Paulo e estevão francisco cândido xavier



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(1) Humiliores eram as pessoas de condição humilde sem qualquer titulo de dignidade social. — (Nota de Emma­nuel.)
Ouvindo essas ponderações, o ex-rabino recordou que uma noite, em meio à tempestade, entre a Grécia e a Ilha de Malta, ouvira a voz profética de um men­sageiro de Jesus, que lhe anunciava o comparecimento perante César, sem esclarecer os motivos do evento. Não seria aquele o momento previsto? Milhares de irmãos estavam presos ou em extrema desolação.

Acusados de incendiários, não haviam encontrado uma voz firme e resoluta que lhes advogasse a causa com o preciso desas­sombro. Percebia em Acácio a preocupação pela sua liberdade; mas, por trás das insinuações delicadas, havia um convite discreto para que ocultasse a sua fé perante o imperador, na hipótese de ser admitido à real entre­vista.

Compreendia os receios do amigo, mas, íntimamente, desejava alcançar a audiência de Nero, a fim de esclarecê-lo quanto aos sublimes princípios do Cristia­nismo. Constituir-se-ia advogado dos irmãos perseguidos e desditosos. Afrontaria de face a tirania ovante, clama­ria pela retificação do seu ato injusto. Se fosse nova­mente preso, voltaria ao cárcere com a consciência edifi­cada no cumprimento de um sagrado dever.

Depois de rápida meditação sobre a conveniência do recurso que lhe parecia providencial, insistiu com Do­mício para que o patrocinasse com os empenhos ao seu alcance.

O amigo do Apóstolo multiplicou atividades pessoais para alcançar os fins em vista.

Valendo-se do prestígio de todos os que viviam em condições de subalternidade junto do imperador, conseguiu a desejada audiência para que Paulo de Tarso se defendesse, como convinha, no apelo direto à autoridade de Augusto.

No dia aprazado, foi conduzido entre guardas, à pre­sença de Nero, que o recebeu curioso num vasto salão onde costumava reunir os favoritos ociosos da sua Corte criminosa e excêntrica. Interessava-lhe a personalidade do ex-rabino. Queria conhecer o homem que mobilizara grande número de seus íntimos para apoiar-lhe o recurso. A presença do Apóstolo dos gentios causou-lhe enorme decepção. Que valor poderia ter aquele velho insignifi­cante e franzino? Ao lado de Tigelino e de outros conselheiros­ perversos, fixou ironicamente a figura de Paulo. Era incrível tamanho interesse em torno de uma criatura tão vulgar. Quando se dispunha a recambiá-lo à prisão sem lhe ouvir o apelo, um dos áulicos lembrou que seria conveniente facultar-lhe a palavra, para que se lhe afe­risse a indigência mental. Nero, que jamais perdia oca­sião de ostentar suas presunções artísticas, considerou o alvitre bem apresentado e ordenou ao prisioneiro que falasse à vontade.

Ladeado por dois guardas, o inspirado pregador do Evangelho levantou a fronte cheia de nobreza, fitou César e os companheiros do seu séquito leviano e come­çou, resoluto:

— Imperador dos romanos, compreendo a grandeza desta hora em que vos falo, apelando para os vossos sentimentos de generosidade e justiça. Não me dirijo, aqui, a um homem falível, a uma personalidade humana, simplesmente, mas ao administrador que deve ser consciencioso e justo, ao maior dos príncipes do mundo e que, antes de tomar o cetro e a coroa de um Império imenso, deve considerar-se o pai magnânimo de milhões de criaturas!.

As palavras do velho Apóstolo ecoavam no recinto com o caráter de uma profunda revelação. O imperador fixava-o, admirado e enternecido. Seu temperamento ca­prichoso era sensível às referências pessoais, onde pre­dominassem as imagens brilhantes. Percebendo que se impunha ao reduzido auditório, o convertido de Damasco prosseguiu mais corajoso:

— Confiando em vossa longanimidade, pleiteei esta hora inesquecível, a fim de apelar para o vosso coração, não somente por mim, mas por milhares de homens, mu­lheres e crianças, que padecem nos cárceres ou sucum­bem nos circos do martírio. Falo, aqui, em nome dessa multidão incontável de sofredores, perseguida com re­quintes de crueldade por favoritos de vossa Corte, que deveria ser constituída de homens íntegros e humanitá­rios.

Acaso não chegarão aos vossos ouvidos os lamentos angustiosos da viuvez, da velhice e da orfandade? Oh! Augusto imperante do trono de Cláudio, sabei que uma onda de perversidade e de crimes odiosos varre os bairros da cidade imperial, arrancando soluços dolorosos aos vossos tutelados miserandos! Ao lado da vossa atividade governamental, por certo, rastejam víboras venenosas que é necessário extirpar, a bem da tranqüilidade e do trabalho honesto do vosso povo. Esses cooperadores per­versos desviam vossos esforços do caminho reto, espa­lham terror entre as classes desfavorecidas da sorte, ameaçam os mais infelizes! São eles os acusadores dos prosélitos de uma doutrina de amor e redenção. Não acrediteis no embuste dos seus conselhos que ressumam crueldade. Ninguém trabalhou, talvez, quanto os cris­tãos, no socorro às vítimas do incêndio voraginoso. Enquanto os patrícios ilustres fugiam de Roma desolada, enquanto os mais timidos se recolhiam aos lugares mais abrigados de perigo, os discípulos de Jesus percorriam os quarteirões em chamas, aliviando as vítimas infor­tunadas. Alguns imolaram a vida ao altruísmo dignifi­cador.

E por fim, vede, os trabalhadores sinceros do Cristo foram recompensados com a pecha de autores do crime hediondo, de caluniadores sem entranhas. Acaso não vos doeu a consciência ao endossardes tão infames alegações, à revelia de uma sindicância imparcial e rigorosa? No esfervilhar das calúnias, não vi surgir uma voz que vos esclarecesse. Admito que participais, certa­mente, de tão trágicas ilusões, porque não creio no des­virtuamento da vossa autoridade reservada às melhores resoluções em favor do Império. Ë por isso — 6 impe­rador dos romanos! — que, reconhecendo o grandioso poder enfeixado em vossas mãos, ouso levantar minha voz para esclarecer-vos. Atentai para a extensão gloriosa de vossos deveres. Não vos entregueis à sanha de polí­ticos inconscientes e cruéis. Lembrai-vos de que, numa vida mais elevada que esta, ser-vos-ão pedidas contas de vossa conduta nos atos públicos. Não alimenteis a pretensão de que vosso cetro seja eterno. Sois mandatário de um Senhor poderoso, que reside nos Céus. Para vos convencerdes da singularidade de semelhante situação, volvei um olhar, apenas, ao passado brumoso. Onde os vossos antecessores? Em vossos palácios faustosos pe­rambularam guerreiros triunfantes, reis improvisados, herdeiros vaidosos de suas tradições. Onde estão eles? A História nos conta que chegaram ao trono com os aplau­sos delirantes das multidões. Vinham soberbos, osten­tando magnificências nos carros do triunfo, decretando a morte dos inimigos, adornando-se com os despojos san­grentos das vítimas. Entretanto, bastou um sopro para que resvalassem do esplendor do trono para a escuridão do sepulcro. Uns partiram pelas conseqüências fatais dos próprios excessos destruidores; outros assassinados pelos filhos da revolta e do desespero. Recordando semelhante situação, não desejo transformar o culto da vida em culto da morte, mas demonstrar que a fortuna suprema do homem é a paz da consciência pelo dever cumprido.

Por todas essas razões, apelo para a vossa magnanimi­dade, não só por mim como por todos os correligionários que gemem à sombra dos cárceres, esperando o gládio da morte.

Observando-se longa pausa no verbo eloqüente do orador, podia ver-se a estranha sensação que a sua pala­vra havia causado. Nero estava lívido. Tigelino, pro­fundamente irritado, procurava um recurso para insi­nuar-se com alguma observação menos digna, a respeito do postulante. As raras cortesãs presentes não disfar­çavam a indizível comoção que lhes abalara o sistema nervoso. Os amigos do Prefeito dos Pretorianos mostra­vam-se indignados, rubros de cólera. Depois de ouvir um áulico, o imperador ordenou que o apelante se conser­vasse em silêncio, até que tomasse as primeiras deli­berações.

Estavam todos surpreendidos. Não se podia esperar de um velho franzino e doente tamanho poder de per­suasão, um desassombro que raiava pela loucura, segundo as noções do patriciado. Por muito menos, velhos e pro­bos conselheiros da Corte haviam alcançado o exílio ou a sentença de morte.

O filho de Agripina parecia abalado. Não mais assentava no olho a impertinente esmeralda, à guisa de monóculo. Tinha a impressão de haver escutado sinistros vaticínios.

Entregava-se, automaticamente, aos seus ges­tos característicos, quando impressionado e nervoso. As advertências do Apóstolo penetravam-lhe o coração, suas palavras pareciam ecoar-lhe nos ouvidos para sempre. Tigelino percebeu a delicadeza da situação e aproxi­mou-se.

— Divino — exclamou o Prefeito dos Pretorianos em atitude servil, a voz quase imperceptível —, se quiser­des, o atrevido poderá morrer aqui mesmo, ainda hoje!

— Não, não — redargüiu Nero comovido —, este homem é dos mais perigosos que tenho encontrado. Ninguém, como ele, ousou comentar a presente situação nestes termos.

Vejo, por detrás da sua palavra, muitos vultos talvez eminentes, que, conjugando valores, pode­riam fazer-me grande mal.

— Concordo — disse o outro hesitante, em voz muito baixa.

— Assim, pois — continuou o imperador pruden­temente —, é preciso parecer magnânimo e sagaz. Dar-lhe-ei o perdão, por agora, recomendando que não se afaste da cidade, até que se esclareça de todo a situação dos seguidores do Cristianismo..

Tigelino escutava com um sorriso ansioso, enquanto o filho de Agripina rematava em voz sumida:

— Mas vigiarás seus menores passos, mantê-lo-ás em custódia oculta, e quando vier a festividade da re­construção do Grande Circo, aproveitaremos a oportuni­dade para despachá-lo a lugar distante, onde deverá desaparecer para sempre.

O odioso Prefeito sorriu e acentuou:

— Ninguém resolveria melhor o intrincado pro­blema.

Terminada a breve conversação, imperceptível aos demais, Nero declarou, com enorme surpresa dos palacia­nos, conceder ao apelante a liberdade que pleiteava em sua primeira defesa, mas reservava o ato de absolvição para quando se apurasse definitivamente a responsabi­lidade dos cristãos. Dessarte, o defensor do Cristianismo poderia permanecer em Roma, à vontade, submetendo-se, contudo, ao compromisso de não se ausentar da sede do Império, até que seu caso pessoal fosse bastantemente esclarecido, O Prefeito dos Pretorianos lavrou a sentença em pergaminho. Paulo de Tarso, por sua vez, estava confortado e radiante.

O caviloso monarca pare­ceu-lhe menos mau, digno de amizade e reconhecimento. Sentia-se possuído de grande alegria, por isso que os resultados da sua primeira defesa eram de molde a pro­porcionar nova esperança aos seus irmãos na fé.

Paulo retornou ao cárcere, ficando o administrador notificado das últimas disposições a seu respeito. Só então lhe deram liberdade.

Assaz esperançado, procurou os amigos; mas, por toda parte, só encontrava desoladoras notícias. A maio­ria dos colaboradores mais íntimos e prestimosos haviam desaparecido, presos ou mortos. Muitos haviam deban­dado, temerosos do extremo sacrifício. Por fim, sempre teve a satisfação de reencontrar Lucas. O piedoso médico informou-o dos acontecimentos dolorosos e trágicos que se repetiam, diariamente. Ignorando que um guarda o seguia de longe, para lhe situar a nova residência, Paulo, acompanhado do amigo, atingiu uma casa pobre nas proximidades da Porta Capena. Necessitando repousar e fortalecer o corpo debilitado, o velho pregador pro­curou dois generosos irmãos, que o receberam com imensa alegria. Trata-se de Lino e Cláudia, dedicados servido­res de Jesus.

O Apóstolo dos gentios instalou-se no lar pobre, com a obrigação de comparecer à Prisão Mamertina, de três em três dias, até que se aclarasse a situação, de modo definitivo.

Não obstante o consolo de que se sentia possuído, o venerável amigo do gentilismo experimentava singu­lares presságios. Surpreendia-se a refletir no coroamento da carreira apostólica como se nada mais lhe restasse senão morrer por Jesus. Combatia tais pensamentos, no propósito de continuar propugnando pela difusão dos ensinamentos evangélicos. Não mais pôde encaminhar-se à pregação das catacumbas, dada a prostração física, mas, valia-se da colaboração afetuosa e dedicada de Lucas para as epístolas que julgava necessárias. Nessas, inclui-se a derradeira carta que escreveu a Timóteo, apro­veitando dois amigos que partiam para a Ásia. Paulo escreve esse último documento ao discípulo muito amado, tomando-se de singulares emoções que lhe enchem os olhos de lágrimas abundantes. Sua alma generosa deseja confiar ao filho de Eunice as últimas disposições, mas luta consigo mesmo, de modo a não se dar por vencido.

O ex-rabino, ao traçar conceitos afetuosos, sente-se qual

discípulo chamado a esferas mais altas, sem poder fur­tar-se à condição de homem que não deseja capitular na luta. Ao mesmo tempo que confia a Timóteo a con­vicção de haver terminado a carreira, pede-lhe que envie a ampla capa de couro deixada em Trôade, em casa de Carpo, visto necessitar de agasalho para o corpo aba­tido. Enquanto lhe envia as últimas impressões cheias de prudência e carinho, roga os seus bons ofícios para que João Marcos venha à sede do Império, a fim de auxiliá-lo no serviço apostólico. Quando a mão trêmula e rugosa escreve melancolicamente:

— “Só Lucas está comigo” (1), o convertido de Damasco interrompe-se para chorar sobre os pergaminhos. Nesse instante, porém, sente afagar-lhe a fronte um como flabelo de asas que adejassem de leve. Brando conforto lhe invade o coração amoroso e intrépido. Nesse ponto da carta, recobra novo ânimo e volta a demonstrar decisão de luta, terminando com as recomendações atinentes às necessidades da vida material e aos seus labores evangélicos.

Paulo de Tarso, entretanto, entrega a missiva a Lucas para expedi-la, sem conseguir disfarçar os seus lúgubres pressentimentos. Em vão, o carinhoso médico e devotado amigo procura desfazer aquelas apreensões. Debalde Lino e Cláudia tentam distrai-lo.

Embora não abandonasse os trabalhos condizentes com a nova situação, o velho Apóstolo mergulhou-se em profundas meditações, das quais apenas se forrava para atender às necessidades triviais.

Efetivamente, decorridas algumas semanas após a carta a Timóteo, um grupo armado visitou a residência
(1) 2ª Epístola a Timóteo. Capítulo 4º, versículo 11. — (Nota de Emmanuel)
de Lino, depois de meia-noite, na véspera das grandes festividades com que a administração pública desejava assinalar a reconstrução do Grande Circo, O dono da casa, a esposa e Paulo de Tarso foram presos, escapando Lucas pelo fato de pernoitar em outra parte. As três vítimas foram conduzidas a um cárcere do monte Esqui­lino, dando provas de poderosa fé em face do martírio que começava.

O Apóstolo foi atirado a uma cela escura e incomu­nicável, Os próprios soldados se intimidavam da sua coragem. Ao despedir-se de Lino e sua mulher, enquan­to esta se desfazia em lágrimas, o valoroso pregador abraçava-os dizendo:

— Tenhamos coragem. Esta deve ser a última vez em que nos saudamos com os olhos materiais; mas have­mos de avistar-nos no reino do Cristo. O poder tirânico de César não atinge senão o corpo miserável...

Em virtude de ordem expressa de Tigelino, o pri­sioneiro ficou insulado de todos os companheiros.

Na escuridão do cárcere, que mais se assemelhava a uma cova úmida, deu um balanço retrospectivo em todas as atividades de sua vida, entregando-se a Jesus, inteiramente confiado na sua divina misericórdia. Desejou sinceramente permanecer junto dos irmãos que, por certo, se destinavam aos espetáculos nefandos do dia imediato, esperando com eles comungar a hóstia dos martírios, quando chegasse a hora extrema.

Não pôde dormir, a considerar as horas transcor­ridas desde o momento da prisão, e concluiu que o dia do sacrifício estaria iminente. Nem uma réstia de Luz penetrava o cubículo infecto e acanhado. Percebia, so­mente, vagos rumores longínquos, que Lhe davam idéia da aglomeração popular nas vias públicas. As horas pas­saram em expectativas que pareciam intermináveis. De­pois de angustioso cansaço, conseguiu algumas horas de sono. Acordou, mais tarde, já incapacitado de calcular as horas decorridas. Tinha sede e fome, mas orou com fervor, sentindo que fluíam brandas consolações para sua alma, das fontes da providência invisível. No fundo, es­tava preocupado com a situação dos companheiros. Um guarda o informara de que enorme contingente de cris­tãos seria levado ao circo e ele sofria por não ter sido chamado a perecer com os irmãos, na arena do martírio, por amor a Jesus. Mergulhado nessas reflexões, não tardou a sentir que alguém abria, cautelosamente, a porta da enxovia. Conduzido ao exterior, o ex-rabino defrontou seis homens armados que o aguardavam junto de um veículo de regulares proporções. Ao longe, no horizonte pontilhado de estrelas, delineavam-se os tons maravilho­sos da madrugada próxima.

O Apóstolo, silencioso, obedeceu à escolta. Ataram-lhe as mãos calejadas, brutalmente, com grosseiras cor­das. Um vigilante noturno, visivelmente embriagado, aproximou-Se e escarrou-lhe na face. O ex-rabino recor­dou os sofrimentos de Jesus e recebeu o insulto sem revelar o mínimo gesto de amor-próprio ofendido.

Mais uma ordem, tomou lugar no veículo, junto dos seis homens armados que o observavam, admirados de tanta serenidade e coragem.

Os cavalos trotaram lépidos como se quisessem ate­nuar a friagem úmida da manhã.

Chegados aos cemitérios que se enfileiravam ao longo da Via Apia, as sombras noturnas se desfaziam quase completamente, auspiciando um dia de sol radioso.

O militar que chefiava a escolta mandou parar o carro e, fazendo descer o prisioneiro, disse-lhe hesitante:

— O Prefeito dos Pretorianos, por sentença de César, ordenou que fosseis sacrificado no dia imediato ao da morte dos cristãos votados às comemorações do circo, realizadas ontem. Deveis saber, portanto, que estais vivendo os últimos minutos.

Calmo, olhos brilhantes e mãos amarradas, Paulo de Tarso, mudo até então, exclamou, surpreendendo os verdugos com a sua majestosa serenidade:

— Ciente da tarefa criminosa que vos incumbe de­sempenhar .. Os discípulos de Jesus não temem os algozes que só lhes podem aniquilar o corpo. Não jul­gueis que vossa espada possa eliminar-me a vida, de vez que, vivendo estes fugazes minutos em corpo carnal, isso significa que vou penetrar, sem mais demora, nos tabernáculos­ da vida eterna, com o meu Senhor Jesus-Cristo, o mesmo que vos tomará contas, tanto quanto a Nero e Tigelino ....

A patrulha sinistra estarrecia de assombro. Aquela energia moral, no momento supremo, era de molde a abalar os mais fortes. Percebendo a surpresa geral e cioso do seu mandato, o chefe da escolta tomou a iniciativa do sacrifício. Os demais companheiros pareciam desorientados, nervosos, trêmulos. O inflexível preposto de Tigelino, porém, ordenou ao prisioneiro que desse vinte passos à frente. Paulo de Tarso caminhou serena-mente, embora, no íntimo, se recomendasse a Jesus, com­preendendo a necessidade de amparo espiritual para o testemunho supremo.

Ao chegar no local indicado, o sequaz de Tigelino desembainhou a espada, mas, nesse instante, tremeu-lhe a mão, fixando a vítima, e falou-lhe em tom quase im­perceptível:

— Lastimo ter sido designado para este feito e íntimamente não posso deixar de lamentar-vos...

Paulo de Tarso, erguendo a fronte quanto lhe era possível, respondeu sem hesitar:

— Não sou digno de lástima. Tende antes compai­xão de vós mesmo, porqüanto morro cumprindo deveres sagrados, em função de vida eterna; enquanto que vós ainda não podeis fugir às obrigações grosseiras da vida transitória. Chorai por vós, sim, porque eu partirei buscando o Senhor da Paz e da Verdade, que dá vida ao mundo; ao passo que vós, terminada vossa tarefa de sangue, tereis de voltar à hedionda convivência dos man­dantes de crimes tenebrosos da vossa época!...

O algoz continuava a fitá-lo com assombro e Paulo, notando a tremura com que ele empunhava a espada, concitou resoluto:

— Não tremais!... Cumpri vosso dever até ao fim! Um golpe violento fendeu-lhe a garganta, seccio­nando quase inteiramente a velha cabeça que se nevara aos sofrimentos do mundo.

Paulo de Tarso caiu redondamente, sem articular uma palavra. O corpo alquebrado embolou-se no solo, como um despojo horrendo e inútil. O sangue jorrava em golfões nas últimas contrações da agonia rápida, enquanto a expedição regressava penosamente, muda, dentro da luz matinal e triunfante.

O valoroso discípulo do Evangelho sentia a angústia das derradeiras repercussões físicas; mas, aos poucos, experimentava uma sensação branda de alívio reparador. Mãos carinhosas e solicitas pareciam tocá-lo de leve, como se arrancassem, tão-só nesse contacto divino, as terríveis impressões dos seus amargurosos padecimentos. Tomado de surpresa, verificou que o transportavam a local distante e pensou que amigos generosos desejavam assisti-lo, em lugar mais conveniente, para que lhe não faltasse a doce consolação da morte tranqüila.

Depois de alguns minutos as dores haviam desaparecido por completo. Guardando a impressão de permanecer à som­bra de alguma árvore frondosa e amiga, experimentava a carícia das brisas matinais que passavam em lufadas frescas. Tentou levantar-se, abrir os olhos, identificar a paisagem. Impossível! Sentia-se fraco, qual convales­cente de moléstia prolongada e gravíssima. Reuniu as energias mentais, como lhe foi possivel, e orou, suplicando a Jesus permitisse o esclarecimento de sua alma, naquela nova situação.

Sobretudo, a falta de visão deixava-o submerso em angustiosa expectativa. Recordou os dias de Damasco, quando a cegueira lhe invadira os olhos de pecador, ofuscados pela luz gloriosa do Mestre. Lem­brou o carinho fraternal de Ananias e chorou ao influxo daquelas singulares reminiscências. Depois de grande esforço, conseguiu levantar-se e refletiu que o homem precisava servir a Deus, ainda que tateasse em densas trevas.

Foi ai que ouviu passos de alguém que se aproxi­mava de leve. Ocorreu-lhe subitamente o dia inesquecível em que fora visitado pelo emissário do Cristo, na pensão de Judas.

— Quem sois? — perguntou como o fizera outrora, naquele lance inolvidável.

— Irmão Paulo... — começou a dizer o recém-chegado.

Mas o Apóstolo dos gentios, identificando aquela voz bem-amada, interrompeu-lhe a palavra, bradando com júbilo inexprimível:

— Ananias!... Ananias!...

E caiu de joelhos, em pranto convulsivo.

— Sim, sou eu — disse a veneranda entidade pou­sando a mão luminosa na sua fronte —; um dia Jesus mandou que te restituisse a visão, para que pudesses conhecer o caminho áspero dos seus discípulos e hoje, Paulo, concedeu-me a dita de abrir-te os olhos para a contemplação da vida eterna. Levanta-te! Já venceste os últimos inimigos, alcançaste a coroa da vida, atingiste novos planos da Redenção!...

O Apóstolo levantou-se afogado em lágrimas de jubilosa gratidão, enquanto Ananias, pousando a destra nos seus olhos apagados, exclamou com carinho:

— Vê, novamente, em nome de Jesus!... Desde a revelação de Damasco, dedicaste os olhos ao serviço do Cristo! Contempla, agora, as belezas da vida eter­na, para que possamos partir ao encontro do Mestre amado!...

Então, o devotado trabalhador do Evangelho re­conheceu as maravilhas que Deus reserva aos seus cooperadores no mundo cheio de sombras. Tomado de espanto, identificou a paisagem que o rodeava. Não longe estavam as catacumbas da Via Apia. Misteriosas forças o haviam afastado do quadro triste em que se decompunham os despojos sangrentos. Sentiu-se jovem e feliz. Compreendia, agora, a grandeza do corpo espi­ritual no ambiente estranho aos organismos da Terra. Suas mãos estavam sem rugas, a epiderme sem cicatri­zes. Tinha a impressão de haver sorvido um misterioso elixir de juventude. Uma túnica de alvura resplandecente envolvia-o em graciosas ondulações. Mal despertava do seu deslumbramento, quando alguém lhe bateu levemente no ombro: Era Gamaliel que lhe trazia um ósculo fraternal. Paulo de Tarso sentiu-se o mais ditoso dos seres. Abraçando-se ao velho mestre e a Ananias, num só gesto de ternura, exclamava entre lágrimas:

— Só Jesus me poderia conceder alegria igual.

Mal não acabara de o dizer, começaram a chegar velhos companheiros de lutas terrenas, amigos de outros tempos, irmãos desvelados que lhe vinham trazer as boas-vindas, ao transpor os umbrais da eternidade. Os deslumbramentos do Apóstolo sucediam-se ininterruptos. Como se ficassem em Roma, à sua espera, todos os már­tires das festividades da véspera chegaram cantando, nas proximidades das catacumbas. Todos queriam abra­çar o generoso discípulo, oscular-lhe as mãos. Nesse ínterim, dando a impressão de nascer em maravilhosas fontes do mais além, ouviu-se uma cariciosa melodia acompanhada de vozes argentinas, que deviam ser angé­licas. Surpreendido com a beleza da composição, intra­duzível na linguagem humana, Paulo ouvia o venerando amigo de Damasco, que explicava solícito:

- Este é o hino dos prisioneiros libertados!...

Observando-lhe a intensa comoção, Ananias pergun­tou qual o seu primeiro desejo na esfera dos redimidos. Paulo de Tarso, íntimamente, recordou Abigail e os ane­los sagrados do coração, como aconteceria a qualquer ser humano; mas, integrado no ministério divino, que manda esquecer os caprichos mais singelos, e sem trair a gra­tidão à misericórdia do Cristo, respondeu comovidamente:

— Meu primeiro desejo seria rever Jerusalém, onde pratiquei tantos males e, ali, orar a Jesus, para ofertar-lhe o meu agradecimento.

Tão depressa o disse e a luminosa assembléia se punha em movimento. Assombrado com o poder da voli­tação, Paulo observava que as distâncias nada represen­tavam agora para as suas possibilidades espirituais.

De mais alto continuavam fluindo harmonias de sublimada beleza. Eram hinos que exaltavam a ventura dos trabalhadores triunfantes, e a misericórdia das bên­çãos do Todo-Poderoso.

Paulo desejava imprimir à divina excursão o sabor de suas reminiscências. Para esse fim, o grupo seguiu ao longo da Via Apia até Arícia, de onde se desviou em direção a Pouzzoles, em cuja igreja se deteve em preces, por alguns minutos de ventura inigualável. Daí a caravana espiritual demandou a Ilha de Malta. transportan­do-se em seguida para o Peloponeso, onde Paulo se extasiou na contemplação de Corinto, dando curso a re­cordações carinhosas e doces. Inflamados de entusiasmo fraternal, os componentes da caravana acompanhavam o valoroso discípulo no caminho das sagradas lembranças que lhe vibravam no coração. Atenas, Tessalônica, Fili­pes, Neápolis, Trôade e Éfeso foram pontos nos quais o Apóstolo estacionara, demoradamente, orando com lá­grimas de gratidão ao Altíssimo.

Atravessadas as zonas da Panfilia e da Cilícia, entraram na Palestina, tomados de júbilo e sagrado respeito. Em todos os caminhos in­corporavam-se emissários e trabalhadores do Cristo. Paulo não conseguia avaliar a alegria da chegada a Jeru­salém, sob o prodigioso azul do crepúsculo.

Obedecendo ao alvitre de Ananias, reuniram-se no cimo do Calvário e ali cantaram hinos de esperanças e de luz.

Lembrando os erros do passado amarguroso, Paulo de Tarso ajoelhou-se e elevou a Jesus fervorosa súplica. Os companheiros remidos recolheram-se em êxtase, en­quanto ele, transfigurado, em pranto, procurava exprimir a mensagem de gratidão ao Divino Mestre.

Desenhou-se então, na tela do Infinito, um quadro de beleza singular. Como se houvesse rasgado a imensurável umbela azul, surgiu na amplidão do espaço uma senda luminosa e três vultos que se aproximavam radiantes. O Mestre estava no centro, conservando Estevão à direita e Abigail ao lado do coração. Deslumbrado, arrebatado, o Apóstolo apenas pôde estender os braços, porque a voz lhe fugia no auge da comoção. Lágrimas abundantes perolavam-lhe o rosto também transfigurado. Abigail e Estevão adiantaram-se. Ela tomou-lhe delicadamente as mãos num assomo de ternura, enquanto Estevão o abraçava com efusão.

Paulo quis lançar-se nos braços dos dois irmãos de Corinto, beijar-lhes as mãos no seu arroubo de ventura, mas, qual a criança dócil que tudo devesse ao Mestre dedicado e bom, procurou o olhar de Jesus, para sen­tir-lhe a aprovação.

O Mestre sorriu, indulgente e carinhoso, e falou:

— Sim, Paulo, sê feliz! Vem, agora, a meus braços, pois é da vontade de meu Pai que os verdugos e os már­tires se reúnam, para sempre, no meu reino!...

E assim unidos, ditosos, os fiéis trabalhadores do Evangelho da redenção seguiram as pegadas do Cristo, em demanda às esferas da Verdade e da Luz...

Lá em baixo, Jerusalém contemplava, embevecida, o dilúculo vespertino, esperando o luar que não tardaria com os primeiros clarões...


NOTA DA EDITORA: A esta série de romances históricos, pertencem “Há Dois Mil Anos”, “50 Anos Depois” e “Ave, Cristo!”, todos do mesmo Autor.
Fim
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