Paulo e estevão francisco cândido xavier



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As Epístolas
O neto de Lóide trazia ao ex-rabino muitas novida­des confortadoras. Já havia instalado as duas senhoras na cidade, era portador de alguns recursos e falou-lhe do desenvolvimento da doutrina cristã, na velha capital da Acaia. Uma notícia lhe foi, sobretudo, particularmente grata. É que Timóteo mencionava o encontro com Áquila e Prisca. Aquelas duas criaturas, que se lhe fizeram solidárias nas dificuldades extremas do deserto, tra­balhavam agora em Corinto pela glória do Senhor. Ale­grou-se íntima, profundamente. Além das muitas razões pessoais que o chamavam a Acaia, isto é — às recorda­ções indeléveis de Jeziel e Abigail, o desejo de abraçar o casal amigo foi também uma circunstância decisiva da sua partida imediata.

O valoroso pregador saía de Atenas assaz abatido. O insucesso, em face da cultura grega, compelia-lhe o espírito indagador aos mais torturantes raciocínios. Co­meçava a compreender a razão por que o Mestre preferira a Galiléia com os seus cooperadores humildes e simples de coração; entendia melhor o motivo da palavra franca do Cristo sobre a salvação, e decifrava a sua predileção natural pelos desamparados da sorte.

Timóteo notou-lhe a tristeza singular e debalde pro­curou convencê-lo da conveniência de seguir por mar, em vista das facilidades no Pireu. Ele fez questão de ir a pé, visitando os sítios isolados no percurso.

— Mas, sinto-vos doente — objetava o discípulo, tentando dissuadi-lo. — Não será mais razoável des­cansardes?

Lembrando os desalentos experimentados, o Após­tolo acentuava:

— Enquanto pudermos trabalhar, há que esmarmos no trabalho um elixir para todos os males. Além do mais, é justo aproveitar o tempo e a oportunidade.

— Julgo, entretanto — justificava o jovem amigo —, que poderíeis adiar um pouco...

— Adiar por quê? — redarguiu o ex-rabino fazendo o possível por desfazer as mágoas de Atenas. — Sempre tive a convicção de que Deus tem pressa do serviço bem feito. Se isso constitui uma característica de nossas mes­quinhas atividades nas coisas deste mundo, como adiar ou faltar com os deveres sagrados de nossa alma, para com o Todo-Poderoso?

O rapaz ponderou no acerto daquelas alegações e calou-se. Assim venceram mais de sessenta quilômetros, com alguns dias de marcha e intervalos de prédicas. Nessa tarefa entre gente simples, Paulo de Tarso sen­tia-se mais feliz. Os homens do campo receberam a Boa Nova com maior alegria e compreensão. Pequenas igrejas domésticas foram fundadas, não longe do golfo de Saron.

Enlevado pelas recordações cariciosas de Abigail, atravessou o istmo e penetrou na cidade, movimentada e rumorosa. Abraçou Lóide e Eunice numa casinha do porto de Cencréia e logo procurou avistar-se com os ve­lhos amigos do “oásis de Dan”.

Os três abraçaram-se, tomados de infinito júbilo. Áquila e a companheira falaram longamente dos servi­ços evangélicos, aos quais haviam sido chamados pela misericórdia de Jesus. De olhos brilhantes, como se houvessem vencido grande batalha, contaram ao Apóstolo haverem realizado o ideal de permanecer em Roma, algum tempo. Como tecelões humildes, habitaram um velho casarão em ruínas, no Trastevere, fazendo as pri­meiras pregações do Evangelho no ambiente mesmo das pompas cesarianas. Os judeus haviam declarado guerra franca aos novos princípios. Desde o primeiro rebate da Boa Nova, iniciaram-se grandes tormentas no “ghetto” do bairro pobre e desprotegido. Prisca relatou como um grupo de israelitas apaixonados lhe assaltara o aposen­to, à noite, com instrumentos de flagelação e castigo. O marido demorava-se na oficina, e assim não pôde ela esquivar-se aos impiedosos açoites. Só muito tarde, fora socorrida por Áquila, que a encontrou banhada em san­gue. O Apóstolo tarsense exultava. Contou aos amigos, por sua vez, as dores experimentadas em toda parte, pelo nome de Jesus-Cristo. Aqueles martírios em comum eram apresentados como favores de Jesus, como títulos eternos da sua glória. Quem ama inquieta-se por dar alguma coisa e os que amavam o Mestre sentiam-se extre­mamente venturosos em sofrerem algo por devotamento ao seu nome.

Desejoso de reintegrar-se na serenidade de suas realizações ativas, olvidando a frieza ateniense, Paulo comentou o projeto da fundação de uma igreja em Co­rinto, ao que Áquila e sua mulher se prontificaram para todos os serviços. Aceitando-lhes o oferecimento gene­roso, o ex-rabino passou a residir em sua companhia, ocupando-se diariamente do seu oficio.

Corinto era uma sugestão permanente de lembran­ças queridas do seu coração. Sem comunicar aos amigos as reminiscências que lhe borbulhavam na alma sensível, procurou rever os sítios a que Abigail se referia sempre com enlevo. Com extremo cuidado, localizou a região onde deveria ter existido o pequeno sítio do velho Jo­chedeb, agora incorporado ao imenso acervo de proprie­dades dos herdeiros de Licínio Minúcio; contemplou a velha prisão de onde a noiva pudera evadir-se para salvar-se dos celerados que lhe haviam assassinado o pai e escravizado o irmão; meditou no porto de Cencréia, de onde Abigail partira, um dia, para conquistar-lhe o cora­ção, sob os desígnios superiores e imutáveis do Eterno.

Paulo entregou-se, de corpo e alma, ao serviço rude. O labor ativo das mãos proporcionara-lhe brando esque­cimento de Atenas. Compreendendo a necessidade de um período de calma, induzira Lucas a descansar em Trôade, já que Timóteo e Silas haviam encontrado trabalho como caravaneiros.

Antes, porém, de retomar as pregações, começaram a chegar a Corinto emissários de Tessalônica, de Beréia e outros pontos da Macedônia, onde fundara suas bem-amadas igrejas.

As comunidades tinham assuntos ur­gentes, que requeriam delicadas intervenções da sua parte. Sentindo-se em dificuldades para tudo atender com a presteza devida, chamou novamente Silas e Timó­teo para a cooperação indispensável. Ambos, valendo-se das oportunidades da profissão, poderiam contribuir de maneira eficaz na solução dos problemas imprevistos.

Confortado pelo concurso dos amigos, Paulo falou, pela primeira vez, na sinagoga. Sua palavra vibrante logrou êxito extraordinário. Judeus e gregos falaram de Jesus com entusiasmo. O tecelão foi convidado a pros­seguir nos comentários religiosos, semanalmente.

Mas tão logo começou a abordar as relações existentes entre a Lei e o Evangelho, repontaram os atritos. Os israelitas não toleravam a superioridade de Jesus sobre Moisés, e, se consideravam o Cristo como profeta da raça, não o suportavam como Salvador. Paulo aceitou os desafios, mas não conseguiu demover corações tão endurecidos; as discussões prolongaram-se por vários sábados, segui­damente, até que, um dia, quando o verbo inflamado e sincero do Apóstolo zurzia os erros farisaicos com ve­emência, um dos chefes principais da sinagoga íntima-o com aspereza:

— Cala-te, palrador impudente! A sinagoga tem to­lerado teus embustes por verdadeiros prodígios de paciên­cia; mas, em nome da maioria, ordeno que te retires para sempre! Não queremos saber do teu Salvador, exter­minado como os cães da cruz!.

Ouvindo expressões tão desrespeitosas ao Cristo, o Apóstolo sentiu os olhos úmidos. Refletiu maduramente na situação e replicou:

— Até agora, em Corinto, procurei dizer a verdade ao povo escolhido por Deus para o sagrado depósito da unidade divina; mas, se não a aceitais desde hoje, procurarei­ curarei os gentios!... Caiam sobre vôs mesmos as injus­tas maldições lançadas sobre o nome de Jesus-Cristo!...

Alguns israelitas mais exaltados quiseram agredi-lo, provocando tumulto. Mas um romano de nome Tito Justo, presente à assembléia, e que, desde a primeira pregação, sentira-se fortemente atraído pela poderosa personalidade do Apóstolo, aproximou-se e estendeu-lhe os braços de amigo. Paulo pôde sair incólume do recinto, enca­minhando-se para a residência do benfeitor, que pôs à sua disposição todos os elementos imprescindíveis à organi­zação de uma igreja ativa.

O tecelão estava jubiloso. Era a primeira conquista para uma fundação definitiva.

Tito Justo, com auxílio de todos os simpatizantes do Evangelho, adquiriu uma casa para início dos serviços religiosos. Áquila e Prisca foram os principais colabo­radores, além de Lóide e Eunice, para que se executas­sem os programas traçados por Paulo, de acordo com a querida organização de Antioquia.

A igreja de Corinto começou, então, a produzir os frutos mais ricos de espiritualidade. A cidade era famosa por sua devassidão, mas o Apóstolo costumava dizer que dos pântanos nasciam, muitas vezes, os lírios mais belos; e como onde há muito pecado há muito remorso e sofri­mento, em identidade de circunstâncias, a comunidade cresceu, dia a dia, reunindo os crentes mais diversos, que chegavam ansiosos por abandonar aquela Babilônia incendiada pelos vícios.

Com a presença de Paulo, a igreja de Corinto adqui­ria singular importância e quase diariamente chegavam emissários das- regiões mais afastadas. Eram portadores da Galácia a pedirem providências para as igrejas de Pisídia; companheiros de Icônio, de Listra, de Tessalô­nica, de Chipre, de Jerusalém. Em torno do Apóstolo formou-se um pequeno colégio de seguidores, de com­panheiros permanentes, que com ele cooperavam nos mínimos trabalhos. Paulo, entretanto, preocupava-se in­tensamente. Os assuntos eram urgentes quão variados. Não podia olvidar o trabalho de sua manutenção; assu­mira compromissos pesados com os irmãos de Corinto; devia estar atento à coleta destinada a Jerusalém; não podia desprezar as comunidades anteriormente fundadas. Aos poucos, compreendeu que não bastava enviar emis­sários. Os pedidos choviam de todos os sítios por onde pe­rambulara, levando as alvíssaras da Boa Nova. Os irmãos, carinhosos e confiantes, contavam com a sua sinceridade e dedicação, compelindo-o a lutar intensamente.

Sentindo-se incapaz de atender a todas as necessi­dades ao mesmo tempo, o abnegado discípulo do Evan­gelho, valendo-se, um dia, do silêncio da noite, quando a igreja se encontrava deserta, rogou a Jesus, com lágri­mas nos olhos, não lhe faltasse com os socorros necessá­rios ao cumprimento integral da tarefa.

Terminada a oração, sentiu-se envolvido em branda claridade. Teve a impressão nítida de que recebia a visita do Senhor. Genuflexo, experimentando indizível comoção, ouviu uma advertência serena e carinhosa:

— Não temas — dizia a voz —, prossegue ensinando a verdade e não te cales, porque estou contigo.

O Apóstolo deu curso às lágrimas que lhe fluíam do coração. Aquele cuidado amoroso de Jesus, aquela exortação em resposta ao seu apelo, penetravam-lhe a alma em ondas cariciosas. A alegria do momento dava para compensar todas as dores e padecimentos do cami­nho. Desejoso de aproveitar a sagrada inspiração do momento que fugia, pensou nas dificuldades para aten­der às várias igrejas fraternas. Tanto bastou para que a voz dulcíssima continuasse:

— Não te atormentes com as necessidades do ser­viço. É natural que não possas assistir pessoalmente a todos, ao mesmo tempo. Mas é possível a todos satis­fazeres, simultaneamente, pelos poderes do espírito.

Procurou atinar com o sentido justo da frase, mas teve dificuldade íntima de o conseguir.

Entretanto, a voz prosseguia com brandura:

- Poderás resolver o problema escrevendo a todos os irmãos em meu nome; os de boa-vontade saberão compreender, porque o valor da tarefa não está na pre­sença pessoal do missionário, mas no conteúdo espiritual do seu verbo, da sua exemplificação e da sua vida.

Doravante, Estevão permanecerá mais conchegado a ti, trans­mitindo-te meus pensamentos, e o trabalho de evangeli­zação poderá ampliar-se em benefício dos sofrimentos e das necessidades do mundo.

O dedicado amigo dos gentios viu que a luz se extinguira; o silêncio voltara a reinar entre as paredes singelas da igreja de Corinto; mas, como se houvera sorvido a água divina das claridades eternas, conservava o Espírito mergulhado em júbilo intraduzível. Recome­çaria o labor com mais afinco, mandaria às comunidades mais distantes as notícias do Cristo.

De fato, logo no dia seguinte, chegaram portadores de Tessalônica com notícias desagradabilíssimas. Os ju­deus haviam conseguido despertar, na igreja, novas e estranhas dúvidas e contendas. Timóteo corroborava com observações pessoais. Reclamavam a presença do Após­tolo com urgência, mas este deliberou pôr em prática o alvitre do Mestre, e recordando que Jesus lhe prome­tera associar Estevão à divina tarefa, julgou não dever atuar por si só e chamou Timóteo e Silas para redigir a primeira de suas famosas epístolas.

Assim começou o movimento dessas cartas imor­tais, cuja essência espiritual provinha da esfera do Cristo, através da contribuição amorosa de Estevão — compa­nheiro abnegado e fiel daquele que se havia arvorado, na mocidade, em primeiro perseguidor do Cristianismo.

Percebendo o elevado espírito de cooperação de todas as obras divinas, Paulo de Tarso nunca procurava escre­ver só; buscava cercar-se, no momento, dos companheiros mais dignos, socorria-se de suas inspirações, consciente de que o mensageiro de Jesus, quando não encontrasse no seu tono sentimental as possibilidades precisas para transmitir os desejos do Senhor, teria nos amigos instru­mentos adequados.

Desde então, as cartas amadas e célebres, tesouro de vibrações de um mundo superior, eram copiadas e senti­das em toda parte. E Paulo continuou a escrever sem­pre, ignorando, contudo, que aqueles documentos sublimes, escritos muitas vezes em hora de angústias extremas, não se destinavam a uma igreja particular, mas à cristandade universal. As epístolas lograram êxito rápido. Os irmãos as disputavam nos rincões mais humildes, por seu conteúdo de consolações, e o próprio Simão Pedro, recebendo as primeiras cópias, em Jerusalém, reuniu a comunidade e, lendo-as, comovido, declarou que as cartas do convertido de Damasco deviam ser interpretadas como cartas do Cristo aos discípulos e seguidores, afirmando, ainda, que elas assinalavam um novo período luminoso na história do Evangelho.

Altamente confortado, o ex-doutor da Lei procurou enriquecer a igreja de Corinto de todas as experiências que trazia da instituição antioquense. Os cristãos da cidade viviam num oceano de júbilos indefiníveis. A igreja possuía seu departamento de assistência aos que necessitavam de pão, de vestuário, de remédios. Vene­randas velhinhas revezavam-se na tarefa santa de aten­der aos mais desfavorecidos. Diariamente, à noite, havia reuniões para comentar uma passagem da vida do Cristo; em seguida à pregação central e ao movimento das ma­nifestações de cada um, todos entravam em silêncio, a fim de ponderar o que recebiam do Céu através do pro­fetismo. Os não habituados ao dom das profecias pos­suíam faculdades curadoras, que eram aproveitadas a favor dos enfermos, em uma sala próxima. O mediunismo evangelizado, dos tempos modernos, é o mesmo profe­tismo das igrejas apostólicas.

Como acontecia, por vezes, em Antioquia, surgiam também ali pequeninas discussões em torno de pontos mais difíceis de interpretação, que Paulo se apressava a acalmar, sem prejuízo da fraternidade edificadora.

Ao fim dos trabalhos de cada noite, uma prece cari­nhosa e sincera assinalava o instante de repouso.

A instituição progredia a olhos vistos. Aliando-se à generosidade de Tito Justo, outros romanos de for­tuna aproximaram-se do Evangelho, enriquecendo a orga­nização de possibilidades novas. Os israelitas pobres encontravam na igreja um lar generoso, onde Deus se lhes manifestava em demonstrações de bondade, ao con­trário das sinagogas, em cujo recinto, em vez de pão para a fome voraz, de bálsamo para as chagas do corpo e da alma, encontravam apenas a rispidez de preceitos tirânicos, nos lábios de sacerdotes sem piedade.

Irritados com o êxito inexcedível do empreendimento de Paulo de Tarso, que se demorava na cidade já por um ano e seis meses, tendo fundado um verdadeiro e perfeito abrigo para os “filhos do Calvário”, os judeus de Corinto tramaram um movimento terrível de perse­guição ao Apóstolo. A sinagoga esvaziava-se. Era ne­cessário extinguir a causa do seu desprestígio social. O ex-rabino de Jerusalém pagaria muito caro a audácia da propaganda do Messias Nazareno em detrimento de Moisés.

Era procônsul da Acaia, com residência em Corinto, um romano generoso e ilustre, que costumava agir sem­pre de acordo com a justiça, em sua vida pública. Irmão de Sêneca, Júnio Gálio era homem de grande bondade e fina educação. O processo iniciado contra o ex-rabino foi às suas mãos, sem que Paulo tivesse a mínima notícia e era tão grande a bagagem de acusações levantadas pelos israelitas, que o administrador foi compelido a determi­nar a prisão do Apóstolo para o inquérito inicial. A sina­goga pediu, com particular empenho, que lhe fosse dele­gada a tarefa de conduzir o acusado ao tribunal. Longe de conhecer o móvel do pedido, o procônsul concedeu a permissão necessária, determinando o comparecimento dos interessados à audiência pública do dia seguinte.

De posse da ordem, os israelitas mais exaltados deli­beraram prender Paulo na véspera, num momento em que o fato pudesse escandalizar toda a comunidade.

A noite, justamente quando o ex-rabino comentava o Evangelho, tomado de profundas inspirações, o grupo armado parou à porta, destacando-se alguns judeus mais eminentes que se dirigiram ao interior.

Paulo ouviu a voz de prisão, com extrema sereni­dade. Outro tanto, porém, não aconteceu com a assem­bléia. Houve grande tumulto no recinto. Alguns moços mais exaltados apagaram as tochas, mas o Apóstolo valoroso, num apelo solene -e comovedor, bradou alto:

— Irmãos, acaso quereis o Cristo sem testemunho?

A pergunta ressoou no ambiente, contendo todos os ânimos. Sempre sereno, o ex-rabino ordenou que acen­dessem as luzes e, estendendo os pulsos para os judeus admirados, disse com acento inesquecível:

— Estou pronto!...

Um componente do grupo, despeitado com aquela superioridade espiritual, avançou e deu-lhe com os açoi­tes em pleno rosto.

Alguns cristãos protestaram, os portadores da ordem de Gálio revidaram com aspereza, mas o prisioneiro, sem demonstrar a mais leve revolta, clamou em voz mais alta:

— Irmãos, regozijemo-nos em Cristo Jesus. Este­jamos tranqüilos e jubilosos porque o Senhor nos julgou dignos!...

Grande serenidade estabeleceu-se, então, na assem­bléia. Várias mulheres soluçavam baixinho. Áquila e a es­posa dirigiram ao Apóstolo um inolvidável olhar e a pequena caravana demandou o cárcere, na sombra da noite. Atirado ao fundo de uma enxovia úmida, Paulo foi atado ao tronco do suplício e houve de suportar a flagelação dos trinta e nove açoites. Ele próprio estava surpreendido. Sublime paz banhava-lhe o coração de brandos consolos. Não obstante sentir-se sozinho, entre perseguidores cruéis, experimentava nova confiança no Cristo. Nessas disposições, não lhe doíam as vergas­tadas impiedosas; debalde os verdugos espicaçavam-lhe o espírito ardente, com insultos e ironias. Na prova rude e dolorosa, compreendeu, alegremente, que havia atingido a região de paz divina, no mundo interior, que Deus concede a seus filhos depois das lutas acerbas e incessantes por eles mantidas na conquista de si mes­mos. De outras vezes, o amor pela justiça o conduzira a situações apaixonadas, a desejos mal contidos, a polê­micas ríspidas; mas ali, enfrentando os açoites que lhe caíam nos ombros seminus, abrindo sulcos sangrentos, tinha uma lembrança mais viva do Cristo, a impres­são de estar chegando aos seus braços misericordiosos, depois de caminhadas terríveis e ásperas, desde a hora em que havia caído às portas de Damasco, sob uma tempestade de lágrimas e trevas. Submerso em pensa­mentos sublimes, Paulo de Tarso sentiu o seu primeiro grande êxtase. Não mais ouviu os sarcasmos dos algozes inflexíveis, sentiu que sua alma dilatava-se ao infinito, experimentando sagradas emoções de indefinível ventura. Brando sono lhe anestesiou o coração e, somente pela madrugada, voltou a si do caricioso descanso, O sol visi­tava-o alegre, através das grades. O valoroso discípulo do Evangelho levantou-se bem disposto, recompôs as vestes e esperou pacientemente.

Só depois do meio-dia, três soldados desceram ao cárcere das disciplinas judaicas, retirando o prisioneiro para conduzi-lo à presença do procônsul.

Paulo compareceu à barra do tribunal, com imensa serenidade - O recinto estava cheio de israelitas exalta­dos; mas o Apóstolo, notou que a assembléia se com­punha, na maioria, de gregos de fisionomia simpática, muitos deles seus conhecidos pessoais dos trabalhos de assistência da igreja.

Júnio Gálio, muito cioso do seu cargo, sentou-se sob o olhar ansioso dos espectadores cheios de interesse.

O procônsul, de conformidade com a praxe, teria de ouvir as partes em litígio, antes de pronunciar qualquer julgamento, apesar das queixas e acusações exaradas em pergaminho.

Pelos judeus falaria um dos maiores da sinagoga, de nome Sóstenes; mas, como não aparecesse o repre­sentante da igreja de Corinto para a defesa do Apóstolo, a autoridade reclamou o cumprimento da medida sem perda de tempo. Paulo de Tarso, muito surpreendido, rogava íntimamente a Jesus fosse o patrono de sua causa, quando se destacou um homem que se prontificava a depor em nome da Igreja. Era Tito Justo, o romano generoso, que não desprezava o ensejo do testemunho. Verificou-se, então, um fato inesperado. Os gregos da assembléia prorromperam em frenéticos aplausos.

Júnio Gálio determinou que os acusadores inicias­sem as declarações públicas necessárias.

Sóstenes entrou a falar com grande aprovação dos judeus presentes. Acusava Paulo de blasfemo, desertor da Lei, feiticeiro. Referiu-se ao seu passado, acrimonio­samente. Contou que os próprios parentes o haviam abandonado. O procônsul ouvia atento, mas não deixou de manter uma atitude curiosa. Com o indicador da direita comprimia um ouvido, sem atender à estupefação geral. O maioral da sinagoga, no entanto, desconcerta­va-se com aquele gesto. Terminando o libelo apaixo­nado quanto injusto, Sóstenes interrogou o administrador da Acaia, relativamente à sua atitude, que exigia um esclarecimento, a fim de não ser tomada por desconsi­deração.

Gálio, porém, muito calmo, respondeu fazendo hu­morismo:

— Suponho não estar aqui para dar satisfação de meus atos pessoais e sim para atender aos imperativos da justiça. Mas, em obediência ao código da fraterni­dade humana, declaro que, a meu ver, todo administrador ou juiz em causa alheia deverá reservar um ouvido para a acusação e outro para a defesa.

Enquanto os judeus franziam o sobrecenho extre­mamente confundidos, os coríntios riam gostamente. O próprio Paulo achou muita graça na confissão do procônsul, sem poder disfarçar o sorriso bom que lhe ilumi­nou repentinamente a fisionomia.

Passado o incidente humorístico, Tito Justo aproxi­mou-se e falou sucintamente da missão do Apóstolo. Suas palavras obedeciam a largo sopro de inspiração e beleza espiritual. Júnio Gálio, ouvindo a história do convertido de Damasco, dos lábios de um compatrício, mostrou-se muito impressionado e comovido. De quando em vez, os gregos prorrompiam em exclamações de aplauso e contentamento. Os israelitas compreenderam que perdiam terreno de momento a momento.

Ao fim dos trabalhos, o chefe político da Acaia tomou a palavra para concluir que não via crime algum no discípulo do Evangelho; que os judeus deviam, antes de qualquer acusação injusta, examinar a obra gene­rosa da igreja de Corinto, porqüanto, na sua opinião, não havia agravo dos princípios israelitas; que a só controvérsia de palavras não justificava violências, con­cluindo pela frivolidade das acusações e declarando não desejar a função de juiz em assunto daquela natureza.

Cada conclusão formulada era ruidosamente aplau­dida pelos coríntios.

Quando Júnio Gálio declarou que Paulo devia con­siderar-se em plena liberdade, os aplausos atingiram ao delírio. A autoridade recomendou que a retirada se fi­zesse em ordem; mas os gregos aguardaram a descida de Sóstenes, e quando surgiu a figura solene do “mestre” atacaram sem piedade. Estabelecido enorme tumulto na escada longa que separava o Tribunal da via pública, Tito Justo acercou-se aflito do procônsul e pediu que interviesse. Gálio, entretanto, continuando a preparar-se para regressar a casa, dirigiu a Paulo um olhar de simpatia e acrescentou, calmamente:

— Não nos preocupemos. Os judeus estão muito habituados a esses tumultos. Se eu, como juiz, resguardei um ouvido, parece-me que Sóstenes deveria resguardar o

corpo inteiro, na qualidade de acusador.

E demandou o interior do edifício em atitude im­passível. Foi então que Paulo, surgindo no topo da es­cada, bradou:

— Irmãos, apaziguai-vos por amor ao Cristo!...

A exortação caiu em cheio sobre a turba numerosa e tumultuária. O efeito foi imediato. Cessaram os rumo­res e os impropérios. Os últimos contendores paralisaram os braços inquietos. O convertido de Damasco acorreu pressuroso em socorrer Sóstenes, cujo rosto sangrava. O acusador implacável do dia foi conduzido à sua resi­dência pelos cristãos de Corinto, por atenderem aos ape­los de Paulo, com extremos cuidados.

Grandemente despeitados com o insucesso, os israe­litas da cidade maquinaram novas investidas, mas o Apóstolo, reunindo a comunidade do Evangelho, decla­rou que desejava partir para a Ásia, a fim de atender a insistentes chamados de João (1), na fundação definitiva

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