Paulo e estevão francisco cândido xavier



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(1) Provérbios, capítulo 30º, versículos de 7 a 9

- Mas, assim é melhor — acentuava Paulo —‘ o serviço do bem é a muralha defensiva das tentações.

O rapaz conformava-se; contudo, sua contrariedade era evidente.

Além disso, fiel observador do judaísmo, não obstan­te a paixão pelo Evangelho, o filho de Maria Marcos sentia grandes escrúpulos, com a largueza de vistas do tio e do missionário, relativamente aos gentios. Desejava servir a Jesus, sim, de todo o coração, mas não podia distanciar o Mestre das tradições do berço.

Enquanto as sementes lançadas em Chipre começa­vam a germinar na terra dos corações, os trabalhadores do Messias abandonavam Nea-Pafos, absorvidos em vas­tas esperanças.

Depois de muito confabularem, Paulo e Barnabé re­solveram estender a missão aos povos da Panfília, com grande escândalo para João Marcos, que se admirava de semelhante alvitre.

— Mas que fazermos com essa gente tão estranha?

— Perguntou o rapaz contrariado. — Sabemos, em Jeru­salém, que esse país é povoado por criaturas supina­mente ignorantes. E, ao demais, que ali existem ladrões por toda parte.

— No entanto — obtemperou Paulo, convicto —, penso que devemos procurar a região, justamente por isso. Para outros, uma viagem a Alexandria pode ofere­cer maior interesse; mas todos esses grandes centros estão cheios de mestres da palavra. Possuem sinagogas importantes, conhecimentos elevados, grandes expoentes de ciência e riqueza. Se não servem a Deus é por má-vontade ou endurecimento de coração. A Panfília, ao contrário, é muito pobre, rudimentar e carecente de luz espiritual. Antes de ensinar em Jerusalém, o Mestre preferiu manifestar-se em Cafarnaum e noutras aldeias quase anônimas, da Galiléia.

Ante o argumento irretorquível, João absteve-se de insistir.

Dentro de poucos dias, singela embarcação deixa­va-os em Atália, onde Paulo e Barnabé encontraram sin­gular encanto nas paisagens que circundavam o Cestro.

Nessa localidade muito pobre, pregaram a Boa Nova ao ar livre, com êxito imenso.

Observando no compa­nheiro um traço superior, Barnabé como que entregara a chefia do movimento ao ex-rabino, cuja palavra, então, sabia despertar encantadores arrebatamentos, O povo simples acolheu a pregação de Paulo, com profundo inte­resse. Ele falava de Jesus, como de um príncipe celestial, que visitara o mundo e fora esperar os súditos amados na esfera da glorificação espiritual. Via-se a atenção que os habitantes de Atália dispensaram ao assunto. Alguns pediram cópias das lições do Evangelho, outros procuravam obsequiar os mensageiros do Mestre com o que possuíam de melhor. Muito comovidos, recebiam as carinhosas dádivas dos novos amigos, que, quase sem­pre, se constituíam em pratos de pão, laranjas ou peixe.

A permanência na localidade trouxera novos pro­blemas. Era indispensável alguma atividade culinária. Barnabé, delicadamente, designou o sobrinho para o mis­ter, mas o rapaz não conseguia disfarçar a contrariedade. Notando-lhe o constrangimento, Paulo adiantou-se, pres­suroso:

— Não nos impressionemos com os problemas na­turais. Procuremos restringir, doravante, as necessida­des e gostos alimentares. Comeremos apenas pão, frutas, mel e peixe.

Destarte, o trabalho de cozinha ficará sim­plificado e reduzido à preparação dos peixes assados, no que tenho grande prática, desde o meu retiro lá no Tauro. Que João não se amofine com o problema, pois é justo que essa parte fique a meu cargo.

Não obstante a atitude generosa de Paulo, o rapaz continuou acabrunhado.

Em breve a missão alugava um barco, largando-se para Perge. Nesta cidade, de regular importância para a região em que se localizava, anunciaram o Evangelho com imensa dedicação. Na pequena sinagoga, encheram o sábado de grande movimento. Alguns judeus e nume­rosos gentios na maioria gente pobre e simples, acolhe­ram os missionários, cheios de júbilo. As notícias do Cristo despertaram singular curiosidade e encantamento. O modesto pardieiro, alugado por Barnabé, ficava reple­to de criaturas ansiosas por obter cópia das anotações de Levi. Paulo regozijava-se. Experimentava alegria in­definível ao contacto daqueles corações humildes e sim­ples, que lhe davam ao espírito cansado de casuística a doce impressão de virgindade espiritual. Alguns inda­gavam da posição de Jesus na hierarquia dos deuses do paganismo; outros desejavam saber a razão por que haviam crucificado o Messias, sem consideração aos seus elevados títulos, como Mensageiro do Eterno. A região estava cheia de superstições e crendices. A cultura ju­daica restringia-se ao ambiente fechado das sinagogas. A missão, não obstante consagrar seu maior esforço aos israelitas, pregando no círculo dos que seguiam a Lei de Moisés, interessara as camadas mais obscuras do povo, em razão das curas e do convite amoroso ao Evangelho, movimento esse no qual os trabalhadores de Jesus pu­nham todo o seu empenho.

Plenamente satisfeitos, Paulo e Barnabé resolveram seguir dali mesmo para Antioquia de Pisídia. Informado a esse respeito, João Marcos não conseguiu sopitar os íntimos receios, por mais tempo, e perguntou:

— Supunha que não iríamos além da Panfília. Como, pois, chegar até Antioquia? Não temos recursos para atravessar tamanhos precipícios. As florestas estão in­festadas de bandidos, o rio encachoeirado não faculta o trânsito de barcas. E as noites? Como dormir?

Essa viagem não se pode tentar sem animais e servos, coisa que não temos.

Paulo refletiu um minuto e exclamou:

— Ora, João, quando trabalhamos para alguém, de­vemos fazê-lo com amor. Julgo que anunciar o Cristo àqueles que não o conhecem, em vista de suas numerosas dificuldades naturais, representa uma glória para nós. O espírito de serviço nunca atira a parte mais difícil para os outros. O Mestre não transferiu sua cruz aos companheiros. Em nosso caso, se tivéssemos muitos escravos e cavalos, não seriam eles os carregadores das responsabilidades mais pesadas, no que se refere às ques­tões propriamente materiais? O trabalho de Jesus, entretanto, é tão grande aos nossos olhos que devemos disputar aos outros qualquer parte de sua execução, em benefício próprio.

O rapaz pareceu mais angustiado. A energia de Paulo era desconcertante.

— Mas não seria mais prudente — continuou muito pálido — demandarmos Alexandria e organizar pelo menos alguns recursos mais fáceis?

Enquanto Barnabé acompanhava o diálogo com a serenidade que lhe era peculiar, o ex-rabino continuou:

— Dás demasiada importância aos obstáculos. Já pensaste nas dificuldades que o Senhor certamente ven­ceu para vir ter conosco? Ainda que pudesse atravessar livremente os abismos espirituais para chegar ao nosso círculo de perversidade e ignorância, temos de considerar a muralha de lodo de nossas viscerais misérias... E tu te espantas apenas com os palmos de caminho que nos separam da Pisídia?

O jovem calou-se, evidentemente contrariado. A argumentação era forte demais, a seus olhos, e não lhe ensejava qualquer nova objeção.

Á noite, Barnabé, visivelmente preocupado, aproxi­mou-se do companheiro, expondo-lhe as intenções do so­brinho. O rapaz resolvera regressar a Jerusalém, de qualquer modo. Paulo ouviu calmamente as explicações, como quem não podia opor qualquer embargo à decisão.

— Não poderíamos acompanhá-lo, pelo menos, até algum ponto mais próximo do destino? — perguntou o ex-levita de Chipre, como tio solícito.

— Destino? — perguntou Paulo admirado. — Mas já temos o nosso. Desde o primeiro entendimento, pla­nejamos a excursão a Antioquia. Não posso impedir que faças companhia ao rapaz; por mim, contudo, não devo modificar o roteiro traçado. Caso resolvas re­gressar, seguirei sozinho. Julgo que as empresas de Jesus têm seu momento justo de atuação. Ë preciso aproveitá-lo. Se deixarmos a visita à Pisídia para o mês próximo, talvez seja tarde.

Barnabé refletiu alguns minutos, retrucando con­victamente:

— Tua observação é incontestável. Não posso que­brar os compromissos. Além do mais, João está homem e poderá voltar só. Tem o dinheiro indispensável a esse fim, em virtude dos cuidados maternos.

— O dinheiro quando não bem aproveitado — re­matou Paulo tranqüilamente — sempre dissolve os laços e as responsabilidades mais santas.

A conversação terminou, enquanto Barnabé voltava a aconselhar o sobrinho, altamente impressionado.

Daí a dois dias, antes de tomar a barca que o levaria à foz do Cestro, o filho de Maria Marcos despedia-se do ex-doutor de Jerusalém com um sorriso contrafeito.

Paulo abraçou-o sem alegria e falou em tom de se­rena advertência:

— Deus te abençoe e te proteja. Não te esqueças de que a marcha para o Cristo é feita igualmente por fileiras. Todos devemos chegar bem; entretanto, os que se desgarram têm de chegar bem por conta própria.

— Sim — disse o jovem envergonhado —, pro­curarei trabalhar e servir a Deus, de toda a minha alma.

— Fazes bem e cumprirás teu dever assim proce­dendo — exclamou o ex-rabino convicto.

— Lembra sem­pre que David, enquanto esteve ocupado, foi fiel ao Todo-Poderoso, mas, quando descansou, entregou-se ao adul­tério; Salomão, durante os serviços pesados da construção do Templo, foi puro na fé, mas, quando chegou ao repouso, foi vencido pela devassidão; Judas começou bem e foi discípulo direto do Senhor, mas bastou a im­pressão da triunfal entrada do Mestre em Jerusalém para que cedesse à traição e à morte. Com tantos exem­plos expostos aos nossos olhos, será útil não venhamos nunca a descansar.

O sobrinho de Barnabé partiu, sinceramente tocado por essas palavras, que o seguiriam, de futuro, como apelo constante.

Logo após o incidente, os dois missionários deman­daram as estradas impérvias. Pela primeira vez, foram obrigados a pernoitar ao relento, no seio da Natureza. Vencendo precipícios, encontraram uma gruta rochosa na qual se ocultaram, para repousar o corpo mortificado e dorido. O segundo dia da marcha escoou-se-lhes com a coragem indômita de sempre. A alimentação constituía-se de alguns pães trazidos de Perge e frutas silvestres, colhidas ali e acolá. Resolutos e bem-humorados, enfren­tavam e venciam todos os óbices. De quando em vez, era indispensável ganhar a outra margem do rio, ao toparem barreiras intransponíveis. Ei-los então apalpando o álveo das torrentes, cautelosos, com longas varas verdes, ou desbravando os caminhos perigosos e ignorados.

A solidão lhes sugeria belos pensamentos. Sagrado otimismo extravasava dos menores conceitos. Ambos afagavam carinhosas lembranças do passado afetivo e esperançoso. Como homens experimentavam todas as necessidades humanas, mas era profundamente comovedora a fidelidade com que se entregavam ao Cristo, con­fiando ao seu amor a realização dos santificados desejos de uma vida mais alta.

Na segunda noite acomodaram-se em pequena ca­verna, algo distante do trilho estreito, logo após os derradeiros tons do crepúsculo. Depois de frugalíssima refeição, passaram a comentar animadamente os feitos da igreja de Jerusalém. Noite fechada e ainda suas vozes quebravam o grande silêncio. Desdobrando os assuntos, passaram a falar das excelências do Evangelho, exaltando a grandeza da missão de Jesus-Cristo.

— Se os homens soubessem... — dizia Barnabé fa­zendo comparações.

— Todos se reuniriam em torno do Senhor e descan­sariam — rematava Paulo cheio de convicção.

— Ele é o Príncipe que reinará sobre todos.

— Ninguém trouxe a este mundo riqueza maior.

— Ah! comentava o discípulo de Simão Pedro — o tesouro de que foi mensageiro engrandecerá a Terra para sempre.

E assim prosseguiam, valendo-se de preciosas ima­gens da vida comum para simbolizar os bens eternos, quando singular movimento lhes despertou atenção. Dois homens armados precipitaram-se sobre ambos, à fraca luz de uma tocha acesa em resinas.

— A bolsa! — gritou um dos malfeitores.

Barnabé empalideceu ligeiramente, mas Paulo estava sereno e impassível.

— Entreguem o que têm ou morrem — exclamou o outro bandido, alçando o punhal.

Olhando fixamente o companheiro, o ex-rabino or­denou:

— Dá-lhes o dinheiro que resta, Deus suprirá nos­sas necessidades de outro modo.

Barnabé esvaziou a bolsa que trazia entre as dobras da túnica, enquanto os malfeitores recolhiam, ávidos, a pequena quantia.

Reparando nos pergaminhos do Evangelho que os missionários consultavam à luz da tocha improvisada, um dos ladrões interrogou desconfiado e irônico:

— Que documentos são esses? Faláveis de um prín­cipe opulento... Ouvimos referências a um tesouro... Que significa tudo isso?

Com admirável presença de espírito, Paulo explicou:

— Sim, de fato estes pergaminhos são o roteiro do imenso tesouro que nos trouxe o Cristo Jesus, que há de reinar sobre os príncipes da Terra.

Um dos bandidos, grandemente interessado, exami­nou o rolo das anotações de Levi.

— Quem encontrar esse tesouro — prosseguia Paulo, resoluto —, nunca mais sentirá necessidades.

Os ladrões guardaram o Evangelho cuidadosamente.

— Agradecei a Deus não vos tirarmos a vida — disse um deles.

E apagando a tocha bruxuleante, desapareceram na escuridão da noite. Quando se viram a sós, Barnabé não conseguiu dissimular o assombro.

— E agora? — perguntou com voz trêmula.

— A missão continua bem — glosou Paulo cheio de bom ânimo —, não contávamos com a excelente opor­tunidade de transmitir a Boa Nova aos ladrões.

O discípulo de Pedro, admirando-se de tamanha se­renidade, voltou a dizer:

— Mas, levaram-nos, também, os derradeiros pães de cevada, bem como as capas...

— Haverá sempre alguma fruta na estrada — es­clarecia Paulo, decidido — e, quanto às coberturas, não tenhamos maior cuidado, pois não nos faltará o musgo das árvores.

E, desejoso de tranqüilizar o companheiro, acres­centava:

— De fato, não temos mais dinheiro, mas julgo não será difícil conseguir trabalho com os tapeceiros de Antioquia de Pisídia. Além disso, a região está muito distante dos grandes centros e posso levar certas novi­dades aos colegas do ofício. Esta circunstância será van­tajosa para nós.

Depois de tecerem esperanças novas, dormiram ao relento, sonhando com as alegrias do Reino de Deus.

No dia seguinte, Barnabé continuava preocupado. Interpelado pelo companheiro, confessou compungido:

— Estou resignado com a carência absoluta de re­cursos materiais, mas não posso esquecer que nos sub­trairam também as anotações evangélicas que possuía­mos. Como recomeçar nossa tarefa? Se temos de cor grande parte dos ensinamentos, não poderemos conferir todas as expressões...

Paulo, todavia, fez um gesto significativo e, desa­botoando a túnica, retirou alguma coisa que guardava junto do coração.

— Enganas-te, Barnabé — disse com um sorriso otimista —, tenho aqui o Evangelho que me recorda a bondade de Gamaliel. Foi um presente de Simão Pedro ao meu velho mentor, que, por sua vez, mo deu pouco antes de morrer.

O missionário de Chipre apertou nas mãos o tesouro do Cristo. O júbilo voltou a iluminar-lhe o coração. Poderiam dispensar todo o conforto do mundo, mas a palavra de Jesus era imprescindível. Vencendo obstá­culos de toda sorte, chegaram a Antioquia fundamente abatidos. Paulo, principalmente, a determinados momen­tos da noite, sentia-se cansado e febril. Barnabé tinha freqüentes acessos de tosse. O primeiro contacto com a natureza hostil acarretara aos dois mensageiros do Evangelho fortes desequilíbrios orgânicos.

Não obstante a precária saúde, o tecelão de Tarso procurou informar-se, logo na manhã da chegada, sobre as tendas de artefatos de couro existentes na cidade.

Antioquia de Pisídia contava grande número de is­raelitas. Seu movimento comercial era mais que regular, As vias públicas ostentavam lojas bem sortidas e peque­nas indústrias variadas.

Confiando na Providência Divina, alugaram um quar­to muito simples, e, enquanto Barnabé repousava da fa­diga extrema, Paulo procurou uma das tendas indicadas por um negociante de frutas.

Um judeu de bom aspecto, cercado de três auxilia­res, entre numerosas prateleiras com sandálias, tapetes e outras utilidades numerosas, atinentes à sua profissão, dirigia extensa banca de serviço. Ciente do seu nome, dado o interesse de sua indagação junto ao comerciante referido, o ex-doutor de Jerusalém chamou pelo senhor Ibraim, sendo atendido com enorme curiosidade.

— Amigo — explicou Paulo, sem rodeios —, sou vosso colega de ofício e, premido por necessidades urgen­tes, venho solicitar-vos o imenso obséquio de admitir-me nas atividades da vossa tenda. Tenho de fazer longa viagem e, não possuindo recurso algum, apelo para vossa generosidade, esperando favorável acolhimento.

O tapeceiro contemplava-o com simpatia, mas, um tanto desconfiado. Espantava-se e agradava-se, simul­taneamente, da sua franqueza e desembaraço. Depois de refletir algum tempo, respondeu algo vagamente:

— Nosso trabalho é muito escasso e, para usar de sinceridade, não disponho de capital para remunerar a muitos empregados. Nem todos compram sandálias; os arreamentos de tropa ficam à espera das caravanas que somente passam de tempos a tempos; poucos tapetes ven­demos, e se não fossem os tecidos de couro para tendas improvisadas, suponho que não teríamos o necessário para manter o negócio. Como vedes, não seria fácil arranjar-vos trabalho.

— Entretanto — tornou o ex-rabino, comovido com a sinceridade do interlocutor —, ouso insistir no pedido. Será tão-só por alguns dias... Além do mais, ficaria satisfeito em trabalhar a troco de pão e teto, para mim e um companheiro enfermo.

O bondoso Ibraim sensibilizou-se com aquela con­fissão. Depois de uma pausa longa, em que o tapeceiro de Antioquia ainda hesitava entre o “sim” e o “não”, Paulo rematou:

— Tão grande é a minha necessidade que insisto convosco, em nome de Deus.

— Entrai — disse o negociante, vencido pela argu­mentação.

Embora doente, o emissário do Cristo atirou-se ao trabalho com afã. Um velho tear foi instalado apressa­damente, junto à banca cheia de facas, martelos e peças de couro.

Paulo entrou a trabalhar, tendo um olhar amigo e uma boa palavra para cada companheiro. Longe de se impor pelos conhecimentos superiores que possuía, obser­vava o sistema de trabalho dos auxiliares de Ibraim e sugeria novas providências favoráveis ao serviço, com bondade, sem afetação.

Comovido pelas suas declarações sinceras, o dono da casa mandou a refeição a Barnabé, enquanto o ex-rabino vencia galhardamente as primeiras dificuldades, experimentando o júbilo de um grande triunfo.

Naquela noite, junto do companheiro de lutas, ele­vou a Jesus a prece do mais entranhado agradecimento. Ambos comentaram a nova situação. Tudo ia bem, mas era necessário pensar no dinheiro indispensável, com que atender ao aluguel do quarto.

Edificado na exemplificação do amigo, agora era Barnabé que procurava confortá-lo:

— Não importa, Jesus levará em conta a nossa boa-vontade, não nos deixará ao desamparo.

No dia seguinte, quando Paulo regressou da oficina, teve de esperar o companheiro, com alguma ansiedade. O mensageiro de Ibraím, que levara a refeição de Bar­nabé, não o havia encontrado. Após alguma inquietação, o ex-rabino abriu-lhe a porta com inexcedível surpresa. O discípulo de Pedro parecia extremamente abatido, mas profunda alegria lhe transbordava do olhar. Explicou que também ele conseguira trabalho remunerador. Em­pregara-se com um oleiro necessitado de operários para aproveitar o bom tempo. Abraçaram-se comovidos. Se houvessem alcançado o domínio do mundo, com a for­tuna fácil, não experimentariam tanto júbilo. Pequena fração de serviço honesto lhes bastava ao coração ilu­minado por Jesus-Cristo.

No primeiro sábado de permanência em Antioquia, os arautos do Evangelho dirigiram-se à sinagoga local. Ibraim, satisfeitíssimo com a cooperação do novo em­pregado, dera-lhe duas túnicas usadas, que Paulo e Bar­nabé envergaram com alegria.

Toda a população “temente a Deus” comprimia-se no recinto. Sentaram-se os dois no local reservado aos visi­tantes ou desconhecidos. Terminado o estudo e comentá­rios da Lei e dos Profetas, o diretor dos serviços religiosos perguntou-lhes, em voz alta, se desejariam dizer algumas palavras aos presentes.

De pronto, Paulo levantou-se e aceitou o convite. Dirigiu-se à modesta tribuna em atitude nobre e começou a discorrer sobre a Lei, tomado de eloqüência sublime. O auditório, não afeito a raciocínios tão altos, seguia-lhe a palavra fluente como se houvera encontrado um profeta autêntico, a espalhar maravilhas. Os israelitas não cabiam em si de contentes. Quem era aquele homem de quem se poderia orgulhar o próprio Templo de Jeru­salém? Em dado momento, contudo, as palavras do orador passaram a ser quase incompreensíveis para todos.

Seu verbo sublime anunciava um Messias que já viera ao mundo. Alguns judeus aguçaram os ouvidos. Tratava-se do Cristo Jesus, por intermédio de quem as criaturas deveriam esperar a graça e a verdade da salvação. O ex-doutor observou que numerosas fisionomias mostra­vam-se contrariadas, mas a maioria escutava-o com inde­finível vibração de simpatia. A relação dos feitos de Jesus, sua exemplificação divina, a morte na cruz, arran­cavam lágrimas do auditório. O próprio chefe da sinagoga estava profundamente surpreendido...

Terminada a longa oração, o novo missionário foi abraçado por grande número de assistentes. Ibraim, que acabava de conhecê-lo sob novo aspecto, cumprimentou-o radiante.

Eustáquio, o oleiro que dera trabalho a Bar­nabé, aproximou-se para as saudações, altamente sensi­bilizado. Os descontentes, no entanto, não faltaram. O êxito de Paulo contrariou o espírito fariseu da assembléia.

No dia imediato, Antioquia de Pisídia estava em­polgada pelo assunto. A tenda de Ibraim e a olaria de Eustáquio foram locais de grandes discussões e enten­dimentos. Paulo falou, então, das curas que se poderiam fazer em nome do Mestre. Uma velha tia do seu patrão foi curada de enfermidade pertinaz, com a simples impo­sição das mãos e as preces ao Cristo. Dois filhinhos do oleiro restabeleceram-se com a intervenção de Barnabé. Os dois emissários do Evangelho ganharam logo muito conceito. A gente simples vinha solicitar-lhes orações, cópias dos ensinos de Jesus, enquanto muitos enfermos se restabeleciam. Se o bem estava crescendo, a animosi­dade contra eles também crescia, da parte dos mais altamente colocados na cidade. Iniciou-se o movimento contrário ao Cristo. Não obstante a continuidade das pregações de Paulo, aumentava, entre os israelitas pode­rosos, a perseguição, o apodo e a ironia. Os mensageiros da Boa Nova, entretanto, não desanimaram. Conforta­dos pelos mais sinceros, fundaram a igreja na casa de Ibraim. Quando tudo ia bem, eis que o ex-rabino, ainda em conseqüência das vicissitudes experimentadas na tra­vessia dos pântanos da Panfília, cai gravemente enfermo, preocupando a todos os irmãos. Durante um mês, esteve sob a influência maligna de uma febre devoradora. Barnabé e os novos amigos foram inexcedíveis em cuidados.

Explorando o incidente, os inimigos do Evangelho puseram-se em campo, ironizando a situação. Havia mais de três meses que os dois anunciavam o novo Reino, reformavam as noções religiosas do povo, curavam as moléstias mais pertinazes e, por que motivo o poderoso pregador não se curava a si mesmo? Fervilhavam, assim, os ditos mordazes e os conceitos deprimentes.

Os confrades, entretanto, foram de uma dedicação sem limites. Paulo foi tratado com extremos de ternura, no lar de Ibraim, como se houvesse encontrado um novo lar.

Após a convalescença, o desassombrado tecelão vol­tou mais alvissareiro à pregação das verdades novas.

Observando-lhe a coragem, os elementos judaicos, ralados de despeito, tramaram sua expulsão sem qual­quer condescendência. Por vários meses o ex-doutor de Jerusalém lutou contra os golpes do farisaísmo domi­nante na cidade, mantendo-se superior a calúnias e insul­tos. Mas, quando revelava seu poder de resolução e fir­meza de ânimo, eis que os israelitas descontentes ameaçam Ibraim e Eustáquio com a supressão de regalias e bani­mento. Os dois antigos habitantes de Antioquia de Pisídia eram acusados como partidários da revolução e da desor­dem. Altamente comovidos, receberam a notificação de que somente a retirada de Paulo e Barnabé poderia sal­vá-los do cárcere e da flagelação.

Os missionários de Jesus consideram a penosa situa­ção dos amigos e resolvem partir. Ibraim tem os olhos rasos de lágrimas. Eustáquio não consegue esconder o abatimento. Ante as interrogações de Barnabé, o ex-ra­bino expõe o plano das atividades futuras. Demandariam Icônio. Pregariam ali as verdades de Deus. O discípulo de Simão Pedro aprova sem hesitar. Reunindo os irmãos em noite memorável para quantos lhe viveram as pro­fundas emoções, os mensageiros da Boa Nova se despe­dem. Por mais de oito meses haviam ensinado o Evangelho. Afrontaram zombarias e apodos, haviam conhecido provações bem amargas.

Seus labores estavam sendo premiados pelo mundo com o banimento, como se eles fossem criminosos comuns, mas a igreja do Cristo estava fundada. Paulo falou nisso, quase com orgulho, não obstante as lágrimas que lhe rolavam dos olhos. Os novos discípulos do Mestre não deveriam estranhar as incompreensões do mundo, mesmo porque, o próprio Salvador não escapara à cruz da ignomínia, acrescentando que a palavra “cristão” significava seguidor do Cristo. Para descobrir e conhecer as sublimidades do Reino de Deus era preciso trabalhar e sofrer sem descanso.

A assembléia afetuosa, por sua vez, acolheu as exor­tações, lavada em lágrimas.

Na manhã imediata, munidos de uma carta de reco­mendação de Eustáquio e carregando vasta provisão de pequeninas lembranças dos companheiros de fé, puseram-se a caminho, intrépidos e felizes.

O percurso excedente a cem quilômetros foi difícil e doloroso, mas os pioneiros não se detiveram na con­sideração de qualquer obstáculo.

Chegados à cidade, apresentaram-se ao amigo de Eustáquio, de nome Onesíforo.

Recebidos com generosa hospitalidade, no sábado imediato, antes mesmo de fi­xar-se no trabalho profissional, Paulo foi expor os objeti­vos de sua passagem pela região. A estréia na sinagoga provocou animadas discussões, O elemento político da cidade constituía-se de judeus ricos e instruídos na Lei de Moisés; contudo, os gentios representavam, em grande número, a classe média. Estes últimos receberam a pala­vra de Paulo com profundo interesse, mas os primeiros desfecharam grande reação logo de início. Houve tumul­tos. Os orgulhosos filhos de Israel não podiam tolerar um Salvador que se entregara, sem resistência, à cruz dos ladrões. A palavra do Apóstolo, entretanto, alcançara tão grande favor público que os gentios de Icônio ofere­ceram-lhe um vasto salão para que lhes fosse ministrado o ensinamento evangélico, todas as tardes. Queriam no­tícias do novo Messias, interessavam-se pelos seus meno­res feitos e por suas máximas mais simples. O ex-rabino aceitou o encargo, cheio de gratidão e simpatia. Diaria­mente, terminada a tarefa comum, compacta multidão de iconienses aglomerava-se ansiosa por lhe ouvir o verbo vibrante. Dominando a administração, os judeus não tardaram em reagir, mas foi inútil a tentativa de inti­midar o pregador com as mais fortes ameaças. Ele con­tinuou pregando intrépida, desassombradamente. Onesí­foro, a seu turno, dava-lhe mão forte e, dentro em pouco, fundava-se a igreja em sua própria casa.

Os israelitas mantinham viva a idéia da expulsão dos missionários, quando um incidente ocorreu em auxílio deles.

É que uma jovem noiva, ouvindo ocasionalmente as pregações do Apóstolo dos gentios, diariamente penetrava no salão em busca de novos ensinamentos. Enlevada com as promessas do Cristo e sentindo extrema paixão pela figura empolgante do orador, fanatizara-se lamentavel­mente, esquecendo os deveres que a prendiam ao noivo e à ternura maternal.

Tecla, que assim se chamava, não mais atendia aos laços sacrossantos que deveria honrar no ambiente doméstico. Abandonou o trabalho diuturno para esperar o crepúsculo, com ansiedade. Teóclia, sua mãe, e Tamíris, o noivo, acompanham o caso com desa­gradável surpresa. Atribuíam a Paulo semelhante dese­quilíbrio. O ex-doutor, por sua vez, estranhava a atitude da jovem, que, diariamente, insinuava-se com perguntas, olhares e momices singulares.

Certa vez, quando se dispunha a voltar para casa de Onesíforo, em companhia de Barnabé, a moça lhe pediu uma palavra em particular.

Ante suas perguntas atenciosas, Tecla corava, ga­guejando:

— Eu... eu...

— Dize, filha — murmurou o Apóstolo um tanto preocupado —, deves considerar-te em presença de um pai.

— Senhor — conseguiu dizer ofegante —, não sei por quê, tenho recebido grande impressão com a vossa palavra.

— O que tenho ensinado — esclareceu Paulo — não é meu; vem de Jesus, que nos deseja todo o bem.

— De qualquer modo, porém — disse ela com mais timidez —, amo-vos muito!...

— Paulo assustou-se. Não contava com essa decla­ração. A expressão “amo-vos muito” não era articulada em tom de fraternidade pura, mas com laivos de par­ticularismo que o Apóstolo percebeu sobremaneira im­pressionado. Depois de meditar muito na situação impre­vista, respondeu convicto:

— Filha, os que se amam em espírito, unem-se em Cristo para a eternidade das emoções mais santas; mas, quem sabe está amando a carne que vai morrer?

— Tenho necessidade da vossa afeição — exclamou a jovem, de olhar lacrimoso.

— Sim — esclareceu o ex-rabino —, mas os dois temos necessidade da afeição do Cristo. Somente ampa­rados nele poderemos experimentar algum ânimo em nossas fraquezas.

— Não poderei esquecer-vos — soluçou a moça, des­pertando-lhe compaixão.

Paulo ficou pensativo. Recordou a mocidade. Lem­brou os sonhos que tecera ao lado de Abigail. Num minuto, seu espírito devassou um mundo de suaves e angustiosas reminiscências; e como se voltasse de um misterioso país de sombras, exclamou como se falasse consigo mesmo:

— Sim, o amor é santo, mas a paixão é venenosa. Moisés recomendou que amássemos a Deus acima de tudo; e o Mestre acrescentou que nos amássemos uns aos outros, em todas as circunstâncias da vida...

E fixando os olhos, agora muito brilhantes, na jovem que chorava, exclamou quase acrimonioso:

— Não te apaixones por um homem feito de lodo e de pecado, e que se destina a morrer!...

Tecla ainda não voltara a si da própria surpresa, quando o noivo desolado penetrou no recinto deserto. Tamíris faz as primeiras objeções em grandes brados, ao passo que o mensageiro da Boa Nova lhe ouve as reprimendas com grande serenidade. A noiva replica mal-humorada. Reafirma sua simpatia por Paulo, expõe francamente as intenções mais íntimas, O rapaz escan­daliza-se, O Apóstolo espera pacientemente que o noivo o interrogue. E, quando convocado a justificar-se, explica em tom fraternal:

— Amigo, não te acabrunhes nem te exaltes, em face dos sucessos que se originam de profundas incom­preensões. Tua noiva está simplesmente enferma. Esta­mos anunciando o Cristo, mas o Salvador tem os seus inimigos ocultos em toda parte, como a luz tem por inimiga a treva permanente. Mas a luz vence a treva de qualquer natureza. Iniciamos o labor missionário nesta cidade, sem grandes obstáculos. Os judeus nos ridicularizam e, todavia, nada encontraram em nossos atos que justifique a perseguição declarada. Os gentios nos abraçam com amor. Nosso esforço desenvolve-se pacificamente e nada nos induz ao desânimo. Os adversários invisíveis, da verdade e do bem, certo se lembraram de influenciar esta pobre criança, para fazê-la instrumento perturbador de nossa tarefa. Ë possível que não me compreendas de pronto; no entanto, a realidade não éoutra.

Tamíris, contudo, deixando entrever que padecia da mesma influência perniciosa, bradou enraivecido:

— Sois um feiticeiro imundo! Esta é que é a ver­dade. Mistificador do povo simplório e rude, não passais de reles sedutor de moças impressionáveis. Insultais uma viúva e um homem honesto, qual sou, insinuando-vos no espírito frágil de uma órfã de pai.

Espumava de cólera. Paulo ouviu-lhe as diatribes, com grande presença de espírito.

Quando o moço cansou de esbravejar, o Apóstolo tomou o manto, fez um gesto de despedida e acentuou:

— Quando somos sinceros, estamos em repouso invulnerável; mas cada um aceita a verdade como pode. Pensa, pois, e entende como puderes.

E abandonou o recinto para ir ter com Barnabé.

Os parentes de Tecla, porém, não descansaram em face do que consideravam um ultraje.

Na mesma noite, valendo-se do pretexto, as autoridades judaicas de Icômo ordenaram a prisão do emissário da Boa Nova. A fileira dos descontentes afluiu à porta de Onesíforo, vociferando impropérios. Apesar da interferência dos amigos, Paulo foi arrastado ao cárcere, onde sofreu o suplício dos trinta e nove açoites. Acusado como sedutor e inimigo das tradições da família, ao demais blasfemo e revolu­cionário, foi indispensável muita dedicação dos confrades recém-convertidos para restituir-lhe a liberdade.

Depois de cinco dias de prisão com severos castigos, Barnabé o recebeu exultante de alegria.

O caso de Tecla revestira proporções de grande escândalo, mas o Apóstolo, na primeira noite de liberdade,­ reuniu a igreja doméstica, fundada com Onesíforo, e esclareceu a situação, para conhecimento de todos.

Barnabé considerou impossível ali ficarem por mais tempo. Novo atrito com as autoridades poderia prejudi­car-lhes a tarefa. Paulo, entretanto, mostrava-se bas­tante resoluto.

Se preciso, voltaria a pregar o Evan­gelho na via pública, revelando a verdade aos gentios, já que os filhos de Israel se compraziam nos desvios clamorosos.

Chamado a opinar, Onesíforo ponderou a situação da pobre moça, transformada em objeto da ironia po­pular. Tecla era noiva e órfã de pai. Tamíris havia criado a lenda de que Paulo não passava de poderoso feiticeiro. Se, na qualidade de noiva, ela fosse encontrada novamente junto do Apóstolo, mandava a tradição que fosse condenada à fogueira.

Ciente das superstições regionais, o ex-rabino não hesitou um minuto. Deixaria Icônio, no dia imediato. Não que capitulasse diante do inimigo invisível, mas porque a igreja estava fundada e não era justo cooperar no martírio moral de uma criança.

A decisão do Apóstolo mereceu aprovação geral. Assentaram-se as bases para a continuação do apren­dizado evangélico. Onesiforo e os demais irmãos assumi­ram o compromisso de velar pelas sementes recebidas como dádiva celestial.

No curso das conversações, Barnabé estava pensativo. Para onde iriam? Não seria justo pensar na volta? As dificuldades avultavam dia a dia e a saúde de ambos, desde a internação nas margens do Cestro, era muito inconstante, O discípulo de Pedro, contudo, conhecendo o ânimo e o espírito de resolução do companheiro, espe­rou pacientemente que o assunto aflorasse espontânea e naturalmente.

Em socorro dos seus cuidados, um dos amigos pre­sentes interrogou Paulo com vivacidade.

— Quando pretendem partir?

— Amanhã — respondeu o Apóstolo.

— Mas, não será melhor repousar alguns dias? Tendes as mãos inchadas e o rosto ferido pelos açoites.

O ex-doutor sorriu e falou prazenteiro:

O serviço é de Jesus e não nosso. Se cuidarmos muito de nós mesmos, nesse capítulo de sofrimentos, não daremos conta do recado; e se paralisarmos a mar­cha nos lances difíceis, ficaremos com os tropeços e não com o Cristo.

Seus argumentos pitorescos e concludentes espalha­vam uma atmosfera de bom-humor.

— Voltareis a Antioquia? — perguntou Onesíforo com atenção.

Barnabé aguçou os ouvidos para conhecer detalha­damente a resposta, enquanto o companheiro retrucava:

— Certo que não: Antioquia já recebeu a Boa Nova da redenção. E a Licaônia?

Olhando agora para o ex-levita de Chipre, como a solicitar a sua aprovação, acentuava:

— Marcharemos para a frente. Não estás de acor­do, Barnabé? Os povos da região precisam do Evangelho. Se estamos tão satisfeitos com as notícias do Cristo, por que negá-las aos que necessitam do batismo da ver­dade e da nova fé?...

O companheiro fez um sinal afirmativo e concordou, resignado:

— Sem dúvida. Iremos para a frente; Jesus nos auxiliará.

E os presentes passaram a comentar a posição de Listra, bem como os costumes interessantes da sua gente simples. Onesíforo tinha lá uma irmã viúva, por nome Lóide. Daria uma carta de recomendação aos missionários. Seriam hóspedes de sua irmã, durante o tempo que precisassem.

Os dois pregoeiros do Evangelho rejubilaram-se. Principalmente Barnabé não cabia em si de contenta­mento, afastando a idéia triste de ficarem completamente isolados.

No dia seguinte, sob comovidos adeuses, os missio­nários tomavam a estrada que os conduziria ao novo campo de lutas.

Após viagem penosíssima, chegaram à pequena cida­de, num crepúsculo pardacento. Estavam exaustos.

A irmã de Onesíforo, no entanto, foi pródiga em gentilezas. Velha viúva de um grego abastado, Lóide morava em companhia de sua filha Eunice, igualmente viúva, e de seu neto Timóteo, cuja inteligência e genero­sos sentimentos de menino constituíam o maior encanto das duas senhoras. Os mensageiros da Boa Nova foram recebidos nesse lar com inequívocas provas de sim­patia. O inexcedível carinho dessa família foi um bál­samo confortador para ambos. Conforme seu hábito, Paulo referiu-se na primeira oportunidade ao desejo imenso de trabalhar, durante o tempo de sua permanên­cia em Listra, de modo a não se tornar passível de male­dicência ou crítica, mas a dona da casa opôs-se termi­nantemente. Seriam seus hóspedes.

Bastava a recomen­dação de Onesíforo para que ficassem tranqüilos. Além disso, explicava: Listra era uma cidade muito pobre, possuia apenas duas tendas humildes, onde nunca se faziam tapetes.

Paulo estava muito sensibilizado com o acolhimento carinhoso. Na mesma noite da chegada, observou a ternura com que Timóteo, tendo pouco mais de treze anos, tomava os pergaminhos da Lei de Moisés e os Escritos Sagrados dos Profetas. Deixou o Apóstolo que as duas senhoras comentassem as revelações em com­panhia do mesmo, até que fosse chamado a intervir. Quando tal se deu, aproveitou o ensejo para fazer a primeira apresentação do Cristo ao coração enlevado dos ouvintes. Tão logo começou a falar, observou a pro­funda impressão das duas mulheres, cujos olhos brilha­vam enternecidos; mas o pequeno Timóteo ouvia-o com tais demonstrações de interesse que, muitas vezes, lhe acariciou a fronte pensativa.

Os parentes de Onesíforo receberam a Boa Nova com júbilos infinitos. No dia imediato não se falou de outra coisa. O rapaz fazia interrogações de toda es­pécie. O Apóstolo, porém, atendia-o com alegria e inte­resse fraternais.

Durante três dias os missionários entregaram-se a caridoso descanso das energias físicas.

Paulo aproveitou a ocasião para conversar largamente com Timóteo, junto do grande curral onde as cabras se recolhiam.

Somente no sábado, procuraram tomar contacto mais íntimo com a população. Listra estava cheia das mais estranhas lendas e crendices. As famílias judaicas eram muito raras e o povo simplório aceitava como verdades todos os símbolos mitológicos. A cidade não possuia sina­goga, mas um pequeno templo consagrado a Júpiter, que os camponeses aceitavam como o pai absoluto dos deuses do Olimpo. Havia um culto organizado. As reuniões efe­tuavam-se periodicamente, os sacrifícios eram numerosos.

Numa praça nua movimentava-se. O mercado parco, pela manhã.

Paulo compreendeu que não encontraria melhor local para o primeiro contacto direto com o povo.

De cima de uma tribuna improvisada de pedras su­perpostaS, começou a pregação em voz forte e comove­dora. Os populares aglomeraram-se de súbito. Alguns surgiam das casas pacíficas, para verificar o motivo do compacto ajuntamento. Ninguém se lembrou das aquisições de carne, de frutas, de verduras. Todos queriam ouvir o desconhecido forasteiro.

O Apóstolo falou, primeiramente, das profecias que haviam anunciado a vinda do Nazareno e, em seguida. passou a relatar os feitos de Jesus entre os homens. Pintou a paisagem da Galiléia com as cores mais brilhan­tes do seu génio descritivo, falou da humildade e da abne­gação do Messias. Quando se referia às curas prodigiosas que o Cristo realizara, notou que um pequeno grupo de assistentes lhe dirigiam chufas. Inflamado de fervor na sua parenética, Paulo recordou o dia em que vira Estevão curar uma jovem muda, em nome do Senhor.

Crente de que o Mestre não o desampararia, passeou o olhar pela turba numerosa. A distância de alguns metros enxergou um mendigo miserável, que se arras­tava penosamente. Impressionado com o discurso evan­gélico, o aleijado de Listra aproximou-se. bracejando no solo e, sentando-se com dificuldade, fixou os olhos no pre­gador que o observava sumamente comovido.

Renovando os valores da sua fé, Paulo contemplou-o com energia e falou com autoridade:

— Amigo, em nome de Jesus, levanta-te!

O mísero, olhos fixos no Apóstolo, levantou-se com fácilidade, enquanto a multidão dava gritos, surpreen­dida. Alguns recuaram aterrados. Outros procuraram o vulto de Paulo e o de Barnabé, contemplando-os, deslumbrados e satisfeitos. O aleijado começou a saltar de alegria. Conhecido na cidade, de longa data, a cura prodigiosa não deixava a menor dúvida.

Muitas pessoas se ajoelharam. Outras correram aos quatro cantos de Listra para anunciar que o povo havia recebido a visita dos deuses. A praça encheu-se em poucos minutos. Todos queriam ver o mendigo reinte­grado nos seus movimentos livres. Espalhou-se o su­cesso, rapidamente. Barnabé e Paulo eram Júpiter e Mercúrio descidos do Olimpo. Os Apóstolos, jubilosos com a dádiva de Jesus, mas, profundamente surpreendidos com a atitude dos licaônios, perceberam logo o mal-entendido. Em meio do respeito geral, Paulo subiu de novo à tribuna improvisada, explicando que ele e o com­panheiro eram simples criaturas mortais, realçando a misericórdia do Cristo, que se dignara ratificar a pro­messa do Evangelho, naquele minuto inesquecível. Debal­de, porém, multiplicava os seus esclarecimentos. Todos lhe ouviam a palavra genuflexos, em atitude estática. Foi aí que um velho sacerdote, paramentado segundo os hábitos da época, surgiu inesperadamente conduzindo dois bois engrinaldados de flores, com ademanes e mesu­ras solenes. Em voz alta, o ministro de Júpiter convida o povo ao cerimonial do sacrifício aos deuses vivos.

Paulo percebe o movimento popular e, descendo ao centro da praça, grita com toda força dos pulmões, abrindo a túnica na altura do peito:

— Não cometais sacrilégios!... não somos deu­ses... Vede!... somos simples criaturas de carne!.

Seguido de perto por Barnabé, arrebata das mãos do velho sacerdote a delicada trança de couro que prendia os animais, soltando os dois touros pacíficos, que se puseram a devorar as verdes coroas.

O ministro de Júpiter quis protestar, calando-se em seguida, muito desapontado. E entre os mais extrava­gantes comentários, os missionários bateram em retira­da, ansiosos por um local de oração, onde pudessem elevar a Jesus seus votos de alegria e reconhecimento.

— Grande triunfo! — disse Barnabé quase orgu­lhoso. — As dádivas do Cristo foram numerosas, o Senhor lembra-se de nós!...

Paulo ficou pensativo e redargüiu:

— Quando recebemos muitos favores, precisamos pensar nos muitos testemunhos. Penso que experimen­taremos grandes provações. Aliás, não devemos esque­cer que a vitória da entrada do Mestre em Jerusalém precedeu os suplícios da cruz.

O companheiro, considerando o elevado sentido da­quelas afirmações, entrou a meditar em profundo silêncio.

Lóide e a filha estavam radiantes. A cura do alei­jado conferia aos mensageiros da Boa Nova singular situação de evidência. Paulo valeu-se da oportunidade para fundar o primeiro núcleo do Cristianismo na pe­quena cidade. As providências iniciais foram tomadas na residência da generosa viúva, que pôs à disposição dos missionários todos os recursos ao seu alcance.

Tal como em Nea-Pafos, estabeleceram num case­bre muito humilde a sede das atividades de informações e de auxílio. Em lugar de João Marcos, era o pequeno Timóteo quem auxiliava em todos os misteres. Numero­sas pessoas copiavam o Evangelho, durante o dia, en­quanto os enfermos acorriam de toda parte, carecidos de imediata assistência.

Não obstante tal êxito, crescia igualmente a animo­sidade de uns tantos, contra a nova doutrina.

Os poucos judeus de Listra deliberaram consultar as autoridades de Icônio, relativamente aos dois desco­nhecidos. E foi isso o bastante para que se turvassem os horizontes. Os comissionários regressaram com um acervo de notícias ingratas. O caso de Tecla era pintado a cores negras. Paulo e Barnabé eram acusados de blasfemos, feiticeiros, ladrões e sedutores de mulheres honestas. Paulo, principalmente, era apresentado como revolucionário temível, O assunto, em Listra, foi dis­cutido “intra muros”, Os administradores da cidade convidaram o sacerdote de Júpiter a entrar na campa­nha contra os embusteiros e, com a mesma facilidade com que haviam acreditado na sua condição de deuses, passaram todos a atribuir aos pregadores as maiores perversões. Combinaram-se providências criminosas. Des­de a chegada dos dois desconhecidos, que falavam em nome de um novo profeta, Listra vivia sobressaltada por idéias diferentes. Era preciso coibir os abusos. A palavra de Paulo era audaciosa e requeria corretivo eficaz. Finalmente, deliberaram que o fogoso pregador fosse apedrejado na primeira ocasião que falasse em público.

Ignorando o que se tramava, o Apóstolo dos gentios, deixando Barnabé acamado por excesso de trabalho, fez-se acompanhar do pequeno Timóteo, no sábado ime­diato, ao entardecer, foi até à praça pública onde, mais uma vez, anunciou as verdades e promessas do Evangelho do Reino.

O logradouro apresentava movimento invulgar. O pregador notou a presença de muitas fisionomias sus­peitas e absolutamente desconhecidas. Todos lhe acom­panhavam os mínimos gestos com evidente curiosidade.

Com a máxima serenidade, subiu à tribuna e come­çou a falar das glórias eternas que o Senhor Jesus havia trazido à Humanidade sofredora. No entanto, mal havia iniciado o sermão evangélico, quando, aos gritos furiosos dos mais exaltados, começaram a chover pedras em barda.

Paulo recordou subitamente a figura inesquecível de Estevão. Certo, o Mestre lhe reservara o mesmo gênero de morte, para que se redimisse do mal infligido ao mártir da igreja de Jerusalém. Os pequenos e duros granizos caíam-lhe nos pés, no peito, na fronte.

Sentiu o sangue a escorrer-lhe da cabeça ferida e ajoelhou-se, sem uma queixa, rogando a Jesus que o fortalecesse no angustioso transe.

Nos primeiros momentos, Timóteo, aterrado, pôs-se a gritar, suplicando socorro; mas um homem de braços atléticos aproxima-se cauto e murmura-lhe no ouvido:

— Cala-te se queres ser útil!...

— És tu, Gaio? — exclamou o pequeno de olhos lacrimosos, experimentando certo conforto em reconhecer um rosto amigo no pandemônio em que se via.

— Sim — disse o outro baixinho —, aqui estou para socorrer o Apóstolo. Não posso esquecer que ele curou minha mãe.

E olhando o movimento da turba criminosa, acres­centou:

— Não temos tempo a perder. Não tardará que o levem ao monturo. Se tal se der, procura seguir-nos com um pouco de água. Se o missionário não sucumbir, prestarás os primeiros socorros, até que eu consiga pre­venir tua mãe!...

Separaram-se imediatamente. Ralado de aflição, o rapaz viu o pregador de joelhos, olhos fitos no céu, num transporte inesquecível. Filetes de sangue desciam-lhe da fronte fraturada.

Em dado momento, a cabeça pendeu e o corpo tombou desamparado. A multidão pa­recia tomada de assombro. Prevalecendo-se da situação em que não se observavam diretrizes prévias, Gaio insinuou-se. Aproximou-se do Apóstolo inerme, fez um gesto significativo para o povo e bradou:

— O feiticeiro está morto!...

Sua figura gigantesca despertara as simpatias da turba inconsciente. Estrugiram aplausos.

Os que haviam promovido o nefando atentado desapareceram. Gaio com­preendeu que ninguém ousava assumir a responsabilidade individual. Em estranhas vibrações, bradavam os mais perversos:

— Fora das portas.. fora das portas!... Feiticei­ro ao monturo!... Feiticeiro ao montu...u...ro!...

O amigo de Paulo, disfarçando a comiseração com gestos de ironia, falou à multidão satisfeita:

— Levarei os despojos do bruxo!

A turba fez um alarido ensurdecedor e Gaio pro­curou arrastar o missionário com a cautela possível. Atravessaram vielas extensas, em gritos, até que, atin­gindo um local deserto, um tanto distante dos muros de Listra, deixaram Paulo semimorto, na montureira do lixo.

O latagão inclinou-se, como a verificar a morte do apedrejado, e observando, cuidadosamente, que ainda vivia, gritou:

— Deixemo-lo aos cães, que se incumbirão do resto! Ë preciso celebrar o feito com algum vinho!...

E seguindo o líder daquela tarde, a multidão bateu em retirada, enquanto Timóteo se aproximava do local, valendo-se das sombras da noite que começava a fechar-se. Correndo a um poço, não muito distante, e que se destinava à serventia pública, o pequeno encheu o gorro impermeável, de água pura, prestando os primeiros socor­ros ao ferido. Banhado em lágrimas, notou que Paulo respirava com dificuldade, como se houvesse mergulhado em profundo desmaio, O jovem listrense assentou-se ao seu lado, banhou-lhe a testa ferida com extremos de carinho. Mais alguns minutos e o Apóstolo voltava a si para examinar a situação.

Timóteo o informou de tudo. Muito compungido, Paulo agradeceu a Deus, pois reconhecia que somente a misericórdia do Altíssimo poderia ter operado o milagre, por seqüestrá-lo aos propósitos criminosos da turba inconsciente.

Decorridas duas horas, três vultos silenciosos apro­ximavam-se. Muito aflito, Barnabé deixara o leito, não obstante o estado febril, para acompanhar Lóide e Euni­ce, que, avisadas por Gaio, acorriam com os primeiros socorros.

Todos renderam graças a Jesus, enquanto Paulo tomava pequena dose de vinho reconfortador. Organi­zação espiritual poderosa, apesar das sevícias físicas, o tecelão de Tarso levantou-se e regressou a casa com os amigos, levemente amparado por Barnabé, que lhe oferecera o braço amigo.

O resto da noite passou-se em conversações carinho­sas. Os dois emissários da Boa Nova temiam agressão do povo às generosas senhoras que os haviam hospedado e socorrido. Era preciso partir, para evitar maiores incômodos e complicações.

Em vão a palavra de Lóide se fez ouvir, procurando dissuadir os pregoeiros do Cristo; debalde Timóteo beijou as mãos de Paulo e lhe pediu que não partisse. Receosos de mais tristes conseqüências, depois de coordenarem as instruções necessárias à igreja nascente, transpuse­ram as portas da cidade ao amanhecer, em direção a Derbe, que ficava algo distante.

Depois de penosa caminhada, atingiram o novo setor de trabalho, onde haveriam de estagiar mais de um ano. Embora entregues ao trabalho manual, com que ganha­vam o pão da vida, os dois companheiros precisaram de seis meses para restabelecer a saúde comprometida. Como tecelão e oleiro anônimos, Paulo e Barnabé deixaram-se ficar em Derbe longo tempo, sem despertar a curiosidade pública. Só depois de refeitos dos abalos sofridos, reco­meçaram a Boa Nova do Reino de Jesus. Visitando os arredores, provocaram grande interesse da gente sim­ples, pelo Evangelho da redenção. Pequenas comunidades cristãs foram fundadas em ambiente de muitas alegrias.

Após muito tempo de labor, resolveram regressar ao núcleo original do seu esforço.

Vencendo etapas difíceis, visitaram e encorajaram todos os irmãos escalonados nas diversas regiões da Licaônia, Pisídia e Panfília.

De Perge desceram a Atália, de onde embarcaram com destino a Selêucia e dali ganharam Antioquia.

Ambos haviam experimentado a dificuldade dos ser­viços mais rudes. Muita vez se viram perplexos com os problemas intrincados da empresa: em troca da de­dicação fraternal, haviam recebido remoques, açoites e acusações pérfidas; contudo, através do abatimento físico e dos gilvazes, irradiavam ondas invisíveis de intenso júbilo espiritual. Ë que, entre os espinhos da estrada escabrosa, os dois companheiros desassombrados manti­nham ereta a cruz divina e consoladora, espalhando a mancheias as sementes benditas do Evangelho de Re­denção.

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