Paulo Pereira de Castro Apontamentos de História Antiga



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, exaltavam os feitos heróicos de seus ancestrais porque proclamassem as mais nobres pretensões hegemônicas de sua cidade no mundo grego por tantas provas quer de virtuosa retidão na defesa dos ideais de piedosa justiça quer de primorosa bravura guerreira em prol da causa comum da liberdade helênica, assinala-se a memória de uma guerra travada contra os trácios, um desses povos bárbaros que, discursivamente associados aos persas e aos citas, eram então por eles estigmatizados por imagens de acendrada natureza despótica tão mais terrível quão aliada a considerável poderío de agressão.42 Tal guerra ocorrera nos primórdios da história da cidade, em tempos heróicos, quando os atenienses eram ainda governados por reis.

Era então o reinado de Erecteu na Ática. Figura de ancestralidade mítica que, em par com Cécrope, um seu antecessor, projetava através da linhagem régia o especial reclamo da autoctonia ateniense: ambos seres saidos do chão, paridos da terra fecunda.43 Primeiro Cécrope, de natureza ctônia mais primitiva conformada por composição corpórea dual, hibridismo de figura inferior serpentina com superior humana. Depois, Erecteu, já evoluído por corpo apenas humano44, mas também por princípio com destino régio ainda associado à serpente: nem bem nascido, a Deusa, Atena, o recolhera do regaço térreo, e o encerrara oculto em um cesto, lá bem guardado e defendido por serpente deposta a seu lado.

As histórias míticas projetavam, por esses termos míticos, a sagrada identidade política ancestral ateniense lembrando a intervenção da graça de sua especial divindade políade. Mas narrativas míticas que guardavam também a memória de como, além da terra (geratriz), cuidara do herói outra mãe, esta segunda entretanto virgem, de modo a bem resguardar-se o fato mítico da modalidade precípua de seu ser divino! Modo ambíguo de narrar uma diluída memória mítica de gênese do herói por hierogamia procriadora, episódio inaugural de sua história que assinala já um princípio de fundamentação do poder régio.

Consoantemente também atribuição de um pai divino do herói, Hefesto, apropriada figura de amante frustrado de uma figura de deusa de virgindade renitente: bem a perseguira ávido de cópula, mas ela furtou seu corpo à penetração do macho, cujo esperma ejaculado desceu suas coxas, terminando esparramado ao chão. Assim humedeceu o solo térreo, de que germinou Erecteu.45 E história mítica tanto mais apropriada quanto associava especiais divindades patronas das artes, Atena e Hefesto, como princípios divinos do destino tecnológico-artesanal de Atenas.46 Mas, paralelo ao pai divino, os mitos da realeza heróica memorizam também seu duplo humano, Pandíon, assim complicando e confundindo os enredos míticos pelo acúmulo de figuras régias nas crônicas das listas reais atenienses.47

Então, no reinado de Erecteu em Atenas, sobreveio a Guerra com Elêusis. A memorização narrativa do episódio não explicitou mais detidamente as razões específicas do confronto bélico entre os dois reinos.48 Apenas Isócrates tece vaga alusão a uma reiterada disputa de posse, lembrando associações com o tema mítico do confronto entre Atena e Poseídon, divindades antagônicas a reclamarem o estatuto políade sobre Atenas: diz-se que Eumolpo, dado por filho do deus, viera, no comando das forças de Elêusis, apoderar-se do reino que por direito lhe cabia, pois proclamava a prioridade do título de posse paterna, primeva relativamente à usurpação perpetrada pela deusa.49

Os aspectos privilegiados pela memorização do acontecimento celebravam antes os feitos virtuosos então consumados, a projetarem tanto exemplos da dedicação cívica modelar porque se distinguiam os heróis ancestrais atenienses. Assim já no Erecteu de Eurípides, por volta da penúltima década do séc. V50, canta-se a grandeza de alma e espírito público da família real de Atenas, toda ela concorde a submeter seus interesses e cuidados pessoais ao primado dos ideais públicos que justamente impõem o dever de sacrifício. Erecteu, rei piedoso a zelar o bem de seu país, face à ameaça daquela guerra ruinosa, dirigira consulta ao oráculo inquerindo-o a via da salvação. O deus lhe respondera que a condição de princípio da vitória requeria o sacrifício de uma filha. Praxítea, a rainha, mais a filha então eleita, em harmonia com a deliberação régia, acataram reverentes a ordem divina. Por laços de estreita solidariedade fraterna, as duas outras filhas do rei reiteraram mais honrosos sacrifícios, compartilhando assim a glória do feito.51

Travado o combate, Erecteu matou em duelo Eumolpo. Tal era a tradição consagrada em Atenas a exaltar a obra guerreira de seu rei: junto ao templo de Atena, no plaino entre o Erecteíon e os Propileus, duas grandes estátuas de bronze fixavam a imagem de seu confronto.52 Tradição, entretanto, contestada por Pausânias, que as contemplara lá na Acrópole: tradições melhores, argüiu o erudito viajante, identificavam antes Imarado, filho de Eumolpo, como o opositor morto por Erecteu. Eliminação do adversário maior, ou mesmo de seu filho, feito bélico que bem distinguia a fama heróica de Erecteu em Atenas, a elegê-lo como um dos dez epônimos consagrados pela reforma da divisão tribal clistênica de fins do séc. VI.53 Mas Eumolpo era filho de Poseídon, e a vingança do deus não se fez tardar: os golpes do tridente marinho alcançaram Erecteu, então tragado pelo solo.54 Distinção, entretanto, de morte do herói por ação divina que justamente o sacraliza: Erecteu é associado cultualmente com aquele deus, com os atenienses dispondo oficialmente um sacerdote de Poseídon Erecteu, e a este ofertando condizentes sacrifícios55 E lá ao local decisivo do combate costumavam conduzir procissões nas Cirofórias, liderados pelo sacerdote de Poseídon Erecteu em par com a sacerdotisa de Atenas Polias.56Memórias de discursos etiológicos que, narrando os episódios da guerra de Erecteu contra Eumolpo, também arrazoam os princípios míticos conformadores da ordem sacra institucional de Atenas.

Mas, nessa guerra, a vitória ateniense fora assegurada mormmente pelo concurso do apoio bélico de outra figura, igualmente heróica, da história da realeza na Ática: Íon, a quem os atenienses convocaram para comandar suas tropas naquele empreendimento guerreiro.57 E as tradições que memorizaram mais especialmente este auxílio de poder beligerante externo contam os fatos por outras valorizações respeitantes às virtudes da realeza.

compor a tragédia Íon enquadrando-a pelos cânones narrativos do mito de herói Pela tópica das memórias narrativas que motivam a composição do Íon, o discurso euripidiano promove imaginário de representação trágica que reitera a ideologia celebradora da identidade jônia de Atenas. como figuração do poder

Pelas motivações mithistóricas que ativam a figuração etiológica da identidade jônia de Atenas ateniense compostas pelo Íon de Eurípides, a ativação do padrão heróico de representação do poder régio



por elas identifficadas. ordenação atestada entre os egípcios no que respeita em seus cursos ministrados na década de 1970 propôs uma interpretação da época arcaica da História da Grécia Antiga singularmente original e inovadora, tanto a qualificá-la como uma leitura heterodoxa.


1 Eurípides, Íon 83- 87, 184-217.

2 Eurípides, Íon 78-82 e 102-183.

3 Eurípides, Íon: 34-52, 77-80, 102-151, 308-325, 684.

4 Eurípides, Íon 238-247.

5 Eurípides, Íon 253-254.

6 Eurípides, Íon: 65-67 e 513.

7 Eurípides, Íon 289-361 e 494-509.

8 Eurípides, Íon 409.

9 Eurípides, Íon 470-471.

10 Eurípides, Íon 91-93.

11 Eurípides, Íon 516-562.

12 Eurípides, Íon 662-663.

13 Eurípides, Íon 25-27.

14 Confira-se: Poética 16.

15 Owen [Euripides, 2003: xvii].

16 Já referido pelos comentários de Owen [Euripides, 2003: 17].

17 Eurípides, Íon 735-1047.

18 Eurípides, Íon 985-1061 e 1111-1229.

19 Eurípides, Íon 1553-1570.

20 Eurípides, Íon 1575-1594.

21 Eurípides, Íon 290. Os teores desses dilemas e impasses comparecem na tragédia de Eurípides conformando sua trama ideológica:

22 Apolodoro, Biblioteca 1.7.2-3; Pausanias VII.1.2; Hesíodo, Catálogo das Mulheres 4. Confira-se: Strabo, Geography VIII.7.1, p. 383.

23 Heródoto, Histórias VII.44.2 e 94.

24 "Pois o deus dará a Xuto, quando ele entrar neste templo, o seu próprio filho: dirá que nasceu dele, de modo a que, entrando em casa da mãe, o filho seja reconhecido por Creúsa, o casamento com Lóxias permaneça secreto e o rapaz fique com o que lhe é devido" (Eurípides, Íon 69-73)

25 Eurípides, Íon 75-76.

26 Eurípides, Íon: 57-65, 289-298.

27 Apontamentos anotados na aula de 1 de abril de 1975.

28 Atestadas em Mileto, Delos, Teos e Cízico (How e Wells, Heródoto V.66; CAH 1954 v. III: 576 e 584).

29 Heródoto, Histórias V.66.

30 Plutarco, Sólon 23.4.

31 Strabo, Geography VIII.7.3, p. 383.

32 Platão, Timeu 24 e Crítias 110).

33 O longo desenvolvimento dos sete prágrafos que que agora se seguem vai entre aspas a assinalar a transcrição dos dizeres de Paulo Pereira de Castro registrados em nossos apontamentos de aula (1 de abril de 1975).

34 "Gennetai: outrora, anteriormente à organização tribal instituída por Clístenes, o povo ateniense estava segmentado em lavradores e artesãos. E havia quatro tribos, e cada uma das tribos compunha-se de três partes chamadas fatrias e trítias; cada uma destas congregava trinta famílias, e cada família possuia trinta homens que tinham sido dispostos para as famílias e eram chamados gennetai. Era dentre as famílias que se sorteavam os sacerdotes correspondentes, como é o caso dos Eumólpidas, dos Cérices e dos Eteobutadas. Assim o relata Aristóteles na Athenaíon Politeía afirmando: eles estavam repartidos em quatro tribos a imitar as estações do ano, e cada uma das triibos estava dividida em três partes a fim de que resultassem no todo doze partes, à semelhança dos meses do ano, as quais eram chamadas fatrias e trítias. Em cada fatria estavam dispostas trinta famílias, à semelhhança dos dias do mês, e a família possuia trinta homens" (Athenaíon Politeía fr 3: Aristótes, 1995: 135-137)

35 "Separa os guerreiros por tribos, por fratrias, Agamêmnon, para que a fratria ajude a fratria, e a tribo a tribo" (Ilíada, II.360-368).

36 " não tem fratria, nem lei, aquele que ama a guerra intestina capaz de gelar de pavor" (Homero, Ilíada IX.63-64).

37 "Em segundo sobreveio a instituição da polemarquia, por causa de alguns basileuus mostrarem-se delicados para os afazeres guerreiros (por isso mesmo, em uma necessidade premente, recorreram a Íon) (Athenaíon Politeía III.2: Aristóteles, 1995: 19).

38 "Apolo Patroos (Ancestral), o Pítio. Constitui uma das denminações do deus, o qual tem ainda muitas outras. Os atenienses reverenciam em comum Apolo Patroos desde Íon, pois foii quando do seu estabelecimento na Ática, como afirma Aristóteles, que os atenienses foram chammados de jônios e deram a Apolo o epíteto de Ancestral" (Athenaíon Politeía fr. 1: Aristóteles, 1995: 19).

39 Pollux, VIII.109.

40 Ramsay (1920: 197-202).

41 Aristóteles, Athenaíon Politeía XLI.2.

42 Isócrates, Panegírico, IV.66-70; Panatenaico, XII.188-198; Platão, Menexeno, 239b; [Demóstenes], Epitáfio, LX.6-8. Confiram-se os comentários de Parker (Myths ... , p. 204)

43 Homero, Ilíada, II.547-9; Eurípides, Íon, 20-6; 267-74; 999-1005; 1427-9 ((verificar))

44 Parker, Myths ..., p. 193.

45 Apolodoro, Biblioteca, III.14.6 ((verificar))

46 Parker, Myths ..., p. 194.

47 Apolodoro, Biblioteca, III.15. ((Mármore Pário, 28ss; Eusébio, Crônica; Higino, Fábula 48; Ovídio, Metamorfoses, VI.675))

48 Tucídides, A Guerra dos Peloponésios e Atenienses, II.15; Apolodoro, Biblioteca, III.15; Pausânias, Descrição da Grécia, I.5; I.27; IX.9.

49 Panatenaico, 193.

50 Para a estimativa de datação e conjecturas de reconstituição do presumível enredo trágico dessa peça perdida de Eurípides, veja-se Parker, Myths ..., pp. 202-3).

51 Eurípides, Íon, 275-8; Licurgo, Contra Leócrates, 98-101; Plutarco, Moralia, 310d; Apolodoro, Biblioteca, III.15.

52 Pausânias, Descrição da Grécia, I.27; Apolodoro, Biblioteca, III.15.

53 Pausânias, Descrição da GréciaI.5. Uma outra tradição, também registrada por Pausânias (Descrição da Grécia, II.14), afirma que a guerra entre Atenas e Elêusis, antes mesmo de ser efetivamente travada no campo de combate, terminara por um tratado, não deixando claro se, entretanto, concluído após o duelo entre Erecteu e Imarado.

54 Eurípides, Íon, 281-2; Apolodoro, Biblioteca, III.15.

55 Hesíquio, s.v. Erechtheús; [Plutarco], Vida dos Dez Oradores, Licurgo, 30. ((verificar))

56 Burkert, Homo Necans, pp. 143-9. ((verificar))

57 Pausânias, Descrição da Grécia, I.31; II.14; VII.5
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