Paulo e estevão francisco cândido xavier



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(1) Salmo 23º, de David.

Terminada a prece, Abigail tinha o rosto orvalhado de pranto. Sob a carícia suave de suas mãos, Jeziel aquietara-se. Palidez de neve caracterizava-lhe a face cadavérica, aliada à profunda serenidade fisionômica. Saulo compreendeu que ele estava morto. E enquanto a jovem de Corinto se levantava, cuidadosamente, como se o cadáver do irmão requisitasse toda a ternura do seu espírito bondoso, o moço tarsense aproximou-se de cenho carregado e falou com austeridade:

— Abigail, tudo está consumado e tudo terminou, também, entre nós.

A pobre criatura voltou-se com assombro. Então não lhe bastavam os golpes recebidos? Seria possível que o noivo amado não tivesse uma palavra de con­ciliação generosa naquela hora difícil da sua vida? Receberia­ a humilhação mais fria com a morte de Jeziel e ainda por cima o abandono? Consternada por tudo que viera encontrar em Jerusalém, entendeu que precisava utilizar todas as energias, para não cair nas provas ríspidas que lhe haviam sido reservadas. E viu logo que, no orgulho de Saulo, não encontraria consola­ção. Num momento, chegou às mais latas conclusões, quanto ao papel que lhe competia em tão embaraçosas conjunturas. Sem recorrer à sensibilidade feminina, co­brou ânimo e falou com dignidade e nobreza:

— Tudo terminado entre nós, por quê? O sofrimento não deveria escorraçar o amor sincero.

— Não me compreendes? — replicou o orgulhoso rapaz... — Nossa união tornou-se inexeqüível. Não poderei desposar a irmã de um inimigo de maldita me­mória, para mim. Fui infeliz escolhendo esta ocasião para tua visita a Jerusalém. Sinto-me envergonhado não só diante da mulher com quem nunca mais poderei unir-me pelo matrimônio, como perante os parentes e amigos, pela situação amarga que as circunstâncias interpuseram no meu caminho...

Abigail estava pálida e penosamente surpreendida.

— Saulo... Saulo... não te envergonhes perante meu coração. Jeziel morreu estimando-te.

Seu cadáver nos escuta — acentuava com doloroso acento. — Não posso obrigar-te a desposar-me, mas não transformes nossa afeição em ódio surdo... Sê meu amigo!... Ser-te-ei eternamente grata pelos meses de ventura que me deste. Voltarei amanhã para casa de Ruth...

Não te envergonharás de mim! A ninguém direi que Jeziel era meu irmão, nem mesmo a Zacarias! Não quero que algum amigo nosso te considere um carrasco.

Observando-a naquela generosidade humilde, o moço de Tarso teve ímpetos de estreitá-la ao coração, como se o fizera a uma criança. Quis avançar, apertá-la con­tra o peito, cobrir-lhe de beijos a fronte bondosa e inocente. Súbito, porém, vieram-lhe à mente os seus títulos e atribuições; via Jerusalém revoltada, tisnando­-lhe a reputação de amargas ironias. O futuro rabino não poderia ser vencido; o doutor da Lei rígida, e implacável, devia sufocar o homem para sempre.

Mostrando-se impassível, replicou em tom áspero:

— Aceito o teu silêncio em torno das lamentáveis ocorrências deste dia; voltarás amanhã para casa de Ruth, mas não deves esperar a continuação das minhas visitas, nem mesmo por cortesia injustificável, porque, na sinceridade dos de nossa raça, os que não são amigos são inimigos.

A irmã de Jeziel recebia aquelas explicações com espanto profundo.

— Então, abandonas-me inteiramente, assim? —perguntou entre lágrimas.

— Não estás desamparada — murmurou inflexivel­mente —, tens os teus amigos da estrada de Jope.

— Mas, afinal, por que odiaste tanto a meu irmão? Ele foi sempre bondoso.. Em Corinto nunca ofendeu a ninguém.

Era pregador do malfadado carpinteiro de Na­zaré — esclareceu, contrafeito e ríspido —; além disso, humilhou-se diante da cidade inteira.

Abigail, compelida pela severidade das respostas, calou-se inteiramente. Que poder teria o Nazareno para atrair tantas dedicações e provocar tantos ódios? Até ali, não se interessara pela figura do famoso carpinteiro, que morrera na cruz, como malfeitor; mas o irmão lhe dissera ter encontrado nele o Messias. Para seduzir um caráter cristalino, como Jeziel, o Cristo não poderia ser um homem vulgar. Lembrava o passado do irmão para considerar que, no caso da rebeldia paterna, conseguira manter-se acima dos próprios laços do sangue para admoestar o genitor, amorosamente. Se tivera forças para analisar os atos paternos com o preciso discernimento, era preciso que aquele Jesus fosse muito grande, para que a ele se consagrasse, oferecendo-lhe a própria vida ao recobrar a liberdade. Jeziel, a seu ver, não se enganaria. Conhecendo-lhe a índole, do berço, não era possível que se deixasse iludir em suas convicções reli­giosas. Sentia-se, agora, atraida para aquele Jesus desconhecido­ e odiado injustamente. Ele ensinara o irmão a bem-querer os próprios verdugos. Que lhe não reser­varia, pois, ao seu coração sedento de carinho e de paz? As últimas palavras de Jeziel exerciam sobre ela uma influência profunda.

Abismada em profundas cogitações, notou que Saulo abrira a porta, chamando alguns auxiliares, que se pre­cipitaram por cumprir-lhe as ordens. Em poucos minu­tos os despojos de Estevão eram removidos, enquanto amigos numerosos cercavam o jovem par, expansivamente loquazes e satisfeitos.

— Que é isto — perguntou um deles a Abigail —, ao notar-lhe a túnica manchada de sangue.

— O sentenciado era israelita — atalhou o moço tarsense, desejoso de antecipar explicações — e, como tal, amparamo-lo na hora extrema.

Um olhar mais severo deu a entender à jovem quanto devia conter as emoções próprias, longe e acima das ocorrências verídicas.

Daí a minutos, o velho Gamaliel chegava e solicitava ao ex-discípulo alguns momentos de atenção, em par­ticular.

- Saulo disse bondoso —, espero partir na se­mana próxima para além de Damasco. Vou descansar junto de meu irmão e aproveitar a noite da velhice para meditar e repousar o espírito. Já fiz a necessária noti­ficação no Sinédrio e no Templo, e acredito que, dentro de poucos dias, serás efetivamente provido no meu cargo.

O interpelado fez um ligeiro gesto de agradecimento, cuja frieza mal disfarçava o abatimento que lhe ia na alma.

— Entretanto — prosseguia o generoso rabino, so­licitamente tenho um último pedido a fazer-te: É que tenho Simão Pedro em conta de um amigo. Esta confissão poderá escandallzarte mas, sinto-me bem ao fazê-la. Acabo de receber sua visita, pedindo a minha interferência para que o cadáver da vítima de hoje seja entregue à igreja do “Caminho”, onde será sepultado com muito amor. Sou o intermediário do pedido e espero não me recuses o obséquio.

— Dizeis “vítima”? — perguntou Saulo admirado.

— A existência de uma vítima pressupõe um algoz e éu não sou verdugo de ninguém. Defendi a Lei até ao fim.

Gamaliel compreendeu a objeção e replicou:

— Não vejas laivo de recriminação nas minhas pa­lavras. Nem a hora, nem o local, tampouco, se prestam a discussões. Mas, para não faltar à sinceridade que em mim sempre conheceste, devo dizer-te, rapidamente, que venho chegando a profundas conclusões a respeito do chamado carpinteiro de Nazaré. Tenho refletido ma­duramente na sua obra entre nós; todavia, estou velho e alquebrado para iniciar qualquer movimento renova­dor no seio do judaísmo. Em nossa existência chega uma fase em que não nos é lícito intervir nos problemas coletivos; mas, em qualquer idade, podemos e devemos operar a iluminação ou o aprimoramento de nós mesmos. É o que vou fazer. O deserto, na majestade silenciosa do insulamento, constituiu sempre a sedução dos nossos antepassados. Sairei de Jerusalém, fugirei do escândalo que as minhas novas idéias e atitudes certo provocariam; buscarei a solidão para encontrar a verdade.

Saulo de Tarso estava estupefato. Também Gama­liel parecia sofrer a influenciação de estranhos sortilé­gios! Sem dúvida, os homens do “Caminho” o enfei­tiçaram, desbaratando-lhe as últimas energias... o velho mestre acabara capitulando, numa atitude de conseqüên­cias imprevisíveis! Ia impugnar, discutir, chamá-lo à realidade, quando o venerando mentor da mocidade fari­saica, deixando entrever que percebia as vibrações anta­gônicas do seu espírito ardoroso, sentenciou:

— Já sei o teor da tua resposta íntima. Julgas-me fraco, vencido, e cada qual analisa como pode; mas não me leves ao enfaro das controvérsias. Aqui estou so­mente para solicitar-te um favor e espero não mo negues. Poderei providenciar para remover os despojos de Estevão imediatamente?

Via-se que o moço de Tarso hesitava, premido por singulares pensamentos.

— Concede, Saulo!... Ë o último obséquio ao velho amigo!...

— Concedo — disse afinal.

Gamaliel despediu-se com um gesto de sincero reco­nhecimento.

Novamente rodeado de muitos amigos, que procura­vam alegrá-lo, o jovem doutor da Lei revelava-se muito alheio de si mesmo. Debalde erguia a taça das saudações. O olhar vago, cismativo, demonstrava o profundo alhea­mento em que se engolfara. Os inesperados aconteci­mentos acarretaram-lhe à mente um turbilhão de pensa­mentos angustiados. Queria pensar, desejava recolher-se em si mesmo para o exame necessário das novas perspec­tivas do seu destino, mas, até ao pôr do sol, foi obrigado a manter-se no quadro das convenções sociais, atendendo aos amigos até ao fim.

Alegando necessidade de trocar as vestes ensangüen­tadas, Abigail retirara-se logo após a entrevista de Ga­maliel.

Na casa de Dalila, entretanto, a pobrezinha foi aco­metida de febre alta, penalizando e alarmando a todos os que lá se encontravam.

Ao cair da noite, Saulo regressava ao lar da irmã, onde lhe comunicaram o estado da enferma.

Resolvido a imprimir novos rumos à sua vida, pro­curou sufocar a própria emoção para encarar os fatos com a naturalidade possivel.

Em lágrimas, a jovem de Corinto pediu que a re­conduzissem à casa de Zacarias, receando a marcha da enfermidade. Em vão, Dalila e os parentes procuraram intervir com recursos afetuosos. A súplica de Abigail ao espírito enérgico de Saulo foi exposta comovedora-mente e, dentro da severidade que lhe caracterizava as atitudes, o ex-discípulo de Gamaliel tomou todas as pro­vidências para satisfazê-la.

E à noitinha, com muito cuidado, modesta carreta saía de Jerusalém pela estrada de Jope.

Ruth recebeu a jovem nos braços, emocionada e aflita. Ela e o marido recordaram, então, que, somente com a morte do pai, Abigail tivera febre tão alta, acom­panhada de abatimento tão profundo. De cenho carre­gado, Saulo os ouvia, esforçando-se por dissimular a emoção. E enquanto os amigos da jovem procuravam assisti-la carinhosamente, o futuro rabino, sucumbido num bulcão de idéias antagônicas, dirigia-se para Jeru­salém, com intenção de não mais voltar a Jope.

9

Abigail cristã


Desde o martírio de Estevão, agravara-se em Je­rusalém o movimento de perseguição a todos os discí­pulos ou simpatizantes do “Caminho”. Como se fora tocado de verdadeira alucinação, ao substituir Gamaliel nas funções religiosas mais importantes da Cidade, Saulo de Tarso deixava-se fascinar por sugestões de fanatismo cruel.

Impiedosas devassas foram ordenadas a respeito de todas as famílias que revelassem inclinação e sim­patia pelas idéias do Messias Nazareno. A igreja modes­ta, onde a bondade de Pedro prosseguia socorrendo os mais desgraçados, era rigorosamente guardada por sol­dados, com ordem de impedir as prédicas que represen­tavam o brando consolo dos infelizes.

Obcecado pela idéia de resguardar o patrimônio farisaico, o moço tarsense entregava-se aos maiores desmandos e tiranias. Homens de bem foram expulsos da cidade por meras suspeitas. Operários honestos e até mães de família eram inter­pelados em escandalosos processos públicos, que o per­seguidor fazia questão de movimentar. Iniciou-se um êxodo de grandes proporções, como Jerusalém de há muito não via. A cidade começou a despovoar-se de trabalhadores. O “Caminho” havia seduzido para as suas doces consolações a alma do povo, cansada na incom­preensão e no sacrifício. Livre das prestigiosas adver­tências de Gamaliel, que se retirara para o deserto, e sem a carinhosa assistência de Abigail, que lhe facultava generosas inspirações, o futuro rabino parecia um louco, em cujo peito o coração estivesse ressequido. Debalde, mulheres indefesas suplicavam-lhe piedade; inutilmente, crianças misérrimas pediram complacência para os pais, abandonados como prisioneiros infelizes.

O moço de Tarso parecia dominado por uma indi­ferença criminosa. As rogativas mais sinceras encon­travam no seu espírito um rochedo áspero. Incapaz de compreender as circunstâncias que lhe haviam modifi­cado os planos e esperanças da vida, imputava o insucesso dos seus sonhos de mocidade àquele Cristo que não conseguira entender. Odiá-lo-ia enquanto vivesse. Não sendo possível encontrá-lo para uma vingança di­reta, persegui-lo-ia na pessoa dos seus caudatários, atra­vés de todos os caminhos. A seu ver, era ele, o carpin­teiro anônimo, o causador dos seus fracassos em relação ao amor de Abigail, agora envenenado no seu coração impulsivo por sentimentos estranhos, que, dia a dia, ca­vavam profundos abismos entre sua figura inolvidável e as lembranças que lhe eram mais carinhosas. Não mais voltara à casa de Zacarias, e, embora os amigos da estrada de Jope instassem por suas notícias, mantinha-se irredutível no círculo do seu egoísmo sufocante. De vez em quando, sentia-se premido por uma saudade singular. Experimentava imensa falta da ternura de Abigail, cuja lembrança nunca mais se lhe havia apar­tado da alma enrijecida e ansiosa. Mulher alguma poderia substitui-la no carinho do seu coração. Entre angústias extremas, recordava a agonia de Estevão, sua invejável paz de consciência, as palavras de amor e de perdão; em seguida, via a noiva genuflexa, implorando-lhe amparo com um clarão de generosidade nos olhos súplices. Jamais esqueceria aquela prece angustiada e comovedora, que ela fizera ao abraçar o irmão nos der­radeiros instantes de vida. Não obstante a perseguição cruel que o transformara em mola-central de todas as atividades contra a igreja humilde do “Caminho”, Saulo sentia que as necessidades espirituais se multiplicavam no espírito sedento de consolação.

Oito meses de lutas incessantes passaram sobre a morte de Estevão, quando o moço tarsense, capitulando ante a saudade e o amor que lhe dominavam a alma, resolveu rever a paisagem florida da estrada de Jope, onde por certo reconquistaria o afeto de Abigail, de maneira a reorganizarem todos os projetos de um futuro ditoso.

Tomou o carro minúsculo com o coração opresso. Quantas hesitações não vencera para retornar à antiga situação, humilhando a vaidade de homem convenciona­lista e inflexível! A luz crepuscular enchia a Natureza de reflexos de ouro fulgurante. Aquele céu muito azul, a verdura agreste, as brisas caridosas da tarde, eram os mesmos. Sentia-se reviver. Sonhos e esperanças con­tinuavam, também, intangíveis. E refletia na melhor maneira de reaver a dedicação da mulher escolhida, sem humilhação para sua vaidade. Contar-lhe-ia sua desesperação, diria das suas insônias, da continuidade do imenso amor que nenhuma circunstância conseguira destruir. Embora mantivesse firme o propósito de omitir toda e qualquer alusão ao carpinteiro de Nazaré, falaria a Abigail do remorso por não lhe haver estendido mãos amigas no instante em que todas as esperanças de sua alma feminina se haviam abalado, ante o imprevisto da morte dolorosa do irmão, em circunstâncias tão amargas. Esclareceria os detalhes de seus sentimentos. Havia de referir-se à recordação indelével da sua prece angus­tiosa e ardente, quando Estevão penetrava os umbrais da morte.

Atraí-la-ia ao coração que jamais a esquecera, beijar-lhe-ia os cabelos, formularia novos projetos de amor e felicidade.

Mergulhado em tais pensamentos, atingiu a porta de entrada, identificando as roseiras em flor.

O coração batia-lhe descompassado, quando Zacarias surgiu com grande surpresa. Um abraço demorado assi­nalou o reencontro. Abigail foi objeto de sua primeira interrogação.

Com estranheza notou que Zacarias en­tristeceu.

— Pensei que algum de teus amigos já te houvesse levado a desagradável notícia - começou dizendo, enquanto o jovem buscava ouvi-lo ansioso. — Abigail, há mais de quatro meses, adoeceu dos pulmões e, para falar com franqueza, não temos qualquer esperança.

Saulo fizera-se lívido.

— Logo depois que voltou precipitadamente de Je­rusalém, esteve mais de um mês entre a vida e a morte. Em vão nos esforçamoS, eu e Ruth, para restituir-lhe o viço e as cores da juventude. A pobrezinha entrou a definhar e, em pouco tempo, acamou-se abatida. Solicitei tua presença, com ansiedade, a fim de resolvermos o possível em seu benefício, mas não apareceste. Pare­cia-me que um ambiente novo lhe proporcionaria o resta­belecimento da saúde, mas, faltaram-me os recursos para uma iniciativa mais ampla, tal como se impunha.

— Mas, Abigail fez alguma queixa a meu respeito?

— perguntou Saulo, aflito.

— De modo algum. Aliás, o regresso inesperado de Jerusalém, a enfermidade súbita e teu injustificável afastamento desta casa eram de molde a causar-nos dúvidas e receios; mas logo se verificaram melhoras positivas, após o período mais agudo da febre, e ela nos tranqüilizou a respeito. Explicou a necessidade da tua ausência, disse estar ciente dos teus muitos afazeres e encargos políticos; referiu-se com gratidão ao acolhi­mento que lhe dispensaram teus parentes e, quando Ruth, para confortá-la, qualifica de ingrato o teu procedimento, Abigail é sempre a primeira a defender-te.

Saulo quis dizer alguma coisa, enquanto Zacarias fazia uma pausa, mas nada lhe ocorreu à mente. A emoção que lhe causava a nobreza espiritual da noiva amada, paralisava-lhe as idéias.

— Apesar do seu esforço para tranqüilizar-nos — continuava o marido de Ruth —, temos a impressão de que nossa filha adotiva se encontra dominada por desgostos profundos, que procura ocultar. Enquanto podia andar, visitava os pessegueiros, à mesma hora em que costumava fazê-lo contigo. A princípio, minha mulher surpreendeu-a chorando, nas sombras da noite; mas, em vão procuramos sondar a causa de seus ínti­mos padecimentos. O único motivo que alegava era justamente o da enfermidade, que começava a minar-lhe o organismo. Mais tarde estagiou uma semana, por aqui, um pobre velho chamado Ananias. Deu-se então um fato estranho: Abigail encontrou-o em casa dos nossos ren­deiros e, todas as tardes, detinha-se a ouvi-lo horas a fio, manifestando daí para cá muita fortaleza espiritual. Ao despedir-se, o pobre mendigo deu-lhe como lembrança alguns pergaminhos com os ensinamentos do famoso carpinteiro de Nazaré...

— Do carpinteiro? — atalhou Saulo evidentemente contrariado. — E depois?

— Tornou-se dedicada leitora do chamado Evan­gelho dos galileus. Consideramos a conveniência de afastá-la de semelhante novidade espiritual, mas Ruth ponderou ser essa, agora, a sua única distração. Com efeito, desde que começou a falar no discutido Jesus Nazareno, observamos que Abigail se enchera de pro­fundas consolações. E o fato é que não mais a vimos chorar, embora se lhe não apagasse do semblante aba­tido a dolorosa expressão de amargura e melancolia. Sua conversação, daí por diante, parece haver adquirido inspirações diferentes. A dor transformou-se-lhe em con­fortadora expressão de alegria íntima.

E fala a teu respeito com um amor cada vez mais puro. Dá impres­são de haver descoberto nos misteriosos escaninhos da alma, a energia de uma vida nova.

Depois de um suspiro, Zacarias terminava:

— E, contudo, a mudança não alterou a marcha da enfermidade que a. devora devagarinho. Dia a dia, vemo-la inclinar-se para o túmulo, como flor que tomba do hastil ao sopro do vento forte.

Saulo experimentava indisfarçável angústia. Penosa emoção revolvia-lhe a alma generosa e sensível. Como definir-se? Esmagavam-lhe o espírito amargurosas inter­rogações.

Quem era, afinal, aquele Jesus que o topava em toda parte? O interesse de Abigail pelo Evangelho perseguido revelava a vitória do carpinteiro nazareno a contrastar os próprios sonhos da sua mocidade.

— Mas, Zacarias — perguntou irritadiço o doutor de Tarso —, por que não impediste semelhante contacto? Esses velhos feiticeiros percorrem as estradas dissemi­nando a confusão. Surpreende-me essa condescendência, porqüanto nossa fidelidade à Lei não admite, ou, pelo menos, nunca deverá admitir transigências.

O interpelado recebeu a recriminação com serenidade e acentuou:

— Antes de tudo, importa considerar que pedi em vão o socorro da tua presença, para orientar-me. E, além do mais, quem teria coragem de sonegar o remédio ao doente amado?

Desde que lhe vi a resignação santificada, fiz o propósito de não me referir aos seus novos pontos de vista em matéria de crença religiosa.

E como Saulo estivesse engolfado em profundas cismas, sem saber o que responder, o bom homem re­matou:

Vem comigo, verás com os próprios olhos!...

O rapaz seguiu-lhe os passos, cambaleando. As idéias baralhavam-Se-lhe no cérebro dolorido. Aquelas notícias inesperadas envenenavam-lhe o coração.

Reclinada no leito, assistida pela afeição maternal de Ruth, a moça de Corinto estampava no rosto um profundo abatimento. Muito magra, a epiderme adqui­rira a cor do marfim, mas o olhar lúcido denotava absoluta calma espiritual. Carinhosa serenidade estam­pava-se-lhe na fisionomia entristecida. De vez em quan­do, renovava-se a dispnéia com prolongada aflição, vol­tando-se então para a janela aberta, como se dali espe­rasse remédio ao seu cansaço, através das brisas frescas que chegavam do seio generoso da Natureza.

Ao vê-la, Saulo não dissimulou o seu espanto. A jovem, por sua vez, recebendo a jubilosa surpresa, to­mou-se de sincera e transbordante alegria.

Saudações afetuosas se trocaram entre ambos, en­quanto os olhos traduziam a saudade angustiosa com que haviam esperado aquele momento. O futuro rabino acariciou-lhe as mãos mimosas, que pareciam agora modeladas em cera translúcida. Falaram da esperança que os alentara, constante, antes do reencontro. Notando que eles desejavam ficar sós, para confidenciar mais à vontade, Zacarias e Ruth retiraram-se discretamente.

— Abigail! — exclamou Saulo comovidíssimo, logo que se viram a sós — abdiquei o meu orgulho e a minha vaidade de homem público para vir até aqui, perguntar se me perdoaste, se me não esqueceste!

— Esquecer-te? — respondeu ela de olhos úmidos. Por mais rude e longa que seja a estação de sol ardente, a folha do deserto não poderá esquecer a chuva benéfica que lhe deu vida. Não me fales, igualmente, em perdão, pois acaso poderá alguém perdoar-se a si mesmo?

E nós, Saulo, pertencemo-nos um ao outro para a eternidade. Não me disseste, muitas vezes, que eu era o coração do teu cérebro?

Ouvindo o timbre caricioso daquela voz amada, o jovem de Tarso comovia-se nas entranhas do próprio ser arrebatado e ardente. Aquela humildade e aquele tom de ternura penetravam-lhe o coração, reconquistando-lhe o discernimento para o caminho reto.

Guardando, entre as suas, as mãos pálidas da noiva, exclamou com um lampejo de alegria nos olhos:

— Por que dizes que “eras o coração”, se ainda és e sê-lo-ás para sempre? Deus abençoará nossas espe­ranças. Realizaremos nosso ideal. Voltei para levar-te comigo.

Teremos um lar, serás nele a rainha!...

Dominada por indefinível alegria, a noiva, que o contemplava com lágrimas, murmurou:

— Desconfio, Saulo, que os lares da Terra não foram feitos para nós!... Deus sabe quanto desejei, ardente­mente, ser a mãe carinhosa de teus filhos; como conservei o ideal acima de todas as circunstâncias, para aformo­sear tua existência com o meu carinho! Desde menina, em Corinto, vi mulheres que desbaratavam os tesouros do Céu, simbolizados no amor do esposo e dos filhinhos; e pensei que o Senhor me concederia o mesmo patrimônio de esperanças divinas, pois aguardava as bênçãos do santuário doméstico para glorificá-lo de todo o coração. Para exaltá-lo, idealizei a vida do homem amado, que me auxiliaria a erguer o altar da prole; e, assim que me chegaste, organizei vastos planos de uma vida santa e venturosa, na qual pudéssemos honrar a Deus.

Saulo escutava comovido. Nunca lhe observara ta­manha largueza de raciocínio e lucidez, naquele tom de ternura tranqüila.

Mas o Céu — prosseguiu resignada — retirou-me as possibilidades de semelhante ventura na Terra. Nos meus primeiros dias de solidão, visitava os lugares ermos, como a procurar-te, requisitando o socorro do teu afeto. Os pessegueiros de nossa predileção pareciam dizer que nunca mais voltarias; a noite amiga aconselhava-me a esquecer; o luar, que me ensinaste a bem-querer, agra­vava as minhas recordações e amortecia as minhas esperanças. Da peregrinação de cada noite, voltava com lágri­mas nos olhos, filhas do desespero do coração. Embalde procurava tua palavra confortadora. Sentia-me profundamente só. Para lembrar e seguir tuas advertências, recordava que me chamaste a atenção, à última vez que nos encontramos, para a amizade de Zacarias e de Ruth. É verdade que não tenho outros amigos mais fiéis e generosos que eles; entretanto, não lhes poderia ser mais pesada na vida, além do que sou. Evitei, então, con­fiar-lhes minhas angústias. Nos primeiros meses da tua ausência, amarguei sem consolo a minha grande desdita. Foi quando surgiu aqui um velhinho respeitável, cha­mado Ananias, que me deu a conhecer as luzes sagradas da nova revelação. Conheci a história do Cristo, o Filho de Deus Vivo; devorei o seu Evangelho de redenção, edi­fiquei-me nos seus exemplos. Desde essa hora, compreen­di-te melhor, conhecendo a minha própria situação.

Súbito acesso de tosse cortou-lhe a narrativa.

As palavras da noiva caíam-lhe no coração como gotas de fel. Nunca experimentara dor moral tão aguda. Verificando a sinceridade natural, o carinho doce daque­las confissões, sentia-se pungido de acerbos remorsos. Como pudera abandonar, assim, a escolhida de sua alma, olvidando-lhe a fidelidade e o amor? Onde encontrara tamanha dureza de espírito para esquecer deveres tão sagrados? Agora, vinha encontrá-la exânine, desiludida de realizar na Terra os sonhos da juventude. Além de tudo, o carpinteiro odiado parecia tomar-lhe o lugar no coração da noiva adorada. Naquele momento, não experimentava apenas o desejo de lhe arrasar a doutrina e os adeptos, mas sentia ciúmes dele na alma caprichosa. De que poderes podia dispor o nazareno obscuro e martiri­zado na cruz, para conquistar os sentimentos mais puros da noiva carinhosa?

— Abigail — disse comovido —, abandona as idéias tristes que poderiam envenenar os sonhos de nossa mo­cidade. Não te entregues a ilusões. Renovemos nossas esperanças. Breve estarás restabelecida. Sei que me per­doaste a morte de teu irmão, e minha família te receberá em Tarso com júbilos sinceros! Seremos felizes, muito felizes!...

Seus olhos pareciam pairar numa região de sonhos deliciosos, procurando reavivar no coração amado os seus projetos de felicidade terrena.

Ela, porém, misturando sorrisos e lágrimas, acres­centava:

Francamente, querido, eu também desejaria re­viver!... Ser tua, entretecer teus sonhos de juventude, inventar estrelas para o céu da tua existência; tudo isso constitui meu ideal de mulher!... Ah! se pudesse, buscaria os teus parentes com amor, haveria de con­quistá-los para o meu coração, ao preço de um grande afeto; mas, pressinto que os planos de Deus são diferen­tes, no que concerne aos nossos destinos. Jesus cha­mou-me para a sua família espiritual...

— Ai de mim! — exclamou Saulo cortando-lhe a palavra — em toda parte, topo expressões do carpinteiro de Nazaré! Que flagelo! Não repitas semelhante coisa. Deus não seria justo se te seqüestrasse ao meu afeto. -Quem poderia, então, como esse Cristo, interpor-se aos nossos votos?

Mas Abigail fixou-o com um gesto súplice e falou:

— Saulo, de que nos valeria a desesperação? Não será melhor inclinarmo-nos com paciência aos sagrados desígnios? Não alimentemos dúvidas prejudiciais. Este leito é de meditação e de morte, O sangue, várias vezes, já me golfou prenunciando o fim. Mas nós cremos em Deus e sabemos que esse fim é apenas corporal. Nossa alma não morrerá, amar-nos-emos eternamente...

— Não concordo — respondia ele extremamente aflito —, essas presunções são fruto de ensinamentos absurdos, quais os desse fanático nazareno que morreu na cruz, entre a humilhação e a covardia. Nunca assim foste, melancólica e desalentada; somente os sortilégios galileus podiam convencer-te de tais absurdos funestos. Mas, procura raciocinar por ti mesma! Que te deu o crucificado senão tristeza e desolação?

— Enganas-te, Saulo! Não me sinto desanimada, embora convicta da impossibilidade de minha ventura terrena. Jesus não foi um mestre vulgar de sortilégios, foi o Messias dispensador de consolação e vida. Sua influência renovou-me as forças, saturou-me de bom ânimo e verdadeira compreensão dos desígnios supre­mos. Seu Evangelho de perdão e amor é o tesouro di­vino dos sofredores e deserdados do mundo.

O jovem não conseguia dissimular a irritação que lhe vagava na alma.

— Sempre o mesmo refrão — disse confuso — in­variavelmente, a afirmativa de ter vindo para os infeli­zes, para os doentes e infortunados. Mas, as tribos de Israel não se compõem apenas de criaturas dessa es­pécie. E os homens valorosos do povo escolhido? E as famílias de tradições respeitáveis? Estariam fora da influência do Salvador?

— Tenho lido os ensinamentos de Jesus — respon­deu a moça com firmeza — e suponho compreender as tuas objeções. O Cristo, cumprindo a sagrada palavra dos profetas, revela-nos que a vida é um conjunto de nobres preocupações da alma, a fim de que marchemos para Deus pelos caminhos retos. Não podemos conceber o Criador como juiz ocioso e isolado, senão como Pai desvelado no benefício de seus filhos. Os homens valo­rosos a que te referes, os forros de enfermidades e so­frimentos, na posse das bênçãos reais de Deus, deviam ser filhos laboriosos, preocupados com o rendimento da tarefa que foram chamados a cumprir, a prol da feli­cidade de seus irmãos. Mas, no mundo, temos contra nossas tendências superiores o inimigo que se instala em nosso próprio coração. O egoísmo ataca a saúde, o ciúme prejudica o mandato divino, como a ferrugem e a traça que inutilizam nossas vestes e instrumentos, quando nos descuidamos. São poucos os que se recor­dam da proteção divina, nos dias alegres da fartura, como raríssimos os que trabalham à revelia do aguilhão. Isso demonstra que o Cristo é um roteiro para todos, constituindo-se em consolo para os que choram e orien­tação para as almas criteriosas, chamadas por Deus a contribuir nas santas preocupações do bem.

Saulo estava impressionado com aquela clareza de raciocínio. Mas a conversação exigira da enferma maior esforço e conseqüente fadiga. A respiração tornara-se difícil, e não tardou que o sangue lhe borbotasse do peito em prolongada hemoptise. Aquele sofrimento, adornado de ternura e humildade, comovia e exasperava profun­damente o noivo. Compreendeu que seria impiedoso ata­car perante a noiva aquele Jesus que lhe cumpria perseguir até ao fim. Não queria crer que a sua Abigail estivesse nas vésperas da morte. Preferia encarar o futuro com otimismo. Restabelecida, fá-la-ia voltar aos seus antigos pontos de vista. Não toleraria a intromis­são do Cristo no santuário doméstico. No esforço in­trospectivo, entretanto, concluiu que precisava dar uma trégua aos seus pensamentos antagônicos, para cogitar dos problemas essenciais da sua própria tranqüilidade. A jovem enferma, após a crise que durara minutos longos e tristes, tinha os grandes olhos serenos e lúci­dos. Contemplando-a naquela doce atitude de suprema resignação, Saulo de Tarso experimentou enternecedo­ras comoções íntimas. Seu temperamento arrebatado entregava-se facilmente às impressões extremadas.

Apro­ximando-se mais da noiva amada, tinha os olhos úmidos. Desejou acariciá-la como se o fizesse a uma criança.

— Abigail — murmurou ternamente —, não fale­mos mais de idéias religiosas. Perdoa-me! Recordemos nosso porvir de flores, esqueçamos tudo para consolidar as melhores esperanças.

E as palavras lhe borbulhavam ardentes de emo­ção. O carinho que evidenciavam era sintoma do arre­pendimento e das aspirações nobres e sinceras que lhe trabalhavam, agora, no espírito angustiado. Entretanto, como se fora presa de singular abatimento depois do esforço despendido, a jovem de Corinto estava lânguida, receando prosseguir no colóquio, em virtude dos acessos de tosse que a ameaçavam freqüentemente. O noivo, preocupado, compreendeu a situação e, apertando-lhe as mãos transparentes, beijou-as enternecido.

— Precisas repousar — disse com inflexão cari­nhosa —, não te preocupes por minha causa. Dar-te-ei de minhas próprias forças. Breve estarás restabelecida.

E, depois de envolvê-la num olhar cheio de gratidão e infinita ternura, rematava:

— Voltarei a ver-te todas as noites que possa afas­tar-me de Jerusalém, e logo que puderes voltaremos a ver o luar, lá no jardim, para que a Natureza abençoe os nossos sonhos, sob as vistas de Deus.

— Sim, Saulo — disse pausadamente —, Jesus nos concederá o melhor. De qualquer modo, no entanto, esta­rás no meu coração, sempre, sempre...

O doutor da Lei ia despedir-se, mas refletiu que a noiva nada lhe dissera com referência ao irmão. A ge­nerosidade daquele silêncio impressionava-o. Preferia ser acusado, discutir o feito com as suas penosas circunstân­cias, para que também se justificasse. Mas, em vez de reprimendas, encontrava carícias, em vez de exprobra­çÕes, uma tranqüilidade generosa, com que a meiga jovem sabia ocultar as profundas feridas que lhe iam nalma.

— Abigail — exclamou algo hesitante —, antes de partir, quisera saber francamente se me desculpaste pela morte de Estevão. Nunca mais pude falar-te das con­tingências que me levaram a tão triste desfecho; no entanto, estou convicto de que tua bondade olvidou minha falta.

— Por que te recordas disso? — respondeu-lhe es­forçando-se por manter a voz firme e clara. — Minhalma está agora tranqüila. Jeziel está com o Cristo e morreu legando-te um pensamento amistoso. Que poderia eu reclamar de minha parte, se Deus tem sido tão misericordioso para comigo? Ainda agora, estou agradecendo ao Pai justo, de todo o coração, a dádiva da tua presença nesta casa. Há muito vinha pedindo ao Céu não me dei­xasse morrer sem te rever e ouvir..

Saulo calculou a extensão daquela generosidade es­pontânea e teve os olhos úmidos. Despediu-se. A noite fresca estava repleta de sugestões para o seu espírito. Nunca meditara nos insondáveis desígnios do Eterno, como naquele momento em que recebera tão profundas lições de humildade e amor, da mulher amada. Experi­mentava na alma opressa o embate de duas forças antagônicas, que lutavam entre si para a posse do seu coração generoso e impulsivo.

Não compreendia Deus senão como um senhor po­deroso e inflexível. À sua vontade soberana, dobrar-se-iam todas as preocupações humanas. Mas começava a perquirir o motivo de suas dolorosas inquietudes. Por que não encontrava, em parte alguma, a paz anelada ardentemente? E, todavia, aquela gente miserável do “Caminho” entregava-se às algemas do cárcere, sorridente e tranqüila. Homens enfermos e valetudinários, isentos de qualquer esperança do mundo, suportavam-lhe as per­seguições com louvores no coração. O próprio Estevão, cuja morte lhe servira de exemplo inesquecível, aben­çoara-o pelos sofrimentos recebidos por amor ao carpin­teiro de Nazaré. Aquelas criaturas desamparadas goza­vam de uma tranqüilidade que ele desconhecia, O quadro da noiva doente não lhe saía dos olhos. Abigail era sen­sível e afetuosa, mas lembrava sua ansiedade feminina, a intensidade de suas preocupações de mulher, quando, eventualmente, não conseguia comparecer com pontualidade no adorável recanto da estrada de Jope. Aquele Jesus desconhecido proporcionara-lhe forças ao coração. Se era inconteste que a enfermidade lhe extinguia a vida aos poucos, também evidente era o rejuvenescimento das suas energias espirituais. A noiva falara-lhe como que tocada de novas inspirações; aqueles olhos pareciam con­templar interiormente a paisagem de outros mundos.

Essas reflexões não lhe deram ensejo à admiração da Natureza. Reentrando em Jerusalém, guardou a impres­são de que despertava de um sonho. À sua frente dese­nhavam-se as linhas majestosas do grande santuário. O orgulho de raça falava-lhe mais forte ao espírito.

Era impossível conferir superioridade aos homens do “Cami­nho”. Bastou a visão do Templo para que encontrasse em si mesmo os esclarecimentos que desejava. A seu ver, a serenidade dos discípulos do Cristo provinha, natural­mente, da ignorância que lhes era apanágio. Geralmente, os que se afeiçoavam aos galileus eram, apenas, criaturas que o mundo desclassificara pela decadência física, pela educação falha, pelo supremo abandono. O homem de responsabilidade, por certo, não poderia encontrar a paz a preço tão vil. Figurarase-lhe haver resolvido o pro­blema. Continuaria a luta. Contava com o breve restabe­lecimento da noiva; logo que possível desposaria Abigail e, com fácilidade, dissuadi-la-ia dos fantasiosos quão peri­gosos engodos daqueles ensinamentos condenados. Do âmbito do seu lar, feliz, prosseguiria na perseguição de quantos esquecessem a Lei, trocando-a por outros prin­cípios.

Esses raciocínios lhe acalmaram, de certo modo, as inquietações.

Mas, no dia seguinte, manhã alta, um mensageiro de Zacarias golpeava-lhe a alma com uma notícia grave:

Abigail piorara, estava agonizante!

Incontinenti, tomou o caminho de Jope, ansioso de arrebatar a bem-amada ao perigo iminente.

Ruth e o marido estavam desolados. Desde a ma­drugada, a enferma caíra em penosa prostração. Os vômitos de sangue sucediam-se ininterruptos. Dir-se-ia que só esperava a visita do noivo para morrer. Saulo escutou-os, lívido como cera. Mudo, dirigiu-se para o quarto, onde o ar fresco penetrava embalsamado, tra­zendo a mensagem das flores do pomar e do jardim, que pareciam enviar despedidas às mãos delicadas e carinho­sas que lhes haviam dado a vida.

Abigail recebeu-o com um raio de infinita alegria nos olhos translúcidos. O tom de marfim do semblante abatido acentuara-se rapidamente. O peito arfava-lhe precípite, o coração batia sem ritmo. Sua expressão geral evidenciava a derradeira agonia. Saulo aproximou-se angustiado. Pela primeira vez na vida, sentia-se tré­mulo diante do irremediável. Aquele olhar, aquela palidez de mármore, aquela aflição tocada de angústia. anuncia­vam-lhe o desenlace.

Depois de inquiri-la, quanto à razão daquele abatimento inesperado, tomou-lhe as mãos fláci­das, banhadas do suor frio dos moribundos.

— Como foi isso, Abigail? — dizia perturbado —ainda ontem, deixei-te tão esperançado... Pedi sinceramente a Deus te curasse para mim!...

Extremamente sensibilizados, Zacarias e sua mulher afastaram-se.

Vendo que a noiva tinha imensa dificuldade em expor as últimas idéias, Saulo ajoelhou-se a seu lado, cobriu-lhe as mãos de beijos ardentes. A agonia dolo­rosa parecia-lhe o sofrimento injustificável, que o céu houvera enviado a um anjo. Ele, que trazia o espírito ressecado pela hermenêutica das leis humanas, sentiu que chorava intensamente pela primeira vez. Lendo-lhe a sensibilidade através das lágrimas que lhe desciam silenciosamente dos olhos, Abigail esboçou um gesto de carinho com dificuldade infinita. Conhecia Saulo e comprovara-lhe a rigidez do caráter. Aquele pranto revelava o calvário íntimo do bem-amado, mas demonstrava, igual­mente, o alvorecer de uma vida nova para o seu espírito.

— Não chores, Saulo — murmurou dificilmente a morte não é o fim de tudo...

— Quero-te comigo em toda a vida — replicou o rapaz desfeito em lágrimas.

— E, contudo, é preciso morrer para vivermos ver­dadeiramente acrescentava a agonizante, cortando as palavras com a respiração opressa. — Jesus nos ensinou que a semente caindo na terra fica só, mas se morrer dá muitos frutos!... Não te rebeles contra os desígnios supremos que me arrebatam do teu convívio material! Se nos uníssemos pelo matrimônio, talvez tivéssemos mui­tas alegrias; teríamos um lar com os nossos filhos; mas destruindo nossas esperanças de uma felicidade passa­geira na Terra, Deus nos multiplica os sonhos genero­sos... Enquanto esperarmos a união indissolúvel, auxiliar-te-ei de onde estiver e te consagrarás ao Eterno, em esforços sublimes e redentores...

Via-se que a agonizante movimentava recursos su­premos para pronunciar as derradeiras palavras.


  • Quem te deu semelhantes idéias? — perguntou o jovem ralado de angústia.

- Esta noite, depois que partiste, senti que alguém se aproximava enchendo o quarto de luz... Era Jeziel que vinha ver-me... Ao avistá-lo, lembrei-me de Jesus no inefável mistério da sua ressurreição. Anunciou-me que Deus santificava os nossos propósitos de ventura, mas que eu seria levada ainda hoje à vida espiritual. En­sinou-me a quebrar o egoísmo de minhalma, encheu-me de bom ânimo e trouxe-me a grata nova de que Jesus ama-te muito, tem esperanças em ti!... Refleti, então, que seria útil entregar-me jubilosa às mãos da morte, pois, quem sabe, se ficasse no mundo não iria perturbar a missão que o Salvador te destinou... Jeziel afirmou que nós te ajudaremos de um plano mais alto! Por que, então, deixarei de ser tua companheira?... Seguirei teus passos no caminho, levar-te-ei onde se encontrem nossos irmãos do mundo, em abandono, auxiliarei teus racio­cínios a descobrir sempre a verdade!... Ainda não aceitaste o Evangelho, mas Jesus é bom e terá algum meio de nos unir os pensamentos na verdadeira com­preensão!...

O esforço da moribunda havia sido imenso. A voz extinguira-se-lhe na garganta. De seus olhos, profun­damente lúcidos, as lágrimas corriam abundantes.

— Abigail! Abigail! — gritava Saulo desesperado.

Mas, após longos minutos de angustiosa ansiedade, ela dizia num arranco supremo:

— Jeziel já veio ... buscar-me...

Instintivamente, Saulo compreendeu que era chega­do o momento fatal. Em vão chamou pela moribunda, cujos olhos se empanavam; debalde lhe beijou as mãos geladas, agora cobertas de um palor de neve translúcida. Como louco, gritou por Zacarias e Ruth. Esta, soluçante, desfeita em pranto, abraçou-se a Abigail que, desde a morte do filho, resumia todo o seu tesouro maternal.

A agonizante fixou o olhar, respectivamente, em cada um, como a evidenciar amoroso agradecimento. Depois... uma só lágrima silenciosa foi o seu último adeus.

Do jardim próximo chegavam perfumes brandos; o céu crepuscular tonalizava-se de nuvens aurifulgentes, enquanto os pássaros em recolhida cruzavam os ares alegremente...

Pesada amargura abatera-se sobre a mansão da estrada de Jope. Alara-se ao céu a filha dileta, a noiva amada, a amiga carinhosa das flores e dos passarinhos.

Saulo de Tarso ali se deixou ficar mudo, estarrecido enquanto Ruth, lavada em lágrimas, cobria de rosas a morta adorada, que parecia dormir.

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