PE. carlos coppex



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CAPÍTULO 3
PE. CARLOS COPPEX
Vice-Provincial 1942 - 1947

Pe. Coppex nasceu em Vouvry, Cantão de Valais, Suiça, em janeiro de 1879. Entrou na Companhia de Jesus em Portugal porque desejava ser missionário em Moçambique. Fez estudos teólogos em Múrcia, Espanha, devido à Revolução Portuguesa de 1910. E em Múrcia, se ordenou sacerdote em 1912. Foi Reitor do Noviciado em Oya, Espanha, de 1921 a 1927 e de 1927 a 1931, Sócio do Mestre de Noviços, Pe. José Aparício, que depois iria ser o Vice-Provincial Setentrional, também. Foi designado como o primeiro Mestre de Noviços em Baturité, em 1932, pelo Pe. Mendes por causa de sua experiência com noviços, naquele momento, no seu segundo provincialato em Portugal, .(1) É fascinante como as carreiras destes três Jesuítas, Mendes, Coppex e Aparício se entrelaçaram tanto em Portugal como no Brasil

Como Mestre de Noviços Coppex construiu juntamente com os noviços caminhos como aquele que ligava o prédio principal da Escola, subindo uns três quilômetros, ao Sítio Caridade. Energético, caridoso e duro, três adjetivos que descrevem bem este Jesuíta suíço que orientava noviços até 27 de março de 1942 quando lhe foi confiado o cargo de

Vice- Provincial. Anos mais tarde, quando era Superior da Residência em Fortaleza, no fim dos anos 1950, confidenciou que se tivesse de começar de novo o cargo de Mestre, mudaria seu método, porque entendia melhor a psicologia brasileira.(2) Quando Coppex assumiu a sua nova missão como Vice-Provincial, indicou Mendes como Mestre de Noviços em Baturité, porém, Mendes não exerceu esse cargo por muito tempo, falecendo em dezembro de 1943.



SALVADOR

Os ataques dos submarinos nazistas afundarem oito navios brasileiros no Atlântico Sul durante os meses de maio, junho e julho de 1942 matando vinte e seis pessoas. O pior, porém, aconteceu nos três dias de agosto, 15, 16 e 17, quando os submarinhos alemães destruíram cinco navios brasileiros, a quarenta quilômetros da litoral da Bahia e Sergipe, matando mais de 600 brasileiros.(3) Brasil reagiu, declarando guerra contra a Alemanha e a Itália em 22 de agosto de 1942. Os efeitos desse terrível conflito influenciaram tudo no Brasil, incluindo os três primeiros anos do provincialato de Coppex. Sinal disso, foi quando o Colégio Vieira, como outras instituições de ensino, rezava pelos falecidos desses afundamentos navais numa celebração eucarística no fim de agosto de 1942.(4)

Com a entrada do Brasil na guerra contra a Alemanha, Salvador recebeu marinheiros da Inglaterra e há um interessante encontro entre o músico Pe. Luis Gonzaga Mariz com um jovem marinheiro inglês. Mariz, português, chegou em Salvador em 1932. Professor de inglês, trabalhava com as Congregações Marianas e iniciou um grupo de músicos que seria a futura Orquestra Sinfônica da Bahia em 1944. (ACAV. Carta ânua do Colégio da Bahia, 1944.) Ganhou prestígio pelas suas atividades musicais e foi homenageado no concerto dado no Gabinete Português de Leitura em 1947.(5) Foi também diretor da Confederação de Associações Católicas da Bahia.(6) Em reconhecimento das suas atividades musicais a Câmara Municipal lhe conferiu o título de “Cidadão de Honra de Salvador”.(7)

Um dia, em janeiro de 1943, Mariz, observando os marinheiros ingleses na Rua Chile entrou na loja “Casa da Música”. No ar estavam “os acordes nostálgicos dum noturno de Chopin”. Foi ver mais de perto e descobriu um jovem marinheiro inglês de 18 anos tocando um piano suavemente. Puxou conversa e logo estavam conversando sobre os autores então em voga como Villa-Lobos, Nepomuceno e o baiano Deolindo Fróis. O jovem comprou algumas músicas indicadas pelo Jesuíta que o convidou a visitar o Colégio Vieira. A amizade estava feita. O mais interessante é que esse marinheiro cujo nome foi Leslie H. Dives escreveu uma carta a Mariz cuja parte principal traduzida é a seguinte:

Querido Padre Luiz Gonzaga Mariz:

Senti imenso não poder despedir-me novamente de si no seu

magnífico Colégio. Infelizmente os marinheiros, a bordo, não fazem

o que querem.

No dia seguinte partimos.

Quero contudo significar-lhe tive imenso prazer em conhecê-lo

e alguns dos seus alunos, que fizeram quanto era possível para

me conquistar a amizade e simpatia.

Não é fácil dizer-lhe quanto tudo isto me sensibilizou.

A sua gentileza e a de seus alunos, ficará gravada na minha

memória como uma das mais gratas recordações da minha vida.

Nunca poderei esquecer o entusiasmo com que fez o possível

para me dar a impressão --- tão grata --- de que eu estava em minha

casa e na minha pátria!

Eu bem sei que a Bahia conquistou a amizade dos meus

companheiros de bordo. Todos sentimos abandonar essa bela cidade,

e éramos concordes em afirmar que em nenhuma parte deparamos

com gente tão acolhedora e amável.

Eu desejo voltar à Bahia, terminada a guerra, para a conhecer

ainda melhor.

Se este meu desejo for frustado, eu sempre recordarei com

gratidão e saudade a maravilhosa visita à maravilhosa Bahia ...

E ainda hoje me pergunto como é possível preparar comidas

tão saborosos, como os que a sua gentileza me deu a saborear no jantar

oferecido no Colégio.

Ficar-lhe-ia tão grato se me dissesse que pratos eram esses, e

como se confeccionam.

Certamente eram pratos genuinamente brasileiros, porque eram

Deliciosos e suaves.

Uma vez mais, muito e muito obrigado, pela grande honra e

Prazer que me concedeu com o seu convite e recepção transbordantes de

Gentileza e generosidade.

Deus esteja consigo.

Leslie H. Dives(8)

Durante o provincialato de Coppex, o alunado do Colégio Vieira cresceu um pouco cada ano. De 443 alunos em 1942 a 550 em 1948. Em 1942, o / Pe. Antônio Monteiro da Cruz conseguiu reduzir a divida do Colégio com a Sociedade Financeira “Lar Brasileiro” para 1.300.000 $ com a taxa mensal de 12,645 $ por 20 anos. Esta medida ajudou, também, a “Arca Seminarii” da qual saiam os pagamentos.(9)

Em 1947 o Colégio celebrava o 30º aniversário das aparições da N. Sra. de Fátima. O então jovem jesuíta, Antônio Martins, mais tarde um grande divulgador da devoção de N. Sra. de Fátima, coordenou as festividades que terminaram com uma Eucaristia presidida pelo Arcebispo da Bahia, Dom Augusto Álvaro da Silva. No último dia dessas festividades, o Governador Otávio Mangabeira da Bahia leu a fórmula de consagração a N. Sra. de Fátima.(10).

Depois de uma longa doença, o benemérito Pe. Luís Gonzaga Cabral faleceu em janeiro de 1939. A Congregação Mariana Acadêmica (CMA) que, nos anos 1930, estava muita associada a Gonzaga, encontrou outro mas não menos capacitado diretor em Camilo Torrend em 1938. Nos fins de 1939, Torrend mudou a CMA de seu Pensionado temporário das casas do velho colégio Vieira na Piedade para um de cinco andares localizado no bairro da Vitória.(11) Além disso, Torrend, por uma série de circunstâncias fortuitas, conseguiu um terreno em Mar Grande (Ilha de Itaparica.) no outro lado da baía de Todos os Santos. Começou assim uma Congregação Mariana Feminina na pequena povoação Gamboa de Mar Grande. Torrend fez amizade com o proprietário da casa do Cel. Emílio Costa Lima onde se hospedou. Lima se interessou pelas atividades da Congregação e informou-lhe que tinha um terreno à venda, medindo “70 metros de frente para o mar e 3 quilômetros de fundo”. Torrend logo sonhou nele uma casa de retiros. Esse projeto visava um prédio de 30 quartos. Em pouco tempo, graças à generosidade de amigos da Congregação Mariana como João Martins do Maranhão e Hélio Guerzenstein e Manuel Joaquim de Carvalho, comprou o terreno e início a construção contemplada.(12) Em seis meses, construiu 12 quartos e uma infra-estrutura e assim começou a funcionar a “Vila Manresa”, uma hora distante da cidade de Salvador. Contando agora com a “Vila Manresa" e o prédio no bairro de Vitória, a CMA se renovou rapidamente.(13)

Além de suas atividades com a CMA, Pe. Torrend também trabalhava na Escola de Agronomia da Bahia, ensinando as matérias de Botânica e de Fitopatologia. A Escola, porém, se mudou para o interior do Estado e não querendo deslocar-se “fez valer os seus direitos à aposentadoria, por ter atingido o limite de idade, 68 anos, e ser brasileiro naturalizado.”(14) O Secretário da Agricultura, P. Campos Porto deu um encômio a ele em julho de 1943 no qual dizia:

Lamento a perda que o seu afastamento representa, embora deva

emitir minha satisfação por firmar um ato que proporciona justo

prémio a quem vem servindo a ciência com tanto devotamento, como

naturalista interessado na investigação da natureza brasileira,

realizando excursões pelo interior do País.(15)

Em março de 1946, Pe. Coppex mandou uma carta circular., lembrando à VPS uma promessa feita a São José cujo teor foi a seguinte:

Quando o Brasil entrou na guerra, prometi a S. José que nas

três grandes casas de V. Prov. se celebraria uma missa cantada, com

com sermão, e nas Residências uma missa rezada e na forma que os

os Superiores melhor entendessem, como testemunho de gratidão ao Santo, se as três casas supramencionadas pudessem funcionar

normalmente durante esse período de perturbação.(16)

E visto que as três casas(Colégios Viera e Nóbrega e a Escola Apostólica) sobreviveram às dificuldades, puderam cumprir a promessa feita. Esta carta é importante porque Coppex poucas vezes escreveu sobre os tempos difíceis durante a Segunda Guerra Mundial.

Há poucas referências à pequena mas histórica residência de Santo Antônio da Barra. Além de ser o ecônomo da VPS, Pe. Aloísio Gonzaga Baecher foi o superior desta casa de três pessoas. No seu “Memorial” de 1944 Coppex chamou-lhes a atenção para a condição do telhado da Igreja, aconselhando-lhes que o mesmo fosse concertado antes “que suceda alguma desgraça”.(17)

RECIFE


Em nosso estudo surgiu a questão: porque a Faculdade Manoel da Nóbrega surgiu no Recife em pleno Estado Novo? Vamos sugerir uma resposta. Recife tem uma tradição intelectual e desde o período colonial até sua supressão nos territórios portugueses em 1759, os Jesuítas fizeram parte dela. Quando a Companhia voltou a funcionar em 1814, o mundo cultural era outra. Tanto na Europa como no Brasil, as idéias iluministas ganharam ascendência. Recife iria sentir essa influência na pessoa de Dom José Joaquim da Cunha de Azeredo Coutinho, reformador do Seminário de Olinda. Mesmo sendo breve sua passagem por Pernambuco (1798-1802), Azevedo Coutinho, interessado tanto nos assuntos econômicos como educacionais, criou um ambiente que ajudou a formação de muitos Sacerdotes cuja participação significativa na Revolução de 1817 iria dar à mesma o nome de “Revolução dos Padres”. Duvidamos que Azeredo Coutinho iria aprovar as atividades de seus alunos, mas o movimento iniciado por ele fazia parte da formação da "massa crítica" para criar os Cursos Jurídicos em 1927. Inicialmente, funcionava no Mosteiro de São Bento, em Olinda, mudando-se depois para o Recife em 1864 com o nome de Faculdade de Direito do Recife.(18) Além de criar um ambiente favorável a uma tradição intelectual, a Faculdade formou muitas pessoas influentes no pensamento católico em Pernambuco e algumas destas seriam professores na Faculdade Manuel da Nóbrega.

Outra influência recifense, no século XIX, foi o ultramontanismo dos Bispos Dom Emanuel do Rego de Medeiros, Dom Francisco Cardozo Aires e Dom Vital Maria Gonçalves de Oliveira. Esses enfrentaram o regalismo imperial do Dom Pedro II. Os ultramontanistas, frustrados pelas tentativas sem sucesso de formar um “Partido Católico”, conseguiram definir suas aspirações no Primeiro Congresso Católico no Recife em 1902. Uma figura expressiva deste grupo foi Carlos Alberto de Menezes conhecido pelas suas idéias sindicalistas que criaram a Federação Operária Cristã no início do século XX.(19)

Uma outra influência mais recente foi os trabalhos do então Pe. João Batista Portocarrero Costa mais tarde Bispo de Mossoró. Pe. Costa deu um grande impulso à “Ação Católica” em Pernambuco. Formado em Roma onde tomou conhecimento das atividades da “Ação Católica”, conseguiu introduzir e fortalecer a mesma inicialmente no Recife, na Igreja Matriz de São José e, mais tarde em outras cidades pernambucanas.(20) Nesta Igreja, Costa ajudou na fundação de uma filial da União dos Moços Católicos (UMC) que já existia em Belo Horizonte desde 1915, e esperava que o grupo repetisse o que os jovens italianos de Livorno fizeram.(21) A UMC ofereceu não somente atividades religiosas, mas também cursos de francês e inglês e de filosofia e apologética. Esta atividade atraiu pessoas como o jovem Ruy de Ayres Bello que seria político e educador mais tarde.(22) Em 1931, Costa foi nomeado professor de Filosofia e Diretor Espiritual do Seminário Arquidiocesano.(23) Bom pregador, deu retiros, baseado nos Exercícios Espirituais de Santo Inácio. Neste trabalho, Costa teve a boa fortuna de trabalhar com as Noelistas, grupo feminino sediado no Colégio do Coração Eucarístico no Recife. Fundadas na França pelo Pe. Cláudio Allez, em 1896, as Noelistas chegaram ao Recife, em 1914, através de Felipa Uchoa Cavalcanti que, depois do falecimento do seu marido, viajou com um de seus irmãos e família para a França. Em Paris, tomou conhecimento das Noelistas. De volta ao Recife e com a aprovação do Arcebispo Dom Luiz Raimundo da Silva Brito, iniciou o núcleo de Noelistas.(24) Da colaboração de Costa e as Noelistas surgiu, em 1932, no Colégio São José, o primeiro grupo da Juventude Feminina Católica (JFC) no Brasil.(25)

A JFC usava a divisa “Fides intrépida” e seguiu “o método de ação das organizações da “Ação Católica”: ‘oração, ação, sacrifício,” conceitos promulgados por Pio XI.(26) As Noelistas animaram bastante a JFC que oferecia um curso de cultura feminina. Depois de um ano de atividade, a JFC fundou a revista mensal, “Para o Alto” que divulgava sua mensagem. Foi nesta revista, em 1934, que a JFC homenageou as Dorotéias no Primeiro Centenário de sua Fundação.(27) Com tanto sucesso, a carreira de Costa seria cada vez mais ligada ao movimento católico feminino. Três anos mais tarde, em 1936, Dom Miguel de Lima Valverde o escolheu como Assistente Eclesiástico da Junta de Ação Católica da Arquidiocese.(28)

A Congregação Mariana da Mocidade Acadêmica (CMMA) dirigida por Pe. Fernandes seria outra influência especificamente jesuítas. Fernandes atraiu homens, na sua maioria jovens profissionais católicos, interessados nos assuntos intelectuais. Não é surpreendente que muitos destes tenham participado, como alunos da Faculdade de Direto do Recife no anos 1930, da Ação Universitária Católica (AUC). Sofreram as conseqüências da revolução de 1930 e estavam ansiosos pelo futuro do Brasil. O tema do ensino de religião nas escolas públicas em caráter facultativo os motivou bastante. E não somente alunos mas alguns professores da Faculdade como Antônio Vicente de Andrade Bezerra e Francisco Rodrigues Barreto Campelo.(29) Fernandes conseguir atrair alguns membros da UMC também para entrar na CMMA como Ruy Bello e Luiz Maria de Sousa Delgado que seria uma das primeiras pessoas a introduzir o pensamento de Jacques Maritain em Pernambuco. A CMMA ofereceu aulas de filosofia e sociologia ministrada por seus próprios membros mais capacitados. Para dar suporte na atuação acadêmica, Fernandes criou e manteve uma biblioteca atualizada e variada para os seus membros e outros interessados. Começou a biblioteca em 1929 e em 1938 tinha 3.650 livros, todos encadernados e 156 títulos de jornais e revistas em armários de vidro. A biblioteca estava num prédio atrás do Colégio Nóbrega e foi considerada uma das melhores do Recife.(30)

Fernandes trabalhava para o bom funcionamento da CMMA e sustentava atividades para oferecer a seus membros, como estudos de religião, filosofia e sociologia e temas afins. Desejava formar intelectuais católicos para enfrentar a influência dos comunistas, considerados por ele, “materialistas”, mas cuja competência acadêmica estava atraindo jovens católicos. Os resultados deste projeto lhe agradaram como ele mesmo disse em 1938:

É verdade que os livros e revistas da biblioteca da Congregação não são utilizados pelos

sócios tanto quanto podiam ser. Mas para quem conheceu, antigamente, a apatia dos nossos estudantes pelos estudos sérios de filosofia, apologética, religião, sociologia....só há motivo para admiração à vista do progresso que se tem feito nesse sentido. O resultado dessa transformação tem se feito sentir muito na vida e mentalidade dos estudantes e dos intelectuais católicos.

Os livros da biblioteca da Congregação têm prestado, além disso, imenso serviço para o estudo de questões ocasionais, . p. ex., para se escrever algum, artigo, responder a algum ataque nos jornais, fazer conferências, preparar círculos de estudos na Congregação Mariana, sabatina e exames nas Faculdades, trabalhos nos Congressos Eucarísticos, a defesa dos postulados católicos na Assembléia Legislativa, campanha conta o comunismo e contra a incrível idéia da celebração do centenário nassaviano....

Com auxilio desta última os acadêmicos saíram-se brilhantemente nas sabatina e exames, nas Faculdades, e mesmo nas disputas com os professores. Na biografia do Dr. João Temporal já foi notado que os excepcionais progressos que fez nos estudos químicos, deveu-os, em grande parte, aos estudos constantes da Enciclopédia Espasa.(31)


Ainda há dois outros fatos que indicam que os Jesuítas estavam interessados em abrir uma faculdade. Os dois aconteceram no fim do provincialato de Mendes. Parece que outros notaram que os Jesuítas estavam interessados numa faculdade e o Pe. Bruno Teixeira, Secretário de Educação do Ceará pediu a Mendes para que os Jesuítas assumissem a diretoria da Faculdade de Filosofia de Fortaleza. Mendes não aceitou porque naquele momento seria a única faculdade católica na cidade e, por isso, tinha que ser uma faculdade mista, algo que Mendes não estava a favor.(32) Se Mendes não estava tão disposto para aceitar a proposta de Teixeira, pensava diferente quando à faculdade ser no Recife.

No último ano do provincialato, Mendes indagou aos consultores sobre a “conveniência da fundação da faculdade de filosofia em vez do curso complementar chamado 'Pré'” no Colégio Nóbrega.(33) Os consultores decidiram estudar o assunto, pedindo a Mendes para escrever ao Provincial do Brasil Central, Pe. Luiz Riou e ao Pe. João Miranda, Reitor do Colégio Nóbrega. Devido à situação difícil durante a Segunda Guerra Mundial, Ledochowski deu poderes de Visitador ao Pe. Riou para todo o Brasil.(34) Por causa disso, além das reuniões anuais, em setembro no Rio de Janeiro, dos Provinciais do Centro, do Sul, e o Vice-Provincial do Nordeste, coordenadas por Riou, ele atuava como superior dos Jesuítas do Brasil, dando-lhes orientação.(35). Sabemos que Riou, influenciado pela hierarquia e animado pelas fundações de várias faculdades católicas no Rio de Janeiro, estava interessado no assunto, porém não encontramos nem a sua resposta a Mendes nem a de Miranda. Apesar de todo esse interesse na faculdade, foram as Dorotéias que fundaram a primeira faculdade católica no Nordeste a qual vamos focalizar.



EDUCAÇÃO SUPERIOR

A abertura de uma instituição de ensino superior dependia da autorização do governo. Antes de 1930, a Igreja Católica lutava muito para ganhar espaço a nível nacional, sempre desejando reaver a posição considerada privilegiada durante o Império mas cortada pela República Velha. A existência da Igreja durante o Império não foi tão gloriosa como o Cardeal Leme descreveu. Se Leme não conseguiu a união entre a Igreja e o Estado, conseguiu muitas outras reivindicações católicas como registramos antes.

Francisco Campos, ideólogo de Vargas e redator principal da Constituição de 1937, queria não somente manter as revindicações da Igreja, já incorporadas na Constituição de 1934, mas desejava que a Igreja fosse um meio excelente para dar credibilidade ao regime ditatorial do Estado Novo.(36) Em 1934 Gustavo Capanema assumiu a pasta de Ministro de Educação, cargo que iria exercer por onze anos. Seguiu a orientação de Campos mas não foi ideólogo como ele. Apesar da influência dos líderes do movimento da Escola Nova como Fernando de Azevedo, um dos primeiros a introduzir o pensamento de Émile Durkheim no Brasil, e Anísio Teixeira, o primeiro tradutor de Jmuito influenciado por John Dewey no Brasil,, no Rio de Janeiro e em São Paulo, Alceu Amoroso Lima, homem de testa do Cardeal Leme no Ministério de Educação e assessor de Campanema, este não permitiu que a Escola Nova tivesse uma influência determinante no Ministério.

O grupo da Escola Nova defendia uma educação para todos, oferecido pelo governo, favorecendo as ciências e uma cidadania responsável enquanto os católicos favoreceram uma educação mais clássica e humanista para as escolas particulares e confessionais. Teixeira ainda favorecia uma cidadania numa cultura democrática, algo impensável no totalitarismo de Vargas e que só teria vez depois da Segunda Guerra Mundial e o fim do Estado Novo.

Entretanto Campanena mantinha contato com o grupo da Escola Nova não somente por correspondência mas com Manoel Bergstörm Lourenço Filho, grande expoente da Escola Nova que trabalhava no Ministério de Educação numa Seção onde o então Pe. Hélder Câmara, estava como funcionário graças a intermediação de Leme.(37) Mesmo fazendo parte do Ministério de Educação, Lima percebia as limitações de participação com o governo de Vargas. Numa carta de 1932 escrita a Mário Casassanta um colaborador de Campos, Lima indicou a incoerência deste projeto. O historiador Simon Schwartzman explica:

A importância desta carta é que ela já define, desde o início, os termos nos quais a Igreja, na perspectiva de Alceu Amoroso Lima, via a colaboração com o novo regime e com o projeto político de Francisco Campos. Havia identidade de pontos de vista quanto à falência do regime liberal, e também concordância, evidentemente, quanto à importância dos valores religiosos como fundamento ideológico para a consolidação moral do país. Mas havia, também, uma divergência profunda. Apesar de considerar “útil” a orientação fascista do movimento iniciado por Campos, Alceu deixa clara sua divergência profunda com um dos princípios básicos do fascismo e do pensamento político de Francisco Campos, que é a crença na supremacia da ação e da vontade sobre o uso da razão. Pensador católico, Alceu Amoroso Lima não se afasta da idéia clássica de que é possível estabelecer uma ordem social de base moral erigida de acordo com os princípios da filosofia racional, cujas conclusões coincidirão, necessariamente, com as verdade reveladas da religião cristã. É esta racionalidade que permitiria sair do relativismo, do ceticismo, da falta de critério. É ela que permitiria substituir a debilidade de princípios que Alceu via no liberalismo democrático por uma ordem social fundada em princípios cristãos bem definidos. Para Francisco Campos, no entanto, os princípios cristãos pareciam ser, principalmente, um instrumento de mobilização política, e não um valor em si. Isto talvez explique por que, apesar da aproximação inicial, o relacionamento da Igreja Católica com o tipo de política preconizado por Francisco Campos jamais se tenha consumado completamente.(38)



FACULDADE DE FILOSOFIA DO RECIFE

Com a mudança política em 1930, o número de cursos de ensino superior ministrados pelos grupos religiosos iriam aumentar como a Faculdade de Ciências Políticas e Econômicas dos Maristas em Porto Alegre, em 1933, a Faculdade de Estudos Econômicos dos Salesianos em São Paulo, em 1939. Em 1941, o Jesuíta Pe. Roberto Saboia de Medeiros, iniciou a Escola Superior de Administração de Negócios "Pandiá Calógera."(39) Apesar destas instituições, a tendência mais forte entre os grupos católicos seria a fundação das Faculdades de Filosofia, Ciências e Letras pelas Congregações femininas. Houve razões para oferecer educação de nível superior para mulheres, incluindo membros de congregações religiosas, mas também, visavam a formações para professores da educação secundária como seria aquela das Dorotéias no Recife.(40)

As Dorotéias iniciaram o processo para abrir o Instituto Superior de Pedagogia Ciências e Letras "Paula Franssinetti", em novembro de 1939, com o Ministro de Educação Gustavo Capanema. Levaram mais de um ano para inaugurar não mais o Instituto mas a Faculdade de Filosofia do Recife em março de 1941. Como fizeram isso? Já sabemos que o ambiente político era favorável mas como foi a situação local para este empreendimento? A Provincial das Dorotéias no Brasil era Madre Enrichetta Cesari, mulher de grande visão e responsável pelas iniciativas de fundar uma instituição de ensino superior no Recife. Italiana, no Brasil desde 1922 e ciente das correntes educacionais e aspirações tanto de Pio XI como dos bispados brasileiros, decidiu construir, em 1936, um pensionato para algumas das suas correligionárias a fim de estudar no Instituto "Sedes Sapientiae", instituição iniciada em 1932 pelas Cônegas Regulares de Santo Agostinho em São Paulo. Mandou três jovens Dorotéias para lá em 1937 para fazer cursos de Bacharelado e Licenciatura a fim de trabalhar no Recife.(41) Tudo indica que Madre Cesari já previa que o governo iria legislar sobre a necessidade de uma titulação universitária para exercer a profissão de professor colegial. E assim aconteceu em 1939. Mas, por que Madre Cesari estava preparando estas jovens para um futuro instituto superior no Recife? Além de saber que o Arcebispo do Recife, Dom Miguel de Lima Valverde, desejava uma faculdade, houve outras razões. Infelizmente, a documentação que nós dispomos, não as revela especificamente. Entretanto, sabendo do ambiente católico do Recife nos anos 1930, vamos apresentar algumas.

O trabalho de Pe. Costa com a “Ação Católica”, principalmente com a Juventude Feminina Católica (JFC) e as Noelistas nos levam a sugerir que houvessem razões adicionais para Madre Cesari considerar as boas possibilidades de que uma vez preparadas as jovens Dorotéias com titulação adequada, o futuro instituto teria alunas para freqüentá-lo. Tudo isso nos leva a crer que não foi simplesmente uma coincidência de que a sede da Juventude Feminina Católica (JFC) no Colégio São José, localizado em frente do Colégio do Coração Eucarístico no outro lado do Caminho Novo que hoje é a Avenida Conde de Boa Vista, tenha ajudado, em parte, no surgimento da Faculdade de Filosofia do Recife em março de 1941.(42) Devemos recordar que as Noelistas tinham muitas atividades catequéticas e muito intercâmbio com a JFC. Fundada por Pe.Costa, líder da "Ação Católica" no Nordeste, a JFC foi uma das primeiras federações femininas católicas fundadas no Brasil. Essa dinâmica criada por Pe. Costa, com a FFC, as Doretéias e as Noelistas, ao nosso ver, criou um ambiente favorável para fundar uma faculdade no Recife onde não existia o ensino universitário católico para mulheres no Nordeste.(43)

Modelada pela Faculdade Nacional de Filosofia da Universidade do Rio de Janeiro, a Faculdade de Filosofia do Recife começou em março de 1941.(44) A Faculdade Nacional de Filosofia foi criada seguindo aquela de São Paulo mas pautada pelo “controle doutrinário da Igreja Católica”. Alceu Amoroso Lima foi convidado para ser o primeiro diretor mas recusou o convite.(45) José Maria de Albuquerque Melo, representante do Interventor Agamenon Magalhães, presidiu a Sessão Inaugural.(46) Melo, conhecido membro da CMMA de Pe. Fernandes, foi uma outra indicação de como o ambiente católico recifense foi diversificado, mas coerente em promover a educação universitária superior e confessional no Recife. No seu discurso inaugural, a diretora Madre Julieta Dale, R. S. D., querendo destacar a importância do momento, colocou a nova Faculdade de Filosofia do Recife entre as outras Faculdades e Institutos do Recife. A lista é significante: a Faculdade de Direito do Recife, a Escola de Engenharia, as Faculdades de Medicina, de Farmácia e de Odontologia, a Escola Superior de Agricultura, e a Escola de Belas Artes.(47)

A nova Faculdade ofereceu os cursos de filosofia, matemática, geografia e história, letras clássicas, letras neolatina, letras anglo-germânicas.(48) O início da Faculdade de Filosofia do Recife, a primeira faculdade católica no Nordeste é ainda mais impressionante levando em consideração que a cultura existente não facilitava nem civil nem religiosa.



FACULDADE DE FILOSOFIA , CIÊNCIA E LETRAS “MANUEL DA NÓBREGA”

A inauguração da Faculdade das Dorotéias estimulou ainda mais os Jesuítas que já estavam considerando fundar outra. Certas questões, porém, tinham que ser solucionadas. A primeira foi financeira. A VPS tinha débitos com outras províncias devido aos gastos para manter os jovens Jesuítas em formação. A “Arca Seminarii” ( Fundo de Formação) da VPS gerou somente 13 contos de Reis em 1942, e a VPS dependia da contribuição, principalmente dos Colégios que, em 1942, forneciam 94 contos de Reis. Em 1942, a VPS tinha 18 jovens estudando filosofia em Novo Friburgo, RJ, e 8, teologia, em São Leopoldo, RS.(49) Os dois Colégios, Nóbrega e Antônio Vieira fizeram contribuições para manter a “Arca Seminarii” assim como as residências. Mesmo assim, existia déficit em 1942 de 28 contos dos Reis.(50)

O Pe. João Miranda, Reitor do Colégio Nóbrega, era da opinião de que seria necessário construir instalações para a Faculdade. Mas a situação econômica da VPS não o permitiu. O tesoureiro da VPS, Pe. Luís Gonzaga Baecher, aconselhou que uma solução seria aproveitar as instalações já existentes do Colégio Nóbrega durante a noite.(51) Essa opinião prevaleceu. O segundo obstáculo foi a questão de oferecer aulas para moços e moças ou somente moços?

A consulta de 3 de março de 1943 tratou dessa e doutras questões: 1) seria mista a nova Faculdade, 2) a relação entre o diretor da faculdade e o reitor da residência, 3) quem seria o seu diretor. Eram quatro consultores. Em relação ao numero 1, os quatro consultores eram da opinião de que a Faculdade não deveria ser mista. A faculdade das Dorotéias pesou muito dessa decisão. O raciocínio de um consultar é esclarecedor:

O R. P. Cândido Mendes quando Provincial, com os Consultores da Prov. somente no Recife consentira tratar-se de alcançar a Faculdade, porque aí havendo já Faculdade similar para o sexo feminino nas Dorotéias, poderiam restringir a nossa Faculdade para o sexo masculino.

Tanto é assim que o mesmo P. Prov. Cândido Mendes se negou ao Pe. Bruno Teixeira, Secretário da Instrução do Ceará, a aceitar a Diretoria da Faculdade de filosofia de Fortaleza, porque como única tinha de admitir ambos os sexos.(52)

As opiniões dos consultores sobre a questão do relacionamento entre o diretor da faculdade e o reitor da residência e quem seria o diretor, motivaram Coppex a consultar Riou que respondeu numa carta, de 9 de abril de 1943:

Normas para as relações entre o Reitor da Faculdade de Filosofia e o Reitor do Colégio Nóbrega. Julgo que poderiam ser idênticas às que assentamos aqui enter o Reitor das Faculdades Católicas e o Reitor do Colégio Stº. Inácio, visto como as circunstâncias são mais ou menos as mesas, e que aqui deram ótimo resultado. São simplicíssimas:

1) Em tudo o que se refere à disciplina regular e religiosa, o Reitor das Faculdades Católicas, os Padres Professores, os Irmãos auxiliares que nelas trabalham estão sujeitos e dependem do Reitor do Colégio Stº. Inácio. Há uma só comunidade religiosa, cujo superior regular e responsável é o Reitor do Colégio S. Inácio.

2) O Reitor das Faculdades Católicas goza da autonomia, direitos e privilégios que o Instituto outorga aos Reitores, no que diz respeito a administração e regimento interno das Faculdades, com subordinação imediata ao provincial, como o Reitor de qualquer outro Colégio. Na comunidade tem a precedência sobre os outros sacerdotes, vindo logo após o Reitor do Colégio.

3) Os Padres Professores das Faculdades, 'qua tales', e os Irmãos auxiliares, dependem do Reitor das Faculdades.

A administração temporal, contrato com professores e escolha dos mesmo, admissão de alunos, etc. etc., tudo corre por conta e sob a responsabilidade do Reitor das Faculdades, o qual tem plena, autonomia, dependendo do Provincial e não do Reitor do Colégio. A experiência de dois anos tem comprovada eficiência destas normas simples e provisórias até que as Faculdades Católicas tenham a sua sede própria e se constituam em comunidade distinta. Julgo que, em princípio, estas normas poderiam adaptar-se aí às relações ‘entre o Reitor do Nóbrega e o Reitor ou Diretor da Faculdade de Filosofia. Na prática porém, ‘intuitu personae’, e supondo que o Diretor não mereça toda a confiança ou não esteja a altura desse cargo de responsabilidade, V. R. poderia dar-lhe reservadamente instruções particulares, obrigando-o a recorrer, nos casos que V. R. determinar e julgar convenientes, ao Reitor do Colégio Nóbrega, e acatar o parecer do mesmo [.....]

Quanto à nomeação do P. Abranches, português, falei com o P. Franca, o qual me disse que no Conselho, quando se tratou da aprovação da Faculdade, alguns conselheiros estranharam e fizeram algumas dificuldades sobre a nacionalidade do Diretor. Com efeito, seria preferível que fosse um brasileiro nato. Talvez o P. Bragança levasse bem a obra. Compreendo a dificuldade de V. R. em lhe dar um substituto como Sub-diretor do Colégio . Compreendo outrossim que tanto a um como a outro faltam certos requisitos para o exercício do cargo, e com os seus modos muito pessoais podem dar que fazer aos Superiores.(53)

Os Jesuítas receberam uma carta do Ministro da Educação Gustavo Capanema autorizando a nova Faculdade de Filosofia, Ciência e Letras “Manoel da Nóbrega”, em 19 de março de 1943, e um mês depois, foi inaugurada em 18 de abril, numa cerimônia presidida pelo Prefeito do Recife, Antônio Novais.(54) Apenas dois anos depois da fundação da Faculdade das Dorotéias, a palavra “Ciências” no seu título, é sugestivo de que a influência da Escola Nova estava aumentando no Ministério da Educação. Sabemos que Alceu Amoroso Lima não estava feliz com a fundação da Faculdade de Filosofia da Universidade Nacional de Rio de Janeiro e teve reservas em ser o seu diretor. Além disso, os católicos estudavam as possibilidades de fundar sua própria Universidade no Rio de Janeiro.(55) Em todo caso, o titulo foi apropriado, visto que a nova Faculdade iria oferecer entre outros cursos, os de Matemática, Física, Química e História Natural.(56)

A Faculdade começou com 89 alunos e 45 professores.(57) O número de alunos diminuiu em 1944, para 37 alunos devido ao fato que os 43 alunos da Congregação Marista não se matricularam.(58) O diretor da faculdade, Pe. Abranches, estava convencido de que ela só seria viável com um alunado misto e, no segundo semestre de 1944, Coppex pediu opiniões não somente a seus consultores mas também, aos Padres dos Colégios Vieira e Nóbrega sobre esta questão. A decisão levou algum tempo para sair e foi muito sofrida porque os Jesuítas não estavam querendo dificultar a vida da Faculdade das Dorotéias. Coppex resumiu os resultados das consultas e as enviou para os outros dois provinciais Jesuítas em sua reunião anual no Rio de Janeiro onde conversou pessoalmente com Pe. Riou. Depois Pe. Coppex fez a seguinte notação:

P.S. Depois de falar com o R. P. Visitador (Pe. Riou), com mais conhecimento de causa, vejo que a única dificuldade seria a da Faculdade das Irs. Dorotéias. Haveria certamente conveniências de continuarmos com ela. Se desistíssemos dela, não é juízo temerário pensar que ou os Irs. Maristas ou outra entidade procurariam tê-la e a poriam mista para poder viver. Na Bahia, os Irs. Maristas estão preparando as bases para uma Faculdade e já falaram ao Sr. Arcebispo Primaz para que fosse mista, que só assim poderia viver. Aqui as Ursulinas (no Rio de janeiro) disseram-me que têm 200 alunos e que esse número não permite desenvolvimento folgado.(59)


Pouco depois Pe. Coppex recebeu uma carta do Assistente Geral dos Irmãos Maristas, Ir. D. Afonso, oferecendo-lhe uma explicação para a ausência dos Maristas na Faculdade Nóbrega e algumas sugestões. Ir. Afonso disse que os alunos Maristas não se matricularam devido à incompatibilidade de horários entre as atividades dos Irmãos e as horas das aulas da Faculdade. Sabendo que os seus colegas Maristas tinham que conseguir titulação adequada para continuar seus trabalhos nos colégios e tendo medo que a Faculdade Nóbrega não iria resistir, evidenciado pelo número reduzido dos alunos em 1944, sugeria aos Jesuítas que eles pudessem assumir uma seção “em tudo ou em parte” da Faculdade Nóbrega para eles. Faltando esta, Ir. Afono opinou que os Maristas iriam fundar uma Faculdade em Fortaleza.(60) Coppex levou o assunto de novo ao Pe. Riou cuja resposta foi taxativa:

[.....]a Vice Província deve fazer qualquer sacrifício para conservar e levar adiante a Faculdade Nóbrega, e para isso empregar todos os meios ao seu alcance, abrindo as portas da Faculdade a moças e convencerão de que se a Companhia deixasse a Faculdade, e a isso deveria chegar se não admitisse alunos dos dois sexos, os Maristas ou outros a tomariam com esta nova modalidade. Mantenhamos a Faculdade Nóbrega, deixando aos Maristas a liberdade que lhes assiste de abrirem outra no Ceará.(61)

A decisão foi tomada e alguns meses depois, Coppex escreveu uma carta a Ledochowski, explicando a situação. Nela, Coppex ainda acrescentou outro fato para explicar o reduzido número de alunos em 1944, que foi a entrada na guerra contra a Alemanha e a Itália em agosto de 1942, impedindo assim vários jovens de possivelmente, estudarem na faculdade. A decisão de tornar o alunado da Faculdade Nóbrega misto, implicava, segundo Coppex, uma construção ou aquisição dum prédio para receber as alunas.(62)

Abranches, também, tinha que assegurar o reconhecimento definitivo da faculdade. Enviou o material necessário ao Ministro da Educação Capanema, pedindo ao Pe. Leonel Franca, SJ, para acompanhar o processo. Em 2 de maio de 1946, o Decreto 21.044 reconheceu os cursos de Filosofia, Química, Matemática, Geografia e História, Letras Neo-Latina. Os outros cursos de Física, Didática e Letras Anglo-Germânica, receberam o seu reconhecimento oficial em 25 de junho de 1948 pelo Decreto 25.129.(63)

Levou tempo para resolver a questão do prédio para a expansão da faculdade. Entretanto, a Faculdade Nóbrega começou o ano letivo com 80 moços, 19 mais do que em 1945, e mais importante, 11 moças, fazendo um total de 91 estudantes.(64) Também, o Pe. Bragança substituiu Pe. Abranches como Diretor da Faculdade em 1946. Durante o provincialato de Coppex que continuou até a 1948, a Faculdade Nóbrega teve em 1947, 144 alunos ( 113 homens, 21 mulheres), em 1948, 130 (103 homens, 27 mulheres).(65)

Por causa da situação financeira da VPS uma construção nova seria impossível, porém, o prédio da Associação Desportiva Acadêmica (ADA) da CMMA podia ser uma solução temporária. A ADA surgiu porque os jovens acadêmicas queriam um lugar próprio para atividades esportistas. Em 1929, Torrend, sempre um entusiasta para alimentação e atividades por uma vida saudável, pregou um retiro na Vila Nóbrega em Boa Viagem e lançou a idéia de uma associação esportiva. A idéia contagiou outros e Fernandes, Barreto Campelo e Andrade Bezerra sugeriram que o prédio e terreno que o Colégio Nóbrega tinha na Rua Dom João Perdigão seria um ótimo lugar para isso. O Pe. Domingos Gomes, Diretor do Colégio Nóbrega, agradou a todos em aceitar o projeto. Desta maneira a ADA conseguiu um prédio e terreno onde inaugurou um corte cimentado para tênis e basquete, uma área para voleibol e outra área para atletismo.(66) E em 1946 este complexo da ADA chamou a atenção a Bragança como solução temporária para uma faculdade necessitando espaço.

Bragança lidava com uma outra razão para conseguir espaço para a faculdade devido ao Decreto Lei nº 9.053 de 12 de março de 1946, legislando que todas as Faculdades de Filosofia no Brasil “ficam obrigadas a manter um ginásio de aplicação destinado à prática docente dos alunos matriculados no curso de didática”.(67) Neste momento Bragança não estava apressado porque o Art. 12º do Decreto só exigia o funcionamento do o ginásio logo que a Faculdade tivesse alunos matriculados no curso de didática. Isto só iria acontecer em 1950.(68)

Bragança, frustrado pelo fato de que a faculdade não conseguiu obter outro prédio durante os dois anos, enquanto a mesma estava funcionando à noite nas instalações do Colégio Nóbrega, ofereceu argumentos ao Vice- Provincial, visando a compra do terreno da ADA em julho de 1946. Listou 14. O básico, porém, foi a necessidade de espaço para que a faculdade pudesse desenvolver suas atividades. Outro que pesou foi a aproximação do terreno e as vantagens óbvias. E não sem importância foram os pareceres favoráveis de Riou e Coppex.(69) Junta a estes argumentos veio a proposta da compra oferecida ao Colégio Nóbrega. O valor foi de quatrocentos mil cruzeiros. O terreno era mais valioso, mas Bragança alegou que a transação era entre a mesma Companhia de Jesus.(70) O Colégio Nóbrega era a dono do terreno mas Fernandes era a pessoa mais afetivamente ligada à ADA. O próprio Fernandes, mesmo com sua saúde debilitada, iria falecer em dezembro de 1946, deu a sua opinião a Bragança.

Fernandes começou dizendo que: “Em 1º lugar devo notar que temos sempre procedido como homens de pouca visão.”(71) Considerava que devemos comprar o “Ateneu Pernambuco” ao lado da ADA visto que no futuro sempre haveria a oportunidade de adquirir ou usar o terreno da ADA.(72) Parece que esta opinião predominou visto que a compra da ADA não foi feita. Somente dois anos mais tarde, em 7 agosto de 1948, apenas 8 dias antes do fim do provincialato de Pe. Coppex, a Faculdade firmou um “acordo” com o Colégio estipulando os termos do “uso e uso-fruto do terreno da ADA”.(73)

O historiador Newton Darwim de Andrade Cabral nos informou de que, apenas com dois anos de funcionamento, a Faculdade Nóbrega já estava sendo cogitada para fazer parte da futura Universidade do Recife. Cita correspondências entre Antonieta Magalhães, esposa de Agamenon Magalhães, Etelvino Lins, Senador da Constituinte de 1946 e Novais Filho, Pex-preffeito do Recife com Pe. Bragança.(74) Bragança ficou surpreso quando no governo de Artur da Silva Bernardes, saiu um decreto, criando a Faculdade Estadual de Filosofia. Pensou que essa seria agregada à futura Universidade do Recife.(75) Mas o projeto permaneceu no papel. Para atender a legislação em criar a Universidade do Recife, em agosto de 1946, o Diretor da Faculdade de Direto do Recife, Joaquim Ignácio de Almeida Amazonas que seria o futuro Reitor da Universidade do Recife, agregou varias escolas e três faculdades, uma das quais foi a das Dorotéias. Esta escolha não agradou a Bragança.(76)

Itamar de Abreu Vasconcelos, ex-aluno-fundador da Faculdade Nóbrega, revelou que Amazonas, nos tempos de aluno da Faculdade de Direito do Recife, levou à memória dos seus professores a descrição de que os Jesuítas eram ultramontanistas ou assim suspeitos.(77) Duvidamos que Amazonas tivesse reservas contra os Jesuítas visto que tinha netos estudando no Colégio Nóbrega.(78) Seria difícil acreditar que Amazonas (Amazonas tinha netos que estudaram por alguns meses no Colégio Nóbrega. Um entrou na Companhia de Jesus, Pe. João Augusto Anchieta Amazonas Mac Dowell mais tarde foi ex-reitor da PUC Rio de Janeiro e .......... que foi ...........................)

Se Bragança guardava tristezas por causa da escolha, uma notícia no ano

seguinte -- de que o Dr. Luiz Gonzaga Soares, Diretor Faculdade de Ciências Econômicas que funcionava no Ateneu Pernambuco estava disposto de “[.....] entregar aos Jesuítas o título do estabelecimento, independente de qualquer indenização com a simples condição de ele ficar como catedrático de Matemática” -- foi um remédio mais de que adequado.(79) De repente Bragança estava pensando no futuro para uma universidade a qual colocou o nome de Universidade Católica Livre do Norte.(80) O que antes parecia um sonho para pessoas como Fernandes se tornou uma possibilidade real e animou Bragança. Além destes acontecimentos favoráveis, a Faculdade Nóbrega registrou 133 estudantes em 1947 e 130 em 1948.(81) Há uma nota solta na pasta para a Faculdade Nóbrega, indicando em pormenores os estudantes de 1948: Padres Jesuítas, 10, Beneditinos, 4, Padres do Sagrado Coração 11, Irmãos Maristas 8, Religiosas 4, Rapazes 74, Moças 22 fazendo um total de 133. Também, a Faculdade. de Comércio e Economia de Pernambuco tinha 28 alunos.

REVISTA

Bragança desejava iniciar uma revista em 1947 mas não conseguiu, e numa carta a Coppex, em dezembro, expressava sua frustração. Disse que a Faculdade Nóbrega iria celebrar o seu quinto aniversário e seria apropriado lançar a revista em abril de 1948.(82) O nome seria “Verdade e Vida”, saindo quarto vezes por ano, seguindo os padrões de “Verbum” revista da Faculdade de Filosofia em Portugal. O primeiro número trouxe uma explicação de seu título “Verdade e Vida” e sua finalidade:

Titulo e lema que resumem um programa e um ideal – o próprio

ideal humano – que é, quando bem vivido, buscar a verdade para servir

melhor à vida [.....]

Levar verdade às inteligências é dar-lhes normas seguras de

moralidade que se firmem não no contigente vai-e-vem das tendências

humanas, mas em Deus, como norma última e na consciência humana

como norma próxima.

Levar a verdade às inteligências significa, sobretudo, pautar a

prática de nosso labor por normas certas de bem pensar e de bem agir,

de forma que não haja dissociação entre o nosso pensamento e a nossa ação.

Será este o objetivo de nossa revista.(83)





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