Paulo e estevão francisco cândido xavier



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(1) Provérbios, capítulo 3º, versículos 11 e 12.

um por um conduzidos para a solução isolada do assunto que lhes dizia respeito.

Chegada a sua vez, o velho israelita expôs suas reclamações particulares, atinentes às indébitas expro­priações do passado e aos insultos de que fora vítima na véspera, enquanto o orgulhoso patrício lhe anotava as menores palavras e atitudes, do alto de sua cátedra, como quem já conhecia, de longo tempo, a personagem em causa. Conduzido novamente ao interior, Jochedeb esperou, como os demais, a solução dos seus pedidos de reparação à Justiça; mas aos poucos, enquanto outros eram convocados nominalmente ao acerto das contas com o Governo provincial, reparava que o antigo casarão se envolvia em grande silêncio, percebendo que sua vez, pos­sivelmente, fora adiada por circunstâncias que não podia presumir.

Instado nominalmente a dirigir-se ao juiz, ouviu, grandemente surpreendido, a sentença negativa, lida por um oficial que desempenhava as atribuições de secretário daquela alçada.

— O legado imperial, em nome de César, resolve ordenar o confisco da suposta propriedade de Jochedeb ben Jared, concedendo-lhe três dias para desocupar as terras que ocupa indebitamente, visto pertencerem, com fundamento legal, ao questor Licinio Minúcio, habilitado a provar, a qualquer tempo, seus direitos de propriedade.

A decisão inesperada causou intensa comoção ao ve­lho israelita, a cuja sensibilidade aquelas palavras leva­ram um efeito de morte. Nem saberia definir a angustiosa surpresa. Não confiara na Justiça e não estava à procura de sua ação reparadora? Queria gritar o seu ódio, mani­festar suas pungentes desilusões; mas a língua estava como que petrificada na boca retraída e trêmula. Após um minuto de profunda ansiedade, fixou no alto a figura detestada do antigo patrício, que lhe causava, agora, a derradeira ruína, e, envolvendo-o na vibração colérica da alma revoltada e sofredora, encontrou energias para dizer:

— Ó ilustríssimo questor, onde está a eqüidade das vossas sentenças? Venho até aqui implorando a interven­ção da Justiça e me retribuís a confiança com mais uma extorsão que me aniquilará a existência? No passado, sofri a desapropriação descabida de todos os meus bens territoriais, conservando com enormes sacrifícios a chá­cara humilde, onde pretendo esperar a morte!... Será crivel que vós, dono de opulentos latifúndios, não sintais remorso? Era subtrair ao mísero velho a derradeira côdea de pão?

O orgulhoso romano, sem um gesto que denotasse a mais leve emoção, retrucou secamente:

— Ponha-se na rua; e que ninguém discuta as deci­sões imperiais!

— Não discutir? — clamou Jochedeb já desvairado.

— Não poderei altear a voz amaldiçoando a memória dos criminosos romanos que me espoliaram? Onde colo­careis vossas mãos, envenenadas com o sangue das ví­timas e as lágrimas das viúvas e dos órfãos esbulha­dos, quando soar a hora do julgamento no Tribunal de Deus?...

Mas, recordando subitamente o lar povoado pela ternura dos filhos amorosos, modificou a atitude mental, sensibilizado nas fibras recônditas do ser. Prostrando-se, de joelhos, em convulsivo pranto, exclamou comovedora-mente:

— Tende piedade de mim, Ilustríssimo!... Poupai-me a vivenda modesta, onde, acima de tudo, sou pai... Meus filhos esperam-me com o beijo da sua afeição sin­cera e desvelada!...

E acrescentava, afogado em lágrimas:

— Tenho dois filhos que são duas esperanças do coração. Poupai-me, por Deus! Prometo conformar-me com esse pouco, nunca mais reclamarei!...

Entretanto, o legado impassível respondeu com frie­za, dirigindo-se a um soldado:

— Espártaco, para que esse judeu impertinente se afaste do recinto, com as suas lamentações, dez bas­tonadas.

O preposto formalizou-se para cumprir imediata­mente a ordem, mas o juiz implacável acrescentou:

— Tenha cuidado em não lhe cortar o rosto, para que o sangue não escandalize os transeuntes.

De joelhos, o pobre Jochedeb suportou o castigo e, terminada a prova, levantou-se, cambaleante, alcançando a praça ensolarada, sob as risotas disfarçadas de quantos haviam presenciado o ignóbil espetáculo. Nunca, em sua vida, experimentara tão intenso desespero como naquela hora. Quereria chorar e tinha os olhos frios e secos, lamentar a desdita imensa e os lábios estavam petrifi­cados de revolta e dor. Parecia um sonâmbulo vagando inconsciente entre as viaturas e os transeuntes que se aglomeravam na praça enorme.

Contemplou com extrema e íntima repugnância o templo de Vênus. Desejava ter voz estentórica e poderosa para humilhar todos os cir­cunstantes com a palavra da condenação.

Observando as cortesãs coroadas que o encontravam, as armaduras dos tribunos romanos e a ociosa atitude dos afortunados que passavam despercebidos do seu martírio, molemente recostados nas liteiras vistosas da época — sentiu-se como que mergulhado num dos pântanos mais odiosos do mundo, entre os pecados que os profetas da sua raça jamais se cansaram de profligar, com todas as veras do coração consagrado ao Todo-Poderoso. Corinto, a seus olhos, era uma nova edição da Babilônia condenada e desprezível.

De súbito, apesar dos tormentos que lhe perturba­vam a alma exausta, recordou novamente os filhos queridos, sentindo, por antecipação, a profunda amargura que a notícia da sentença lhes causaria ao espírito sen­sível e afetuoso. A lembrança da ternura de Jeziel enter­necia-lhe o peito galvanizado no sofrimento. Teve a impressão de vê-lo ainda a seus pés, suplicando desistisse de qualquer reclamação e, aos ouvidos, ecoava-lhe agora, com mais intensidade, a exortação dos Escritos: — “Fi­lho meu, não rejeites a repreensão do Senhor!”

Mas, ao mesmo tempo, idéias destruidoras invadiam-lhe o cérebro cansado e dolorido. A Lei sagrada estava cheia de símbolos de justiça. E, para ele, impunha-se como dever sobe­rano providenciar a reparação que lhe parecia conve­niente. Agora, em desolação suprema, regressava ao lar, despojado de tudo que possuía de mais humilde e mais simples, e já no fim da vida! Como lhe viria o pão de amanhã? Sem elementos de trabalho e sem teto, via-se constrangido a peregrinar em situação parasitária, ao lado da juventude dos filhos.

Inenarrável martírio moral sufocava-lhe o coração.

Dominado por acerbos pensamentos, aproximou-se do sítio bem-amado, onde edificara o ninho familiar. O sol quente da tarde fazia mais doce a sombra das árvores, de ramarias verdes e abundantes. Jochedeb avançou no terreno, que era propriedade sua, e, angustiado pela pers­pectiva de abandoná-lo para sempre, deu ensejo a que terríveis tentações lhe desvairassem a mente. As terras de Licínio não se limitavam com a chácara? Afastan­do-se do caminho que o levava ao ambiente doméstico, penetrou nos matagais próximos e, depois de alguns passos, demorou o olhar na linha de demarcação, entre ele e o seu verdugo. As pastagens do outro lado não pareciam bem cuidadas. A falta de melhor distribuição da água comum, certa secura geral fazia-se sentir aspe­ramente. Apenas algumas árvores, isoladas, ameniza­vam a paisagem com a sua sombra, refrescando a região abandonada, entre espinheiros e parasitas que sufocavam as ervas úteis.

Obcecado pela idéia de reparação e vingança, o ve­lho israelita deliberou incendiar as pastagens próximas. Não consultaria os filhos, que, possivelmente, dobrariam o seu espírito, inclinados à tolerância e à benignidade. Jochedeb recuou alguns passos e, recorrendo ao material de serviço ali guardado nas proximidades, fez o fogo com que acendeu um feixe de ervas ressequidas. O rastilho comunicou-se, célere, e em rápidos minutos o incêndio das pastagens propagava-se com a velocidade do relâmpago.

Terminada a tarefa, sob a penosa impressão dos ossos doloridos, regressou cambaleante ao lar, onde Abi­gail o inquiriu, inutilmente, dos motivos de tão profundo abatimento. Jochedeb deitou-se à espera do filho; mas, dentro em pouco, um ruído ensurdecedor ecoava-lhe aos ouvidos. Não longe da chácara, o fogo destruía árvores amigas e frondes robustas, reduzindo pastos verdes a punhados de cinzas. Grande área ardia, irremediavel­mente, escutando-se os gritos lamentosos das aves que fugiam espavoridas. Pequenas benfeitorias do questor, inclusive algumas termas pitorescas de sua predileção, construídas entre as árvores, ardiam igualmente, con­vertendo-se em negros escombros. Aqui e acolá, o ala­rido dos trabalhadores do campo, em espantosa correria por salvar da destruição a residência campestre do pode­roso patrício, ou procurando insular a serpente de fogo que lambia a terra em todas as direções, aproximando-Se dos pomares vizinhos.

Algumas horas de ansiedade espalharam as mais angustiosas expectativas; mas, ao fim da tarde, o incên­dio fora dominado, depois de ingentes esforços.

Debalde o velho judeu enviara mensagens à pro­cura do filho, dentro dos círculos de serviço da sua pequena herdade. Desejava falar a Jeziel das suas neces­sidades e da situação tormentosa em que se encontravam novamente, ansioso por descansar a mente atormentada nas palavras dulcificantes da sua ternura filial. Entre­tanto, somente à noite, com as vestes chamuscadas e as mãos ligeiramente feridas, o jovem entrou em casa, deixando entrever no cansaço da fisionomia a laboriosa tarefa a que se impusera. Abigail não se surpreendeu com o seu aspecto, entendendo que o irmão não deixara de auxiliar os companheiros de trabalho da vizinhança, nas ocorrências da tarde, preparando-lhe aos pés cansados e às mãos doloridas o banho de água aromatizada; mas, tão logo o viu e notou as mãos feridas, foi com espanto que Jochedeb exclamou:

— Onde estiveste, filho meu?

Jeziel falou da cooperação espontânea no salva­mento da propriedade vizinha e, à medida que relatava os tristes sucessos do dia, o pai deixava trair a própria angústia nas fácies sombrias, em que se estereotipavam os traços rudes da revolta que lhe devorava o coração. Ao cabo de alguns minutos, erguendo a voz desalentada, falou com profunda emoção:

— Meus filhos, custa dizer-lhes, mas fomos espo­liados na derradeira migalha que nos resta... Repro­vando minha reclamação sincera e justa, o legado de César determinou o seqüestro do nosso próprio lar. A iníqua sentença é o passaporte da nossa ruína total. Pelas suas disposições, somos obrigados a abandonar a chácara em três dias!

E, elevando os olhos para o Alto, como a insistir junto à divina misericórdia, exclamava com o olhar em­baciado de lágrimas:

— Tudo perdido!... Por que fui assim desampa­rado, meu Deus? Onde a liberdade do vosso povo fiel, se, em toda parte, nos exterminam e perseguem sem piedade?

Grossas lágrimas escorriam-lhe pelas faces, enquan­to com a voz trêmula narrava aos filhos os pesados tor­mentos de que fora vítima. Abigail osculava-lhe as mãos enternecidamente, e Jeziel, sem qualquer alusão à rebeldia paterna, abraçava-o depois da sua dolorosa exposição, consolando-o com amor:

- Meu pai, por que vos atemorizardes? Deus nunca é avaro de misericórdia. Os Escritos Sagrados nos ensi­nam que Ele, antes de tudo, é o Pai desvelado de todos os vencidos da Terra! Essas derrotas chegam e passam. Tendes os meus braços e o cuidado afetuoso de Abigail. Por que lastimar, se amanhã mesmo, com o socorro di­vino, poderemos sair desta casa, para buscar outra em qualquer parte, a fim de nos consagrarmos ao trabalho honesto? Deus não guiou o nosso povo expulso do lar, através do oceano e do deserto? Por que negaria, então, seu apoio a nós que tanto o amamos neste mundo? Ele é a nossa bússola e a nossa casa.

Os olhos de Jeziel fixavam o velho genitor numa atitude de súplica profundamente cariciosa. Suas pala­vras revelavam o mais doce enternecimento no coração. Jochedeb não era insensível àquelas formosas manifes­tações de carinho; mas, ante a revelação de tanta confiança no poder divino, sentia-se envergonhado, depois do ato extremo que praticara.

Descansando na ternura que a presença dos filhos lhe oferecia ao espírito deso­lado, dava curso às lágrimas dolorosas que lhe fluíam da alma pungida por acerbas desilusões. Entretanto, Jeziel continuava:

— Não choreis meu pai, contai conosco! Amanhã, eu próprio providenciarei a nossa retirada, como se faz preciso.

Foi nesse instante que a voz paternal se ergueu soturna e acentuou:

— Mas não é tudo, meu filho!...

E, pausadamente, Jochedeb pintou o quadro de suas angústias reprimidas, da sua cólera justa, que culminara com a decisão de atear fogo à propriedade do verdugo execrando. Os filhos ouviam-no espantados, entremos­trando a dor sincera que a conduta paterna lhes causava. Depois de um olhar de infinito amor e funda preocupação, o jovem abraçou-o, murmurando:

— Meu pai, meu pai, por que levantastes o braço vingador? por que não esperastes a ação da justiça divina?...

Embora perturbado pelas afetuosas admoestaçõeS, o interpelado esclarecia:

— Está escrito nos mandamentos: — “não furtarás”; e, fazendo o que fiz, procurei retificar um desvio da Lei, porqüanto fomos espoliados de tudo que constituía o nosso humilde patrimônio.

— Acima de todas as determinações, porém, meu pai — acentuou Jeziel sem irritação -, Deus mandou gravar o ensinamento do amor, recomendando que o amássemos sobre todas as coisas, de todo o coração e todo o entendimento.

— Amo o Altíssimo, mas não posso amar o ro­mano cruel — suspirou Jochedeb, amargurado.

— Mas, como revelarmos dedicação ao Todo-Pode­roso que está nos Céus — continuou o jovem compa­decido —, destruindo suas obras? No caso do incêndio, não temos só a considerar o nosso testemunho de des­confiança para com a justiça de Deus, mas os campos que nos fornecem agasalho e pão sofreram com a nossa atitude e os dois melhores servos de Licínio Minúcio, Caio e Rufílio, foram feridos de morte quando tentavam salvar as termas prediletas do amo, numa luta inútil para livrá-las do fogo que as destruiu; ambos, apesar de escravos, têm sido nossos melhores amigos. As ár­vores frutíferas e os canteiros de legumes de nossa pro­priedade devem quase tudo a eles, não só no concernente às sementes vindas de Roma, mas também no esforço e cooperação com o meu trabalho. Não seria justo hon­rarmos sua amizade, dedicada e diligente, evitando-lhes a punição e os sofrimentos injustos?

Jochedeb pareceu meditar profundamente nas obser­vações filiais, ditas em tom carinhoso. Enquanto Abigail chorava em silêncio, o moço acrescentava:

— Nós que estávamos em paz, nas derrotas do mun­do, porque trazíamos a consciência pura, precisamos re­solver, agora, em face do que nos advirá em represálias. Quando dava o meu esforço contra o fogo, observei que muitos afeiçoados de Minúcio me contemplavam com indisfarçável desconfiança. A esta hora, já ele terá re­gressado dos serviços da Corte Provincial. Precisamos encomendar-nos ao amor e à complacência de Deus, pois não ignoramos os tormentos reservados pelos romanos a todos os que lhes desrespeitam as determinações.

Penosa nuvem de tristeza mergulhara os três em sombrias preocupações. No velho observava-se uma an­siedade terrível, que se misturava à dor do remorso pungente e, em ambos os jovens, notava-se, no olhar, inexcedível amargura, angustiosa e intraduzível.

Jeziel tomou de sobre a mesa os velhos pergaminhos sagrados e disse à irmã, com triste acento:

— Abigail, vamos recitar o Salmo que nos foi ensi­nado pela mamãe para as horas difíceis.

Ambos se ajoelharam e suas vozes comovidas, como a de pássaros torturados, cantavam baixinho uma das formosas orações de David, que haviam aprendido no colo maternal:
“O Senhor é o meu Pastor,

Nada me faltará.

Deitar-me faz em verdes pastos,

Guia-me mansamente

A águas mui tranqüilas,

Refrigera minhalma,

Guia-me nas veredas da justiça

Por amor do seu nome.

Ainda que eu andasse

Pelo vale das sombras da morte,

Não temeria mal algum,

Porque Tu estás comigo...

A Tua vara e o Teu cajado me consolam.

Prepara-me o banquete do amor

Na presença dos meus inimigos,

Unges de perfume a minha cabeça,

O meu cálice transborda de júbilo!...

Certamente,

A bondade e a misericórdia

Seguirão todos os dias de minha vida

E habitarei na Casa do Senhor

Por longos dias...“ (1)


O velho jochedeb acompanhava o cântico dolorido, sentindo-se opresso de amargosas emoções. Começava a compreender que todos os sofrimentos enviados por Deus sãO proveitosos e justos. e que todos os males procurados pelaS mãos do homem trazem, invariavel­mente, torturas infernais à consciência invigilante O cântico abafado dos filhos enchia-lhe o coração de tris­tezas pungentes. Lembrava, agora, a companheira que­rida que Deus havia chamado à vida espiritual. Quantas vezes, acalentar-lhe ela o espírito atormentado com aqueles versos inesquecíveis do profeta? Bastava que sua observação amiga e fiel se fizesse ouvir para que o sentido da obediência e da justiça lhe falasse mais alto ao coração.

Ao ritmo da harmOnia caridOSa e triste, que apre­sentava acento singular na voz dos filhos idolatrados, Jochedeb chorou longamente. Da pequenina janela aberta no aposento humilde, seus olhos buscaram ansiosamente o céu azul, que se enchera de sombras tranqüilas. A


(1) Salmo 23º. — (Nota de Emmanuel.)
noite abraçara a Natureza e, muito longe, no alto, come­çavam a luzir as primeiras estrelas.

Identificando-se com as sugestões grandiosas do firmamento, experimen­tou intensas comoções na alma ansiosa. Profundo enter­necimento fê-lo levantar-se e, sedento de revelar aos filhinhos quanto os amava e quanto deles esperava na­quela hora culminante da sua vida, inclinou-se de braços abertos, com significativa expressão de carinho e, quando as últimas notas se desprendiam do cântico dos jovens enlaçados e genuflexos, abraçou-os em pranto, murmu­rando:

— Meus filhos! meus queridos filhos!...

Mas, nesse instante abriu-se a porta e um pequenino servidor das vizinhanças anunciou com grande assombro a lhe transparecer nos olhos:

- Senhores, o soldado Zenas e mais alguns compa­nheiros chamam-vos à porta.

O velho colou a destra ao peito opresso, enquanto Jeziel parecia meditar um instante; todavia, revelando a firmeza do seu espírito resoluto, o jovem exclamou:

— Deus nos protegerá.

Daí a instantes, o mensageiro que chefiava a pe­quena escolta leu o mandado de prisão de toda a família. A ordem era categórica e irrevogável. Os acusados de­veriam ser recolhidos imediatamente ao cárcere, a fim de que se lhes esclarecesse a situação no dia seguinte.

Abraçado aos dois filhos, o pobre israelita marchou à frente da escolta, que os observava sem piedade.

Jochedeb contemplou os canteiros de flores e as árvores bem-amadas junto da casinha singela onde tecera todos os sonhos e esperanças da sua vida. Singular emo­ção dominou-lhe o espírito cansado. Uma torrente de lágrimas fluía-lhe dos olhos e, transpondo a cancela florida, falou em voz alta, olhando o céu claro, agora recamado pelos astros da noite:

— Senhor! compadece-te do nosso amargurado des­tino!...

Jeziel apertou-lhe docemente a mão encarquilhada, como a lhe pedir resignação e calma, e o grupo marchou silenciosamente à luz das estrelas.



2

Lágrimas e sacrifícios
A prisão que recebera as nossas personagens, em Corinto, era um velho casarão de corredores úmidos e escuros, mas a sala destinada aos três, conquanto des­provida de qualquer conforto, apresentava a vantagem de uma janela gradeada, que comunicava o ambiente desolado com a natureza exterior.

Jochedeb estava cansadíssimo e, servindo-se do man­to que apanhara ao acaso, ao retirar-Se, Jeziel impro­visou-lhe um leito sobre as lajes frias. O velho, ator­mentado por uma aluvião de pensamentos, descansava o corpo dolorido, entregue a penosas meditações sobre os problemas do destino humano. Sem saber externar suas dores pungentes, engolfara-se em angustioso mutismo, evitando o olhar dos filhos. Jeziel e Abigail aproximando-se da janela segurando-lhe as grades in­flexíveis e abafando, com dificuldade, a justa inquieta­ção. Ambos olharam, instintivamente, o firmamento, cuja imensidade sempre resumiu a fonte das mais ternas espe­ranças para os que choram e sofrem na Terra.

O jovem abraçou a irmã, com imensa ternura, e disse comovido:

— Abigail, lembras-te da nossa leitura de ontem?

— Sim — respondeu ela com a ingênua serenidade dos seus olhos negros e profundos -, tenho agora a impressão de que os Escritos nos davam uma grande mensagem, pois nosso ponto de estudo foi justamente aquele em que Moisés contemplava, de longe, a terra da Promissão sem poder alcançá-la.

O rapaz sorriu satisfeito por sentir-se identificado nos seus pensamentos e confirmou:

— Vejo que estamos de perfeito acordo, O céu, esta noite, oferece-nos a perspectiva de uma pátria lumi­nosa e distante. Lá — continuava apontando o zimbório estrelado — organiza Deus os triunfos da verdadeira justiça: dá paz aos tristes; conforto aos desalentados da sorte.

Certamente, nossa mãe está com Deus, espe­rando por nós.

Abigail mostrou-se muito impressionada com as pa­lavras do irmão- e acentuou:

— Estás triste? Ficaste agastado com o proceder de nosso pai?

— De modo algum — atalhou o moço afagando-lhe os cabelos —, estamos em experiências que devem ter a melhor finalidade para a nossa redenção, porque, de outro modo, Deus não no-las mandaria.

— Não nos aborreçamos com o pai — tornou a jovem —; estive pensando que, se a mamãe estivesse conosco, ele não chegaria a reclamações de tão tristes conseqüências. Nós não temos aquele poder de persuasão com que ela, carinhosa sempre, iluminava a nossa casa.

Lembras-te? Sempre nos ensinou que os filhos de Deus devem estar prontos para a execução das divinas-vontades. Os profetas, por sua vez, nos esclarecem que os homens são varas no campo da criação. O Todo-Pode­roso é o lavrador e nós devemos ser os galhos floridos ou frutíferos, na sua obra. A palavra de Deus nos ensina a ser bons e amáveis. O bem deve ser a flor e o fruto, que o Céu nos pede.

Nessa altura, a bela jovem fez uma pausa signi­ficativa. Seus grandes olhos estavam velados por um tênue véu de pranto, que não chegava a cair.

— Entretanto, continuou ela, emocionando o irmão carinhoso: sempre desejei fazer algum bem, sem jamais o conseguir. Quando nossa vizinha enviuvou, quis auxi­liá-la com dinheiro, mas não o possuia; sempre que me surge uma oportunidade de abrir as mãos, tenho-as po­bres e vazias. Então, agora, penso que foi útil a nossa prisão. Não será uma felicidade, neste mundo, podermos sofrer alguma coisa por amor de Deus? Quem nada tem, inda possui o coração para dar. E estou convicta de que o Céu nos abençoará pela nossa resolução em servi-lo com alegria.

O rapaz aconchegou-a ao peito e exclamou:

— Deus te abençoe pelo entendimento das suas leis, irmãzinha!

Longa pausa estabelecera-se entre ambos, enquanto mergulhavam no infinito da noite clara os olhos ternos e ansiosos.

Em dado instante, voltou a jovem a considerar:

— Por que será que os filhos de nossa raça são perseguidos em toda parte, provando injustiça e sofri­mentos?

— Suponho — respondeu o moço — que Deus o permite a exemplo do pai amoroso que, para educar os filhos mais jovens e ignorantes, toma por base os filhos mais experientes.

Enquanto os outros povos amortecem forças na dominação pela espada, ou nos prazeres con­denáveis, nosso testemunho ao Altíssimo, pelas dores e amarguras, multiplica em nosso espírito a capacidade de resistência, ao mesmo tempo que os outros homens aprendem a considerar, com o nosso esforço, as verdades religiosas.

E, fixando o olhar sereno no firmamento, acres­centou:

— Mas eu creio no Messias Redentor, que virá esclarecer todas as coisas. Os profetas nos afirmam que os homens não o compreenderão; entretanto, ele há de vir ensinando o amor, a caridade, a justiça e o perdão. Nascerá entre os humildes, exemplificará entre os pobres, iluminará o povo de Israel, levantará os tris­tes e oprimidos, tomará, com amor, todos os que pade­cem no abandono do coração. Quem sabe, Abigail, estará ele no mundo, sem o sabermos? Deus opera em silêncio e não concorre com as vaidades da criatura. Temos fé e a nossa confiança no Céu é uma fonte de força inesgo­tÀvel. Os filhos da nossa raça muito têm padecido, mas Deus saberá por quê, e não nos enviaria problemas de que não necessitássemos.

A jovem pareceu meditar longamente e obtemperou, depois de alguns instantes:

— E já que falamos em sofrimentos, como devere­mos esperar o dia de amanhã? Prevejo grandes contra­riedades no interrogatório e, afinal, que farão os juizes de nosso pai e de nós próprios?

— Não deveremos aguardar senão desgostos e de­cepções, mas não esqueçamos a oportunidade de obedecer a Deus - Quando experimentou a ironia de sua mulher. nas desditas extremas, Job teve a boa lembrança de que, se o Criador nos dá os bens para nossa alegria, pode enviar-nos igualmente os dissabores para nosso proveito. Se o papai for acusado, direi que fui eu o autor do delito.

— E se te flagelarem por isso? — perguntou ela de olhos ansiosos.

— Entregar-me-ei ao flagício com a paz da cons­ciência - Se estiveres junto de mim, nesse instante, can­tarás comigo a prece dos que se encontram em aflição

— E se te matarem, Jeziel?

— Pediremos a Deus que nos proteja.

Abigail abraçou mais ternamente o irmão, que, por sua vez, dissimulava a custo a emoção que lhe ia nalma. A irmã querida constituíra sempre o tesouro afetivo de toda a sua vida. Desde que a morte lhes arrebatara a genitora, dedicara-se à irmã, com todas as veras do coração. Sua vida pura dividia-se entre o trabalho e a obediência ao pai; entre o estudo da lei e a afeição meiga companheira da infância. Abigail contemplava-o. ternamente, enquanto ele a abraçava com o enlevo da amizade pura, que reúne duas almas afins.

Depois de meditar longos minutos, Jeziel falou co­movido: — Se eu morrer, Abigail, hás de prometer-me seguir à risca aqueles conselhos da mamãe, para que tivéssemos a vida sem mácula, neste mundo. Lem­brar-te-ás de Deus e da nossa vida de trabalho santifi­cador, e nunca ouvirás a voz das tentações que arrastam as criaturas à queda nos abismos do caminho.

Recor­das-te das últimas observações da mamãe no leito da morte?

— Se recordo — respondeu Abigail com uma lágri­ma. — Tenho a impressão de ouvir ainda as suas últimas palavras: “e vocês, meus filhos, amarão a Deus acima de tudo, de todo o coração e de todo o entendimento”.

Jeziel sentiu os olhos úmidos, com aquelas recorda­ções, e murmurou:

— Feliz de ti que não esqueceste.

E como quem desejava mudar o rumo da conversa, acrescentou sensibilizado:

— Agora precisas descansar.

Embora ela se recusasse ao repouso, tomou-lhe o manto pobre, improvisou um leito à luz baça do luar que penetrava pelas grades e, osculando-lhe a fronte com indizível ternura, advertiu afetuosamente:

— Descansa, não te impressiones com a situação, nosso destino pertence a Deus.

Abigail, para lhe ser agradável, aquietou-se como pôde, enquanto ele se aproximava da janela para con­templar a beleza da noite polvilhada de luz. Seu coração moço, atufava-se de angustiosas cogitações. Agora que o pai e a irmãzinha repousavam na sombra, dava curso às idéias profundas que lhe empolgavam o espírito generoso. Buscava, ansiosamente, uma resposta às inter­rogações que mandava às estrelas distantes. Esperava, com sinceridade e confiança, no seu Deus de sabedoria e misericórdia, que os pais lhe haviam dado a conhecer.

A seus olhos, o Todo-Poderoso sempre fora infinita­mente justo e bom. Ele, que esclarecera o genitor e con­solara a irmãzinha, perguntava também, por sua vez, dentro de si, o porquê das suas provas dolorosas. Como se justificava, por causa tão comezinha, a prisão ines­perada de um ancião honesto, de um homem trabalhador e de uma criança inocente? Que delito irreparável haviam praticado para merecer expiação tão penosa? O pranto correu-lhe copioso ao relembrar a humilhação da irmã, mas também não procurou enxugar as lágrimas que lhe inundavam o rosto, de maneira a escondê-las de Abigail, que talvez o observasse na sombra. Rememorava, um a um, todos os ensinamentos dos Escritos Sagrados. As lições dos profetas consolavam-lhe a alma ansiosa. En­tretanto, vagava-lhe no coração uma saudade infinita. Lembrava-se do carinho materno que a morte lhe arre­batara. Se presente àquele transe, a mãe saberia como confortá-los. Quando criança, nas suas pequenas con­trariedades, ela ensinava que, em tudo, Deus era bom e misericordioso; que, nas enfermidades, corrigia o corpo, e nas angústias da alma esclarecia, iluminava o coração; no desfile das reminiscências, considerava igualmente que ela sempre o incitara à coragem e à alegria, fazendo-lhe sentir que a criatura convicta da paternidade divina anda, no mundo, fortalecida e feliz.

Edificado na fé, cobrou ânimo e, depois de longas reflexões, aquietou-se na laje fria, procurando o repouso possível no silêncio augusto da noite.

O dia amanheceu prenhe de lúgubres expectativas.

Dentro de poucas horas, Licínio Minúcio, rodeado de numerosos guardas e satélites, recebeu os prisionei­ros na sala destinada aos criminosos comuns, onde se ostentavam alguns instrumentos de punição e suplício.

Jochedeb e os filhos traíam na palidez do semblante a emoção profunda que os dominava.

Os costumes da época eram excessivamente desu­manos para que o juiz implacável e a maioria dos cir­cunstantes se inclinassem à comiseração pelo aspecto desditoso deles.

Alguns esbirros perfilavam-se junto dos potros de castigo, de onde pendiam açoites e algemas impiedosos.

Não houve interrogatório, nem depoimento de tes­temunhas, como seria de esperar antes de providências tão odiosas, e, chamado rudemente pela voz metálica do legado, o velho judeu aproximou-se vacilante e trê­mulo:

— Jochedeb — exclamou o algoz impassível e sa­nhudo —, os que desacatam as leis do Império devem ser punidos de morte, mas eu procurei ser magnânimo, em consideração à tua velhice desamparada.

Um olhar de angustiada expectação transfigurou o rosto do acusado, enquanto o patrício esboçava um sor­riso irônico.

— Alguns operários lá da herdade — continuou Licínio — viram-te as mãos perversas na tarde de ontem, quando incendiaste as pastagens. Esse ato redundou em sérios prejuízos para os meus interesses, além de ocasio­nar males talvez irreparáveis à saúde de dois servos mui prestimosos. Como nada tens de teu para compensar o dano causado, receberás o justo corretivo em flagelações, para que nunca mais venhas a erguer tuas garras de abutre contra os interesses romanos.

Sob o olhar angustiado e lacrimoso dos filhos, o ve­lho israelita ajoelhou-se e murmurou:

— Senhor, por piedade!

— Piedade? — berrou Minúcio com rispidez. — Cometes um crime e imploras favores? Bem se diz que tua raça se compõe de vermes asquerosos e desprezíveis.

E, designando o tronco, disse friamente a um dos sequazeS:

— Pescênio, avia-te! Vergasta-o vinte vezes.

Ante a muda aflição dos jovens, o respeitável ancião foi solidamente algemado.

O castigo ia começar quando Jeziel, rompendo a expectativa geral, aproximou-se da mesa e falou com humildade:

— Questor Ilustríssimo, perdoai minha covardia de haver calado até agora; asseguro-vos, porém, que meu pai está sendo acusado injustamente. Fui eu quem incendiou os terrenos de vossa propriedade, perturbado pela sentença de confisco exarada contra nós. Dignai-vos, pois, libertá-lo e dar-me a mim a merecida punição. Aceitá-la-ei de bom grado.

O patrício teve um lampejo de surpresa nos olhos frios, que se caracterizavam por mobilidade extrema, e acentuou:

— Mas, não auxiliaste os meus homens a salvar uma parte das termas? Não foste o primeiro a medicar Rufílio?

- Assim fiz levado pelo remorso, ilustríssimo -retrucou o rapaz, ansioso por isentar o pai do suplício iminente -; quando vi a extensão do fogo comunicando-se às árvores, temi as conseqüências do ato praticado, mas, agora, confesso ter sido o seu autor.

Nesse ínterim, receoso pela sorte do filho, Jochedeb exclamou, íntimamente atormentado:

- Jeziel, não te inculpes por uma falta que não cometeste!...

Mas, pontilhando as palavras com extrema ironia, o legado replicou, dirigindo-se ao moço hebreu:

- Está bem: poupei-te até agora, baseado nas falsas informações que me deram a teu respeito; contudo, terás também o teu quinhão de disciplina indispensável. Teu pai pagará pelo crime em que foi visto, de maneira inegável; e tu pagarás pelo que confessaste espontaneamente.

Colhido de surpresa pela decisão que não esperava, Jeziel foi conduzido ao poste de tortura, em frente da angústia paterna. A seu lado, postou-se o companheiro de Pescênio, que o atou sem piedade aos elos de bronze, e as primeiras vergastadas começaram a lamber-lhe o dorso, impiedosas, isócronas.

Uma... duas... três...

Jochedeb revelava profunda debilidade, vendo-se-lhe o peito a arfar penosamente, ao passo que o filho demonstrava tolerar o suplício com heroismo e nobre serenidade; ambos de olhos fixos em Abigail, que os contemplava excessivamente pálida, entremostrando nas lágrimas ardentes que derramava o cruciante martírio do seu espírito afetuoso.

A punição terrível ia quase a meio, quando um mensageiro entrou no recinto e, em voz alta, anunciou ao legado, em tom solene:

- Ilustríssimo, portadores de vossa casa participam que o servo Rufílio acaba de falecer.

O cruel patrício franziu o sobrolho como costumava fazer nos momentos de explosão colérica. Sentimentos rancorosos lhe afloraram à face, que a perversidade de egoísmo exacerbado vincara de traços indeléveis.

— Era o melhor dos meus homens — bradou. —Estes judeus malditos pagarão muito caro esta afronta.

— Filócrio, aplica-lhe mais vinte vergastadas e, em seguida, leva-o à prisão, de onde deverá seguir para o cativeiro nas galeras.

Entre as pobres vítimas e a jovem aflita trocou-se um olhar de significação intraduzível.

Aquele cativeiro era a ruína e a morte. E ainda não se haviam recobrado da cruel surpresa, quando o juiz inexorável prosseguiu:

— Quanto a ti, Pescênio, renova a tarefa. Esse velho, criminoso e sem escrúpulos, pagará a morte do meu fiel servidor. Golpeia-lhe as mãos e os pés até que fique impossibilitado de caminhar e praticar o mal.

Ante a sentença iníqua, Abigail caiu de joelhos, em preces ardentes. Do peito do irmão escapavam fundos suspiros, nevoando-se-lhe os olhos de lágrimas dolorosas, ao conjeturar a inexorável desdita da irmãzinha, enquan­to o pai lhes buscava ansiosamente o olhar, receoso da hora extrema.

As vergastadas continuavam sem trégua, mas, de uma feita, Pescênio não conseguira equilibrar-se e a aguçada ponta de bronze do açoite lanhou fundo a gar­ganta do pobre israelita, jorrando o sangue em borbotões. Os filhos compreenderam a gravidade da situação e entreolharam-se ansiosos. Em preces de sublimado fervor, Abigail dirigia-se a Deus, àquele Deus terno e amoroso que sua mãe lhe ensinara a adorar. Filócrio concluírs a sua empreitada.

A fronte de Jeziel erguia-se a custo, exibindo pastoso suor tisnado de sangue. Os olhos fixa­vam-se na irmã muito amada, mas, em todo o seu as­pecto, deixava transparecer profunda fraqueza, que lhe anulava as últimas resistências. Incapaz de definir os próprios pensamentos, Abigail repartia sua atenção an­gustiada com o pai e o irmão; todavia, em breves instan­tes, ao fluxo incessante do sangue que corria abundante, Jochedeb deixou pender, para sempre, a cabeça alvejada de cabelos brancos. O sangue alagara as vestes e empas­tava-se-lhe nos pés.

Sob o olhar cruel do legado, ninguém ousou articular palavra. Apenas o açoite, cortando o ambiente morno da sala, quebrava o silêncio num silvo singular. Mas, notaram que do peito da vítima ainda se escapavam palavras confusas, das quais sobressaiam as carinhosas expressões:

— Meus filhos, meus queridos filhos!...

A jovem talvez não pudesse compreender que che­gara o momento decisivo, mas Jeziel, não obstante o terrível sofrimento daquela hora, tudo compreendeu e, num esforço profundo, gritou para a irmã:

— Abigail, papai está expirando; tem coragem, con­fia... Não posso acompanhar-te na oração... mas fazes por todos nós... a prece dos aflitos...

Dando mostras de fé invejável em tão amarguradas circunstâncias, a jovem, de joelhos, fixou longamente o velho pai cujo peito já não arfava; depois, erguendo os olhos ao Alto, começou a cantar com voz trêmula, porém harmoniosa e cristalina:
“Senhor Deus, pai dos que choram,

Dos tristes, dos oprimidos,

Fortaleza dos vencidos,

Consolo de toda a dor,

Embora a miséria amarga

Dos prantos de nosso erro,

Deste mundo de desterro

Clamamos por vosso amor!


Nas aflições do caminho,

Na noite mais tormentosa,

Vossa fonte generosa

É o bem que não secará.

Sois, em tudo, a luz eterna

Da alegria e da bonança,

Nossa porta de esperança

Que nunca se fechará.”


Suas expressões vocais enchiam o ambiente de so­noridade indefinível. O canto semelhava-se mais a um gorjeio de dor de um rouxinol que cantasse, ferido, numa alvorada de primavera. Tão grande, tão sincera se lhe revelava a fé no Todo-Poderoso, que sua atitude geral era a de uma filha carinhosa e obediente, comunicando-se com o pai silencioso e invisível. O pranto perturbava-lhe a voz trêmula, mas repetia com desassombro a prece aprendida no lar, com a mais formosa expressão de con­fiança no Altíssimo.

Penosa emoção apossara-se de todos. Que fazer com uma criança cantando o suplício dos seus entes amados e a crueldade dos seus verdugos? Soldados e guardas presentes mal dissimulavam a emoção. O próprio questor parecia imobilizado, como que submetido a enfadonho mal-estar. Abigail, estranha à perversidade das criatu­ras, suplicando o amparo do Onipotente, não sabia que o cântico era inútil à salvação dos seus, mas que desper­taria a comiseração pela sua inocência, ganhando-lhe, assim, a liberdade.

Recobrando alento e percebendo que a cena ferira a sensibilidade geral, Licínio esforçou-se por não perder a dureza de espírito e recomendou a um dos velhos ser­vidores, em tom imperioso:

— Justino, leva esta mulher para a rua e solta-a, mas que não cante mais, nem mesmo uma nota!

Diante da ordem retumbante, Abigail não terminou a oração, emudecendo instantaneamente, como se obede­cesse a estranho estacato.

Lançou ao cadáver ensangüentado do pai um olhar inesquecível e, logo contemplando o irmão ferido e alge­mado, com quem trocava as mais íntimas impressões na linguagem dos olhos doridos e ansiosos, sentiu-se tocada pela mão calosa de um velho soldado que lhe dizia em voz quase áspera:

— Acompanha-me!

Ela estremeceu; todavia, endereçando a Jeziel o der­radeiro e significativo olhar, seguiu o preposto de Minú­cio, sem resistência. Após atravessar inúmeros corredores úmidos e sombrios, Justino, modificando sensivelmente a voz, deu-lhe a perceber extrema simpatia por sua figu­ra quase infantil, murmurando-lhe ao ouvido, comovidamente:

— Minha filha, também sou pai e compreendo o teu martírio. Se queres atender a um amigo, escuta o meu conselho. Foge de Corinto a toda pressa. Vale-te deste instante de sensibilidade dos teus verdugos e não vol­tes aqui.

Abigail cobrou algum ânimo e, sentindo-se encora­jada por aquela simpatia imprevista, perguntou extrema­mente perturbada:

— E meu pai?

— Teu pai descansou para sempre — murmurou o generoso soldado.

O pranto da jovem se fez mais copioso, borbulhan­do-lhe dos olhos tristes. Todavia, ansiosa por defender-se contra a perspectiva de solidão, perguntou ainda:

— Mas... e meu irmão?

— Ninguém volta do cativeiro das galeras — res­pondeu Justino com olhar significativo.

Abigail levou as mãos pequeninas ao peito, desejan­do afogar a própria dor. Os gonzos de velha porta ran­geram vagarosamente e o seu inesperado protetor excla­mou, apontando a rua movimentada:

— Vai em paz e que os deuses te protejam.

A pobre criatura não tardou a sentir o insulamento entre as fileiras de transeuntes que cruzavam, apressa­dos, a via pública. Habituada aos carinhos domésticos, no lar onde o idioma paterno substituía a linguagem das ruas, sentiu-se estranha no meio de tantas criaturas inquietas, assoberbadas de interesses e preocupações ma­teriais. Ninguém lhe notava as lágrimas, nenhuma voz amiga procurava inteirar-se das suas íntimas angústias.

Estava só! Sua mãe fora chamada por Deus, anos antes; seu pai acabava de sucumbir covardemente assas­sinado; o irmão, prisioneiro e cativo, sem esperança de remissão. Apesar do sol do meio-dia, tinha a sensação de intenso frio. Deveria regressar ao ninho doméstico?

Mas, com que fim, se haviam sido expulsos? A quem confiar sua enorme desdita?

Lembrou-se de uma velha amiga da família. Procurou-a. A viúva Sostênia, muito afeiçoada à sua mãe, recebeu-a com o sorriso generoso da sua velhice bondosa.

Desfeita em pranto, a infortunada contou-lhe todo o sucedido.

A veneranda velhinha, acariciando-lhe a cabeleira anelada, falou comovida:

— Nas perseguições passadas, nossos sofrimentos foram os mesmos.

E dando a entender que não desejava reviver antigas e dolorosas reminiscências, Sostênia acentuou:

— É indispensável o máximo de coragem nas situa­ções penosas como esta. Não é fácil elevar o coração em meio de tão terríveis escombros; mas é preciso con­fiar em Deus nas horas mais amargas. Que contas fazer, agora que todos os recursos desapareceram? Por minha vez, nada te posso oferecer, senão o coração amigo, pois também aqui estou por esmola da pobre família que me agasalhou caridosamente, na última tempestade da minha vida.

— Sostênia — disse Abigail suspirando —, meus pais me prepararam para uma existência de corajoso esforço próprio. Estou pensando em recorrer ao legado e suplicar-lhe um cantinho da nossa chácara para ali viver uma vida honesta, na esperança de reaver Jeziel e sua fraterna companhia. Que pensas a respeito?

Notando a indecisão da veneranda amiga, continuou:

— Quem sabe o questor Licínio se condoerá da mi­nha sorte? Minha resolução talvez o enterneça; voltarei para casa e levar-te-ei comigo. Ser-me-ias uma segunda mãe para o resto da vida.

Sostênia conchegou-a de encontro ao coração e acen­tuou de olhos úmidos:

— Minha querida, tu és um anjo, mas o mundo ainda é propriedade dos maus. Viveria contigo eterna­mente, minha boa Abigail; entretanto, não conheces o legado nem a sua camarilha. Ouve, filha! É preciso que fujas de Corinto, de modo a não incidires em mais duras humilhações.

A moça teve uma exclamação de abatimento e, de­pois de longa pausa, acrescentou:

Aceitarei teus conselhos, mas, antes de qualquer providência, necessito voltar a casa.

— Para quê? — interrogou a amiga admirada. — É imprescindível que partas quanto antes. Não voltes ao lar. A esta hora, é possível já esteja ocupado por homens sem escrúpulos, que te não respeitariam. Con­vém-te uma atitude de sincera fortaleza moral, pois vivemos uma época em que necessitamos fugir da perdi­ção, como Lot e seus familiares, correndo o risco de sermos transformados em estátua inútil, se olharmos para trás.

A irmã de Jeziel bebia-lhe as palavras com dolo­rosa estranheza, em face do imprevisto da situação.

Passado um momento, Sostênia levou a mão à fron­te, como a recordar uma providência oportuna e falou com animação:

— Lembras-te de Zacarias, filho de Hanan?

— Aquele amigo da estrada de Cencréia?

— Ele mesmo. Fui informada de que, em compa­nhia da esposa, prepara-se para deixar definitivamente a Acaia, por haver sido assassinado pelos romanos irres­ponsáveis, nestes últimos dias, o seu único filho.

Confortada por ardente esperança, concluía com ansiedade:

— Corre à casa de Zacarias! Se ainda o encontra­res, fala-lhe em meu nome. Pede-lhe acolhimento. Ruth é um coração generoso e não deixará de estender-te as mãos generosas e fraternais; sei que ela te receberá com afagos maternos!...

Abigail tudo ouvia, parecendo indiferente à própria sorte. Mas Sostênia fê-la considerar a necessidade do recurso e, decorridos minutos de consolações recípro­cas, a jovem, sob o calor causticante das primeiras horas da tarde, pôs-se a caminho para Cencréia, dando a im­pressão de um autômato que vagasse na estrada, a que vários veículos e inúmeros pedestres imprimiam considerável movimento. O porto de Cencréia ficava a certa distância do centro de Corinto. Situado de maneira a servir às comunicações com o Oriente, seus bairros populosos estavam cheios de famílias israelitas, fixadas de longa data nas regiões da Acaia, ou em trânsito para a capital do Império e adjacências. A irmã de Jeziel chegou à casa de Zacarias dominada por terrível abatimento. Aliado à vigília da última noite e às angústias do dia, penoso cansaço físico lhe agravava os desalentos. Pernas trôpegas, a relembrar o pai morto e o irmão prisioneiro, não reparava em si própria, no mísero estado do seu organismo enfermo e desnutrido. Somente ao defrontar a modesta morada do amigo, verificou que a febre come­çava a devorar-lhe as entranhas, obrigando-a a refletir nas suas dolorosas necessidades.

Zacarias e Ruth, sua mulher, atendendo ao chamado, receberam-na espantados e aflitos.

— Abigail!...

O grito de ambos revelava grande surpresa, com o aspecto da jovem despenteada, face esfogueada, olhos fundos e vestes em desalinho.

A filha de Jochedeb, perturbada pela fraqueza e pela febre, rojou-se aos pés do casal, exclamando em tom lancinante:

— Meus amigos, tende piedade do meu infortú­nio!... Nossa boa Sostênia lembrou-me vosso afeto, no transe doloroso por que passo. Eu, que já não tinha mãe, tive hoje meu pai assassinado e Jeziel escravizado sem remissão. Se é verdade que partireis de Corinto, levai-me, por compaixão, em vossa companhia!

Abigail abraçava-se agora a Ruth, ansiosamente, enquanto a amiga a acarinhava entre lágrimas.

Soluçante, a jovem relatou os fatos da véspera e os tristes episódios daquele dia.

Zacarias, cujo coração paterno acabava de sofrer tremendo golpe, abraçou-a com afeto e amparou-a sensi­bilizado, exclamando solícito:

— Dentro de uma semana voltaremos à Palestina. Ainda não sei bem onde nos vamos fixar, mas nós, que perdemos o filho querido, teremos em ti uma filha estremecida.­ Acalma-te! Irás conosco, serás nossa filha para sempre.

Incapaz de traduzir seu jubiloso agradecimento, ator­mentada pela febre alta, a jovem ajoelhou-se, em pranto, procurando externar sua gratidão carinhosa e sincera. Ruth tomou-a ternamente nos braços e, qual desvelado anjo maternal, conduziu-a a um leito macio, onde Abigail, assistida pelos dois amigos generosos, delirou três dias. entre a vida e a morte.


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