Paulo e estevão francisco cândido xavier



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Como não ignoras, tenho vivido absolutamente do meu trabalho de tecelão e, presentemente, não dispo­nho de dinheiro com que possa prover às despesas em perspectiva...

Seria a primeira vez que houvesse de re­correr à bolsa alheia, quando a solução do assunto de­pende exclusivamente de mim...

Suas palavras demonstravam acanhamento, aliado à tristeza comumente experimentada nos dias de humi­lhação e de infortúnio. Ante aquela expressão de renún­cia, Tiago, num movimento de grande espontaneidade, tomou-lhe a mão e beijou-a murmurando:

— Não te aflijas: sabemos em Jerusalém da exten­são de teus esforços pessoais e não seria razoável que a igreja se desinteressasse dessas imposições que se não justificam ... Nossa instituição pagará todas as despesas. Não é pouco concordares com o sacrifício.

Conversaram ainda longo tempo, com relação aos problemas interessantes à propaganda evangélica e, no dia seguinte, Paulo e os companheiros compareceram na igreja de Jerusalém, recebidos por Tiago acompanhado de todos os anciães judeus, simpatizantes do Cristo e seguidores de Moisés, congregados para ouvi-lo.

A reunião começou com rigoroso cerimonial, per­cebendo o ex-rabino a extensão das influências farisaicas no instituto que se destinava à sementeira luminosa do Divino Mestre.

Seus companheiros, acostumados à inde­pendência do Evangelho, não conseguiam ocultar a sur­presa; mas, com um gesto, o convertido de Damasco fez que todos permanecessem silenciosos.

Convidado a explicar-se, o ex-rabino leu um longo relatório de suas atividades junto dos gentios, havendo-se com muita ponderação e inexcedível prudência.

Os judeus, que, contudo, pareciam definitivamente instalados na igreja, mantendo as velhas atitudes dos mestres de Israel, pelo seu vogal Cainan, formularam ao ex-doutor conselhos e censuras. Alegaram que tam­bém eram cristãos, mas, rigorosos observadores da Lei Antiga; que Paulo não deveria trabalhar contra a cir­cuncisão e lhe cumpria dar ampla satisfação de seus atos.

Com profunda admiração dos companheiros, o ex-rabino mantinha-se calado, recebendo as objurgatórias e repreensões com imprevista serenidade.

Por fim, Cainan fez a proposta a que Tiago se re­ferira na véspera. A fim de satisfazer a exigência do Sinédrio, o tecelão de Tarso deveria purificar-se no Tem­plo, com quatro judeus paupérrimos que haviam feito voto de nazireus, ficando o Apóstolo dos gentios obrigado a custear todas as despesas.

Os amigos de Paulo surpreenderam-Se, ainda mais, quando o viram levantar-se na assembléia preconceituosa e confessar-se pronto a atender a íntimação.

O representante dos anciães discorreu, ainda, pedante e demoradamente sobre os preceitos da raça, ouvido por Paulo com beatifica paciência.

Regressando à casa de Mnason, o ex-rabino procurou informar os companheiros das razões da sua atitude. Ha­bituados a acatar-lhe as decisões confiadamente, dispen­saram-se de perguntas quiçá supérfluas, mas desejavam acompanhar o Apóstolo ao Templo de Jerusalém, para experimentarem alguma coisa da sua renúncia sincera, com relação ao futuro do evangelismo. Paulo frisou a conveniência de seguir só, mas Trófimo, que ainda se demorava alguns dias em Jerusalém, antes de regressar a Antioquia, insistiu e conseguiu que o Apóstolo lhe aceitasse a companhia.

O comparecimento de Paulo de Tarso no Templo, acompanhando quatro irmãos de raça, em mísero estado de pobreza, a fim de com eles purificar-se e pagar-lhes as despesas do voto, causou enorme sensação em todos os círculos do farisaísmo. Acenderam-se discussões vio­lentas e rudes. Assim que viu o ex-rabino humilhado, o Sinédrio pretendia impor sentenças novas. Já não lhe bastavam as imposições anteriores - No segundo dia da santificação, o movimento popular crescera no Templo em proporções assustadoras. Todos queriam ver o célebre doutor que enlouquecera às portas de Damasco, devido ao sortilégio dos galileus. Paulo observava a eferves­cência do cenário em torno da sua personalidade e pedia a Jesus não lhe faltasse com as energias suficientes. No terceiro dia, à falta de outro pretexto para condenação maior, alguns doutores alegaram que Paulo tinha o atrevimento de se fazer acompanhar aos lugares sagrados por um homem de origem grega, estranho às tradições israelitas. Trófimo nascera em Antioquia, de pais gregos, tendo vivido muitos anos em Éfeso; entretanto, apesar do sangue que lhe corria nas veias, conhecia os preceitos do judaísmo e portava-se, nos recintos consagrados ao culto, com inexcedível respeito. As autoridades, contudo, não quiseram ponderar tais particularidades. Era pre­ciso condenar Paulo de Tarso novamente, haviam de fazê-lo a qualquer preço.

O ex-rabino percebeu a trama que se delineava e rogou ao discípulo não mais o acompanhasse ao monte Moriá, onde se processavam os serviços religiosos. O ódio farisaico, porém, continuava a fermentar.

Na véspera do último dia da purificação judaica, o convertido de Damasco compareceu às cerimônias com a mesma humildade. Logo, porém, que se colocou em posição de ôrar ao lado dos companheiros, alguns exal­tados o cercaram com expressões e atitudes ameaça­doras.

— Morte ao desertor!... Pedras à traição! gri­tou uma voz estentórica, abalando o recinto.

Paulo teve a impressão de que esses brados eram a senha para maiores violências, porque, imediatamente, estourou uma gritaria infernal. Alguns judeus frementes agarraram-no pela gola da túnica, outros travaram-lhe os braços, violentamente, arrastando-o para o grande pátio reservado aos movimentos do grande público.

— Pagarás teu crime!... diziam uns.

— É necessário que morras! Israel se envergonha de tua presença no mundo! — bradavam outros mais furiosos.

O Apóstolo dos gentios entregou-se sem a mínima resistência. Num relance, considerou os objetivos profundos de sua vinda a Jerusalém, concluindo que não fora convocado tão-só para a obrigação pueril de acom­panhar ao Templo quatro irmãos de raça, desolados na sua indigência. Cumpria-lhe afirmar, na cidade dos ra­binos, a firmeza de suas convicções. Entendia, agora, a sutileza das circunstâncias que o conduziam ao tes­temunho.

Primeiramente, a reconciliação e o melhor conhecimento de um companheiro como Tiago, obede­cendo a uma determinação que lhe parecera quase in­fantil; em seguida, o grande ensejo de provar a fé e a consagração de sua alma a Jesus-Cristo. Com enorme surpresa, tomado de profundas e dolorosas reminiscên­cias, notou que os israelitas exaltados deixavam-no à mercê da multidão furiosa, justamente no pátio onde Estevão havia sido apedrejado vinte anos atrás. Alguns populares desvairados arrebataram-no à força, prenden­do-o ao tronco dos suplícios. Engolfado nas suas lem­branças, o grande Apóstolo mal sentia os bofetões que lhe aplicavam. Rápido, arregimentou as mais singulares reflexões. Em Jerusalém, o Mestre Divino padecera os martírios mais dolorosos; ali mesmo, o generoso Jeziel se imolara por amor ao Evangelho, sob os golpes e chuf as da populaça. Sentiu-se então envergonhado pelo suplício infligido ao irmão de Abigail, oriundo de suas próprias iniciativas. Somente agora, atado ao poste do sacrifício, compreendia a extensão do sofrimento que o fanatismo e a ignorância causavam ao mundo. E refletiu: — O Mestre é o Salvador dos homens e aqui padeceu pela redenção das criaturas. Estevão era seu discípulo, devotado e amoroso, e aqui experimentou. igualmente, os suplícios da morte. Jesus era o Filho de Deus, Jeziel era seu Apóstolo. E ele? Não estava ali o passado a reclamar resgates dolorosos? Não seria justo padecer muito, pelo muito que martirizara os outros? Era razoável que sentisse alegria naqueles instantes amargos, não só por tomar a cruz e seguir o Mestre bem-amado, como por ter tido o ensejo de sofrer o que Jeziel havia experimentado com grande amargura.

Essas reflexões proporcionavam-lhe algum consolo. A consciência sentia-se mais leve. Ia dar testemunho da fé, em Jerusalém, onde se encontrara com o irmão de Abigail; e, depois da morte, podia aproximar-se do seu coração generoso, falando-lhe com júbilo dos seus pró­prios sacrifícios. Pedir-lhe-ia perdão e exaltaria a bon­dade de Deus, que o conduzira ao mesmo lugar, para os resgates justos. Alongando o olhar, entreviu a pequena porta de acesso ao pequeno aposento onde estivera com a noiva amada e seu irmão prestes a desprender-se do mundo nas agonias extremas. Parecia ouvir ainda as derradeiras palavras de Estevão misturadas de bondade e perdão.

Mal não saíra de suas reminiscências, quando a primeira pedrada o despertou para escutar o vozerio do povo.

O grande pátio estava repleto de israelitas sanhu­dos. Objurgatórias sarcásticas cortavam os ares. O es­petáculo era o mesmo do dia em que Estevão partira da Terra, Os mesmos impropérios, as fisionomias escar­ninhas dos verdugos, a mesma frieza implacável dos carrascos do fanatismo, O próprio Paulo não se furtava à admiração, ao verificar as coincidências singulares. As primeiras pedras acertaram-lhe no peito e nos braços, ferindo-o com violência.

— Esta será em nome da Sinagoga dos cilícios! —dizia um jovem, em coro de gargalhadas.

A pedra passou sibilando e dilacerou, pela primeira vez, o rosto do Apóstolo. Um filete de sangue começou a ensopar-lhe as vestiduras. Nem um minuto, porém, deixou de encarar os carrascos com a sua desconcertante serenidade.

Trófimo e Lucas, entretanto, cientes da gravidade da situação, desde os primeiros instantes, através de um amigo que presenciara, a cena inicial do suplício, procuraram imediatamente o socorro das autoridades ro­manas. Receosos de novas complicações, não declinaram as verdadeiras condições do convertido de Damasco. Ale­gavam, apenas, tratar-se de um homem que não devia padecer nas mãos dos israelitas fanáticos e inconscientes.

Um tribuno militar organizou incontinenti um troço de soldados. Deixando a fortaleza, penetraram no amplo átrio, com ânimo decidido. A massa delirava num tur­bilhão de altercações e gritarias ensurdecedoras. Dois centuriões, obedecendo às ordens do comando, avança­ram, resolutos, desatando o prisioneiro e arrebatando-o à multidão que o disputava ansiosa.

— Abaixo o inimigo do povo!... Ë um criminoso! Ë um malfeitor! Estraçalhemos o ladrão!...

Pairavam no ar as exclamações mais estranhas. Não encontrando rabinos de responsabilidade para os esclarecimentos imprescindíveis, o tribuno romano man­dou que o acusado fosse algemado. O militar estava convencido de que se tratava de perigoso malfeitor que, de há muito, se transformara em terrível pesadelo dos habitantes da província. Não encontrava outra explica­ção para justificar tanto ódio.

O peito contuso, ferido no rosto e nos braços, o Apóstolo seguiu para a Torre Antônia, escoltado pelos prepostos de César, enquanto a multidão encaudava o pequeno cortejo, bradando sem cessar: — Morra! Morra!

Ia penetrar o primeiro pátio da grande fortaleza romana quando Paulo, compreendendo afinal que não fora a Jerusalém tão-só para acompanhar quatro nazi­reus paupérrimos ao monte Moriá, e sim para dar um testemunho mais eloqüente do Evangelho, interrogou o tribuno com humildade:

— Permitis, porventura, que vos diga alguma coisa? Percebendo-lhe as maneiras distintas, a nobre in­flexão da palavra em puro grego, o chefe da coorte repli­cou muito admirado:

— Não és tu o bandido egípcio que, há algum tempo, organizou a malta de ladrões que devastam estas pa­ragens?

— Não sou ladrão — respondeu Paulo, parecendo uma figura estranha, em vista do sangue que lhe cobria o rosto e a túnica singela —, sou cidadão de Tarso e rogo-vos permissão para falar ao povo.

O militar romano ficou boquiaberto com tamanha distinção de gestos e não teve outro recurso senão ceder, embora hesitante.

Sentindo-se num dos seus grandes momentos de tes­temunho, Paulo de Tarso subiu alguns degraus da esca­daria enorme e começou a falar em hebraico, impressio­nando a multidão com a profunda serenidade e elegância do discurso. Começou explicando suas primeiras lutas, seus remorsos por haver perseguido os discípulos do Mestre Divino; historiou a viagem a Damasco, a infinita bondade de Jesus que lhe permitira a visão gloriosa, dirigindo-lhe palavras de advertência e perdão. Rico das reminiscências de Estevão. falou do erro que havia come­tido em consentir na sua morte.

Ouvindo-lhe a palavra cinzelada de misteriosa beleza, Cláudio Lísias, tribuno romano que efetuara a prisão, experimentou sensações indefiníveis. Por sua vez, havia recebido certos benefícios daquele Cristo incompreendido a que se referia o orador em circunstâncias tão amargas. Tomado de escrúpulos, mandou chamar o tribuno Zelfos, de origem egípcia, que adquirira certos títulos romanos, pela expressão de sua enorme fortuna, e solicitou:

— Amigo — disse com voz quase imperceptível —, não desejo tomar aqui certas decisões, relativamente ao caso deste homem. A multidão está exaltada e é possível que ocorram acontecimentos muito graves. Desejaria tua cooperação imediata.

— Sem dúvida — respondeu o outro, resoluto.

E enquanto Lísias procurava examinar, de modo minucioso, a figura do Apóstolo, que falava de maneira impressionante, Zelfos desdobrava-se em providências oportunas. Reforçou a guarnição dos soldados, iniciou a formatura de um cordão de isolamento, buscando res­guardar o orador de um ataque imprevisto.

Paulo de Tarso, depois de circunstanciado relatório da sua conversão, começou a falar da grandeza do Cristo, das promessas do Evangelho, e quando se detinha a comentar suas relações com o mundo espiritual, de onde recebia as mensagens confortantes do Mestre, a massa inconsciente, furiosa, agitou-se em ânsias mesquinhas. Grande número de israelitas despia o manto, arrojando poeira no ar, num impulso característico de ignorância e maldade.

O momento era gravíssimo. Os mais exal­tados tentaram romper o cordão dos guardas para tru­cidar o prisioneiro. A ação de Zelfos foi rápida. Mandou recolher o Apóstolo ao interior da Torre Antônia. E enquanto Cláudio Lísias se recolhia à residência, a fim de meditar um pouco na sublimidade dos conceitos ouvi-dos, o companheiro de milícia tomou providências enér­gicas para dispersar a multidão. Não eram poucos os que teimavam em vociferar na via pública, mas o chefe militar mandou dispersar os recalcitrantes à pata de cavalo.

Conduzido a uma cela úmida, Paulo sentiu que os soldados o tratavam com a maior desconsideração. As feridas doíam-lhe penosamente. Tinha as pernas dolo­ridas e trôpegas. A túnica estava empapaçada de sangue. Os guardas impiedosos e irônicos amarraram-no a grossa coluna, conferindo-lhe o tratamento destinado aos crimi­nosos comuns. O Apóstolo, sentindo-se exausto e febril, chegou à conclusão de que não lhe seria fácil resistir à nova provação de martírio. Refletiu que não era justo entregar-se de todo às disposições perversas dos soldados que o guardavam. Lembrou que o Mestre se imolara na cruz, sem resistir à crueldade das criaturas, mas também afirmara que o Pai não deseja a morte do pecador. Não podia alimentar a presunção de entregar-se como Jesus, porque somente Ele possuía bastante amor para consti­tuir-se Enviado do Todo-Poderoso; e como se reconhecia pecador convertido ao Evangelho, era justo o desejo de trabalhar até ao último dia de suas possibilidades na Terra, em favor dos irmãos em humanidade e em bene­fício da própria iluminação espiritual.

Recordou a pru­dência que Pedro e Tiago sempre testemunharam para que as tarefas a eles confiadas não sofressem prejuízos injustificáveis e, verificando as suas escassas probabili­dades de resistência física, naquela hora inesquecível, gritou aos soldados:

— Prendestes-me à coluna reservada aos crimino­sos, quando não podeis imputar-me falta alguma!... Vejo, agora, que preparais açoites para a flagelação, quando já me encontro banhado em sangue, no suplício imposto pela turba inconsciente...

Um dos guardas, um tanto irônico, procurou cor­tar-lhe a palavra e sentenciou:

— Ora esta!... Não sois um Apóstolo do Cristo? Consta que teu Mestre morreu na cruz caladinho e, por fim, ainda pediu perdão para os algozes, alegando que ignoravam o que faziam.

Os companheiros do engraçado romperam em gar­galhadas estrídulas. Paulo de Tarso, entretanto, eviden­ciando toda a nobreza do coração, no fulgor do olhar, replicou sem hesitação:

— Sim, rodeado pelo povo ignorante e inconsciente, no dia do Calvário, Jesus pediu a Deus perdoasse as tre­vas de espírito em que se submergia a multidão que lhe levantara o madeiro de ignomínia; mas os agentes do governo imperial não podem ser a turba que desconhece os próprios atos. Os soldados de César devem saber o que fazem, porque, se ignorais as leis, para cuja execução recebeis soldo, seria mais justo abandonardes o posto.

Os guardas ficaram imóveis, tomados de assombro.

Paulo, entretanto, continuou em voz firme:

— Quanto a mim, pergunto-vos: — Será lícito açoi­tardes um cidadão romano, antes de condenado?

O centurião que presidia os serviços da flagelação suspendeu os primeiros dispositivos. Zelfos foi chamado com espanto. Ciente do ocorrido, o tribuno interrogou o Apóstolo, sumamente admirado:

— Dize-me. És de fato romano?

— Sim.

Ante a firmeza da resposta, Zelfos achou razoável modificar o tratamento do prisioneiro. Receoso de com­plicações, ordenou que o ex-rabino fosse retirado do tron­co, permitindo-lhe ficar à vontade no acanhado âmbito da cela. Somente então, Paulo de Tarso conseguiu algum repouso num leito duro, recebendo uma bilha de água trazida com mais respeito e consideração. Saciou a sede intensa e dormiu, apesar das feridas sangrentas e do­lorosas.



Zelfos, contudo, não estava tranqüilo. Desconhecia, por completo, a condição do acusado.

Temendo compli­cações prejudiciais para a sua posição, aliás invejável do ponto de vista político, procurou avistar-se com o tribuno Cláudio Lisias. Esclarecendo o motivo de sua preocupação, o outro murmurou:

— Isso me surpreende, porque a mim afirmou que era judeu, natural de Tarso da Cuida.

Zelfos explicou, então, que tinha dificuldade para discernir a causa, concluindo:

— Pelo que dizes, ele parece-me antes um mentiroso vulgar.

— Isso não — exclamou Lisias —, naturalmente possuirá titulos de cidadania do Império e agiu por mo­tivos que não estamos habilitados a apreciar.

Percebendo que o amigo se irritara íntimamente com as suas primeiras alegações, Zelfos apressou-se a corrigir:

— Teus conceitos são justos.

— Tenho de emiti-los em consciência — acrescentou Lísias bem inspirado —, porque esse homem, desconhe­cido para nós ambos, falou de problemas muito sérios.

Zelfos pensou um instante e ponderou:

— Considerando tudo isso, proponho seja apresen­tado, amanhã, ao Sinédrio. Julgo que somente assim poderemos encontrar uma fórmula capaz de resolver o assunto.

Cláudio Lísias recebeu o alvitre com displicência. No íntimo, sentia-se mais propenso a patronar a defesa do Apóstolo. Sua palavra, inflamada de fé, impressio­nara-o vivamente. Em breves, rápidos momentos de meditação, analisou todos os lances pró e contra uma atuação dessa natureza. Subtrair o acusado à persegui­ção dos mais exaltados era uma ação justa; mas disputar com o Sinédrio era uma atitude que reclamava mais prudência. Conhecia os judeus, muito de perto, e, por mais de uma vez, experimentara o grau de suas paixões e caprichos.

Compreendendo, igualmente, que não deve­ria despertar qualquer suspeita do colega, com relação às suas crenças religiosas, fez um gesto afirmativo e declarou:

— Concordo com o alvitre. Amanhã, entregá-lo-emos aos juizes competentes em matéria de fé. Poderás deixar isso a meu cargo, porque o prisioneiro será acompanhado­ de escolta que o garanta contra qualquer vio­lência.

E assim foi. Na manhã seguinte, o mais alto Tri­bunal dos israelitas foi notificado pelo tribuno Cláudio Lísias de que o pregador do Evangelho compareceria perante os juizes para os inquéritos necessários, às pri­meiras horas da tarde. As autoridades do Sinédrio experimentaram enorme regozijo. Iam, enfim, rever o deser­tor da Lei, face a face. A notícia foi espalhada com invulgar rapidez.

Paulo, por sua vez, na solidão do cárcere, sentiu-se felicitado com uma grande surpresa, naquela manhã de sombrias perspectivas. É que, com permissão do tribuno, uma velha senhora e seu filho, ainda jovem, penetravam na cela a fim de visitá-lo.

Era sua irmã Dalila com o sobrinho Estefânio, que conseguiram, depois de muito esforço, permissão para uma entrevista ligeira. O Apóstolo abraçou a nobre senhora, com lágrimas de emoção. Ela estava alquebra­da, envelhecida, O jovem Estefânio tomou as mãos do tio e beijou-as com veneração e ternura.

Dalila falou das saudades longas, recordou episódios familiares com a poesia do coração feminino, e o ex-dou­tor de Jerusalém recebia todas as notícias, boas e más, com imperturbável serenidade, como se procedessem de um mundo muito diferente do seu.

Buscou, entretanto, confortar a irmã, que, a uma reminiscência mais dolo­rosa, se desfazia em prantos. Paulo historiou sucintamente as suas viagens, lutas, obstáculos dos caminhos palmilhados por amor de Jesus. A venerável senhora, embora alheia às verdades do Cristianismo, muito deli­cadamente não quis tocar nos assuntos religiosos, de­tendo-se nos motivos afetuosos de sua visita fraternal e chorando copiosamente ao despedir-se. Não podia com­preender a resignação do Apóstolo, nem apreciava devi­damente a sua renúncia.

Lastimava-lhe, íntimamente, a sorte e, no fundo, tal como a maioria dos compatriotas, desdenhava aquele Jesus que não oferecia aos discípulos senão cruzes e sofrimentos.

Paulo de Tarso, todavia, experimentara grande con­forto com a sua presença; sobretudo, a inteligência e a vivacidade de Estefânio, na ligeira palestra mantida, proporcionavam-lhe enormes esperanças no futuro espi­ritual do sobrinho.

Ainda repassava na mente essa grata impressão quando numerosa escolta se postava junto à cela, para acompanhá-lo ao Sinédrio, no momento oportuno.

Logo após o meio-dia, compareceu à barra do Tri­bunal e percebeu, de pronto, que o cenáculo dos gran­des doutores de Jerusalém vivia um dos seus grandes dias, repleto de compacta massa popular. Sua presença provocava uma aluvião de comentários. Todos queriam ver, conhecer o trânsfuga da Lei, o doutor que repudiara e deprimira os títulos sagrados. Sobremaneira comovido, o Apóstolo lembrou ainda uma vez a figura de Estevão. Competia-lhe, agora, dar igualmente o testemunho do Evangelho de verdade e redenção. A agitação do Siné­drio dava-lhe a mesma tonalidade dos tempos ali vividos. Ali, precisamente, infligira as mais duras humilhações ao irmão de Abigail e aos prosélitos de Jesus. Era justo, portanto, esperar, agora, acerbos e remissores sofrimen­tos. Depois, para cúmulo de amargura, a singular coinci­dência: o sumo-sacerdote que presidia o feito chamava-se também Ananias! Acaso? Ironia do destino?

Tal como se verificou com Jeziel, lido o libelo acusa­tório, deram a palavra ao Apóstolo para defender-se, em atenção às prerrogativas de nascimento.

Paulo entrou a justificar-se, sumamente respeitoso. Risos abafados, não raro, quebravam o silêncio ambiente, a indiciarem a termometria sarcasticamente hostil do auditório.

Quando a sua altiloqüente oratória começou a im­pressionar pela fidelidade do testemunho cristão, o sumo-sacerdote lhe impôs silêncio e vociferou enfático:

— Um filho de Israel, ainda que portador de títulos romanos, quando desrespeite as tradições desta casa, com afirmativas injuriosas à memória dos profetas, tor­na-se passível de severas reprimendas. O acusado parece ignorar o dever de explicar-se convenientemente, para tresvariar em conceitos. sibilinos, próprios da sua desre­grada e criminosa obsessão pelo carpinteiro revolucio­nário de Nazaré! Minha autoridade não permite abusos nos lugares santos. Determino, pois, que Paulo de Tarso seja ferido na boca, em desafronta aos seus termos insultuosos.

O Apóstolo endereçou-lhe um olhar de serenidade indizível e replicou.

— Sacerdote, vigiai o coração para não incidirdes em repressões injustas. Os homens, como vós, são como as paredes branqueadas dos sepulcros, mas não deveis ignorar que também sereis ferido pela justiça de Deus. Conheço de sobra as leis de que vos tornastes executor. Se aqui permaneceis para julgar, como e por que man­dais ferir?

Antes, porém, que pudesse prosseguir, um pequeno grupo de prepostos de Ananias avançou com açoites mi­núsculos, ferindo-o nos lábios.

— Ousas injuriar o sumo-sacerdote? — exclamavam fulos de cólera. — Pagarás os insultos!...

As lambadas riscavam o rosto rugoso e venerando do ex-rabino, sob os aplausos gerais.

Vozes irônicas ele­vavam-se, incessantes, do seio da turba refece. Uns pe­diam mais rigor, outros, estentóricos, reclamavam o ape­drejamento. A serenidade do Apóstolo dava pleno teste­munho e mais acirrava os ânimos impulsivos e crimino­sos. Destacaram-se certos grupos de israelitas mais soezes e, cooperando com os verdugos, cuspinhamam-lhe o rosto.

Generalizou-se o tumulto. Paulo tentou falar, explicar-se mais detalhadamente, mas a confusão era tal que nada se ouvia e ninguém se entendia.

O sumo-sacerdote permitira a desordem deliberadamente. Os elementos principais do Sinédrio desejavam exterminar o ex-doutor a qualquer preço. O Tribunal só se prestara ao julgamento de entremez, porque havia percebido o interesse pessoal de Cláudio Lísias pelo prisioneiro. Não fora isso, Paulo de Tarso teria sido assas­sinado em Jerusalém, para satisfazer aos sentimentos odiosos dos inimigos gratuitos da sua abençoada tarefa apostólica. Solicitado pelo tribuno, presente à reunião memorial, Ananias conseguiu restabelecer a calma no ambiente. Depois de apelos desesperados, a assembléia emudeceu, expectante.

Paulo tinha o rosto a sangrar, a túnica em fran­galhos; mas, com surpresa e pasmo gerais, revelava no olhar, ao contrário de outros tempos, em circunstâncias dessa natureza, grande tranqüilidade fraternal, dando a entender que compreendia e perdoava os agravos da ignorância.

Supondo-se em posição vantajosa, o sumo sacerdote acentuou em tom arrogante:

— Devias morrer como teu Mestre, numa cruz des­prezível! Desertor das tradições sagradas da pátria e blasfemo criminoso, não te bastam, por justo castigo, os sofrimentos que começas a experimentar entre os legíti­mos filhos de Israel!...

O Apóstolo, no entanto, longe de acovardar-se, re­plicou tranqüilamente:

— Juízo apressado o vosso... Não mereço a cruz do Redentor, porque a sua auréola é gloriosa demais para mim; entretanto, os martírios todos do mundo se­riam justos, aplicados ao pecador que sou. Temeis os sofrimentos porque não conheceis a vida eterna, considerais as provações como quem nada vê além destes efêmeros dias da existência humana. A política mesquinha vos distanciou o espírito das visões sagradas dos profetas!... Os cristãos, sabei-o, conhecem outra vida espiritual, suas esperanças não repousam em triunfos mendazes que vão apodrecer com o corpo no sepulcro! A vida não é isto que vemos na banalidade de todos os dias terrestres; é antes afirmação de imortalidade glo­riosa com Jesus-Cristo!

A palavra do orador parecia magnetizar, agora, a assembléia em peso. O próprio Ananias, não obstante a cólera surda, sentia-se incapaz de qualquer reação, como se algo de misterioso o compelisse a ouvir até ao fim. Imperturbável em sua serenidade, Paulo de Tarso prosseguiu:

— Continuai a ferir-me! Escarrai-me na face! Açoi­tai-me! Esse martirológio me exalta para uma esperança superior, porque já criei no meu íntimo um santuário intangível às vossas mãos e onde Jesus há de reinar para Sempre...

— Que desejais — continuou em voz firme — com as vossas arruaças e perseguições? Afinal, onde o mo­tivo para tantas lutas estéreis e destruidoras? Os cris­tãos trabalham, como o fez Moisés, para a crença em Deus e em nossa gloriosa ressurreição. É inútil dividir, fomentar a discórdia, tentar empanar a verdade com as ilusões do mundo. O Evangelho do Cristo é o Sol que ilumina as tradições e os fatos da Antiga Lei!...

Nesse ínterim, não obstante a estupefação de mui­tos, estabeleceu-se nova balbúrdia. Os saduceus atira­ram-se contra os fariseus, com gestos e apóstrofes deli­rantes. Em vão, o sumo-sacerdote procurava acalmar os ânimos. Um grupo mais exaltado tentava aproximar-se do ex-rabino, disposto a estrangulá-lo.

Foi aí que Cláudio Lísias, apelando para os soldados, fez-se ouvir na assembléia, ameaçando os contendores. Surpreendidos com o fato insólito, porqüanto os romanos jamais procuravam intervir em assuntos religiosos da raça, os trêfegos israelitas submeteram-se imediatamente. O tribuno dirigiu-se, então, a Ananias e reclamou o en­cerramento dos trabalhos, declarando que o prisioneiro voltaria ao cárcere da Torre Antônia, até que os judeus resolvessem ventilar o caso com mais critério e sere­nidade.

As autoridades do Sinédrio não disfarçaram seu enorme espanto; mas, como o governador da província continuava em Cesaréia, não seria razoável desatender ao seu preposto em Jerusalém.

Antes que se verificassem novos tumultos, Ananias declarou que o julgamento de Paulo de Tarso, consoante a ordem recebida, prosseguiria na próxima sessão do Tri­bunal, a realizar-se daí a três dias.

Os guardas retiraram o prisioneiro, com grande cautela, enquanto os israelitas mais eminentes buscavam conter os protestos isolados dos que acusavam Cláudio Lísias de parcial e simpatizante do novo credo.

Reconduzido à cela silenciosa, Paulo pôde respirar e refazer o ânimo para enfrentar a situação.

Experimentando justa simpatia por aquele homem valoroso e sincero, o tribuno tomou novas providências a seu favor. O ex-doutor da Lei estava mais satisfeito e aliviado. Teve um guarda para atendê-lo em qualquer necessidade, recebeu água em abundância, remédio, alimentos e a visita dos amigos mais íntimos. Essas mos­tras de apreço muito o comoviam. Espiritualmente, sen­tia-se até mais confortado; doía-lhe, porém, o corpo ferido, e físicamente estava exausto... Depois de palestrar alguns minutos, conforme a permissão recebida, com Lucas e Timóteo, sentiu que certas preocupações dolo­rosas lhe amarguravam o coração. Seria justo pensar numa viagem a Roma, quando seu estado físico era assim precário? Resistiria por muito tempo às tremendas per­seguições iniciadas em Jerusalém? Contudo, as vozes do mundo superior haviam-lhe prometido essa viagem à capital do Império... Não deveria duvidar das promessas feitas em nome do Cristo. Certa fadiga, aliada a grande amargura, começava a infirmar-lhe as esperanças sempre ativas. Mas, caindo numa espécie de modorra, percebeu, como de outras vezes, que uma viva claridade inundava o cubículo, ao mesmo tempo que suavíssima voz lhe sus­surrava:

— Regozija-te pelas dores que resgatam e iluminam a consciência! Ainda que os sofrimentos se multipliquem, renova os júbilos divinos da esperança!... Guarda o teu bom ânimo, porque assim como testificaste de mim, em Jerusalém, importa que o faças também em Roma!...

De pronto sentiu que novas forças lhe retempera­vam o combalido organismo.

A claridade da manhã surpreendeu-o quase bem dis­posto. Nas primeiras horas do dia, Estefânio procurava-o com certa ansiedade. Recebido com afetuoso interesse, o rapaz informou o tio dos graves projetos que se tra­mavam na sombra. Os judeus haviam jurado exterminar o convertido de Damasco, ainda que para isso houvessem de assassinar o próprio Cláudio Lísias. O ambiente no Sinédrio era de atividades odiosas. Projetava-se matar o pregador da gentilidade, à plena luz do dia, na próxima sessão do Tribunal. Mais de quarenta comparsas, dos mais fanáticos, haviam prometido, solenemente, a con­secução do sinistro desígnio. Paulo tudo ouviu e, calma­mente chamando o guarda, disse-lhe:

— Peço-te conduzir este moço à presença do chefe dos tribunos para que o ouça sobre um assunto urgente.

Assim, Estefânio foi levado a Cláudio Lísias, apre­sentando-lhe a denúncia, O arguto e nobre patrício, com o tacto político que lhe caracterizava as decisões, pro­meteu examinar devidamente a questão, sem deixar pre­sumir a adoção de providências definitivas para burlar a conjura. Agradecendo a comunicação, recomendou ao jovem o máximo cuidado nos comentários da situação, a fim de não exacerbar maiormente os ânimos parti­dários.

Na solidão do seu gabinete, o tribuno romano pensou seriamente naquelas perspectivas sombrias. O Sinédrio, na sua capacidade de intrigar, poderia promover mani­festações do povo sempre versátil e agressivo. Rabinos apaixonados podiam mobilizar facínoras e quiçá assas­siná-lo em condições espetaculares. Mas, a denúncia par­tia de um jovem, quase criança.

Além disso, tratava-se de um sobrinho do prisioneiro. Teria dito a verdade ou seria mero instrumento de possível mistificação afetiva, nascida de justas preocupações da família?

Ainda bem não conseguira destrinçar as dúvidas para firmar con­duta, quando alguém pedia o obséquio de uma entrevista. Desejoso de atreguar cogitações assim graves, acedeu prontamente. Abriu a porta luxuosa e um velhinho de semblante calmo apareceu sorridente. Cláudio Lisias alegrou-se. Conhecia-o de perto. Devia-lhe favores, O visitante inesperado era Tiago, que vinha interpor sua generosa influência em favor do grande amigo de suas edificações evangélicas. O filho de Alfeu repetiu o plano já denunciado por Estefânio, minutos antes. E foi mais longe. Contou a história comovedora de Paulo de Tarso, revelando-se como testemunha imparcial de toda a sua vida e esclarecendo que o Apóstolo viera à cidade, por insistência de sua parte, a fim de combinarem momen­tosas providências atinentes à propaganda. Concluía a exposição atenciosa pedindo ao amigo ilustre medidas eficazes, para evitar o monstruoso atentado.

Maiormente apreensivo agora, o tribuno ponderou:

— Vossas considerações são justas; entretanto, sin­to dificuldadeS para coordenar providências imediatas. Não será melhor aguardar que os fatos se apresentem e reagir, então, à força com a força?

Tiago esboçou um sorriso de dúvidas e sentenciou:

— Sou de parecer que vossa autoridade encontre recursos urgentes. Conheço as paixões judaicas e o furor de suas manifestações. Nunca poderei esquecer o odioso fermento dos fariseus, no dia do Calvário. Se receio pela sorte de Paulo, temo igualmente por vos mesmo.

A mul­tidão de Jerusalém é criminosa muitas vezes.

Lísias franziu a testa e refletiu longo tempo. Mas, arrancando-o de sua indecisão, o velho galileu apre­sentou-lhe a idéia de transferir o prisioneiro para Ce­saréia, tendo em vista um julgamento mais justo. A medida teria a virtude de subtrair o Apóstolo do ambiente irritado de Jerusalém e faria abortar de início o plano de homicídio; além disso, o tribuno permaneceria a salvo de suspeitas injustas, mantendo íntegras as tradições de respeito em torno do seu nome, por parte dos judeus malevolentes e ingratos. O feito seria conhecido apenas dos mais íntimos e o patrício designaria uma escolta de soldados corajosos para acompanhar o prisioneiro, de­vendo sair de Jerusalém depois de meia-noite.

Cláudio Lísias considerou a excelência das sugestões e prometeu pô-las em prática nessa mesma noite.

Logo que Tiago se despediu, o romano chamou dois auxiliares de confiança e deu as primeiras ordens para a formação da escolta, forte, de cento e trinta soldados. duzentos archeiros e setenta cavaleiros, sob cuja prote­ção Paulo de Tarso haveria de comparecer perante o go­vernador Félix, no grande porto palestinense. Os pre­postos, atendendo às instruções recebidas, reservaram para o prisioneiro uma das melhores montarias.

Alta noite, Paulo de Tarso foi chamado com grande surpresa. Cláudio Lísias explicou-lhe, em poucas palavras, o objetivo de sua decisão e a extensa caravana partiu em silêncio, rumo a Cesaréia.

Dado o caráter secreto das providências tomadas, a viagem correu sem incidentes dignos de menção. Apenas muitas horas depois partiam da Torre Antônia os res­pectivos informes, convencendo-se os judeus, com grande desapontamento, da inutilidade de quaisquer represálias.

Em Cesaréia o governador recebeu a expedição com enorme espanto. Conhecia o renome de Paulo e não era estranho às lutas que sustentava com os irmãos de raça, mas aquela caravana de quatrocentos homens armados, para proteger um preso, era de causar admiração.

Depois do primeiro interrogatório, o preposto má­ximo do Império, na província, sentenciou:

— Atento à origem judaica do acusado, nada posso julgar sem ouvir o órgão competente, de Jerusalém.

E mandou que o Sinédrio se fizesse representar na sede do Governo, com a maior urgência.

Os israelitas estavam sumamente satisfeitos com a ordem.

Conseqüentemente, cinco dias depois da remoção do Apóstolo, o próprio Ananias fizera questão de chefiar o conjunto de autoridades do Sinédrio e do Templo, que acorreram a Cesaréia com os projetos mais estranhos, relativamente à situação do adversário. Os velhos rabi­nos, conhecendo o poder da lógica e a formosura da palavra do ex-doutor de Tarso, fizeram-se acompanhar de Tértulo, uma das mais notáveis mentalidades que co­operavam no colendo sodalício.

Improvisado o Tribunal para decidir o feito, o orador do Sinédrio teve a prioridade da palavra, usando-a em tremendas acusações contra o indiciado réu, desenhando a cores negras todas as atividades do Cristianismo, e ter­minando por pedir ao governador a entrega do acusado aos seus irmãos de raça, a fim de ser por eles devida-mente julgado.

Concedido ao ex-rabino o ensejo de explicar-se, Paulo começou a falar com grande serenidade. Félix lhe obser­vou logo os elevados dotes intelectuais, os primores dialé­ticos e ouvia-lhe a argumentação com invulgar interesse. Os anciães de Jerusalém não sabiam ocultar a própria ira. Se possível, teriam espostejado o Apóstolo ali mes­mo, tal a irritação que os assomava, a contrastar com a tranqüilidade transparente da oratória e da pessoa do orador adverso.

O governador teve grande embaraço para pronun­ciar o “veredictum”. De um lado, via os anciães de Israel em atitude quase colérica, reclamando direitos de raça; do outro, contemplava o Apóstolo do Evangelho, calmo, imperturbável, senhor espiritual do assunto, a esclarecer todos os pontos obscuros do processo singular, com a sua palavra elegante e refletida.

Reconhecendo o extremo valor daquele homem fran­zino e envelhecido, cujos cabelos pareciam encanecidos por dolorosas e sagradas experiências, o governador Félix modificou, apressadamente, suas primeiras impressões e encerrou os trabalhos nestes termos:

— Senhores, reconheço que o processo é mais grave do que julguei à primeira vista.

Neste caso, resolvo adiar a sentença definitiva, até que o tribuno Cláudio Lísias seja convenientemente ouvido.

Os anciães morderam os lábios. Debalde o sumo-sa­cerdote solicitou a continuação dos trabalhos. O man­datário de Roma não modificou o ponto de vista e a grande assembléia dissolveu-se, com imenso pesar dos israelitas constrangidos a regressar, extremamente desa­pontados.

Félix, entretanto, passou a considerar o prisioneiro com maior deferência. No dia seguinte, foi visitá-lo, concedendo-lhe permissão para receber os amigos na sala do expediente. Depreendendo que Paulo gozava de grande prestígio entre e perante todos os seguidores da doutrina do profeta nazareno, imaginou, desde logo, tirar algum proveito da situação. Cada vez que o visi­tava, surpreendia-lhe maior acuidade mental, a interes­sá-lo pela sua palestra viva e palpitante de observações sábias, no conceito e na experiência da vida.

Certo dia, o governador abordou jeitosamente o prisma dos interesses pessoais, insinuando-lhe a vantagem­ da sua libertação, de maneira a atender às aspira­ções da comunidade cristã, a que emprestava tanto relevo.

Paulo, porém, observou resoluto:

— Não sou tanto de vossa opinião. Sempre consi­derei que a primeira virtude do cristão é estar pronto para obedecer à vontade de Deus, em qualquer parte. Certo, não estou detido à revelia de sua assistência e proteção, e desta forma acredito que Jesus julga melhor conservar-me prisioneiro, nos dias que correm. Servi-lo-ei, pois, como se estivesse em plena liberdade de corpo.

— Entretanto, continuou Félix, sem coragem para ferir diretamente o ponto —, vossa independência não seria coisa muito difícil.

— Como assim?

— Não tendes amigos ricos e influentes em todos os recantos provinciais? — interrogou o preposto gover­namental, de maneira ambígua.

— Que desejais dizer com isso? — perguntou o Apóstolo por sua vez.

— Creio que se conseguísseis o dinheiro suficiente para atender aos interesses pessoais de quantos hajam de funcionar no processo, estaríeis completamente livre da ação da justiça, dentro de poucos dias.

Paulo compreendeu as insinuações mal veladas e nobremente revidou:

- Percebo agora. Falais de uma justiça condicio­nada ao capricho criminoso dos homens.

Essa justiça não me interessa. Ser-me-á preferível conhecer a morte no cárcere, a servir de obstáculo à redenção espiritual do mais humilde dos funcionários de Cesaréia. Dar-lhes dinheiro em troca de uma independência ilícita, seria habituá-los ao apego dos bens que lhes não pertencem. Minha atividade seria, então, um esforço reconhecidamente perverso. Além do mais, quando temos a consciên­cia pura, ninguém nos pode tolher a liberdade e eu me sinto aqui tão livre como lá fora, na praça pública.

O governador recebeu a observação franca e áspera, disfarçando o seu enleio. A lição humilhava-o duramente e, desde então, desinteressou-se da causa. Já havia, po­rém, comentado, entre os amigos mais íntimos, a privi­legiada inteligência do prisioneiro de Cesaréia e, daí a dias, sua jovem esposa Drusila manifestava-lhe o desejo de conhecer e ouvir o Apóstolo. A seu mau grado, não podendo esquivar-se, acabou por levá-la à presença do ex-rabino.

Judia de origem, Drusila não se contentou, qual fizera o marido, com simples indagações superficiais. Desejosa de sondar-lhe as idéias mais profundas, pediu-lhe um comentário geral da nova doutrina que esposara e procurava difundir.

Perante destacadas figuras da Corte Provincial, o va­loroso Apóstolo dos gentios fez brilhante panegírico do Evangelho, ressaltando a inolvidável exemplificação do Cristo e os deveres do proselitismo que repontava de todos os recantos do mundo. A maioria dos ouvintes escutava-o com evidentes mostras de interesse; mas, quando ele co­meçou a falar da ressurreição e dos deveres do homem em face das responsabilidades no mundo espiritual, o governador fez-se pálido e interrompeu a pregação.

— Por hoje basta! — disse com autoridade. — Meus familiares poderão ouvir-vos de outra feita, se lhes aprouver, pois quanto a mim não creio na existência de Deus.

Paulo de Tarso recebeu a observação com serenidade e respondeu com benevolência:

— Agradeço a delicadeza da vossa declaração e todavia, senhor governador, ouso encarecer-vos a neces­sidade de ponderar o assunto, porque, quando um homem afirma não aceitar a paternidade do Todo-Poderoso, é que, em regra, se arreceia do julgamento de Deus.

Félix lançou-lhe um olhar raivoso e retirou-se com os seus, prometendo a si próprio deixar o prisioneiro entregue à sua sorte.

À vista disso, embora respeitado pela franqueza e lealdade, Paulo houve de amargar dois anos de reclusão em Cesaréia, tempo esse aproveitado em relações cons­tantes com as suas igrejas bem-amadas. Inumeráveis mensagens iam e vinham, trazendo consultas e levando pareceres e instruções.

A esse tempo, o ex-doutor de Jerusalém chamou a atenção de Lucas para o velho projeto de escrever uma biografia de Jesus, valendo-se das informações de Maria; lamentou não poder ir a Éfeso, incumbindo-o desse tra­balho, que reputava de capital importância para os adeptos do Cristianismo, O médico amigo satisfez-lhe integralmente o desejo, legando à posteridade o precioso relato da vida do Mestre, rico de luzes e esperanças divinas. Terminadas as anotações evangélicas, o espírito dinâmico do Apóstolo da gentilidade encareceu a neces­sidade de um trabalho que fixasse as atividades apostóli­cas logo após a partida do Cristo, para que o mundo conhecesse as gloriosas revelações do Pentecostes, e assim se originou o magnífico relatório de Lucas, que é — Atos dos Apóstolos.

Não obstante a condição de prisioneiro, o conver­tido de Damasco não relaxou o trabalho um só dia, va­lendo-se de todos os recursos ao seu alcance, em favor da difusão da Boa Nova.

O tempo corria célere. Os israelitas, no entanto, nunca desistiram do primitivo plano de eliminar o va­loroso campeão das verdades do Céu. O governador foi abordado, várias vezes, sobre a oportunidade de reenviar o encarcerado a Jerusalém; entretanto, ao lembrar-se de Paulo, a consciência lhe vacilava. Além do que por si mesmo observara, ouvira o tribuno Cláudio Lísias que lhe falara do ex-rabino com indisfarçável respeito. Mais por medo dos poderes sobrenaturais atribuídos ao Apósto­lo, que por dedicação aos seus deveres de administrador, resistiu a todas as investidas dos judeus, mantendo-se firme no propósito de custodiar o acusado, até que sur­gisse o ensejo de um julgamento mais ponderado.

Dois anos de prisão contava a folha corrida do gran­de amigo dos gentios. Uma ordem imperial transferira Félix para a administração de outra província. Sem es­quecer a mágoa que a franqueza de Paulo lhe causara, fez questão de o abandonar à própria sorte.

O novo governador, Pórcio Festo, chegou a Cesaréia em meio de ruidosas manifestações populares. Jerusalém não poderia esquivar-se às homenagens políticas e, tão logo assumira o poder, o ilustre patrício foi visitar a grande cidade dos rabinos. O Sinédrio aproveitou o ensejo para requisitar, instantemente, o velho inimigo de tantos anos. Um grupo de doutores da Lei Antiga buscou avistar-se, cerimoniosamente, com o generoso romano, solicitando a restituição do prisioneiro para julgamento do Tribunal religioso. Festo recebeu a comissão, cavalheirescamente, e mostrou-se inclinado a atender, mas, prudente por índole e por dever do cargo, declarou que preferia solucionar a questão em Cesaréia, onde se lhe facultava conhecer o assunto com os detalhes imprescin­díveis. Para esse fim, convidava os rabinos a acompa­nhá-lo no seu regresso. Os israelitas exultaram de con­tentamento. Espalharam-se os mais sinistros projetos, para a recepção do Apóstolo em Jerusalém.

O governador ali ficou dez dias, mas, antes que regressasse, alguém se encaminhava a Cesaréia, de cora­ção oprimido e ansioso. Era Lucas, que, esforçado e solícito, propunha-se informar o prisioneiro de todas as singulares ocorrências. Paulo de Tarso ouvia-o com atenção e serenidade; mas, quando o companheiro passou a relatar os planos do Sinédrio, o amigo do gentilismo fez-se pálido. Estava definitivamente assentado que o trânsfuga seria crucificado, como o Divino Mestre, no mesmo local da Caveira. Havia preparativos para ence­nar fielmente o drama do Calvário. O acusado carregaria a cruz até lá, arrostando os sarcasmos da populaça e havia até quem falasse no sacrifício de dois ladrões, para que se repetissem todos os detalhes característicos do martírio do Carpinteiro.

Poucas vezes o Apóstolo manifestara tamanha im­pressão de espanto. Por fim, acrimonioso e enérgico, exclamou:

— Tenho experimentado açoites, apedrejamentos e insultos por toda parte, mas, de todas as perseguições e provações, esta é a mais absurda...

O próprio médico não sabia como interpretar esse conceito, quando o ex-rabino prosseguiu:

— Temos de evitar isso, por todos os meios ao nosso alcance. Como encarar essa deliberação extravagante de repetir a cena do Calvário? Qual o discípulo que teria a coragem de submeter-se a essa falsa paródia com a idéia mesquinha de atingir o plano do Mestre, no teste­munho aos homens? O Sinédrio está enganado. Ninguém no mundo logrará um Calvário igual ao do Cristo. Sabe­mos que em Roma os cristãos começam a morrer no sacrifício, tomados por escravos misérrimos. Os poderes perversos do mundo desencadeiam a tempestade de igno­mínias sobre a fronte dos seguidores do Evangelho. Se eu tiver de testificar de Jesus, fá-lo-ei em Roma. Saberei morrer junto dos companheiros, como um homem comum e pecador; mas não me submeterei ao papel de falso imitador do Messias prometido. Destarte, já que o pro­cesso vai ser novamente debatido pelo novo governador, apelarei para César.

O médico fez um gesto de assombro. Como a maio­ria dos cristãos eminentes de todas as épocas, Lucas não conseguia compreender aquele gesto, interpretado, à primeira vista, como negativa do testemunho.

— Entretanto — objetou com certa hesitação —Jesus não recorreu para as altas autoridades no sacri­fício da cruz, e eu receio que os discípulos não saibam interpretar tua atitude, como convém.

— Discordo de ti — respondeu Paulo, resoluto

se as comunidades cristãs não puderem compreender mi­nha resolução, prefiro passar a seus olhos como pedante e desatento, nesta hora singular de minha vida. Sou pecador e devo desprezar o elogio dos homens. Se me condenarem, não estarão em erro. Sou imperfeito e pre­ciso testemunhar nessa condição verdadeira de minha vida. De outro modo seria perturbar minha consciência, provocando um falso apreço humano.

Muito impressionado, Lucas guardou a lição ines­quecível.

Três dias depois dessa entrevista, o governador re­gressava à sede do Governo provincial, acompanhado de numeroso séquito de israelitas dispostos a conseguir a entrega do famoso prisioneiro.

Pórcio Festo, com a serenidade que lhe marcava as atitudes políticas, procurou conhecer imediatamente a situação. Reviu o processo meticulosamente, inteirando­-se dos títulos de cidadania romana do acusado, de acordo com a legislação em vigor. E notando a insistência dos rabinos que denotavam enorme ansiedade pela solução do assunto, convocou uma reunião para novo exame das declarações do acusado, no intuito de satisfazer a política regional de Jerusalém.

O convertido de Damasco, alquebrado de corpo, mas sempre revigorado de espírito, compareceu à assembléia sob os olhares rancorosos dos irmãos de raça, que plei­teavam sua remoção a todo custo. O Tribunal de Cesaréia atraía grande multidão, ansiosa de conhecer o novo jul­gamento. Discutiam os israelitas, os cristãos comen­tavam os debates em atitude defensiva. Mais de uma vez, Pórcio Festo foi obrigado a levantar a voz, recla­mando atenção e silêncio.

Abertos os trabalhos da assembléia singular, o go­vernador interrogou o acusado, com energia cheia de nobreza.

Paulo de Tarso, entretanto, respondeu a todas as argüições com a serenidade que lhe era peculiar. Não obstante a manifesta animosidade dos judeus, declarou que em nada os havia ofendido e não se recordava de qualquer ato de sua vida no qual houvesse atacado o Templo de Jerusalém ou as leis de César.

Festo percebeu que tratava com um espírito culto e eminente, e que não seria tão fácil entregá-lo ao Siné­drio, conforme julgara a princípio. Alguns rabinos ha­viam insistido para que ordenasse a remoção para Jeru­salém, pura e simplesmente, à revelia de quaisquer preceitos legais. O governador não hesitaria, nesse par­ticular, fazendo valer sua influência política; mas, não quis praticar um ato arbitrário antes de conheçer as qualidades morais do homem focalizado pelas intrigas judaicas. No íntimo, considerava que, se se tratasse de uma personagem vulgar, poderia entregá-lo sem receio à autoridade tirânica do Sinédrio que, certo, o liqüida­ria; mas, outro tanto não aconteceria, caso verificasse nobreza e inteligência no prisioneiro, porqüanto, com o seu acurado senso político, não desejava adquirir um inimigo capaz de prejudicá-lo a qualquer tempo. Tendo reconhecido os altos dotes intelectuais e morais do Após­tolo, modificou inteiramente a sua atitude. Passou logo a considerar com mais severidade o interlocutor, che­gando à conclusão de que seria crime agir com par­cialidade no feito. Além da cultura que o acusado exibia, tratava-se de um cidadão romano por títulos legitima­mente adquiridos. Formulando novas conjeturas e com imensa surpresa para os representantes confiados do Sinédrio, Pórcio Festo perguntou ao prisioneiro se con­sentia em voltar a Jerusalém, a fim de lá ser julgado, perante ele próprio, pelo Tribunal religioso da sua raça. Paulo de Tarso, compreendendo a cilada dos israelitas, replicou tranqüilamente, enchendo a assembléia de assombro:

— Senhor governador, estou diante do Tribunal de César, a fim de ser definitivamente julgado. Há mais de dois anos espero a decisão de um processo que não posso compreender. Como sabeis, a ninguém ofendi. Minha prisão derivou, tão-só, das intrigas religiosas de Jerusalém. Desafio, neste particular, o conceito dos mais exigentes. Se pratiquei algum ato indigno, peço, eu mesmo, a sentença de morte. Convocado a novo jul­gamento, acreditei tivésseis a coragem necessária para romper com as aspirações inferiores do Sinédrio, fazendo justiça à vossa longanimidade de administrador conscien­cioso e reto. Continuo confiando na vossa autoridade, na vossa imparcialidade, isenta de favor, que ninguém poderá exigir dos vossos encargos honrosos e delica­dos. Examinai detidamente as acusações que me retêm no cárcere de Cesaréia! Verificareis que nenhum poder provincial poderá entregar-me à tirania de Jerusalém! Reconhecendo essa valiosa circunstância e invocando meus títulos, embora creia sinceramente em vossas deli­berações sábias e justas, apelo, desde já, para César!...

A atitude inesperada do Apóstolo dos gentios pro­vocou geral espanto. Pórcio Festo, muito pálido, en­golfou-se em sérias cogitações. De sua cátedra de juiz, ensinara, generosamente, o caminho da vida a muitos acusados e malfeitores; entretanto, naquela hora inolvidável de sua existência, encontrava um réu que lhe falava ao coração. A resposta de Paulo valia um pro­grama de justiça e de ordem. Com imensa dificuldade pedia o restabelecimento da calma, no recinto. Os repre­sentantes do judaísmo discutiam acaloradamente entre si; alguns cristãos, mais apressados, comentavam desfa­voravelmente a atitude do Apóstolo, apreciando-a super­ficialmente, como se constituísse uma negação do tes­temunho. O governador reuniu, à pressa, o pequeno conselho dos rabinos mais influentes.

Os doutores da Lei antiga insistiram pela adoção de medidas mais enér­gicas, no pressuposto de que Paulo se modificaria com algumas bastonadas. Entretanto, sem desprezar a opor­tunidade de mais uma prestigiosa lição para sua vida pública, o governador cerrou ouvidos às intrigas de Jerusalém, afirmando que de modo algum podia tran­sigir no cumprimento do dever, naquele significativo instante de sua vida. Desculpou-se, desapontado, com os velhos políticos do Sinédrio e do Templo, que o fixavam com olhos rancorosos e pronunciou as célebres palavras.

— Apelaste para César? Irás a César!

Com essa antiga fórmula ficaram encerrados os trabalhos do novo julgamento. Os representantes do Sinédrio retiraram-se extremamente irritados, exclaman­do um deles, em voz alta, para o prisioneiro que recebeu o insulto serenamente:

— Só os desertores malditos apelam para César. Vai-te para os gentios, indigno intrujão!...

O Apóstolo fixou-o com benignidade, enquanto se preparava para voltar ao cárcere.

O governador, sem perder tempo, determinou se anotasse a petição do réu, para prosseguimento do feito. No dia seguinte demorou-se a estudar o caso e sentiu-se presa de grande indecisão. Não podia enviar o acusado à capital do Império, sem justificar os motivos da prisão, por tanto tempo, nos cárceres de Cesaréia. Como pro­ceder? Mas, decorridos alguns dias, Herodes Agripa e Berenice vinham saudar o novo governador, em visita cerimonioSa e imprevista. O preposto imperial não pôde dissimular as preocupações que o absorviam, e depois das solenidades protocolares, devidas a hóspedes tão ilustres, Contou a Agripa a história de Paulo de Tarso, cuja personalidade empolgava os mais indiferentes. O rei palestinense, que conhecia a fama do ex-rabino, ma­nifestou desejo de observá-lo de perto, ao que Festo anuiu satisfeitíssimo, não somente pela possibilidade de proporcionar um prazer ao hóspede generoso, senão tam­bém por esperar das impressões do mesmo algo de útil para ilustrar o processo do Apóstolo, que lhe incumbia enviar para Roma.

Pórcio deu a esse ato um caráter festivo. Convidou as personalidades mais eminentes de Cesaréia, reunindo luzida assembléia em torno do rei, no melhor e mais vasto auditório da Corte Provincial. Primeiramente houve bailados e música; em seguida, o convertido de Damasco, devidamente escoltado, foi apresentado pelo próprio go­vernador, em termos discretos, mas cordiais e sinceros.

Herodes Agripa impressionou-se logo, vivamente, com a figura alquebrada e franzina do Apóstolo, cujos olhos serenos traduziam a energia inquebrantável da raça. Curioso por conhecê-lo melhor, mandou que se defendesse de viva voz.

Paulo compreendeu a profunda significação daquele minuto e passou a historiar os transes da sua existência com grande erudição e sinceridade. O rei ouvia assom­brado. O ex-rabino evocou a infância, deteve-se nas reminiscências da mocidade, explicou sua aversão aos se­guidores do Cristo Jesus e, exuberante de inspiração, traçou o quadro do seu encontro com o Mestre redivivo, às portas de Damasco, à viva luz do sol. Em seguida, passou a enumerar os feitos da obra de gentilidade, as perseguições sofridas em toda parte por amor ao Evan­gelho, concluíndo, com veemência, que, sem embargo, suas pregações não contrariavam, antes corroboravam as pro­fecias da Lei Antiga, desde Moisés.

Dando curso à imaginação ardente e fácil, o orador tinha os olhos jubilosos e brilhantes.

A assembléia aris­tocrática estava eminentemente impressionada com os fatos narrados, denotando entusiasmo e alegria. Herodes Agripa, muito pálido, tinha a impressão de haver encon­trado uma das mais profundas vozes da revelação divina. Pórcio Festo não ocultava a surpresa que lhe assaltara subitamente o espírito. Não presumia no prisioneiro tamanho cabedal de fé e persuasão. Ouvindo o Apóstolo descrever as cenas mais belas do seu apostolado com os olhos repletos de alegria e de luz, transmitindo ao audi­tório atento e comovido idéias imprevistas e singulares, o governador considerou que se trataria de um louco sublime e disse-lhe, em alta voz, na intercorrência de uma pausa mais prolongada:

— Paulo, és um desvairado! As muitas letras fa­zem-te delirar!...

O ex-rabino, longe de se atemorizar, respondeu no­bremente:

— Enganais-vos! Não sou um louco! Diante da vossa autoridade de romano ilustre, eu não me atreveria a falar desta maneira, pois reconheço que não estais de­vidamente preparado para ouvir-me. Os patrícios de Augusto são também de Jesus-Cristo, mas ainda não conhecem plenamente o Salvador. A cada qual, devemos falar de acordo com sua capacidade espiritual. Aqui, porém, senhor governador, se falo com ousadia é por­que me dirijo a um rei que não ignora o sentido de minhas palavras. Herodes Agripa terá ouvido Moisés, desde a infância. É romano pela cultura, mas alimen­tou-se da revelação de Deus aos seus antepassados. Nenhuma de minhas afirmações lhe pode ser desconhe­cida. De outro modo, ele trairia sua origem sagrada, pois todos os filhos da nação que aceitou o Deus único devem conhecer a revelação de Moisés e dos profetas. Credes assim, rei Agripa?

A pergunta causou enorme espanto. O próprio admi­nistrador provincial não teria coragem de se dirigir ao rei com tamanha desenvoltura. O ilustre descendente de Ântipas estava altamente surpreendido. Extrema palidez cobria-lhe o semblante. Ninguém, assim, jamais lhe houvera falado em toda a sua vida.

Percebendo-lhe a atitude mental, Paulo de Tarso completou a poderosa argumentação, acrescentando:

— Sei que credes!...

Confuso com o desembaraço do orador, Agripa sa­cudiu a fronte como se desejasse expulsar alguma idéia importuna, esboçou um sorriso vago, dando a entender que estava senhor de si, e disse em tom de gracejo:

— Ora esta! por pouco me persuades a fazer uma profissão de fé cristã...

O Apóstolo não se deu por vencido e revidou:

— Oxalá que, por pouco ou muito, vos fizésseis discípulo de Jesus; não somente vós, mas todos quantos nos ouviram hoje.

Pórcio Festo compreendeu que o rei estava muito mais impressionado do que se supunha e, desejoso de modificar o ambiente, propôs que as altas personalidades se retirassem para a refeição da tarde, em palácio. O ex-rabino foi reconduzido ao cárcere, deixando nos ouvin­tes imorredoura impressão. Berenice, sensibilizada, foi a primeira a manifestar-se, reclamando demência para o prisioneiro. Os demais seguiram a mesma corrente de benévola simpatia. Herodes Agripa tentou uma fórmula digna para que o Apóstolo fosse restituido à liberdade. O governador, porém, explicou que, conhecendo a fibra moral de Paulo, tomara a sério o seu recurso para César, estando já pergaminhadas as primeiras instruções a res­peito. Cioso das leis romanas, pôs embargos ao alvitre, embora pedisse o socorro intelectual do rei para a carta. de justificação, com que o acusado deveria apresentar-se à autoridade competente, na capital do Império. Dese­joso de conservar sua tranqüilidade política, o descen­dente dos Herodes não aventou qualquer nova sugestão, lamentando apenas que o prisioneiro já houvesse recor­rido em derradeira instância. Procurou então cooperar na redação do documento, mostrando-se contrário ao pre­gador do Evangelho tão-só pela circunstância de haver suscitado muitas lutas religiosas na camada popular, em desacordo com a unidade de fé colimada pelo Sinédrio como baluarte defensivo das tradições do judaísmo. Para isso, o próprio rei assinara como testemunha, empres­tando maior importância às alegações do preposto im­perial. Pórcio Festo registrou o auxílio, extremamente satisfeito. Estava resolvido o problema e Paulo de Tarso poderia partir com a primeira leva de sentenciados, para Roma.

Escusado dizer que recebeu a notícia com sereni­dade. Depois de um entendimento com Lucas, pediu que a igreja de Jerusalém fosse avisada, bem como a de Sídon, onde o navio, certo, haveria de receber carga e passageiros. Todos os amigos de Cesaréia foram mobilizados no serviço das comovedoras mensagens que o ex-rabino dirigiu às amadas igrejas, menos Timóteo, Lucas e Aristarco, que se propunham acompanhá-lo à capital do Império.

Os dias correram, céleres, até que chegou o mo­mento em que o centurião Júlio com a sua escolta foi buscar os prisioneiros para a viagem tormentosa. O cen­turião tinha plenos poderes para determinar todas as providências e, logo, evidenciando simpatia pelo Apóstolo, ordenou fosse ele conduzido à embarcação desalgemado, em contraste com os demais prisioneiros.

O tecelão de Tarso, apoiado ao braço de Lucas, reviu, placidamente, a tela clara e barulhenta das ruas, afagan­do a esperança de uma vida mais alta, em que os homens pudessem gozar fraternidade em nome do Senhor Jesus. Seu coração mergulhava em doces reflexões e preces ardentes, quando foi surpreendido com a compacta mul­tidão que se premia e agitava na extensa praça a bei­ra-mar.

Filas de velhos, de jovens e crianças, aglomeraram-se junto dele, a poucos metros da praia. À frente, Tiago alquebrado e velhinho, vindo de Jerusalém com grande sacrifício, por trazer-lhe o ósculo fraternal. O ardente defensor da gentilidade não conseguiu dominar a emoção. Bandos de crianças atiraram-lhe flores. O filho de Alfeu, reconhecendo a nobreza daquele Espírito heróico, tomou-lhe a destra e beijou-a com efusão. Ali estava com todos os cristãos de Jerusalém, em condições de fazer a viagem. Ali estavam confrades de Jope, de Lida, de Antipátris, de todos os quadrantes provinciais. As crian­ças da gentilidade uniam-se aos pequeninos judeus, que saudavam carinhosamente o Apóstolo prisioneiro. Velhos aleijados aproximavam-se respeitosos e exclamavam:

— Não deveríeis partir!...

Mulheres humildes agradeciam os benefícios rece­bidos de suas mãos. Doentes curados comentavam a colônia de trabalho que ele sugerira e ajudara a fundar na igreja de Jerusalém e proclamavam sua gratidão em altas vozes. Os gentios, convertidos ao Evangelho, bei­javam-lhe as mãos, murmurando:

— Quem nos ensinará doravante, a sermos filhos do Altíssimo?

Meninos amorosos apegavam-se-lhe à túnica, sob os olhares de mães consternadas.

Todos lhe pediam que ficasse, que não partisse, que voltasse breve para os serviços abençoados de Jesus.

Subitamente, recordou a velha cena da prisão de Pedro, quando, ele, Paulo, arvorado em verdugo dos dis­cípulos do Evangelho, visitara a igreja de Jerusalém, che­fiando uma expedição punitiva. Aqueles carinhos do povo lhe falavam brandamente à alma. Significavam que já não era o algoz implacável que, até então, não pudera compreender a misericórdia divina; traduziam a quitação do seu débito com a alma do povo. De consciência um tanto aliviada, recordou-se de Abigail e começou a cho­rar. Sentia-se, ali, como no seio dos “filhos do Calvário” que o abraçavam, reconhecidos. Aqueles mendigos, aque­les aleijados, aquelas criancinhas eram a sua família. Naquele inesquecível minuto da sua vida, sentia-se plenamente identificado no ritmo da harmonia universal. Bri­sas suaves de mundos diferentes balsamizavam-lhe a alma, como se houvesse atingido uma região divina, depois de vencer grande batalha. Pela primeira vez, al­guns pequeninos chamaram-lhe “pai”. Inclinou-se, com mais ternura, para as criancinhas que o rodeavam. Inter­pretava todos os episódios daquela hora inolvidável como uma bênção de Jesus que o ligava a todos os seres. À sua frente, o oceano em calma assemelhava-se a um caminho infinito e promissor de misteriosas e inefáveis belezas.

Júlio, o centurião da guarda, aproximou-se comovido e falou com brandura:

— Infelizmente, chegou o momento de partir.

E, testemunha das manifestações tributadas ao Após­tolo, também ele tinha os olhos úmidos. Muitos réus se lhe haviam já deparado naquelas circunstâncias e eram todos revoltados, desesperados, ou penitentes arrepen­didos. Aquele, porém, estava sereno e quase feliz. Júbilo indizível lhe transbordava dos olhos brilhantes. Além disso, sabia que aquele homem, dedicado ao bem de todas as criaturas, não cometera falta alguma. Por isso mesmo, conservou-se ao seu lado, como querendo compartilhar dos transportes afetuosos do povo, como a demonstrar a consideração que lhe merecia.

O Apóstolo dos gentios abraçou os amigos pela últi­ma vez. Todos choravam discretamente, à maneira dos sinceros discípulos de Jesus, que não pranteiam sem con­solo: as mães ajoelhavam-se com os filhinhos na areia alva, os velhos, apoiando-se a rudes cajados, com imenso esforço. Todos os que abraçavam o campeão do Evan­gelho, punham-se de joelhos, rogando ao Senhor que abençoasse o seu novo roteiro.

Concluíndo as despedidas, Paulo acentuava com se­renidade heróica:

— Choremos de alegria, irmãos! Não há maior gló­ria neste mundo que a de estar o homem a caminho de Cristo Jesus!... O Mestre foi ao encontro do Pai, através dos martírios da Cruz! Abençoemos nossa cruz de cada dia. É preciso trazermos as marcas do Senhor Jesus! Não acredito possa voltar aqui, com este alquebrado corpo de minhas lutas materiais. Espero que o Senhor me conceda o derradeiro testemunho em Roma; entre­tanto, estarei convosco pelo coração; voltarei às nossas igrejas em Espírito; cooperarei no vosso esforço nos dias mais amargos. A morte não nos separará, tal como não separou o Senhor da comunidade dos discípulos. Nunca estaremos distantes uns dos outros e, por isso mesmo, prometeu Jesus que estaria ao nosso lado até ao fim dos séculos!...

Júlio ouviu a exortação, comovidamente. Lucas e Aristarco soluçavam baixinho.

A seguir, o Apóstolo tomou o braço do médico amigo e, seguido de perto pelo centurião, caminhou resoluto e sereno em demanda do barco.

Centenas de pessoas acompanharam as manobras da largada, em santificado recolhimento regado de lágrimas e preces. Enquanto o navio se afastava lento, Paulo e os companheiros contemplavam Cesaréia, de olhos ume­decidos. A multidão silenciosa, dos que ficavam em pran­to, acenava e ondeava na praia que a distância, aos poucos, diluía. Jubiloso e reconhecido, Paulo de Tarso descansava o olhar no campo de suas lutas acerbas, me­ditando nos longos anos de viltas e reparações necessá­rias. Recordava a infância, os primeiros sonhos da juven­tude, as inquietações da mocidade, os serviços dignifi­cantes do Cristo, sentindo que deixava a Palestina para sempre. Grandiosos pensamentos o empolgavam, quando Lucas se aproximou e, apontando a distância os amigos que continuavam genuflexos, exclamou brandamente:

— Poucos fatos me comoveram tanto no mundo, como este! Registrarei nas minhas anotações como foste amado por quantos receberam das tuas mãos fraternais o benefício de Jesus!...

Paulo pareceu ponderar profundamente a advertên­cia e acentuou:

— Não, Lucas. Não escrevas sobre virtudes que não tenho. Se me amas não deves expor meu nome a falsos julgamentos. Deves falar, isso sim, das perseguições por mim movidas aos seguidores do santo Evangelho; do favor que o Mestre me dispensou às portas de Damasco, para que os homens mais empedernidos não desesperem da salvação e aguardem a sua misericórdia no momento justo; citarás os combates que temos travado desde o pri­meiro instante, em face das imposições do farisaísmo e das hipocrisias do nosso tempo; comentarás os obstáculos vencidos, as humilhações dolorosas, as dificuldades sem conta, para que os futuros discípulos não esperem a re­denção espiritual com o repouso falso do mundo, confiantes no favor incompreensível dos deuses e sim com trabalhos ásperos, com sacrifícios abençoados pelo aper­feiçoamento de si mesmos; falarás de nossos encontros com os homens poderosos e cultos; de nossos serviços junto dos desfavorecidos da sorte, para que os seguidores do Evangelho, no futuro, não se arreceiem das situações mais difíceis e escabrosas, conscientes de que os mensa­geiros do Mestre os assistirão, sempre que se tornem instrumentos legítimos da fraternidade e do amor, ao longo dos caminhos que se desdobram à evolução da Humanidade.

E depois de longa pausa, em que observou a atenção com que Lucas lhe acompanhou os inspirados raciocínios, prosseguiu em tom sereno e firme:

— Cala sempre, porém, as considerações, os favo­res que tenhamos recolhido na tarefa, porque esse galar­dão só pertence a Jesus. Foi Ele quem removeu nossas misérias angustiosas, enchendo o nosso vácuo; foi sua mão que nos tomou caridosamente e nos reconduziu ao caminho santo. Não me contaste tuas lutas amargurosas no passado distante? Não te contei como fui perverso e ignorante, em outros tempos? Assim como iluminou mi­nhas veredas sombrias, às portas de Damasco, levou-te Ele à igreja de Antioquia, para que lhe ouvisses as ver­dades eternais. Por mais que tenhamos estudado, senti­mos um abismo entre nós e a sabedoria eterna; por mais que tenhamos trabalhado, não nos encontramos dignos dAquele que nos assiste e guia desde o primeiro instante da nossa vida. Nada possuímos de nós mesmos!... O Se­nhor enche o vácuo de nossa alma e opera o bem que não possuímos. Esses velhinhos trêmulos que nos abraçaram em lágrimas, as crianças que nos beijaram com ternura, fizeram-no ao Cristo. Tiago e os companheiros não vie­ram de Jerusalém tão-só para manifestar-nos sua fra­ternidade afetuosa; vieram trazer testemunhos de amor ao Mestre que nos reuniu na mesma vibração de solida­riedade sacrossanta, embora não saibam traduzir o meca­nismo oculto dessas emoções grandiosas e sublimes. No meio de tudo isso, Lucas, fomos apenas míseros servos que se aproveitaram dos bens do Senhor para pagar as próprias dívidas. Ele nos deu a misericórdia para que a justiça se cumprisse. Esses júbilos e essas emoções divinas lhe pertencem... Não tenhamos, portanto, a mí­nima preocupação de relatar episódios que deixariam uma porta aberta para a vaidade incompreensível. Que nos baste a profunda convicção de havermos liqüidado nossos débitos clamorosos...

Lucas ouviu admirado essas considerações oportu­nas e justas, sem saber definir a surpresa que lhe causavam.

— Tens razão — disse finalmente —, somos fracos demais para nos atribuirmos qualquer valor.

— Além disso — acrescentou Paulo —, a batalha do Cristo está começada. Toda vitória pertencerá ao seu amor e não ao nosso esforço de servos endividados... Escreve, portanto, tuas anotações do modo mais simples e nada comentes que não seja para glorificação do Mestre no seu evangelho imortal!...

Enquanto Lucas procurava Aristarco para transmi­tir-lhe aquelas sugestões sábias e afetuosas, o ex-rabino continuou fitando o casario de Cesaréia, que se apagava agora no horizonte. A embarcação navegava suavemente, afastando-se da costa... Por longas horas, deixou-se ficar ali, meditando o passado que lhe surgia aos olhos espirituais, qual imenso crepúsculo. Mergulhado nas re­miniscências entrecortadas de preces a Jesus, ali perma­neceu em significativo silêncio, até que começaram a brilhar no firmamento muito azul os primeiros astros da noite.



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