Paulo Sérgio Barboza do Rozário1



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Humiliores Urbanos e o Cristianismo na

Antigüidade Tardia

Paulo Sérgio Barboza do Rozário1

O presente trabalho tem como objetivo fazer algumas considerações acerca dos grupos populares urbanos da cidade de Roma, também conhecidos, mais popularmente por humiliores ou plebe urbana. E por outro lado, procurar entender qual a relação que ao longo do IV século o cristianismo estabelecerá com este grupo social, com o propósto de cristianizá-lo. Uma vez que será neste século que o cristianismo se tornou a religião oficial do Baixo Império.


1 - Humiliores Urbanos ou plebe urbana.

primeiro ponto a ser destacado, refere-se a complexidade de conceituar esse grupo social. Sabemos que eles constituíam as várias camadas populacionais do mundo tardo romano, sobretudo no IV século. Alguns os vêem como uma grande massa populacional, Incluindo os homens livres porém pobres, os camponeses, os escravos e os estrangeiros ( ALFÖLDY, 1989: 199).

Outros baseados em fontes textuais mencionam apenas a palavra povo (FUNARI, 1995: 24-26). Isto nos leva a uma outra reflexão, como definir o que é ser povo no Baixo Império, uma vez que ... “o povo”, (...) compunha um grupo muito variado, dividido por estratificação econômica, culturais, profissionais e sexo ( SHARPE, 1992: 43).

Contudo, podemos inferir que eram trabalhadores que desempenhavam todo e qualquer tipo de função, principalmente o papel de produtores (...) de bens materiais (TEJA, 1997: 117).

Queremos ressaltar, que no decorrer do processo de cristianização dos humiliores urbanos ou a plebe urbana, esta passará a ser conhecida e chamada pelos bispos por plebs Chisti principalmente por Ambrósio (ROPS, 1988: 565).
2 - Santo Ambrósio.

É sintomático que no IV século, apareça presente na história, principalmente na história da igreja, a figura de um membro da aristocracia de Roma, mas que se consagra a Deus, sagrando-se bispo da cidade de Milão, este homem é Ambrósio.

Ambrósio passa a ser visto e conhecido como um fervoroso defensor do cristianismo, propagador de sua doutrina e principalmente um defensor e acolhedor dos humilior (os humildes), dos mais pobres. A ele se atribui termos como: “pai dos pobres”, “conselheiro de imperadores e humildes”.

Basta ver a indgnação de Ambrósio, perante a desigualdade social, que no IV século, aumenta cada vez mais o fosso entre ricos e pobres. Onde as tensões sociais eram assim muito forte, e muitos contemporâneos exprimiam com clareza os contrastes entre os pobres e ricos. Ambrósio perguntava, indignado:“Quem entre os ricos não se esforça por expulsar o pobre da sua pequena propriedade, expulsar o necessitado do bocado de terra que herdou?... Os pobres são assassinado todos os dias” (De Nab; I) (AMBRÓSIO Apud ALFÖLDY, 1989: 223).

Contudo, temos também o outro lado da personalidade de Ambrósio, sua cultura clássica, admirador fervoroso de Virgílio, aluno perfeito de Cícero, nunca pensou em renegar os seus mestres, depois de se ter tornado uma das primeiras figuras do cristianismo. Orador maravilhoso, cujos escritos ainda hoje deixam perceber a moção interior e a chama que os animava, nunca entregou a outros o cuidado de exercer o magistério da palavra, que desde sempre pertenceu aos bispos, e não cessou de instruir o seu povo sobre inúmeros pontos do dogma, da exegese, da moral e da sociologia. Escritor, Padre e Doutor da Igreja, realizou uma obra em que certamente nem tudo tem o mesmo valor, em que se nota, por vezes, o sermão reaproveitado, mais da sua predileção, como a virgindade, os sacramentos e os salmos de Bíblia. Excelente administrador, deu à sua sé, na Itália do Norte, e mesmo fora dela, em direção aos Alpes e ao Ilírico, uma autoridade cujo prestígio a diocese de Milão conservou até os nossos dias. Pai de todos os fiéis, compreensivo para com todas as misérias dos corpos e das almas, foi verdadeiramente aquele que Santo Agostinho viria a pintar “cercado de tal forma pela multidão dos pobres que era difícil chegar junto dele” (ROPS, 1988: 565-566).

Além desses aspectos que demonstram a personalidade e a psicologia de Ambrósio, ele aparece ainda como conselheiro dos pobres, assim como dos imperadores, (...), era o homem que queria ver todos bens. Era o fascínio sempre novo a irradiar-se sobre todos. Era a intuição que abria caminho para o essencial. Era o Pastor e homem público que se inspirava na Palavra de Deus e a aplicava ao dia a dia (ARNS, 198l: 8-9).

O nosso estudo se centrará na figura deste bispo para o processo de cristianização dos humildes, principalmente por termos como ponto de partida, todas essas características que compõem a personalidade de Ambrósio, pois sabemos que o mesmo se utilizou de mecanismos criados pela igreja para propagar e divulgar o cristianismo no seio destes grupos sociais  dentre os mecanismos criados pela igreja, um se torna de especial relevância para o nosso estudo, é o uso da prática do sincretimo religioso  , que não era algo singular da igreja mas foi absolvido pela mesma e bastante utilizado no propósito de cristianização dos grupos sociais. Para podermos entender melhor o que queremos dizer, vejamos um exemplo.

Havia uma crença na Antigüidade Tardia, da existência de divindades aladas, mensageiras entre os homens e uma outra divindade suprema, à esta divindade inferior cabia levar os pedidos e os desejos das pessoas à divindade superior. Ambrósio ataca esta crença, dizendo que essas divindades não passam de figuras demoníacas enganadoras das vontades das pessoas, com esse discurso ele substitui tais demônios, por figuras celestiais, por anjos, com isso propaga no Baixo Império, a incentivação e o entusiasmo pelo culto dos anjos. Vejamos o que ele diz:


“ Os anjos são órgãos da execução da vontade salvífica de Deus. Entre os anjos e os homens existe parentesco espiritual. Os anjos pertencem à cidade de Deus (domicilii caelestis habitaculum; ep. 76,12)”. (AMBRÓSIO Apud ALTANER e STUIBER, 1988: 386).
Se considerarmos o que disse Santo Agostinho sobre a existência de uma cidade eterna, uma cidade celestial. Nada mais justo que os anjos, juntamente com as divindades cristãs, fossem os moradores desta cidade e levassem para lá os pedidos e desejos dos grupos populacionais do Baixo Império na esperança que seriam atendidos.

3 – Cristianismo e humiliores urbanos.

Como já mencionamos, no processo de cristianização dos humiliores urbanos, foi necessário por parte da igreja criar mecanismos com o esforço para fundir, amalgamar, justapor, fazer adaptação e paralelismo, entre a cultura deste grupo social e a doutrina cristã. Para isso, ela se utiliza do fenômeno sincretismo religioso, além de uma série de mecanismos ideológicos; aproveitando-se de uma nova atmosfera mental, ou seja, de uma nova mentalidade que paira sobre a sociedade tardo romana, onde alguns elementos como: o sobrenatural e os ardis demoníacos são forças invisíveis mas presente no dia a dia dos homens deste mundo; e o providencialismo divino age na própria história.

Outros elementos também nos ajudam a compreender como o cristianismo chegou até os humiliores urbanos, um deles foi o simples fato de o cristianismo ser uma religião eminentemente urbana, propagando-se primeiramente nestes grandes centros, imbuída por uma rusticidade e simplicidade lingüística tornando-se assim, um veículo de expansão e aceitação no seio deste grupo social.

Enquanto religião, o cristianismo inseri-se num contexto sociocultural da sociedade tardo antiga romana, e no que tange à religião Clifford Geertz (1989) nos diz:
“Seu poder consiste em sua mensagem especial e surpreendente e na direção que essa revelação dá à vida. As perspectivas que ela abre e os mistérios que propõe, criam um novo mundo em que viver; e um mundo em que viver  quer esperemos ou não usufruí-lo totalmente  é justamente o que desejamos ao adotarmos uma religião” (SANTAYNA Apud GEERTZ, 1989: 101).
É sintomático que o cristianismo no IV século através dos seus mecanismos de conversão e da mensagem evangélica, consegue criar este novo mundo, pelo menos ao nível do mental e porque não dizer, em algumas instâncias do material, sejam elas nas instituições políticas e administrativas. Causando inclusive nos homens daquela sociedade a renovação dos valores humanos.

Segundo Rops (1988), não era novidade alguma para um fiel do IV século, a certeza de ser “homem novo”. Para ele, a renovação dos valores humanos produzia duas conseqüências: por um lado, no seu domínio próprio, a Igreja toma medidas e funda instituições que correspondem às exigências do homem renovado; por outro, exerce uma influência sobre a sociedade civil  o que ela já começara a fazer muito antes de ter triunfado  e, à medida que sua área se funde com o próprio Império, tende a impregnar dos seus princípios toda a vida coletiva. E assim se prepara um mundo novo, fundado sobre que o antigo desconhecia.

Por outro lado, autores como Giordano Oronzo (1983) e Mircea Eliade (1992), nos dizem que o cristianismo procurou contruir seus espaços sobre um terreno já ocupado pelas crenças que não poderiam atribuir-se a influência de novas crenças, isto por não se difundirem graças a uma autoridade individual, sem que formassem parte da herança do passado. Uma nova religião, por conseguinte, só pode atrair fiéis se se apoia nos instintos e nas características religiosas já presentes entre os homens aos que se dirige, e não pode chegar até eles se não tem em conta as formas tradicionais em que manifesta o sentimento religioso, ou se não fala uma língua que podem compreender os homens, habituados à formas mais antigas (SMITH Apud GIORDANO, 1983: 14).

Numa outra abordagem, Eliade (1992:133) nos diz que: “... o único meio de compreender um universo mental alheio é situar-se dentro dele, no seu próprio centro, para alcançar, a partir daí, todos os valores que esse universo comanda”.

Essas afirmações são de fundamental importância para a realização do nosso estudo, pois elas nos apontam o caminho a ser percorrido no processo de cristianização dos humiliores urbanos por parte da igreja. A igreja se utiliza da prática do sincretismo religioso para cristianizar os elementos da herança cultural e os símbolos da religiosidade popular que pudessem ser unidos à doutrina cristã, em outros termos a superposição desses valores e símbolos romanos por outros considerados cristãos, revelando assim a cristianização dos mesmos.

Em suma, o processo de cristianização dos humiliores urbanos da sociedade tardo antiga romana é sem dúvida um fenômeno multifacetado, que exige uma (s) resposta(s) que compreenda e explique sua complexidade. No estudo destas questões é necessário recorrermos a toda e qualquer espécie de documentação capaz de auxiliar-nos nesta investigação.



BIBLIOGRAFIA

ALFÖLDY, Géza. A história social de Roma. Lisboa, 1989.


ARNS, P. E. Os sacramentos e os mistérios. Petrópolis: Vozes, 1981.
ELIADE, Mircea. O sagrado e o profano. A essência das religiões. São Paulo: Martins Fontes, 1992.
FUNARI, A. P. P. Roma vida pública e vida privada. São Paulo: Atual, 1995.
GEERTZ, C. A interpretação das culturas. Rio de Janeiro: Guanabara, 1989.
GIORDANO, O. Religiosidade popular en la alta edad media. Madrid: Gredos, 1983.
ROPS, D. A igreja dos apóstolos e dos mártires. São Paulo: Quadrante, 1988.

SHARPE, J. A história vista de baixo. In: BURKE, Peter (org.). A escrita da história: novas perspectivas. São Paulo: UNESP, 1992. P. 40-62.


TEJA, R . Honestiores y humiliores en el brajo imperio: hacia la configuracion en clases sociales de una division juridica. Memorias de historia antiga, Oviedo, p. 115-117.



1 Professor substituto de história na UFES. Especialista em História Social - UFES



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