Paulo e estevão francisco cândido xavier



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Ao encontro do Mestre
Às vésperas da partida em busca da gentilidade es­panhola, eis que o Apóstolo recebe uma carta comovente de Simão Pedro. O ex-pescador de Cafarnaum escrevia-lhe de Corinto, avisando sua próxima chegada à cidade imperial. A missiva era afetuosa e enternecedora, cheia de confidências amargas e tristes. Pedro confiava ao amigo suas derradeiras desilusões na Ásia e mostrava-se-lhe vivamente interessado pelo que lhe sucedera em Roma. Ignorando que o ex-rabino fora restituido à liber­dade, procurava confortá-lo fraternalmente. Também ele, Simão, deliberara exilar-se junto dos irmãos da metrópole imperial, esperando ser útil ao amigo, em quaisquer cir­cunstâncias. Ainda no mesmo documento íntimo, rogava aproveitasse o portador para comunicar aos confrades romanos o propósito de se demorar algum tempo entre eles.

O convertido de Damasco leu e releu a mensagem amiga, altamente sensibilizado.

Pelo emissário, irmão da igreja de Corinto, foi avi­sado de que o venerando Apóstolo de Jerusalém chegaria ao porto de Óstia dentro de dez dias, mais ou menos.

Não hesitou um momento. Lançou mão de todos os meios ao seu alcance, preveniu os íntimos e preparou uma casa modesta, onde Pedro pudesse alojar-se com a família. Criou o melhor ambiente para a recepção do res­peitável companheiro. Valendo-se do argumento de sua próxima excursão à Espanha, dispensava as dádivas dos amigos, indicando-lhes as necessidades de Simão, para que nada lhe faltasse. Transportou quanto possuía, em objetos de uso doméstico, do singelo aposento que alugara junto à Porta Lavernal para a casinha destinada a Simão, próximo dos cemitérios israelitas da Via Ápia. Esse exemplo de cooperação foi altamente apreciado por todos. Os irmãos mais humildes fizeram questão de oferecer pe­queninas utilidades ao Apóstolo venerando que chegaria desprovido.

Informado de que a embarcação entrava no porto, o ex-rabino largou-se pressurosamente para Óstia. Lucas e Timóteo, sempre em sua companhia, junto de outros cooperadores devotados, o amparavam nos pequenos aci­dentes do caminho, dando-lhe o braço, aqui e ali.

Não fora possível organizar uma recepção mais os­tensiva. A perseguição surda aos adeptos do Nazareno apertava o cerco por todos os lados. Os últimos conse­lheiros honestos do Imperador estavam desaparecendo. Roma assombrava-se com a enormidade e quantidade de crimes que se repetiam diariamente. Nobres figuras do patriciado e do povo eram vítimas de atentados cruéis. Atmosfera de terror dominava todas as atividades polí­ticas e, no cômputo dessas calamidades, os cristãos eram os mais rudemente castigados, em vista da atitude hostil de quantos se acomodavam com os velhos deuses e se regalavam com os prazeres de uma existência dissoluta e fácil. Os seguidores de Jesus eram acusados e respon­sabilizados por quaisquer dificuldades que sobrevinham. Se caía uma tempestade mais forte, devia-se o fenômeno aos adeptos da nova doutrina. Se o inverno era mais rigoroso, a acusação pesava sobre eles, porqüanto nin­guém como os discípulos do Crucificado havia desprezado tanto os santuários da crença antiga, abominando os fa­vores e os sacrifícios aos numes tutelares. A partir do reinado de Cláudio, espalhavam-se lendas torpes a res­peito das práticas cristãs. A fantasia do povo, ávido das distribuições de trigo nas grandes festas do circo, ima­ginava situações inexistentes, gerando conceitos extra­vagantes e absurdos, com relação aos crentes do Evan­gelho. Por isso mesmo, desde o ano de 58, os cristãos imbeles eram levados ao Circo como escravos revolucio­nários ou rebeldes, que deveriam desaparecer. A opressão agravara-se dia a dia. Os romanos mais ou menos ilus­tres, pelo nome ou pela situação financeira, que simpa­tizavam com a doutrina do Cristo, continuavam indenes de públicos vexames; mas os pobres, os operários, os filhos da plebe, eram levados ao martírio, às centenas. Assim, os amigos do Evangelho não prepararam nenhuma homenagem pública à chegada de Simão Pedro. Ao invés, procuraram dar ao fato um cunho todo íntimo, de ma­neira a não despertar represálias dos esbirros da si­tuação.

Paulo de Tarso estendeu os braços ao velho amigo de Jerusalém, tomado de alegria. Simão trouxera a es­posa e os filhos, além de João. Sua palavra generosa estava cheia de novidades para o Apóstolo do gentilismo. Em poucos minutos, ficou sabendo da morte de Tiago e das novas torturas infligidas pelo Sinédrio à igreja de Jerusalém. O velho pescador contava as últimas peripécias da sua sorte, bem-humorado. Comentava os tes­temunhos mais pesados com um sorriso nos lábios e intercalava toda a narrativa de louvores a Deus. Depois de reportar-se às lutas que empenhara em muitas e repetidas peregrinações, contava ao ex-rabino que se refugiara alguns dias em Éfeso, junto de João, sendo acompanhado pelo filho de Zebedeu até Corinto, onde resolveram demandar a capital do Império. Paulo, por sua vez, relatou as tarefas recebidas de Jesus, nos últi­mos anos, e era de ver-se o otimismo e a coragem desses homens que, inflamados do espírito messiânico e amoroso do Mestre, comentavam as desilusões e as dores do mundo como láureas da vida.

Depois das suaves alegrias do reencontro, o grupo se encaminhou discretamente para a casinha reservada a Simão Pedro e sua família.

O ex-pescador, sentindo a excelência da acolhida carinhosa, não encontrava palavras para traduzir os júbi­los dalma. Como Paulo quando chegou a Pouzzoles, tinha a impressão de estar num mundo diferente daquele em que vivera até então.

Com a sua chegada, recrudesceram os serviços apos­tólicos: mas o pregador do gentilismo não abandonou a idéia de ir à Espanha. Alegando que Pedro o substi­tuiria com vantagem, deliberou embarcar no dia pre­fixado, num pequeno navio que se destinava à costa gau­lesa. Não valeram amistosos protestos, nem mesmo a Insistência de Simão para que adiasse a viagem. Acom­panhado de Lucas, Timóteo e Demas, o velho advogado dos gentios partiu ao amanhecer de um dia lindo, cheio de projetos generosos.

A missão visitou parte das Gálias, dirigindo-se ao território espanhol, demorando-se mais na região de Tor­tosa. Em toda parte, a palavra e feitos do Apóstolo ganhavam novos corações para o Cristo, multiplicando os serviços do Evangelho e renovando as esperanças populares, à luz do Reino de Deus.

Em Roma, todavia, a situação prosseguia cada vez mais grave. Com a perversidade de Tigelino à frente da Prefeitura dos Pretorianos, acentuara-se o terror entre os discípulos de Jesus. Faltava somente um édito em que os cidadãos romanos, simpatizantes do Evangelho, fossem condenados publicamente, porque os libertos, os descendentes de outros povos e os filhos da plebe já enchiam as prisões.

Simão Pedro, como figura de relevo do movimento, não tinha descanso. Não obstante a fadiga natural da senectude, procurava atender a todas as necessidades emergentes. Seu espírito poderoso sobrepunha-se a todas as vicissitudes e desempenhava os mínimos deveres com devotamento máximo à causa da Verdade. Assistia os doentes, pregava nas catacumbas, percorria longas dis­tâncias, sempre animoso e satisfeito. Os cristãos do mun­do inteiro jamais poderão esquecer aquela falange de abnegados que os precedeu nos primeiros testemunhos da fé, afrontando situações dolorosas e injustas, regando com sangue e lágrimas a sementeira do Cristo, abra­çando-se mutuamente confortados nas horas mais negras da história do Evangelho, nos espetáculos hediondos do circo, nas preces de aflição que se elevavam dos cemi­térios abandonados.

Tigelino, grande inimigo dos prosélitos do Naza­reno, buscava agravar a situação por todos os meios ao alcance da sua autoridade odiosa e perversa.

O filho de Zebedeu preparava-se para regressar à Ásia, quando um grupo de esbirros dos perseguidores o colheu em pregação carinhosa e inspirada, na qual se despedia dos confrades de Roma, com exortações de to­cante reconhecimento a Jesus. Apesar das atenciosas explicações, João foi preso e esbordoado impiedosamente. E, com ele, dezenas de irmãos foram trancafiados nos cárceres imundos do Esquilino.

Pedro recebeu a notícia dolorosamente surpreendido. Conhecia a extensão dos trabalhos que aguardavam na Ásia o companheiro generoso e rogou ao Senhor não o abandonasse, a fim de obter absolvição justa. Como proceder em tão difíceis circunstâncias? Recorreu às relações prestigiosas que a cidade lhe oferecia. Entre­tanto, seus afeiçoados eram igualmente pobres de influência política nos gabinetes administrativos da época. Os cristãos de posição financeira mais destacada não ousavam enfrentar a onda avassaladora, de perseguição e tirania. O antigo chefe da igreja de Jerusalém não desanimou. Precisava libertar o amigo, concorrendo, para isso, com todo o potencial de energia, na esfera de suas possibilidades.

Compreendendo a timidez natural dos romanos simpatizantes do Cristo, buscou reunir apressadamente uma assembléia de amigos íntimos, para examinar o caso.

No meio dos debates alguém se lembrou de Paulo.

O Apóstolo dos gentios dispunha na capital do Império de grande número de afeiçoados eminentes. No caso da sua absolvição, a providência partira do círculo dileto de Popéia Sabina. Muitos militares colaboradores de Afrâ­nius Búrrus eram seus admiradores. Acácio Domício, que dispunha de valiosos empenhos junto dos pretorianos, era seu amigo dedicado e incondicional. Ninguém melhor que o ex-tecelão de Tarso poderia incumbir-se da delicada missão de salvar o prisioneiro. Não seria razoável pedir sua ajuda? Comentava-se o caráter urgente da medida, mesmo porque, numerosos cristãos morriam todos os dias na prisão do Esquilino, vítimas das queimaduras de azeite fervente. Tigelino e alguns comparsas da administração criminosa distraíam-se com os suplícios das vítimas. O azeite era lançado aos infelizes no poste do martírio. Outras vezes, os prisioneiros maniatados eram mergulha­dos em grandes barris de água em ebulição. O Prefeito dos Pretorianos exigia que os correligionários assistissem ao suplício, para escarmento geral. Os encarcerados acompanhavam as tristes operações, banhados em pranto silencioso. Verificada a morte da vítima, um soldado se encarregava de lançar as vísceras aos peixes famintos, nos tanques vastos das prisões odiosas. Dada a situação geral, apavorante, poder-se-ia contar com a intervenção de Paulo? A Espanha ficava muito distante. Era possível que a sua vinda não aproveitasse ao caso pessoal de João. Pedro, porém, considerou a oportunidade do recurso e advertiu que seguiriam trabalhando a favor do filho de Zebedeu. Nada impedia, porém, de recorrer desde logo para o prestígio de Paulo, ainda porque a situação piora­va de instante a instante. Aquele ano de 64 começara com terríveis perspectivas. Não se podia dispensar um homem enérgico e resoluto à frente dos interesses da causa.

Dado este parecer do venerando Apóstolo de Jeru­salém, a assembléia concordou com a medida aventada. Um irmão que se tornara devotado cooperador de Paulo, em Roma, foi mandado à Espanha, com urgência. Esse emissário era Crescêncio, que saiu de Óstia, com enorme ansiedade, levando a missiva de Simão.

O Apóstolo dos gentios, depois de muito peregrinar, demorava-se em Tortosa, onde conseguira reunir grande número de colaboradores devotados a Jesus. Suas ativi­dades apostólicas continuavam ativas, conquanto atenua­das, em virtude do cansaço físico. O movimento das epístolas diminuira, mas não se interrompera de todo Atendendo à necessidade das igrejas do Oriente, Timóteo partira da Espanha para a Ásia, carregado de cartas e recomendações amigas. Em torno do Apóstolo agrupa­ra-se novo contingente de cooperadores diligentes e sin­ceros. Em todos os recantos, Paulo de Tarso ensinava o trabalho e a renúncia, a paz da consciência e o culto do bem.

Quando planejava novas viagens na companhia de Lucas. eis que surge em Tortosa o mensageiro de Simão.

O ex-rabino lê a carta e resolve regressar à cidade imperial, imediatamente. Através das linhas afetuosas do velho antigo, entreviu a gravidade dos acontecimen­tos. Além disso, João necessitava voltar à Ásia. Não ignorava a influência benéfica que ele exercia em Jeru­salém.

Em Éfeso, onde a igreja se compunha de ele­mentos judaicos e gentios, o filho de Zebedeu fora sempre um vulto nobre e exemplar, indene de espírito sectarista. Paulo de Tarso passou em revista as necessidades do serviço evangélico entre as comunidades orientais, e con­cluiu pela urgência do regresso de João, deliberando in­tervir no assunto sem perda de tempo.

Como de outras vezes, nada valeram as considera­ções dos amigos, no tocante ao problema de sua saúde. O homem enérgico e decidido, apesar dos cabelos brancos, mantinha o mesmo ânimo resoluto, elevado e firme, que o caracterizara na mocidade distante.

Favorecido pela grande movimentação de barcos, nos princípios de maio de 64, não lhe foi difícil retornar ao porto de Óstia, junto dos companheiros.

Simão Pedro recebeu-o enternecido. Em poucas ho­ras o convertido de Damasco conhecia a situação intole­rável criada em Roma pela ação delituosa de Tigelino. João continuava encarcerado, apesar dos recursos leva­dos aos tribunais, O antigo pescador de Cafarnaum, em significativas confidências, revelava ao companheiro que o coração lhe pressagiava novas dores e testemunhos cruciantes. Um sonho profético anunciava-lhe persegui­ções e provas ásperas. Numa das últimas noites, contem­plara um quadro singular, em que uma cruz de propor­ções gigantescas parecia envolver com sua sombra toda a família dos discípulos do Senhor. Paulo de Tarso ou­viu-o, com interesse, manifestando-se de inteiro acordo com os seus pressentimentos. Apesar dos horizontes car­regados, deliberaram uma ação conjunta para libertar o filho de Zebedeu.

Corria o mês de junho.

O ex-rabino desdobrou-se em atividades intensas, procurou Acácio Domicio, solicitando a sua intervenção e valimento. Mais ainda: considerando que as providên­cias morosas poderiam redundar num fracasso, auxiliado por amigos eminentes procurou avistar-se com numero­sos áulicos da Corte Imperial, chegando à presença de Popéia Sabina, a fim de rogar seus bons ofícios, no caso do filho de Zebedeu. A célebre favorita ouviu-lhe a con­fidência com enorme surpresa. Aquelas revelações de uma vida eterna, aquela concepção da Divindade assus­tavam-na. Embora inimiga declarada dos cristãos, dada a simpatia que mantinha pelo judaísmo, Popéia impres­sionou-se com a figura ascética do Apóstolo e com os argumentos de reforço ao seu pedido. Sem ocultar sua admiração, prometeu atendê-lo, apontando desde logo as providências imediatas.

Paulo retirou-se esperançoso da absolvição do com­panheiro, porque Sabina prometera libertá-lo dentro de três dias.

Voltando à comunidade, deu ciência aos irmãos da entrevista que tivera com a favorita de Nero; mas, ter­minada a exposição, notou, algo surpreso, que alguns companheiros reprovavam a sua iniciativa. Pediu, então, que o esclarecessem e justificassem quaisquer dúvidas. Surgiram fracas considerações que ele acolheu com a sua inesgotável serenidade.

Alegava-se que não era louvável dirigir-se a uma cortesã dissoluta, para impetrar um favor. Semelhante proceder afigurava-se de Éfeso a segui­dores do Cristo. Popéia era mulher de vida notadamente dissoluta, banqueteava-se nas orgias do Palatino, caracte­rizava-se por sua luxúria escandalosa. Seria razoável pedir-lhe proteção para os discípulos de Jesus?

Paulo de Tarso aceitou as mofinas argüições com beatífica paciência e objetou, sensatamente:

— Respeito e acato a vossa opinião, mas, antes de tudo, considero necessário libertar João. Fosse eu o pri­sioneiro e não haveria de julgar o caso tão urgente e tão grave. Estou velho, alquebrado, e, portanto, melhor me fora, e mais útil quiçá, meditar na misericórdia de Jesus, através das grades do cárcere. Mas João está relativa­mente moço, é forte e dedicado; o Cristianismo da Ásia não pode dispensar-lhe a atividade construtiva, até que outros trabalhadores sejam chamados à semeadura di­vina. Com referência às vossas dúvidas, porém, cum­pre-me aduzir um argumento que requer ponderação. Por que considerais imprópria uma solicitação a Popéia Sabina? Teríeis a mesma idéia, se me dirigisse a Tigelino ou ao próprio imperador? Não serão eles vítimas da mesma prostituição que estigmatiza as favoritas de sua Corte? Se combinasse com um militar embriagado, do Pa­latino, as providências imprescindíveis à libertação do companheiro, talvez aplaudísseis meu gesto, sem res­trições.

Irmãos, é indispensável compreender que a der­rocada moral da mulher, quase sempre, vem da prostitui­ção do homem. Concordo em que Popéia não é a figura mais conveniente ao feito, em virtude das inquietações da sua vida; entretanto, é a providência que as circunstâncias indicaram e nós precisamos libertar o devotado discípulo do Senhor. Aliás, procurei valer-me de seme­lhantes recursos, recordando a exortação do Mestre, na qual recomenda ao homem granjear amigos com as rique­zas da iniqüidade (1). Considero que quaisquer relações com o Palatino constituem expressões da fortuna iníqua, mas suponho útil mobilizar os que se conservam “mortos” no pecado para algum ato de caridade e de fé, pelo qual se desliguem dos laços com o passado delituoso, auxilia­dos pela intercessão de amigos fiéis.

A elucidação do Apóstolo espalhou grande calma em todo o recinto. Em poucas palavras, Paulo de Tarso fi­zera ver, aos companheiros, transcendentes conclusões de ordem espiritual.

A promessa não falhara. Em três dias o filho de Zebedeu era restituído à liberdade. João estava abati­díssimo. Os maus tratos, a contemplação dos quadros
(1) Lucas. Capítulo 16º, versículo 9. — (Nota de Emmanuel.)

terríveis do cárcere, a expectação angustiosa, haviam-lhe mergulhado o espírito em perplexidades dolorosas.

Pedro regozijava-se, mas o ex-rabino, atento à ten­são ambiente, sugeriu o regresso do Apóstolo galileu à Ásia, sem perda de tempo. A igreja de Éfeso esperava-o. Jerusalém devia contar com a sua colaboração desinte­ressada e amiga. João não teve tempo para muitas considerações, porque Paulo, como que possuído de amargos pressentimentos, foi ao porto de Óstia para predispor o seu embarque, aproveitando um navio napolitano prestes a largar para Mileto. Colhido pelas providências e im­possibilitado de resistir ao resoluto ex-rabino, o filho de Zebedeu embarcou em fins de junho de 64, enquanto os demais amigos permaneceriam em Roma para a boa batalha em prol do Evangelho.

Quanto mais sombrios os horizontes, mais coeso se tornava o grupo dos irmãos na fé, em Cristo Jesus. Multiplicavam-se as reuniões nos cemitérios distantes e abandonados. Naqueles dias de sofrimentos, as prega­ções pareciam mais belas.

Paulo de Tarso e os cooperadores desdobravam-se em edificações espirituais, quando a cidade foi sacudida, de súbito, por espantoso acontecimento. Na manhã de 16 de julho de 64 irrompeu violento incêndio nas pro­ximidades do Grande Circo, abrangendo toda a região do bairro localizado entre o Célio e o Palatino. O fogo começara em vastos armazéns repletos de material infla­mável e propagara-se com rapidez assombrosa. Debalde foram convocados os operários e homens do povo para atenuar-lhe a violência; em vão a turba numerosa e compacta movimentou recursos para aliviar a situação. As labaredas subiam sempre, alastrando-se com furor, dei­xando montões de escombros e ruínas. Roma inteira acudia a ver o sinistro espetáculo, já empolgada pelas suas paixões ameaçadoras e terríveis. O fogo, com prodigiosa rapidez, deu volta ao Palatino e invadiu o Velabro. O primeiro dia findava-se com angustiosas perspectivas. O firmamento cobria-se de fumo espesso, iluminando-se grande parte das colinas com o clarão odioso do incêndio terrível. As elegantes construções do Aventino e do Célio pareciam árvores secas de flo­resta em chamas. Acentuara-se a desolação das vítimas da enorme catástrofe. Tudo ardia nas adjacências do Fórum. Começou o êxodo com infinitas dificuldades. As portas da cidade congestionavam-se de pessoas toma­das de profundo terror. Animais espavoridos corriam ao longo das vias públicas, como acossados por perseguidores invisíveis. Prédios antigos, de sólida constru­ção, ruiam com sinistro estrondo. Todos os habitantes de Roma desejavam distanciar-se da zona comburente.

Ninguém mais se atrevia a atacar a fogueira indômita. O segundo dia apresentou-se com o mesmo espetáculo inesquecível. Os populares desistiram de salvar alguma coisa; contentavam-se em poder enterrar os mortos sem conta, encontrados nos locais de possível acesso. Dezenas de pessoas percorriam as ruas em gargalhadas de hor­rível acento; a loucura generalizava-se entre as criaturas mais impressionáveis. Macas improvisadas conduziam feridos sem destino certo. Longas procissões invadiam os santuários para salvar as suntuosas imagens dos deuses. Milhares de mulheres acompanhavam a figura impassível dos numes tutelares, em dolorosas súplicas, fazendo votos de penosos sacrifícios, em vozes esten­tóricas. Homens piedosos apanhavam, no remoinho das multidões estonteadas, as crianças massacradas ou ape­nas feridas. Toda a zona de acesso a Via Ápia, em direção de Alba Longa, estava entupida de retirantes apressados e desiludidos. Centenas de mães gritavam pelos filhinhos desaparecidos e, não raro, tomavam-se providências, à pressa, para socorrer as que enlouque­ciam. A população em peso desejava abandonar a cidade, ao mesmo tempo. A situação tornara-se perigosa. A turba amotinada atacava as liteiras dos patrícios. So­mente os cavaleiros desassombrados conseguiam romper a mole humana, provocando novas blasfêmias e lamen­tações.

O fogo já havia devorado, quase totalmente, os pala­cetes nobres e preciosos das Carinas e continuava des­troçando os bairros romanos, entre os vales e as colinas, onde a população era muito densa. Durante uma semana, dia e noite, lavrou o fogo destruidor, espalhando deso­lações e ruínas. Das catorze circunscrições em que se dividia a metrópole imperial, apenas quatro ficaram in­cólumes. Três eram uma aluvião de escombros fumegan­tes e as outras sete conservavam tão-só alguns vestígios dos edifícios mais preciosos.

O imperador estava em Áncio (Antium), quando irrompeu a fogueira por ele mesmo idealizada, pois a verdade é que, desejoso de edificar uma cidade nova com os imensos recursos financeiros que chegavam das pro­víncias tributárias, projetara o incêndio famoso, assim vencendo a oposição do povo, que não desejava a trans­ferência dos santuários.

Além dessa medida de ordem urbanística, o filho de Agripina caracterizava-se, em tudo, pela sua origi­nalidade satânica. Presumindo-se genial artista, não pas­sava de monstruoso histrião, assinalando a sua passagem pela vida pública com crimes indeléveis e odiosos. Não seria interessante apresentar ao mundo uma Roma em chamas? Nenhum espetáculo, a seus olhos, seria ines­quecível como esse. Depois das cinzas mortas, reedifi­caria os bairros destruídos. Seria generoso para com as vítimas da imensa catástrofe. Passaria à história do Império como administrador magnânimo e amigo dos súditos sofredores.

Alimentando tais propósitos, combinou o atentado com os áulicos de sua maior confiança e intimidade, ausentando-se da cidade para não despertar suspeitas no espírito dos políticos mais honestos.

Entretanto, não pudera prever, ele próprio, a exten­são da espantosa calamidade. O incêndio tomara pro­porções indesejáveis. Seus conselheiros menos dignos não puderam pressentir a amplitude do desastre. Arran­cado, à pressa, dos seus prazeres criminosos, o impera­dor chegou a tempo de observar o último dia de fogo, verificando o caráter da medida odiosa. Dirigindo-se a um dos pontos mais elevádos, contemplou o montão de ruínas e sentiu a gravidade da situação. O extermínio da propriedade particular atingira proporções quase infinitas. Não se pudera prever tão dolorosas conseqüências.­ Reconhecendo a irritação justa do povo, Nero pro­curou falar, em público, esboçando algumas lágrimas na sua profunda capacidade de dissimulação. Prometeu au­xiliar a restauração das casas particulares, declarou que compartilhava do sofrimento geral e que Roma. se levan­taria novamente sobre os escombros fumegantes, mais imponente e mais bela. Imensa multidão ouvia-lhe a palavra, atenta aos seus mínimos gestos. O imperador na sua mímica teatral, assumia atitudes comovedoras. Referia-se aos santuários perdidos, debulhado em pranto. Invocava a proteção dos deuses, a cada frase de maior efeito. A turba sensibilizara-se. Jamais o César se mos­trara tão paternalmente comovido. Não seria razoável duvidar das suas promessas e observações.

Em dado instante, a sua palavra vibrou mais patética e expres­siva. Comprometia-se, solenemente, com o povo, a punir inexoravelmente os responsáveis. Procuraria os incendiários, vingaria a desgraça romana sem piedade. Roga­va, mesmo, a todos os habitantes da cidade cooperassem com ele, procurando e denunciando os culpados.

Nesse ínterim, quando o verbo imperial se tornara mais significativo, notou-se que a massa popular se agi­tava estranhamente. Maioria esmagadora irmanava-se, agora, num grito terrível:

— Cristãos às feras! Às feras!

O filho de Agripina encontrara a solução que pro­curava. Ele que procurava, em vão, no espírito super-excitado, as novas vítimas das suas maquinações exe­crandas, às quais pudesse atribuir a culpa dos sucessos lamentáveis, viu no brado ameaçador da turba uma resposta às próprias cogitações sinistras. Nero conhecia o ódio que o vulgo votava aos seguidores humildes do Nazareno, Os discípulos do Evangelho mantinham-se alheios e superiores aos costumes dissolutos e brutais da época. Não freqüentavam os circos, afastavam-se dos templos pagãos, não se prosternavam diante dos ídolos nem aplaudiam as tradições políticas do Império. Além disso, pregavam ensinamentos estranhos e pare­ciam aguardar um novo reino. O grande histrião do Palatino sentiu uma onda de alegria invadir-lhe os olhos míopes e congestos. A escolha do povo romano não poderia ser melhor. Os cristãos deviam ser mesmo os criminosos. Sobre eles deveria cair o gládio vingador. Trocou um olhar inteligente com Tigelino, como a expri­mir que haviam apanhado, ao acaso, a solução imprevista e logo afirmou à massa enfurecida que tomaria providên­cias imediatas para reprimir os abusos e castigar os culpados da catástrofe; finalmente, que o incêndio seria considerado crime de lesa-majestade e sacrilégio, para que os castigos também fossem excepcionais.

O povo aplaudia freneticamente, antegozando as sen­sações do circo, com esgares de feras e cânticos de martírio.

A nefanda acusação pesou sobre os discípulos de Jesus, como fardo hediondo.

As primeiras prisões realizaram-se como flagelo mal­dito. Numerosas famílias refugiaram-se nos cemitérios e nos arredores da cidade meio destruída, receosas dos algozes implacáveis. Praticava-se toda a espécie de abu­sos. Jovens indefesas eram entregues, nos cárceres, ao instinto feroz de soldados sem entranhas. Anciães res­peitáveis conduzidos à enxovia, sob algemas e pancadas. Os filhos arrancados do colo maternal, entre lágrimas e apelos comovedores. Tempestade sinistra caíra sobre os seguidores do Crucificado, que se submetiam a puni­ções injustas, de olhos postos no céu.

De nada valeram, para Nero, as ponderações dos patrícios ilustres, que ainda cultivavam as tradições de prudência e honestidade. Quantos se aproximavam da autoridade imperial, com a valiosa contribuição de alvi­tres justos, eram declarados suspeitos, agravando a situação.

O filho de Agripina e seus áulicos imediatos deli­beraram que se oferecesse ao povo o primeiro espetáculo no princípio de agosto de 64, como positiva demonstra­ção das providências oficiais, contra os supostos autores do nefando atentado. As demais vítimas, isto é, todos os prisioneiros que chegassem ao cárcere, depois da festa inicial, serviriam de ornamento aos futuros regozijos, à medida que a cidade pudesse recompor-se com as novas construções em perspectiva. Para isso, determinara-se a reedificação imediata do Grande Circo. Antes de aten­der às próprias necessidades da Corte, o imperador dese­java as simpatias do povo ignorante e sofredor, alimen­tando o que pudesse satisfazer seus estranhos caprichos.

A primeira carnificina, destinada a distrair o ânimo popular, foi levada a efeito em jardins imensos, na parte que permanecera imune da destruição, por entre orgias indecorosas, de que participaram a plebe e a grande fra­ção do patriciado que se entregara à dissolução e ao desregramento. A festividade prolongou-se por noites sucessivas, sob a claridade de esplêndida iluminação e o ritmo harmonioso de numerosas orquestras, que inunda­vam o ar de melodias enternecedoras. Nos lagos artifi­ciais deslizavam barcos graciosos, artisticamente ilumi­nados. No seio da paisagem, favorecida pelas sombras da noite, que as tochas poderosas não conseguiam afastar de todo, repastava-se a devassidão em jogo franco. Ao Lado das expressões festivas, enfileiravam-se as do mar­tírio dos pobres condenados. Os cristãos eram entregues ao povo para o castigo que ele julgasse mais justo. Para isso, com intervalos regulares, os jardins estavam cheios de cruzes, de postes, de açoites e numerosos instrumentos outros de flagelação. Havia guardas imperiais para auxi­liarem as atividades punitivas - Em fogueiras preparadas, encontravam-se água e azeite fervente, bem como pontas de ferro em brasa, para os que desejassem aplicá-las.

Os gemidos e soluços dos desgraçados casavam-se ironicamente com as notas harmoniosas dos alaúdes. Uns expiravam entre lágrimas e preces, aos apupos do povo; outros, entregavam-se estoicamente ao martírio, contemplando o céu alto e estrelado.

A linguagem mais forte será pobre para traduzir as dores imensas da grei cristã, naqueles dias angustio­sos. Não obstante os tormentos inenarráveis, os segui­dores fiéis de Jesus revelaram o poder da fé àquela so­ciedade perversa e decadente, afrontando as torturas que lhes cabiam. Interrogados nos tribunais, em momento tão trágico, declaravam abertamente sua confiança em Cristo Jesus, aceitando os sofrimentos com humildade, por amor ao seu nome. Aquele heroismo parecia acirrar, ainda mais, os ânimos da multidão animalizada.

Inven­tavam-se novos gêneros de suplício. A perversidade apre­sentava, diariamente, números novos em sua venenosa facúndia. Mas os cristãos pareciam possuidos de energias diferentes das conhecidas nos campos de batalhas san­guinolentas. A paciência invencível, a fé poderosa, a capacidade moral de resistência, assombravam os mais afoitos. Não foram poucos os que se entregaram ao sa­crifício, cantando. Muita vez, diante de tanta coragem, os verdugos improvisados temeram o misterioso poder triunfante da morte.

Terminada a chacina de agosto, com grande entu­siasmo popular, continuou a perseguição sem tréguas, para que não faltasse o contingente de vítimas nos espetáculos periódicos, oferecidos ao povo em regozijo pela reconstrução da cidade.

Diante das torturas e da carnificina, o coração de Paulo de Tarso sangrava de dor. A tormenta operava confusão em todos os setores. Os cristãos do Oriente, em sua maioria, trabalhavam por desertar do campo da luta, forçados por circunstâncias imperiosas da vida par­ticular. O velho Apóstolo, entretanto, unindo-se a Pedro, reprovava essa atitude. À exceção de Lucas, todos os cooperadores diretos, conhecidos desde a Ásia, haviam regressado. O ex-tecelão, todavia, fazendo causa comum com os desamparados, fez questão de assisti-los no transe inaudito. As igrejas domésticas estavam silenciosas. Fe­chados os grandes salões alugados na Suburra para as pregações da doutrina. Restava aos seguidores do Mes­tre apenas um meio de se entreverem e se reconfortarem na prece e nas lágrimas comuns: era as reuniões nas catacumbas abandonadas. E a verdade é que não poupa­vam sacrifícios para acorrer a esses lugares tristes e ermos. Era nesses cemitérios esquecidos que encontravam o conforto fraternal, para o momento trágico que os visitava. Ali oravam, comentavam as luminosas lições do Mestre e hauriam novas forças para os testemunhos impendentes.

Amparando-se em Lucas, Paulo de Tarso enfrentava o frio da noite, as sombras espessas, os caminhos ásperos. Enquanto Simão Pedro cogitava de atender a outros setores, o ex-rabino encaminhava-se aos antigos sepul­cros, levando aos irmãos aflitos a inspiração do Mestre Divino, que lhe borbulhava na alma ardente. Muitas ve­zes as pregações se realizavam alta madrugada, quando soberano silêncio dominava a Natureza. Centenas de dis­cípulos escutavam a palavra luminosa do velho Apóstolo dos gentios, experimentando o poderoso influxo da sua fé. Nesses recintos sagrados, o convertido de Damasco associava-se aos cânticos que se misturavam de prantos dolorosos. O espírito santificado de Jesus, nesses momentos, parecia pairar na fronte daqueles mártires anô­nimos, infundindo-lhes esperanças divinas.

Dois meses haviam decorrido, após a festa hedionda, e o movimento das prisões aumentava dia a dia. Espe­ravam-se grandes comemorações. Alguns edifícios nobres do Palatino, reconstruídos em linhas sóbrias e elegantes, reclamavam homenagens dos poderes públicos. As obras de reedificação do Grande Circo estavam adiantadíssimas. Era imprescindível programar festejos condignos. Para esse fim, os cárceres estavam repletos.

Não faltariam figurantes para as cenas trágicas. Projetavam-se nau-maquias pitorescas, bem como caçadas humanas no circo, em cuja arena seriam igualmente representadas peças famosas de sabor mitológico.

Os cristãos oravam, sofriam, esperavam.

Certa noite, Paulo dirigia aos irmãos a palavra afe­tuosa, no comentário do Evangelho de Jesus. Seus con­ceitos pareciam, mais que nunca, divinamente inspirados. As brisas da madrugada penetravam a caverna mortuá­ria, que se iluminava de algumas tochas bruxuleantes. O recinto estava repleto de mulheres e criança , ao lado de muitos homens embuçados.

Depois da pregação comovedora, ouvida por todos, com os olhos molhados de lágrimas, o ex-tecelão de Tarso perolava solícito:

— Sim, irmãos, Deus é mais belo nos dias trágicos. Quando as sombras ameaçam o caminho, a luz é mais preciosa e mais pura. Nestes dias de sofrimento e morte, quando a mentira destronou a verdade e a virtude foi substituida pelo crime, lembremos Jesus no madeiro in­famante. A cruz tem, para nós outros, uma divina men­sagem. Não desdenhemos o testemunho sagrado, quando o Mestre, não obstante imáculo, só alcançou neste mundo batalhas silenciosas e sofrimentos indefiníveis. Forta­leçamo-nos na idéia de que seu reino ainda não é deste mundo. Alcemos o espírito à esfera do seu amor imortal. A cidade dos cristãos não está na Terra; ela não poderia ser a Jerusalém que crucificou o Enviado Divino, nem a Roma que se comprás em derramar o sangue dos már­tires. Neste mundo, estamos em uma frente de combate incruento, trabalhando pelo triunfo eterno da paz do Senhor. Não esperemos, portanto, repousar no lugar do trabalho e dos testemunhos vivos. Da cidade indestrutível da nossa fé, Jesus nos contempla e balsamiza o coração. Caminhemos ao seu encontro, através dos su­plícios e das perplexidades dolorosas. Ele ascendeu ao Pai, do cimo do Calvário; nós lhe seguiremos as pegadas, aceitando com humildade os sofrimentos que, por seu amor, nos forem reservados...

O auditório parecia extático, ouvindo as palavras proféticas do Apóstolo. Entre as lajes frias e impassí­veis, os irmãos na fé sentiam-se mais unidos entre si. Em todos os olhares cintilava a certeza da vitória espi­ritual. Naquelas expressões de dor e de esperança havia o tácito compromisso de seguir o Crucificado até ao seu Reino de Luz.

O orador fizera uma pausa, sentindo-se dominado por estranhas comoções.

Nesse instante inesquecível, um magote de guardas rompeu afoito no recinto. O centurião Volúmnio, à testa da patrulha armada, fazia íntimações em alta voz, en­quanto os crentes pacíficos estarreciam surpresos.

— Em nome de César! — bradava o preposto im­perial, exultando de contentamento. E ordenando aos soldados que fechassem o círculo em torno dos cristãos indefesos, continuava gritando de modo espetacular. — E que ninguém fuja! Quem o tentar, morre como um cão!

Apoiando-se a forte cajado, pois, nessa noite não tivera a companhia de Lucas, Paulo, erecto, evidenciando sua energia moral, exclamou firmemente:

— E quem vos disse que fugiríamos? Ignorais, por­ventura, que os cristãos conhecem o Mestre a quem servem? Sois emissário de um príncipe do mundo, que estes sepulcros esperam; mas nós somos trabalhadores do Salvador magnânimo e imortal!...

Volúmnio fitou-o surpreso. Quem seria aquele velho, cheio de energia e combatividade?

Apesar da admiração que lhe inspirava, o centurião manifestou seu desagrado num sorriso de ironia. Medindo o ex-rabino de alto a baixo, com olhar de profundo desprezo, acrescentou:

— Atentem bem no que aqui dizem e fazem...

E depois de uma gargalhada, dirigiu-se a Paulo com insolência:

— Como ousas afrontar a autoridade de Augusto? Devem existir, de fato, diferenças singulares entre o imperador e o crucificado de Jerusalém. Não sei onde estaria seu poder de salvação para deixar suas vítimas ao abandono, no fundo dos cárceres ou nos postes do martírio...

Essas palavras eram pontilhadas de mordaz ironia, mas o Apóstolo respondeu com a mesma nobreza de Convicção:

— Enganai-vos, centurião! As diferenças são apre­ciáveis!.. É que vós obedeceis a um infeliz e odiento perseguidor e nós trabalhamos por um salvador que ama e perdoa. Os administradores romanos, impensadamente, poderão inventar crueldades; mas Jesus nunca cessará de nutrir a fonte das bênçãos!..

A resposta produzira grande sensação no auditório. Os cristãos pareciam mais calmos e confiantes, os sol­dados não ocultavam a enorme impressão que os domi­nava. O centurião, embora reconhecendo o desassombro daquele espírito varonil, não queria parecer fraco aos olhos dos subalternos e exclamou irritado:

— Vamos, Lucílio: três bastonadas neste velho atre­vido.

O nomeado avançou para o Apóstolo, impassível. Ante a admiração silenciosa dos presentes, o bastão zuniu no ar, bateu em cheio no rosto do Apóstolo que, nem por isso, se alterou. As três pancadas foram rápi­das; no entanto, um filete de sangue lhe escorria da face dilacerada.

O ex-rabino, a quem haviam tomado o cajado de apoio, mantinha-se de pé com certa dificuldade, mas sem trair o bom ânimo que lhe caracterizava a alma enérgica. Fixou os verdugos com firmeza e sentenciou:

— Não podeis ferir senão o corpo. Podereis amar­rar-me de pés e mãos; quebrar-me a cabeça, mas as mi­nhas convicções são intangíveis, inacessíveis aos vossos processos de perseguição.

Diante de tanta serenidade, Volúmnio quase recuou aterrado. Não podia compreender aquela energia moral que se lhe deparava aos olhos cheios de espanto. Come­çava a acreditar que os cristãos, desprotegidos e anô­nimos, retinham um poder que a sua inteligência não lograva atingir. Impressionando-se com semelhante re­sistência, organizou, à pressa, as filas dos pobres perseguidos, que, humildes, obedeciam sem vacilar. O velho Apóstolo tarsense tomou lugar entre os prisioneiros sem trair o mínimo gesto de enfado ou rebeldia.

Observando atentamente a conduta dos guardas, exclamou, quando se deslocava o bloco de vítimas e verdugos, ao primeiro contacto com o relento frio da madrugada:

— Exigimos o máximo respeito para com as mu­lheres e crianças!.. -

Ninguém ousou responder à observação, articulada em tom grave de advertência. O próprio Volúmnio parecia obedecer inconscientemente às admoestações daquele homem de fé poderosa e invencível.

O grupo marchou em silêncio, atravessando as es­tradas desertas, chegando à Prisão Mamertina quando listravam o horizonte os primeiros clarões da aurora.

Atirados, previamente, num pátio escuro, até serem alojados individualmente nas divisões gradeadas e in­fectas, os discípulos do Senhor aproveitaram esses rápidos­ momentos para conforto mútuo, para trocarem idéias e conselhos edificantes.

Paulo de Tarso, todavia, não descansou. Solicitou audiência ao administrador da prisão, prerrogativa con­ferida ao seu titulo de cidadania romana, sendo prestes atendido. Expôs sua doutrina sem rebuços e, impres­sionando a autoridade com seu verbo fluente e sedutor, encareceu as providências atinentes ao seu caso, pedindo a presença de vários amigos como Acácio Domício e outros, para deporem no concernente à sua conduta e antecedentes honestos. O administrador vacilava na reso­lução a tomar. Tinha ordens terminantes de recolher ao cárcere todos os componentes de assembléias que se fi­liassem à crença perseguida e execrada. No entanto, as determinações de ordem superior continham certas restrições, no sentido de preservar, de algum modo, os “hu­miliores” (1), aos quais a Corte oferecia recursos de liberdade, caso prestassem juramento a Júpiter, abju­rando o Cristo Jesus.

Examinando os títulos de Paulo e conhecendo, através de seus informes verbais, as prestigiosas relações de que podia dispor nos círculos roma­nos, o chefe da Prisão Mamertina resolveu consultar Acácio Domício, sobre as providências cabíveis no caso.

Chamado ao estudo da questão, o amigo do Apóstolo compareceu solícito, procurando falar com o prisioneiro, depois de longa entrevista com o diretor da prisão.

Domício explicou ao benfeitor que a situação era muito grave; que o Prefeito dos Pretorianos estava in­vestido de plenos poderes para dirigir a campanha como melhor entendesse; que toda a prudência era indispen­sável e que, como último recurso, só restava um apelo à magnanimidade do imperador, perante quem o Apóstolo devia comparecer para defender-se pessoalmente, caso fosse deferida a petição apresentada a César naquele mesmo dia.

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