Paulo e estevão francisco cândido xavier



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A morte de Estevão
Apesar das atividades intensas, o moço de Tarso não deixara de comparecer pontualmente em casa de Zacarias, onde, no coração de Abigail, encontrava o neces­sário repouso. Se as lutas em Jerusalém consumiam-lhe as forças, perto da mulher amada parecia recobrá-las, no doce encantamento com que esperava a realização das mais caras esperanças.

Tinha a impressão de que o mundo era um campo de batalha, no qual lhe cabia combater pela lei de Deus; todavia, como o Eterno era justo e generoso, concedera-lhe, na dedicação da sua eleita, um pouso de consolação.

Abigail era o seu mundo sentimental. As lutas de cada dia, as providências rigorosas que lhe impunha o cargo, a rigidez com que deveria tratar as questões confiadas ao seu foro, eram transvazadas no coração da noiva, cheio de amor, de piedade e justiça. Ela acolhia-lhe as idéias com atenção afetuosa, parecia tem­perá-las na ternura da alma fraterna, restituindo-as ao noivo amado em forma de sugestões carinhosas e justas.

Saulo habituara-se a esse precioso intercâmbio de cada dia. Quando lhe faltavam ao coração os brandos consolos da estrada de Jope, sentia-se perturbado pelos próprios sentimentos enérgicos e impulsivos. Abigail corrigia-lhe o espírito. Aparava as arestas do seu ca­ráter violento e rude, cooperava para que se atenuasse o rigor das decisões autoritárias.

Horas a fio o jovem tarsense embevecia-se a ouvi-la, como se os seus senti­mentos de bondade fossem alimento suave para sua alma, que os raciocínios rígidos do mundo costumavam rescaldar. Ele, que não experimentara as aventuras ga­lantes do tempo, cioso de conservar pura a consciência em face da Lei, descobrira na criatura eleita a personi­ficação de todos os sonhos de sua mocidade esperançosa.

Na noite seguinte à memorável sessão do Sinédrio, Saulo de Tarso, abandonando todas as preocupações de ordem imediata, buscou mais ansioso a residência de Za­carias. As fadigas do dia abalavam-lhe as forças. Queria vencer rapidamente a distância, absorver-se no afeto da noiva, olvidar as preocupações que lhe ardiam na mente trabalhada pelos mais desencontrados raciocínios.

A noite já desdobrava o manto de luar sobre a Natureza, quando o jovem doutor transpôs o umbral, sur­preendendo a generosa família com uma saudação deli­cada e afetuosa.

A presença da noiva propiciava-lhe um bálsamo de suave refrigério ao coração. Em breves momentos, pa­recia reconfortar-se. Tomado de bom-humor, agora que as energias interiores descansavam em brandas carícias, narrou entusiasticamente os últimos sucessos. Zacarias, como observador fiel da Lei, dava-lhe razões de sobejo no caso das deliberações assumidas. A personalidade de Estevão foi discutida minuciosamente, O ex-discípulo de Gamaliel, naturalmente, esclareceu o assunto a seu modo, retratando o pregador do “Caminho” como homem inte­ligente e, por isso mesmo, perigoso, em virtude das idéias revolucionárias que o seu verbo fluente propagava.

Abigail e Ruth escutavam silenciosas, enquanto os dois mantinham a palestra animada.

A certa altura, atenta a uma observação direta de Saulo, a jovem murmurou:

— Mas não haveria um meio de modificar, ao menos, a pena arbitrada?

— Que desejarias que fizéssemos? — disse o moço com ênfase. — Não é pouco havermos libertado os três cabeças mais em evidência, levando-se em conta o atre­vimento de suas estranhas prédicas. Quanto a Estevão, tudo se fez para que voltasse ao aprisco, como descenden­te direto das tribos de Israel. Entretanto, a rebeldia foi a sua condenação. Insultou-me publicamente no Sinédrio, espezinhou nossos princípios mais sagrados, criticou as figuras mais representativas do farisaísmo, com ilustra­ções mentirosas e ingratas.

E concluía:

— De mim para comigo, estou satisfeito. Considero o apedrejamento esperado um dos feitos de mais impor­tância para o futuro da minha carreira. Atestará meu zelo na defesa do nosso patrimônio mais estimável. Pre­cisamos considerar que Israel, nos dias mais sombrios, preferiu a emancipação religiosa à independência política. Poderíamos, porventura, expor nossos valores morais mais preciosos à influência deprimente de um aventureiro qualquer?

O jovem procurou mudar o curso da conversação, enquanto Ruth mandava servir uma taça de vinho re­confortante.

Antes de partir, o moço tarsense convidou a noiva ao passeio habitual. Nessa noite, a Natureza parecia enfeitar-se de maravilhas. O luar, que destacava todas as flores em tons pálidos, estava saturado de perfumes deliciosos. Os dois, de mãos enlaçadas, no banco rústico, contemplavam o quadro embevecidamente. Saulo expe­rimentava suave conforto.

Desafogava-se. Se Jerusalém lhe obscurecia a mente num torvelinho de preocupações, aquela mansão singela da estrada de Jope parecia des­carregá-lo de todos os desgostos, prodigalizando-lhe ao espírito enorme potencial de consolação.

— Agora, minha querida, tudo está pronto — dizia solícito. — De hoje a seis dias Dalila virá buscar-te pessoalmente. Conhecerás a cidade e os meus amigos honrarão em tua alma generosa a minha feliz escolha. Estás satisfeita?

— Muito — murmurava ela com ternura.

— Já organizamos vasto programa recreativo. Quero levar-te a Jericó, onde pessoas de nossas relações nos esperam com imensa alegria. Em Jerusalém far-te-ei conhecer todos os edifícios mais importantes. Ficarás deslumbrada com o Templo e com os tesouros ali encerrados pela dedicação religiosa de nossa raça. Verás a torre dos romanos. Meus conterrâneos que freqüentam a Sinagoga dos cilícios querem oferecer-te valioso mimo.

Abigail extasiava-se, ouvindo-o discorrer. Aquele moço impulsivo e rude a olhos estranhos, mas afetuoso e sensível na intimidade, era justamente o seu ideal, o homem esperado pela sua alma carinhosa.

— Ninguém poderá oferecer-me um presente mais precioso que o enviado por Deus à minha existência, com o teu coração leal e generoso — murmurou a jovem num franco sorriso.

— Ganhei muito mais — tornava o doutor de Tarso recebendo a jóia rara do teu afeto, que enriquecerá toda a minha vida. Às vezes, Abigail — continuava com o entusiasmo próprio da juventude sonhadora —, no meu idealismo de vitórias para Jerusalém sobre as grandes cidades do mundo, penso chegar à velhice como um triun­fador cheio de tradições de sabedoria e de glória. Desde que te encontrei, aumentou-se-me a fé no destino; con­solidei minhas esperanças, terei teu concurso na tarefa imensa que se desdobra a meus olhos. Os romanos outorgam aos triunfadores uma coroa triunfal de louros e rosas. Se um dia Jerusalém me conceder a sua coroa triunfal, não a cingirei em minha fronte, para só deixá-la a teus pés como tributo de amor eterno e único.

Ainda hoje — prosseguiu Saulo confiante no fu­turo —, Gamaliel notificou-me que vai afastar-se breve do Sinédrio, para que eu lhe suceda no prestigioso cargo. Aí tens, querida, nossa primeira vitória de maiores pro­porções. Tão logo Dalila volte de Tarso, poderemos mar­car o dia jubiloso das núpcias. Presumo que, em te tendo sempre a meu lado, corrigirei meus impulsos, a tarefa ser-me-á mais leve, a existência mais fácil e mais ditosa. O lar é uma bênção. E nós teremos esse lar.

— Nunca me senti tão venturosa — exclamou a jovem, com lágrimas de alegria.

Ele acariciou-lhe as mãos e, como desejava que ela compartilhasse dos seus sentimentos mais íntimos, acres­centou:

— Chegarás conosco à cidade, justamente na vés­pera da morte do pregador revolucionário. O ato, como de justiça, obedecerá ao cerimonial estabelecido pelos nossos costumes e eu pretendo que assistas a ele em minha companhia.

— Mas, por quê? — perguntou ela estremecendo li­geiramente.

— Porque lá encontraremos nossos amigos mais eminentes e desejo valer-me da oportunidade para apre­sentar-te, indiretamente, a todos eles.

— Não haveria um meio de me poupares a esse es­petáculo? — insistiu timidamente. — A morte de meu pai, no suplício, diante da soldadesca brutal, jamais me saiu da mente.

Saulo não dissimulou a contrariedade e respondeu:

— Porventura não estarás compreendendo? O caso de Estevão é muito diferente. Trata-se de um homem sem significação para nós outros, que se arvorou em reformador sedicioso e insolente. Sua personalidade re­presenta, de fato, a continuidade do desrespeito e do insulto à Lei de Moisés, iniciados em movimento de vastas proporções por um carpinteiro alucinado, de Na­zaré. Achas, então, que se não deve punir o ladrão que assalta uma residência? Não merecerão castigo os que blasfemam no santuário do Eterno?

A jovem, compreendendo que desagradaria ao noivo se lhe demonstrasse divergência de opinião, acrescentou:

— Vejo que tens muita razão. Não devo discutir os teus conceitos, sábios e justos. Aliás, tenho mesmo a intenção de conquistar a amizade dos teus amigos do Sinédrio, pois não perco a esperança de sua proteção para o caso de Jeziel, logo que se ofereça uma oportu­nidade para novas pesquisas na Acaia. Mas ouve, Saulo:

se permitires, irei quando a cerimônia estiver a findar. Está dito?

Notando a boa-vontade conciliatória, o moço tar­sense abriu o semblante num belo sorriso de satisfação.

— Sim, ficamos de acordo. Espero, porém, que assistas a tudo com serenidade, segura de que eu só poderia tomar encargos justos e decisões estimáveis no cumprimento do dever. É lamentável que o prisioneiro se haja mostrado recalcitrante a ponto de me compelir a providências extremas. No entanto, podes crer que tudo fiz por evitar o derradeiro recurso.

Empreguei todos os processos conciliatórios para dissuadi-lo de tão perigosas ilusões, mas sua conduta foi de tal modo irritante que toda transigência se tornou praticamente impossível.

Trocaram-se ainda, por longo tempo, impressões afe­tuosas que a noite amiga guardava, solicitamente, sob o manto luminoso das estrelas. Eram juras caridosas de um amor imortal, ante a bênção de Deus, tomada como objeto mais alto de seus santificados pensamentos. projetos e esperanças de futuro.

Era tarde quando Saulo se despediu, regressando a Jerusalém, de alma feliz.

Daí a dias, Abigail, em companhia do noivo e da irmã, demandou a cidade, cujo perfil interessante apre­sentava novos quadros para os seus olhos. A casa de Dalila, na mesma noite de sua chegada, encheu-se de amigos que iam levar à escolhida de Saulo a homenagem da sua admiração; e a jovem de Corinto a todos seduzia por seus dotes naturais, aliados à sólida e bem cuidada formação de espírito. Sua palavra, cheia de ternura, parecia distanciar-se profundamente das futilidades que caracterizavam a mocidade da época. Sabia aplicar os mais delicados conceitos, no trato de todos os assuntos a que era convocada, tirando formosas ilações da Lei e dos Escritos Sagrados, para definir a posição da mulher em face dos mais íntimos deveres na vida familiar. O doutor de Tarso sentia-se orgulhoso, ao notar a admi­ração geral em torno de sua personalidade vibrante e carinhosa. Abigail, sintetizando o seu maior ideal, en­chia-lhe o coração de maravilhosas promessas. A sur­presa dos amigos, que o felicitavam com o olhar, punha-lhe na alma ardente um júbilo novo.

O dia seguinte rompeu claro e lindo. Ao sol rútilo de Jerusalém, Saulo despediu-se da noiva amada, por atender, ainda cedo, aos trabalhos do Sinédrio.



  • Então, até logo, no Templo — disse carinhosa­mente.

  • No Templo? — perguntou Dalila admirada, abra­çando-se a Abigail.

— Sim — explicou solícito —, Abigail irá assistir à parte final da punição de Estevão.

— Mas como? — interrogou ainda a jovem senho­ra. — Mulheres na cerimônia?

— A lapidação se dará nas proximidades do altar dos holocaustos e não nos átrios sagrados — esclareceu. A meu ver, não haverá impedimento de representações femininas, e ainda que isso constitua resolução de última hora, a critério dos sacerdotes, a medida não poderá atingir decisão pessoal de minha parte e eu desejo que Abigail participe do meu primeiro triunfo na defesa dos nossos princípios soberanos.

Ambas sorriram, venturosas, observando-lhe as dis­posições excelentes.

— Em último recurso, Saulo — disse Abigail num gesto de tranqüilidade e ternura —, não deixes de ofere­cer ao condenado uma derradeira oportunidade para sal­var-se da morte.

Após dois meses de cárcere, é possível que tenha refundido os sentimentos mais profundos. Pergunta-lhe, mais uma vez, se insiste em insultar a Lei.

O moço tarsense enviou-lhe um olhar satisfeito e reconhecido, jubiloso por verificar tanta grandeza de coração, e acentuou:

- Assim farei.

Nesse dia, desde muito cedo, o mais alto Tribunal de Israel apresentava desusado movimento. A execução do pregador do “Caminho” constituía objeto de largos co­mentários. Sobretudo os fariseus faziam questão de todos os informes. Ninguém queria perder o angustioso espe­táculo. A igreja modesta de Simão Pedro, entretanto, não ousou aproximar-se para qualquer indagação. Saulo, como perseguidor declarado e usando das prerrogativas da investidura legal, mandara anunciar que nenhum adepto do “Caminho” poderia assistir à execução a efeti­var-se num dos grandes pátios do santuário. Longas filas de soldados foram dispostas na grande praça, para dispersar quaisquer grupos de mendigos que se formas­sem com intuitos desconhecidos e, desde as primeiras horas da manhã, numerosos pedintes de Jerusalém eram corridos das imediações a golpes de chanfalho.

Depois do meio-dia, autoridades e curiosos reuniam-se, ávidos de sensação, no recinto do Sinédrio, em aba­fado vozerio. Aguardava-se o sentenciado, que chegou, finalmente, cercado de escolta armada, como se fora um malfeitor comum.

Estevão apresentava-se bastante desfigurado, em­bora o semblante não traisse a peculiar serenidade. O passo tardio, o cansaço extremo, as equimoses das mãos e dos pés, patenteavam os pesados tormentos físicos que lhe eram infligidos à sombra do calabouço. A barba crescida alterava-lhe o aspecto fisionômico, todavia, os olhos tinham a mesma fulgurância de cristalina bondade.

Em meio da curiosidade geral, Saulo de Tarso o encarou satisfeito. Estevão pagaria, afinal, as incom­preensões e os insultos.

No instante aprazado, o doutor inflexível fez a lei­tura do libelo. Antes, porém, de pronunciar a sentença última, fiel ao que prometera, mandou que os soldados empurrassem o condenado até à sua tribuna. Enfrentan­do o pregador do Evangelho, sem qualquer expressão de piedade, interrogou com aspereza:

— Estarias disposto, agora, a jurar contra o car­pinteiro Nazareno? Lembra-te que é a última oportuni­dade de conservares a vida.

Tais palavras, pronunciadas mecanicamente, soaram de modo estranho aos ouvidos do moço de Corinto, que as recebeu, na alma sensível e generosa, como novos dardos de ironia.

— Não insulteis o Salvador! — disse o arauto do Cristo, com desassombro. — Nada no mundo me fará renunciar à sua tutela divina! Morrer por Jesus significa uma glória, quando sabemos que ele se imolou na cruz pela Humanidade inteira!

Mas, uma torrente de impropérios cortava-lhe a pa­lavra.

— Basta! Apedrejemo-lo quanto antes! Morte ao imundo! Abaixo o feiticeiro! Blasfemo!... Caluniador!

A gritaria tomava proporções assustadoras. Alguns fariseus mais irritados, burlando os guardas, aproxima­ram-se de Estevão tentando arrastá-lo sem compaixão. Entretanto, ao primeiro puxão na gola rota, um pedaço da túnica rafada ficava-lhes nas mãos. Foi necessário a intervenção da força armada para que o moço de Corinto não fosse estraçalhado, ali mesmo, pela multidão furiosa e delirante. Saulo, em altas vozes, ordenou a intervenção dos soldados.

Queria a execução do discípulo do Evangelho, mas, com todo o cerimonial previsto -

Estevão tinha agora o rosto enrubescido, envergo­nhado. Seminu, foi auxiliado por um legionário romano a recompor os sobejos da veste em frangalhos, acima dos rins, para não ficar inteiramente nu. Com a mão trêmula, pelos maus tratos recebidos, procurava limpar a saliva que os mais exaltados lhe haviam esputado em pleno rosto - Forte pancada no ombro causava-lhe intensa dor no braço todo. Compreendeu que lhe chegavam os últimos instantes de vida. A humilhação doía-lhe fundo. Mas recordou as descrições de Simão a respeito de Jesus, no derradeiro transe. Em frente de Herodes Antipas, o Cristo sofrera dos israelitas idênticas ironias. Fora açoitado, ridicularizado, ferido. Quase nu, suportara todos os agravos sem uma queixa, sem uma expressão menos digna. Ele que amara os infelizes, que trabalhara por fundar uma doutrina de concórdia e de amor para todos os homens, que abençoara os mais desgraçados e os acolhera com carinho, recebera o galardão da cruz em suplícios imensuráveis. E Estevão pensou: — “Quem sou eu e quem era o Cristo ?“ Essa íntima interrogação propiciava-lhe certo consolo. O Príncipe da Paz fora arrastado pelas ruas de Jerusalém, sob o escárnio das maiores injúrias, e era o Messias esperado, o Ungido de Deus!

Por que, sendo ele homem falível, portador de numerosas fraquezas, haveria de hesitar no momento do testemunho? E, com o pranto a escorrer-Lhe no rosto lacerado, escutava a voz cariciosa do Mestre no coração:

“Todo aquele que desejar participar do meu reino, negue-se a si mesmo, tome sua cruz e siga os meus passos”. Era preciso negar-se para aceitar o sacrifício proveitoso. Ao fim de todos os martírios, deveria encontrar o amor glorioso de Jesus, com a beleza da sua ternura imortal. O pregador humilhado e ferido recordou o passado de trabalhos e esperanças.

Parecia-lhe rever a infância sau­dosa, na qual o zelo materno lhe incutira os fundamen­tos da fé confortadora; depois, as nobres aspirações da mocidade, a dedicação paterna, o amor da irmãzinha que as circunstâncias do destino lhe haviam arrebatado. Ao pensar em Abigail, experimentou certa angústia no cora­ção. Agora, que deveria enfrentar a morte, desejava revê-la para as últimas recomendações. Relembrou a derradeira noite em que haviam permutado tantas im­pressões de ternura, tantas promessas fraternais, na lôbrega prisão de Corinto.

Apesar dos movimentos reno­vadores da fé, de cujos trabalhos compartilhava ativa­mente em Jerusalém, jamais pudera esquecer o dever de procurá-la, fosse onde fosse. Enquanto em derredor se multiplicavam impropérios no turbilhão de gritos e amea­ças revoltantes, o sentenciado chorava com as suas re­cordações. Socorrendo-se das promessas do Cristo no Evangelho, experimentava brando alívio. A idéia de que a irmãzinha ficaria no mundo, entregue a Jesus, suavi­zava-lhe as angústias do coração.

Mal não saíra de suas dolorosas reminiscências, ouviu a voz imperiosa de Saulo dirigindo-se aos guardas:

Algemai-o novamente, tudo está consumado, si­gamos para o átrio.

O discípulo de Simão Pedro, estendendo os pulsos para receber as algemas, sofreu pancadas tão fortes de um soldado inescrupuloso, que dos pulsos feridos co­meçou a jorrar muito sangue.

Estevão, porém, não fez o menor gesto de resis­tência. De quando em quando, levantava os olhos como se implorasse os recursos do Céu para os seus minutos supremos. Não obstante os apupos e as chagas que o dilaceravam, experimentava uma paz espiritual desconhecida. Todos aqueles sofrimentos do cerimonial eram pelo Cristo. Aquela hora era a sua oportunidade divina. O Mestre de Nazaré havia convocado o seu coração fiel ao público testemunho dos valores espirituais da sua gloriosa doutrina. Confiante, raciocinava: — “Se o Mes­sias aceitara a morte infamante do Calvário para salvar todos os homens, não seria uma honra dar a vida por Ele? “Seu coração, sempre ávido de dar testemunho ao Senhor, desde que lhe conhecera o Evangelho de reden­ção. não deveria rejubilar-se com o ensejo de oferecer-lhe a própria vida? Entretanto, a ordem de caminhar arran­cou-o dos mais elevados pensamentos.

O generoso pregador do “Caminho” hesitava nos passos cambaleantes, mas tinha sereno e firme o olhar, revelando desassombro nos derradeiros lances do tes­temunho.

Naquelas primeiras horas da tarde, o sol de Jeru­salém era um braseiro ardente. Não obstante o calor insuportável, a massa deslocou-se com profundo inte­resse. Tratava-se do primeiro processo concernente às atividades do “Caminho”, após a morte do seu funda­dor. Destacando-se de todas as correntes judaicas ali presentes, em penhor de prestígio à Lei de Moisés, os fariseus faziam grande alarde do feito. Ladeando o condenado, faziam questão de atirar-lhe em rosto as mais pesadas injúrias.

Ele, porém, embora evidenciasse profunda tristeza, caminhava seminu, sereno, imperturbável.

A sala de reuniões do Sinédrio não distava muito do átrio do Templo, onde se realizaria a macabra ceri­mônia. Apenas alguns metros e a caminhada terminava, justamente no local onde se erguia o enorme altar dos holocaustos.

Tudo estava preparado a caráter, como Saulo dei­xara perceber em seus propósitos.

Ao fundo do pátio espaçoso, Estevão foi atado a um tronco, para que o apedrejamento se efetuasse na hora precisa.

Os executores seriam os representantes das diver­sas sinagogas da cidade, de vez que era função honrosa atribuida a quantos estivessem em condições de operar na defesa de Moisés e de seus princípios. Cada sinagoga indicara o seu delegado e, ao iniciar a cerimônia, como chefe do movimento, Saulo recebia um por um, junto da vítima, guardando nas mãos, de acordo com a prag­mática, os mantos brilhantes, enfeitados de púrpura.

Mais uma ordem do moço tarsense e a execução começou entre gargalhadas. Cada verdugo mirava friamente o ponto preferido, esforçando-se para tirar maior partido.

Risos gerais seguiam-se a cada golpe.

Poupemos-lhe a cabeça — dizia um dos mais exal­tados —, a fim de que o espetáculo não perca a inten­sidade e o interesse.

Cada expressão do judaísmo acompanhava o ver­dugo indicado pelos maiorais da sinagoga, com atenção e entusiasmo, aos berros de “Morra o traidor! o feiti­ceiro!. .

— Fere no coração, em nome dos cilícios! — excla­mava alguém, do meio da turba.

— Separa-lhe a perna pelos idumeus! — secundava outra voz impudente.

Mais ou menos afastado da turba, seguindo de perto os movimentos do condenado, Saulo de Tarso apreciava a vibração popular, satisfeito e confortado. De qualquer maneira, a morte do pregador do Cristo representava o seu primeiro grande triunfo na conquista das atenções de Jerusalém e de suas prestigiosas corporações polí­ticas. Naquela hora em que focalizava tantas aclama­ções do povo de sua raça, orgulhava-se com a decisão que o levara a perseguir o “Caminho”, sem consideração e sem tréguas. Aquela tranqüilidade de Estevão, no entanto, não deixava de o impressionar bem no imo do coração voluntarioso e inflexível. Onde poderia ele haurir tal serenidade? Sob as pedras que o alvejavam. aqueles olhos encaravam os algozes sem pestanejar, sem revelar temor nem turbação!

De fato, amarrado de joelhos ao tronco do suplício, o moço de Corinto guardava impressionante caracterís­tica de paz nos olhos translúcidos, de onde as lágrimas silenciosas corriam abundantes, O peito descoberto era uma chaga sangrenta. As vestes esfrangalhadas cola­vam-se ao corpo, empastadas de suor e sangue.

O mártir do “Caminho” sentia-se amparado por forças poderosas e intangíveis. A cada novo golpe, sentia recrudescer os padecimentos infinitos que lhe azorraga­vam o corpo macerado, mas, no íntimo, guardava a im­pressão de uma lenidade sublime. O coração batia des­compassadamente. O tórax estava coberto de feridas profundas, as costelas fraturadas.

Nesta hora suprema, recordava os mínimos laços de fé que o prendiam a uma vida mais alta. Lembrou todas as orações prediletas da infância. Fazia o possí­vel por fixar na retina o quadro da morte do pai supli­ciado e incompreendido. Íntimamente, repetia o Salmo 23º de David, qual o fazia junto da irmã, nas situações que pareciam insuperáveis. “O Senhor é meu pastor. Nada me faltará...” As expressões dos Escritos Sagra­dos, como as promessas do Cristo no Evangelho, esta­vam-lhe no âmago do coração. O corpo quebrantava-se no tormento, mas o espírito estava tranqüilo e espe­rançoso.

Agora, tinha a impressão de que duas mãos cari­ciosas passavam de leve sobre as chagas doloridas, pro­porcionando-lhe branda sensação de alívio. Sem qual­quer receio, percebeu que lhe havia chegado o suor da agonia.

Dedicados amigos, do plano espiritual, rodeavam o mártir nos seus minutos supremos.

No auge das dores físicas, como se houvesse transposto infinitos abismos de percepção, o moço de Corinto notou que alguma coisa se lhe havia rasgado na alma ansiosa. Seus olhos pareciam mergulhar em quadros gloriosos de outra vida. A legião de emissários de Jesus, que o cercava carinhosa­mente, figurou-se-lhe a corte celestial. No caminho de luz desdobrado à sua frente, reconheceu que alguém se aproximava abrindo-lhe os braços generosos. Pelas descrições que ouvira de Pedro, percebeu que contemplava o próprio Mestre em toda a resplendência de suas glórias divinas. Saulo observou que os olhos do condenado estavam estáticos e fulgurantes. Foi quando o herói cristão, movendo os lábios, exclamou em alta voz:

— Eis que vejo os céus abertos e o Cristo ressus­citado na grandeza de Deus!...

Viram, então, que duas mulheres jovens aproxima­vam-se do perseguidor com gestos íntimos. Dalila en­tregou Abigail ao irmão, despedindo-se logo para atender ao chamado de outra amiga. A noiva terna cingia uma túnica à moda grega, que mais lhe realçava o formoso rosto. Fosse pela dolorosa cena em curso, ou pela pre­sença da mulher amada, percebia-se que Saulo estava um tanto perplexo e sensibilizado. Dir-se-ia que a cora­gem indomável de Estevão o levara a considerar a tran­qüilidade desconhecida que deveria reinar no espírito do mártir.

Em face da gritaria que a rodeava e notando a miserável situação da vítima, a jovem mal pôde conter um grito de espanto. Que homem era aquele, atado ao tronco do suplício? Aquele peito arfante, empastado de sangue, aqueles cabelos, aquele rosto pálido que a barba crescida desfigurava, não seriam de seu irmão? Ah! como falar das ansiedades imensas na surpresa im­prevista de um minuto? Abigail tremia. Seus olhos aflitos acompanhavam os menores movimentos do herói, que parecia indiferente, no êxtase que o absorvia. Em­balde Saulo chamava-lhe a atenção, discretamente, de modo a poupá-la de penosas impressões. A moça parecia nada ver além do sentenciado a esvair-se no sangue do martírio. Lembrava-se agora...

Em se afastando do calabouço, depois da morte do pai, foi assim mesmo que deixara Jeziel na posição do suplício. O tronco execrável, as algemas impiedosas e o pobrezinho de joelhos! Tinha ímpetos de atirar-se à frente dos algozes, esclarecer a situação, saber a identidade daquele homem.

Nesse instante, ignorando-se alvo de tão singular atenção, o pregador do “Caminho” saiu de sua impres­sionante imobilidade. Vendo que Jesus contemplava, me­lancolicamente, a figura do doutor de Tarso, como a lamentar seus condenáveis desvios, o discípulo de Simão experimentou pelo verdugo sincera amizade no coração. Ele conhecia o Cristo e Saulo não.

Assomado de frater­nidade real e querendo defender o perseguidor, exclamou de modo impressionante:

— Senhor, não lhe imputes este pecado!...

Isso dito, voltou os olhos para fixá-los no verdugo, amorosamente. Eis, porém, que divisou junto dele a figura da irmã, trajada como nos dias de júbilo, na casa paterna. Era ela, a irmãzinha amada, por cujo afeto tantas vezes lhe palpitara o coração, de saudade e de esperança. Como explicar sua presença? Quem sabe havia sido também levada ao reino do Mestre e regres­sava com ele, em espírito, para trazer-lhe as boas-vindas, de um mundo melhor? Quis bradar sua alegria infinita, atraí-la, ouvir-lhe a voz nos cânticos de David, morrer embalado pelo seu carinho; mas a garganta já não tim­brava. A emoção dominara-o na hora extrema. Sentiu que o Mestre de Nazaré acariciava-lhe a fronte, onde a última pedrada abrira uma flor de sangue. Ouvia, muito longe, vozes argentinas que cantavam hinos de amor sobre os gloriosos motivos do Sermão da Montanha. Incapaz de resistir por mais tempo ao suplício, o discípulo do Evangelho sentia-se desfalecer.

Escutando as expressões do condenado e recebendo-lhe o olhar fulgurante e límpido, Abigail não pôde dis­simular a angustiosa surpresa.

— Saulo! Saulo!... É meu irmão — exclamou ater­radamente.

— Que dizes? — gaguejou baixinho o doutor de Tarso arregalando os olhos. — Não pode ser! Enlouque­ceste?

— Não, não, é ele; é ele! — repetia tomada de extrema palidez.

— É Jeziel — insistia Abigail assombrada —, que­rido; concede-me um minuto, deixa-me falar ao mori­bundo apenas um minuto.

— Impossível! — replicou o moço, contrafeito.

— Saulo, pela Lei de Moisés, pelo amor de nossos pais, atende — exclamava torcendo as mãos.

O ex-discípulo de Gamaliel não acreditava na pos­sibilidade de semelhante coincidência.

Além do mais, havia a diferença do nome. Convinha esclarecer esse ponto, antes de tudo.

Certo, a falsa impressão de Abi­gail se desfaria ao primeiro contacto direto com o agonizante. Sua índole, sensível e afetuosa, justificava o que a seu ver era um absurdo.

Conjugando essas reflexões de um segundo, falou à noiva, com austeridade:

— Irei contigo identificar o moribundo, mas, até que o possamos fazer, cala as tuas impressões... Nem uma palavra, ouviste? iË necessário não esquecer a res­peitabilidade do local em que te encontras!

Logo após, chamava um funcionário de alta cate­goria, secamente:

— Manda levar o cadáver para o gabinete dos sa­cerdotes.

— Senhor — respondeu o outro respeitoso —, o condenado ainda não está morto.

— Não importa, vai assim mesmo, pois arrancar-lhe-ei a confissão do arrependimento na hora extrema.

A determinação foi cumprida sem mais demora, enquanto Saulo mandava servir, de modo geral, aos amigos e admiradores, várias ânforas de vinho delicioso, por comemorarem o seu primeiro triunfo. Depois, cenho carregado, apreensivo, esgueirou-se quase sorrateiramente até à sala reservada aos sacerdotes de Jerusalém, em companhia da noiva.

Atravessando os grupos que o saudavam com fre­néticas aclamações, o moço tarsense parecia alheado de si mesmo. Conduzia Abigail pelo braço, delicadamente, mas não lhe dirigia palavra. A surpresa emudecera-o. E se Estevão fosse, de fato, aquele Jeziel que aguarda­vam com tamanha ansiedade? Absorvidos em angustio­sas reflexões, penetraram na câmara solitária. O jovem doutor ordenou a retirada dos auxiliares, fechou cuida­dosamente a porta.

Abigail aproximou-se do irmão ensangüentado, com infinita ternura. E, como se sentisse chamado à vida por uma força poderosa e invencível, ambos notaram que a vítima movia a cabeça sangrenta. Evidenciando o penoso esforço da derradeira agonia, Estevão mur­murou:

— Abigail!...

Aquela voz era quase um sopro, mas o olhar estava calmo, límpido. Ouvindo-lhe a expressão vacilante e arrastada, o jovem tarsense recuou tomado de espanto. Que significava tudo aquilo? Não poderia duvidar. A vítima de sua perseguição implacável era o irmão bem-amado da mulher escolhida. Que mecanismo do destino engendrara semelhante situação, que lhe havia de amar­gurar toda a vida? Onde estava Deus, que não o inspi­rara no dédalo de circunstâncias que o levaram até àquele irremediável, cruel desfecho? Sentiu-se possuído de um pesar sem limites. Ele, que elegera Abigail o anjo tutelar da existência, seria obrigado a renunciar a esse amor para sempre. O orgulho de homem não lhe permitiria desposar a irmã do suposto inimigo, confes­sado e julgado reles criminoso. Aturdido, deixou-se ali ficar, como se força incoercível o chumbasse ao solo, transformando-o em objeto de insuportáveis ironias.

— Jeziel! — exclamou Abigail osculando e regando de lágrimas a fronte do moribundo — como te vejo eu!... Parece que o suplício te durou desde o dia em que nos separamos!... E soluçava...

— Estou bem... — disse o discípulo de Jesus, fa­zendo o possível por mover a destra quebrada e deixando perceber o desejo de acariciar-lhe os cabelos, como nos dias da meninice e da primeira juventude. — Não cho­res!... Eu estou com o Cristo!...

— Quem é o Cristo? — murmurou a jovem — Por que te chamam Estevão? Como te modificaram assim?

— Jesus... é o nosso Salvador... — explicava o agonizante, no propósito de não perder os minutos que se escoavam céleres. — E, agora, chamam-me Estevão... porque um romano generoso me libertou... mas pediu... absoluto segredo. Perdoa-me... Foi por gratidão que obedeci ao conselho. Ninguém será reconhecido a Deus se não mostrar agradecimento aos homens...

Vendo que a irmã prosseguia em soluços, continuou:

— Sei que vou morrer... mas a alma é imortal.. Sinto deixar-te... quando mal torno a ver-te, mas hei de ajudar-te do lugar em que estiver.

— Ouve, Jeziel — exclamou a irmã num desabafo —, que te ensinou esse Jesus para te levar a um fim tão doloroso? Quem assim abandona um servo leal, não será antes um senhor cruel?

O moribundo pareceu admoestá-la com o olhar.

— Não penses dessa maneira — prosseguiu com dificuldade. — Jesus é justo e misericordioso... pro­meteu estar conosco até à consumação dos séculos... mais tarde compreenderás; a mim, ensinou-me amar os próprios verdugos...

Ela abraçava-o, carinhosa, desfeita em lágrimas abundantes. Depois de uma pausa em que a vítima se revelava nos derradeiros instantes da vida material, viu-se que Estevão se agitava em esforços supremos.

— Com quem te deixarei?

— Este é meu noivo — esclareceu a jovem apon­tando o moço de Tarso, que parecia petrificado.

O moribundo contemplou-o sem ódio e acentuou:

— Cristo os abençoe... Não tenho no teu noivo um inimigo, tenho um irmão... Saulo deve ser bom e generoso; defendeu Moisés até ao fim... Quando conhe­cer a Jesus, servi-lo-á com o mesmo fervor... Sê para ele a companheira amorosa e fiel...

Mas a voz do pregador do “Caminho” estava agora rouca e quase imperceptível. Nas vascas da morte, con­templava Abigail fraternalmente enternecido.

Ouvindo-lhe as últimas frases, o doutor de Tarso fizera-se lívido. Queria ser odiado, maldito. A compaixão de Estevão, fruto de uma paz que ele, Saulo, jamais conhecera no fastígio das posições mundanas, impressio­nava-o fundamente. Entretanto, sem saber por quê, a resignação e a doçura do agonizante assaltavam-lhe o coração enrijecido. Trabalhava, porém, intimamente, para não se comover com a cena dolorosa. Não se dobraria por uma questão de sentimentalismo. Abominaria aquele Cristo, que parecia requisitá-lo em toda parte, a ponto de colocar-se entre ele e a mulher adorada. O cérebro atormentado do futuro rabino suportava a pressão de mil fogos. Desprezara o orgulho de família e elegera Abigail para companheira de lutas, embora lhe não co­nhecesse os ascendentes familiares. Amava-a pelos laços da alma, descobrira no seu delicado coração feminino tudo quanto havia sonhado nas cogitações de ordem tem­poral. Ela sintetizava as suas esperanças de moço; era o penhor do seu destino, representava a resposta de Deus aos apelos da sua juventude idealista. Agora, abrira-se entre ambos um abismo profundo. Irmã de Estevão! Ninguém ousara afrontar-lhe a autoridade na vida, a não ser aquele ardoroso pregador do “Caminho”, cujas idéias jamais se poderiam casar com as suas. De­testava aquele rapaz apaixonado pelo ideal exótico de um carpinteiro, e tinha culminado nos propósitos de vin­gança. Se desposasse Abigail, jamais seriam felizes. Ele seria o verdugo, ela a vítima. Além disso, sua família, aferrada ao rigorismo das velhas tradições, não poderia tolerar a união, depois de conhecidas as circunstâncias.

Levou as mãos ao peito, dominado por angustioso desalento.

Em pranto, Abigail acompanhava a agonia dolorosa do irmão, cujos derradeiros minutos se escoavam len­tamente. Penosa emoção apossara-se de todas as suas energias. Na dor que a dilacerava nas fibras mais sensíveis, parecia não ver o noivo que lhe seguia os me­nores movimentos, entre surpreso e estarrecido. Com muito cuidado, a jovem sustinha a fronte do moribundo, depois de haver sentado para conchegá-lo carinhosa­mente.

Observando que o irmão lhe lançava o último olhar, exclamou angustiada:

— Jeziel, não te vás... Fica conosco! Nunca mais nos separaremos!...

Ele, quase a expirar, ciciava:

— A morte não separa... os que se amam...

E, como se houvera lembrado algo de muito grato ao coração, arregalou os olhos desmesuradamente. numa expressão de imenso júbilo:

— Como no Salmo... de David... — dizia arrasta­damente — podemos... dizer... que o amor.. e a misericórdia... seguiram... todos os dias... de nossa vida... (1)

A jovem escutava-lhe as derradeiras palavras, como­vidíssima. Enxugava-lhe o suor sanguinolento do rosto, que se iluminava de uma serenidade superior.

— Abigail... — murmurava ainda como num so­pro —, vou-me em paz... Quisera ouvir-te na prece... dos aflitos e agonizantes...

Ela recordou os últimos momentos do suplício do genitor, no dia inesquecível da separação nos calabouços de Corinto. De relance, compreendeu que, ali, outras forças se encontravam em jogo. Não mais Licínio Minú­cio e os sequazes cruéis, mas o próprio noivo transfor­mado em verdugo, por um terrível engano. Afagou com mais carinho a cabeça sangrenta. Conchegou o mo­ribundo ao coração como se fosse uma adorável criança. Então, embora rígido e inquebrantável na aparência, Saulo de Tarso observou, mais nitidamente, o quadro que nunca mais lhe sairia da imaginação. Guardando o moribundo no regaço fraterno, a jovem elevou o olhar para o alto, mostrando as lágrimas que lhe caíam pun­gentes. Não cantava, mas a oração lhe saía dos lábios como a súplica natural do seu espírito a um pai amoroso que estivesse invisível:
Senhor Deus, pai dos que chorara,

Dos tristes, dos oprimidos,

Fortaleza dos vencidos,

Consolo de toda a dor,

Embora a miséria amarga

Dos prantos de nosso erro,

Deste mundo de desterro,

Clamamos por vosso amor!


Nas aflições do caminho,

Na noite mais tormentosa,

Vossa fonte generosa

É o bem que não secará...

Sois, em tudo, a luz eterna

Da alegria e da bonança

Nossa porta de esperança

Que nunca se fechará.


Quando tudo nos despreza

No mundo da iniqüidade

Quando vem a tempestade

Sobre as flores da ilusão!

Ó Pai, sois a luz divina,

O cântico da certeza,

Vencendo toda aspereza,

Vencendo toda aflição.


No dia da nossa morte,

No abandono ou no tormento,

Trazei-nos o esquecimento

Da sombra, da dor, do mal...

Que nos últimos instantes,

Sintamos a luz da vida

Renovada e redimida

Na paz ditosa e imortal.

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