesse em ativa revolta. Era necessário que seus planos se desenvolvessem completamente a fim de que todos pudessem ver sua verdadeira natureza e tendência. Lúcifer, sendo o querubim ungido, fora altamente exaltado; era grandemente amado pelos seres celestiais, e forte era sua influência sobre eles. O governo de Deus incluía não somente os habitantes do Céu, mas de todos os mundos que Ele havia criado; e Lúcifer concluiu que, se ele pôde levar consigo os anjos do Céu à rebelião, poderia também levar todos os mundos. Tinha ele artificiosamente apresentado a questão sob o seu ponto de vista, empregando sofisma e fraude, a fim de conseguir seus objetivos. Seu poder para enganar era muito grande. Disfarçando-se sob a capa da falsidade, alcançara uma vantagem. Todos os seus atos eram de tal maneira revestidos de mistério, que era difícil descobrir aos anjos a verdadeira natureza de sua obra. Antes que se desenvolvesse completamente, não poderia mostrar-se a coisa ruim que era; sua desafeição não seria vista como sendo rebelião. Mesmo os anjos fiéis não podiam discernir-lhe completamente o caráter, ou ver para onde sua obra estava a levar.
Lúcifer havia a princípio dirigido suas tentações de tal maneira que ele próprio não pareceu achar-se comprometido. Os anjos que ele não pôde trazer completamente para o seu lado, acusou-os de indiferença aos interesses dos seres celestiais. Da mesma obra que ele próprio estava a fazer, acusou os anjos fiéis. Consistia sua astúcia em perturbar com argumentos sutis, referentes aos propósitos de Deus. Tudo que era simples ele envolvia em mistério, e por meio de artificiosa perversão lançava a dúvida sobre as mais claras declarações de Jeová. E sua elevada posição, tão intimamente ligada com o governo divino, dava maior força a suas representações.
Deus apenas podia empregar meios que fossem coerentes com a verdade e justiça. Satanás podia usar o que Deus não podia - a lisonja e o engano. Procurara falsificar a Palavra de Deus, e de maneira errônea figurara Seu plano de governo, pretendendo que Deus não era justo ao impor leis aos anjos; que, exigindo submissão e obediência de Suas criaturas, estava simplesmente a procurar a exaltação de Si mesmo. Era, portanto, necessário demonstrar perante os habitantes do Céu, e de todos os mundos, que o governo de Deus é justo, que Sua lei é perfeita. Satanás fizera com que parecesse estar ele procurando promover o bem do Universo. O verdadeiro caráter do usurpador e seu objetivo real devem ser compreendidos por todos. Ele deve ter tempo para manifestar-se pelas suas obras iníquas.
A discórdia que sua conduta determinara no Céu, Satanás lançara sobre o governo de Deus. Todo o mal declarou ele ser o resultado da administração divina. Alegava que era seu objetivo aperfeiçoar os estatutos de Jeová. Por isso permitiu Deus que ele demonstrasse a natureza de suas pretensões, a fim de mostrar o efeito de suas propostas mudanças na lei divina. A sua própria obra o deve condenar. Satanás pretendera desde o princípio que não estava em rebelião. O Universo todo deve ver o enganador desmascarado.
Mesmo quando foi expulso do Céu, a Sabedoria infinita não destruiu Satanás. Visto que unicamente o serviço de amor pode ser aceito por Deus, a fidelidade de Suas criaturas deve repousar em uma convicção de Sua justiça e benevolência. Os habitantes do Céu, e dos mundos, não estando preparados para compreender a natureza ou conseqüência do pecado, não poderiam ter visto então a justiça de Deus na destruição de Satanás. Houvesse ele sido imediatamente destruído, e alguns teriam servido a Deus pelo temor em vez de o fazer pelo amor. A influência do enganador não teria sido completamente destruída, tampouco o espírito de rebelião teria sido totalmente desarraigado. Para o bem do Universo todo, através dos intérminos séculos, ele deveria desenvolver mais completamente seus princípios, a fim de que suas acusações contra o governo divino pudessem ser vistas sob sua verdadeira luz, por todos os seres criados, e a justiça e a misericórdia de Deus, bem como a imutabilidade de Sua lei, pudessem para sempre ser postas fora de toda a questão.
A rebelião de Satanás deveria ser uma lição para o Universo, durante todas as eras vindouras - perpétuo testemunho da natureza do pecado e de seus terríveis resultados. A atuação do governo de Satanás, seus efeitos tanto sobre os homens como sobre os anjos, mostrariam qual seria o fruto de se pôr de parte a autoridade divina. Testificariam que, ligado à existência do governo de Deus, está o bem-estar de todas as criaturas que Ele fez. Assim, a história desta terrível experiência com a rebelião seria uma salvaguarda perpétua para todos os seres santos, para impedir que fossem enganados quanto à natureza da transgressão, para salvá-los de cometer pecado, e de sofrerem sua pena.
Aquele que governa no Céu é O que vê o fim desde o princípio - o Ser perante o qual os mistérios do passado e do futuro estão igualmente expostos, e que, para além da miséria, trevas e ruína que o pecado acarretou, contempla o cumprimento de Seus propósitos de amor e bênçãos. Se bem que “nuvens e obscuridade estão ao redor dEle, justiça e juízo são a base de Seu trono” Salmos 97:2. E isto os habitantes do Universo, tanto fiéis como infiéis, compreenderão um dia. “Ele é a Rocha, cuja obra é perfeita, porque todos os Seus caminhos juízo são; Deus é a verdade, e não há nEle injustiça: justo e reto é” Deuteronômio 32:4.

Capítulo 2



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