Paulo e estevão francisco cândido xavier



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(1) João iniciou suas atividades na igreja mista de Éfeso, muito cedo, embora não se desligasse de Jerusalém. — (Nota de Emmanuel.)

da igreja de Éfeso. Os coríntios protestaram amistosa­mente, procurando retê-lo, mas o ex-rabino expôs com firmeza a conveniência da viagem, contando regressar muito breve. Todos os cooperadores da igreja estavam desolados. Principalmente Febe, notável colaboradora do seu esforço apostólico em Corinto, não conseguia ocultar as lágrimas do coração. O devotado discípulo de Jesus fez ver que a igreja estava fundada, solicitando apenas a continuidade de atenção e carinho dos compa­nheiros. Não seria justo, a seu ver, enfrentar novamente a ira dos israelitas, parecendo-lhe razoável esperar o concurso do tempo para as realizações necessárias.

Dentro de um mês, partiu em demanda de Éfeso, levando consigo Áquila e a esposa, que se dispuseram a acompanhá-lo.

Despedindo-se da cidade, teve o pensamento voltado para o pretérito, para as esperanças de ventura terrestre que os anos haviam absorvido. Visitou os sítios onde Abigail e o irmão haviam brincado na infância, saturou-se de recordações suaves e inesquecíveis e, no porto de Cencréia, lembrando a partida da noiva bem-amada, ra­pou a cabeça, renovando os votos de fidelidade eterna, consoante os costumes populares da época.

Depois de viagem difícil, repleta de incidentes pe­nosos, Paulo e os companheiros chegaram ao ponto des­tinado.

A igreja de Éfeso enfrentava problemas torturantes. João lutava seriamente para que o esforço evangélico não degenerasse em polêmicas estéreis. Mas os tecelões chegados de Corinto deram-lhe mão forte na cooperação imprescindível.

Em meio das acaloradas discussões que houve de manter com os judeus, na sinagoga, o ex-rabino não olvidou certas realizações sentimentais que almejava des­de muito. Com delicadeza extrema, visitou a Mãe de Jesus na sua casinha singela, que dava para o mar. Impressionou-se fortemente com a humildade daquela criatura simples e amorosa, que mais se assemelhava a um anjo vestido de mulher. Paulo de Tarso interes­sou-se pelas suas narrativas caridosas, a respeito da noite do nascimento do Mestre, gravou no íntimo suas divinas impressões e prometeu voltar na primeira opor­tunidade, a fim de recolher os dados indispensáveis ao Evangelho que pretendia escrever para os cristãos do futuro. Maria colocou-se à sua disposição, com grande alegria.

O Apóstolo, entretanto, depois de cooperar algum tempo na consolidação da igreja, considerando que Áquila e Prisca se encontravam bem instalados e satisfeitos, resolveu partir, buscando novos rumos. Debalde os ir­mãos procuraram dissuadi-lo, rogando ficasse na cidade por mais tempo. Prometendo regressar logo que as cir­cunstâncias permitissem, alegou que precisava ir a Jeru­salém, levar a Simão Pedro o fruto da coleta de anos consecutivos nos lugares que percorrera. O filho de Zebedeu, que conhecia o projeto antigo, deu-lhe razão para empreender a viagem sem mais demora.

Como já se encontrassem novamente a seu lado, Silas e Timóteo fizeram-lhe companhia nessa nova ex­cursão.

Através de enormes dificuldades, mas pregando sem­pre a Boa Nova com verdadeiro entusiasmo devocional, chegaram ao porto de Cesaréia, - onde permaneceram alguns dias, instruindo os interessados no conhecimento do Evangelho. Dali, dirigiram-se a pé para Jerusalém, distribuindo consolações e curas, ao longo dos caminhos. Chegados à capital do judaísmo, o ex-pescador de Ca­farnaum recebeu-os com júbilos inexcedíveis. Simão Pe­dro apresentava grande abatimento físico, em virtude das lutas terríveis e incessantes para que a igreja suportasse, sem maiores abalos, as tempestades primitivas; seus olhos, porém, guardavam a mesma serenidade caracte­rística dos discípulos fiéis.

Paulo entregou-lhe, alegremente, a pequena fortuna, cuja aplicação iria assegurar maior independência à ins­tituição de Jerusalém, para o desenvolvimento justo da obra do Cristo.

Pedro agradeceu comovido e abraçou-o com lágrimas. Os pobres, os órfãos, os velhos desampa­rados e os convalescentes teriam doravante uma escola abençoada de trabalho santificante.

Pedro notou que o ex-rabino também estava alque­brado de corpo. Muito magro, muito pálido, cabelos já grisalhos, tudo nele denunciava a intensidade das lutas empenhadas. As mãos e o rosto estavam cheios de ci­catrizes.

O ex-pescador, diante do que via, falou-lhe com en­tusiasmo das suas epístolas, que se espalhavam por todas as igrejas, lidas com avidez; profundamente experimen­tado em problemas de ordem espiritual, alegou a con­vicção de que aquelas cartas provinham de uma inspira­ção direta do Mestre Divino, observação que Paulo de Tarso recebeu comovidíssimo, dada a espontaneidade do companheiro. Além disso — acrescentava Simão praze­rosamente —, não podia haver elemento educativo de tão elevado alcance quanto aquele. Conhecia cristãos da Palestina que guardavam cópias numerosas da mensagem aos tessalonicenses. As igrejas de Jope e Antipátris, por exemplo, comentavam as epístolas, frase por frase.

O ex-rabino sentiu imenso conforto para prosseguir na luta redentora.

Após alguns dias, demandou Antioquia, junto dos discípulos. Descansou algum tempo junto dos compa­nheiros bem-amados, mas sua poderosa capacidade de trabalho não permitia maiores intermitências de repouso.

Nessa época, não passava semana que não recebesse representações de diversas igrejas, dos pontos mais dis­tantes. Antioquia de Pisídia sumariava dificuldades; Icônio reclamava novas visitas; Beréia rogava providên­cias. Corinto carecia esclarecimentos. Colossas insistia por sua presença breve. Paulo de Tarso, valendo-se dos companheiros da ocasião, enviava-lhes letras novas, a todos atendendo com o maior carinho. Em tais cir­cunstâncias, nunca mais o Apóstolo dos gentios esteve só na tarefa evangelizadora. Sempre assistido por dis­cípulos numerosos, suas epístolas, que ficariam para os cristãos do futuro, estão, em sua maioria, repletas de referências pessoais, suaves e doces.

Terminando o estágio em Antioquia, voltou ao berço natal, aí falando das verdades eternas e conseguindo despertar grande número de tarsenses para as realidades do Evangelho.

Em seguida, internou-se de novo pelas alturas do Tauro, visitou as comunidades de toda a Galácia e Frígia, levantando o ânimo dos companheiros de fé, no que empregou elevada percentagem de tempo. Nesse afã incansável e incessante, conseguiu arregimen­tar novos discípulos para Jesus, distribuindo grandes benefícios em todos os recantos iluminados pela sua pa­lavra edificante, porque também ilustrada em fatos.

Em toda parte, lutas sem tréguas, alegrias e dores, angústias e amarguras do mundo, que não chegavam a lhe arrefecer as esperanças nas promessas de Jesus. De um lado, eram os israelitas rigorosos, inimigos ferrenhos e declarados do Salvador; do outro, os cristãos indecisos, vacilando entre as conveniências pessoais e as falsas interpretações, O missionário tarsense, no entanto, conhecendo que o discípulo sincero terá de experimentar as sensações da “porta estreita” todos os dias, nunca se deixou empolgar pelo desânimo, renovando a cada hora o propósito de tudo suportar, agir, fazer e edificar pelo Evangelho, inteiramente entregue a Jesus-Cristo.

Vencidas as lutas indefesas, deliberou regressar a Éfeso, interessado na feitura do Evangelho decalcado nas recordações de Maria.

Não mais encontrou Áquila e Prisca, retornados a Corinto em companhia de um tal Apolo, que se nota­bilizara por sua cultura, entre os recém-convertidos. Embora pretendesse apenas manter algumas conversa­ções mais longas com a filha inesquecível de Nazaré, foi compelido a enfrentar a luta séria com os coopera­dores de João. A sinagoga conseguira grande ascendente político sobre a igreja da cidade, que ameaçava soçobrar. O ex-rabino percebeu o perigo e aceitou a luta, sem reservas. Durante três meses discutiu na sinagoga, em todas as reuniões. A cidade, que se mantinha em dúvidas atrozes, parecia alcançar uma compreensão mais elevada e mais rica de luzes. Multiplicando as curas maravilho­sas, Paulo, um dia, tendo imposto as mãos sobre alguns doentes, foi rodeado por claridade indefinível do mundo espiritual. As vozes santificadas, que se manifestavam em Jerusalém e Antioquia, falaram na praça pública.

Esse fato teve enorme repercussão e deu maior autori­dade aos argumentos do Apóstolo, em contradita aos judeus.

Em Éfeso não se falava de outra coisa. O ex-rabino fora elevado ao apogeu da consideração, de um dia para outro. Os israelitas perdiam terreno em toda a linha. O tecelão valeu-se do ensejo para lançar raízes evangé­licas mais fundas nos corações. Secundando o esforço de João, procurou instalar na igreja os serviços de assis­tência aos mais desfavorecidos da fortuna. A instituição enriquecia-se de valores espirituais. Compreendendo a importância da organização de Éfeso para toda a Ásia, Paulo de Tarso deliberou prolongar, ali, a sua perma­nência. Vieram discípulos da Macedônia. Áquila e a es­posa tinham regressado de Corinto; Timóteo, Silas e Tito cooperavam ativamente visitando as fundações cristãs já estabelecidas. Assim vigorosamente auxiliado, o generoso Apóstolo multiplicava as curas e os benefícios em nome do Senhor. Trabalhando pela vitória dos princípios do Mestre, fez que muitos abandonassem crendices e supers­tições perigosas, para se entregarem aos braços amorosos do Cristo.

Esse ritmo de trabalho fecundo perdurava há mais de dois anos, quando surgiu um acontecimento de vasta repercussão entre os efésios.

A cidade votava um culto especial à deusa Diana. Pequeninas estátuas, imagens fragmentárias da divin­dade mitológica surgiam em todos os cantos, bem como nos adornos da população. A pregação de Paulo, entre­tanto, modificara as preferências do povo. Quase nin­guém se interessava mais pela aquisição das imagens da deusa. Esse culto, porém, era tão lucrativo que os ourives da época, chefiados por um artífice de nome Demétrio, iniciaram veemente protesto perante as autoridades competentes.

Os prejudicados alegavam que a campanha do Após­tolo aniquilava as melhores tradições populares da cidade notável e florescente. O culto a Diana vinha dos ante­passados e merecia mais respeito; além disso, toda uma classe de homens válidos ficava sem trabalho.

Demétrio movimentou-se, Os ourives reuniram-se e pagaram amotinadores. Sabiam que Paulo falaria no teatro, naquela mesma noite que sucedeu às combina­ções definitivas. Pagos pelos artífices, os maliciosos começaram a espalhar boatos entre os mais crédulos.

Insinuavam que o ex-rabino preparava-se para arrom­bar o templo de Diana, a fim de queimar os objetos do Culto. Acrescentavam que a malta iconoclasta sairia do teatro para executar o projeto Sinistro. Irritaram-se os ânimos. O plano de Demétrio calava fundo na ima­ginação dos mais simplórios. Ao entardecer, grande massa popular postou-se na vasta praça, em atitude expectante. A noite fechou, a multidão crescia sempre. Ao acenderem-se no teatro as primeiras luzes, os ourives acreditaram que o Apóstolo lá estivesse. Com imprecações e gestos ameaçadores, a multidão avançou em furiosa grita, mas somente Gaio e Aristarco, irmãos da Macedônia, ali se encontravam, preparando o ambiente das pregações da noite. Ambos foram presos pelos exal­tados. Verificando a ausência do ex-rabino, a massa inconsciente encaminhou-se para a tenda de Áquila e Prisca. Paulo, no entanto, lá não estava.

A oficina sin­gela do casal cristão foi totalmente desmantelada a golpes impiedosos. Teares quebrados, peças de couro atiradas à rua, furiosamente. Por fim, o casal foi preso, sob os apupos da turba exacerbada.

A notícia espalhou-se com extrema rapidez. A co­luna revolucionária arrebanhava aderentes em todas as ruas, dado o seu caráter festivo. Debalde acorreram soldados para conter a multidão. Os maiores esforços tornavam-se inúteis. De vez em quando Demétrio asso­mava a uma tribuna improvisada e dirigia-se ao povo envenenando os ânimos.

Recolhido à residência de um amigo, Paulo de Tarso inteirou-se dos fatos graves que se desenrolavam por sua causa. Seu primeiro impulso foi seguir logo ao en­contro dos companheiros capturados, para libertá-los, mas os irmãos impediram-lhe a saída. Essa noite dolo­rosa ficaria inesquecível em sua vida. Ao longe, ouvia-se a gritaria estentórica: — “Grande é a Diana de Éfeso! Grande é a Diana de Éfeso!” Mas o Apóstolo, constran­gido à força, pelos companheiros, houve que desistir de esclarecer a massa popular, na praça pública.

Só muito tarde, o escrivão da cidade conseguiu falar ao povo, concitando-o a levar a causa a juízo, abando­nando o louco propósito de fazer justiça pelas próprias mãos.

A assembléia dispersou-se, pouco antes da meia-noite, mas só atendeu à autoridade depois de ver Gaio, Aristarco e o casal de tecelões trancafiados na enxovia.

No dia seguinte, o generoso Apóstolo dos gentios foi, em companhia de João, observar os destroços da tenda de Áquila. Tudo em frangalhos na via pública. Paulo refletiu com imensa mágoa nos amigos presos e falou ao filho de Zebedeu, com os olhos mareados de lágrimas.

— Como tudo isto me contrista! Áquila e Prisca têm sido meus companheiros de luta, desde as primeiras horas da minha conversão a Jesus. Por eles devia eu sofrer tudo, pelo muito amor que lhes devo; assim, não julgo razoável que sofram por minha causa.

— A causa é do Cristo! — respondeu João com acerto.

O ex-rabino pareceu conformar-se com a observação e sentenciou:

— Sim, o Mestre nos consolará.

E, depois de concentrar-se longamente, murmurou:

— Estamos em lutas incessantes na Ásia, há mais de vinte anos... Agora, preciso retirar-me da Jônia, sem demora. Os golpes vieram de todos os lados. Pelo bem que desejamos, fazem-nos todo o mal que podem. Ai de nós se não trouxéssemos as marcas do Cristo Jesus!

O pregador valoroso, tão desassombrado e resistente, chorava! João percebeu, contemplou-lhe os cabelos pre­maturamente encanecidos e procurou desviar o assunto:

— Não te vás por enquanto — disse solícito —, ainda és necessário aqui.

— Impossível — respondeu com tristeza —, a revo­lução dos artífices continuaria. Todos os irmãos paga­riam caro a minha companhia.

— Mas não pretendes escrever o Evangelho, con­soante as recordações de Maria? — perguntou meliflua­mente o filho de Zebedeu.

— É verdade — confirmou o ex-rabino com sereni­dade amarga —, entretanto, é forçoso partir. Caso não mais volte, enviarei um companheiro para colher as devi­das anotações.

— Contudo, poderias ficar conosco.

O tecelão de Tarso fitou o companheiro com tran­qüilidade e explicou, em atitude humilde:

— Talvez estejas enganado. Nasci para uma luta sem tréguas, que deverá prevalecer até ao fim dos meus dias. Antes de encontrar as luzes do Evangelho, errei criminosamente, embora com o sincero desejo de servir a Deus. Fracassei, muito cedo, na esperança de um lar.

Tornei-me odiado de todos, até que o Senhor se compa­decesse de minha situação miserável, chamando-me às portas de Damasco. Então, estabeleceu-se um abismo entre minha alma e o passado. Abandonado pelos amigos da infância, tive de procurar o deserto e recomeçar a vida. Da tribuna do Sinédrio, regressei ao tear pesado e rústico. Quando voltei a Jerusalém, o judaísmo con­siderou-me doente e mentiroso. Em Tarso experimentei o abandono dos parentes mais caros. Em seguida, reco­mecei em Antioquia a tarefa que me conduzia ao serviço de Deus. Desde então, trabalhei sem descanso, porque muitos séculos de serviço não dariam para pagar quanto devo ao Cristianismo. E sai às pregações. Peregrinei por diversas cidades, visitei centenas de aldeias, mas de nenhum lugar me retirei sem luta áspera. Sempre saí pela porta do cárcere, pelo apedrejamento, pelo golpe dos açoites. Nas viagens por mar, já experimentei o naufrágio mais de uma vez; nem mesmo no bojo estreito de uma embarcação, tenho podido evitar a luta. Mas Jesus me tem ensinado a sabedoria da paz interior, em perfeita comunhão de seu amor.

Essas palavras eram ditas em tom de humildade tão sincera que o filho de Zebedeu não conseguia esconder sua admiração.

— És feliz, Paulo — disse ele convicto —, porque entendeste o programa de Jesus a teu respeito. Não te doa a recordação dos martírios sofridos, porque o Mes­tre foi compelido a retirar-se do mundo pelos tormentos da cruz. Regozijemo-nos com as prisões e sofrimentos.

Se o Cristo partiu sangrando em feridas tão dolorosas, não temos o direito de acompanhá-lo sem çicatrizes...

O Apóstolo dos gentios prestou enorme atenção a essas palavras consoladoras e murmurou:

— É verdade!...

— Além do mais — acrescentou o companheiro emo­cionado —, devemos contar com calvários numerosos. Se o Cordeiro Imaculado padeceu na cruz da ignomínia, de quantas cruzes necessitaremos para atingir a redenção? Jesus veio ao mundo por imensa misericórdia. Acenou-nos brandamente, convocando-nos a uma vida melhor... Agora, meu amigo, como os antepassados de Israel, que saíram do cativeiro do Egito à custa de sacrifícios ex­tremos, precisamos fugir da escravidão dos pecados, vio­lentando-nos a nós mesmos, disciplinando o espírito, a fixa de nos juntarmos ao Mestre, correspondendo à sua imensa bondade.

Paulo meneou a cabeça, pensativo, e acentuou:

— Desde que o Senhor se dignou convocar-me ao serviço do Evangelho, não tenho meditado noutra coisa.

Nesse ritmo cordial conversaram muito tempo, até que o Apóstolo dos gentios concluiu mais confortado:

— O que de tudo concluo é que minha tarefa no Oriente está finda. O espírito de serviço exige que me vá além... Tenho a esperança de pregar o Evangelho do Reino, em Roma, na Espanha e entre os povos menos conhecidos...

Seu olhar estava cheio de visões gloriosas e João murmurou humildemente:


  • Deus abençoará os teus caminhos.

Demorou-se ainda em Éfeso, movimentando os me­lhores empenhos a favor dos prisioneiros. Conseguida a liberdade dos detentos, resolveu deixar a Jônia dentro do menor prazo possível. Estava, porém, profundamente abatido. Dir-se-ia que as últimas lutas haviam cooperado no desmantelo de suas melhores energias. Acompanhado de alguns amigos dirigiu-se para Trôade, onde se demo­rou alguns dias, edificando os irmãos na fé. A fadiga, entretanto, acentuava-se cada vez mais. As preocupações enervaram-no. Experimentava no íntimo profunda deso­lação, que a insônia agravava dia a dia. Paulo, que nunca esquecera a ternura dos irmãos de Filipes, deli­berou, então, procurar ali um abrigo, ansioso de repousar alguns momentos. O Apóstolo foi acolhido com inequí­vocas provas de carinho e consideração. As crianças da instituição desdobraram-se em demonstrações de afetuosa ternura. Outra agradável surpresa ali o esperava: Lucas encontrava-se acidentalmente na cidade e foi abraçá-lo. Esse encontro reanimou-lhe o ânimo abatido. Avistan­do-se com o amigo, o médico alarmou-se. Paulo pare­ceu-lhe extremamente debilitado, triste, não obstante a fé inabalável que lhe nutria o coração e transbordava dos lábios. Explicou que estivera doente, que muito so­frera nas últimas pregações de Éfeso, que estava sozinho em Filipes, depois do regresso de alguns amigos que o haviam acompanhado, que os colaboradores mais fiéis ha­viam partido para Corinto, onde o aguardavam.

Muito surpreendido, Lucas tudo ouviu silencioso e perguntou:

— Quando partirás?

— Pretendo aqui ficar duas semanas.

E depois de vaguear os olhos na paisagem, concluiu em tom quase amargo:

— Aliás, meu caro Lucas, julgo ser esta a última vez que descanso em Filipes...

— Mas, por quê? Não há motivos para pressenti­mentos tão tristes.

Paulo notou a preocupação do amigo e apressou-se a desfazer-lhe as primeiras impressões:

— Suponho que terei de partir para o Ocidente —esclareceu com um sorriso.

— Muito bem! — respondeu Lucas reanimado. —Vou ultimar os assuntos que aqui me trouxeram e irei contigo a Corinto.

O Apóstolo alegrou-se. Rejubilava-se com a pre­sença de um companheiro dos mais dedicados. Lucas também estava satisfeito com a possibilidade de assisti-lo na viagem. Com grande esforço procurava dissimular a penosa impressão que a saúde do Apóstolo lhe causara. Magríssimo, rosto pálido, olhos encovados, o ex-rabino dava a impressão de profunda miséria orgânica. O mé­dico, no entanto, fez o possível por ocultar suas dolo­rosas conjeturas.

Como de hábito, Paulo de Tarso, durante a viagem até Corinto, falou do projeto de chegar a Roma, para levar à capital do Império a mensagem do amor do Cristo Jesus. A companhia de Lucas, a mudança das paisagens revigoravam-lhe as forças físicas. O próprio médico es­tava surpreendido com a reação natural daquele homem de vontade poderosa.

Pelo caminho, através das pregações ocasionais de um longo itinerário, juntaram-se-lhes alguns companhei­ros mais devotados.

Novamente em Corinto, o ex-rabino ratificou as suas epístolas, reorganizou amorosamente os quadros de ser­viços da igreja e, no círculo dos mais íntimos, não falava de outra coisa senão do grandioso projeto de visitar Roma, no intuito de auxiliar os cristãos, já existentes na cidade dos Césares, a estabelecerem instituições seme­lhantes às de Jerusalém, de Antioquia, de Corinto e outros pontos mais importantes do Oriente. Nesse meio tempo, readquiriu as energias latentes do organismo debi­litado. Desdobrava-se no plano, coordenando idéias e mais idéias do programa colimado, na imperial metrópole. Aventou numerosas providências. Pensou em preparar sua chegada, fazendo-a preceder de carta na qual reca­pitulasse a doutrina consoladora do Evangelho e no­measse, com saudações afetuosas, todos os irmãos do seu conhecimento no ambiente romano. Áquila e Prisca tinham voltado de Éfeso para a capital do Império, no intuito de recomeçar a vida. Seriam auxiliares diletos. Para esse fim, Paulo empregou alguns dias na redação do célebre documento, concluindo-o com uma carga de saudações particulares e extensas. Foi aí que se verificou um episódio escassamente conhecido pelos seguidores do Cristianismo. Considerando que todos os irmãos e pre­gadores eram criaturas excessivamente ocupadas nos mais variados misteres e que Paulo custaria a encontrar portador para a missiva famosa, a irmã de nome Febe, grande cooperadora do Apóstolo dos gentios no porto de Cencréia, comunicou-lhe que teria de ir a Roma, em visita a parentes, e se oferecia, de bom grado, a levar o do­cumento destinado a iluminar a cristandade póstera.

Paulo exultou de contentamento, aliás extensivo a toda a confraria. A epístola foi terminada com enorme entusiasmo e júbilo. Tão logo partiu a emissária heróica, o ex-rabino reuniu a pequena comunidade dos discípulos diletos para assentar as bases definitivas da grande excursão. Começou explicando que o inverno estava a começar, mas, tão depressa voltasse o tempo de navega­ção, embarcaria para Roma. Depois de justificar a exce­lência do plano, visto já estar implantado o Evangelho nas regiões mais importantes do Oriente, pediu aos ami­gos íntimos lhe dissessem como e até que ponto lhes seria possível secundá-lo.

Timóteo alegou que Eunice não podia, no momento, dispensar seus cuidados, dado o fale­cimento da veneranda Lóide. Segundo expôs, precisava regressar a Tessalônica e Aristarco o secundou nesse pa­recer. Sópatro falou de suas dificuldades em Beréia. Gaio pretendia partir para Derbe no dia seguinte. Tíquico e Trófimo alegaram a necessidade urgente de irem a Éfeso, de onde pretendiam mudar para Antioquia, berço natal de ambos.

Quase todos os demais estavam impossibilitados de participar da excursão. Apenas Silas afirmou que poderia fazê-lo, fosse como fosse. Chegada, porém, a vez de Lucas, que se mantivera até então calado, disse ele estar pronto e resolvido a compartilhar dos trabalhos e alegrias da missão de Roma. De toda a assembléia, dois apenas poderiam acompanhá-lo.

Paulo, todavia, mos­trou-se conformado e satisfeitíssimo. Bastavam-lhe Silas e Lucas, habituados aos seus métodos de propaganda e com os mais belos títulos de trabalho e dedicação à causa de Jesus.

Tudo corria às maravilhas, o plano combinado aus­piciava grandes esperanças, quando, no dia imediato, um peregrino, pobre e triste, surgia em Corinto, desembar­cado de uma das últimas embarcações chegadas ao Pelo­poneso para a ancoragem longa do inverno. Vinha de Jerusalém, bateu às portas da igreja e procurou instan­temente por Paulo, a fim de entregar-lhe uma carta confidencial. Defrontando o singular mensageiro, o Após­tolo surpreendeu-se.

Tratava-se do irmão Abdias, a quem Tiago incumbira de entregar a carta ao ex-rabino. Este, tomou-a e desdobrou-a um tanto nervoso.

À medida que ia lendo, mais pálido se fazia.

Tratava-se de um documento particular, da mais alta importância. O filho de Alfeu comunicava ao ex-doutor da Lei os dolorosos acontecimentos que se desenrolavam em Jerusalém. Tiago avisava que a igreja sofria nova e violentíssima perseguição do Sinédrio. Os rabinos ha­viam decidido reatar o fio das torturas infligidas aos cristãos. Simão Pedro fora banido da cidade. Grande número de confrades eram alvo de novas perseguições e martírios.

A igreja fora assaltada por fariseus sem consciência e só não sofrera depredações de maior vulto em virtude do respeito que o povo lhe consagrava. Den­tro de suas atitudes conciliatórias, conseguira aplacar os ânimos mais exaltados, mas o Sinédrio alegava a necessidade de um entendimento com Paulo, a fim de conceder tréguas. A ação do Apóstolo dos gentios, in­cessante e ativa, conseguira lançar as sementes de Jesus em toda parte. De todos os lados, o Sinédrio recebia consultas, reclamações, notícias alarmantes. As sinago­gas iam ficando desertas. Tal situação requeria esclare­cimentos. Baseado nesses pretextos, o maior Tribunal dos Israelitas desfechara tremendos ataques contra a organização cristã em Jerusalém. Tiago relatava os acontecimentos com grande serenidade e rogava a Paulo de Tarso não abandonasse a igreja naquela hora de lutas acerbas. Ele, Tiago, estava envelhecido e cansado. Sem a colaboração de Pedro, temia sucumbir. Pedia, então, ao convertido de Damasco fosse a Jerusalém, afrontasse as perseguições por amor a Jesus, para que os doutores do Sinédrio e do Templo ficassem bastantemente escla­recidos. Acreditava que lhe não poderia advir nenhum mal, porqüanto o ex-rabino saberia melhor dirigir-se às autoridades religiosas para que a causa lograsse justo êxito. A viagem a Jerusalém teria somente um objetivo: esclarecer o Sinédrio, como se fazia indispensável. Depois disso, que Tiago considerava de suma importância para salvar a igreja da capital do judaísmo, Paulo voltaria tranqüilo e feliz para onde lhe aprouvesse.

A mensagem estava crivada de exclamações amargas e de apelos veementes.

Paulo de Tarso terminou a leitura e lembrou o pas­sado. Com que direito lhe fazia o Apóstolo galileu seme­lhante pedido? Tiago sempre se colocara em posição antagônica. Em que pesasse à sua índole impetuosa, franca, inquebrantável, não podia odiá-lo; entretanto, não se sentia perfeitamente afim com o filho de Alfeu, a ponto de se tornar seu companheiro adequado em lance tão difícil. Procurou um recanto solitário da igreja, sentou e meditou. Experimentando certas relutâncias ín­timas em renunciar à partida para Roma, não obstante o projeto formulado em Éfeso nas vésperas da revolução dos ourives, de só visitar a capital do Império depois de nova excursão a Jerusalém, procurou consultar o Evan­gelho, por desfazer tão grande perplexidade. Desenrolou os pergaminhos e, abrindo-os ao acaso, leu a advertência das anotações de Levi: — “Concilia-te depressa com o teu adversário”. (1)

Diante dessas palavras judiciosas, não dissimulou o assombro, recebendo-as como um alvitre divino para que não desprezasse a oportunidade de estabelecer com o Apóstolo galileu os laços sacrossantos da mais pura fraternidade. Não era justo alimentar caprichos pessoais na obra do Cristo. No feito em perspectiva, não era Tiago o interessado na sua presença em Jerusalém: era a igreja, era a sagrada instituição que se tornara tutora dos pobres e dos infelizes. Provocar as iras farisaicas

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