Paulo e estevão francisco cândido xavier



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Em Jerusalém
Depois de contemplar angustiadamente o cadáver paterno, o jovem hebreu acompanhou a irmã, de olhar ansioso, até à porta de acesso a um dos vastos corredo­res da prisão. Jamais experimentara tão profunda emo­ção. Ao cérebro atormentado acudiam-lhe os conselhos maternos, quando asseverava que a criatura, acima de tudo, devia amar a Deus. Jamais conhecera lágrimas tão amargas como aquelas que lhe fluiam em torrente, do coração dilacerado. Como reaver a coragem e reorga­nizar o caminho? Desejou, num relance, romper as alge­mas, aproximar-se do pai inanimado, afagar-lhe os cabe­los brancos e, simultaneamente, abrir todas as portas, correr no encalço de Abigail, tomá-la nos braços para nunca mais se apartarem nas estradas da vida. Debalde se estorceu no tronco do martírio, porque, em retribuição aos esforços, somente o sangue manava mais copioso das feridas abertas. Singultos dolorosos abalavam-lhe o peito, a cuja altura a túnica se fizera em rubros fran­galhos. Abismado em si mesmo, finalmente foi recolhido a uma cela úmida, onde, por trinta dias, mergulhou o pensamento em profundas cogitações.

Ao fim de um mês, as feridas estavam cicatrizadas e um dos prepostos de Licínio julgou chegado o momento de o encaminhar a uma das galeras do tráfego comercial, onde se encontrava o questor, interessado em assuntos lucrativos.

O moço hebreu perdera o viço róseo das faces e o tom ingênuo da fisionomia carinhosa e alegre. A rude experiência dera-lhe uma expressão dolorosa e sombria. Vagava-lhe no semblante indefinível tristeza e na fronte apontavam rugas precoces, nunciativas de velhice pre­matura; nos olhos, porém, a mesma serenidade doce, oriunda da íntima confiança em Deus. Como outros descendentes da sua raça, sofrera o sacrifício pungente; todavia, guardara a fé, como a auréola divina dos que sabem verdadeiramente agir e esperar. O autor dos Provérbios recomendara, como imprescindível, a sereni­dade da alma em todas as flutuações da vida humana, porque dela procedem as fontes mais puras da existên­cia e Jeziel guardara o coração. Órfão de pai e mãe, cativo de verdugos cruéis, saberia conservar o tesouro da esperança e procuraria a irmã, até aos confins do mundo, se um dia conseguisse, de novo, o beijo da liber­dade na fronte escravizada.

Seguido de perto por sentinelas impiedosas, qual se fora um vagabundo vulgar, cruzou as ruas de Corinto até o porto, onde o internaram no porão infecto de uma galera adornada com o símbolo das águias dominadoras.

Reduzido à mísera condição de condenado a traba­lhos perpétuos, enfrentou a nova situação cheio de con­fiança e humildade. Foi com admiração que o feitor Lisipo anotou-lhe a boa conduta e o esforço nobre e generoso. Habituado a lidar com malfeitores e criaturas sem escrúpulos, que, não raro, requeriam a disciplina do chicote, surpreendeu-se ao reconhecer no moço hebreu a disposição sincera de quem se entregava ao sacrifício, sem rebeldias e sem baixeza.

Manejando os remos pesados com absoluta sereni­dade, como quem se dava a uma tarefa habitual, sentia o suor abundante inundar-lhe a face juvenil, relembran­do, comovido, os dias laboriosos da sua charrua amiga. Em breve, o feitor reconhecia nele um servo digno de estima e consideração, que soubera impor-se aos pró­prios companheiros com o prestígio da natural bondade que lhe transbordava dalma.

— Ai de nós! — exclamou um colega desalentado.

— São raros os que resistem a estes remos malditos, por mais de quatro meses!...

— Mas todo o serviço é de Deus, amigo — respon­deu Jeziel altamente inspirado —, e desde que aqui nos encontramos em atividade honesta e de consciência tran­qüila, devemos guardar a convicção de servos do Cria­dor, trabalhando em suas obras.

Para todas as complicações da nova modalidade de sua existência, tinha uma fórmula conciliatória, harmo­nizando os ânimos mais exaltados. O feitor surpreen­dia-se com a delicadeza do seu trato e capacidade de tra­balho, que se aliavam aos mais altos valores da educação religiosa recebida no lar.

No bojo escuro da embarcação, sua firmeza de fé não se modificara. Dividia o tempo entre os labores rudes e as sagradas meditações. A todos os pensamentos, so­brelevava a saudade do ninho familiar, com a esperança de rever a irmã algum dia, por mais que se lhe dilatasse o cativeiro.

De Corinto, a grande embarcação aproara em Cef a­lônia e Nicópolis, de onde deveria regressar aos portos da linha de Chipre, depois de ligeira passagem pela costa da Palestina, consoante o itinerário organizado para aproveitar o tempo seco e tendo em vista que o inverno paralisava toda a navegação.

Afeito ao trabalho, não lhe foi difícil adaptar-se à pesada faina de carga e descarga do material trans­portado, à manobra dos remos implacáveis e à assistência aos poucos passageiros, sempre que lhe requisitavam préstimos, sob o olhar vigilante de Lisipo.

Voltando de Cefalônia, a galera recebeu um pas­sageiro ilustre. Era o jovem romano Sérgio Paulo, que se dirigia para a cidade de Citium, em comissão de natureza política. Com destino ao porto de Nea-Pafos, onde alguns amigos o esperavam, o moço patrício se constituiu, desde logo, entre todos, alvo de grandes aten­ções. Dada a importância do seu nome e o caráter oficial da missão a ele cometida, o comandante Sérvio Carbo lhe reservou as melhores acomodações.

Sérgio Paulo, entretanto, muito antes de aportarem novamente em Corinto, onde a embarcação deveria per­manecer alguns dias, em prosseguimento da rota prefi­xada, adoeceu com febre alta, abrindo-se-lhe o corpo em chagas purulentas. Comentava-se, à sorrelfa, que nas cercanias de Cefalônia grassava uma peste desconhecida. O médico de bordo não conseguiu explicar a enfermi­dade e os amigos do enfermo começaram a retrair-se com indisfarçável escrúpulo. Ao fim de três dias, o jovem romano achava-se quase abandonado, O coman­dante, preocupado, por sua vez, com a própria situação e receoso por si mesmo, chamou Lisipo, pedindo-lhe que indicasse um escravo, dos mais educados e maneirosos, capaz de incumbir-se de toda a assistência ao passageiro ilustre, O feitor designou Jeziel, incontinenti, e, na mes­ma tarde, o moço hebreu penetrou no camarote do en­fermo, com o mesmo espírito de serenidade que costumava testemunhar nas situações mais díspares e arriscadas.

Sérgio Paulo tinha o leito em desalinho. Não raro, levantava-se de súbito, no auge da febre que o fazia delirar, pronunciando palavras desconexas e agravando, com o movimento dos braços, as chagas que sangravam em todo o corpo.

— Quem és tu? — perguntou o doente em delírio, logo que enxergou a figura silenciosa e humilde do jovem de Corinto.

— Chamo-me Jeziel, o escravo que vos vem servir. E a partir daquele momento, consagrou-se ao en­fermo com todas as reservas da sua afetividade. Com a permissão dos amigos de Sérgio, utilizou todos os recursos de que podia dispor a bordo, imitando a medicação aprendida no lar. Dias seguidos e longas noites, velou à cabeceira do ilustre romano, com devotamento e boa-vontade. Banhos, essências e pomadas eram mani­pulados e aplicados com extrema dedicação, como se esti­vesse a tratar um parente íntimo e muito caro.

Nas horas mais críticas da enfermidade dolorosa, falava-lhe de Deus, recitava trechos antigos dos profetas, que trazia de cor, cumulando-o de consolações e carinho fraternal.

Sérgio Paulo compreendeu a gravidade do mal que afastara os amigos mais caros e, no convívio daqueles dias, afeiçoou-se ao enfermeiro humilde e bom. Depois de alguns dias em que Jeziel conquistara plenamente a sua admiração e o seu reconhecimento, pelos atos de inexcedível bondade, o doente entrou em rápida conva­lescença, com manifestações de geral alegria.

E contudo, na véspera de regressar ao porão aba­fado, o jovem cativo apresentou os primeiros sintomas da moléstia desconhecida que grassava em Cefalônia.

Após entender-se com alguns subordinados de cate­goria, o comandante chamou a atenção do patrício, já quase restabelecido, e lhe pediu aprovação para o pro­jeto de lançar o jovem ao mar.

— Será preferível envenenar os peixes, antes que afrontar o perigo do contágio e arriscar tantas vidas preciosas — esclarecia Sérvio Carbo com malicioso sor­riso.

O patrício refletiu um instante e reclamou a presença de Lisipo, entrando os três a tratar do assunto.

— Qual a situação do rapaz? — perguntou o ro­mano com interesse.

O feitor passou a esclarecer que o jovem hebreu lhe viera com outros homens capturados por Licinio Minúcio, por ocasião dos últimos distúrbios da A caia. Lisipo, que simpatizava extremamente com o moço de Corinto, procurou pintar com fidelidade a correção da sua conduta, suas maneiras distintas, a benéfica influên­cia moral que ele exercia sobre os companheiros muitas vezes desesperados e insubmissos.

Depois de longas considerações, Sérgio ponderou com profunda nobreza:

— Não posso admitir que Jeziel seja atirado ao mar com a minha aquiescência. Devo a esse escravo uma dedicação que equivale à minha própria vida. Conheço Licínio e, se necessário, poderei esclarecê-lo mais tarde sobre esta minha atitude. Não duvido que a peste de Cefalônia esteja trabalhando o seu organismo e, por isso mesmo, é que lhes peço a cooperação necessária, a fim de que esse jovem fique liberto para sempre.

— Mas isso é impossível... — exclamou Sérvio re­licenciosamente.

— Por que não? — revidou o romano. — Em que dia atingiremos o porto de Jope?

— Amanhã, à noitinha.

— Pois bem; espero que vocês não se oponham aos meus planos, e tão logo alcancemos o porto, levarei Jeziel num bote até às margens, pretextando o ensejo de exercício muscular, que preciso recomeçar. Aí, então, lhe daremos liberdade. É um feito que se me impõe, em obediência aos meus princípios.

— Mas, senhor... — obtemperou o comandante indeciso.

— Não aceito quaisquer restrições, mesmo porque Licínio Minúcio é um velho camarada de meu pai.

E continuou, depois de refletir um momento:

— Não ias atirar o rapaz ao fundo do mar?

— Sim.

— Pois fase constar nos teus apontamentos que o escravo Jeziel, atacado de mal desconhecido, contraído em Cefalônia, foi sepultado no mar, antes que a peste contagiasse os tripulantes e passageiros. Para que o rapaz não se comprometa, instruí-lo-ei a respeito, dando-lhe umas tantas ordens terminantes. Além disso, noto-o bastante enfraquecido para resistir com êxito às crises culminantes da moléstia ainda em começo. Quem poderá garantir que ele resistirá? Quem sabe morrerá ao aban­dono, no segundo minuto de liberdade?



O comandante e o feitor trocaram um olhar inte­ligente, de implícito acordo mútuo.

Depois de longa pausa, Sérvio concordou, dando-se por vencido:

— Está bem, seja.

O moço patrício estendeu a mão aos dois e mur­murou:

— Por este obséquio ao meu dever de consciência, poderão sempre dispor em mim de um amigo.

Daí a instantes, Sérgio acercou-se do jovem, semi­-adormecido junto do seu camarote e já tomado da febre em começo de explosão, dirigindo-lhe a palavra com deli­cadeza e bondade:

— Jeziel, desejarias voltar à liberdade?

— Oh! senhor, exclamou o jovem reanimando o organismo com um raio de esperança.

— Quero compensar a dedicação que me dispensaste nos longos dias da minha enfermidade.

Sou vosso escravo, senhor. Nada me deveis.

Ambos falavam o grego e, refletindo subitamente na situação de futuro, o patrício interrogou:

— Sabes o idioma comum da Palestina?

— Sou filho de israelitas, que me ensinaram a lín­gua materna nos mais verdes anos.

— Então, não te será difícil recomeçar a vida nessa província.

E medindo as palavras, como se temesse alguma surpresa contrária aos seus projetos, acentuou:

— Jeziel, não ignoras que te encontras enfermo, talvez tão gravemente quanto eu, há alguns dias. O comandante, atento à possibilidade de um contágio geral, dada a presença de numerosos homens a bordo, pre­tendia lançar-te ao mar; contudo, amanhã de tarde chegaremos a Jope e hei de valer-me dessa circunstância para devolver-te à vida livre. Não desconheces, todavia, que, assim procedendo, estou a infringir certas determi­nações importantes que regem os interesses de meus compatriotas, e é justo pedir-te sigilo do meu feito.

— Sim, senhor — respondeu o rapaz extremamente abatido, tentando com dificuldade coordenar as idéias.

— Sei que dentro em pouco a enfermidade assu­mirá graves proporções, prosseguiu o benfeitor. Dar-te-ei a liberdade, mas só o teu Deus poderá conceder-te a vida. Entretanto, caso te restabeleças, deverás ser um novo homem, com um nome diferente. Não desejo ser incul­pado de traidor dos meus próprios amigos e devo contar com a tua cooperação.

— Obedecer-vos-ei em tudo, senhor.

Sérgio lançou-lhe um olhar generoso e terminou:

— Tomarei todas as providências. Dar-te-ei algum dinheiro para atenderes as primeiras necessidades e vestirás uma de minhas velhas túnicas; mas, tão logo seja possível, vai-te de Jope para o interior da província. O porto está sempre cheio de marinheiros romanos, curiosos e maleficentes.

O enfermo fez um gesto de agradecimento, enquanto Sérgio se retirava para atender ao chamado de alguns amigos.

No dia imediato, à hora esperada, o casario palesti­nense estava à vista. E quando luziam os primeiros astros da noite, pequeno batel aproximava-se de local silencioso das margens, tripulado por dois homens cujos vultos se perdiam na sombra. Derradeiras palavras de bom conselho e despedida, e o moço hebreu osculou, como­vidamente, a destra do benfeitor, que voltou à galera apressado, de consciência tranqüila.

Mal não dera os primeiros passos, Jeziel sentou-se premido pelas dores gerais que lhe tomavam todo o corpo e pelo abatimento natural, conseqüente à febre que o consumia. Idéias confusas dançavam-lhe no cérebro. Que­ria pensar na ventura da libertação; desejava fixar a imagem da irmã, que haveria de procurar no primeiro ensejo; mas estranho torpor infirmava-lhe as faculda­des, acarretando-lhe sonolência invencível. Olhou, indi­ferente, as estrelas que povoavam a noite refrescada pelas brisas marinhas. Reparou que havia movimento nas casas próximas, mas deixou-se, ficar inerte no ma­tagal a que se recolhera, junto da praia. Pesadelos es­tranhos dominaram-lhe o repouso físico, enquanto o vento lhe acariciava a fronte febril.

De madrugada, acordou ao contacto de mãos des­conhecidas, que lhe revistavam atrevidamente os bolsos da túnica.

Abrindo os olhos, estremunhado, notou que os pri­meiros clarões da alvorada listravam os horizontes. Um homem de fisionomia sagaz inclinava-se para ele, pro­curando alguma coisa, com ansiedade que o moço hebreu adivinhou de pronto, convencido de haver topado um desses malfeitores comuns, ávidos da bolsa alheia. Estre­meceu e fez um movimento involuntário, observando que o assaltante inesperado alçara a mão direita, empunhando um instrumento, na iminência de exterminar-lhe a vida.

— Não me mates, amigo — balbuciou com voz trêmula.

A essas palavras, ditas comovedoramente, o meliante susteve o golpe homicida.

— Dar-vos-ei todo o dinheiro que possuo — rematou o rapaz com tristeza.

E, vasculhando a algibeira em que guardara o es­casso dinheiro que lhe dera o patrício, tudo entregou ao desconhecido, cujos olhos fulguraram de cobiça e prazer. Num relance, aquela fisionomia contrafeita trans­formava-se no semblante risonho de quem deseja aliviar e socorrer.

— Oh! sois excessivamente generoso! — murmurara, apossando-se da bolsa recheada.

— O dinheiro é sempre bom — disse Jeziel — quan­do com ele podemos adquirir a simpatia ou a misericórdia dos homens.

O interlocutor fingiu não perceber o alcance filo­sófico daquelas palavras e asseverou:

- Vossa bondade, entretanto, dispensa o concurso de quaisquer elementos estranhos para a conquista de bons amigos. Eu, por exemplo, dirigia-me agora para o meu trabalho no porto, mas experimentei tanta sim­patia pela vossa situação que aqui estou para quanto vos preste.

— Vosso nome?

— Irineu de Crotona, para vos servir — respondeu o interpelado, visivelmente satisfeito com o dinheiro que lhe refertava o bolso.

— Meu amigo — exclamou o rapaz extremamente enfraquecido —, estou enfermo e não conheço esta cidade, de modo a tomar qualquer resolução. Podeis indicar-me algum albergue ou alguém que me possa prestar a cari­dade de um asilo?

Irineu esboçou uma fácies de fingida piedade e res­pondeu:

— Pesa-me nada ter para colocar à disposição de vossas necessidades; e também não sei onde possa existir um abrigo adequado para receber-vos, como se faz pre­ciso. A verdade é que, para a prática do mal, todos estão prontos, mas para fazer o bem...

Depois, concentrando-se por momentos, acrescentou:

— Ah! agora me lembro!... Conheço umas pes­soas que vos podem auxiliar. São os homens do “Ca­minho”. (1)

Mais algumas palavras e Irineu prontificou-se a con­duzi-lo ao conhecido mais próximo, amparando-lhe o corpo enfermo e vacilante.

O sol caricioso da manhã começava a despertar a Natureza com os seus raios quentes e confortadores. Feita a reduzida caminhada por um atalho agreste, sustido pelo meliante arvorado em benfeitor, Jeziel pa­rava à porta de uma casa de aparência humilde. Irineu entrou e de lá regressou com um homem idoso, de sem­blante agradável, que estendeu a mão, cordialmente, ao moço hebreu, dizendo:

— De onde vens, irmão?

O rapaz admirou-se de tanta afabilidade e delica­deza, num homem a quem via pela primeira vez. Por que lhe dava o título familiar, reservado ao círculo mais íntimo dos que nasciam sob o mesmo teto?

— Por que me chamais irmão, se não me conheceis? — interrogou comovido.

Mas o interpelado, renovando o sorriso generoso, acrescentava:

— Somos todos uma grande família em Cristo Jesus.

Jeziel não compreendeu. Quem seria aquele Jesus? Um novo deus para os que desconheciam a lei? Reco­nhecendo que a enfermidade não lhe dava ensanchas a cogitações religiosas ou filosóficas, respondeu simples­mente:

Deus vos recompense pela generosidade da aco­lhida. Venho de Cefalônia, tendo adoecido gravemente em viagem, e assim e que, neste estado, recorro à vossa caridade.


(1) Primitiva designação do Cristianismo. (Nota de Emmanuel.)

— Efraim — disse Irineu dirigindo-se ao dono da casa —, nosso amigo tem febre e o seu estado geral requer cuidados. Você, que é um dos bons homens do “Caminho”, há de acolhê-lo com o coração dedicado aos que sofrem.

Efraim aproximou-se mais do jovem enfermo e observou:

— Não é o primeiro doente de Cefalônia que o Cristo envia à minha porta. Ainda anteontem, outro aqui surgiu com o corpo crivado de feridas de mau caráter. Aliás, conhecendo a gravidade do caso, pretendo logo à tarde levá-lo para Jerusalém.

— Mas, é necessário ir tão longe? — perguntou Irineu com certo espanto.

— Somente lá, temos maior número de cooperado­res — esclareceu com humildade.

Ouvindo o que diziam e considerando a necessidade de ausentar-se do porto em obediência às recomendações do patrício que se lhe mostrara tão amigo, restituindo-o à liberdade, Jeziel dirigiu-se a Efraim num apelo humilde e triste:

— Por quem sois! levai-me para Jerusalém convos­co, por piedade!...

O irterpelado, evidenciando natural bondade, anuiu sem maior estranheza:

— Irás comigo.

Abandonado por Irineu aos cuidados de Efraim, o doente recebeu carinhos de um verdadeiro amigo. Não fosse a febre e teria travado com o irmão um conheci­mento mais íntimo, procurando conhecer minuciosamente os nobres princípios que o levaram a estender-lhe a mão protetora. Contudo, mal conseguiu manter-se de pensa­mento vigilante sobre si mesmo, a fim de elucidar as suas interrogações carinhosas, medicando-se convenientemente.

Ao crepúsculo, aproveitando a frescura da noite, uma carroça, cuidadosamente velada por um toldo de pano barato, saía de Jope com destino a Jerusalém.

Caminhando cuidadoso para não esfalfar a pobre alimária, Efraím transportava os dois enfermos à cidade próxima, buscando os recursos indispensáveis. Descan­sando aqui e ali, somente na manhã seguinte o veículo parou à porta de um casarão de grandes proporções, aliás paupérrimo em sua feição exterior. Um rapaz de semblante alegre veio atender ao recém-vindo, que o interpelou com intimidade:

- Urias, poderás dizer-me se Simão Pedro está?

- Está, Sim.

- Poderás chamá-lo em meu nome?

- Vou já.

Acompanhado de Tiago, irmão de Levi, Simão apareceu e recebeu o visitante com efusivas demonstrações de carinho. Efraim esclareceu o motivo da sua presença. Dois desamparados do mundo requeriam auxílio urgente.

- Mas é quase impossível - atalhou Tiago. - Estamos com quarenta e nove doentes acamados.

Pedro esboçou um sorriso generoso e obtemperou:

- Ora, Tiago, se estivéssemos pescando, seria justo nos eximíssemos desse ou daquele dever que exorbitasse a esfera das obrigações inadiáveis de cada dia, junto da família, cuja organização vem de Deus; mas agora o Mestre nos legou o trabalho de assistência a todos os seus filhos, no sofrimento. Presentemente, nosso tempo se destina a isso; vejamos, pois, o que é possível fazer.

E o bondoso Apóstolo adiantou-se para acolher os dois infelizes.

Desde que viera do Tiberíades para Jerusalém, Simão transformara-se em célula central de grande movimento humanitarista. Os filósofos do mundo sempre pontificaram de cátedras confortáveis, mas nunca desceram ao plano da ação pessoal, ao lado dos mais infortunados da sorte. Jesus renovara, com exemplos divinos, todo o sistema de pregação da virtude.

Chamando a si os aflitos e os enfermos, inaugurara no mundo a fórmula da verdadeira benemerência social.

As primeiras organizações de assistência ergueram-se com o esforço dos apóstolos, ao influxo amoroso das lições do Mestre.

Era por esse motivo que a residência de Pedro, doação de vários amigos do "Caminho", regurgitava de enfermos e desvalidos sem esperança. Eram velhos a exibirem úlceras asquerosas, procedentes de Cesaréia; loucos que chegavam das regiões mais longínquas, conduzidos por parentes ansiosos de alívio; crianças para­líticas, da Iduméia, nos braços maternais, todos atraidos pela fama do profeta nazareno, que ressuscitava os pró­prios mortos e sabia restituir tranqüilidade aos corações mais infortunados do mundo.

Natural era que nem todos se curassem, o que obri­gava o velho pescador a agasalhar consigo todos os neces­sitados, com carinho de um pai. Recolhendo-se ali, com a família, era auxiliado particularmente por Tiago, filho de Alfeu, e por João; mas, em breve, Filipe e suas filhas instalavam-se igualmente em Jerusalém, cooperando no grande esforço fraternal.

Tamanho o movimento de ne­cessitados de toda sorte, que há muito Simão não mais podia entregar-se a outro mister, no concernente à pre­gação da Boa Nova do Reino. A dilatação desses mis­teres vinculara o antigo discípulo aos maiores núcleos do judaísmo dominante. Obrigado a valer-se do socorro dos elementos mais notáveis da cidade, Pedro sentia-se cada vez mais escravo dos seus amigos benfeitores e dos seus pobres beneficiados, acorridos de toda parte, em grau de recurso supremo ao seu espírito de discípulo abnegado e sincero.

Atendendo às solicitações confiantes de Efraim, pro­videnciou para que ambos os enfermos fossem instalados na sua casa pobre.

Jeziel ocupou leito asseado e singelo, em estado de completa inconsciência, no delírio da febre que o pros­trava. Suas palavras desconexas, entretanto, revelavam tão exato conhecimento dos textos sagrados, que Pedro e João se interessaram de modo especial por aquele jovem de faces macilentas e tristes. Mormente Simão, passava longas horas entretido em ouvi-lo, anotando-lhe os conceitos profundos, embora filhos da exaltação febril.

Decorridas duas semanas exaustivas, Jeziel melho­rou, rearmonizando as próprias faculdades para melhor analisar e sentir a nova situação. Afeiçoara-se a Pedro, como um filho afetuoso ao legitimo pai. Notando-lhe o carinho, de leito em leito, de necessitado a necessitado, o moço hebreu experimentava deliciosa e íntima sur­presa, O ex-pescador de Cafarnaum, relativamente moço ainda, era o exemplo vivo da renúncia fraterna.

Tão logo convalescente, Jeziel foi transferido a am­biente mais calmo, à sombra amena de vetustas tama­reiras que circundavam a velha casa.

Entre ambos estabelecera-se, desde os primeiros dias, a corrente magnética das grandes atrações afetivas.

Nessa manhã, as observações amáveis sucediam-se e, não obstante a justa curiosidade que lhe pairava nal­ma, a respeito do interessante hóspede, Simão ainda não tinha logrado o ensejo de um intercâmbio de idéias, mais íntimo, de maneira a sondar-lhe os pensamentos, inteirando-se dos seus sentimentos e da sua origem. Ao sopro generoso da aragem matinal, sob as árvores frondosas, o Apóstolo criou ânimo e, a certa altura, depois de distrair o convalescente com alguns ditos afetuosos, buscou penetrar-lhe o mistério, cuidadosamente:

— Amigo — disse com jovial sorriso —, agora que Deus te restituiu a saúde preciosa, regozijo-me por havermos recebido tua visita em nossa casa. Nosso júbilo é sincero, pois que, nos mínimos detalhes da tua perma­nência entre nós, revelaste a condição espiritual de filho legítimo dos lares organizados com Deus, pelo conheci­mento que tens dos textos sagrados. E tanto me im­pressionei com as tuas referências a Isaías, quando deliravas com febre alta, que desejaria saber de que tribo descendes.

Jeziel compreendeu que aquele amigo sincero, antes irmão carinhoso nas horas mais críticas da enfermidade, desejava conhecê-lo melhor, identificá-lo íntima e pro­fundamente, com delicada argúcia psicológica. Achou justo e considerou que não devia desprezar o amparo de um coração verdadeiramente fraterno, para o acendra­mento das próprias energias espirituais.

— Meu pai era filho dos arredores de Sebaste e descendia da tribo de Issacar — esclareceu, atencioso.

— E era tão altamente dedicado ao estudo de Isaías?

— Estudava sinceramente todo o Testamento, sem preferências, talvez, de ordem particular. A mim, porém, Isaías sempre me impressionou profundamente pela be­leza das promessas divinas de que foi portador, anun­ciando-nos o Messias, sobre cuja vinda tenho meditado desde a infância.

Simão Pedro esboçou um sorriso de viva satisfação e disse:

— Mas, não sabes que o Messias já veio?

Jeziel teve um brusco sobressalto na cadeira im­provisada.

— Que dizeis? — inquiriu ansioso.

— Nunca ouviste falar em Jesus de Nazaré?

Embora recordasse vagamente as palavras ouvidas de Efraim, declarou:

— Nunca!


— Pois o profeta nazareno já nos trouxe a mensa­gem de Deus para todos os séculos.

E Simão Pedro, olhos acesos na chama luminosa dos que se sentem felizes ao recordar um tempo ven­turoso, falou-lhe da exemplificação do Senhor, traçando uma perfeita biografia verbal do Mestre sublime.

Em traços de forte colorido, lembrou os dias em que o hospedava no seu tugúrio à margem do Genesaré, as excursões pelas aldeias vizinhas, as viagens de barca, de Cafarnaum aos sítios marginais do lago. Era de se lhe ver a emoção intraduzível da voz, a alegria interior com que rememorava os feitos e prédicas junto ao lago marulhoso, acariciado pelo vento, a poesia e a suavidade dos crepúsculos vespertinoS. A imaginação viva do Após­tolo sabia tecer comentários judiciosos e brilhantes ao evocar um leproso curado, um cego que recuperara a vista, uma criancinha doente e prestes restabelecida.

Jeziel bebia-lhe as palavras, inteiramente empolga­do, como se houvesse encontrado um mundo novo. A mensagem da Boa Nova penetrava-lhe o espírito desen­cantado, como um bálsamo suave.

Quando Simão parecia prestes a terminar a narrativa, não pôde conter-se e perguntou:

— E o Messias? Onde está o Messias?

— Há mais de um ano — exclamou o Apóstolo apa­gando a vivacidade com a lembrança triste — foi crucifi­cado aqui mesmo em Jerusalém, entre os ladrões.

Em seguida, passou a enumerar os martírios pun­gentes, as dolorosas ingratidões de que o Mestre fora vítima, os ensinos derradeiros e a gloriosa ressurreição do terceiro dia. Depois, falou dos primeiros dias do apostolado, dos acontecimentos do Pentecostes e das últi­mas aparições do Senhor, no cenário sempre saudoso da Galiléia distante.

Jeziel tinha as pupilas úmidas. Aquelas revelações sensibilizavam-lhe o coração, como se houvesse conhe­cido o profeta de Nazaré. E, ligando o perfil deste aos textos que retinha de cor, enunciou, quase em voz alta, como se falasse consigo mesmo:
— “Levantar-se-á (1) como um arbusto ver­de, na ingratidão de um solo árido...

Carregado de opróbrios e abandonado dos homens.

Coberto de ignomínias não merecerá consi­deração.

Será ele quem carregará o fardo pesado de nossas culpas e sofrimentos, tomando sobre si todas as nossas dores.

Parecerá um homem vergado sob a cólera de Deus...

Humilhado e ferido deixar-se-á conduzir como um cordeiro, mas, desde o instante em que oferecer sua vida, os interesses do Eterno hão de prosperar nas suas mãos.”


Simão, admirado de tanto conhecimento dos sagra­dos textos, terminou dizendo:

— Vou buscar-te os textos novos. São as anotações de Levi (2) sobre o Messias redivivo.


(1) Do Capítulo 53º, de Isaías.

(2) Mateus.

E, em breves minutos, o Apóstolo lhe punha nas mãos os pergaminhos do Evangelho. Jeziel não leu; devorou. Assinalou, em voz alta, uma a uma, todas as passagens da narrativa, seguido pela atenção de Pedro intimamente satisfeito.

Terminada a rápida análise, o jovem advertiu:

- Encontrei o tesouro da vida, preciso examiná-lo com mais vagar, quero saturar-me da sua luz, pois aqui pressinto a chave dos enigmas humanos.

Quase em lágrimas, leu o Sermão da Montanha, secundado pelas comovedoras lembranças de Pedro. Em seguida, ambos passaram a comparar os ensinamentos do Cristo com as profecias que o anunciavam.

O jovem hebreu estava comovidíssimo e queria conhecer os mí­nimos episódios da vida do Mestre. Simão procurava satisfazê-lo, edificado e satisfeito.

O generoso amigo de Jesus, tão incompreendido em Jerusalém, experimentava uma alegria orgulhosa por haver encontrado um jovem que se entusiasmava com os exemplos e ensinamentos do Mestre incomparável.

— Desde que dei acordo de mim em vossa casa —disse Jeziel —, verifiquei que participais de princípios que me não são conhecidos. Tanta preocupação em am­parar os desfavorecidos da sorte representa uma lição nova para minha alma. Os doentes que vos abençoam, qual o faço agora, são tutelados desse Cristo que eu não tive a ventura de conhecer.

— O Mestre amparava a todos os sofredores e nos recomendou que o mesmo fizéssemos em seu nome, escla­receu o Apóstolo enfaticamente.

— De acordo com as instruções do Levítico — disse Jeziel —, toda cidade deve possuir, longe de suas portas, um vale, destinado aos leprosos e pessoas consideradas imundas; entretanto, Jesus nos deu um lar no coração daqueles que o seguem.

— O Cristo nos trouxe a mensagem do amor — ex­plicou Pedro —, completou a Lei de Moisés, inaugurando um novo ensinamento. A Lei Antiga é justiça, mas o Evangelho é amor.

Enquanto o código do passado pre­ceituava o “olho por olho, dente por dente”, o Messias ensinou que devemos “perdoar setenta vezes sete vezes” e que se alguém quiser tirar-nos a túnica devemos dar-lhe também a capa.

Jeziel sensibilizou-se e chorou. Aquele Cristo amo­roso e bom, suspenso na cruz da ignomínia humana, era a personificação de todos os heroísmos do mundo. Como se aliviava ao analisá-lo! Sentia-se bem por não haver reagido contra o despotismo de que fora vítima. Cristo era o Filho de Deus e não desdenhara o sofrimento. Seu cálice transbordara e Pedro lhe fazia sentir que, nos instantes mais acerbos, aquele Mestre desconhecido e humilde, no mundo, sabia transmitir a lição da cora­gem, da renúncia e da vida. Como exemplo do seu amor, ali estava aquele homem simples e carinhoso, que lhe chamava irmão, que o acolhia como pai dedicado. O rapaz lembrou seus últimos dias em Corinto e chorou longamente. Foi aí que, abrindo o coração, tomou as mãos de Pedro e contou-lhe toda a sua tragédia, sem nada omitir e rogando-lhe conselhos.

Finalizando a narrativa, acrescentou comovido:

- Revelastes-me a luz do mundo; perdoai, pois, se vos revelo meus sofrimentos, que devem ser justos. Ten­des no coração as claridades da palavra do Salvador e haveis de inspirar minha pobre vida.

O Apóstolo abraçou-o e murmurou:

— Julgo prudente guardares o anonimato, pois Je­rusalém regurgita de romanos e não seria justo com­prometer o generoso amigo que te restituiu à liberdade. Teu caso, entretanto, não é novo, meu amigo. Estou nesta cidade há quase um ano, e, por estes leitos sin­gelos, têm passado as mais singulares criaturas. Eu, que era um paupérrimo pescador, tenho adquirido ampla experiência do mundo, nestes poucos meses! A estas portas têm batido homens esfarrapados, que foram po­líticos importantes; mulheres leprosas, que foram quase rainhas!

Em contacto com a história de tantos castelos desmoronados, no jogo das vaidades mundanas, agora reconheço que as almas necessitam do Cristo, acima de tudo.

Essas explicações singulares constituíam conforto para Jeziel, que interrogou agradecido:

— E achais que vos poderia servir em alguma coisa? Eu, que era cativo dos homens, desejaria escra­vizar-me ao Salvador, que soube viver e morrer por todos nós.

— Serás meu filho, doravante — exclamou Simão num transporte de júbilo.

— E já que preciso reformar-me em Cristo, como me chamarei? — perguntou Jeziel com olhos fulgurantes de alegria.

O Apóstolo refletiu algum tempo e falou:

— Para que não te esqueças da Acaia, onde o Senhor se dignou de buscar-te para o seu ministério divino, eu te batizarei no credo novo com o nome grego de Estevão.

Consolidaram-se ainda mais os laços de simpatia que os aproximavam desde o primeiro instante, e o moço jamais olvidaria aquele encontro com o Cristo, à sombra das tamareiras aureoladas de luz.

Durante um mês, Jeziel, agora conhecido por Estevão, absorveu-se no estudo de toda a exemplificação e ensinos do Mestre que não chegara a conhecer de modo direto.

A casa dos apóstolos, em Jerusalém, apresentava um movimento de socorro aos necessitados cada vez maior, requerendo vasto coeficiente de carinho e dedi­cação. Eram loucos a chegarem de todas as províncias, anciães abandonados, crianças esquálidas e famintas. Não só isso. À hora habitual das refeições, extensas filas de mendigos comuns imploravam a esmola da sopa. Acumulando ar tarefas com ingente sacrifício, João e Pedro, com o concurso dos companheiros, haviam cons­truído um pavilhão modesto, destinado aos serviços da igreja, cuja fundação iniciavam para difundir as mensa­gens da Boa Nova. A assistência aos pobres, entretanto, não dava tréguas ao labor das idéias evangélicas. Foi quando João considerou irrazoável que os discípulos di­retos do Senhor menosprezassem a sementeira da palavra divina e despendessem todas as possibilidades de tempo no serviço do refeitório e das enfermarias, visto que, dia a dia, multiplicava o número de doentes e infelizes que recorriam aos seguidores de Jesus como a última espe­rança para os seus casos particulares. Havia enfermos que batiam à porta, benfeitores da nova instituição que requeriam situações especiais para os seus protegidos, amigos que reclamavam providências a favor dos órfãos e das viúvas.

Na primeira reunião da igreja humilde, Simão Pe­dro pediu, então, nomeassem sete auxiliares para o ser­viço das enfermarias e dos refeitórios, resolução que foi aprovada com geral aprazimento. Entre os sete irmãos escolhidos, Estevão foi designado com a simpatia de todos.

Começou para o jovem de Corinto uma vida nova. Aquelas mesmas virtudes espirituais que iluminavam a sua personalidade e que tanto haviam contribuído para a cura do patrício, que o restituira à liberdade, difundiam entre os doentes e indigentes de Jerusalém os mais santos consolos. Grande parte dos enfermos, recolhidos ao casarão dos discípulos, recobraram a saúde. Velhos desalentados encontravam bom ânimo sob a influência da sua palavra inspirada na fonte divina do Evangelho. Mães aflitas buscavam-lhe o conselho seguro; mulheres do povo, esgotadas pelo trabalho e angústias da vida, ansiosas de paz e consolação, disputavam o conforto da sua presença carinhosa e fraterna.

Simão Pedro não cabia em si de contente, em face das vitórias do filho espiritual. Os necessitados tinham a impressão de haver recebido um novo arauto de Deus para alívio de suas dores.

Em pouco tempo, Estevão tornou-se famoso em Jerusalém, pelos seus feitos quase miraculosos. Consi­derado como escolhido do Cristo, sua ação resoluta e sincera arrigimentara, em poucos meses, as mais vastas conquistas para o Evangelho do amor e do perdão. Seu nobre esforço não se limitava à tarefa de mitigar a fome dos desvalidos. Entre os Apóstolos galileus, sua palavra resplandecia nas pregações da igreja, iluminada pela fé ardente e pura. Quando quase todos os companheiros, a pretexto de não ferirem velhos princípios estabelecidos, deixavam de ampliar os comentários públicos para além das considerações agradáveis ao judais­mo dominante, Estevão apresentava à multidão, desas­sombradamente, o Salvador do mundo na glória das novas revelações divinas, indiferente às lutas que iria provocar, comentando a vida do Mestre com o seu verbo inflamado de luz. Os próprios discípulos surpreendiam-se com a magia das suas profundas inspirações. Alma temperada na forja sublime do sofrimento, sua pregação estava cheia de lágrimas e alegrias, de apelos e aspi­rações.

Em poucos meses, seu nome era aureolado de uma veneração surpreendente. E, ao fim do dia, quando che­gavam as orações da noite, o moço de Corinto, ao lado de Pedro e João, falava das suas visões e das suas espe­ranças, cheio do espírito daquele Mestre adorável, que, através do seu Evangelho, lhe semeara no coração as estrelas abençoadas de um júbilo infinito.



4

Nas estradas de Jope
Estamos na velha Jerusalém, numa clara manhã do ano 35.

No interior de sólido edifício, onde tudo transpira conforto e luxo da época, um homem ainda moço parece impaciente, à espera de alguém que se demora. Ao menor rumor da via pública, corre à janela, apressado, voltando a sentar-se e a examinar papiros e pergaminhos, como quem se diverte matando o tempo.

Chegando à cidade, depois de uma semana de via­gem exaustiva, Sadoc aguardava o amigo Saulo para o abraço afetuoso da sua amizade de muitos anos.

Dentro em breve um carro minúsculo, semelhante às bigas romanas, estacava à porta, tirado por dois soberbos cavalos brancos. Num minuto, as nossas perso­nagens se abraçaram efusivamente, transbordantes de alegria e juventude.

O jovem Saulo apresentava toda a vivacidade de um homem solteiro, bordejando os seus trinta anos. Na fisionomia cheia de virilidade e máscula beleza, os traços israelitas fixavam-se particularmente nos olhos profundos e percucientes, próprios dos temperamentos apaixonados e indomáveis, ricos de agudeza e resolução. Trajando a túnica do patriciato, falava de preferência o grego, a que se afeiçoara na cidade natal, ao convívio de mestres bem-amados, trabalhados pelas escolas de Atenas e Alexandria.

— Quando chegaste? — perguntou Sadoc, bem-hu­morado, ao visitante.

— Estou em Jerusalém desde ontem de manhã. Aliás, estive com tua irmã e teu cunhado, que me deram notícias tuas ao partirem para Lida.

— E como vais de vida lá por Damasco?

— Sempre bem.

Antes que se fizesse alguma pausa, o outro observou:

— Mas como estás modificado!... Um carro à ro­mana, a conversação em grego e...

Saulo, porém, não o deixou prosseguir e rematou:

— E no coração a Lei, sempre desejoso de submeter Roma e Atenas aos nossos princípios.

— Sempre o mesmo homem! — exclamou o amigo com um sorriso franco. — Aliás, posso apresentar um complemento às tuas próprias explicações. A biga éindispensável’ às visitas a uma casinha florida, na estrada de Jope; e a conversação grega é necessária aos colóquios com uma legítima descendente de Issacar, nascida entre as flores e os mármores de Corinto.

— Como o sabes? — inquiriu Saulo admirado.

— Pois não te disse que estive ontem à tarde com tua irmã?

E os dois, acomodados em poltronas confortáveis da época, entremeando a conversação com algumas pe­quenas taças do capitoso “Chipre”, esfloravam larga­mente os problemas da vida pessoal, relacionando as pequenas ocorrências de cada dia.

Jovialíssimo, Saulo contou ao amigo que, de fato, se enamorara de uma jovem da sua raça, que aliava os dotes de peregrina beleza aos mais elevados tesouros do coração. Seu culto ao lar constituía um dos mais santificados atributos femininos. Explicou o primeiro encontro que tiveram. Em companhia de Alexandre e Gamaliel, fora, havia uns três meses, à festividade íntima que Zacarias ben Hanan, adiantado lavrador no caminho de Jope, oferecera a alguns amigos bem colocados, em homenagem à circuncisão dos filhinhos de seus servidores. Acrescentou que o anfitrião era antigo comerciante israelita emigrado de Corinto, após longos anos de trabalho na Acaia, desgostoso com as perseguições de que fora vítima.

Após grandes provações na viagem de Cencréia a Cesaréia, Zacarias chegara àquele porto em péssimas condições financeiras, mas foi auxiliado por um patrício romano, que lhe facultou recursos para arrendar uma grande propriedade na estrada de Jope, a regular distância de Jerusalém. Acolhido generosa­mente em sua casa, agora farta e feliz, ali conhecera na jovem Abigail um terno coração de menina, dona dos mais belos predicados morais que pudessem exornar uma filha da sua raça. Era, de fato, o seu ideal de moço:

inteligente, versada na Lei e, sobretudo, dócil e carinhosa. Adotada pelo casal como filha muito cara, havia sofrido amargamente em Corinto, ali deixando o pai morto e o irmão escravizado para sempre. Havia três meses que se conheciam, permutando-se as mais risonhas esperanças e, quem sabe? talvez o Eterno lhes reservasse a união conjugal, como coroamento dos sonhos sagrados da ju­ventude. Saulo falava com o entusiasmo próprio do seu temperamento apaixonado e vibrátil. No olhar pro­fundo, notava-se-lhe a chama viva dos sentimentos reso­lutos, com respeito à afeição que lhe dominava a capaci­dade emotiva.

— E já comunicaste a teus pais esses projetos? —perguntou Sadoc.

— Minha irmã pretende ir a Tarso nestes dois me­ses e será a intérprete dos meus votos, concernentes à organização do meu futuro. Aliás, sabes, isso não pode nem deve ser um problema de soluções precipitadas. Penso que ao homem não convém entregar—se assim, sem mais nem menos, a uma questão decisiva do seu destino. Obedecendo ao nosso velho instinto de prudência, venho analisando demoradamente meus próprios ideais e ainda não trouxe Abigail para conviver com Dalila, alguns dias, em nossa casa; pretendo fazê-lo tão-só nas vésperas da visita de minha irmã ao lar paterno.

— Já que acalentas tantos projetos para o futuro adjuntou o amigo com bondoso interesse —, em que pé estão as tuas pretensões ao cargo no Sinédrio?

Não posso queixar-me, porqüanto o Tribunal me confere atualmente atribuições especialissimas. Sabes que Gamaliel há muito vem instando com meu pai a respeito da minha transferência para Jerusalém, onde me prometem lugar de relevo na administração do nosso povo. Como sabemos, o antigo mestre está idoso e deseja retirar-se da vida pública. Não tardarei a substituí-lo no voto das mais altas deliberações, além de auferir atualmente ótima remuneração, independente da contri­buição que me vem de Tarso periodicamente. Tenho, acima de tudo, o ideal político de aumentar meu prestígio junto aos rabinos. É preciso não esquecer que Roma é poderosa e que Atenas é sábia, tornando-se in­dispensável acordar a eterna hegemonia de Jerusalém como tabernáculo do Deus único. Precisamos, pois, do­brar os joelhos de gregos e romanos ante a Lei de Moisés.

Sadoc, no entanto, deixando perceber que não pres­tava muita atenção ao seu idealismo nacionalista, retinha o pensamento na situação particular, advertindo delica­damente.

— Pelo que me dizes, folgo em saber que teu pai vai melhorando, progressivamente, as condições finan­ceiras. E dizer-se que foi tecelão humilde..

— Por isso mesmo, talvez — glosou Saulo —, ensi­nou-me a profissão, quando menino, para que nunca me esquecesse de que o progresso de um homem depende do seu próprio esforço. Hoje, porém, depois de tantas fadigas no tear, ele descansa, com justiça, numa velhice honrada e sem cuidados, junto de minha mãe. Suas caravanas e camelos percorrem toda a Cilícia e os trans­portes lhe garantem um desenvolvimento de renda cada vez maior.

A palestra continuou animada e, em dado instante, o moço de Tarso inquiriu o amigo sobre os motivos que o traziam a Jerusalém.

— Vim certificar-me da cura de meu tio Filodemos, que ficou curado da velha cegueira, mediante processos misteriosos.

E, como se trouxesse o cérebro onusto de interro­gações de toda sorte, para as quais não encontrava res­posta nos próprios conhecimentos, acentuou:

— Já ouviste falar nos homens do “Caminho”?

— Ah! Andrônico falou-me a respeito deles, há muito tempo. Não se trata de uns pobres galileus mal­trapilhos e ignorantes que se refugiam nos bairros des­prezíveis?

— Isso, justamente.

E contou que um homem chamado Estevão, por­tador de virtudes sobrenaturais, no dizer do povo, havia devolvido a vista ao tio, com assombro geral de muita gente.

— Como é isso? — disse Saulo admirado. Como pôde Filodemos submeter-se a experiências tão sórdidas? Acaso não terá compreendido que o fato pode radicar nas artimanhas dos inimigos de Deus? Várias vezes, desde que Andrônico me referiu o assunto pela primeira vez, tenho ouvido comentários a respeito desses homens e cheguei mesmo a trocar idéias com Gamaliel, no intuito de reprimir essas atividades perniciosas; entretanto, o mestre, com a tolerância que o caracteriza, me fez ver que essa gente vem auxiliando a numerosas pessoas sem recursos.

— Sim — atalhou o outro —, mas ouço dizer que as pregações de Estevão estão arrebanhando muitos es­tudiosos a novos princípios que, de algum modo, infirmam a Lei de Moisés.

— Todavia, não foi um carpinteiro galileu, obscuro, sem cultura, que originou tal movimento? Que pode­ríamos esperar da Galiléia? Porventura terá produzido outra coisa além de legumes e peixes?

E, contudo, o carpinteiro martirizado tornou-se um ídolo para os sequazes. Procurando desfazer as im­pressões de meu tio, chamando-o à razão com a ener­gia necessária, fui levado a visitar, ontem, as obras de caridade dirigidas por um tal Simão Pedro. É uma instituição estranha e que não deixa de ser extraordinária. Crianças desamparadas que encontram carinho, leprosos que recobram a saúde, velhos enfermos e des­protegidos da sorte, que exultam de conforto.

— Mas os doentes? Onde ficam esses doentes? —interrogou Saulo assombrado.

— Todos se agasalham junto desses homens incom­preensíVeiS.

— Estão todos malucos! — disse o moço de Tarso com a franqueza espontânea que lhe marcava as atitudes.

Ambos trocaram impressões íntimas, sobre a nova doutrina, pontuando de ironia o comentário de muitos fatos piedosos que empolgavam a atenção do povo sim­ples de Jerusalém.

Ao finalizar a conversa, Sadoc acrescentou:

— Não me conformo em ver os nossos princípioS aviltados e proponho-me a cooperar contigo, embora es­teja em Damasco, para estabelecermos a imprescindível repressão a tais atividades. Com as tuas prerrogativas de futuro rabino, em destaque no Templo, poderás encabeçar uma ação decisiva contra esses mistificadores e falsos taumaturgos.

— Sem dúvida — respondeu. — E prontifico-me a executar todas as providências que o caso requer. Até agora, a atitude do Sinédrio tem sido da máxima tole­rância mas farei que todos os companheiros mudem de opinião e procedam como lhes compete, em face dessas investidas que estão a desafiar severa punição.

E, quase solene, concluía:

— Quais os dias de pregação desse tal Estevão?

— Os sábados.

— Pois bem; depois de amanhã iremos juntos apre­ciar os sandeus. Caso verifique o caráter inofensivo dos seus ensinamentos, haverá que os deixar em paz com a sua logomania, ao lado das mazelas do próximo; mas, caso contrário, pagarão muito caro a audácia de ofender nossos códigos religiosos, na própria metrópole do ju­daísmo.

Ainda por longo tempo comentaram os fatos sociais, as tricas do farisaísmo a que pertenciam, os sucessos do presente e as esperanças do porvir.

Ao cair da tarde desse mesmo dia, a biga elegante de SauLo de Tarso atravessava as portas de Jerusalém, tomando a direção do porto de Jope.

O sol ardente, alto ainda no horizonte, enchia o caminho com a sua luz muito viva, O semblante do jovem doutor da Lei irradiava uma alegria louca, ao trote largo dos animais, que, de quando em vez, passa­vam a galopar. Recordava, satisfeito, o esporte a que se afeiçoara na cidade natal, tão ao gosto grego em que fora educado, graças à solicitude paterna. Olhos fixos nos cavalos árdegos e velozes, vinham-lhe à mente as vitórias alcançadas, entre os parceiros de jogos na sua descuidosa adolescência.

Poucas milhas distante, erguia-se uma casa con­fortável, entre grandes tamareiras e pessegueiros em flor. Em torno, grandes plantações de legumes, ao lado de tênue fio dágua inteligentemente aproveitado em extenso horto. A propriedade era parte integrante de uma das muitas pequenas aldeias que rodeavam a cidade santa, onde quer que houvesse condições favoráveis para a pequena lavoura, de alto interesse nos mercados de Jerusalém, colocada no meio de uma secura singular. Era aí que Zacarias se instalara com a família, para recomeçar a vida honesta, Ruth e Abigail procuravam ajudá-lo no seu nobre esforço de homem ativo e traba­lhador, cultivando frutos e flores, e com isso aprovei­tando toda a terra disponível.

Deixando Corinto, o generoso israelita encontrou grandes dificuldades, até que desembarcou em Cesaréia, onde se lhe esgotaram os últimos recursos, Alguns con­terrâneos, entretanto, o apresentaram a conhecido patrí­cio romano, grande proprietário na Samaria e que lhe emprestou avultada soma, recomendando-lhe aquela zona de Jope onde poderia arrendar-lhe a propriedade de um amigo. Zacarias aceitou o auxílio e tudo ia às mil maravilhas. A venda de legumes e frutas, bem como a criação de aves e animais pesados, compensavam-lhe as fadigas. Embora distante de Jerusalém, tivera ensejo de visitar a cidade, mais de três vezes, sendo que, sob o amparo de Alexandre, parente próximo de Anás, conseguira incluir-se entre os negociantes privilegiados, que podiam vender animais para os sacrifícios do Templo.

Auxiliado por amigos influentes, do estofo de Gamaliel e de Saulo de Tarso, que se emancipara da condição de discípulo para graduar-se em autoridade competente, no mais alto tribunal da raça, pudera resgatar grande parte de suas dívidas, caminhando vertiginosamente para uma bela posição de independência financeira, no país natal. Ruth regozijava-se com a vitória do marido, secundada por Abigail, em quem encontrara a dedicada afeição de verdadeira filha.

A irmã de Jeziel parecia haver refundido a delica­deza dos traços feminis, na forja dos sofrimentos expe­rimentados. A gracilidade do semblante e o negrume dos olhos haviam-se irmanado a um véu de formosa tris­teza, que a envolvera toda, a partir daqueles dias trá­gicos e lúgubres, passados em Corinto. Quanto desejava uma notícia, ainda que ligeira e banal, do irmão que o destino havia convertido em escravo de verdugos cruéis!... Para isso, desde os primeiros tempos, Zaca­rias não poupara expedientes nem esforços. Incumbindo a um fiel amigo da Acaia de promover diligências em tal sentido, apenas fora informado de que Jeziel havia sido levado, quase a ferros, para bordo de um navio mercante que se destinava a Nicópolis. Nada mais. Abigail instara novamente. E de Corinto vinham novas promessas dos amigos, que prosseguiriam investigando nas rodas afei­çoadas a Licínio Minúcio, de modo a descobrirem o para­deiro do jovem cativo.

Nesse dia, a moça recordava profundamente a figura do irmão querido, as suas advertências e conselhos tão carinhosos sempre.

Desde que travara relações com o rapaz de Tarso e entrevira a possibilidade de uma união conjugal, era com ansiedade que suplicava a Deus a consoladora cer­teza da existência do irmão, fosse onde fosse. A seu ver, Jeziel gostaria de conhecer o eleito do seu coração, cujos pensamentos eram igualmente iluminados pelo zelo sincero de bem servir a Deus.

Contar-lhe-ia que a afei­ção da sua alma era também entretecida de comentários religiosos e filosóficos, e não tinham conta as vezes em que ambos se submergiam na contemplação da Natureza, comparando as suas lições vivas com os símbolos divinos dos Escritos Sagrados.

Saulo muito lhe ajudara no cultivo das flores da fé, que Jeziel havia semeado em sua alma singela. Não era ele um homem excessiva­mente sentimental, dado às efusões dos carinhos que passam sem maior significação, mas, compreendera-lhe o espírito nobre e leal, que um profundo sentimento de autodomínio assinalava. Abigail estava certa de enten­der-lhe as aspirações mais íntimas, nos sonhos grandio­sos que lhe empolgavam a mocidade. Sublime atração, essa que a impelia para o jovem sábio, voluntarioso e sincero! As vezes, parecia-lhe áspero e enérgico em demasia. Suas concepções da Lei não admitiam meios-termos. Sabia ordenar e desagradava-lhe qualquer ex­pressão de desõbediência aos seus propósitos. Aqueles meses de convívio, quase diário, davam-lhe a conhecer o seu temperamento indômito e inquieto, a par de um coração eminentemente generoso, onde uma fonte de ignorada ternura se retraía em abismais profundezas.

Mergulhada em cismas, num gracioso banco de pedra junto dos pessegueiros em festa primaveril, viu que o carro de Saulo se aproximava ao trote largo dos animais.

Zacarias o recebeu a distância e, juntos, em conver­sação animada, demandaram o interior, para onde a jovem se dirigiu.

A palestra estabeleceu-se no tom de cordialidade, que se repetia várias vezes na semana, e, como de cos­tume, os dois jovens, no deslumbramento da paisagem crepuscular, quase de mãos dadas como dois prometidos, desceram ao pomar cuja relva se constituía de espaçosos canteiros de flores orientais. O mar estendia-se à dis­tância de muitas milhas, mas o ar fresco da tarde dava a impressão dos ventos suaves que sopram do litoral. Saulo e Abigail falaram, a princípio, das banalidades de cada dia; contudo, em dado momento, reconhecendo o véu de tristeza que se estampava no rosto da compa­nheira, o moço interrogou-a com ternura:

— Por que estás tão triste hoje?

— Não sei — respondeu ela de olhos úmidos

mas tenho pensado muito em meu irmão. Espero, ansiosa, notícias dele, pois guardo a esperança de que te possa conhecer, mais cedo ou mais tarde. Jeziel acolheria tua palavra com entusiasmo e contentamento. Um amigo de Zacarias prometeu informações a respeito e estamos es­perando notícias de Corinto.

Depois de pequena pausa, ergueu os grandes olhos e prosseguiu:

— Ouve, Saulo: Se Jeziel ainda estiver preso, pro­metes-me teu auxílio em seu favor? Teus prestigiosos amigos de Jerusalém poderão intervir para libertá-lo, junto do Procônsul da Acaia! Quem sabe? Minhas espe­ranças, agora, resumem-se exclusivamente em ti.

Ele tomou-lhe a mão e replicou enternecido:

— Farei tudo por ele.

E, fixando nela os olhos dominadores e apaixonados, acentuou:

— Abigail, amarias a teu irmão mais que a mim?

— Que dizes? — exclamou, compreendendo a deli­cadeza da pergunta. — Entendes o meu coração fra­terno e isso me exime de mais amplas explicações. Como sabes, querido, Jeziel foi meu amparo nos dias da orfan­dade materna. Companheiro de infância e amigo da juventude sem sonhos, foi sempre o irmão carinhoso que me ensinou a soletrar os mandamentos, a cantar os Salmos de mãos-postas, livrando-me das veredas do mal e inclinando-me ao bem e à virtude. Tudo que encon­traste em mim, constitui dádiva da sua generosa assis­tência de irmão desvelado.

Saulo observou-lhe o olhar úmido de pranto e con­siderou com bondade:

— Não chores. Compreendo as tuas sagradas razões afetivas. Se necessário, irei ao fim do mundo descobrir Jeziel, caso ainda esteja vivo. Levarei cartas de Jeru­salém à Corte Provincial de Corinto. Farei tudo. Tran­qüiliza-te, pois. Pelos teus informes, presumo nele um santo. Mas falemos de outras coisas. Há problemas imediatos a resolver. E nossos projetos, Abigail?

— Deus há de abençoar-nos, murmurou a jovem, comovida.

— Ontem, Dalila e o esposo foram a Lida, em visita a alguns parentes nossos.

Entretanto, ficou tudo combinado para que estejas conosco em Jerusalém, daqui a dois meses. Antes que minha irmã empreenda a pró­xima viagem a Tarso, quero que ela te conheça mais intimamente, a fim de que exponha, com franqueza, a meus pais, o nosso projeto de casamento.

— Teu convite me sensibiliza sobremaneira, mas...

— Nada de restrições nem timidez. Viremos bus­car-te. Combinarei todas as providências indispensáveis, com Ruth e Zacarias, e, quanto ao necessário para que te apresentes numa cidade grande, não permitirei que façam aqui despesa alguma. Já estou providenciando para que recebas, em breves dias, várias túnicas de modelo grego.

E rematava a observação com um belo sorriso:

— Quero que apareças em Jerusalém como expoente perfeito da nossa raça, desenvolvida entre as antigas belezas de Corinto.

A moça fez um gesto tímido, demonstrando íntimo contentamento.

Mais alguns passos e sentaram-se sob velhos pesse­gueiros floridos, respirando a longos haustos as virações suaves que perfumavam o ambiente. A terra cultivada e colorida de rosas de todos os matizes, exalava delicioso aroma. O fim do crepúsculo está sempre cheio de sons que passam apressados, como se a alma das coisas estivesse igualmente ansiosa pelo silêncio, amigo do grande repouso... Eram árvores frondosas que se vela­vam nas sombras, derradeiros passarinhos errantes que voejavam céleres e as brisas cariciosas que chegavam de longe, agitando as grandes ramarias e acentuando os doces murmúrios do vento.

Saulo, inebriado de indefinível alegria, contemplou as primeiras estrelas que sorriam no céu recamado de luz. A Natureza é sempre o espelho fiel das emoções mais íntimas, e aquelas vagas de perfume, que as vira­ções traziam de longe, encontravam eco de misterioso júbilo no seu coração.

— Abigail disse retendo-lhe a mãozinha entre as suas —, a Natureza canta sempre com as almas esperan­çosas e crentes. Com que ansiedade esperei-te no cami­nho da vida!... Meu pai falou-me do lar e das suas doçuras e eu aguardava a mulher que me compreendesse inteiramente.

— Deus é bom — replicou ela com enlevo — e somente agora reconheço que, depois de tantos sofri­mentos, Ele me reservava, na sua misericórdia infinita, o tesouro maior da minha vida, o teu amor, na terra de meus pais. Teu afeto, Saulo, concentra todos os meus ideais. O Céu nos fará felizes. Todas as manhãs, quando estivermos casados, pedirei, em preces fervoro­sas, aos anjos de Deus que me ensinem a tecer a rede das tuas alegrias; à noite, quando a bênção do repouso envolver o mundo, dar-te-ei um carinho sempre novo, do meu afeto. Tomarei tua cabeça atormentada pelos problemas da vida e ungirei tua fronte com a carícia de minhas mãos. Viverei com Deus e contigo, somente. Ser-te-ei fiel por toda a vida e amarei os próprios sofri­mentos que acaso o mundo possa acarretar-me, por amor à tua vida e ao teu nome.

Saulo apertou-lhe as mãos com mais enlevo, redargüindo deslumbrado:

— Dar-te-ei, por minha vez, meu coração dedicado e sincero. Abigail, meu espírito estava possuído somente do amor à Lei e a meus pais. Minha mocidade tem sido muito inquieta, mas pura. Não te oferecerei uma flor sem perfume. Desde os primeiros dias da juventude, conheci companheiros que me incitaram a lhes seguir os passos incertos na embriaguez dos sentidos, precursora da morte de nossas preocupações mais nobres neste mundo, mas nunca traí o ideal divino que me vibraria alma sincera. Depois dos estudos iniciais da minha carreira, encontrei mulheres que me acenavam, levadas por uma concepção perigosa e errônea do amor. Em Tarso, nos dias suntuosos dos jogos juvenis, após a conquista das melhores láureas, recebia, de jovens inquie­tas, declarações de amor e propostas de núpcias, mas, a verdade é que permanecia insensível, a esperar-te como heroína ignota do meu sonho, nas assembléias ostento­sas de púrpuras e flores. Quando Deus aqui me con­duziu ao teu encontro, teus olhos me falaram, num lampejo, de sublimes revelações. És o coração do meu cérebro, a essência do meu raciocínio e serás a mão guiadora das minhas edificações, em toda a vida.

Enquanto a moça, sensibilizada e venturosa, tinha os olhos mareados de pranto, o fogoso mancebo con­tinuava:

— Viveremos um para o outro e teremos filhos fiéis a Deus. Serei a ordenação da nossa vida, serás a obe­diência em nossa paz. Nossa casa será um templo. O amor a Deus será sua maior coluna e, quando o trabalho exigir minha ausência do altar doméstico, ficarás velando no tabernáculo da nossa ventura.

— Sim, querido. Que não faria por ti? mandarás e obedecerei. Serás a ordem de minha vida e eu rogarei ao Senhor que me auxilie a ser teu bálsamo de ternura. Quando estiveres fatigado, lembrar-me-ei de minha mãe e adormecerei tua alma generosa com as mais formosas orações de David!... Interpretarás para mim a palavra de Deus. Serás a lei, serei tua serva.

Saulo enternecia-se ouvindo aquelas expressões blan­diciosas. Eram as mais belas que já havia recolhido de um coração feminino. Mulher alguma, que não Abigail, jamais assim lhe falara ao espírito impetuoso. Habituado aos longos e difíceis raciocínios, escaldando o cérebro nos silogismos dos doutores, em busca de futuro brilhante, sentia a alma ressecada, sedenta de verdadeiro idealismo. Desde criança, com a sadia educação doméstica, guardava puros os primeiros impulsos do coração, sem jamais con­taminá-los na esteira dos prazeres fáceis ou do fogo das paixões violentas, que soem deixar na alma o carvão das dores sem esperanças. Acostumado ao esporte, aos jogos da época, seguido sempre de muitos companheiros em desvario, tivera o heroísmo sagrado de sobrepor as disposições da Lei às próprias tendências naturais. Sua concepção de serviço a Deus não admitia concessões a si mesmo. A seu ver, todo homem devia conservar-se indene de contactos inferiores com o mundo, até que atingisse o tálamo nupcial. O lar constituído haveria de ser um tabernáculo das bênçãos eternas; os filhos, as primícias do altar do Maior Amor, consagrado ao Senhor Supremo. Não que a sua juventude estivesse isenta de desejos. Saulo de Tarso experimentava todos os anseios da moci­dade impetuosa do seu tempo. Imaginava situações de anelos satisfeitos, e, no entanto, sujeito aos carinhos ma­ternos, prometera a si mesmo jamais tergiversar. A vida do lar é a vida de Deus. E Saulo guardava-se para emo­ções mais sublimadas. De esperança em esperança, via passar os anos, esperando que a inspiração divina deter­minasse a rota dos seus ideais. Esperava e confiava. Seus pais presumiam encontrar, ali ou acolá, aquela a quem devesse ele eleger; entretanto, Saulo, enérgico e resoluto, removia a intervenção dos entes caros, no con­cernente à escolha que afetava a decisão do seu destino. Abigail enchera-lhe o coração. Era a flor mística do seu ideal, a alma que lhe entenderia as aspirações em per­feita ressonância de pensamentos. De olhos fixos nas suas feições delicadas, que o luar pálido iluminava, teve ânsias de guardá-la para sempre nos braços fortes. Ao mesmo tempo, doce enternecimento lhe vibrava na alma. Desejava atraí-la a si, como se o fizesse a uma criança meiga e afagar-lhe os cabelos sedosos com todo o cabedal do seu carinho.

Inebriados de gozo espiritual, falaram longo tempo do amor que os identificava na mesma aspiração de ventura. Todos os comentários mais íntimos faziam de Deus o sagrado partícipe de suas esperanças no futuro que se lhes auspiciava, santificado em júbilos infinitos.

De mãos dadas extasiaram-Se com o plenilúnio ma­ravilhoso, Os eloendros pareciam sorrir-lhes. As rosas orientais, aureoladas pelos raios da lua, eram-lhes qual mensagem de beleza e perfume.

Ao despedir-se, Saulo acrescentou, venturoso:

— Dentro de dois dias voltarei a ver-te. Ficamos combinados. Quando Dalila partir, levará notícias nossas a meus pais e, precisamente de hoje a seis meses, quero ter-te comigo para sempre.

— Seis meses? — revidou ela meio ruborizada e surpreendida.

— Nada haverá, penso, que possa embargar esta resolução, de vez que já temos o indispensável.

— E se ainda não tivermos, até lá, notícias de Jeziel? Por mim, desejaria casar-me convicta do seu contentamento e aprovação.

Saulo esboçando leve sorriso, em que havia muito de contrariedade mal dissimulada, esclareceu:

— Quanto a isso, fica tranqüila. Cuidaremos pri­meiramente da atitude dos meus, que se encontram em plano mais imediato; e tão logo resolvamos o problema, se preciso for, irei pessoalmente a Acaia. É impossível que Zacarias não receba novas notícias de Corinto, nas próximas semanas. Então, providenciaremos com mais segurança.

Abigail teve um gesto de satisfação e reconheci­mento.

Irmanados, agora, na mesma vibração de júbilo, antes que reentrassem em casa, onde os donos os aguardavam entretidos com a leitura das Profecias, Saulo levou a mão da jovem aos lábios e murmurou a despedida habitual:

— Fiel para sempre!...

Daí a minutos, depois de ligeira palestra com os amigos, ouvia-se o trotear dos animais estrada em fora, de regresso a Jerusalém. O carro minúsculo rodava, celeremente, ao luar, sob uma nuvem de pó.



5

A pregação de Estevão
Saulo e Sadoc entraram na igreja humilde de Je­rusalém, notando a massa compacta de pobres e mise­ráveis que ali se aglomeravam com um raio de esperança nos olhos tristes.

O pavilhão singelo, construído à custa de tantos sacrifícios, não passava de grande telheiro revestido de paredes frágeis, carente de todo e qualquer conforto.

Tiago, Pedro e João surpreenderam-Se singularmente com a presença do jovem doutor da Lei, que se populari­zara na cidade pela sua oratória veemente e pelo acurado conhecimento das Escrituras.

Os generosos galileus ofereceram-lhe o banco mais confortável. Ele aceitou as gentilezas que lhe dispensa­vam, sorrindo com indisfarçável ironia de tudo que ali se lhe deparava.

Íntimamente, considerava que o próprio Sadoc fora vítima de falsas apreciações. Que podiam fazer aqueleS homens ignorantes, irmanados a outros já envelhecidos, valetudinários e doentes? Que podiam significar de perigoso para a Lei de Israel aquelas crian­ças ao abandono, aquelas mulheres semimortas, em cujo coração pareciam aniquiladas todas as esperanças? Experimentava grande mal-estar defrontando tantos ros­tos que a lepra havia devastado, que as úlceras ma­lignas haviam desfigurado impiedosamente. Aqui, um velhote com chagas purulentas envolvidas em panos fétidos; além, um aleijado mal coberto de mulambos, ao lado de órfãos andrajosos que se acomodavam com humildade.

O conhecido doutor da Lei notou a presença de várias pessoas que lhe acompanhavam a palavra na interpre­tação dos textos de Moisés, na Sinagoga dos cilícios; outras que seguiam de perto as suas atividades no Sinédrio, onde a sua inteligência era tida como penhor de esperança racial. Pelo olhar, compreendeu que esses amigos ali estavam igualmente pela primeira vez. Sua visita, ao templo ignorado dos galileus sem-nome, atraira muitos afeiçoados do farisaísmo dominante, ansiosos pelos serviços eventuais que pudessem destacá-los e re­comendá-los às autoridades mais importantes. Saulo concluiu que aquela fração do auditório fazia ato de presença e de solidariedade em qualquer providência que houvesse de tomar. Pareceu-lhe natural e lógica aquela atitude, conveniente aos fins a que se propunha. Não se contavam fatos incríveis, operados pelos adeptos do “Caminho”? Não seriam grosseiras e escandalosas mis­tificações? Quem diria que tudo aquilo não fosse o produto ignóbil de bruxarias e sortilégios condenáveis? Na hipótese de lhe identificar qualquer finalidade desonesta, podia contar, mesmo ali, com grande número de correligionários, dispostos a defender o rigoroso cumprimento da Lei, custasse-lhes embora os mais pesados sacrifícios.

Notando um que outro quadro menos grato ao seu olhar acostumado aos ambiéntes de luxo, evitava fixar os aleijados e doentes que se acotovelavam no recinto, chamando a atenção de Sadoc, com observações irônicas e pitorescas. Quando o vasto recinto, desnudo de orna­tos e símbolos de qualquer natureza, de todo se encheu, um Jovem permeou as filas extensas, ladeado de Pedro e João, galgando os três um estrado quase natural, for­mado de pedras superpostas.

— Estevão!... É Estevão!...

Vozes abafadas inculcavam o pregador, enquanto seus admiradores mais fervorosos apontavam para ele com jubiloso sorriso.

Inesperado silêncio mantinha todas as frontes em singulares expectativas, O moço, magro e pálido, em cuja assistência os mais infelizes julgavam encontrar um desdobramento do amor do Cristo, orou em voz alta suplicando para si e para a assembléia a inspiração do Todo-Poderoso. Em seguida, abriu um livro em forma de rolo e leu uma passagem das anotações de Mateus:

— Mas, ide antes às ovelhas perdidas da casa de Israel; e, indo, pregai dizendo: é chegado o reino dos Céus. (1)

Estevão ergueu alto os olhos serenos e fulgurantes, e, sem se perturbar com a presença de Saulo e dos seus numerosos amigos, começou a falar mais ou menos nestes termos, com voz clara e vibrante:

— “Meus caros, eis que chegados são os tempos em que o Pastor vem reunir as ovelhas em torno do seu zelo sem limites. éramos escravos das imposições pelos raciocínios, mas hoje somos livres pelo Evangelho do Cristo Jesus. Nossa raça guardou, de épocas imemoriais, a luz do Tabernáculo e Deus nos enviou seu Filho sem mácula. Onde estão, em Israel, os que ainda não ouvi­ram as mensagens da Boa Nova? Onde os que ainda não se felicitaram com as alegrias da nova fé? Deus enviou sua resposta divina aos nossos anseios milená­rios, a revelação dos Céus aclara os nossos caminhos. Consoante as promessas da profecia de todos quantos choraram e sofreram por amor ao Eterno, o Emissário Divino veio até ao antro de nossas dores amargas e jus­tas, para iluminar a noite de nossas almas impenitentes, para que se nos desdobrassem os horizontes da redenção. O Messias atendeu aos problemas angustiosos da criatura humana, com a solução do amor que redime todos os seres e purifica todos os pecados. Mestre do trabalho e da perfeita alegria da vida, suas bênçãos representam nossa herança. Moisés foi a porta, o Cristo é a chave. Com a coroa do martírio adquiriu, para nós outros, a láurea imortal da salvação. éramos cativos do erro, mas seu sangue nos libertou. Na vida e na morte, nas
(1) Mateus, capítulo 10º, versículos 6 e 7. — (Nota de Emmanuel.)

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