Paulo e estevão francisco cândido xavier



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Ante o Sinédrio
No dia fixado, o grande recinto do mais alto soda­lido israelita enchia-se de verdadeira multidão de cren­tes e curiosos, ávidos de assistir ao primeiro embate entre os sacerdotes e os homens piedosos e estranhos, do “Caminho”. A assembléia congraçava o que Jerusa­lém tinha de mais aristocrático e de mais culto. Os mendigos, porém, não tiveram acesso, embora se tra­tasse de um ato público.

O Sinédrio exibia suas personagens mais eminen­tes. De mistura com os sacerdotes e mestres de Israel, notava-se a presença das personalidades mais salientes do farisaismo. Lá estavam representantes de todas as sinagogas.

Compreendendo a acuidade intelectual de Estevão, Saulo queria fornecer-lhe um confronto do cenário em que dominava o seu talento, com a igreja humilde dos adeptos do carpinteiro de Nazaré. No fundo, seu pro­pósito radicava na jactanciosa demonstração de supe­rioridade, afagando, ao mesmo tempo, a íntima esperança de conquistá-lo para as hostes do judaismo. Preparara, por isso, a reunião com todos os requisitos, de feição a impressionar-lhe os sentidos.

Estevão comparecia como um homem chamado a defender-se das acusações a ele imputadas, não como prisioneiro comum obrigado a acertar contas com a justiça. Examinando, pois, a situação, rogou com in­sistência aos Apóstolos galileus não o acompanhassem, considerando, não só a necessidade de permanecerem junto dos sofredores, como também a possível ocorrên­cia de sérios atritos, no caso de comparecimento dos adeptos do “Caminho”, dada a firmeza de ânimo com que procuraria salvaguardar a pureza e a liberdade do Evangelho do Cristo. Além disso, os recursos de que poderiam dispor eram demasiadamente simples e não seria justo afrontar com eles o poderio supremo dos sacerdotes, que tinham encontrado recursos para crucificar o próprio Messias. Em favor do “Caminho” pontificavam, apenas, aqueles enfermos desventurados; as convicções puras dos mais humildes; a gratidão dos mais infelizes — única força poderosa pelo seu conteúdo de virtude divina, a lhes amparar a causa perante as autoridades dominantes do mundo. Assim ponderando, disputava o júbilo de assumir, sozinho, a responsabilidade da sua atitude, sem comprometer qualquer companheiro, tal como fizera Jesus um dia, no seu apostolado sublime. Se necessário, não desdenharia a possibilidade do derradeiro sacrifício, no sagrado testemunho de amor ao seu coração augusto e misericordioso. O sofrimento, por Ele, ser-lhe-ia suave e doce. Sua argumentação vencera o bom desejo dos companheiros mais veementes.

Assim, sem amparo de qualquer amigo, compareceu ao Sinédrio, tomado de forte impressão ao lhe observar a grandeza e a sun­tuosidade. Habituado aos quadros tristes e pobres dos subúrbios, onde se refugiavam os infelizes de toda espécie, deslumbrava-se com a riqueza do Templo, com o aspecto soberbo da torre dos romanos, com os edi­fícios residenciais de estilo grego, com a feição exterior das sinagogas que se espalhavam em grande número por toda parte.

Compreendendo a importância daquela sessão a que acorriam os elementos de escol, por identificarem o invulgar interesse de Saulo, que, no momento, era a expressão de mocidade mais vibrante do judaísmo, o Sinédrio requisitara o concurso da autoridade romana para a absoluta manutenção da ordem. A Corte Pro­vincial não regateara providências. Os próprios patrí­cios residentes em Jerusalém compareceram, numerosos, ao grande feito do dia, considerando que se tratava do primeiro processo em torno das idéias ensinadas pelo profeta nazareno, depois da sua crucificação, que deixara tanta perplexidade e tantas dúvidas no espírito público.

Quando o grande recinto regurgitava de pessoas de alto destaque social, Estevão sentou-se no lugar previamente designado, conduzido por um ministro do Templo, ali permanecendo sob a guarda de soldados que o fixavam ironicamente.

A sessão começou com todas as cerimônias regi­mentais. Ao iniciar os trabalhos, o sumo-sacerdote anun­ciou a escolha de Saulo, consoante seu próprio desejo, para interpelar o denunciado e averiguar a extensão de sua culpa no aviltamento dos princípios sagrados da raça. Recebendo o convite para funcionar como juiz do feito, o jovem tarsense esboçou um sorriso triunfante. Com imperioso gesto, mandou que o humilde pregador do “Caminho” se aproximasse do centro da sala suntuosa, para onde se dirigiu Estevão serenamente, acompanhado por dois guardas de cenho carregado.

O moço de Corinto fixou o quadro que o rodeava, considerando o contraste de uma e outra assembléia e recordando a última reunião da sua igreja pobre, onde fora compelido a conhecer tão caprichoso antagonista. Não seriam aquelas as “ovelhas perdidas” da casa de Israel, a que aludia Jesus nos seus vigorosos ensina­mentos? Ainda que o judaísmo não houvesse aceitado a missão do Evangelho, como conciliava ele as observa­ções sagradas dos profetas e sua elevada exemplifica­ção de virtude, com a avareza e o desregramento? O próprio Moisés fora escravo e, por dedicação ao seu povo, sofrera inúmeras dificuldades em todos os dias da existência consagrada ao Todo-Poderoso. Job pade­cera misérias sem-nome e dera testemunho de fé nos sofrimentos mais acerbos. Jeremias chorara incompre­endido. Amós experimentara o fel da ingratidão. Como poderiam os israelitas harmonizar o egoísmo com a sabedoria amorosa dos Salmos de David? Estranhável que, tão zelosos da Lei, se entregassem de modo abso­luto aos interesses mesquinhos, quando Jerusalém es­tava cheia de famílias, irmãs pela raça, em completo abandono. Como cooperante de uma comunidade modes­ta, conhecia de perto as necessidades e sofrimentos do povo. Com essas unções, sentia que o Mestre de Nazaré se elevava muito mais, agora, aos seus olhos, distri­buindo entre os aflitos as esperanças mais puras e as mais consoladoras verdades espirituais.

Ainda não voltara a si da surpresa com que exami­nava as túnicas brilhantes e os ornamentos de ouro que exuberavam no recinto, quando a voz de Saulo, clara e vibrante, o chamou à realidade da situação.

Depois de ler a peça acusatória em que Neemias figurava como principal testemunha e no que foi ouvido com a máxima atenção, Saulo interrogou Estevão entre ríspido e altivo:

— Como vedes, sois acusado de blasfemo, calunia­dor e feiticeiro, perante as autoridades mais representa­tivas. No entanto, antes de qualquer decisão, o Tribunal deseja conhecer vossa origem para determinar os direi­tos que vos assistem neste momento. Sois, porventura, de família israelita?

O interrogado fez-se pálido, ponderando as dificul­dades de uma plena identificação, caso fosse indispen­sável, mas respondeu firmemente:

— Pertenço aos filhos da tribo de Issacar.

O doutor da Lei surpreendeu-se, ligeiramente, de ma­neira imperceptível para a assembléia, e continuou:

— Como israelita, tendes o direito de replicar livre­mente às minhas interpelações; todavia, faz-se mister esclarecer que essa condição não vos eximirá de pesados castigos, caso perseverardes na exposição dos erros crassos de uma doutrina revolucionária, cujo fundador foi con­denado à cruz infamante pela autoridade deste Tribu­nal, onde pontificam os filhos mais veneráveis das tribos de Deus. Aliás, apreciando, por suposição, a vossa ori­gem, convidei-vos a discutir lealmente comigo, quando de nosso primeiro encontro na assembléia dos homens do “Caminho”. Fechei os olhos aos quadros de miséria que então me cercavam, para analisar tão-só os vossos dotes de inteligência; mas, evidenciando estranha exal­tação de espírito, talvez em virtude de sortilégios, cujas influências são ali visíveis, vos mantivestes em singular reserva de opinião, apesar dos meus apelos reiterados. Vossa atitude inexplicável deu azo a que o Sinédrio considerasse a presente denúncia de vosso nome como inimigo de nossas ordenações. Sereis agora obrigado a responder a todas as interpelações convenientes e neces­sárias, e eu espero reconheçais que o título de israelita não vos poderá livrar da punição reservada aos traidores de nossa causa.

Depois de não pequeno intervalo em que o juiz e o denunciado puderam verificar a ansiosa expectativa da assembléia, Saulo entrou a interrogar:

— Por que rejeitastes meu convite à discussão quan­do honrei a pregação no “Caminho” com a minha pre­sença?

Estevão, que tinha os olhos fulgurantes, como ins­pirado por uma força divina, replicou em voz firme, sem revelar a emoção que íntimamente o dominava:

— O Cristo, a quem sirvo, recomendou aos seus dis­cípulos evitassem, a qualquer tempo, o fermento das discórdias. Quanto ao ato de haverdes honrado minha palavra humilde com a vossa presença, agradeço a prova de imerecido interesse, mas prefiro considerar com David (1) que nossa alma se gloriará no Senhor, visto nada possuirmos de bom em nós mesmos, se Deus nos não amparar com a grandeza da sua glória.

Em face da lição sutil que lhe era lançada em rosto, Saulo de Tarso mordeu os lábios, entre colérico e despeitado, e, procurando evitar, agora, qualquer alu­são pessoal, para não cair em situação semelhante, prosseguiu:

— Sois acusado de blasfemo, caluniador e feiti­ceiro.

— Permito-me perguntar em que sentido — retru­cou o interpelado, com desassombro.
(1) Salmos de David, capítulo 34º, versículo 2. — (Nota de Emmanuel.)

— Blasfemo quando inculcais o carpinteiro de Na­zaré como Salvador; caluniador quando achincalhais a Lei de Moisés, renegando os princípios sagrados que nos regem os destinos. Confirmais tudo isso? Aprovais essas acusações?

Estevão esclareceu sem titubear:

— Mantenho minha crença de que o Cristo é o Salvador prometido pelo Eterno, através dos ensinos dos profetas de Israel, que choraram e sofreram no decurso de longos séculos, por transmitir-nos os júbilos doces da Promessa. Quanto à segunda parte, suponho que a acusação procede de interpretação errônea em torno de minhas palavras. Jamais deixei de venerar a Lei e as Sagradas Escrituras, mas considero o Evangelho de Jesus o seu divino complemento. As primeiras são o trabalho dos homens, o segundo é o salário de Deus aos trabalhadores fiéis.

— Sois então de parecer — disse Saulo sem dissi­mular irritação diante de tanta firmeza — que o car­pinteiro é maior que o grande legislador?

— Moisés é a justiça pela revelação, mas o Cristo éo amor vivo e permanente.

A essa resposta do acusado, houve um prurido de exaltação na grande assembléia.

Alguns fariseus encole­rizados gritavam injúrias. Saulo, porém, lhes fez um sinal imperioso e o silêncio voltou a possibilitar o inter­rogatório. E, dando à voz um timbre de severidade, prosseguiu:

— Sois israelita e jovem ainda. Uma inteligência apreciável serve ao vosso esforço.

Temos então o dever, antes de qualquer punição, de trabalhar pelo vosso re­gresso ao aprisco. É imprescindível chamar o irmão desertor, com carinho, antes do extremo recurso às armas. A Lei de Moisés poderá conferir-vos uma situa­ção de grande relevo, mas, que proveito tiraríeis da palavra insignificante, inexpressiva, do operário igno­rante de Nazaré, que sonhou com a glória para pagar as esperanças loucas numa cruz de ignomínia?

— Desprezo o valor puramente convencional que a Lei me poderia oferecer em troca do apoio à política do mundo, que se transforma todos os dias, considerando que a nossa segurança reside na consciência iluminada com Deus e para Deus.

— Mas, que esperais do mistificador que lançou a confusão entre nós, para morrer no Calvário? — tornou Saulo exaltadamente.

— O discípulo do Cristo deve saber a quem serve e eu me honro em ser instrumento humilde nas suas mãos.

— Não precisamos de um inovador para a vida de Israel.

— Compreendereis, um dia, que, para Deus, Israel significa a Humanidade inteira.

Diante dessa resposta ousada, a quase totalidade da assembléia prorrompeu em apupos, mostrando sua hostilidade franca ao denunciado de Neemias. Afeitos a um regionalismo intransigente, os israelitas não tole­ravam a idéia de confraternização com os povos que consideravam bárbaros e gentios. Enquanto os mais exaltados davam expansão a protestos veementes, os romanos observavam a cena, curiosos e interessados, como se presenciassem uma cerimônia festiva.

Depois de longa pausa, o futuro rabino continuou:

— Confirmais a acusação de blasfêmia, enunciando semelhante princípio contra a situação do povo escolhido, a vossa primeira condenação.

— E isso não me atemoriza — disse o acusado, re­soluto —; às ilusões orgulhosas que nos conduziriam a tenebrosos abismos, prefiro acreditar, com o Cristo, que todos os homens são filhos de Deus, merecendo o carinho do mesmo Pai.

Saulo mordeu os lábios raivosamente, e, acentuando sua atitude rigorosa de julgador, prosseguiu com aspe­reza.

— Caluniais Moisés, proferindo tais palavras. Aguar­do vossa confirmação.

O interpelado, dessa vez, endereçou-lhe significativo olhar e murmurou:

— Por que aguardais minha confirmação se obede­ceis a um critério arbitrário? O Evangelho desconhece as complicações da casuística. Não desdenho Moisés, mas não posso deixar de proclamar a superioridade de Jesus-Cristo. Podeis lavrar sentenças e proferir anátemas contra mim; entretanto, é necessário que alguém coopere com o Salvador no restabelecimento da verdade acima de tudo, e sem embargo das mais dolorosas conseqüências. Aqui estou para fazê-lo e saberei pagar, pelo Mestre, o preço da mais pura fidelidade.

Depois de cessar o abafado vozerio da assistência, Saulo voltou a dizer:

— O Tribunal reconhece-vos como caluniador, passí­vel das punições atinentes a esse título odioso.

E tão logo foram grafadas as novas declarações pelo escriba que anotava os termos da inquirição, acentuou sem disfarçar a ira que o dominava:

— É indispensável não esquecer que sois acusado de feiticeiro. Que respondeis a semelhante argüição?

— De que me acusam, nesse particular? — inter­rogou o pregador do “Caminho”, com galhardia.

— Eu próprio vos vi curar uma jovem muda, num dia de sábado, e ignoro a natureza dos sortilégios que utilizastes nesse feito.

— Não fui eu quem praticou esse ato de amor, como, certamente, me ouvistes afirmar; foi o Cristo, por intermédio de minha pobreza, que nada tem de boa.

— Pensais inocentar-vos com esta ingênua declara­ção? — objetou Saulo com ironia. — A suposta humil­dade não vos exculpa. Fui testemunha do fato e só a feitiçaria poderá elucidar seus ascendentes estranhos.

Longe de se perturbar, o acusado respondeu inspi­radamente:

— E, contudo, o judaísmo está cheio desses fatos que julgais não compreender. Em virtude de que sor­tilégio conseguiu Moisés fazer jorrar de uma rocha a fonte de água viva? Com que feitiçaria o povo eleito viu abrirem-se-lhe as ondas revoltas do mar para a necessária fuga do cativeiro? Com que talismã pre­sumiu Josué atrasar a marcha do Sol? Não vedes em tudo isso, os recursos da Providência Divina? De nós nada temos, e, todavia, no cumprimento do nosso dever, tudo devemos esperar da divina misericórdia.

Analisando a resposta concisa, reveladora de ra­ciocínios lógicos, irretorquíveis, o doutor de Tarso quase rilhou os dentes. Um rápido relancear de olhos na assem­bléia deu-lhe a conhecer que o antagonista contava com a simpatia e admiração de muitos. Chegava a descon­ceifar-se íntimamente. Como recuperar a calma, dado o temperamento impulsivo que o levava aos extremos emotivos? Examinando a última assertiva de Estevão, sentia dificuldade em coordenar uma argumentação de­cisiva. Sem poder revelar o desapontamento próprio, incapaz de encontrar a resposta devida, considerou a urgência de uma saída a propósito e dirigiu-se ao sumo-sacerdote, nestes termos:

— O acusado confirma, por sua palavra, a denúncia de que foi objeto. Acaba de confessar, de público, que é blasfemo, caluniador e feiticeiro. Entretanto, por sua condição de nascimento, ele tem direito à defesa última, independentemente das minhas interpretações de julga­dor. Proponho, então, que a autoridade competente lhe conceda esse recurso.

Grande número de sacerdotes e personalidades emi­nentes entreolharam-se, quase com espanto, como a pre­libar a primeira derrota do orgulhoso doutor da Lei, cuja palavra vibrante sempre conseguira triunfar sobre quaisquer adversários, fixando-lhe o rosto rubro de cóle­ra, denunciando a tempestade que lhe rugia no coração.

Aceita a proposta formulada pelo juiz da causa, Estevão passou a usar de um direito que lhe era con­ferido pelo seu nascimento.

Levantando-se, nobremente contemplou os rostos an­siosos que o buscavam de todos os lados. Adivinhou que a maioria dos presentes presumia na sua figura um perigoso inimigo das tradições raciais, tal a sua expres­são de hostilidade; mas notou, igualmente, que alguns israelitas o encaravam com simpatia e compreensão. Va­lendo-se desse auxílio, sentiu consolidar-se-lhe o bom ânimo, de maneira a expor com maior serenidade os sagrados ensinos do Evangelho. Lembrou, instintivamente, a promessa de Jesus aos seus continuadores, de que estaria presente no instante em que devessem dar testemunho pela palavra, competindo-lhe não tremer ante as provocações inconscientes do mundo. Mais que nunca, sentiu a convicção de que o Mestre auxiliá-lo-ia na expo­sição da doutrina de amor.

Passado um minuto de ansiosa expectativa, começou a falar de modo impressionante:

— Israelitas! por maior que fosse nossa divergên­cia de opinião religiosa, não poderíamos alterar nossos laços de fraternidade em Deus — o supremo dispensa­dor de todas as graças. É a esse Pai, generoso e justo, que elevo minha rogativa em favor de nossa compreen­são fiel das verdades santas. Outrora, nossos antepassa­dos ouviram as exortações grandiosas e profundas dos emissários do Céu. Por organizar um futuro de paz sólida aos seus descendentes, nossos avós sofreram misérias e penúriaS do cativeiro. Seu pão era molhado nas lágrimas de amargura, sua sede angustiava. Viram malogradas todas as esperanças de independência, perseguições sem conto destruíram-lhes o lar, com agravo de sofrimentos nas lutas de seu roteiro. A frente de seus martírios dignificantes, andaram os santos varões de Israel, Como gloriosa coroa do seu triunfo. Alimentou-os a palavra do Eterno, através de todas as vicissitudes. Suas expe­riências constituem poderoso e sagrado patrimônio. Delas, temos a Lei e os Escritos dos profetas. Apesar disso, não podemos iludir nossa sede. Nossa concepção de justiça é fruto de um labor milenário, em que empregamos as maiores energias, mas sentimos, por intuição, que existe algo de mais elevado, além dela. Temos o cárcere para os que se transviam, o vale dos imundos para os que adoecem sem a proteção da família, a lapidação na praça pública para a mulher que fraqueja, a escravidão para os endividados, os trinta e nove açoites para os mais infelizes. Bastará isso? As lições do passado não estão cheias da palavra “misericórdia”? Algo nos fala à consciência, de uma vida maior, que inspira sentimen­tos mais elevados e mais belos. Ingente foi o trabalho no curso longo e multissecular, mas o Deus justo res­pondeu aos angustiados apelos do coração, enviando-nos seu Filho bem-amado — O Cristo Jesus!...


A assembléia ouvia grandemente surpreendida. No entanto, quando o orador frisou mais forte a referência ao Messias de Nazaré, os fariseus presentes, fazendo causa comum com o jovem de Tarso, prorromperam em protestos, gritando alucinadamente:

— Anátema! Anátema!... Punição ao trânsfuga!

Estevão recebeu com serenidade a tormenta objur­gatória e, tão logo foi a ordem restabelecida, prosseguiu com firmeza:

— Por que me apupais desta forma? Toda precipi­tação de julgamento demonstra fraqueza. Primeiramente, renunciei à discussão considerando que se deve eliminar todo fermento de discórdia; mas, dia a dia o Cristo nos convoca para um trabalho novo e, certamente, o Mestre me chama hoje, a fim de palestrar convosco rela­tivamente às suas verdades poderosas. Desejais impor-me o ridículo e a zombaria? Isso, porém, deve confortar-me, porque Jesus experimentou esse tratamento em grau su­perlativo. Não obstante vossa repulsa, honra-me em pro­clamar as glórias inexcedíveis do profeta nazareno, cuja grandeza veio ao encontro de nossas ruínas morais, le­vantando-nos para Deus com o seu Evangelho de re­denção.

Nova saraivada de apóstrofes cortou-lhe a palavra. Ditos mordentes e ásperos baldões eram-lhe atirados a esmo, de todos os lados. Estevão não esmoreceu. Vol­tando-se, sereno, fixou nobremente os circunstantes, guar­dando a intuição de que os mais exaltados seriam os fariseus, os mais fundamente atingidos pelas verdades novas.

Esperando que recobrassem a calma, falou nova­mente:

— Fariseus amigos, por que teimais em não com­preender? Porventura temeis a realidade das minhas afirmações? Se vossos protestos se fundam nesse receio, calai-vos para que eu continue. Lembrai-vos de que me refiro aos nossos erros do passado e quem se associa na culpa dá testemunho de amor, no capítulo das repa­rações. Apesar de nossas misérias, Deus nos ama e, reconhecendo eu a própria indigência, não poderia falar-vos senão como irmão. Entretanto, se expressais desespero e revolta, recordai que não poderemos fugir à realidade da nossa profunda insignificância. Lestes, acaso, as lições de Isaías? Importa considerar a exor­tação (1) de que não poderemos sair, apressadamente, nem enganando a nós mesmos, nem fugindo aos nossos deveres, porque o Senhor irá adiante e o Deus de Israel será a nossa retaguarda. Ouvi-me! Deus é o Pai, o Cristo é o Senhor nosso.

Muito falais da Lei de Moisés e dos Profetas; todavia, podereis afirmar com a mão na consciência a plena observância dos seus gloriosos ensinamentos? Não estaríeis cegos atualmente, negando-vos à compreensão da mensagem divina? Aquele, a quem chamais ironica­mente o carpinteiro de Nazaré, foi amigo de todos os infelizes. Sua pregação não se limitou a expor princípios filosóficos. Antes, pela exemplificaçãO, renovou nossos hábitos, reformou as idéias mais elevadas, com o selo do amor divino. Suas mãos nobilitaram o trabalho, pensa­ram úlceras, curaram leprosos, deram vista aos cegos. Seu coração repartiu-Se entre todos os homens, dentro do novo entendimento do amor que nos trouxe com o exemplo mais puro.

Acaso ignorais que a palavra de Deus tem ouvintes e praticantes? Convém consultardes se não tendes sido meros ouvintes da Lei, de maneira a não falsear o tes­temunho.

Jerusalém não me parece o santuário de tradições da fé, que conheci por informações de meus pais, desde criança. Atualmente, dá impressão de um grande bazar onde se vendem as coisas sagradas. O Templo está cheio de mercadores. As sinagogas regurgitam de assuntos atinentes a interesses mundanos. As células farisaicas assemelham-se a um vespeiro de interesses mesquinhos. O luxo das vossas túnicas assombra. Vossos desperdícios espantam. Não sabeis que à sombra de vossos muros há


(1) Isaias, capítulo 52º. Versículo 12. — (Nota de Emmanuel.)
infelizes que morrem de fome? Venho dos subúrbios, onde se concentra grande parte de nossas misérias.

Falais de Moisés e dos Profetas, repito. Acreditais que os antepassados veneráveis mercadejassem com os bens de Deus? O grande legislador viveu entre expe­riências terríveis e dolorosas. Jeremias conheceu longas noites de angústias, a trabalhar pela intangibilidade do nosso patrimônio religioso, entre as perdições de Babi­lônia. Amós era pobre pastor, filho do trabalho e da humildade. Elias sofreu toda sorte de perseguições, com­pelido a recolher-se ao deserto, tendo só lágrimas como preço do seu iluminismo. Esdras foi modelo de sacri­fício pela paz dos seus compatriotas. Ezequiel foi conde­nado à morte por haver proclamado a verdade. Daniel curtiu as infinitas amarguras do cativeiro. Mencionais os nossos heróicos instrutores do passado, tão-só para justificar o gozo egoístico da vida? Onde guardais a fé? No conforto ocioso, ou no trabalho produtivo? Na bolsa do mundo, ou no coração que é o templo divino? Incen­tivais a revolta e quereis a paz? Explorais o próximo e falais de amor a Deus? Não vos lembrais de que o Eterno não pode aceitar o louvor dos lábios quando o coração da criatura permanece dele distante?

A assembléia, ante o sopro daquela sublime inspi­ração, parecia imóvel, incapaz de se definir. Muitos israelitas supunham ver em Estevão o ressurgimento de um dos primevos profetas da raça. Mas os fariseus, como se quebrassem a misteriosa força que os emudecia, romperam em algazarra ensurdecedora, gesticulando a esmo, proferindo impropérios, no propósito de atenuar a forte impressão causada pelos surtos eloqüentes e calo­rosos do orador.

— Apedrejemos o imundo! Matemos a calúnia! Aná­tema ao caminho de Satanás!...

Nesse comenos, Saulo levantou-se rubro de cólera. Não conseguia disfarçar a fúria do temperamento im­pulsivo, a desbordar-lhe dos olhos inquietos e brilhantes.

Caminhou presto para o acusado, dando a entender que ia cassar-lhe a palavra, e a assembléia logo se acalmou, embora continuasse o rumor dos comentários aba­fados.

Percebendo que ia talvez ser coagido pela violência e, mais, que os fariseus pediam sua morte, Estevão fixou os mais irônicos e arrebatados, exclamando em voz alta e tranqüila:

— Vossa atitude não me intimida. O Cristo foi solí­cito no recomendar não temêssemos os que só podem matar-nos o corpo.

Não pôde prosseguir. O moço tarsense, mãos àcintura, olhar iracundo e gestos rudes como se defron­tasse um malfeitor comum, gritou-lhe furiosamente no ouvido:

— Basta! Basta! Nem mais uma palavra!... Agora que te foi concedido o último recurso inutilmente, tam­bém usarei o que me faculta a condição do nascimento, em face de um irmão desertor.

E caiu-lhe de punhos fechados no rosto, sem que Estevão tentasse a menor reação. Os fariseus aplaudi­ram o gesto brutal, em atroada delirante, qual se esti­vessem num dia de festa.

Dando expansão ao seu arreba­tamento, Saulo esmurrava sem compaixão. Sem recursos de ordem moral, ante a lógica do Evangelho, recorria àforça física, satisfazendo à índole voluntariosa.

O pregador do “Caminho”, submetido a tais extre­mos, implorava de Jesus a necessária assistência para não se trair no testemunho. Não obstante a reforma radical que a influência do Cristo havia imposto às suas concepções mais íntimas, ele não podia fugir à dor da dignidade ferida. Procurou, contudo, recompor imedia­tamente as energias interiores, na compreensão da re­núncia que o Mestre predicara como lição suprema. Lem­brou os sacrifícios do pai em Corinto, reviu na imagina­ção o seu suplício e morte. Recordou a prova angustiosa que sofrera e considerou que, se tão-só no conhecimento de Moisés e dos Profetas tanto conseguira em energia moral para enfrentar os ignorantes da bondade divina, que não poderia testemunhar agora com o Cristo no coração? Esses pensamentos acudiam-lhe ao cérebro atormentado, como bálsamo de suprema consolação. Entretanto, embora a fortaleza de ânimo que lhe marcava o caráter, viu-se que ele vertia copiosas lágrimas. Quando lhe observou o pranto misturado com o sangue a jorrar da ferida que as punhadas lhe abriram em pleno rosto, Saulo de Tarso conteve-se saciado na sua imensa cólera. Não podia compreender a passividade com que o agre­dido recebera os bofetões da sua força enrijada nos exer­cícios do esporte.

A serenidade de Estevão perturbou-o ainda mais. Sem dúvida, estava diante de uma energia ignorada.

Esboçando um sorriso de zombaria, advertiu alta­neiro:

— Não reages, covarde? Tua escola é também a da indignidade?

O pregador cristão, apesar dos olhos molhados, res­pondeu com firmeza:

— A paz difere da violência, tanto quanto a força do Cristo diverge da vossa -

Verificando tamanha superioridade de concepção e pensamento, o doutor da Lei não podia ocultar o des­peito e a fúria que lhe transpareciam nos olhos chamejantes. Parecia no auge da irritação, a extravasar nos maiores despropósitos. Dir-se-ia haver chegado ao cúmulo de tolerância e resistência.

Voltando-se para observar a aprovação dos seus partidários, que se contavam por maioria, dirigiu-se ao sumo-sacerdote e impetrou uma sentença cruel. Tremia-lhe a voz, pelo esforço físico despendido.

— Analisando a peça condenatória — acrescentou ufano — e, considerados os graves insultos aqui bolça­dos, como juiz da causa rogo seja o réu lapidado -

Frenéticos aplausos secundaram-lhe a palavra in­flexível. Os fariseus tão duramente atingidos pelo verbo ardente do discípulo do Evangelho supunham vingar, desse modo, o que consideravam escárnio criminoso às suas prerrogativas.

A autoridade superior recebeu o alvitre e procurou submetê-lo à votação no reduzido círculo dos colegas mais eminentes.

Foi então que Gamaliel, depois de palestrar em voz baixa com os colegas de elevada investidura, comen­tando talvez o caráter generoso e a incoercível impulsivi­dade do ex-discípulo, dando-lhes a entender que a sanção proposta seria a morte imediata do pregador do “Ca­minho”, levantou-se no inquieto cenáculo e ponderou nobremente:

— Tendo voto neste Tribunal e não desejando pre­cipitar a solução de um problema de consciência, pro­ponho que se estude mais ponderadamente a sentença pedida, retendo-se o acusado em calabouço até que se esclareça a sua responsabilidade perante a justiça.

Saulo percebeu o ponto de vista do antigo mestre, inferindo que ele punha em jogo o seu reconhecido pendor à tolerância. Aquela advertência contrariava-lhe sobre­maneira os propósitos resolutos, mas, sabendo que não lhe poderia ultrapassar a autoridade veneranda, acentuou:

— Aceito a proposição na qualidade de juiz do feito; entretanto, adiada a execução da pena, qual fora de desejar e tendo em vista o veneno destilado pelo verbo irreverente e ingrato do réu, espero seja este algemado e recolhido imediatamente ao cárcere. E proponho igual­mente investigações mais amplas sobre as atividades supostamente piedosas dos perigosos crentes do “Cami­nho”, a fim de que se extirpe na raiz a noção de indis­ciplina por eles criada contra a Lei de Moisés, movi­mento revolucionário de conseqüências imprevisíveis, que significa, em substância, desordem e confusão em nossas próprias fileiras e ominoso esquecimento das ordenações divinas, conjurando assim a propagação do mal, cujo crescimento intensificará os castigos.

A nova proposta foi plenamente aprovada. Com a sua profunda experiência dos homens, Gamaliel com­preendeu que era indispensável conceder alguma coisa.

Ali mesmo, Saulo de Tarso foi autorizado pelo Sinédrio a iniciar as mais latas diligências em torno das atividades do “Caminho”, com ordem de admoestar, cor­rigir e prender todos os descendentes de Israel dominados pelos sentimentos colhidos no Evangelho, considerado, desde aquela hora, pelo regionalismo semita, como repo­sitório de veneno ideológico, com que o ousado carpinteiro nazareno pretendia revolucionar a vida israelita, operan­do a dissolução dos seus elos mais legítimos.

O moço tarsense, em frente de Estevão prisioneiro, recebeu a notificação oficial com um sorriso triunfante.

Encerrou-se, assim, a memorável sessão. Numerosos companheiros acercaram-se do moço judeu, felicitando-o pela palavra vibrante, ciosa da hegemonia de Moisés. O ex-discípulo de Gamaliel recebia a saudação dos amigos e murmurava confortado:

— Conto com todos, lutaremos até ao fim.

Os trabalhos daquela tarde tinham sido exaustivos, mas o interesse despertado fora enorme. Estevão sen­tia-se cansadíssimo. Ante os grupos que se retiravam esflorando os mais diversos comentários, foi ele ma­niatado antes de conduzido à prisão. Polarizando os sentimentos do Mestre, não obstante a fadiga, tinha con­fortada a consciência. Com sincera alegria interior, veri­ficava que mais uma vez Deus lhe concedia à oportuni­dade de testemunhar a sua fé.

Em poucos instantes, a sombra do crepúsculo parecia caminhar rápida para a noite sombria.

Após suportar as mais dolorosas humilhações de alguns fariseus que se retiravam sob profunda impressão de despeito, custodiado por guardas rudes e insensíveis, ei-lo recolhido ao cárcere, com pesadas algemas.

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