Paul Bodier a vida e a Morte



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Paul Bodier
A Vida e a Morte
Título do original em francês

(Paul Bodier- La vie et la mort)
Tradução do Dr. Francisco Klors Werneck

Auguste Rodin - O Pensador

Conteúdo resumido
Esta pequena monografia de Paul Bodier embasado na Doutrina Espírita vem trazer através de pequenas pinceladas o significado da vida, demonstrando a imortalidade de nossa alma que se apura de degrau em degrau através das diversas reencarnações para atingir a sublimidade.

A Vida e a Morte

É costume representar-se a Morte sob a figura de um esqueleto descarnado, armado de uma foice e munido de uma ampulheta. Livre fica então o curso à imaginação do homem para fazer desta figura um símbolo de espanto e terror, porquanto este espectro horrendo encerra tudo o que a morte pode apresentar de pavoroso.

É a ignóbil ceifadeira que, quando a ampulheta indica haver soado a hora que o destino marcou, abate com a sua terrível arma, inexoravelmente e sem piedade, as vidas humanas. Moços e velhos, ricos e pobres, sãos e doentes, todos têm que ser por ela atingidos e jazer por terra, lado a lado. E, à medida que se alonga a fileira das vítimas, o macabro espectro a contempla com um ríctus horrível, na satisfação de ter cumprido e de cumprir, incessantemente e sem trégua, a sua lúgubre tarefa.

Apresentado sob esta forma, o símbolo da Morte nada tem, sem dúvida, de atraente e dele nos afastamos, com pavor, o mais depressa possível, porém a sua verdadeira interpretação, baseada na ciência oculta, é muito outra e lhe tira imediatamente tudo o que nos possa repugnar.

A ampulheta indica, é certo, que a hora soou. A areia a correr significa que a nossa existência é medida. Ela o é, de fato, pelas possibilidades que nos são facultadas para que progridamos. Quando essas possibilidades se esgotarem todas, de nada nos serviria permanecer mais tempo aqui na Terra, cumprindo-nos então cuidar de colher o fruto das experiências vividas, a fim de nos nutrirmos espiritualmente e, depois de nos termos enriquecido com ele, prepararmos nova existência, que proporcionará outras oportunidades de progresso.

A hora soa para nós, mas a hora da colheita, da época da ceifa, que é o que a foice indica. Esta, no caso, deixa de ser arma terrível para ser o instrumento de que o ceifeiro se utiliza para cortar as espigas maduras. O ceifeiro outro não é que a individualidade permanente, cuja vida não pode ter fim, pois que é uma parte integrante da Vida Una, Universal, que se manifesta numa extensíssima série de existências sucessivas.

O que o ser colhe é o fruto das experiências vividas no corpo físico, isto é, o que delas subsiste depois de despojadas de todos os detalhes acessórios. Esse fruto indica-o, simbolicamente, o esqueleto, a parte mais duradoura do corpo físico, a que pendura quando tudo mais desapareceu.

Chegado que seja o término de nossa presente existência, somos chamados a outras atividades nos mundos invisíveis, onde o nosso corpo físico de nenhuma utilidade nos seria; por isso é que importa o abandonemos como deixamos de lado uma roupa usada, que fez o seu tempo e de que não mais nos poderemos servir.

Vou esforçar-me para fazer compreensível, tão simplesmente quão possível, o mecanismo dessa separação que muitos videntes puderam em todos os tempos observar. As diferentes descrições, obtidas em diversos lugares e em épocas igualmente diversas, são todas concordes. Sobre este ponto, pois, a ciência oculta nos fornece provas de indiscutível valor.

A morte, ou, como dizem os espíritas, a desencarnação, mera passagem de um estado para outro estado, é ato infinitamente mais complexo e mais extenso do que geralmente se pensa.

Com efeito, a morte se desenvolve no tempo e compreende toda uma sucessão de fenômenos, mas, como estes, na sua maioria, escapam à observação direta e, como de outro lado, são quase sempre mal interpretados, costuma-se considerar a morte um ato brusco, determinando subitamente uma modificação total nas condições da existência do ser.

Absolutamente inexato é este modo de ver que provém de um erro profundo, devido; em grande parte, à ignorância corrente a respeito da natureza dos diversos elementos constitutivos do ser humano e acerca da complexidade de sua síntese.

Se, para todos, são idênticas as grandes linhas do processus da morte, já o mesmo não se dá no que concerne às circunstâncias de detalhe, tanto que bem se pode dizer que cada um tem a "sua morte", sendo ela função de um conjunto de contingências e condições que desempenham papel mais ou menos importante no desdobramento dos fenômenos. As principais são:

a idade do defunto;

a natureza do trespasse (enfermidade longa, curta ou acidente brusco);

o modo de destruição do cadáver (enterramento ou incineração);

as crenças;

o estado evolutivo;

as últimas preocupações;

o apego maior ou menor à vida terrestre;

a natureza das aspirações habituais, etc.

Tais os múltiplas elementos que, por suas combinações, tornam, por assim dizer, infinitas as condições individuais da passagem de uma forma de vida para outra forma de vida

Mesmo não levando em conta senão a idade e a natureza do falecimento, achamo-nos em presença de condições muito diferentes.

Sabe-se que uma longa enfermidade insensivelmente prepara o desprendimento dos veículos superiores e, se o atingido por essa enfermidade for uma pessoa muito idosa, em que as células físicas já sofreram, no decorrer dos anos de velhice, alterações mais ou menos profundas, bem se compreenderá que o que chamamos morte será mais fácil para um velho do que para um moço cheio de vida, que um acidente mate de súbito. Ao passo que, no primeiro caso, os veículos sutis se destacam do corpo físico como o fruto maduro do galho donde pendia, no segundo haverá resistências semelhantes às que encontra quem queira arrancar de seu caroço a polpa de um fruto verde.

Podemos, por conseguinte, considerar a velhice e a enfermidade como condições de alguma sorte preparatórias e favoráveis à crise brusca da morte. Diremos mesmo que, neste caso, o fenômeno da morte começa o seu "processus" antes da ruptura aparente dos laços físicos, porquanto, se bem ainda vivo no plano terrestre, o indivíduo se prepara inconscientemente para a partida, realizando assim, por antecipação, uma parte dos fenômenos correlativos à passagem de um mundo para o outro.

Daí resulta que, já tendo realizado certas obrigações, o velho, que sucumbe a uma moléstia longa, vem achar-se em condições muito diversas das do jovem que um acidente mortal vitimou.

Ora, se só levando em conta a idade e a natureza do falecimento já chegamos a essa comprovação, podemos imaginar o que se dará quando intervierem as crenças (conscientes ou inconscientes), o modo de destruição do cadáver, o estado evolutivo, as aspirações profundas, etc., outros tantos fatores que exercem todos uma certa ação sobre os estados de consciência do ser na hora do trespasse e que atuam assim, mais ou menos profundamente, sobre a marcha do fenômeno.

Antes de examinarmos o que a tradição nos ensina acerca da ruptura dos laços físicos, lembremos primeiramente o que é a morte considerada do ponto de vista da medicina legal.

Os sinais da morte são imediatos ou mediatos. Eis os primeiros: parada do coração e da circulação, dilatação da pupila, tela viscosa na córnea, afundamento do globo ocular. Esses são apenas uma probabilidade. Os segundos: rigidez cadavérica, esfriamento, putrefação, que só se produzem depois de decorrido mais ou menos longo tempo, são os únicos que podem dar a certeza que, no entanto, só será verdadeiramente absoluta com a putrefação.

De fato, a morte se caracteriza essencialmente pelo desaparecimento dos "processus" vitais, mas, nem mesma quando todo movimento respiratório cessou, quando as contrações cardíacas desapareceram totalmente, deixam de persistir os "processus" vitais.

No ser humano e nos animais superiores, a cessação das grandes funções orgânicas não acarreta a cessação imediata das manifestações vitais; os músculos da vida de relação ainda se podem contrair, conforme tão bem o demonstrou Brown Sequard. E, além desses fatos excepcionais, as fibras lisas do intestino denotam uma excitabilidade aumentada, os cílios vibráteis, que formam as mucosas das vias aeríferas, continuam os seus movimentos rítmicos, os leucócitos no sangue executam movimentos ainda durante muitas horas e às vezes durante muitos dias; finalmente as células glandulares continuam a exercer as suas funções químicas.

Como se vê, só do ponto de vista da medicina legal se pode determinar muito aproximadamente o momento da morte, o mesmo já não acontece quando se considera o fenômeno do ponto de vista essencialmente fisiológico e, a este respeito, eis o que nos ensina a tradição ocultista.

Quando soa a hora da morte, os átomos mais grosseiros, que, no decurso da última existência terrena, se mantiveram grupados nas malhas da trama da vida, se desprendem lentamente da matéria física mais densa, levando consigo o sopro da vida.

À medida que este se retira, os membros se esfriam, provocando o que se chama calafrio da morte. Enquanto que todos os átomos do corpo físico se renovaram múltiplas vezes no curso da vida, o átomo permanente não só se manteve como se conservou, através de todos os veículos físicos de que o ser fez uso no decorrer de suas existências anteriores.

Desde que a teia sutil da vida deixou completamente os membros e os diversos órgãos do corpo e se reuniu em torno do átomo, vê-se, dizem os sábios ocultistas e os videntes, brilhar em torno dele a chama violeta-dourada do sopro da vida; depois essa chama se eleva para a cabeça até o terceiro lóbulo cerebral, para daí galgar lentamente o ponto de junção das suturas parietais e occipitais. É durante a retirada dessa teia vital e enquanto ela se amontoa em torno do átomo que os olhos se tornam vítreos.

Começa então a efetuar-se o desprendimento dos veículos; o corpo etéreo (ou corpo vital), que, na realidade ainda pertence ao mundo físico, se retira pela cabeça e deixa o corpo inanimado. Acompanham-no os corpos astral e mental, os quais, como ele, deixam o cadáver, executando um movimento em espiral, levando consigo os átomos permanentes, não, a bem dizer, os próprios átomos, mas a energia de que eram eles o campo de ação.

Mesmo depois que esses diversos elementos, que são os veículos do princípio espiritual, abandonam o cadáver, ainda se lhe conservam ligados por um cordão delgado, brilhante, prateado, que, aliás, os ocultistas chamam de "cordão de prata", cuja forma no ponto de ligação, lembra dois, um direito, invertido o outro, reunidos pelas extremidades de seus anéis. Durante a vida, um deles se acha fixado no coração pelo átomo-germe, sendo a ruptura desse átomo que ocasiona a parada do coração. O cordão esse não se rompe, antes que o panorama da vida, conservado no corpo vital (ou duplo etéreo) tenha sido passado em revista.

Tendo abandonado o seu invólucro material, o desencarnado recobra grande liberdade espiritual e revê, no éter que lhe reflete o corpo vital, todas as imagens das cenas de sua existência finda, que ficaram gravadas na sua memória subconsciente.

Essas imagens se lhe apresentam à consciência como imenso panorama a se desenrolar em sentido inverso da sucessão real dos acontecimentos, isto é, vêm, em primeiro lugar, os fatos que precederam imediatamente a morte, seguindo-se regularmente os que remontam cada vez mais ao passado.

No meu livro La villa du silence (A granja do silêncio), encontrará o leitor uma narrativa tão completa quão possível das modalidades que se revestem as reminiscências do passado. Permitir-me-ei citar aqui apenas o seguinte trecho dessa narração:

"Percebi ao mesmo tempo que cada nova existência se liga à anterior, que, a fim de progredir e elevar-se para a Sabedoria e a Luz, era preciso não ter mais ódio porém apenas amor à lei suprema que governa os mundos."

Por todo o longo tempo que o corpo permanece em contato com os veículos superiores e esses ainda se conservam ligados ao corpo físico pelo cordão de prata, toda dissecção ou qualquer golpe desferido no aludido corpo, o defunto até certo ponto o pode sentir.

O cordão se parte no ponto de junção dos dois 6, ficando uma parte com o corpo físico a fim de evitar muito rápida putrefação, juntando o outro ramo aos veículos superiores.

A partir do momento em que o cordão de prata se rompe, o corpo está completamente morto.

Segundo ensinamentos colhidos em algumas mensagens mediúnicas, essa ruptura do cordão de prata se produziria pela intervenção de uma ou de muitas entidades protetoras.

Pode-se, pois, dizer, de acordo com as diversas observações feitas pelos ocultistas, que a crise da morte se desdobra da seguinte maneira:

1.º - retirada da trama da vida para os arredores do átomo permanente;

2.° - ruptura do átomo permanente;

3.º - retirada dos veículos permanentes;

4.º - ruptura do cordão de prata.

O "processas" da morte, tal como acabamos de esboçar, recorrendo a dados do ocultismo, pôde ser verificado em diversas ocasiões, quer nas suas manifestações primárias, quer pela clarividência.

Em sua obra On ne meurt pas (Não se morre), o Sr. Léon Chevreuil reuniu bom número de testemunhos grandemente instrutivos pelas suas concordâncias. Dentre eles podemos citar, como principal, o de um médium vidente instruído, falecido nos Estados Unidos da América em 1910, cuja vidência foi muitas vezes aproveitada no diagnóstico de enfermidades. Eis o que viu:

"Minhas faculdades me permitiram estudar o fenômeno psíquico e fisiológico da morte, na cabeceira de um moribundo. Era uma senhora de cerca de 60 anos, a quem muitas vezes eu dera conselhos médicos. Quando lhe chegou a hora da morte, achava-me eu, por grande felicidade, em estado de perfeita saúde, o que me tornou possível exercitar livremente a minha faculdade de vidência. Coloquei-me de modo a não ser perturbado em minhas observações psíquicas e me pus a estudar o mistério da morte.

Vi que o organismo físico não mais podia satisfazer às necessidades do princípio intelectual, mas me pareceu que diversos órgãos opunham resistência à partida da alma. O sistema muscular tentava reter as forças motrizes. O sistema vascular se debatia para reter o princípio vital. O sistema nervoso lutava, com todas as forças, contra o aniquilamento dos sentidos físicos e o sistema cerebral procurava reter o princípio intelectual. O corpo e a alma, como dois cônjuges, resistiam à separação absoluta uma do outro, Esses conflitos internos pareciam, a princípio, produzir sensações penosas e perturbadoras, de sorte que me alegrei quando percebi que essas manifestações físicas indicavam não a dor e a enfermidade, mas simplesmente a separação da alma do organismo.

Nos seres voluntariosos, dominadores, muito materiais, a agonia é às vezes dolorosa. Assim é que se vêem agonizantes que se contraem horrivelmente, se agarram a tudo, arranham a parede e não raro arrancam pedaços da pele com as unhas.

Pouco depois a cabeça se cercou de uma atmosfera brilhante e, em seguida, vi, de repente, cérebro e o cerebelo estenderem suas partes inferiores e paralisarem-se-lhes as funções galvânicas. Tornaram-se saturados de princípios vitais, de eletricidade e de magnetismo, de movimentos de vida, de sensibilidade, espalhados por todo o organismo. A cabeça ficou como que iluminada e notei ao mesmo tempo que as extremidades se tornavam frias e escuras, ao passo que o cérebro adquiria especial refulgência.

Em torno dessa atmosfera fluídica que rodeava a cabeça, vi formar-se uma outra cabeça que lentamente, cada vez mais se desenhou. Era tão brilhante que eu mal podia fixar nela a vista, porém, à medida que essa cabeça fluídica se condensava, desaparecia a atmosfera brilhante. Deduzi daí que esses princípios brilhantes que, de todas as partes do corpo tinham sido atraídos para o cérebro, estavam solidamente unidos, segundo o princípio superior e universal de afinidade, que se faz sentir em cada parcela de matéria.

Com surpresa e admiração, acompanhei todas as fases do fenômeno.

Da mesma maneira que a cabeça fluídica se desprendera do cérebro, vi formarem-se, sucessivamente, o pescoço, as espáduas e, por fim, o conjunto do corpo fluídico.

Tornou-se-me evidente que as partes intelectuais do ser humano são dotadas de uma afinidade coletiva que lhes permite reunirem-se no momento da morte. As deformidades e os defeitos do corpo físico haviam desaparecido quase completamente do corpo fluídico.

Enquanto esse fenômeno se desenvolvia diante de minhas faculdades particulares, de outro lado, para as vistas materiais das pessoas presentes no quarto, o corpo da moribunda parecia apresentar sintomas de mal-estar e de angústia, mas eram fictícios porquanto provinham apenas da partida das forças vitais e intelectuais, que se retiravam de todo o corpo para se concentrarem no cérebro e depois no novo organismo,

O espírito se elevou em ângulo reto acima da cabeça do corpo abandonado, porém, antes que se desse a separação final do laço que prendera por tão longo tempo as partes materiais e intelectuais, vi uma corrente de eletricidade vital formar-se sobre a cabeça da moribunda e por baixo do novo corpo fluídico.

Isso me deu a convicção de que a morte não é mais do que o renascimento da alma ou do espírito a se elevar para um estado superior e que o nascimento de uma criança neste mundo ou a formação de um espírito no outro são fatos idênticos. Nada falta, nem mesmo o cordão umbilical, ali figurado por um laço de eletricidade vital.

Esse laço, durante certo tempo, subsistiu entre os dois organismos. Descobri então uma coisa de que não me apercebera em minhas investigações psíquicas: que uma parte do fluido vital volta ao corpo material logo que se rompe o cordão ou laço elétrico. Esse elemento fluídico ou elétrico, espalhando-se por todo o organismo, impede a dissolução imediata do corpo.

Logo que a alma da pessoa, que eu observava, se soltou dos laços tenazes do corpo, verifiquei que o seu novo órgão fluídico era apropriado ao seu estado, mas que o conjunto se assemelhava à sua aparência terrena. Foi-me impossível saber o que se passava nessa inteligência que revivia, mas notei-lhe a calma e o espanto que lhe causava a dor profunda dos que choravam junto de seu corpo.

Ela logo se apercebeu da ignorância em que eles estavam a respeito do que realmente se passara."

Por sua vez, o Sr. Ernest Bosc, autor de obras muito apreciadas, escreveu as seguintes linhas, que cito textualmente e que confirmam toda a descrição que acabo de fazer:

"Dizíamos, pois, que o cérebro se torna brilhante, que ilumina a cabeça do moribundo, porquanto, não o esqueçamos, a vida, tendo se retirado até a pescoço, reside então toda na cabeça, em torno da atmosfera fluídica de que vemos um volume considerável de aura. Dessa aura se forma uma outra cabeça que, muito nebulosa a princípio, se torna pouco a pouco mais distinta, mais nítida, de um desenho afinal preciso e, à medida que essa cabeça se condensa, o brilho luminoso da cabeça do moribundo vai cada vez mais desaparecendo e, dentro em pouco, à nova cabeça formada se juntam um pescoço, espáduas, um tronco, pernas, numa palavra: um fantasma completo que paira acima do cadáver, em posição horizontal.

Evidentemente, tudo o que era vida passou para esse fantasma e o anima, permanecendo ele, entretanto, ligado ao cadáver pelo laço fluídico vital e, enquanto esse não se rompe, o indivíduo não está morto.

Dado nos foi assistir aos últimos momentos de um velho de 78 anos, que dava a impressão de sofrer muitíssimo e que dizia e repetia à sua mulher: "Corta, corta..." A pobre mulher não compreendia o que ele desejava. De súbito, ao nosso espírito se apresentou a idéia de que se tratava de cortar os laços fluídicos e logo o fiz, passando muito rapidamente a mão por cima da cabeça do moribundo. Esse imediatamente soltou um grande ah! de alívio e morreu no mesmo instante. Eu havia desempenhado a função de Parca..."

Conforme o laço fluídico se corte ou rompa mais ou menos longe do corpo, tanto mais ou menos lenta é a decomposição desse por isso que essa porção do laço fluídico é que impede a dissolução e a putrefação do cadáver. Estamos inteiramente convencidos de que o princípio vital se escapa do corpo pela glândula pineal, pois todos os videntes afirmam que a alma ou espírito se evola do alto do crânio.

Eis em que termos um missionário ao regressar do arquipélago de Taiti, na Polinésia, expôs no tocante ao "processus" da morte:

"Eles acreditam que, no momento da morte, a alma se retira para a cabeça a fim de, em seguida, sair e passar por um trabalho longo e gradativo de reabsorção em Deus, de quem ela proviria... É curioso notar que os taitianos crêem na saída de uma substância real, que tomaria forma humana, e professam essa crença em virtude das afirmações de alguns dentre eles, dotados de clarividência.

Segundo esses videntes, desde que o moribundo deixa de respirar, uma espécie de vapor se desprende da cabeça e se condensa acima dele, a pouca distância do corpo. Conserva-se ligado a esse por uma espécie de cordão, formado da mesma substância.

"Afirmam que essa substância aumenta rapidamente de volume e toma, ao mesmo tempo, os traços do corpo de que se desprende. Dizem, finalmente, que, quando o corpo se tornou frio e cessaram as últimas manifestações de vida, o cordão, que o liga à alma, se dissocia e a alma, liberta, se evola, assistida, ao que parece, por mensageiros invisíveis."

Um dos detalhes mais interessantes dessas diversas descrições reside na indicação relativa à ruptura, no momento da morte, do laço (o cordão de prata, a que me referi ainda há pouco) que mantém unidos, durante a vida, o organismo físico e os princípios superiores do ser.

Permito-me fazer notada aqui a analogia que existe entre as manifestações sucessivas da desencarnação e as que presidem a constituição fluídica de uma aparição que chega à materialização completa.

Tendo em minha obra La villa du silence (A granja do silêncio) descrito a formação do fantasma, reproduzo aqui esta passagem para mostrar que os fenômenos são sempre sucessivos. E a seguinte:

"A sala ficou de improviso banhada de uma luz singular, a tal ponto que me causou a ilusão de que o sol varara subitamente as nuvens, como não raro acontece depois de violenta chuvarada, mas não tardei a reconhecer o meu erro ao ver que o aguaceiro recomeçara e que cada vez mais sombrio estava o céu.

Demais, a luz, que clareava o aposento, nada podia ter de comum com a luz solar, Era, ao mesmo tempo, suave e forte, como que irisada, rica de cambiantes que admiravelmente se fundiam uns nos outros, de tal efeito que todas os objetos existentes na sala pareciam destacar-se distintamente sobre ela.

Meus olhos contemplavam maravilhados o extraordinário fenômeno, pois logo percebi a razão pela qual tudo sobressaía nitidamente nessa espantosa luminosidade. É que a estranha luz nenhuma sombra produzia. Penetrava igualmente em toda parte e envolvia por completo cada objeto, acentuando-lhe as linhas retas ou curvas dos contornos.

De repente, vi com grande nitidez, compor-se, diante de mim, ligeira mancha luminosa por sua vez, que pouco a pouco tomou a forma humana. Em menos de um minuto, essa forma se fez mais consistente, maior, mais precisa, até finalmente materializar-se. Ali estava o fantasma, com um sorriso algo triste."

Achamo-nos, pois, quando estudamos o "processus" da morte, bem como o de materialização, em face, não de um ato brusco, conforme geralmente se é levado a crer, mas de um encadeamento de fenômenos. O desdobramento desse, no tempo, se dilata por um período cuja duração varia de acordo com os indivíduos, justificando assim o que foi dito no começo deste trabalho, a saber, que cada um tem a sua própria morte e somos tentados a acrescentar "a morte que merece", segundo a sua vida foi boa ou má, porquanto nada do que a criatura foi ou pensou pode ficar definitivamente perdido. Essa a justiça imanente, a que nenhum ser humano consegue escapar.

Assim esclarecido, tanto quanto pôde ser o "processus" da desencarnação, devemos agora formar opinião sobre os perigos possíveis da incineração do cadáver.

Recorreremos, para isto, a diversas fontes, classificáveis da seguinte maneira:

1.º - opiniões de pessoas que atualmente vivem no plano terrestre;

2.º - esclarecimentos dados por desencarnados, cujos cadáveres não foram incinerados;

3.º - informações prestadas por desencarnados, que tiveram incinerados os seus cadáveres;

4.º - observações feitas por videntes durante a incineração.

Tenho um assinante da revista Psychica formulado a pergunta que ela inseriu no seu número de 15 de setembro de 1923 "A incineração prejudica o desprendimento do espírito?", o Sr. André Davenne fez sentir quanto seria de desejar que as pessoas competentes se dignassem de emitir, por intermédio dessa revista, os seus pareceres sobre este palpitante problema.

Muitas foram as respostas à direção de Psychica. Aqui vão as mais interessantes:

Da Senhora Juliette Hyver:

"A incineração nenhuma ação exerce sobre o defunto se a alma já se desprendeu completamente do corpo físico, mas, se a alma ainda estiver ligada a esse corpo, reações dolorosas podem produzir-se sobre o espírito do morto."

Sou muito da opinião da Sra. Juliette Hyver, porquanto não se deve perder de vista que o desprendimento é mais ou menos rápido, conforme o gênero da morte, a duração da enfermidade, os medicamentos para aliviar o doente e, sobretudo, as idéias deste com relação à sobrevivência.

Insisto sobre este ponto, que mostra quanto o ensino da filosofia espírita é necessário e útil. Se quando vivo o ser humano se instruísse a respeito da maneira por que se opera a desencarnação, nem surpresa, nem perturbação experimentaria ele na sua hora extrema e amplamente justificada se acharia a frase de um poeta da Antigüidade "A morte não existe".

De modo geral, uma morte violenta, colhendo o indivíduo em plena vitalidade, exige desprendimento mais longo do que uma morte que sobrevém depois de demorada enfermidade ou que resulta da ruína produzida pela, idade.

O emprego de estupefacientes retarda o desprendimento, do mesmo modo que as idéias materialistas e o medo do inferno.

Um se desprenderá ao cabo de algumas horas, outro somente ao fim de alguns dias, ou mesmo de meses e anos.

Nos países ocidentais, na França por exemplo, onde se enterram os cadáveres quase sempre no dia seguinte ao da morte, esse lapso de tempo, segundo mensagens recebidas do Além, é insuficiente em muitos casos. Se se pudesse esperar cinco ou seis dias, a incineração nenhum risco ofereceria, dado que, decorrido esse espaço de tempo, já estarão rotos os laços que prendem o espírito ao corpo, qualquer que seja o gênero de morte ou o estado mental do indivíduo.

O Sr. Charles Lancelin se pronuncia contra a incineração. Por quais motivos?

Ei-los:


“É evidente que o espírito mesmo, por absolutamente imaterial, nenhuma dor experimenta com a incineração, mas, para o intermediário plástico, a incineração é horrivelmente dolorosa. No primeiro momento, a morte do corpo físico não é total, nem absoluta. Apenas um órgão essencial deixou de funcionar e fez cessar a vida geral; os outros aparelhos e órgãos, porém, continuam a viver individualmente, pois as células conservam a sua vitalidade peculiar e só morrem umas após outras. Creio mesmo que o duplo etéreo, em relações íntimas e constantes com todas as partes ainda vivas no cadáver, somente no sexto dia depois da morte oficial começa a enfraquecer-se para só se dissolver no ambiente transcorridos meses e meses, quando todas as células já estão mortas.

A cremação, aniquilando brutalmente o organismo, subtrai, quase instantaneamente, ao duplo etéreo o seu apoio e o obriga a uma dissolução, não progressiva, como deve ser, mas quase instantânea e em todo o caso violenta.

Quanto ao corpo astral, detentor da sensibilidade, a questão é muito simples e de toda evidência. Ele sofre quase tão atrozmente quanto sofreria se seu organismo material fosse queimado quando inteiramente vivo. Sua sensibilidade, com efeito, é dupla: parcialmente astral e parcialmente física, mas é evidente que, ligado como se acha ao duplo etéreo, não lhe é possível ter enfraquecida essa sensibilidade inferior senão quando o próprio duplo etéreo se dissolve e essa perda de sensibilidade só é completa depois que o duplo etéreo se dissolveu totalmente no ambiente, o que quer dizer que, no momento da cremação, a sensibilidade material do corpo astral ainda subsiste quase toda e nenhuma dor lhe é poupada das que o fogo ocasiona. Seu suplício é, pois, integral e, por conseguinte, horrível."

O Senhor Phaneg também se pronunciou no mesmo sentido:

"Sou contra a incineração não somente por causa do sofrimento provável, muito provável, do corpo físico, visto ser ainda bastante desconhecida a maneira por que a dor atua sobre os fluidos, mas igualmente por uma razão mística. Os grandes iniciados, que fizeram as regras da liturgia e do enterramento cristãos, sabiam que as células de nosso corpo físico não haviam concluído, no momento da morte, o desempenho do papel que lhes cabe. E ainda, se o espírito delas evoluiu pela caridade, toca-lhes desempenhar, nos reinos inferiores da Natureza, o papel de iluminadoras. Elas são a única representação de Deus para os minerais e vegetais e o fogo destrói bruscamente o suporte físico dos espíritos e as nossas células."

O Sr. René Warcollier tem opinião mais geral se expressa nos seguintes termos:

"Meu parecer sobre a incineração? Mas é muito simples. Até o momento em que surgiu a ciência experimental, a humanidade progrediu sempre, de modo empírico, em tudo e por tudo, assim na maneira de viver em habitações, de se vestir, de se alimentar, como no tocante à sua vida familiar, social e religiosa, mas acabou por submeter à experiência tudo o que concerne à vida e assim por adquirir um certo equilíbrio.

Tudo experimentou com relação aos mortos: embalsamamento, incineração, etc. Acabou por se ater, nos nossos centros de civilização, ao que parecia mais simples: o enterramento, porém, como há sempre falta de um dos dados do problema, não estamos mais adiantados do que no tempo do homem quaternário.

“A ciência refaz de novo o homem. Tudo é ou será trabalho recomeçado, inclusive as questões dos mortos; como, entretanto, isso depende do desenvolvimento do psiquismo, a humanidade só terá que esperar com paciência e, enquanto espera, deixar que os vivos enterrem os mortos a seu gosto, ao esperar com paciência que os vivos enterrem gosto dos que ficam.

Todavia, por uma razão de urbanismo, seria bom se adotasse a incineração não imediata, mas ao cabo de um certo tempo que se determinaria.”

No decorrer de uma sessão espírita realizada a 18 de março de 1926 na "Sociedade Allan Kardec" em Rochefort-sur-mer, ao guia do médium foi perguntado se, na sua opinião, o espírito de Gabriel Delanne sofrera com a incineração de seu corpo material.

Eis aqui algumas passagens da resposta dada pelo referido guia:

"Em geral, quando a desencarnação é lenta, dolorosa, a incineração constitui um sofrimento para o espírito, mas, para seres como Flammarion e Delanne, nenhum sofrimento pôde daí resultar, pelo que respondo à vossa pergunta: o espírito de Delanne nenhuma dor experimentou durante a incineração de seu corpo.

São, porém, em fraco número as mortes suaves quais as desses mestres. Na maioria dos casos, o espírito ainda conserva, depois de desencarnar, certas ligações mais ou menos profundas, conforme a sua evolução.

O fato de haver, por efeito da morte, ruptura do fluido vital, nem sempre é prova de que a alma se tenha desligado do corpo e desferido rápido vôo para outros planos espirituais. Se sente pesar profundo de deixar a Terra e os que ama, ela se prende ao seu invólucro mortal. Mesmo que não sinta pena de morrer, pode a alma, depois do seu desencarne, ficar ligada ao seu corpo físico.

Para os seres pouco evoluídos, nunca é aconselhável a incineração, porquanto o espírito então sofrerá com esse modo de destruição brutal e muito rápida do seu invólucro carnal. Como regra geral, os espíritos desaprovam a incineração."

Decorridos dois meses do recebimento da comunicação de que acabamos de reproduzir alguns trechos, a 7 de maio de 1926, Gabriel Delanne deu, no mesmo grupo, uma mensagem em que, de maneira mais precisa, assim falou da incineração:

"Não sofri em conseqüência da incineração de meu corpo. Entretanto, reconheço que tal fato não constitui exemplo a ser seguido, porque quase sempre o espírito sofre com a cremação de seu corpo físico."

A revista inglesa The Two Worlds, de 23 de maio de 1924, publicou a seguinte declaração:

"Em conversação que, por diversas vezes, temos tido com os desencarnados, obtivemos algumas opiniões sobre a cremação, sendo-nos dado falar com três mortos, pelo menos, que passaram pelo forno crematório. Dessas conversas, colhemos que certos elementos da vida subsistem no corpo do defunto, às vezes por longas horas após o trespasse, exceto nos países quentes, onde a putrefação se produz muito rapidamente, Razoável é, pois, que não se mexa com o cadáver durante um espaço de 36 horas, a fim de que a morte seja completa e que os elementos psíquicos se retirem completamente do envoltório carnal."

Quando se examinam as diferentes opiniões a favor e contra a cremação, verifica-se que são os mais opostos os modos de ver, contudo, analisando-se atentamente e comparando-se os argumentos expendidos de um lado e de outro, fica-se logo convencido de que a aposição é mais aparente do real e que pouco falta para que as diversas opiniões se conciliem. Para isso, porém, é necessário se proceda com método. Se se coloca no ponto de vista da higiene, é evidente que não temos dúvidas sobre as vantagens da cremação.

Nas grandes cidades como Paris, por exemplo, essas vantagens se mostram realmente consideráveis, porém absolutamente indispensável se torna que a cremação só deve ser procedida muito tempo após a verificação oficial do óbito.

Conveniente, portanto, seria que os cadáveres fossem conservados em uma espécie de necrotério frigorífico. É uma questão de organização e problemas muito mais complicados se têm resolvido inúmeras vezes.

De outro lado, porém, deve-se levar em conta a oposição de quase todas as religiões e as questões de ordem sentimental.

Para concluir, entendemos que a incineração, tal como se pratica entre nós, é, com efeito, prematura demais.

Quando um dos que nos são caros está a sofrer, enfermo, nós nos esforçamos por aliviá-lo, por lhe poupar toda dor inútil. Não podemos, conseguintemente, de animo despreocupado, infligir-lhe sofrimentos atrozes, mal haja transposto as portas do túmulo.

Tenhamos a coragem de proclamar bem alto o que sabemos e ponhamo-nos em guarda contra os perigos de uma incineração apressada.

Esforcemo-nos por instruir os vivos o mais possível. Repitamos, para que eles o saibam, que a morte lhes pode ser suave se, no decurso da vida atual, houverem cuidado, em todas as circunstâncias, de ser úteis e bons para com os seus semelhantes. Digamo-lhes que todo o esforço feito lhes será contado e que eles experimentarão os seus benéficos efeitos.

Procedendo assim, encaminha-los-emos para a verdadeira vida e lhes pouparemos, com freqüência, terríveis sofrimentos póstumos.

Na realidade, a Morte abre a porta de um Além maravilhoso, mais maravilhoso, mais grandioso, mais esplêndido do que tudo o que a nossa imaginação possa figurar. Ela é apenas a mudança de um estado de consciência e nada mais. Se lhe soubermos tirar a máscara macabra que os homens, movidos pelo terror, lhe puseram, reconheceremos a exatidão desta verdade profunda: que ela é o limiar da verdadeira vida eterna, universal, que palpita em todos os seres, que se afirma e desabrocha em cada um de nós, fazendo-nos passar, sucessiva e gradualmente, por todos os possíveis estados de consciência.



É nesse Além que também experimentaremos a alegria sem par de nos acharmos, durante séculos, com os seres que mais ternamente tenhamos amado. A eles unidos mais do que nunca pela poderosa lei de atração que uns para os outros nos impeliu, trabalharemos com esses entes queridos numa colaboração íntima e permanente de todos os instantes. E maior ainda será a nossa vontade de com eles convivermos ao compreender as razões profundas de nossa ligação recíproca e ao verificar como duráveis são tais ligações.

Através dos ciclos, que uns aos outros se encadeiam, os espíritos, imortais que são, passam pelos diversos mundos, que lhes formam o campo de ação, divididos em grupos, segundo as suas afinidades e suas afeições, e trabalham todos em comum, na larga série das suas reencarnações sucessivas para elevar-se, mediante uma ascensão lenta e continua para a Divindade. Paul Bodier


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