Paulo Pereira de Castro Apontamentos de História Antiga



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Anexo I
Paulo Pereira de Castro

Apontamentos de História Antiga

primeiro semestre 1975, DH-FFLCH-USP

(anotações registradas por Francisco Murari Pires)

HISTÓRIA DA GRÉCIA




i. 4 de Março de 1975

Especialmente considerando-se a História grega entre os séculos VI e IV ªC. costuma-se distinguí-la nitidamente da História oriental, assim tomando por base que elas respeitem a faixas cronológicas independentes. Todavia, a História da Grécia na Idade do Bronze situa um paralelismo cronológico com a oriental, de modo que seu pleno significado só é alcançado quando quando estudada juntamente com aquela.

História da Grécia da Idade do Bronze e a da Idade do Ferro tendem a serem consideradas em termos de ruptura entre uma e outra, o que decorreria não apenas da limitação das fontes, mas, sobretudo, de uma diferença dos problemas históricos a elas respeitantes.

História da Grécia na Idade do Bronze deve antes ser entendida como História do Egeu na Idade do Bronze, de que a compreensão se constitui por meio do exâme do papel da área egéia como área intermediária entre os focos de desenvolvimento de civilização do Bronze no Médio Oriente e Europa central. Há, pois, que se correlacionar ambos esses âmbitos da História da Idade do Bronze, o oriental e o centro-europeu, articulando-os pela abordagem do papel intermediário desempenhado pelos povos do Egeu.

A pobreza dos dados arqueológicos atinentes a essa problemática enseja uma prova de que a inter-relação entre essas áreas se fazia a nível não oficial, mas sim por meio da atuação de elementos mal colocados socialmente. Os palácios só eventualmente trazem atestados de um inter-relacionamento, o qual era realizado especialmente por elementos desgarrados, de cuja atuação resultaram indícios de “reservas” encontradas nas áreas da civilização do bronze centro-européia: espécie de esconderijos em que artesãos ou comerciantes ambulantes guardavam sua maleta em situação de perigo, contendo recipientes com produtos metalúrgicos em fase de elaboração, ferramentas de metalurgia, e produtos de troca correntes na Europa central e no Mediterrâneo oriental.

Pela existência de tais elementos dedicados ao comércio inter-grupal constata-se que havia um sistema organizado de trocas culturais entre as civilizações constituintes da Idade do Bronze. Paralelamente a esses elementos ambulantes, através de indícios frágeis, conclui-se também a existência de “prospectores” minerais (seguramente, elementos das áreas civilizadas do Oriente destacados na Europa central). Embora seja pequeno o número de ocorrências documentais, tais elementos estão em correlação com a propagação de formas de objetos e técnicas metalúrgicas, assim desempenhando papel importante na difusão da cultura.

Graças ao cotejo dos desenvolvimentos históricos dessas sociedades – a dos velhos centros de civilização oriental, de um lado, as áreas marginais na Europa balcânica e central, de outro – pode-se detetar a atuação de trocas culturais que afetaram a própria concepção orientadora da constituição das elites políticas e militares de ambas consoante o paralelismo evolutivo dos sistemas políticos e militares vigentes durante a Idade do Bronze em ambas as áreas.

A expansão de sítios de colônias dos velhos impérios da Idade do Bronze (Egito e Mesopotâmia) apresenta sucessivas formas de realização que transparecem mesmo entre povos com que não se estabelece nenhuma relação precisa documentada.

Até por volta de 2000 aC, durante a Antiga Idade do Bronze, os velhos impérios realizam sua complementação econômica através de uma relação unilateral com as áreas externas, promovendo campanhas de pilhagem nas quais o elemento local é simplesmente ignorado (só levado em conta quando oferece resistência). Tais campanhas levaram a um mecanismo militar que se baseia na utilização de povos bárbaros para o serviço de organização das caravanas necessárias àquelas expedições. O prolongamento dessa prática resultou numa sociedade especializada no sistema de caravanas associando o comércio a longa distância, a pecuária nômade e a estrutura militar.

Já na Média Idade do Bronze (2000-1600) tem-se uma época em que esses elementos assumem importância crescente, assim surgindo como instâncias atuantes na história dos velhos impérios, gerando época de crises, de grande instabilidade para os impérios agrários do Oriente.

O processo de superação dessas crises resultou, na Idade Recente do Bronze, em novo tipo de monarquia de base estritamente militar e supra-nacional, especialmente recorrendo a elementos recrutados fora das fronteiras. Os monarcas amparam-se uns aos outros, quase que constituindo uma classe de monarcas. Assim, o tratado egípcio-hitita prevê assistência recíproca e ação comum contra os casos de felonia em seus respectivos sistemas de vassalagem. Nesse tipo de monarquia o mercenário estrangeiro torna-se o sistema, e daí surge a crise em que entra em colapso a civilização do Bronze na área do Egeu.
Constata-se na geografia desse mundo histórico o confronto de dois substratos étnicos diferentes: um, o mais antigo, anatólio-egeíco-asiânico e, dois, os de língua grega (indo-europeu). O primeiro é atestado na tradição grega e ilustrado pela toponímia: nomes terminados por _nda, _nthos, _ttos, _ssos, a evidênciar língua não grega que dominou em grande parte da Grécia. Tradicionalmente recorreu-se à explicação de tese invasionista para tal dualidade histórica na composição da população grega. O primeiro grupo precedeu os povos de língua indo-européia, com migrações feitas em períodos de tempo extensos, do Neolítico ao Médio Império do Bronze, momento em que começam a aparecer os indo-europeus. Concebida em termos, então, de oposição étnica, buscou-se, tomando por base constatações arqueológicas, analisar a constatação arqueológica de que uma civilização cretense de base egeo-anatólica foi a principal responsável pela expansão da civilização do Bronze no Egeu, mas que depois cedeu terreno à civilização micênica, que por sua vez representaria a ascensão do elemento indo-europeu.

Tal oposição radical entre esses dois grupos, porém, tem sido criticada, pois, estudos lingüísticos reconhecem certo parentesco nas línguas do primeiro e do segundo grupo. Em vez, portanto, de renovação da população pelo aparecimento de hordas indo-européias, ter-se-ia a renovação da língua e da civilização na área do Egeu e da Grécia continental concomitante com a dinâmica das relações do Egeu com a civilização do Bronze no Oriente. Inicialmente tais relações se estabelecem através dos Balcãs (Vardar e Moldava), mas depois, terceira Idade do Bronze, a conexão se fez ao longo do Adriático-Norte da Itália. A formação dinâmica das populações gregas se dá, então, por meio de um sistema variado de relações com os povos do Oriente, embora não se exclua a existência de movimentos de migração, de modo que são antes aquelas relações que explicam estes movimentos, preferentemente a por eles serem explicadas.

Assim pode-se pensar o período pré-helênico da história grega como desenvolvimento de um processo de formação dos povos de língua grega, e não de sua entrada como tais, como identidades linguísticas já prontas e constituídas, no horizonte histórico do mundo grego. Não há oposição radical entre pré-helenos e helenos, antes tratam-se de etnias aparentadas: dialetos gregos se constituem na área do mundo grego, em que se dá a correlação desses dialetos com outros orientais. As diferenciações linguístico-culturais constituem-se ao longo de eixos de atividade comercial, obscuramente realizada por elementos marginais, portadores de técnicas e promotores de comércio. A renovação dos antigos estratos lingüísticos resulta então na constituição dos dialetos gregos. Assim, os movimentos de invasão são explicados pelas correlações atuantes entre os povos, antes do que constituam eles a instância intelectiva que as explique.

Os deslocamentos de população associados a esse processo decorrem de longas fases de contato, por que se firmam experiências prévias das áreas ocupadas. Também as invasões germânicas no Baixo Império romano mostram processo lento sem limite determinado, amplo e duradouro.

ii. 11 de março de 1975
O desenvolvimento histórico da Grécia pré-helênica anterior ao século XII ªC. deve ser explicado em termos dos contatos culturais entre centros de comércio, antes do que por meio de mecanismos de invasões militares sucessivas. Estes últimos projetam a existência de uma nação indo-européia originalmente localizada pela Eurásia. Não houve tal nação. A idéia de sua suposta língua comum, o indo-europeu, da qual se ramificariam todos seus componentes constituintes, não é mais aceita. Pensa-se, antes, em um processo de indo-europeização de línguas diferentes em amplo âmbito geográfico. Assim, sem excluir a participação de movimentos coletivos, busca-se ressaltar que o processo de formação lingüística não decorre necessariamente de renovações populacionais, conhecendo-se alterações antropológicas raciais sem mudança de sistema lingüístico, e inversamente alterações lingüísticas não acompanhadas por mudanças físico-antropológicas. Os mecanismos invasionistas não são suficientes para explicar o mapa lingüístico.

A perspectiva de compreensão da história da Grécia abre-se assim para entender o desenvolvimento local em correlação com a ambientação mais ampla ensejada pelos contatos com os povos vizinhos da área grega. O processo é marcado pela influência alternada de dois focos de irradiação cultural: as civilizações antigas do Próximo Oriente e a civilização do bronze na Europa central. A área do Egeu configura-se como foco de formação civilizatória, com as mudanças culturais nela ocorridas sendo em grande parte influenciadas pela atuação desses dois focos, mas também, por outro lado, similarmente atuando em ambas.

Dadas as semelhanças culturais vigentes durante o Neolítico no Egeu, Ásia Menor e norte da Síria, sugeriu-se, para explicar o povoamento da área egéia, a ocorrência de um movimento invasionista de povos provenientes destas duas últimas áreas para aquela. As pesquisas arqueológicas na área do Egeu revelaram povoamentos anteriores ao Neolítico, com restos de ocupação paleolítica e sobretudo evidências também de neolítico pré-cerâmico. O recurso ao mecanismo invasionista não é necessário para se explicar o povoamento neolítico da região egéia, o que não implica afirmar que não tivessem havido invasões. Porém, dado que a Grécia continental, as ilhas do Egeu e o litoral da Ásia Menor apresentam desenvolvimentos de civilização neolítica autônomos, se bem que guardando traços em comum com a Síria e a Ásia Menor, tendeu-se, no quadro da explicação invasionista, a considerá-los como três focos culturais distintos de civilização neolítica. Melhor compreensão pode ser alcançada entendendo-se antes que o Egeu participa da mesma área cultural que envolve também a Ásia Menor e a Síria durante a civilização neolítica. De modo que as semelhanças culturais entre o Egeu e o norte da Síria possam ser vistos no panorama de interação dos elementos de contatos civilizatórios polarizados basicamente pelo comércio sistemático atuante nessa área, de que o ítem básico era a obsidiana, com ricas jazidas em Melos.

A introdução da civilização do metal no Egeu está correlacionada com a atuação dos focos de civilização metalúrgica no Próximo Oriente, especialmente Síria e Egito. Há localidades neolíticas que conheceram, por processo de transição natural, estágios de produção do metal, sem que nelas se constatem interrupções de natureza arqueológica. Muitas outras localidades que também acusam a presença do metal constituem ocupações novas, e em algumas delas tem-se a eliminação de antigas ocupações neolíticas suplantadas pela civilização do metal. Assim, do surgimento da civilização do metal no Egeu têm-se vestígios de ruptura violenta em alguns casos ao lado de desenvolvimentos contínuos em outros. O mais significativo é que o desenvolvimento da civilização metalúrgica no Egeu comporta paralelismo com o das civilizações da Síria e Ásia Menor, de modo que as relações explicativas da homogeneidade cultural nessa ampla área explicam também a passagem egéica para a civilização do metal em termos das interações de contatos assim estabelecidos, o que necessariamente não exclui a intervenção de grupos que utilizam a violência para a ocupação. Ter-se-ia, portanto, uma área cultural com elevado gráu de homogeneidade até a introdução da civilização do metal, sempre renovada por constantes contatos, os quais podem pressupor trocas de população, ou pacífica ou violenta, de que não dispomos de informações suficientes para decidir qual delas fosse a predominante e eficiente.

Em decorrência da propagação da civilização do metal no Egeu, ocorre uma diferenciação cultural na Grécia continental, constituindo-se uma fronteira entre o norte da Grécia e a Grécia central. O norte da Grécia resiste à propagação da cicivilização do metal, permanecendo neolítico, mas rompendo e reagindo contra a fase neolítica anterior, cujos centros são destruídos (sinais de incêndio atestados) dando lugar a estabelecimentos de novo tipo, fundamentalmente sedes fortificadas com organização militarizada da população. Já a Grécia central meridional mais as ilhas do Egeu desenvolvem a civilização dos metais.

A Grécia setentrional, de fortes características militares mantêm, pelo que indicam os tipos de cerâmica, contatos predominantemente com as populações do Danúbio, antes do que com as da área do Egeu. Pensou-se em invasões do norte da Grécia por elementos provenientes da Europa central, porém, os dados do desenvolvimento neolítico na Tessália são coincidentes com os do neolítico da Europa central, a inviabilizar a suposição de anterioridade desta última. O desenvolvimento autônomo da cultura local pela mudança da orientação de seus contatos não pressupõe necessariamente um processo de invasão populacional.

No bojo dessa mudança cultural ocorrida na civilização neolítica da Tessália, alguns historiadores entrevêm a predominância de um tipo matriarcal de organização social na primeira fase em que ela estava ligada ao Egeu, contra outra de tipo patriarcal na fase posterior. Tal tese, porém, tem sido mais recentemente contestada.

No decorrer do segundo milênio constata-se, paralelamente ao desenvolvimento da civilização do metal, que os esforços expansionistas dos centros de civilização metalúrgica mobilizaram o envolvimento de populações marginais bárbaras na ação de exploração e saque sistemático das riquezas naturais por extensas áreas, o que constituiu um incentivo para a militarização dos grupos tribais nelas sediados e desenvolvimento de sua economia a serviço das necessidades comerciais dos velhos impérios, especialmente no que respeita ao transporte de matérias primas, com esta atividade comercial, de seu lado, reciprocamente apoiada naquela forte organização militar. Associado a esse processo, pelo que podemos inferir por similaridade com as diferenciações ocorridas em relação ao Egito e à Mesopotâmia, dá-se o desenvolvimento das atividades pecuárias, com os povos nômades realizando concomitantemente pastoreio e comércio também na Grécia setentrional. O surgimento da populações de língua indo-européia na área asiática estaria assim correlacionado com esse processo de mobilização de populações por influência dos centros mesopotâmicos.

O esboço de “fronteira” entre o norte da Grécia e a Grécia central pode também ser caracterizado em termos da existência de dois sistemas de intercomunicação comercial atuantes respectivamente na Grécia meridional e na Grécia central, com a primeira dessas áreas interagindo com as Cíclades e a segunda com Tróia e região dos estreitos, assim evidenciados pelos diferentes padrões de cerâmica que nelas se constata. Os contatos da Grécia central com Tróia faziam-se por mar, com pontos de apoio na costa trácia por necessidades da navegação. As colônias litorâneas da civilização do Bronze na Calcídica, que constituem pequenos pontos de apoio por meio de portos fortificados, sugerem que as relações entre a civilização do metal e a neolítica do norte da Grécia fossem violentas. Apesar, entretanto, desse padrão de violência, os centros calcídicos tornam-se foco de difusão civilizatório na área trácia, cuja influência alcança até o Épiro.

Por volta de 2000 ªC ocorre toda uma série de modificações no Egeu que refletem transformações mais gerais abrangendo os velhos impérios do Próximo oriente, assim marcando o fim da Idade Antiga do Bronze e início da Média: no Egito, o fim do Antigo Império e, na Mesopotâmia, o fim da civilização suméria com o declínio da III Dinastia de Ur.

A Média Idade do Bronze, por volta de 2000 a 1600, se caracteriza pelo desenvolvimento crítico tomado pelo relacionamento entre os velhos impérios e as populações bárbaras, tanto no Egito quanto na Mesopotâmia, levando às invasões de povos bárbaros pastores que serviam à expansão comercial na fase anterior a que estão associadas a modificações internas muito profundas na organização desses impérios, de que resultará a formação de Estados militarizados na Idade Recente do Bronze, cuja expressão mais alta é a realeza egípcia da XVIII à XX Dinastias. A ampliação da penetração dos povos de velha civilização nas áreas bárbaras está relacionado com esse processo e polarizou a organização de um vasto sistema de comércio a longa distância visando ao abastecimento de metais (estanho e cobre), com toda a Europa tendo grande participação nesse comércio.

O Egeu, no decorrer da Média Idade do Bronze, conhece período de instabilização e agitação. Nele, Creta se destaca como centro de atuação civilizatória associada à concentração progressiva de sua população em Cnossos. O desenvolvimento da civilização em Creta é marcado pelo surgimento dos “grandes palácios”, assinalando a forte organização monárquica nela vigente. Essa polarização do desenvolvimento de Creta em função de suas interações na área do Egeu dá-se paralelamente ao período em que ocorrem sucessivas alterações culturais na Grécia central, as quais levaram à fusão dos elementos centro-meridionais com os setentrionais do continente grego.

Por volta de 1900, rompe-se a “fronteira” que separava o norte da Grécia da central e meridional. Tróia sofre destruição violenta, dando lugar ao surgimento de Tróia VI. Tróia VI é marcada, ao que entendem certos autores, por um tipo de cerâmica conhecida como “miniana”, que também ocorreria na Grécia central, fato este, entretanto, contestado por outros. Alguns insistem que essa cerâmica, cuja confecção imita a dos artigos de cobre, pressupõe o desenvolvimento de uma civilização que não conhece a indústria dos metais, imitando-os, pois, de áreas vizinhas. Tal seria a civilização dos povos do norte da Grécia durante o Neolítico. Insistem também em que a fusão dos elementos do norte da Grécia com os da Grécia central decorreria de movimento de invasão maciça de povos da primeira sobre a segunda. Já outros autores apontam grandes semelhanças entre a cerâmica miniana e a de origem anatólia.

Há traços de ruptura com a civilização do Bronze anterior, cuja arquitetura característica na área do Egeu-Anatólia apresentava um padrão de plantas retangulares, com cômodos, espécie de claustros, dispostos em redor de uma sala central. Os tetos planos em terraço são próprios de regiões secas. Já a nova arquitetura correlacionada com o surgimento da cerâmica miniana apresenta casas “absidais”: arredondamento das extremidades, sinais de postes formando uma linha central, e teto em duas águas. Tipo de construção, pois, correspondente à de “cobertura com palha”, própria de clima frio. Pela evolução deste padrão de casas absidais resultam casas retangulares apoiadas em sistema de estacas que pressupõem tetos do mesmo tipo. Nos dois casos, retangular e absidal, o fogão é localizado no centro da construção, num tipo primitivo de mégaron.

Por entenderem que o mégaron pressuporia climas chuvosos, alguns autores supõem que fosse característico junto às populações nórdicas. Assim, pensam também que os templos gregos mais arcaicos, com forte inclinação do telhado, se prestariam ao melhor escoamento da neve. Daí a tese que explica tais mudanças devido a uma invasão de povos setentrionais. A arqueologia da Ásia Menor, entretanto, revela que o mégaron é característico mégaron é padrão característico na Anatólia desde o Bronze Antigo, assim abalando as convicções das teses de um invasionismo nórdico.

A Média Idade do Bronze, que se extende até por volta de 1600, conhece sucessivas instalações violentas associadas à nova arquitetura, frequentemente correlacionada com o novo padrão de confecção cerâmica. Na Antiga Idade do Bronze, o sítio de Lerna constitui-se como centro de povoamento que se desenvolve por organização monárquica com concepção de Estado de tipo urbanizado, como o indicia a dita “Casa das Telhas”, cujas proporções assinalam a existência de Estado organizado com recursos próprios. Por fins da Média Idade do Bronze tem-se a destruição da Casa das Telhas, dando lugar ao aparecimento de um túmulo circular do mesmo tipo dos que se desenvolveram em Micenas, cuja riqueza assinala que sejam túmulos reais.

Tradicionalmente a historiografia tem interpretado esse processo sucessivo de extensão da arquitetura absidal associada à cerâmica miníana como ativado por série de movimentos invasionistas. Primeiro, por inícios da Média Idade do Bronze (~1900), os jônios identificariam tais povos invasores; a seguir, por volta de 1700, os aqueus e eólios. Em Creta, a destruição dos grandes palácios por volta de 1700, causada por terremotos ao que entende a maioria dos arqueólogos, é também frequentemente atribuída por outros especialistas á uma invasão aquéia. Assim, as grandes alterações de povoamento ocorridas na Grécia da Média Idade do Bronze têm sido compreendidas em termos de uma série de destruições violentas resultantes dessa série de movimentos invasionistas, dando lugar a novas ocupações caracterizadas pela arquitetura absidal com mégaron primitivo associada à cerâmica miniana, e que seriam responsáveis pela conformação dos vários grupos dialetais que conhecemos da Grécia clássica.

A arqueologia da Ásia menor, entretanto, revela que os traços culturais assim atribuídos ao fenômeno das invasões ocorrem, todavia, já caracteristicamente naquela área. De modo que, embora se possa admitir alguns contatos violentos sob a forma de grupos invasionistas, há que se pensar antes em termos do rompimento da antiga fronteira num processo de homogeneização cultural das áreas antes individuadas setoralmente.

Por volta de 1600, Creta, sob a liderança de Cnossos, exerce marcada influência sobre toda a área do Egeu (ilhas e Grécia continental), a ponto de se pensar em um domínio político cretense sobre o mundo grego. Juntamente com tal presença cretense nas áreas gregas, desenvolve-se um intenso comércio da Grécia com a Europa central, o qual tem como principal foco de interesse a produção de metais centralizada na área do médio Danúbio e também em regiões mais remotas na península ibérica e ilhas britânicas.

O âmbar, material precioso valorizado como talismã e que ocorre naturalmente em ricas jazidas na área do Báltico, conhece grande difusão na Europa e Grécia continental, então instaurando-se um grande eixo comercial que liga a área báltica ao Mediterrâneo. No decorrer da Idade Recente do Bronze constata-se um desenvolvimento inesperado em que áreas até então retardadas culturalmente assumem posição de grande iniciativa cultural, fenômeno este que pode estar correlacionado com o processo de formação da língua grega associado à mobilização humana envolvida nesse eixo comércial centrado no âmbar. Dado que grande série de elementos aproxima a língua grega da germânica, da celta e da umbro-sabélica em contraposição às formas mais arcaicas do sistema lingüístico indo-europeu (latim, hitita, indo-ariano), pode-se pensar que aquele fenômeno articulasse interações abrangendo a Grécia central, a civilização apenínica na Itália, populações proto-germânicas na Escandinávia, e povos celtas. A constituição do mosaico de dialetos gregos não se explicaria, portanto, como formas já diferenciadas trazidas de fora para a área da civilização grega por unidades invasoras, antes corresponderiam à propagação dos elementos de civilização da área grega para a Europa setentrional na constituição de elites relacionadas com o comércio de longa distância que moldaram bases populacionais em várias áreas. Há casos em que essas eleites foram absorvidas pela população local, consituindo quase uma regra nas áreas em que a escrita fixava a língua local (área semita, hurrita). Porém, no mundo bárbaro indo-europeu em que a língua não fora fixada pela escrita, o indo-europeu revelou-se a língua apropriada para a fixação dos elementos da cultura oral, iletrada, como língua de caráter sintético de eficiência mnemônica.

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