Paulo e estevão francisco cândido xavier



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(1) Mateus, capítulo 5º, versículo 25. — (Nota de Emmanuel.)

sobre ela, não seria lançar uma tempestade de imprevi­síveis conseqüências para os necessitados e desfavoreci­dos do mundo? Recordou a juventude e a longa perse­guição que chegara a mover contra os discípulos do Crucificado. Teve a nítida recordação do dia em que efetuara a prisão de Pedro entre os aleijados e os en­fermos que o cercavam, soluçantes.

Lembrou que Jesus o chamara para o divino serviço, às portas de Damasco; que, desde então, sofrera e pregara, sacrificando-Se a si mesmo e ensinando as verdades eternas, organizando igrejas amorosas e acolhedoras, onde os “filhos do Cal­vário” tivessem consolo e abrigo, de conformidade com as exortações de Abigail; e assim chegou à conclusão de que devia aos sofredores de Jerusalém alguma coisa que era preciso restituir. Em outros tempos, fomentara a confusão, privara-os da assistência carinhosa de Estevão, iniciara banimentos impiedosos. Muitos doentes foram obrigados a renegar o Cristo em sua presença, na cidade dos rabinos. Não seria aquela a ocasião adequada para resgatar a dívida enorme? Paulo de Tarso iluminado agora pelas mais santas experiências da vida, com o Mestre Amado, levantou-se e a passos resolutos dirigiu-se ao portador que o esperava em atitude humilde:

— Amigo, vem descansar, que bem precisas. Leva­rás a resposta em breves dias.

— Ireis a Jerusalém? — interrogou Abdias com certa ansiedade, como se conhecesse a importância do assunto.

— Sim — respondeu o Apóstolo.

O emissário foi tratado com todo o carinho. Paulo procurou ouvir-lhe as impressões pessoais sobre a per­seguição novamente desfechada contra os discípulos do Cristo; buscou firmar idéias sobre o que competia fazer; mas, não conseguia furtar-se a certas preocupações im­periosas e aparentemente insolúveis. Como proceder em Jerusalém? Que espécie de esclarecimentos deveria pres­tar aos rabinos do Sinédrio? Qual o testemunho que com­petia dar?

Grandemente apreensivo, adormeceu aquela noite, depois de pensamentos torturantes e exaustivos. Sonhou, porém, que se encontrava em longa e clara estrada tona­Lizada de maravilhosos clarões opalinos. Não dera muitos passos, quando foi abraçado por duas entidades carinho­sas e amigas. Eram Jeziel e Abigail, que o enlaçavam com indizível carinho. Extasiado, não pôde murmurar uma palavra. Abigail agradeceu-lhe a ternura das lem­branças comovidas, em Corinto, falou-lhe dos júbilos do seu coração e rematou com alegria:

— Não te inquietes, Paulo. Ë preciso ir a Jerusa­lém para o testemunho imprescindível.

No íntimo, o Apóstolo reconsiderava o plano de excursão a Roma, no seu nobre intuito de ensinar as verdades cristãs na sede do Império. Bastou pensá-lo, para que a voz querida se fizesse ouvir novamente, em timbre familiar:

Tranqüiliza-te, porque irás a Roma cumprir um sublime dever; não, porém, como queres, mas de acordo com os desígnios do Altíssimo...

E logo esboçando angelical sorriso:

— Depois, então, será a nossa união eternal em Jesus-Cristo, para a divina tarefa do amor e da verdade à luz do Evangelho.

Aquelas palavras caíram-lhe nalma com a força de uma profunda revelação. O Apóstolo dos gentios não saberia explicar o que se passou no âmago do seu Espí­rito. Sentia, simultaneamente, dor e prazer, preocupação e esperança. A surpresa pareceu impedir o seguimento da visão inesquecível. Jeziel e a irmã, endereçando-lhe gestos amorosos, pareciam desaparecer numa faixa de névoas transparentes. Acordou em sobressalto e concluiu, desde logo, que devia preparar-se para os derra­deiros testemunhos.

No dia seguinte, convocou uma reunião dos amigos e companheiros de Corinto. Mandou que Abdias expli­casse, de viva voz, a situação de Jerusalém e expôs o plano de passar pela capital do judaísmo antes de seguir para Roma. Todos compreenderam os sagrados imperativos da nova resolução. Lucas, todavia, adiantou-se e perguntou:

— De acordo com a modificação do projeto, quando pretendes partir?

— Dentro de poucos dias — respondeu resoluto.

— Impossível — respondeu o médico —, não pode­remos concordar com a tua viagem, a pé, a Jerusalém; além de tudo, precisas descansar alguns dias depois de tantas lutas.

O ex-rabino refletiu um momento e concordou:

— Tens razão. Ficarei em Corinto algumas sema­nas; no entanto, pretendo fazer a viagem por etapas, no intuito de visitar as comunidades cristãs, pois tenho a intuição ‘de minha partida breve, para Roma, e de que não mais verei as igrejas amadas, em corpo mortal...

Essas palavras eram pronunciadas em tom melan­cólico. Lucas e os demais companheiros ficaram silen­ciosos e o Apóstolo continuou:

— Aproveitarei o tempo instruindo Apólo sobre os trabalhos indispensáveis do Evangelho, nas diversas re­giões da Acaia.

Em seguida, desfazendo a impressão de suas afir­mativas menos animadoras, no tocante à viagem a Roma, incutiu novo alento ao auditório, emitindo conceitos oti­mistas e esperançosos. Traçou vasto programa para os discípulos, recomendando atividades à maioria, entre as comunidades de toda a Macedônia, a fim de que todos os irmãos estivessem a postos para as suas despedidas; outros foram despachados para a Ásia com idênticas instruções.

Decorridos três meses de permanência em Corinto, novas perseguições dos judeus foram desfechadas contra a instituição. A sinagoga principal da Acaia havia rece­bido secretas notificações de Jerusalém. Nada menos que a eliminação do Apóstolo, a qualquer preço.

Paulo percebeu a insídia e despediu-se prudentemente dos corín­tios, partindo em companhia de Lucas e Silas, a pé, para visitar as igrejas de Macedônia.

Por toda a parte pregou a palavra do Evangelho, convencido de que era a última vez que fixava aquelas paisagens.

Despedia-se, comovido, dos velhos amigos de outros tempos. Fazia recomendações, no tom de quem ia partir para sempre. Mulheres reconhecidas, anciães e crianças acorriam a beijar-lhe as mãos com enternecimento. Che­gando a Filipes, cuja comunidade fraternal lhe falava mais intimamente ao coração, sua palavra suscitou tor­rentes de lágrimas. A igreja amorosa, que vicejava para Jesus à margem do Gangas, consagrava ao Apóstolo dos gentios singular afeição. Lídia e seus numerosos auxilia­res, num impulso muito humano, queriam retê-lo em sua companhia, insistiam para que não prosseguisse, receosos das perseguições do farisaismo. E o Apóstolo, sereno e confiante, acentuava:

— Não choreis, irmãos. Convicto estou do que me compete fazer e não devo esperar flores e dias felizes. Cumpre-me aguardar o fim, na paz do Senhor Jesus. A existência humana é de trabalho incessante e os der­radeiros sofrimentos são a coroa do testemunho.

Eram exortações cheias de esperanças e alegrias, por confortar os mais tímidos e renovar a fé nos cora­ções fracos e sofredores.

Dando por terminada a tarefa nas zonas de Fili­pes. Paulo e os companheiros navegaram com destino a Trôade. Nesta cidade, o Apóstolo fez, com inexcedível êxito, a derradeira pregação na sétima noite de sua chegada, verificando-se o célebre incidente com o jovem Éutico, que caiu de uma janela do terceiro andar do prédio em que se realizavam as práticas evangélicas, sendo imediatamente socorrido pelo ex-rabino, que o colheu semimorto e devolveu-lhe a vida em nome de Jesus.

Em Trôade, outros confrades se reuniram à pequena caravana. Atentos à recomendação de Paulo, partiram com Lucas e Silas para Assôs, a fim de contratar a preço módico algum velho barco de pescadores, porqüanto o Apóstolo preferia viajar desse modo entre as ilhas e por­tos numerosos, para despedir-se dos amigos e irmãos que por ali mourejavam. Assim aconteceu; e, enquanto os colaboradores tomavam embarcação confortável, o ex-rabino palmilhou mais de vinte quilômetros de estrada, só pelo prazer de abraçar os continuadores humildes da sua grandiosa faina apostólica.

Adquirindo em seguida um barco muito ordinário, Paulo e os discípulos prosseguiram a viagem para Jeru­salém, distribuindo consolações e socorros espirituais às comunidades humildes e obscuras.

Em todas as praias eram gestos comovedores, adeu­ses amargurosos. Em Éfeso, porém, a cena foi muito mais triste, porque o Apóstolo solicitara o compareci­mento dos anciães e dos amigos, para falar-lhes parti­cularmente ao coração. Não desejava desembarcar, no intuito de prevenir novos conflitos que lhe retardassem a marcha; mas, em testemunho de amor e reconhecimento, a comunidade em peso lhe foi ao encontro, sen­sibilizando-lhe a alma afetuosa.

A própria Maria, avançada em anos, acorrera de longe em companhia de João e outros discípulos, para levar uma palavra de amor ao paladino intimorato do Evangelho de seu Filho. Os anciães receberam-no com ardorosas demonstrações de amizade, as crianças ofere­ciam-lhe merendas e flores.

Extremamente comovido, Paulo de Tarso prelecio­nou em despedida e, quando afirmou o pressentimento de que não mais ali voltaria em corpo mortal, houve grandes explosões de amargura entre os efésios.

Como que tocados pela grandeza espiritual daquele momento, quase todos se ajoelharam no tapete branco da praia e pediram a Deus protegesse o devotado bata­lhador do Cristo.

Recebendo tão belas manifestações de carinho, o ex-rabino abraçou, um por um, de olhos molhados. A maioria atirava-se-lhe nos braços amoro­sos, soluçando, beijando-lhe as mãos calosas e rudes. Abraçando, por último, à Mãe Santíssima, Paulo tomou­-lhe a destra e nela depôs um beijo de ternura filial.

A viagem continuou com as mesmas características. Rodes, Pátara, Tiro, Ptolemaida e, finalmente, Cesaréia. Nesta cidade, hospedaram-se em casa de Filipe, que ali fixara residência desde muito tempo. O velho compa­nheiro de lutas informou Paulo dos fatos mínimos de Jerusalém, onde muito esperavam do seu esforço pessoal para continuação da igreja. Muito velhinho, o generoso galileu falou da paisagem espiritual da cidade dos rabi­nos, sem disfarçar os receios que a situação lhe causava. Não somente isso constrangeu os missionários. Agabo, já conhecido de Paulo em Antioquia, viera da Judéia e, em transe mediúnico na primeira reunião íntima em casa de Filipe, formulou os mais dolorosos vaticínios. As perspectivas eram tão sombrias que o próprio Lucas chorou. Os amigos rogaram a Paulo de Tarso que não partisse. Seria preferível a liberdade e a vida a benefício da causa.

Ele, porém, sempre disposto e resoluto, referiu-se ao Evangelho, comentou a passagem em que o Mestre pro­fetizava os martírios que o aguardavam na cruz e con­cluía arrebatadamente:

— Por que chorarmos magoando o coração? Os se­guidores do Cristo devem estar prontos para tudo. Por mim, estou disposto a dar testemunho, ainda que tenha de morrer em Jerusalém pelo nome do Senhor Jesus!.

A impressão dos vaticínios de Agabo ainda não havia desaparecido, quando a casa de Filipe recebeu nova surpresa, no dia imediato. Os cristãos -de Cesaréia leva­ram à presença do ex-rabino um emissário de Tiago, de nome Mnason. O Apóstolo galileu soubera da chegada do convertido de Damasco ao porto palestinense e dera-se pressa em se comunicar com ele, mediante um portador devotado à causa comum. Mnason explicou ao ex-rabino o motivo de sua presença, advertindo-o dos perigos que arrostaria em Jerusalém, onde o ódio sectarista esfer­vilhava e atingia as mais atrozes perseguições. Dadas a exaltação e a vigilância do judaísmo, Paulo não deveria procurar imediatamente a igreja, mas, hospedar-se em casa dele, mensageiro, onde Tiago iria falar-lhe em par­ticular e assim resolverem o que melhor conviesse aos sagrados interesses do Cristianismo. Isto posto, o Após­tolo dos gentios seria recebido na instituição de Jerusa­lém, para discutir com os atuais diretores os destinos da casa.

Paulo achou muito razoáveis os cuidados e suges­tões de Tiago, mas preferiu seguir os alvitres verbais do portador.

Angustiosas sombras pairavam no espírito dos com­panheiros do grande Apóstolo, quando a caravana, se­guida de Mnason, se deslocou de Cesaréia para a capital do judaísmo. Como sempre, Paulo de Tarso anunciou a Boa Nova nos burgos mais humildes.

Após alguns dias de marcha vagarosa, para que todos os trabalhos apostólicos fossem suficientemente atendidos, os discípulos do Evangelho transpuseram as portas da cidade dos rabinos, assomados de graves preocupações.

Envelhecido e alquebrado, o Apóstolo dos gentios contemplou os edifícios de Jerusalém, demorando o olhar na paisagem árida e triste que lhe recordava os anos da mocidade tumultuosa e morta para sempre. Elevou o pensamento a Jesus e pediu-lhe que o inspirasse no cumprimento do sagrado ministério.

8

O martírio em Jerusalém


Obedecendo às recomendações de Tiago, Paulo de Tarso hospedou-se em casa de Mnason, antes de qual­quer entendimento com a igreja. O Apóstolo galileu pro­meteu visitá-lo na mesma noite.

Pressentindo acontecimentos de importância naquela fase de sua existência, o ex-rabino aproveitou o dia tra­çando planos de trabalho para os discípulos mais diretos.

À noite, quando espesso manto de sombras envolvia a cidade, Tiago apareceu, cumprimentando o companheiro em atitude muito humilde. Também ele estava envelhe­cido, exausto, doente. O convertido de Damasco, ao con­trário de outras vezes, experimentou extrema simpatia pela sua pessoa, que parecia inteiramente modificada pelos reveses e tribulações da vida.

Trocadas as primeiras impressões relativamente às viagens e feitos evangélicos, o companheiro de Simão Pedro pediu ao ex-rabino lhe marcasse lugar e hora em que pudessem falar mais intimamente.

Paulo atendeu de pronto, seguindo ambos para um aposento particular.

O filho de Alfeu começou explicando o motivo de suas graves apreensões. Havia mais de um ano que os rabinos Eliakím e Enoch deliberaram reviver os pro­cessos de perseguições iniciados por ele, Paulo, quando da sua movimentada gestão no Sinédrio. Alegaram que o antigo doutor incidira nos sortilégios e feitiçarias da espúria grei, comprometendo a causa do judaísmo, e não era justo continuar tolerando a situação, tão-somente porque o doutor tarsense perdera a razão, no caminho de Damasco. A iniciativa ganhara enorme popularidade nos círculos religiosos de Jerusalém e o maior instituto legis­lativo da raça — o Sinédrio — aprovou as medidas pro­postas. Reconhecendo que a obra evangelizadora de Paulo produzia maravilhosos frutos de esperança em toda a parte, conforme as notícias incessantes, de todas as sinagogas das regiões por ele percorridas, o grande Tribunal começou por decretar a prisão do Apóstolo dos gentios. Numerosos processos de perseguição individual, deixados a meio por Paulo de Tarso, quando de sua inesperada conversão, foram restaurados e, o que era mais grave — quando falecidos os réus, era a pena aplicada aos descendentes, que, assim, eram torturados, humilhados, desonrados!

O ex-rabino tudo ouvia calado, estupefato.

Tiago prosseguia, esclarecendo que tudo fizera por atenuar os rigores da situação.

Mobilizara influências políticas ao seu alcance, conseguindo atenuar umas tan­tas sentenças mais iníquas. Não obstante o banimento de Pedro, procurou manter os serviços de assistência aos desvalidos, bem como a colônia de serviço, fundada por inspiração do convertido de Damasco e na qual os convalescentes e desamparados encontravam precioso am­biente de atividade remunerada e pacífica. Depois de vários entendimentos com o Sinédrio, por intermédio de amigos influentes no judaísmo, teve a satisfação de abrandar o rigor das exigências a serem aplicadas no caso dele, Paulo. O ex-doutor de Tarso ficaria com liberdade de agir, poderia continuar propugnando suas convicções íntimas; daria, porém, uma satisfação pú­blica aos preconceitos de raça, atendendo aos quesitos que o Sinédrio lhe apresentaria por intermédio de Tiago, que se mostrava seu amigo. O companheiro de Simão Pedro explicava que as exigências eram muito rigorosas a princípio, mas agora, mercê de enormes esforços, cin­giam-se a uma obrigação de somenos.

Paulo de Tarso escutava-o extremamente sensibili­zado. Dono de luminoso cabedal evangélico, entendia chegado o momento de testemunhar seu devotamento ao Mestre, justamente através do mesmo órgão de persegui­ção que a sua ignorância engendrara em outros tempos. Naqueles minutos rápidos, sutilizou a mnemônica e lobri­gou os quadros terríveis de outrora... Velhos torturados em sua presença, para sentir o prazer da apostasia cristã, com a repetição do voto de fidelldade eterna a Moisés; mães de família arrancadas de seus lares obscuros, obri­gadas a jurar pela Antiga Lei, que renegavam o carpin­teiro de Nazaré, abominando a cruz do seu martírio e ignomínia. Os soluços daquelas mulheres humildes, que abjuravam da fé porque se viam feridas no que possuíam de mais nobre, o instinto maternal, chegavam, agora, a seus ouvidos como brados de angústia, clamando resgates dolorosos. Todas as cenas antigas desdobravam-se-lhe na retina espiritual, sem omissão do mais insignificante por­menor. Moços robustos, arrimos de famílias numerosas, que saíam mutilados do cárcere; jovens ‘que pediam vin­gança, crianças que reclamavam os pais encarcerados. Entestando as revocações encapeladas, passou ao quadro da morte horrível de Estevão com as pedradas e insul­tos do povo; reviu Pedro e João abatidos e humildes, à barra do Tribunal, como se fossem malfeitores e crimi­nosos. Agora, ali estava ele perante o filho de Alfeu, que nunca o compreendera de forma integral, a falar-lhe em nome do passado e em nome do Cristo, como a conci­tá-lo ao resgate de suas derradeiras dívidas angustiosas.

Paulo de Tarso sentiu que uma lágrima lhe apon­tava nos olhos, sem chegar a cair. Que espécie de tor­tura lhe estaria reservada? Quais as determinações da autoridade religiosa a que Tiago se referia com evidente interesse?

Quando o companheiro de Simão fez uma pausa mais longa, o ex-rabino perguntou muito comovido:

— Que pretendem eles de mim?

O filho de Alfeu fixou nele os olhos serenos e explicou:

— Depois de muito relutarem, os israelitas congre­gados em nossa igreja vão pedir-te, apenas, que pagues as despesas de quatro homens pobres, que fizeram voto de nazireu, comparecendo com eles no templo, durante sete dias consecutivos, para que todo o povo possa ver que continuas bom judeu e leal filho de Abraão... À primeira vista, a demonstração poderá parecer pueril; entretanto, colima, como vês, satisfazer a vaidade fa­risaica.

O ex-rabino fez um gesto muito seu, quando con­trariado, e replicou:

— Pensei que o Sinédrio ia exigir minha morte!... Tiago compreendeu quanto de repugnância transbor­dava de semelhante observação e objetou:

— Bem sei que isso te repugna e, contudo, insisto para que acedas, não por nós, propriamente, mas pela igreja e pelos que de futuro nos hajam de secundar.

— Isso — obtemperou Paulo, com enorme desen­canto — não representa nobreza alguma. Essa exigência é uma ironia profunda e visa reduzir-nos a crianças, de tão fútil que é.

Não é perseguição, é humilhação; é o desejo de exibir homens conscientes como se fossem meninos volúveis e ignorantes...

Tiago, porém, tomando uma atitude carinhosa que o ex-rabino jamais lhe surpreendera em qualquer cir­cunstâncias da vida, falou com extrema ternura frater­nal, revelando-se ao companheiro surpreendido, por outro prisma:

Sim, Paulo, compreendo tua justa aversão. O Sinédrio, com isso, pretende achincalhar nossas con­vicções. Sei que a tortura na praça pública te doeria menos; entretanto, supões que isso não represente, para mim uma dor de muitos anos?... Acreditarias, acaso, que minhas atitudes nascessem de um fanatismo incons­ciente e criminoso? Compreendi, muito cedo, desde a primeira perseguição, que a tarefa de harmonização da igreja, com os judeus, estava mais particularmente em minhas mãos. Como sabes, o farisaísmo sempre viveu numa exuberante ostentação de hipocrisia; mas, con­venhamos, também, que é o partido dominante, tradicio­nal, das nossas autoridades religiosas. Desde o primeiro dia, tenho sido obrigado a caminhar com os fariseus muitas milhas para conseguir alguma coisa na manutenção­ da igreja do Cristo. Fingimento? Não julgues tal. Muitas vezes o Mestre nos ensinou, na Galiléia, que o melhor testemunho está em morrer devagarinho, dia­riamente, pela vitória da sua causa; por isso mesmo, afiançava que Deus não deseja a morte do pecador, porque é na extinção de nossos caprichos de cada dia que encontramos a escada luminosa para ascender ao seu infinito amor. A atenção que tenho dedicado aos judeus é gêmea do carinho que consagras aos gentios. A cada um de nós confiou Jesus uma tarefa diferente na forma, mas idêntica no fundo. Se muitas vezes tenho provocado falsas interpretações das minhas atitudes, tudo isso é mágoa para meu Espírito habituado à simplicidade do ambiente galileu. De que nos valeria o conflito des­truidor, quando temos grandiosos deveres a cuidar? Importa-nos saber morrer, para que nossas idéias se transmitam e floresçam nos outros. As lutas pessoais, ao contrário, estiolam as melhores esperanças. Criar separações e proclamar seus prejuízos, dentro da igreja do Cristo, não seria exterminarmos a planta sagrada do Evangelho por nossas próprias mãos?

A palavra de Tiago toava imantada de bondade e sabedoria e valia por consoladora revelação. Os galileus eram muito mais sábios que qualquer dos rabinos mais cultos de Jerusalém. Ele, que chegara ao mundo reli­gioso através de escolas famosas, que tivera sempre na mocidade, a inspiração de um Gamaliel, admirava agora aqueles homens aparentemente rústicos, vindos das chou­panas de pesca, que, em Jerusalém, alcançavam inesque­cíveis vitórias intelectuais, somente porque sabiam calar quando oportuno, aliando à experiência da vida uma enorme expressão de bondade e renúncia, à feição do Divino Mestre.

O convertido de Damasco entreviu o filho de Alfeu por um novo prisma. Seus cabelos grisalhos, o rugoso e macilento rosto, falavam de trabalhos árduos e incessan­tes. Agora, percebia que a vida exige mais compreensão que conhecimento. Presumia conhecer o Apóstolo galileu com o seu cabedal psicológico, e, no entanto, chegava à conclusão de que apenas naquele instante pudera com­preendê-lo no título que lhe competia.

Quando o companheiro de Simão Pedro fez uma pausa mais longa, Paulo de Tarso contemplou-o com imensa simpatia e falou comovidamente:

— Vejo que tens razão, mas a exigência requer dinheiro. Quanto terei de pagar pela sentença? Segre­gado e distante do judaísmo há muitos anos, ignoro se os cerimoniais sofreram alterações apreciáveis.

— Os preceitos são os mesmos — respondeu Tiago —, já que serás obrigado a te purificares com eles e, segundo as tradições, custearás a compra de quinze ovelhas, além dos comestíveis preceituais.

— É um absurdo! — objetou o Apóstolo dos gentios.

— Como sabes, a autoridade religiosa exige de cada nazireu três animais para os serviços da consagração.

— Dura exigência — disse Paulo comovido.

— No entanto — replicou Tiago, com um sorriso —, nossa paz vale muito mais que isso e, além dela, somos obrigados a não comprometer o futuro do Cristianismo.

O convertido de Damasco descansou o rosto na mão direita por longo tempo, dando a perceber a amplitude de suas meditações, e acabou falando em diapasão que traía a sua enorme sensibilidade:

— Tiago, como tu mesmo, atingi hoje um nível mais alto de compreensão da vida. Entendo melhor os teus argumentos. A existência humana é bem uma ascen­são das trevas para a luz. A juventude, a presunção de autoridade, a centralização de nossa esfera pessoal, acarretam muitas ilusões, laivando de sombras as coisas mais santas. Assiste-me o dever de curvar-me às exi­gências do judaísmo, conseqüentes de uma perseguição por mim próprio iniciada em outros tempos.

Deteve-se, evidenciando dificuldade para confessar-se plenamente. Mas tomando uma atitude mais humilde, como quem não encontra outro recurso, prosseguiu quase tímido:

Nas minhas lutas, nunca me presumi vítima, considerando-me sempre como antagonista do mal. Só Jesus, em sua pureza e amor imaculados, podia alegar a condição de anjo vitimado por nossa maldade sombria; quanto a mim, por mais que me apedrejassem e ferissem, sempre julguei que era muito pouco em relação ao que me competia sofrer nos justos testemunhos. Agora, porém, Tiago, estou preocupado com um pequenino obstáculo.

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